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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

03
Out21

Charlatanismo com dinheiro público

Talis Andrade

por Fernando Brito

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Mais documentos e mensagens comprovando que médicos estavam sendo pressionados a receitar medicação ineficaz contra Covid surgem, agora na operadora de saúde Hapvida, aquela que anuncia na TV ter “cuidados de mãe” com seus segurados.

Os médicos eram coagidos a “bater metas” de prescrição do Kit Covid, ao ponto de alguns deles terem de fingir ter receitado os produtos, retirar da farmácia dos hospitais e guardar, deixando que o paciente saísse com um receituário adequado ao que desejavam prescrever.

A reportagem está no jornal O Globo.

É, como na Prevent Senior, caso de polícia e de exclusão de suas concessões de operação pelo Governo, através da ONS.

Sim, porque este curandeirismo, esta charlatanice, é, afinal, praticado com dinheiro público, pois as despesas supostamente médicas feitas por planos de saúde, são pagas, por empresas e por pessoas, à custa de impostos que são deduzidos do valor devido.

O Diretor Corporativo de Emergências da Hapvida, Alexandre Wolkoff, encaminha aos médicos da empresa um áudio em que diz que deixa bem clara a “obrigação” da prescrição de cloroquina:

— Eu peço para vocês. A liderança de cada unidade, a diretoria médica, os regionais precisam liderar isso. A gente precisa subir a prescrição de cloroquina. Então, eu peço que vocês… não é só para Manaus, só para uma unidade ou outra, mas para todos as unidades, a gente (tem que) ter um aumento significativo da prescrição do kit Covid. Cada diretor médico da unidade é diretamente responsável por esse indicador.

O resultado das receitas era controlado por uma planilha e quem ficava “abaixo da meta” era, segundo dizem os médicos do plano, ameaçado com troca e de plantões e transferências.

Estamos diante do maior escândalo da medicina brasileira, totalmente dominada por corporações empresariais às quais a grande maioria dos profissionais não tem meios de resistir. E, pior, muito sequer desejam resistir.

Prevent expõe política da morte de Bolsonaro

 
 
18
Ago21

O Ministério Público de Augusto Aras: uma Instituição sob escombros

Talis Andrade

TRIBUNA DA INTERNET | Aras, cadê as provas de crimes da lava Jato? A  opinião pública está esperando…

 

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (Karl Marx)

 

por Marilia Lomanto Veloso /Brasil de Fato /Combate

O Ministério Público foi um “conquistador” no Texto Constitucional de 1988. Essa não é uma afirmação de “ouvir dizer”, um discurso simplesmente teórico, mas de quem participou dos debates em torno de suas atribuições a partir do arquétipo construído pelo novo Pacto Constituinte.

Desse modo, a crítica não é mera figura de retórica, mas sim a análise consciente de um perfil institucional que ainda não se afinou com o conteúdo que lhe desenhou o art. 127, quando descreve que “o Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”.

Essa perspectiva dialógica entre o Ministério Público e a sociedade, reescreveu o papel da Instituição historicamente subalternizada e “sem lugar definido” no universo dos poderes, firmando uma parceria rumo à consolidação do Estado Democrático de Direito.

A ilusão que tomava conta da categoria era de fortalecimento desses laços compostos na Constituição, em especial no modo como se dava a escolha do dirigente, feita agora por eleição entre os membros da classe, nos Estados e pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), no âmbito do Ministério Público Federal.

Antônio Augusto Brandão de Aras não disputou o processo eleitoral, não integrava a lista tríplice para a Procuradoria Geral da República, sacramentada pela ANPR, que considerou “um retrocesso institucional e democrático” a escolha do “cristão conservador”, segundo ele próprio.

Houve manifestações de insatisfação da classe, pelo modo invasivo e antagônico à metodologia assumida desde o governo Luiz Inácio Lula da Silva, de nomear quem obtivesse maioria de votos, estratégia rompida por Temer, com Raquel Dodge e no atual governo, que impôs o nome de Augusto Aras para ocupar a PGR, exercendo ali a desastrosa gestão cúmplice do funesto governo de Jair Messias Bolsonaro. E certamente será reconduzido.

Em discurso de “falso democrata”, em 2020, entrevistado por Lenio Streck, Augusto Aras sugeria “não permitir” um “aparelhamento” da Instituição, que “importa em segregação de muitos membros que não concordam com esse modo de fazer política institucional que privilegia poucos, somente aqueles que fazem parte de um determinado grupo, e ignora direitos e garantias fundamentais fora e dentro da casa.”

E ainda mais, defendendo que dados obtidos por membros do MP não podem servir a “propósitos antirrepublicanos” e que “não se pode imaginar que uma unidade institucional se faça com segredos”. É induvidoso que esqueceu (mas exercita) de pronto o significado de “aparelhamento”.

O “não fazer” o que deve ser feito, o “fazer” o que não deveria fazer de Augusto Aras tem revelado um descompasso de consequências graves que fatalizam sua biografia de pertencimento ao universo acadêmico, de homem público e de cidadão “em tese”, conectado com as questões sociais de seu país.

Uma leitura singela deixa no limbo essa que parece uma versão caricata da existência real do PGR, na medida em que se identifica a atitude encurvada, descomprometida com a autonomia funcional, pactuada com o exercício pleno da truculência, do canibalismo, da ritualística de afronta às garantias constitucionais.

Inspirada no medo e na lesão à integridade física e psicológica que tem levado à dor, à doença, à morte e ao luto milhões de pessoas, a “desgovernança” conturbada de Jair Messias Bolsonaro sobrevive a todos os conceitos de ruptura com a estrada democrática, mobilizando a produção inédita de mais de cem pedidos de impeachment enfileirados no “cerco protetor” de instâncias a quem cabe recepcionar e tocar as medidas.

Desse modo, Jair Bolsonaro desliza o projeto de demolição do Estado brasileiro, imune e protegido pelo PGR, detentor da legitimidade de constranger penalmente o autor das práticas criminosas que a cada dia violam mais preceitos e princípios instituídos em nossa ordem jurídico/constitucional.

É verdade que insurgências significativas da categoria, embora ilhadas e de pouca visibilidade social, aparecem na insatisfação com o modo de ser do PGR. Mas não é menos verdadeiro que à evidencia das críticas midiatizadas rigorosas e reiteradas a Augusto Aras, ressaltam não só a ausência de confiança social e política em sua atuação à frente da PGR, como ainda mais gravoso, o descrédito na própria Instituição Ministério Público, que em dimensão de maior grandeza silencia, fraquejante, empalidecida e desacreditada na legitimidade de seu desenho na Carta de 1988, tornando inerte, sem função e sem dignidade o texto que as lutas da classe junto ao legislador constituinte conseguiram construir e garantir.

Por não darem crédito ao PGR, parlamentares buscam trilhas paralelas que sigam diretamente para o STF, e, com isso, constrangem Augusto Aras a sair do silencio/cúmplice e apresentar denúncia. A ministra Rosa Weber, diante do argumento de expectativa de finalização da CPI para ativar a Instituição, além de clamar que o chefe do Ministério Público “desincumbiu-se de seu papel constitucional”, elevou o tom da crítica para afirmar que “não se vislumbra [para o MP] o papel de espectador das ações dos Poderes da República“.

A ministra Carmem Lucia concedeu a Augusto Aras o prazo de 24 horas para se pronunciar sobre notícia-crime contra Jair Bolsonaro por acusações à segurança do sistema de urnas eletrônica. Segundo a ministra, “os fatos narrados nos autos são graves, de interesse exponencial da República”. A notícia é de que o PGR informou ao STF sobre a abertura de uma “apuração preliminar”.

Cabe ainda registrar o pedido assinado por ex-procuradores, para que Augusto Aras apresente denúncia contra Jair Bolsonaro ao STF, em razão de sua conduta no enfrentamento da crise sanitária que vitimou milhares de pessoas, permitindo a disseminação da pandemia.

De fato, a sociedade, que parece “adormecida e anestesiada” diante da tragédia que o governo promove, ouve o cotidiano da mídia repetidamente noticiar as falas e as atitudes de Jair Bolsonaro, debochando da pandemia, negando o vírus, ameaçando e intimidando pessoas, poderes e instituições, sabotando informações, compra de vacinas, desqualificando municípios, estados, prescrevendo medicamento de improvada eficácia, e mais grave, diligenciando na remessa de oxigênio, fatalizando dezenas de pessoas em razão dessa comportamento omisso.

Seria cômico sugerir que o chefe do Ministério Público Federal “esqueceu” as lições elementares em qualquer vestíbulo dos cursos de Direito, quanto aos requisitos “singelos” que amparam uma denúncia, nos termos do art. 41 do velho Código de Processo Penal, em síntese, “exposição do fato criminoso com todas as suas circunstâncias” e “qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo”.

Causa espanto é o PGR parecer distanciado da honradez, da auto estima e da “ética da vergonha” quando ainda argumenta que “segmentos políticos clamam por medidas criminais contra autoridades federais, estaduais e municipais” e que “no âmbito de suas atribuições e observando as decisões do Supremo Tribunal Federal acerca da repartição de competências entre União, Estados e municípios, já vem adotando todas as providências cabíveis desde o início da pandemia.

A conduta institucional de Augusto Aras não é só constrangedora. É simbólico de uma postura subalternizada, infiel à dignidade do cargo, infectada de omissão e de infeliz e desonrosa cumplicidade com as práticas criminosas atribuídas a Jair Bolsonaro.

O Ministério Público, historicamente, foi sempre um aliado do poder e súdito do rei, um instrumento de que se utiliza o Estado opressor para fazer a limpeza social, removendo dos espaços de dominação branca e rica, os corpos “indesejáveis”, os “desviantes”, os “invisíveis” que só aparecem nas páginas policiais, nos noticiários de TV na mídia ávida por dar cor ao espetáculo de sangue escorrendo da violência que o próprio Estado agencia contra esses sujeitos.

Augusto Aras será lembrado na Instituição que se apartou da indigesta condição de “funcionário” demissível “ad nutum”(revogação por uma só parte) quando se opusesse minimamente à vontade do “rei”.

Mas essa memória histórica será tingida de vergonha pelo recuo à vassalagem ao Executivo, pelo silencio quando a dignidade das funções exigia brados de fidelidade ao preceito constitucional de defesa da ordem jurídica e do regime democrático, violados às escâncaras por Jair Bolsonaro e os sujeitos “fardados ou não” que compõem sua gestão medíocre, submissa e aparvalhada.

Inegável afirmar que em dois anos, o Procurador Geral da República conseguiu não só acabrunhar, como desconstruir as funções sociais, políticas e jurídicas atribuídas ao Ministério Público pelo legislador constituinte de 1988.

Resta lembrar a Augusto Aras que o Ministério Público até poderá sobreviver em qualquer regime político, por mais autoritário ou “popular”, entretanto, “só será verdadeiramente independente num regime essencialmente democrático” (Hugo Mazzili).

 Leia outros textos.

A ministra Carmem Lucia concedeu a Augusto Aras o prazo de 24 horas para se pronunciar sobre notícia-crime contra Jair Bolsonaro por acusações à segurança do sistema de urnas eletrônica – Sérgio Lima

Informática, Política etc. - Fernando Melis: ARAS, DIREIS, OUVIR ESTRELAS

28
Mai21

Bolsonaro e Pazuello debocham de comandantes militares

Talis Andrade

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247 - A jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo, escreve artigo nesta sexta-feira (28) afirmando que há uma relação de “deboche” de Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello com o Alto Comando do Exército, após o ex-titular da Saúde participar de um ato político bolsonarista, ação que é proibida no Exército. 

“O artigo 45 do estatuto militar é claro: ‘São proibidas quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político.’; E o que fez Pazuello no último domingo?; Foi ao Rio de Janeiro, embrenhou-se na multidão até chegar ao palanque de Jair Bolsonaro e subiu. Uma vez em cima do palco, tirou a máscara, colou-se ao presidente da Republica, que o apresentou como um ‘gordo do bem’, ‘ministro que conduziu com muita responsabilidade os últimos meses aí’, e lhe passou o microfone; Entre risos, aplausos para o povo e sinais de positivo, Pazuello bradou em tom de animador de auditório. Fala galera! Eu não ia perder esse passeio de moto de jeito nenhum.Tamo junto! Parabéns a vocês, parabéns a galera que tá aí prestigiando o PR (Presidente da República)! PR é gente de bem! Abraço galera!”, relembra a jornalista.

 

Malu ainda destaca em seu artigo que, “ainda assim, ao longo desta quinta-feira, brotou no bolsonarismo e foi sustentada pelo ‘PR’ a tese de que o tal ato não era político. Pazuello inclusive sustentou nesse argumento sua defesa no procedimento disciplinar do Exército; Não vale nem a pena gastar caracteres debatendo tamanha asneira. Mas, ainda que fosse verdade, não bastaria para resolver o problema de Pazuello com os comandantes militares; Basta confrontar a regra para saber que o ato de insubordinação foi inequívoco. Tanto o capitão Bolsonaro como o general de intendência Pazuello sabem disso. E não apenas sabem como ignoraram deliberadamente os códigos da caserna, para depois debochar deles como quem tem a certeza de que não haverá maiores consequências”. 

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15
Mai21

Uma CPI em defesa dos que se foram

Talis Andrade

Charge - Subnotificação coronavirus brasil - Blog do Gilmar - UOL

 

País segue no caminho da barbárie
Investigação honra vítimas da covid
Legislativo retoma espaço que é seu
CPI deve embasar o impeachment

Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vem a passar e a sofrer mais do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama Vida!
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

O Brasil é um país onde não se pode sofrer em paz. Quando nos entregamos a dor das quase 430 mil mortes pela pandemia, na vã ilusão de que nada mais pode nos tirar do sério, ainda nos deparamos com uma chacina que vitimou 28 pessoas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Não é possível organizar minimamente nossa cabeça para enfrentar a realidade brasileira. A realidade supera sempre qualquer hipótese de fantasiar a vida.Polícia Mata 13 no Alemão e Realiza Operações em Várias Favelas do Rio, em  Meio à Pandemia - RioOnWatch

aqui e acolá, gritos de socorros são emitidos em uma linguagem sensorial que interessa a quem quer entender. E vinho. E mais poesias.

No meio das diversas tentativas de encontrar caminhos que nos mantenham na estrada, decidimos que acompanhar a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pandemia é uma porta que tem que ser mantida aberta para que possamos tentar contribuir para sair do abismo, que parece ser, neste momento, o leito natural do Brasil. E aí, é necessário reconhecer: o país se supera. Recorro-me ao eterno Mia Couto, no poema Estrada de Terra na Minha Terra:

“Na minha terra
Há uma estrada tão larga
Que vai de uma berma a outra.
Feita tão de terra
Que parece que não foi construída
Simplesmente descoberta.

Estrada tão comprida
Que um homem
Pode caminhar sozinho nela.

É uma estrada
Por onde não se vai nem se volta
Uma estrada
Feita apenas para desaparecermos.”

Alguns senadores, ainda na ânsia indômita de agradar ao poder, continuam defendendo a cloroquina, com exemplos bizarros e infantis. Seria até cômico, mas é criminoso. Uma deputada estranha invade o Senado e pronuncia impropérios desconexos, provavelmente para alguma gravação de propaganda e o mais dramático é o nível dos depoimentos dos agentes públicos. Felizmente, não os depoimentos técnicos, mas os políticos são de fazer corar os santos de igreja.

A impressão que resta é que, como vivem em um mundo irreal onde os 430 mil mortos são números e não pessoas, onde a falta de vacina é uma criação da esquerda, onde a necessidade de isolamento social e do uso de máscara são uma criação comunista, eles podem mentir, podem omitir. O papel ridículo que fazem não lhes atinge, pois desconhecem a força do sentir-se ridículo.Charge - Brasil atinge marca de 100 mil mortos por Covid-19

E fora do âmbito da CPI, o país segue sua sina rumo ao precipício e à barbárie. A discussão sobre a chacina leva, cada vez mais, à hipótese de execução sumária com mortes planejadas. O espectro da milícia ronda de maneira macabra. E a operação, dita como exceção, é agora alvo de investigação de uma força-tarefa criada pelo MP (Ministério Público) para apurar os abusos. Vale lembrar de Manuel Bandeira, no poema Noturno do Morro do Encanto:

Este fundo de hotel é um fim do mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz.

Ouço o tempo, segundo por segundo,
Urdir a lenta eternidade.

Falta a morte chegar….
Ela me espia,
Neste instante talvez,
Mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.”

O governo Bolsonaro continua como se estivesse num parque de diversões: presidente passeia de moto aglomerando sem máscara, realiza live imitando uma pessoa com falta de ar em cena constrangedora que demonstra absoluta falta de empatia ou solidariedade, faz críticas ao seu ex-ministro da Saúde, chamando-o de canalha em clara jogada de marketing eleitoral.

Porém, o mais grave é a notícia de que acabou o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) chinês no Brasil, o que significa que as vacinas deixarão de ser fabricadas. A imputação, gravíssima, é que as críticas do governo brasileiro à China fizeram com que o país revidasse. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), expressamente imputou a falta dos insumos ao mal-estar diplomático causado pelas agressões do governo ao país fornecedor.

Na prática, o país não precisaria de uma CPI para investigar a responsabilidade criminal e os inúmeros crimes de responsabilidade por parte do presidente da República e sua equipe. É cruel e sádico que os crimes continuem sendo cometidos mesmo durante as investigações, em claro acinte ao Senado, ao Congresso e, principalmente, ao povo brasileiro. Mas a CPI é instrumento necessário para que a investigação se dê cercada de todos os direitos e garantias constitucionais. É assim que se opera em um Estado Democrático de Direito.

Essa poderosa força de investigação e de fiscalização dos atos do Executivo tem poderes inerentes ao Judiciário e ampla liberdade para apurar e propor mudanças legislativas. É chegada a hora do Legislativo voltar a ocupar o espaço que é dele em um regime democrático. A excessiva criminalização do poder político, fenômeno que está na base da ascensão do proselitismo fascista de extrema direita, debilitou as bases de um Congresso altivo e independente.

Com o debacle e o desnudamento do grupo fascista que assumiu o vácuo de poder, é chegada a hora do resgate da independência do Legislativo. Uma CPI bem trabalhada, levada a efeito com seriedade e dignidade, que seja técnica e minuciosa no enfrentamento dos crimes cometidos pelos agentes públicos, inclusive, pelo presidente da República, deverá resgatar a autoestima do congressista que se orgulha da política e que sabe o espaço que ela ocupa na manutenção do equilíbrio democrático.

Para tanto, é necessário que todos nós acompanhemos e participemos. E é hora de encontrarmos mecanismos de cobrar das autoridades constituídas. Um relatório bem fundamentado por todas as provas que estão até agora evidenciadas, e as que surgirão inexoravelmente, tem que cumprir o duplo papel: dar o pontapé para o impeachment e servir de sustentáculo para a formalização de uma acusação criminal.

Cabe a nós criar mecanismos jurídicos e legislativos para que o presidente da Câmara apresente ao plenário da Casa o pedido de impeachment e para o procurador-geral da República cumpra seu papel constitucional ao apresentar ao Supremo Tribunal Federal uma fundamentada denúncia.

Não é pouca coisa, mas é o que merecem os milhões de amigos, pais, filhos, primos, enfim, todos os que sofreram e choraram as dores infinitas das perdas de quase 430 mil brasileiros. E é uma doce homenagem aos que se foram, vencidos pelo vírus, mas também pela incompetência, pela irresponsabilidade, pela falta de seriedade e pelo uso político do vírus. Banditismo mesmo. Devemos isso a nós, mas, principalmente, devemos a eles. No ensinamento do velho Li Po, na tradução de Cecília Meirelles:

No momento em que se afastava da praia
O barco que me conduzia,
eu ouvi-eu, Li Po- uma canção de dilacerante doçura.

O mar já tinha mil pés de profundidade,
Mas o afeto que te fez cantar por mim,
Wang- Luen,
era ainda mais profundo.”

15
Mai21

Solidariedade internacional aos pesquisadores e cientistas no Brasil e ao povo brasileiro

Talis Andrade

 

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O presidente deve ser responsabilizado pela condução da crise sanitária no Brasil, que não somente fez explodir o número de mortes mas acentuou as desigualdades no País

Carta reúne pesquisadores do mundo inteiro, entre eles três ganhadores do Nobel, e pede a responsabilização sobre a crise sanitária no País

Pesquisadore(a)s do mundo todo,

O Brasil registra 4.195 mortes pela covid. Ao todo, são mais de 340 mil óbitos contabilizados desde o começo da pandemia. Se o coronavírus afeta todos os países do globo, a amplitude da catástrofe sanitária que acomete o País não pode ser dissociada da gestão desastrosa do presidente Jair Bolsonaro. O presidente deve ser responsabilizado pela condução da crise sanitária no Brasil, que não somente fez explodir o número de mortes mas acentuou as desigualdades no País.

Em inúmeros momentos, o dirigente da república brasileira se referiu à covid-19 como « gripezinha», minimizando a gravidade da doença. Bolsonaro criticou as medidas preventivas, como o isolamento físico e o uso de máscaras, e por diversas vezes provocou aglomerações. Chegou a propagar o uso da cloroquina, embora cientistas alertassem para os efeitos tóxicos do uso do fármaco para combater a covid. Pesquisadores que publicaram estudos que demonstravam que o uso do medicamento aumentava o risco de morte em pacientes com covid chegaram a ser ameaçados no Brasil.

Bolsonaro desencorajou ainda a vacinação, chegando a sugerir, por exemplo, que as pessoas poderiam se transformar em «jacaré». Em meio ao negacionismo, proliferação de falsas informações e ataques à ciência, em plena crise sanitária, o presidente chegou a mudar quatro vezes de ministro da Saúde.

A ciência brasileira está sofrendo diversos ataques: cortes e mais cortes orçamentários que ameaçam pesquisas e colocam o trabalho de cientistas em xeque ; instrumentalização da ciência a fins eleitoreiros, como bem mostram as declarações do presidente descredibilizando o trabalho de cientistas durante a crise sanitária. Esses ataques, no entanto, vão além do contexto da covid-19. Basta lembrar os ataques feitos por Bolsonaro ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um contexto alarmante diante dos níveis de desmatamento da Amazônia.

Ao desmentir a ciência, Bolsonaro não somente fere a comunidade científica, mas toda a sociedade brasileira: são diários os recordes de mortes pela covid, dados da Fiocruz indicam, por exemplo, a circulação de 92 cepas do coronavírus no Brasil, o que torna o país uma gigantesca fábrica de variantes; para além temos ainda os impactos sobre o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e no clima global.

Em um contexto de crise sanitária, de agravamento das desigualdades, de mudanças climáticas, este tipo de conduta é inaceitável e o autor deve ser responsabilizado. Nós nos preocupamos com o agravamento da crise sanitária no Brasil, com os ataques à ciência, e por meio desta carta aberta nós, acadêmico(a)s de todo o mundo, demonstramos nossa solidariedade com os/as colegas no Brasil, cujas liberdades estão ameaçadas e com a população brasileira que é afetada diariamente por essa política destrutiva.

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• Glenda Santana de Andrade – ATER em Ciências Políticas na Université Paris-Nanterre & doutoranda no Centro de Pesquisas sociológicas e políticas de Paris (CRESPPA-GTM), Université Paris 8, França
• Sylvie Chiousse – Diretora científica da revista Esprit critique, França
• Juliana Kiyomura Moreno – Doutoranda em cotutela Université Paris 8/Universidade de São Paulo-USP, Brasil/França
• Michelle Franco Redondo – Membro do Laboratoire d’Études de Genre et de Sexualité (Legs), França
• Pierre Veltz – Professor Emérito, École des Ponts ParisTech, França
• Angelo Soares – Professor titular, Université du Québec à Montréal, Canadá
• Alladatin Judicaël – Professor, Université Mohammed VI Polytechnique, Marrocos
• Zoé Tinturier – Doutoranda IEP de Bordeaux, França
• Eddine Bouyahi – Doutorando, Northwestern University/SciencesPo, França
• Soma Rostampour – Doutoranda, CRESPPA-GTM, França
• Sevilla Ariel – Mestre de conferências, Université de Reims, França
• David Dumoulin – Professor Sociologia, Université Sorbonne Nouvelle – IHEAL, França
• Papa Sakho – Professor, diretor do Laboratoire de Géographie Humaine, Université Cheikh Anta Diop, Dakar, Senegal
• Momar Diongue – Mestre de conferências, Université Cheikh Anta Diop de Dakar, Senegal
• Pierre Salama – Professor Emérito, Université Sorbonne-Paris Nord, França
• Solène Marié – Chefe de Cooperação Internacional, CNRS-InSHS, França
• Francisco Alambert – Professor, USP, Brasil
• Evelyn Nakano Glenn – Professora, Universidade da Califórnia, Berkeley, Estados Unidos
• Paola Diaz – Socióloga, COES-CEMS, França
• Maria Montanez – Pesquisadora, Bélgica
• Jean-Pierre Durand – Professor, Universidade de Evry Paris-Saclay, França
• Valeria Ribeiro Corossacz – Università di Modena e Reggio Emilia, Itália
• Isabelle Charpentier – Professora universitária em Sociologia – Universidade da Picardia – Júlio Verne, Amiens – França
• Maria Vicenta Haro Matas – Doutora, EHESS, Paris, França
• Yasmine Siblot – Professora de sociologia, Universidade de Paris 8, França
• François Boureau – Doutorando em sociologia, Universidade de Paris 8, França
• Antoine Guégan – Doutorando, Universidade de Lyon, França
• Emmanuelle Picard – Mestre de conferências, ENS de Lyon, França
• Cornelia Moser – Pesquisadora, CNRS, França
• Samantha Joeck – Doutoranda, EHESS, França
• Brigitte Chamak – Pesquisador, Universidade de Paris, França
• Mirjana Morokvasic Muller – Diretora de Pesquisa Emérita, CNRS, França
• Wenceslas Lizé – Sociólogo, Universidade de Poitiers, França
• Juan Felipe Duque – Doutorando, Sciences Po Grenoble, França
• Monish Bhatia – Professor de Criminologia e Justiça Criminal, Birkbeck, Universidade de Londres, Reino Unido
• Victoria Canning – Mestre de conferências, University of Bristol, Reino Unido
• Francesca Esposito – Pesquisadora, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Portugal
• Danielle Ranciere – Filósofa, Educação Nacional, França
• Daniel Altmann – Professor, Faculdade de Medicina, Imperial College London, Reino Unido
• Carolina Adaros – Doutoranda, Birmingham City University, Reino Unido
• Jacques Rancière – Professor honorário, Universidade de Paris 8, França
• Catherine Marry – Sociólogo, CNRS, França
• Jules Falquet – Professor de Sociologia, Universidade de Paris, França
• Felipe Kaiser Fernandes – Doutorando (IIAC EHESS) – CEFRES, França
• Marie-Laure Basilien-Gainche – Professora de Direito, Jean Moulin Lyon 3 University, França
• Danièle Linhart – Socióloga, diretora de Pesquisa Emérita, CNRS, França
• Angeliki Drongiti – Doutor em sociologia, Cresppa-CSU, França
• Leandro França – Doutorando, Universidade Nova de Lisboa, Portugal
• Johann Cailhol – Universidade Paris 13, UR3412, França
• Anaenza Freire Marescs – Médico de doenças infecciosas APHP Paris, França
• Yannis Papadopoulos – Pesquisador, IMS-FORTH, Grécia
• Izadora Xavier – Doutora, Freie Universität, Alemanha
• Odile Henry – Professora universitária, Paris 8, França
• Helena Hirata – Diretora Emérita de Pesquisa, CRESPPA-GTM-CNRS, França
• Gustavo Beritognolo – Professor, Universidade de Ottawa, Canadá
• Luc Bouganim – Pesquisador, Inria, França
• Mariana Ramos Pitta Lima – Doutoranda em Saúde Pública, Universidade Federal da Bahia, Brasil
• Valeria Ingenito – Doutoranda, Università di Napoli L’Orientale, Itália
• Fanny Jedlicki – Mestre de conferências, Rennes 2 University, França
• María Mercedes Di Virgilio – Pesquisadora, Universidade de Buenos Aires / CONICET, Argentina
• Gaide Aden – ATER em sociologia, Université de Tours, França
• Blandine Destremau – Diretora de Pesquisa, CNRS, França
• Hélène Nicolas – Professora associada, Universidade de Paris 8, França
• Emilie Blanc – ATER, Universidade de Lyon 2, França
• K. Mariquian Ahouansou – Professor, American University of Paris, França
• Sara Garbagnoli – Pesquisador em estudos de gênero, Legs, França
• Soraya Silveira Simões – Professora, UFRJ, Brasil
• Engin Isin – Professor, Mary University of London, Reino Unido
• Atenea Rosado – Doutorando, Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos
• Bruno Dupeyron – Professor, University of Regina, Canadá
• Helen Hintjens – Mestre de conferências, Instituto Internacional de Estudos Sociais (Universidade Erasmus), Haia, Holanda
• Emmanuel Bellanger – Diretor de Pesquisa, CNRS, França
• Susan McGrath C.M. – Professora Emérita, York University, Canadá
• Richard Toppo – Doutorando, ISS, Haia, Holanda
• Yukari Sekine – Doutorando, Instituto Internacional de Estudos Sociais, Holanda
• Ana Carolina Maciel – Pesquisadora, UNICAMP, Brasil
• João Ribeiro Medeiros – Doutorando, CBPF, Brasil
• Federica de Cordova – Pesquisadora, Università di Verona, Itália
• Benjamin Leclercq – Doutorando, Paris 8 University, França
• Nouria Ouali – Professora da Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica
• Florent Pasquier – Mestre de conferências, Université Sorbonne, França
• Patricia Lambert – Professora, Ecole Normale Supérieure de Lyon, França
• Mathilde Moaty – Doutorando em LATTS, Universidade Gustave Eiffel, França
• Nadia Vargaftig – Professora associada, Universidade de Reims, França
• Marie Segonne – Doutoranda, Paris 8 University, França
• Odile Hoffmann – Diretora de Pesquisa, Instituto IRD de Pesquisa para o Desenvolvimento, França
• Daniela Andrade – Doutoranda, Instituto de Estudos Sociais, Holanda
• Nina Gren – Mestre de conferências, Lund University, Suécia
• Doi Ra – Doutorando, Instituto de Estudos Sociais, Mianmar
• Romain Gallart – Pesquisador associado, Universidade Paris Nanterre, França
• Marie-Pierre Julien – Professora associada, Universidade de Lorraine – Nancy – França
• Laurine Sézérat – Pesquisador, Universidade Paris 8, França
• Laura Madrid Sartoretto – Professora, UFRGS, Brasil
• Diego Lasio – Pesquisador, Universidade de Cagliari, Itália
• Marie Walter-Franke – Doutoranda, Universidade Livre de Berlim, Alemanha
• Julianna Colonna – Doutoranda, Universidade de Pau, França
• Renata Cavalcanti Muniz – Doutoranda, ISS – Erasmus University Rotterdam, Holanda
• K Cheney – Mestre de conferências, Inst. Internacional de Estudos Sociais, Haia, Holanda
• Armelle Jacquemot – Professora-pesquisadora, Universidade de Poitiers, França
• Luin Goldring – Professor de Sociologia, York University, Canadá
• Anne Sauvagnargues – Professora de Filosofia, Universidade de Paris Nanterre, França
• Alexandra Mirowski Rabelo de Souza – Doutoranda, York University, Canadá
• João Villaverde – Doutorando em Administração Pública e Governo, EAESP-FGV, Brasil
• Leonardo Bueno – Pesquisador, FGV-EAESP, Brasil
• Mi Medrado – Doutoranda, Ucla, Estados Unidos
• Octavio de Barros – Economista, fundador da associação República do Amanhã-Brasil, Brasil
• Grace Barakat – Doutoranda, York University, Canadá
• Luana da Silva Ribeiro – Doutoranda em Economia, UNESP – Brasil
• Marcos Roberto dos Santos – Professor, FAMP, Brasil
• Virginie Baby-Collin – Professora de Geografia, Universidade de Aix-Marseille, França
• Oane Visser – Mestre de conferências, ISS da Erasmus University Rotterdam, Holanda
• Brian C.J. Singer – Professor, Glendon College, York University, Canadá
• Fabio Pucci – Doutorando, UFSCar, Brasil
• Barbara Poggio – Professor, Universidade de Trento, Itália
• Amber-Lee Varadi – Doutoranda, York University, Canadá
• Roberto Leher – Professor, UFRJ, Brasil
• Jean-Marc Pétillon – Pesquisador, CNRS, França
• Georges Flexor – Doutor, UFRRJ, Brasil
• Liliana Petrilli Segnini – Professora de Sociologia, Unicamp, Brasil
• José Artur dos Santos Ferreira – Professor, UFOP, Brasil
• Herb Arst – Professor Emérito de Genética Microbiana, Imperial College London, Reino Unido
• Laura Corradi – Socióloga, Università della Calabria, Itália
• Nicolas Bautes – Professor-pesquisador, geógrafo, França
• Stéphanie Deboeuf – Pesquisadora, CNRS, França
• Martinet Gilles – ATER na UPEC, França
• Georges Benguigui – Pesquisador, CNRS, França
• Christophe Baticle – Socioantropólogo, UPJV, França
• Anny King – Fellow, Churchill College, University of Cambridge, Reino Unido
• Benvindo Manima – Mestre, Universidade Federal Fluminense, Brasil
• Héloïse Nez – Professora de Sociologia, University of Tours, França
• Tulio Matencio – Professor Titular, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
• Luís Carlos Moro – Secretário-geral / American Association of Jurists / Continental
• Laurent Gil – Professor, UFOP, Brasil
• Michel Mayor – Professor Emérito, Universidade de Genebra, Suíça / Nobel de Física 2019
• Cecile Lefevre – Professora, Universidade de Paris, França
• Claudio Luis Donnici – Professor, UFMG, Brasil
• Sophie Pène – Professora, Universidade de Paris, França
• Marilia Oliveira Fonseca Goulart – Professora da Universidade Federal de Alagoas, Brasil
• Sandra Sawaya – Professora, USP, Brasil
• Charles Rice – Professor, The Rockefeller University, Estados Unidos / Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2020
• Cristiane Maria Cornelia Gottschalk – Professora, USP, Brasil
• Danièle Kergoat – Socióloga, CNRS, Paris
• Ricardo Olimpio de Moura – Professor, Universidade Estadual da Paraíba, Brasil
• Luciana dos Santos Duarte – Doutoranda, Universidade Federal de Minas Gerais / Instituto Internacional de Estudos Sociais – Brasil / Holanda
• Steffen Fischer – Pesquisador, Greenside Design Centre (Johannesburg), África do Sul
• Janaína Vieira – Mestranda, USP, Brasil
• Marco Bacio – Doutorando, Universidade de Milão, Itália
• Heike Drotbohm – Professora de Antropologia, Universidade de Mainz, Alemanha
• Luc Bonte – Presidente do FONCABA asbl, Bélgica
• Peter Wagner – Professor-pesquisador, ICREA e Universidade de Barcelona, Espanha
• Christian Lavault – Professor Emérito, Sorbonne University Paris 12, França
• Simonne Teixeira – Professora, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil
• Renee Sylvain – Professora, Universidade de Guelph, Canadá
• Paulina Garcia Del Moral – Mestre de conferências, Universidade de Guelph, Canadá
• Marie Chenet – Mestre de conferências, Université Panthéon-Sorbonne, França
• Marina Cadaval – Doutoranda, ISS-EUR Holanda, Holanda
• Romain Busnel – Doutor em Ciências Políticas, Universidade de Lille, França
• Artemisa Flores Espinola – Mestre de conferências em sociologia, Universidade Paris-Est Créteil, França
• Daniela Cherubini – Pesquisadora, Università Degli Studi di Milano Bicocca, Itália
• Yolande Benarrosh – Professora de Sociologia, Universidade de Aix-Marseille, França
• Vicente Martínez Barrios – Professor associado, Universidade de Brasília, Brasil
• Daniel Cefai – Diretor de estudos da EHESS, França
• Gianmaria Colpani – Doutor, Universidade de Utrecht, Holanda
• Stefania Voli – Pesquisadora, Università di Milano Bicocca, Itália
• Carlos Corredor – Reitor, Universidad Simón Bolívar, Colômbia
• Aurélie Damamme – Professora, Universidade Paris 8, França
• MF Deligne – IE / CNRS / França
• Chantal François – Pesquisador, INSERM, Paris, França
• Matteo Botto – Doutorando, Universidade de Gênova, Itália
• Rita Monticelli – Professora, Universidade de Bolonha, Itália
• Carmela Ferrara – Doutoranda, Universidade de Napoli Federico II, Itália
• Maria Peixoto – Doutoranda, OntarioTech University, Canadá
• Chiara Paglialonga – Doutoranda, Universidade de Pádua, Itália
• Yazid Ben Hounet – Pesquisador do CNRS, Laboratoire d’Anthropologie Sociale, Paris, França
• Claude Calame – Professor. dr., Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais, Paris, França
• Rose-Marie Lagrave – Diretora de estudos da EHESS, Paris, França
• Christelle Rabier – Mestre de conferências, EHESS (Marselha), França
• Sophie Bobbé – Antropóloga, Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais, França
• Carmen Lucia Soares – Professora, UNICAMP, Brasil
• Angela Aisenstein – Professora, Universidad Nacional de Luján, Argentina
• Rocio Guadarrama Olivera – Professora-pesquisadora, Universidad Autónoma Metropolitana, México
• Geraldine Jourdain – Doutoranda, Universal Technical Institute, Japão
• Giuseppe Burgio – Professor, Università “Kore” di Enna, Itália
• Zeynep Kaşlı – Mestre de conferências, Instituto Internacional de Estudos Sociais, Holanda
• Manuel Moreno – Professor, Universidad Nacional de Luján, Argentina
• Brigitte Morand – Professora-pesquisadora, Clermont Auvergne University, França
• Vincenza Perilli – Pesquisador precário – Itália
• Fernando Bomfim Mariana – Professor, Universidade de Brasília, Brasil
• Maria Arminda do Nascimento Arruda – Professora titular de Sociologia, USP, Brasil
• Conor Douglas – Mestre de conferências, York University, Canadá
• Julie Sedel – Professora, Université de Strasbourg, França
• Laura Lucia Parolin – Mestre de conferências, University of Southern Denmark, Dinamarca
• Yolaine Gassier – Doutoranda, Universidade de Aix-Marseille, França
• Sharie Neira Rios – Doutoranda, Universidade de Paris, França
• Pierre Bataille – Mestre de conferências, UGA , França
• Frédéric Lebaron – Professor de Sociologia ENS Paris-Saclay, França
• Inês Bragança – Professora, UNICAMP, Brasil
• Kaja Antlej – Mestre de conferências, Deakin University, Austrália
• Alberica Bazzoni – Pesquisadora, ICI Berlin Institute for Cultural Inquirt, Alemanha
• Peter Ratcliffe – Diretor de Pesquisa Clínica, The Francis Crick Institute, Londres, Reino Unido / Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2019
• Sandra Challin – Pesquisadora, CNRS, Paris, França
• Romain Leclercq – Doutorando, Université Paris 8, França
• Maira Abreu – Pós-doutoranda USP/Cresppa, Brasil/França
• Elodie Picard – CNRS / OpenEdition – France
• Urbano Nojosa – Professor de Jornalismo, PUC/SP, Brasil
• Simonne Teixeira – Docente, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil

o mundo de cabeça para baixo ema e bolsonaro.jpg

 

15
Mai21

Apoiadora pede para mostrar vídeo de pai que morreu e Bolsonaro debocha (vídeo)

Talis Andrade

Bolsonaro

 

247 - Uma apoiadora pediu a Jair Bolsonaro para mostrar a ele um vídeo de seu pai, que faleceu no último dia 6.

A reação do presidente - que demonstra o que de fato ele pensa de seus eleitores - é o desprezo completo.

“Quanto tempo leva esse vídeo aí?”, pergunta, provocando risadas dos presentes. Ela responde: “um minutinho”. Em seguida, Bolsonaro debocha, de forma machista: “1 minutinho… se for nesse 1 minutinho de mulher eu viajo amanhã”.

Bolsonaro viajou nesta sexta para Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde fez novos ataques ao ex-presidente Lula. O episódio com a eleitora aconteceu em Brasília, onde ele se reuniu com apoiadores em frente ao Alvorada.

Assista o vídeo aqui

14
Mai21

Capitã Cloroquina concluiu em 24 horas que problema de Manaus era falta de “tratamento precoce”

Talis Andrade

Mayra-Pinheiro-ministerio-da-saude.jpg

Com a militarização do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro passou a ser apelidada de "capitã"

 

Oxfam: Autoridades optaram pelo negacionismo, pela falta de ação e, em alguns casos, pelo “deboche” da pandemia

Escolhida por Eduardo Pazuello como a responsável do Ministério da Saúde a comandar missão de reconhecimento em Manaus em janeiro, a secretária Mayra Pinheiro precisou de menos de 24 horas para emitir diagnóstico sobre o desmoronamento do sistema de saúde local: falta do tratamento precoce, composto pelo chamado kit covid, um conjunto de medicamentos sem eficácia contra a doença, como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina. 

Conhecida como "capitã cloroquina", Mayra Pinheiro desembarcou na capital do Amazonas em 3 de janeiro como primeira representante do ministério no local. No dia seguinte, produziu um relatório para o ministério, com "conclusões técnicas" a respeito de Manaus, e no primeiro item explicou que o caos local derivava da falta de tratamento precoce, entre outros motivos, destaca a coluna Painel da Folha de S.Paulo.

Mayra Pinheiro confirmou, em depoimento obtido com exclusividade pelo GLOBO, que ela foi a responsável pelo planejamento de uma comitiva de médicos que difundiu o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 em Manaus dias antes de o sistema de saúde do Amazonas entrar em colapso, em janeiro último. O depoimento foi dado ao Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas.

A promoção de remédios sem eficácia e as ações do Ministério da Saúde antes e durante o colapso em Manaus são alvo das investigações da CPI da Covid no Senado.

Mayra é uma das seis pessoas que respondem a uma ação por improbidade administrativa movida pelo MPF no Amazonas por conta da ação dos governos estadual e federal durante o morticínio de Manaus. Além dela, são alvos da ação o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o ex-secretário-executivo da pasta Élcio Franco, entre outros.

Em 15 de janeiro último, a Oxfam Internacional divulgou nota oficial, assinada por Katia Maia, denunciando o morticínio de Manaus:

A Oxfam Brasil apela ao sistema judiciário para que as autoridades envolvidas na atual crise que o país enfrenta sejam investigadas e devidamente responsabilizadasCom o crescimento de mortes causadas pela pandemia do coronavírus, a Prefeitura de Manaus decidiu adotar o sistema de trincheiras para enterrar vítimas da covid-19 no Cemitério Público. Foto Michael Dantas/AFP

A Oxfam Brasil repudia a inação, o descaso e a negligência de autoridades públicas brasileiras diante da pandemia e do novo morticínio em Manaus, tragédia anunciada que poderá se espalhar rapidamente para outras cidades brasileiras.

Em vez de cumprirem os protocolos científicos e sanitários aprovados internacionalmente, autoridades e lideranças do governo federal, bem como parlamentares e até mesmo autoridades estaduais, optaram pelo negacionismo, pela falta de ação e, em alguns casos, pelo “deboche” da pandemia. A população brasileira está sendo empurrada para uma verdadeira roleta-russa, com estímulos às aglomerações, a ausência de um plano consistente de vacinação e pela irresponsável recomendação de um tratamento com remédios ineficazes e enganosos no lugar da infraestrutura necessária a hospitais. Atitude, aliás, verificada esta semana em Manaus, com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, visitando a cidade para reforçar a obsessão governamental com sua oferta de cloroquina, um dos medicamentos sem respaldo científico no mundo para a covid-19 e distribuído pelo governo. Pazuello reconheceu a falta de oxigênio nos hospitais e tardou para atender à necessidade da cidade, com uma informação, a ser verificada, de falta de aviões.

Estamos em meio a uma crise humanitária que poderia ter sido evitada caso fossem tomadas as medidas necessárias pelos governos das três esferas – municipal, estadual e federal. Não é verdade que o lideranças do governo tenham sido surpreendidas pelo que acontece em Manaus e pela grave situação em outras cidades brasileiras.

A Oxfam Brasil apela ao sistema judiciário para que as autoridades envolvidas na atual crise que o país enfrenta sejam investigadas e devidamente responsabilizadas. Basta de disputa política e ideológica. Urge a adoção de medidas jurídicas severas e a adoção definitiva dos protocolos internacionais e científicos para a proteção mínima da população brasileira.  A Justiça tem que atuar e punir exemplarmente os responsáveis pela tragédia que o país vive. Antes que seja tarde demais.

Katia Maia

Diretora executiva da Oxfam Brasil

 

24
Fev21

“Fachin foi coisa de Deus”, disse Deltan Dallagnol subchefe da lava jato

Talis Andrade

Deltan Dallagnol: "Aha, Uhu, o Fachin é nosso" - O CORRESPONDENTE

 

Por Kiko Nogueira

Novas mensagens entre procuradores da República mostram que a Lava Jato confiava no ministro Edson Fachin para resolver seus problemas.

Os diálogos foram apreendidos pela PF na Operação Spoofing e enviados pela defesa de Lula ao ministro Ricardo Lewandowski nesta segunda-feira, dia 22.

No dia 2 de fevereiro de 2017, um dos integrantes da força faz um alerta a Dallagnol.

“Te liguei mais pra te preparar sobre a morte da Marisa Letícia: acredito que o PT está planejando como capitalizar sobre a morte dela e também acredito que eles irão colocar a culpa em vocês e principalmente em você”, escreve.

“Vão com certeza rsrsrs”, responde Deltan. “Fachin foi coisa de Deus”.

A mulher do ex-presidente tinha 66 anos e estava internada depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral hemorrágico provocado pelo rompimento de um aneurisma.

Matéria do Intercept já registrava o deboche lavajatista sobre a morte de Marisa. “Um amigo de um amigo de uma prima disse que Marisa chegou ao atendimento sem resposta, como vegetal”, afirmava Deltan.

Também já se conhecia, através do Intercept, o teor de uma manifestação de Deltan no grupo do Telegram depois de um encontro com o magistrado no Supremo em 13 de julho de 2015.

“Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”, vibrou.

Edson Fachin substituiu Teori Zavascki como relator da Lava Jato no Supremo.

Na última edicação da Veja, deixou clara sua posição — absurda para um juiz, acrescente-se — pró-Moro e cia.

“O contexto é preocupante: forma-se uma frente ampla contra a democracia e a favor da não apuração nem punição a quem se imputa, no devido processo, a prática de delitos como corrupção, lavagem de direito e organização criminosa”, declarou.

Publicado no DCM /PRERRÔ

16
Fev21

Gilmar reage ao deboche do general Villas-Bôas: "ditadura nunca mais"

Talis Andrade

democracia demo presidente zé de abreu guaibó

 

247 - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, reagiu a um tuíte do general Eduardo Villas Bôas debochando do ministro Edson Fachin, que comentou em uma publicação do general da reserva, de abril de 2018, pressionando a Corte a não conceder habeas corpus ao ex-presidente Lula.

Nesta terça-feira (16), Villas Bôas comentou "três anos depois" em uma publicação de uma matéria sobre a reação tardia de Fachin.

Gilmar reagiu com duras palavras: "Ao deboche daqueles que deveriam dar o exemplo responda-se com firmeza e senso histórico: Ditadura nunca mais!"

Gilmar Mendes
A harmonia institucional e o respeito à separação dos poderes são valores fundamentais da nossa república. Ao deboche daqueles que deveriam dar o exemplo responda-se com firmeza e senso histórico: Ditadura nunca mais!

democracia gilmar.jpg

 

12
Fev21

Perigoso exército de incapazes

Talis Andrade

soldados.jpg

 

 

A atual Esplanada dos Ministérios tem sido ocupada por um número exorbitante de fardados no primeiro escalão do governo

William Nozaki /Brasil de Fato
 
 

Parece que está chegando a hora de a sociedade brasileira se desfazer desses ´mitos salvadores` e devolver seus militares a seus quartéis e suas funções constitucionais. Assumir de uma vez por todas, com coragem e com suas próprias mãos, a responsabilidade de construir um novo país que tenha a sua cara, e que seja feito à imagem e semelhança, com seus grandes defeitos, mas também com suas grandes virtudes

 

(Sob os escombros, as digitais de um responsável, de José Luís Fiori)

 

 

No último dia de 2020, o professor de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori, publicou um artigo de grande repercussão nacional em que diagnostica o avançado processo de destruição física e moral do país nestes últimos dois anos, defendendo a tese de que o gigantesco fracasso do governo do Sr. Bolsonaro é indissociável das Forças Armadas brasileiras, que é hoje o último grande sustentáculo de um governo que é de fato, em última instância, um governo militar.

Um governo que nasceu de uma operação tutelada pelo ex-chefe das Forças Armadas à época e que depois foi literalmente ocupado por um batalhão de cerca de 8 mil militares da ativa e da reserva que vem se se demostrando absolutamente ineptos para o exercício do governo, durante este dois anos em que sustentaram no poder um “psicopata agressivo, tosco e desprezível, cercado por um bando de patifes sem nenhum principio moral, e de verdadeiros bufões ideológicos que em conjunto fazem de conta que governam o Brasil, há dois anos”, define Fiori.

Uma semana depois da publicação do artigo do professor Fiori, o próprio Sr. Bolsonaro confirmou o diagnóstico do professor, ao declarar publicamente que “o Brasil quebrou e ele não pode fazer nada”, uma das confissões mais sinceras de que se tem conhecimento da parte de um governante que reconhece seu próprio fracasso e ao mesmo tempo se declara incapaz de enfrentar a destruição provocada pelo seu governo, durante o tempo em que — em vez de governar — ele se dedicava pessoalmente a atacar pessoas e instituições e debochar do sofrimento e da morte dos seus próprios concidadãos. Uma declaração que foi feita no mesmo dia, aliás, dia em que o general da ativa e ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciava apalermado ao país que não tem data nem um plano da vacinação, mesmo que fosse só para tranquilizar psicologicamente a sociedade brasileira.

Por tudo isto, finalmente o professor Fiori conclama a sociedade brasileira a assumir em suas próprias mãos o destino do seu país, desistindo dos “grandes salvadores” e enviando de volta aos quartéis os militares, pelo seu rotundo fracasso atual e, sobretudo, porque eles não têm o menor preparo técnico e intelectual para dirigir um estado e governar uma sociedade da extensão e complexidade brasileiras. Ou seja, para o professor Fiori este governo e seu fracasso deve ser debitado na conta dos militares, e não há nenhuma possibilidade de reconstruir a democracia brasileira sem que todos os seus atores políticos abram mão em definitivo e para sempre de apelar aos militares para que façam o que não sabem e fazem muito mal..

E, de fato, desde que foi eleito, Jair Bolsonaro nunca fez questão de esconder ou omitir a sua dívida com as Forças Armadas. “O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, afirmou o presidente-capitão ao então general Eduardo Villas Boas, referindo-se à sua eleição à Presidência da República.

Crescente dependência

Nos últimos dois anos, essa dependência se intensificou. No interior do governo a ruptura do bolsonarismo com o lavajatismo jurídico, a perda de força relativa do olavismo ideológico, somado às tensões com parte da grande imprensa e o desconforto de parcela do empresariado criaram um ambiente de reacomodação de forças que resultou na ampliação dos espaços ocupados pelos militares no governo.

A cada novo embate ideológico derrotado, a cada nova suspeita de corrupção e ilícitos envolvendo o clã Bolsonaro e a cada novo erro de política pública por parte dos civis, os militares avançaram pelo menos uma casa no tabuleiro. Sendo assim, ora sob efeito da adesão irrestrita, ora sob o argumento da redução de danos, os militares se posicionaram como fiadores e tutores do governo Bolsonaro.

Esse movimento não sofreu nenhuma resistência efetiva por parte dos setores da sociedade civil e paulatinamente foi sendo normalizado e naturalizado. Enquanto parcela dos atores políticos à esquerda acreditou no mito de que os militares brasileiros seriam nacionalistas ou estatistas, parcela dos atores políticos à direita reiterou a ideia de que os militares seriam politicamente imunes à corrupção e tecnicamente superiores em matéria de gestão. Ledo engano. Essa mitologia tem sua origem no reconhecido papel exercido pelos militares na formação do Estado e no desenvolvimento da industrialização ao longo do século XX.

Os militares de hoje

Mas os militares de ontem não se equivalem aos de hoje. Desde a vitória liberal-conservadora ainda no período da ditadura, o que impera em matéria de geopolítica é a defesa do alinhamento automático ao governo norte-americano. Essa escolha desobrigou boa parte dos nossos militares de se empenhar na formulação de estratégias nacionais, liberando tempo e energia para que se concentrassem prioritariamente em interesses corporativos da caserna. Para além de “neoliberais” ou “neodesenvolvimentistas” os militares brasileiros tornaram-se corporativistas.

É com esse espírito que parte significativa dos militares têm avançado dentro do governo Bolsonaro. A atual Esplanada dos Ministérios tem sido ocupada por um número exorbitante de fardados no primeiro escalão do governo, são 11 dos 23 ministros.

Vejamos alguns dos problemas nos ministérios encabeçados por militares. Como é possível confiar na superioridade ética e moral de uma Casa Civil que conduz reuniões ministeriais tão desqualificadas quanto aquela que veio a público no último ano? Como crer na competência estratégica de um GSI que não identifica drogas em aviões da FAB e em um ministro que se deixa gravar em conversa particular pela imprensa? Como acreditar no espírito republicano de uma Secretaria de Governo que admite interferências na Polícia Federal ou em um ministro da Secretaria Geral que acolhe interesses pessoais da família presidencial? Como é possível sustentar a vocação nacional de uma pasta de Ciência e Tecnologia em desmonte acelerado e que se posiciona de maneira pouco estratégica em um tema crucial como o da tecnologia 5G? Como defender o espírito inovador de uma área de Minas e Energia impactada por desmontes e apagões? Como apostar em Transparência em um governo movido a fake news? Como admitir que a área de Infraestrutura tenha posições tão refratárias contra investimentos públicos? Como aceitar uma vice-presidência que se responsabiliza pelas relações com a China e pela Amazônia no período em que o país mais tem esgarçado o diálogo com o país asiático e tem batido recordes de desmatamento e queimadas?

Por todos esses motivos não é mais possível isentar as alas militares da responsabilidade e da cumplicidade com o desastre protagonizado por Bolsonaro. O caso do atual ministro da saúde, general Eduardo Pazuello, é dos mais emblemáticos na desmistificação da suposta aura de competência política, intelectual e administrativa dos militares.

Leia opinião de colunista sobre o tema: Os generais ressentidos

Pazuello entregou o comando da 12º Região Militar, mas se recusa a ir para a reserva, criando uma indesejável mistura entre Forças Armadas e Poder Executivo. O general não domina nem mesmo os saberes que deveriam compor seu repertório militar, não entende de geografia (ao tratar da propagação da pandemia, associou o inverno no hemisfério Norte do globo à região Nordeste do Brasil), não entende de Estado (afirmou que não conhecia o SUS), não entende de planejamento (deixou de coordenar as ações dos entes federativos), não entende de distribuição (deixou mais de 6,8 milhões de testes contra a COVID-19 vencerem em estoque) e não entende de logística (atrasou a definição sobre a compra de seringas, agulhas e insumos para a vacina).

O problema se agrava quando observamos os demais escalões do governo. Estima-se que haja mais de 8450 militares da reserva e 2930 militares da ativa atuando em diversas áreas e níveis hierárquicos do governo, com ênfase nos setores de planejamento, orçamento e logística dos ministérios. Algumas áreas sensíveis passam por intenso processo de militarização, na gestão socioambiental há mais de 90 militares alocados em áreas como Funai, Ibama, ICMBio, Sesai, Incra, Mapa, Funasa, FCP, além do Ministério do Meio-Ambiente e do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No Ministério da Saúde apenas durante o período de pandemia, foram nomeados pelo menos 17 militares.

O quadro não é diferente nas empresas estatais e autarquias, há uma plêiade de militares nomeados em boa parte delas: Amazul, Caixa, Casa da Moeda, Chesf, Correios, CPRM, Dataprev, EBC, Ebserh, Eletrobras, Emgepron, EPL, Finep, Imbel, INB, Infraero, Nuclep, Petrobras, Serpro, Telebras, Valec. Em muitas dessas empresas a tônica segue na contramão da linha geral da política econômica do próprio governo, ao invés de desinvestimentos algumas foram brindadas com capitalização, ao invés de privatização se indica que algumas devem passar apenas por fusões.

Tal presença já garantiu aos militares importantes acordos internacionais de defesa, ratificando o alinhamento automático com os EUA, além da ampliação do orçamento do Ministério da Defesa e do fortalecimento de projetos e empresas a ele vinculadas. Mais ainda, não faltam ganhos corporativos para as armas: privilégios previdenciários, como aposentadoria integral e sem idade mínima, reajustes reais do soldo de cerca de 13%, o que não ocorreu com o salário mínimo, e aumento de adicionais, bonificações e gratificações diversas, em empresas estatais, por exemplo, o pagamento de jetons para militares subiu cerca de 9,7% em 2020, para não mencionar ganhos adicionais e cumulativos com cargos de confiança e adjacências. A amplitude dos ganhos corporativos e em proventos pessoais indica que os militares não retornarão para os quartéis de maneira automática ou voluntária, qualquer que seja o próximo governo.

Leia opinião de colunista sobre o tema: Os militares estão nus

O quadro deveria causar preocupação, inclusive, dentro das próprias Forças Armadas. Pois a boa reputação e a confiança de que desfrutam os militares na opinião pública rivaliza a cada dia com as digitais impressas pelos fardados nos erros do governo. Além disso, ao aceitarem o desgoverno da atual política externa os militares se colocam em posição subalterna para a interlocução com EUA, China, União Européia e até mesmo com alguns países vizinhos.

Sendo assim, em tempos nos quais se debatem as possibilidades de construção de uma frente ampla ou popular, a defesa de um Legislativo “livre, independente e autônomo” e a reconstrução de um Estado que promova “a vida, a saúde, o trabalho e os direitos” estamos inteirasmente de acordo com a tese de Fiori de a consolidação de uma “democracia viva e forte” no Brasil passa por um pacto que assegure o retorno dos militares aos quartéis e às suas funções constitucionais. Este não é apenas um dos termos para a retomada da soberania popular e nacional do país, é, antes disso, a premissa fundamental de uma novo país que se assuma coletivamente em suas próprioas mãos dispensando a interveção salvadora de fardas, togas batinas ou pijams como diz o Fiori no final do seu artigo.

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