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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Ago21

As charges libertárias de Jota Camelo

Talis Andrade

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Victor Barone entrevista Jota Camelo

 

Um breve perfil profissional. Como você começou, por onde passou e onde está agora?

Comecei a fazer charges políticas no final de 2015, um ano antes do golpe de 2016. Nessa época, já percebia que a direita se organizava para derrubar o governo eleito democraticamente. Já percebia que um golpe de Estado seria o único recurso que a direita tinha para impor à população o projeto neoliberal derrotado nas urnas.

Com a forte polarização política que surgiu nessa época, decidi fazer charges diárias e permitir que qualquer veículo de comunicação as publicasse de graça. Por isso, criei uma conta no apoia.se para que eu pudesse me dedicar ao ativismo político, produzir charges diariamente e disponibilizá-las a todos que se interessassem em publicá-las.

 

Se inspirou em algum chargista?

Como comecei a estudar Artes Plásticas muito cedo, sempre tive um enorme interesse por qualquer tipo de arte visual, e a arte da charge sempre me interessou pela sua capacidade de síntese e de impacto. Admiro muitos chargistas, mas quando conheci o trabalho do Angeli, fiquei fortemente impressionado com a beleza do traço, com os personagens, com os temas escolhidos, com a composição do desenho, e principalmente com sua ousadia e sua maneira de ver a realidade. Considero o Angeli o maior cartunista ou chargista que o Brasil já teve. Ele é o Pelé da charge. E como todo jogador de futebol tem os mil gols como meta em sua carreira, eu tenho o Angeli como inspiração.

 

Qual o papel da charge em um jornalismo preocupado com a construção de uma sociedade mais plural?

Que me desculpem os/as grandes jornalistas, mas a charge tem um impacto muito mais forte do que mil discursos e análises. Isso porque o impacto visual de uma boa charge, ou uma boa fotografia, ou um bom quadro, atinge diretamente o sentimento humano. A arte em geral, seja a música, as artes visuais, o teatro, o cinema, o humor, tem uma força que convencimento e elucidação muito maior do que mil análises.

Talvez seja por isso que a imprensa em geral tem muito cuidado em publicar charges políticas. Muitos jornais as evitam completamente, pois sabem do impacto que elas têm. E quando publicam, são coisas muito amenas e bem comportadas.

Mas, toda vez que a imprensa decide apontar seus canhões contra um certo político ou um certo governo, contratam um bom chargista. E esse foi o caso do então presidente americano Richard Nixon e o chargista do The Post, Herblock. Dizem que Nixon tinha mais medo das charges de Herblock do que dos editoriais do The Post.

Ainda acho a imprensa brasileira muito tímida e até medrosa nesse aspecto. Enquanto a revista conservadora The New Yorker publica mais de 16 chargistas por edição, grandes jornais brasileiros publicam uma charge escondidinha lá no meio do jornal.

Ainda acho que a relutância da imprensa brasileira em dar ênfase aos chargistas tem dois motivos: falta de pessoal especializado que saiba escolher o que publicar, e receio do caráter explosivo e ácido que uma boa charge pode ter.

 

A charge é uma ferramenta carregada de “posicionamentos” que levam o leitor a refletir sobre determinado tema. Concorda com esta afirmação?

Sim, concordo, e vou além: todas as pessoas têm um posicionamento. Não existe neutralidade, ou imparcialidade, principalmente no jornalismo, pois ideologia é como sotaque: todos acham que não têm, mas têm. Por isso, não consigo imaginar um chargista sem posicionamento.

Todo tipo de arte leva as pessoas à reflexão, principalmente pelo seu caracter simbólico. No caso da charge, idéias às vezes muito complexas têm que ser apresentadas em apenas um quadro, ou em poucos quadros, o que faz da charge uma arte que exige muito poder de síntese. E essa síntese é conseguida pelo uso de símbolos, ou se quiser, metáforas visuais: um labirinto representa um problema difícil; uma ilha representa isolamento; um jogo de xadrez representa luta, e por aí vai.

A charge também usa recursos situacionais: qual seria a conversa entre dois bolsonaristas gays? O que Bolsonaro diz ao Moro quando ninguém está escutando? O que um pastor diria ao outro quando descobrem que morreram e foram parar no inferno? E por aí vai.

 

Como o “mito” da imparcialidade se coloca para a charge? É possível ser “imparcial” diante do fascismo, do totalitarismo, do preconceito por exemplo?

Como expliquei na pergunta anterior, não existe imparcialidade. Nem no jornalismo, nem na charge. Dizer-se imparcial diante do fascismo é o mesmo que validá-lo. Como diz um ditado alemão: se há dez pessoas numa mesa, e um nazista chega e toma assento, e ninguém se levanta em protesto, então há onze nazistas numa mesa.

No Brasil, criou-se o mito de que a notícia é imparcial, de que existem analistas imparciais. No entanto, o que temos visto na mídia burguesa (que jura ser imparcial) é um festival de ataques diários à esquerda, e uma predisposição para ocultar fatos indesejáveis, manipular e até mesmo mentir descaradamente. Isso acontece porque a grande imprensa não é nada mais do que a porta-voz da burguesia, e existe apenas para defender os interesses dessa classe. Nada mais que isso.

Acho uma bizarrice sem tamanho dizer-se chargista político imparcial. Política é luta de classes, e a luta de classes é como um jogo de futebol: seria surreal imaginar um jogador imparcial, que numa partida não se preocupa em saber de que lado deve marcar o gol. Por isso, me intitulo como "chargista de esquerda" para que todos saibam de que lado estou jogando.

 

Qual o papel das redes sociais na disseminação da charge?

As redes sociais, e a Internet em geral, mesmo sendo monitoradas e controladas pelo imperialismo americano, são importantíssimas para a democracia popular. Não só os chargistas podem mostrar seus trabalhos que jamais seriam aceitos pela mídia tradicional, mas também jornalistas independentes podem publicar suas reportagens e análises sem o controle ideológico que teriam caso trabalhassem para a mídia tradicional.

Hoje, as redes sociais se tornaram a grande arena onde realmente se discute os problemas políticos e econômicos do Brasil. E a mídia tradicional se tornou apenas uma voz apagada e maçante que reproduz a doutrina das elites financeiras. A mídia tradicional é hoje apenas um quadro monocromático, repetitivo e venal que pouco a pouco vai perdendo a credibilidade diante da população.

Muitos reclamam da explosão de fake news nas redes sociais, e estão certos de reclamarem disso. Mas, se esquecem que a mídia tradicional, antes do advento da Internet, sempre possuiu o monopólio das fake news, sempre manipulou, e até mesmo mentiu descaradamente em momentos cruciais da política brasileira.

Logo após o golpe de 2016, também houve uma explosão de charges nas redes sociais. Charges que tentavam esclarecer o momento político pelo qual o Brasil passava. Charges que jamais seriam publicadas pela mídia tradicional, mídia essa que estava intimamente ligada aos interesses golpistas. E como a charge tem um apelo popular muito forte, muitas delas ajudaram a quebrar o discurso hegemônico da mídia golpista.

 

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19
Ago21

Charges críticas de Gilmar despertam a esperança em um futuro melhor

Talis Andrade

Gilmar Machado no Twitter
 
Quase 85 milhões de pessoas no Brasil convivem, no mínimo, com a incerteza sobre o acesso a comida.Image
Carne, gasolina, luz... Tem muita gente assustada com os preços de itens básicos, que seguem crescendo. Enquanto isso, o presidente genocida segue em campanha eleitoral achando que vai se reeleger.
 
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Alexandre Garcia e Augusto Nunes. Não é burrice ou transtorno mental, é preço e cumplicidade.
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Val Gomes entrevista Gilmar Machado

O cartunista/chargista Gilmar Machado Barbosa acredita na força da arte, aliada à comunicação social, para fazer com que os leitores reflitam mais sobre a realidade e exerçam sua cidadania em busca dos direitos e da liberdade. Nesta entrevista à Rádio Peão Brasil, Gilmar fala também da necessidade de organização da categoria e da valorização dos cartuns e charges. “Não é hobby, é um trabalho que precisa ser respeitado e bem remunerado”.

 

Val Gomes Rádio Peão Brasil – O cenário atual para a classe trabalhadora e o movimento sindical é difícil e desafiador. Você busca em teus trabalhos refletir sobre este momento de que forma: com mais humor ou mais crítica?

Gilmar Machado – Certamente com menos humor. Se alguém rir com minhas charges recentes ficarei com um grande ponto de exclamação na cabeça. A situação é crítica, vivemos momentos de retrocesso e incertezas. Já fiz humor pelo humor. Hoje, diante da situação em que o País vive, faço charges críticas e reflexivas, retratando não só a dureza dos fatos, mas também um respiro de esperança. É o que estamos precisando no momento.

 

RPB – As entidades sindicais representativas e atuantes investem em departamentos de imprensa sindical, na produção de jornais, boletins, páginas na Internet e redes sociais. Nestes materiais, as charges, as ilustrações e os cartuns costumam tornar a leitura mais agradável. Por que este fenômeno ocorre? O que torna um desenho forte, expressivo e chamativo?

Gilmar – A charge, ilustração e a tirinha são muito objetivas e diretas pela forma gráfica. Faz uma ponte até o texto. Muitas vezes a charge por si só já passa a informação e, além disto, provoca o leitor a refletir e se indignar. É uma poderosa ferramenta de comunicação entre o Sindicato e trabalhador. O dirigente que tem esta visão e usa este trabalho certamente tem uma melhor comunicação com a sua base.

 

RPB – Além dos ataques aos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários da classe trabalhadora, há no País uma “onda” conservadora contrária aos avanços da democracia e à liberdade, inclusive artística. São realmente preocupantes estes sinais de autoritarismo e intolerância? O que devemos fazer para impedir os retrocessos?

Gilmar – Há uma artilharia pesada contra todos os avanços sociais e culturais. E as armas são estas mesmo: lutar, mobilizar e ir pra rua. Os movimentos sociais e culturais têm um papel fundamental nisto. Apesar de toda esta situação crítica, já não somos tão passivos, estamos aprendendo a ir pra rua e exigir o que nos é de direito.

 

RPB – Os chargistas e cartunistas são uma categoria unida e atuante ou precisam estar mais bem organizados?

Gilmar – É uma categoria que tem muita dificuldade de organização por conta da sua característica de trabalho muito isolada. Nosso trabalho é muito individual e solitário. Existem tentativas de organização como entidade, mas é muito frágil, sem sustentabilidade.

 

RPB – Quais as principais reivindicações de um chargista/cartunista no Brasil e em quais países a categoria está mais consolidada em direitos autorais e economicamente?

Gilmar – Eu vi muitos jornais e revistas morrerem, nossas principais fontes de trabalho. O mercado editorial impresso vive esta crise também por conta da metamorfose dos meios de comunicação. Estamos lutando para nos adequar e sobreviver às novas mídias virtuais e as reivindicações são as mesmas de sempre: reconhecimento profissional e remuneração decente. Muitos acham ainda que é um trabalho de hobby, que as imagens não têm direitos autorais, que aperta um botão e tá pronto, que porque está na Internet pode usar e alterar livremente, que apenas o crédito já é pagamento. Obviamente que na Europa, onde se tem uma valorização cultural muito maior, o trato com este tipo de profissional/artista é bem diferente.

 

RPB – Que trabalho atual teu você gostaria que os leitores vissem e por que ele é significativo?

Gilmar – Tenho explorado atualmente a figura da criança nas charges como forma de despertar a esperança e acreditarmos que um futuro melhor é possível.

Sobre Gilmar Machado

Gilmar Machado começou na imprensa sindical nos anos 1990 no Grande ABC, trabalhando nesta época para a maioria dos sindicatos. Depois migrou para a chamada “grande imprensa”, fazendo tiras diárias para o então Diário Popular. Faz charges e tiras para a Força Sindical e para o site Rádio Peão Brasil. Tem trabalhos publicados na Folha de S.Paulo, Diário de S.Paulo, Diário do Grande ABC, Jornal do Brasil, A Cidade, Tribuna de Vitória, Diário da Região, O Pasquim21, Jornal Vida Econômica de Portugal e Humor UOL e para as editoras FTD, Paulinas, Senac, Moderna, Abril e Globo.

É autor de livros de tiras/quadrinhos, entre eles: “Mistifório”, pela Editora Boitatá, com apoio cultural da Força Sindical e do Centro de Memória Sindical. Recebeu o prêmio HQ MIX de melhor cartunista brasileiro, e em 2006, conquistou o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Acompanhe o trabalho do cartunista: Blog do Gilmar  Instagram Cartunista das Cavernas

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