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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

13
Out20

Invasão zumbi na Havan

Talis Andrade

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Lola Aronovich
@lolaescreva
Muito realista. Retrato de uma das cenas mais lamentáveis q vimos na pandemia (pra quem não entendeu, é o Véio da Havan acenando pra multidão q foi à inauguração da loja em Belém atraída por disparos de Whatsapp prometendo descontos de 90%).
 

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30
Jun20

“Estigmatizar os velhos como os únicos atingidos pelo coronavírus é uma mentira que os dados no Brasil comprovam”

Talis Andrade

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II - “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice"

Julia Dolce entrevista Mirian Goldenberg

 

Você acredita que houve uma mudança no comportamento social em relação aos idosos nessa pandemia?

O que eu chamo de “velhofobia” são esses preconceitos, abusos psicológicos, estigma que os velhos sofrem desde sempre. Eu acabei de escrever um artigo dizendo que de acordo com o Disque 100, se multiplicou por cinco o abuso de idosos dentro de casa de março a maio [de 2020]. Isso, quem denuncia. Porque a maior parte não consegue denunciar por medo, por não querer falar que são os filhos que estão cometendo a violência, roubando o dinheiro da aposentadoria, destruindo os bens dos velhos.

Essa situação me apavora, porque isso já acontecia antes, e agora se agravou muito. Será que não está acontecendo um verdadeiro “velhocídio” dentro das casas? Isso do ponto de vista da violência física. Mas existe toda uma série de violências acontecendo que estamos testemunhando, horrorizadas. Discursos e comportamentos.

Acabou de ter uma autoridade dentro do Ministério da Economia que vazou um vídeo de uma mulher dizendo que vai ser bom para a Previdência ter esses velhos morrendo. E outros empresários falando “só vão morrer velhinhos doentes, vamos fazer a economia continuar”. Isso do lado mais gritante.

Mas também um monte de brincadeirinhas, memes, “velhinho teimoso”, velhinho saindo de casa, uma grande mentira, porque a maior parte dos velhos está se protegendo e cuidando não só deles mas também dos filhos e netos.

Obviamente existe, sim, uma reação bem evidente da maior parte da sociedade contra a velhofobia. Porque todos nós somos velhos, ou seremos amanhã, ou temos um velho que amamos. Então existe um horror da maior parte da sociedade em relação a esses discurso. Mas o que me preocupa é a quantidade de pessoas que realmente acredita que os velhos são descartáveis, inúteis, improdutivos e que podem morrer.

Não é uma doença de velhos, é uma doença que atinge todas as idades. Estigmatizar os velhos como os únicos atingidos por essa doença é uma mentira que os dados no Brasil comprovam diariamente. Estão morrendo velhos e doentes, mas também jovens, saudáveis e crianças.

E quem não está morrendo está sendo afetado pelo resto da vida, com sequelas, sem contar as sequelas psicológicas, da alma. Quantas pessoas não estão tendo problemas, infarto, depressão e até suicídio? Ou perdendo a vontade de viver em função dessa situação que é mundial mas que adquire contornos muito cruéis e desumanos aqui no Brasil.

 

Em uma de suas colunas, você escreveu que homens e mulheres mais velhos “já experimentam uma espécie de morte simbólica” sendo considerados “inúteis, desnecessários e invisíveis” pela sociedade. Como esse preconceito afeta os idosos e como podemos mudar essa visão?

Essa crueldade está influenciando mentalmente e emocionalmente todos os brasileiros que têm o mínimo de humanidade, sensibilidade e amor no coração. Alguém está totalmente alienado desse sofrimento e dessa crueldade?

O meu primeiro pânico e desespero era pensar no que ia acontecer com essas pessoas que eu amo tanto, todos nonagenários, saudáveis, ativos, produtivos, alegres, com projetos, e que todos os dias saíam, iam ao supermercado, ao banco, à farmácia encontrar os amigos.

O horizonte de vida delas, que são quase centenárias, não é o mesmo que o meu ou o seu. Para elas, cada dia é saboreado. Elas sabem que o horizonte delas não é tão longo.

E eu entrei em pânico pensando como eles iam viver dentro de casas, como uma prisão, ouvindo notícias, lendo e assistindo noticiários com essa carga de tragédia. E sem esperança, cada dia estão perdendo mais a esperança. Me ligam desesperados dizendo que só veem caixão, morte, me perguntando se isso vai terminar. Por que, para eles, será que vai terminar?

Acabei de ter um grande amigo meu de 97 anos que ficou 15 dias com a doença e já não tem mais o vírus, mas as sequelas físicas e emocionais são irreparáveis. Ele não tem mais vontade de viver assim como está vivendo.

Acho que é um trauma social, nossa geração vai ficar traumatizada com esse sofrimento. As pessoas falam de um “novo normal”, mas não acredito nessa possibilidade. Somos uma geração traumatizada por essa tragédia.

O que eu tenho tentado fazer é minimizar essas sequelas e esse sofrimento. Então todos os dias passo 10 horas do meu dia fazendo atividades com essas pessoas de mais de 90 anos. Eu escuto que elas estão sofrendo e busco com elas alternativas para elas passarem por tudo isso da melhor forma possível.

Não tem como não sofrer, não ter pânico, não ter depressão. Eu acho que a única saída que temos é tentar fazer alguma coisa construtiva para que as pessoas que a gente ama sobrevivam física e mentalmente. [Continua]

 

 

08
Fev20

A Economia de Francisco III

Talis Andrade

 

Por Wagner Iglecias

O Papa preside, em março, um encontro para pensar e propor um modelo econômico alternativo ao neoliberal, com bandeiras similares àquelas que anos atrás eram debatidas nas várias edições do Fórum Social Mundial.

O Catolicismo foi tomado por duas grandes surpresas em 2013. A primeira foi a renúncia do cardeal alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) ao cargo de Papa, fato que não ocorria desde 1294, quando Celestino V abdicou ao posto de mais alta autoridade da Igreja. E a segunda foi a escolha, como sucessor de Ratzinger, do cardeal argentino no Jorge Bergoglio. Seu nome causou desconfianças à esquerda e à direita.

Entre os progressistas por conta de suas relações controversas com a última ditadura argentina (1976-1983) e pela convivência tumultuada com os governos Kirchner nos anos 2000. Suspeitava-se, além disso, que a chegada do primeiro latino-americano ao cargo de Papa seria uma manobra da direita mundial para, a partir do Vaticano, travar a disputa pelos corações e mentes de centenas de milhões de pessoas na América Latina, naquele momento sob governos de esquerda em alguns de seus principais países.

À direita a escolha de Bergoglio também causou desconfiança, tanto por sua origem de jesuíta quanto pelo longo sacerdócio junto aos pobres em seu país natal, quase sempre com uma pregação voltada às questões sociais.

Uma vez no poder Bergoglio empreendeu uma política interna corajosa, partindo para o enfrentamento de interesses poderosos há muito tempo estabelecidos na Igreja. Levou a cabo o saneamento do Banco do Vaticano, há décadas envolvido em escândalos, combateu o simbolismo luxuoso da cúria romana e autorizou investigações sobre denúncias de pedofilia envolvendo a Igreja em diversos países.

Na política externa o Papa dirigiu ao mundo uma mensagem de combate à intolerância e à desigualdade, reintroduzindo no discurso católico as noções de misericórdia e acolhimento que pareciam esmaecidas nas últimas décadas.

Para este 2020 Francisco faz mais uma aposta ousada: tenta posicionar a Igreja Católica na vanguarda de um debate urgente e necessário sobre o neoliberalismo. Um modelo econômico que tem concentrado renda e riqueza em proporções inéditas na História. E, porque baseado numa cultura de consumo e descarte, tem apontado para uma trajetória de esgotamento talvez irreversível dos recursos naturais como a água, a terra e biodiversidade, comprometendo o bem-estar das futuras gerações e de todas as formas de vida existentes no planeta.

Na simbólica cidade de Assis, na Itália, onde São Francisco (1181-1826) despojou-se dos bens materiais e abraçou uma vida dedicada aos pobres e à natureza, o Papa vai presidir, em março, um encontro de jovens economistas, lideranças sociais e lideranças empresariais de todo o mundo. Os objetivos do evento são pensar e propor um modelo econômico alternativo ao atual, com uma forte mudança de paradigmas na formação de economistas e na atuação das grandes empresas. Um modelo econômico baseado no combate à pobreza e à desigualdade, na sustentabilidade ambiental e na dignidade humana. Bandeiras similares, diga-se de passagem, àquelas que anos atrás eram debatidas nas várias edições do Fórum Social Mundial e que foram enfraquecidas depois da crise de 2008 pelo consequente fortalecimento global do neoliberalismo em sua versão mais radicalmente rentista.

A tarefa de Francisco, obviamente, não é fácil. O mundo hoje é marcado não somente pelo largo emprego de instrumentos de ortodoxia econômica pelos governos, mas também pela primazia, no setor privado, dos acionistas das corporações transnacionais e dos fundos de investimento globais, a quem interessam, antes de mais nada, minimização de riscos e maximização de rentabilidade e lucros.

Mais do que isso, estamos diante de um mundo marcado pela hegemonia neoliberal também no domínio das ideias, das práticas e das aspirações, tanto de sociedades quanto de pessoas, fortemente caracterizadas pelo individualismo, pelo hedonismo e pela ostentação. Por outro lado, caminhamos para graus de desigualdade, desemprego e exclusão social alarmantes, que inclusive já colocam sob risco a própria democracia liberal. Talvez esteja ai a janela de oportunidade identificada pelo Papa.

Com o encontro de Assis, Francisco olha, a um só tempo, tanto para o mundo quanto para o Vaticano. Talvez ele enxergue, neste momento histórico, a chance de conferir um papel de protagonista à Igreja Católica, em crise após os vinte e sete anos de papado de Karol Wojtyla (João Paulo II), que desmontou o caráter social e progressista dos pontificados de João XXIII (1958-1963) e Paulo VI (1963-1978), mas não conseguiu frear a perda de fiéis para denominações cristãs mais conservadoras, como o protestantismo neopentecostal que tem crescido de maneira vigorosa na própria América Latina. Com Francisco o Catolicismo vai tentando reinventar-se neste início de século, às voltas com um mundo desigual, violento e desesperançado.

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