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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Ago21

Adélio volta à cena, mas ninguém cita que ele frequentou o Clube de Tiro dos bolsonaros

Talis Andrade

Adelio Bispo preso pela Polícia Federal, que vem se transformando na polícia política de Bolsonaro 

 

por Larissa Roncon

 

Após as complicações de saúde do presidente, que esteve internado por causa de obstrução intestinal, Adélio Bispo voltou a bombar nas redes.

Internautas questionam onde está Adélio e o que foi feito dele após ser acusado de esfaquear Bolsonaro em setembro de 2018.

A polêmica se estabeleceu entre bolsonaristas e críticos do presidente.

De um lado, apoiadores usam Adelio de bode expiatório para justificar cada espirro de Bolsonaro, enquanto outros acreditam que a facada nunca aconteceu e foi uma jogada eleitoral para o capitão poder escapar dos debates.

LEIA: Adélio volta ao debate com aparelhamento da PF por Bolsonaro e tentativa de desenterrar caso facada

Adélio está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).

Em maio, desembargadores do Tribunal Regional Federal decidiram que ele não poderá sofrer sanções administrativas pelo crime, já que tem laudo médico em que apresenta transtorno mental delirante persistente. Por isso, é considerado inimputável.

LEIA: Liberdade de Adélio, autor de facada em Bolsonaro, será decidida em 14 de junho de 2022

O seu caso deverá voltar a ser discutido em julho de 2022, quando Adélio pode solicitar liberdade [Mês que antecede as eleições presidenciais, para criar um clima emocional que favoreça mais uma vez Bolsonaro, que disputará em outubro a presidência com Lula. E Adelio continuará proibido de falar com a imprensa. Vários pedidos de entrevista continuam engavetados. O bolsonarismo impede a fala de Adélio. Que permaneça amordaçado. O atirador treinado, que prefere matar com um canivete, continua preso em uma penitenciária federal, administrada por bolsonaristas] 

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Embora não tenha sido condenado à prisão, ele foi mantido preso por ter sido considerado pessoa de alta periculosidade, cuja liberdade representaria risco a si e a terceiros.

Quem quer saber o paradeiro do autor da facada hoje nunca se importou com um fato real e que gera ainda mais suspeitas.

Carlos e Eduardo Bolsonaro frequentavam o mesmo clube de tiro, o 38, que Adélio, em Florianópolis.

Eis um fato que tem potencial para deixar todo mundo com a pulga atrás da orelha.

Renan Antunes contou essa história aqui no DCM.Clube de tiro frequentado pelos Bolsonaros e por onde Adélio Bispo passou  tem curso a R$ 5 950Eduardo Bolsonaro comemora aumento da letalidade policial — Conversa Afiada

O clube de tiro ponto 38 é um templo do bolsonarismo: a maioria dos frequentadores é gente sarada, bombada, tatuada, de sorriso forçado e pistola na cintura.

Localizado a 10 minutos da ponte Hercílio Luz, cartão postal de Floripa, o clube ganhou, nos cinco meses do governo Bolsonaro, a notoriedade que jamais teve em 27 anos de existência, graças a dois frequentadores ilustres e um maldito.

Os notáveis são os filhos do Bozo, o Zero 2 Carlos e o Zero 3 Eduardo.

O infame é Adélio Bispo, o maluco da facada de Juiz de Fora, gesto que catapultou a candidatura de Jair à presidência.

Por mais que se busque, ninguém conseguiu estabelecer uma conexão dos filhos do presidente com o maluco, exceto pelo fato de terem estado ao mesmo tempo no 38.

Corre uma versão que o clube pertence aos Bolsonaros, que seriam sócios ocultos.

É fake news. Talvez a fonte desta informação seja a mesma que espalhou que os filhos de Lula eram donos da JBS.

Passei duas tardes entre os frequentadores comuns do lugar – tem gente que chega de Porsche!

O pessoal fica algumas horas dando tiros em alvos de papel, ao custo mínimo de 99 reais a saraivada de balas calibre 22. Os preços sobem de acordo com o calibre.

O público principal é gente da segurança, mas também encontrei advogados e universitárias dando tiros nos estandes, só pelo prazer da coisa: tem gosto pra tudo.

O “ponto 38” do nome da casa significa o calibre do velho três oitão, arma padrão da polícia brasileira das antigas.

O clube foi fundado em 1992 por um delegado de polícia de Santa Catarina, Tim de Lima e Silva Hoerhann.

Eu conheci o delegado Tim. Ele é descendente do patrono do Exército, Luiz Alves de Lima e Silva, nosso Duque de Caxias.

Uma pesquisa histórica feita pela família, exibida em quadros no clube, sustenta que ela está no ramo de armas desde o tempo das Cruzadas, dos cristãos  contra os mouros, no século XII.

A linhagem inicia por um certo Ferdinand Brandon, cavaleiro normando, ancestral dos Lima e Silva.

O lado Hoerhann também era de armas:  o delegado Tim descende do fidalgo Miguel, instrutor de artilharia do império austro-húngaro, professor de esgrima de salão e ginástica sueca no… Maranhão!

Mais: em 1904, Miguel assinou o horripilante livro “A esgrima de baioneta”, muito popular na época.

O delegado tem uma mancha inapagável na carreira. Nos anos 80, ele foi encarregado de guardar um pacote de joias de um joalheiro morto num acidente aéreo.

Quando o pacote foi aberto pelas autoridades, havia pedras e até um bloco de concreto. Tim foi punido por negligência, mas as joias jamais reapareceram.

Tim ergueu o 38 num galpão industrial, ao lado da uma oficina mecânica, em local hoje muito valorizado, no bairro Campinas.

O salão de tiros é isolado da rua por uma chapa de aço de 15 milímetros, capaz de deter o chumbo de qualquer das armas ali existentes. Pode abrigar seis atiradores ao mesmo tempo.

Em quase três décadas no anonimato, o local reuniu a nata dos atiradores das redondezas – isto é, quem ama dar tiros, policiais e seguranças de lojas.

Hoje, os  irmãos Tony e Rafael, filhos do delegado, administram o 38. Nenhum deles tem formação militar ou policial, mas se vestem como se estivessem enfrentando tempos pós apocalipse.

Tony (38) é parrudo, luta jiujitsu com os lendários irmãos Gracie e dizem que até ensina os caras.

Tony também dá cursos à polícia da China comunista, treinou a segurança do primeiro ministro – o que faz com que entre no radar como uma possível conexão vermelha.

Mesmo com este currículo de amigo de comunistas, Tony é amigão dos filhos do Bozo.

A amizade começou antes do pai virar candidato. Vem dos tempos em que o Zero 3 entrou na Polícia Federal e fez curso de treinamento com Tony, evoluindo para o clube. O Zero 2 veio junto com o brother.

Tony adquiriu a ojeriza dos Bolsonaros à imprensa e não dá entrevista. Ele fica num salão acima do retrato do duque, espiando pela janela, enquanto o pessoal de marketing da casa fala com o repórter.

O guru civil dos Lima e Silva é Olavo de Carvalho. Recebeu da família a medalha de amigo da família, honraria cunhada pela própria família.

O herói da turma é Troy, um amigo de Tony, da SWAT do estado americano de Oklahoma. Ele vem de tempos em tempos e pá, pum, ensina os nativos a atirar no estilo americano.

Os caras amam muito os States. Tanto que o salão de jogos ostenta uma bandeira americana tamanho gigante, maior do que uma brasileira.

Do outro lado, estão as bandeiras, também gigantes, do xerifado de Oklahoma e do estado de Oklahoma – uma espécie de nirvana para atiradores.

O 38 tem uma lojinha de armas, pequena, mas bem movimentada.

É uma sala com espingardas calibre 12 e revólveres até o 45. Há carabinas AR15 como as usadas pelo exército americano (e pelos traficantes cariocas), numa versão popular, ao custo de 14 mil reais.

O negócio de venda de armas é legal, registrado no Exército. Qualquer um pode entrar, escolher a arma, manuseá-la, dar tiros para testar e sair com uma embaixo do braço, desde que atendida uma pequena burocracia – a casa faz tudo para o cliente.

O negócio só vende armas importadas. Carlos Souza, double de instrutor e vendedor, explica que “as nacionais Rossi e CBC só dão problemas”.

E aí está o tchã do 38: todos os papos giram, naturalmente, em torno de armas. Fala-se do coice que dá uma 12 ao disparar? O vendedor engatilha a arma mesmo sem balas e oferece: “Ouça o clique”, ensina. Pá, bate o gatilho.

Outra rodinha de papo é sobre o revólver Colt 45. Tratava-se de uma réplica, não pude apurar se era chinesa.

Mais papo: alguém viu um meliante num terreno baldio perto das lojas Koerich e queria saber se alguém poderia ir dar uma olhada, mas ninguém se escalou.

O salão de jogos, o mesmo onde está o memorial ao Duque de Caxias, abriga também a mesa de sinuca e um pequeno bar, quase sempre vazio.

“O nosso horário forte é depois do expediente, o pessoal passa por aqui e lota os estandes. Dão uns tiros para relaxar e vão para casa”, explica Carlos.

Como é relaxar dando tiros: a pessoa escolhe as armas (ou traz a sua de casa) e entra no estande de tiro. Bota óculos e protetores de ouvido. Aí, compra um pacote de balas, coloca um meliante de papel como alvo e pipoca nele.

Feito isto, ele recolhe o “morto”, confere os acertos e, se estiver num grupo, vai comentar os furos com os amigos. Se estiver sozinho, pode fazer um discreto gesto de “yes”, com o punho fechado.

Não achei muita gente disposta a puxar papo comigo no 38.

Me senti um zero à esquerda ao comprar o pacote básico calibre 22, com direito a um guaraná e uma barra de cereais, ao preço promocional de 56 reais.

Enchi de balas meu alvo – se fosse um meliante de verdade, estaria no mínimo num hospital, com o peito furado.

Saí do estande para um grupinho de instrutores. O papo era sobre Troy, o americano, com chegada prevista para sábado – era como se Zeus fosse descer do Olimpo.

O pessoal que frequenta a casa tem um figurino mais ou menos padrão, começando por uma botinha 3×4 e calças com bolsos laterais, coldre fabricado no próprio 38, lanterna e faca na cintura.

Surpresa: apesar de SC ter um baixo índice de violência, um em cada 422 habitantes do estado tem uma arma.

Do outro lado do 38, atravessando a avenida, temos o mar, com seu azul profundo.

 

Os tiros que nosso repórter deu foram no alvo
13
Fev21

As conversas com o general Villas Boas (parte 2)

Talis Andrade

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por Denise Assis

- - -

Como um dia cantou Geraldo Vandré: “Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição” … Eis uma questão que jamais foi encarada desde a transição e a redemocratização do país. Agarrados à ideia de que a “revolução” de 1964 “salvou o Brasil do comunismo”, o
oficialato nunca renovou as versões, os discursos e os currículos nas escolas militares e em todas as unidades onde se formam os que por elas passam.  Por isto foi tão “simples”, ir ao “limite da constitucionalidade”, como descreveu o então comandante do Exército, o general Villa Boas, em 2018 -, quando afastou com um “Twitter”, o preferido nas pesquisas para vencer a corrida presidencial -, para mais uma vez guerrear com “moinhos de vento”, tal como os que se bateu o Dom Quixote de La mancha, de Cervantes.

Investido de uma reluzente armadura, Villas Boas arregimentou a cúpula do Exército Brasileiro para “salvar” o país das garras de “Lula, o inimigo número 1”. E fez mais: se arvorou de “arguidor de candidatos”, que hoje não se entende bem por que, atenderam ao seu chamado, indo ao seu gabinete beijar a sua mão e fazer “prova oral”. Lá ouviram teses muito semelhantes às de Bolsonaro, contra o “politicamente correto” e uma “guerra fria”, verdadeira “paranoia” da vida militar. Ao ler sua “exposição de motivos”, chega-se à conclusão de que ele deu um golpe no país em nome de uma pauta “moral”.

 É das manobras desta eleição que ele trata no Capítulo 14 do seu livro, sob o título: “As eleições de 2018 -Tínhamos a preocupação de que a política voltasse a entrar nos quartéis”.Aqui cabe a pergunta: e alguma vez, desde 1964, ela saiu? Pode ser que a partir de 1985 tenha se tornado intramuros, mais discreta, aos cochichos. Talvez. Para entender o que levou o oficialato do Exército Brasileiro a golpear novamente às claras, a política, convém acompanhar o diálogo entre o autor, Celso Castro, e o general.

 

Celso Castro – Ao longo desse período, tínhamos no horizonte as eleições de 2018 e havia uma mobilização política muito grande, que acabou resultando na eleição de Jair Bolsonaro para presidente, o que foi uma surpresa para muita gente. Ele tinha um teto de intenções de voto, mas que depois se transformou no que um colega cientista político chamou de “tsunami eleitoral”, para se referir à onda do bolsonarismo e de uma mobilização política mais à direita. Esse processo político seguia em paralelo ao caminho de uma maior participação dos militares na discussão das questões nacionais. Qual era o risco de esses caminhos se cruzarem ou de serem o mesmo?

VB -Institucionalmente, para nós, é muito clara a linha que separa os dois temas: o das questões nacionais e o dos assuntos político-eleitorais. Bolsonaro deu ênfase ao combate ao politicamente correto, do qual a população estava cansada. A Globo, o reino do politicamente correto, foi o mais importante cabo eleitoral do presidente eleito.

Por muito tempo, foram ignoradas, as questões nacionais e o papel das instituições de Estado. Talvez tenha contribuído para essas omissões a inexistência de um projeto nacional. Entre as décadas de 1930 e 1980, fomos um dos países do mundo ocidental com as maiores taxas de crescimento. Nesse período, existia um sentido de projeto. Havia uma robusta capacidade de realização, aliada a um sentido de grandeza e uma ideologia de desenvolvimento.

A partir de então, a sociedade brasileira cometeu o engano de permitir que a linha de fratura da Guerra Fria criasse uma primeira divisão entre os brasileiros, e lá se foi nossa coesão interna. Nos alinhamos aos objetivos de duas orientações externas, a do mundo ocidental em oposição à de orientação soviética. Nos tornamos, então, vulneráveis a outros fracionamentos que viriam depois, infiltrando-se, oportunistamente, nas brechas encontradas. Insistindo na questão de um projeto para o país, ela se torna a cada dia mais crucial e urgente. Temos sinais de uma nova Guerra Fria se configurando de maneira inevitável, diante do crescimento chinês. As estimativas apontam para cenários em que, até 2030, veremos o PIB nominal chinês equiparar-se ao dos EUA e, segundo o próprio planejamento estratégico dos asiáticos, em 2050 terão consolidado a supremacia mundial. Com vistas nas eleições, convidei os candidatos para conversar. Essa rodada de entrevistas aconteceu antes que as candidaturas fossem oficializadas. Nelas eu expunha temas relativos à importância de reconstrução de um projeto nacional. Discorria sobre a Amazônia, os problemas e as soluções cabíveis e, por fim, tratava da defesa, das Forças Armadas e de questões importantes que lhes dizem respeito. Minha expectativa de que esses assuntos fossem discutidos por ocasião dos debates eleitorais acabaram frustradas. Nos poucos que ocorreram, esses temas não foram provocados pelas emissoras.

(Faltou o general dizer que o seu candidato correu de todos os debates).

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13
Fev21

As conversas com o general Villas Boas (parte 2)

Talis Andrade

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por Denise Assis

- - -

Como um dia cantou Geraldo Vandré: “Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição” … Eis uma questão que jamais foi encarada desde a transição e a redemocratização do país. Agarrados à ideia de que a “revolução” de 1964 “salvou o Brasil do comunismo”, o
oficialato nunca renovou as versões, os discursos e os currículos nas escolas militares e em todas as unidades onde se formam os que por elas passam.  Por isto foi tão “simples”, ir ao “limite da constitucionalidade”, como descreveu o então comandante do Exército, o general Villa Boas, em 2018 -, quando afastou com um “Twitter”, o preferido nas pesquisas para vencer a corrida presidencial -, para mais uma vez guerrear com “moinhos de vento”, tal como os que se bateu o Dom Quixote de La mancha, de Cervantes.

Investido de uma reluzente armadura, Villas Boas arregimentou a cúpula do Exército Brasileiro para “salvar” o país das garras de “Lula, o inimigo número 1”. E fez mais: se arvorou de “arguidor de candidatos”, que hoje não se entende bem por que, atenderam ao seu chamado, indo ao seu gabinete beijar a sua mão e fazer “prova oral”. Lá ouviram teses muito semelhantes às de Bolsonaro, contra o “politicamente correto” e uma “guerra fria”, verdadeira “paranoia” da vida militar. Ao ler sua “exposição de motivos”, chega-se à conclusão de que ele deu um golpe no país em nome de uma pauta “moral”.

 É das manobras desta eleição que ele trata no Capítulo 14 do seu livro, sob o título: “As eleições de 2018 -Tínhamos a preocupação de que a política voltasse a entrar nos quartéis”.Aqui cabe a pergunta: e alguma vez, desde 1964, ela saiu? Pode ser que a partir de 1985 tenha se tornado intramuros, mais discreta, aos cochichos. Talvez. Para entender o que levou o oficialato do Exército Brasileiro a golpear novamente às claras, a política, convém acompanhar o diálogo entre o autor, Celso Castro, e o general.

 

Celso Castro – Ao longo desse período, tínhamos no horizonte as eleições de 2018 e havia uma mobilização política muito grande, que acabou resultando na eleição de Jair Bolsonaro para presidente, o que foi uma surpresa para muita gente. Ele tinha um teto de intenções de voto, mas que depois se transformou no que um colega cientista político chamou de “tsunami eleitoral”, para se referir à onda do bolsonarismo e de uma mobilização política mais à direita. Esse processo político seguia em paralelo ao caminho de uma maior participação dos militares na discussão das questões nacionais. Qual era o risco de esses caminhos se cruzarem ou de serem o mesmo?

VB -Institucionalmente, para nós, é muito clara a linha que separa os dois temas: o das questões nacionais e o dos assuntos político-eleitorais. Bolsonaro deu ênfase ao combate ao politicamente correto, do qual a população estava cansada. A Globo, o reino do politicamente correto, foi o mais importante cabo eleitoral do presidente eleito.

Por muito tempo, foram ignoradas, as questões nacionais e o papel das instituições de Estado. Talvez tenha contribuído para essas omissões a inexistência de um projeto nacional. Entre as décadas de 1930 e 1980, fomos um dos países do mundo ocidental com as maiores taxas de crescimento. Nesse período, existia um sentido de projeto. Havia uma robusta capacidade de realização, aliada a um sentido de grandeza e uma ideologia de desenvolvimento.

A partir de então, a sociedade brasileira cometeu o engano de permitir que a linha de fratura da Guerra Fria criasse uma primeira divisão entre os brasileiros, e lá se foi nossa coesão interna. Nos alinhamos aos objetivos de duas orientações externas, a do mundo ocidental em oposição à de orientação soviética. Nos tornamos, então, vulneráveis a outros fracionamentos que viriam depois, infiltrando-se, oportunistamente, nas brechas encontradas. Insistindo na questão de um projeto para o país, ela se torna a cada dia mais crucial e urgente. Temos sinais de uma nova Guerra Fria se configurando de maneira inevitável, diante do crescimento chinês. As estimativas apontam para cenários em que, até 2030, veremos o PIB nominal chinês equiparar-se ao dos EUA e, segundo o próprio planejamento estratégico dos asiáticos, em 2050 terão consolidado a supremacia mundial. Com vistas nas eleições, convidei os candidatos para conversar. Essa rodada de entrevistas aconteceu antes que as candidaturas fossem oficializadas. Nelas eu expunha temas relativos à importância de reconstrução de um projeto nacional. Discorria sobre a Amazônia, os problemas e as soluções cabíveis e, por fim, tratava da defesa, das Forças Armadas e de questões importantes que lhes dizem respeito. Minha expectativa de que esses assuntos fossem discutidos por ocasião dos debates eleitorais acabaram frustradas. Nos poucos que ocorreram, esses temas não foram provocados pelas emissoras.

(Faltou o general dizer que o seu candidato correu de todos os debates).

 

 
29
Nov20

"O povo na rua só fala do debate de ontem". Veja o vídeo

Talis Andrade
 
Manuela 65
@ManuelaDavila
Agradeço todo carinho q recebo nas ruas e o brilho no olho de cada um de vcs. Sei q estão cansados do abandono, da tristeza q tomou conta da cidade nos últimos anos. Mas, só nós temos o poder de transformar Porto Alegre, tudo depende do teu voto. Amanhã é 65
Manuela 65
@ManuelaDavila
Vamos Porto Alegre
Lembrem-se que cada voto importa, então vamos virar voto até o último minuto! #vira65 
Manuela 65
@ManuelaDavila
Os mesmos de sempre passaram mais de 10 anos na prefeitura e a burocracia não diminuiu. Nossa cidade pede mudança para se desenvolver. Vamos juntos. Agora é 65 #vira65 #AgoraÉManuela65 
Manuela 65
@ManuelaDavila
A onda da virada, da mudança e da esperança está tomando conta das ruas. Coloca teu adesivo, pega bandeira, n esquece álcool gel e máscara e vamos fazer um lindo movimento para devolver Porto Alegre pra as pessoas.
Manuela 65
@ManuelaDavila
Enquanto isso, o caminhão do adversário passa falando que vou permitir que comam carne de cachorro. Esse é o nível. E um escândalo o que Porto Alegre está vendo desfilar pelas ruas nos últimos dias!

 
28
Nov20

“Não temos porque ter medo de mudar”, diz Manuela em último debate

Talis Andrade

 

 

O último debate das eleições 2020, realizado na noite desta sexta-feira (27) pela RBS TV,  afiliada da Rede Globo, consolidou de vez a diferença entre os candidatos à Prefeitura de Porto Alegre, Manuela d’Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB).

Mais do que um embate de ideias, o debate explicitou a segurança e o preparo de Manuela, que mostrou conhecer a cidade, seus problemas e apresentou soluções factíveis para resolvê-los, além de deixar patente a diferença de projetos.

Independentemente de posições políticas e ideológicas, é preciso reconhecer — e o vídeo está disponível abaixo para quem quiser checar: Manuela desbancou o adversário sem nenhum tipo de rebaixamento, com civilidade, mostrando que a política é uma arte que pressupões diálogo, divergência respeitosa e que pode ser um instrumento de transformação positiva da vida das pessoas.

“Não temos porque ter medo de mudar. Temos de ter medo de continuar da mesma maneira, com crianças nas sinaleiras, sem vagas nas creches, com as pessoas sem trabalho e renda. Sou candidata a garantir que Porto Alegre retome sua atividade econômica, com microcrédito, trabalho e renda para nossas mulheres e nossos homens. Mas sei que vivemos uma situação dramática. Há pessoas que voltaram a passar fome, há crianças trabalhando e e eu garantirei esse olhar atento às pessoas que mais precisam”, disse Manuela em suas considerações finais.

A candidata ainda acrescentou: “Quero governar para todos, de verdade. E todos são as pessoas que vivem em todos os bairros. Somos nós, mulheres, que jamais governamos Porto Alegre mesmo que estejamos na linha de frente da saúde, da educação e da assistência, as áreas mais importantes da cidade. Quero ter a possibilidade de ser a primeira prefeita de Porto Alegre porque sei que a política pode mudar a vida das pessoas. Para isso, nós precisamos construir um caminho novo. Chega dos mesmos de sempre”.

Ao longo do debate, Manuela reafirmou seus compromissos com a resolução de alguns dos principais problemas da cidade. Questionada pelo seu adversário a respeito de parcerias público-privadas na área do saneamento, Manuela destacou: “Sou frontalmente contrária à parceria público-privada no Dmae. Em primeiro lugar, porque o Dmae é superavitário. Só no ano passado, foram mais de R$ 150 milhões que ficaram em caixa. Em segundo lugar porque as experiências nos mostram que a água fica mais cara”. Para aumentar o financiamento do setor e possibilitar que sejam feitas as obras necessárias, Manuela defendeu a formação de um banco de projetos para fazer captação de recursos nacionais e internacionais.

Fake news

Tema que esteve em alta na disputa em Porto Alegre devido ao volume de mentiras veiculadas a respeito da candidata e que renderam a ela vitórias no âmbito jurídico, as fake news também estiveram em pauta.

Manuela disse, dirigindo-se a Melo: “Tenho tentado, exaustivamente, falar sobre a cidade com o senhor. O senhor sabe que no seu programa de televisão teve que apresentar um direito de resposta meu porque mentiu que a minha candidatura espalhou mentiras contra o senhor. Hoje saiu um estudo nacional que aponta que 90% das ofensas na internet no segundo turno foram dirigidas a mim e a minha candidatura. Eu quero debater Porto Alegre e isso para mim significa enfrentar a cultura do ódio criada a partir do governo do presidente Bolsonaro que estimula a violência contra a mulher, contra negros e negras”.

Manuela colocou ainda: “acredito que debater Porto Alegre é, também, oferecer o exemplo. Precisamos dar o exemplo para as nossas filhas e filhos de que a política não precisa ser o espaço da violência, que a política pode ser espaço de confronto de ideias”.

Desigualdade

Sobre as desigualdades na cidade, Manuela salientou: “Eu quero ser uma prefeita para todos e isso significa reconhecer a desigualdade da nossa cidade; significa levantar forma a voz contra aqueles que fazem de conta que a cidade é um ambiente igual. Não é igual viver no centro, na zona sul dos ricos ou na zona norte. Não é igual ser uma mulher sem vaga na creche e alguém que vive perto da Auxiliadora ou na Redenção”, disse, mencionando bairros de classe média alta da cidade.

“Bicho-papão do comunismo”

Em outro momento do debate, quando o adversário tratou de questões ideológicas, Manuela rebateu: “Melo, estou feliz porque finalmente tu trouxestes o ‘bicho-papão do comunismo’ para o debate. Quero que o senhor e a senhora em casa comparem as nossas experiências. O meu partido governa o Maranhão, pegou o estado destruído pelo teu partido, pelo PMDB do Sarney. Lá, as escolas eram de barro. E o governador do meu partido, o Partido Comunista do Brasil, foi o único governador do Brasil que superou Leonel Brizola no número de escolas construídas”.

E agregou: “Lá, nós tivemos o maior crescimento econômico do Nordeste e o Maranhão foi o estado que mais gerou emprego durante a pandemia. Um negócio, para abrir no Maranhão, leva seis horas. Foi difícil recuperar depois do estrago que o MDB do Sarney, o teu partido, fez, mas nós estamos conseguindo. Querem assustar o senhor porque há muitos interesses  no acordão da prefeitura. Não caia nesse papo”, disse Manuela, dirigindo-se aos eleitores.

Pandemia

Com relação à pandemia, Manuela disse: “Sou candidata a garantir que Porto Alegre não feche e é para isso que desde o primeiro dia da eleição, apenas eu e o Fortunati falávamos sobre a gestão própria da vacina. Precisamos imediatamente, ainda na transição, ir a São Paulo, discutir com o Butantan, garantir os insumos e a câmara fria para que a vacina seja conservada. Precisamos garantir que a vacina chegue logo que ela existir. Precisamos também garantir que a população seja testada. O teste dirigido e a atenção primária, as brigadas com nossos agentes comunitários, com as equipes do Imesf e das contratualizadas, é isso que garante que o povo tenha saúde”.

Segurança e emprego

Quando o assunto foi segurança pública, Manuela destacou, entre outras ações, medidas dirigidas ao combate à violência contra a mulher. “Quero estabelecer três casas de acolhimento para mulheres (vítimas de violência) e fazer com que a nossa Guarda Municipal crie a patrulha Guardiã da Penha, para assegurar às mulheres medidas de proteção”.

Manuela também falou sobre políticas de geração de emprego e renda na cidade.

Uma das medidas que defende é o microcrédito. “Sabemos que hoje milhares de pessoas nas comunidades empreendem”, disse, lembrando dos pequenos negócios, como os salões de beleza e as mulheres que fazem doces e bolos. “Precisamos garantir crédito para que essas pessoas enfrentem o que a crise de 2020 trouxe. A outra política é transformar as compras públicas municipais num instrumento de desenvolvimento econômico local”.

Moradia e educação

Sobre moradia, Manuela enfatizou: “Temos um projeto bastante ousado. Sabemos que existem 800 áreas que podem ser regularizadas na cidade e quero um Demhab (Departamento Municipal de Habitação) forte para garantir o maior plano de habitação de interesse social da nossa cidade. As áreas que são do município vão deixar de ter despejos e vão passar a ter titulação. As áreas que forem do Estado e da União quero negociar para que a gente possa fazer a regularização fundiária”. Ela propõe também que sejam ocupados 500 imóveis da prefeitura aptos para a moradia que estão abandonados.

Na área da educação, entre outros pontos, Manuela colocou: “Eu sou mulher e sou mãe e alguns esforços da administração eu quero conduzir pessoalmente. O primeiro deles é garantir que todas as crianças de 4 e 5 anos estejam matriculadas na educação infantil. É o que a lei diz e o que nós temos que cumprir”.

09
Abr19

Moro propôs ações “inconstitucionais, inadequadas e inoportunas”, diz Conselho da OAB

Talis Andrade

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Jornal GGN – O Conselho Federal da OAB reuniu estudos e pareceres de advogados, professores criminalistas, institutos especializados e aprovou, por “unanimidade”, oposição a vários pontos do pacote anticrime apresentado ao Congresso pelo ministro da Segurança Pública, Sergio Moro.

Entre os destaques das propostas rejeitadas estão: execução antecipada da pena, execução antecipada das decisões do Tribunal do Júri, modificações nos embargos infringentes, mudanças no instituto da legítima defesa, em especial aos agentes de segurança pública, alterações no regime da prescrição, mudanças no regime de cumprimento de pena, mudanças em relação ao crime de resistência, criação do confisco alargado, acordo penal (plea bargain) e interceptação de advogados em parlatório.

“O Conselho, com base nos amplos estudos que recebeu, considerou as propostas inconstitucionais, inadequadas e inoportunas, sugerindo alternativas ao enfrentamento da criminalidade e da corrupção.”

Em relação a outros temas, foi recomendado o debate aprofundado na Câmara dos Deputados e Senado Federal, em conjunto com outros projetos já em tramitação, em especial o Novo Código de Processo Penal. “A ideia é que o Poder Legislativo promova um amplo debate nacional prévio à votação dos projetos de lei, em razão da importância social e repercussão jurídica das matérias.”

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02
Dez18

Eleições e(m) diálogo: travessia entre o autoritarismo e a democracia

Talis Andrade

Por Emerson de Lima Pinto e Frederico Pessoa da Silva

— Professor, o senhor parece um pouco incomodado. Qual o problema? As eleições?

 

— Não, meu caro. Eleições jamais podem ser compreendidas como um problema, mas como um processo constante de aperfeiçoamento do exercício da cidadania e uma oportunidade de aprimorarmos enquanto povo a qualidade da deliberação (e compreensão da) política. O resultado de uma eleição é sempre contextual e determinado a partir da vontade de uma maioria eventual. A questão que me coloca a refletir foi a forma pela qual o processo político em curso se deu em nosso país e o papel que todos exercemos e passaremos a exercer no período futuro.

 

— Mas o senhor teria como deixar mais claro o que está querendo nos dizer?

 

— Vejam, darei um exemplo: ao longo dos últimos tempos, notei manifestações de ex-alunos, colegas e conhecidos que esqueceram a participação fundamental da classe dos juristas na defesa e construção da democracia, manifestações de pessoas que parecem ao mesmo tempo ter esquecido do papel que nossa classe exerceu (não apenas no Brasil como no mundo inteiro) — e pode vir a exercer novamente — em desfavor dessa mesma democracia. Vejam, não estudamos a historia constitucional brasileira, bem como a comparada, para ignorarmos as duras lições sobre como se instituem e sustentam regimes autoritários ou ditatoriais e como esses sistemas políticos desprezaram o respeito às liberdades e aos direitos humanos. Incomoda como essas discussões substanciais à vida comunitária sucumbiram rapidamente num horizonte político obscurecido e empobrecido intelectualmente. O debate de projetos políticos é essencial aos regimes democráticos e sua infantilização torna nossa frágil democracia capaz de ser subtraída ideologicamente.

 

— Mas, professor, alguns professores também defenderam ideias diferentes no plano político nessas eleições?

 

— Claro que sim, é legitimo que defendam seus interesses de classe ou sua consciência de classe, isso é natural e é da vida. O problema não é o jurista colocar-se em ação na defesa de projetos políticos e sociais de esquerda, centro ou direita, ou qualquer conceito que se coloque no meio destes, contudo, brutal é qualquer saída de índole autoritária permeada por discursos antidemocráticos, discursos que se sustentam no medo e no ódio. No entanto, não acredito que professores de Direito tenham defendido teses contra direitos humanos e direitos de minoria ou tenham tido uma visão revisionista da ditadura civil-militar de 1964, da ditadura varguista do Estado Novo, ou, ainda, no plano internacional, justificando a violação de direitos humanos na Turquia ou em Guantánamo (tivemos direito a, inclusive, negacionistas da escravidão).

 

— E o papel do Poder Judiciário agora, professor, como será?

 

— O Poder Judiciário nas democracias contemporâneas cumpre um papel fundamental contramajoritário[1] de guarda da Constituição, assim devia e assim deve ser. O Judiciário é a corda que nos prende ao mastro em momentos nos quais o canto das maiorias vai de encontro à ordem constitucional vigente. Nada pode mudar com relação a isso. Me assusta a ideia de que juristas, cidadãos que (em tese) foram lapidados durante cinco anos para compor e contribuir para o engrandecimento de instituições com essa característica essencial, tenham optado por uma via autoritária. E nem estou falando apenas do segundo turno. O discurso já estava aí antes mesmo de as urnas do primeiro turno serem postas. Podemos, talvez, antecipar um detalhe: o reconhecimento de direitos no plano político e jurídico de minorias, considerando a violência discursiva que parece ter tomado conta de boa parte de nossas instituições políticas e que tende a se tornar concreta quando a autoridade legitima discursos de exclusão e ódio, será uma responsabilidade ainda mais delicada do que já era para o Poder Judiciário, que terá uma tarefa dificílima de discernir quando agir e quando não agir no atual contexto em que não se trata mais de compreender o que as regras do jogo democrático exigem, mas impedir que esse jogo dissolva-se.

 

— Mas, professor, essa é a nossa realidade a partir de agora, assim é a democracia ou não?

 

— De fato. E por isso creio que nunca foi tão importante estudarmos mais na academia. E quando eu digo estudar, quero dizer lermos mais os clássicos e os grandes autores contemporâneos. A doutrina jurídica, política e filosófica nunca se tornou tão importante para os juristas como hoje. Precisamos rapidamente desmistificar instrumentos de informação que se tornaram simplificações de conteúdos, quando não propagam informações inverídicas. As fronteiras entre a religião e o Estado nunca estiveram tão confusas no período republicano como atualmente. Contudo, meus caros alunos e alunas, é em períodos de crise que temos a oportunidade de nos tornarmos bem melhores e, no nosso caso, mais humanos frente aos desafios.

 

Lembro que o professor Lenio Streck dialoga bem com o fato de que a hermenêutica seja a propositura de se dizer a maneira de viver que resulta das circunstâncias em que cada um se acha, e não meros métodos científicos. O intérprete, se fora da tradição do texto proposto, seria impensável sua indução ao sentido que a norma busca repassar (STRECK, 1999, p.187). Ainda em mesmo sentido discute Gadamer que o ser compreende aquilo que esta em seu horizonte avaliativo, e deste círculo não pode escapar, mesmo os horizontes sendo alargados e sua opinião mudando no tempo. Com o alargamento da esfera do conhecimento, abre-se o conceito da tradição, comunicando-se com maior fonte de verdade e liberdades (STEIN, 1987, p. 107-8). Precisamos abrir os horizontes de sentido cada vez mais nas faculdades de Direito para a vida democrática que assegure tanto as liberdades quanto os direitos sociais.

 

Aos professores de Direito caberá cada vez mais aprofundar o diálogo em sala de aula[2] e, talvez, o velho modelo da tolerância deva ser superado pelo modelo da alteridade em sala. A tolerância foi uma grande conquista do pensamento liberal, porém, enquanto paradigma, deve ser superado pela alteridade a fim de compreendermos o outro enquanto outro. Não é possível nos colocarmos no lugar do outro, entretanto, temos o dever de respeitarmos o outro enquanto outro, e a partir daí estabelecermos uma relação dialógica que construa novas pontes e que permita a apropriação de conhecimento. Somente pelo conhecimento poderemos superar as dificuldades que a ignorância (de ignorar) vem trazendo ao nosso país. Acima de tudo, com tranquilidade, paciência e sabedoria para nos colocarmos ao lado dos estudantes com intuito de desvendarmos o que é conhecimento e o que é crença ou convicção. Devemos gradualmente e constantemente indicarmos as diferenças desses conceitos por meio de um autêntico dialogo gadameriano.

 

— Mas, professor, isso não é um papel ideológico? Será que isso cabe em sala de aula, isso não é doutrinação?[3]

 

— Não, meu caro, isso é responsabilidade pedagógica e exercício da liberdade de cátedra e está bem presente em nossa Constituição. Aliás, alguns esqueceram disso e o STF há pouco tempo relembrou-os ao referendar a liminar da ministra Cármem Lúcia, nos autos da ADPF 548. Ainda, vale lembrar o HC 40.910, de agosto de 1964 (sim, no início da nossa ditadura civil-militar), citado no voto do ministro Ricardo Lewandowski, deferido para trancar uma AP contra um professor universitário que incentivou seus alunos — distribuindo panfletos — a manterem-se firmes em defesa das liberdades e da democracia.

 

Com o auxílio da hermenêutica filosófica, especialmente retrabalhada pela Crítica Hermenêutica do Direito do professor Lenio Streck — imbricando Gadamer e Dworkin — nas aulas de Direito, além de afirmar que não há um conhecimento neutro, é possível denunciar a pretensão de neutralidade dos discursos científico-filosóficos e, agora, políticos. A verdade histórica vem de um distante passado, interrogado à luz do presente que reconhecemos, podemos ampliar nossos horizontes e contribuir para a humanização e democratização de nossas relações políticas, acadêmicas, institucionais e particulares. Nesse momento, nosso passado nos assombra perigosamente.

 

— Como, professor, podemos agir nessa situação e buscarmos a realização de um país melhor, mais justo e igualitário?

 

— Estudando, meus queridos alunos e queridas alunas. Estudando mais e melhor! É a vida que escolhemos abraçar. Afinal, cabe relembrar que no diálogo hermenêutico a técnica não pode resultar num fim em si mesmo, de tal modo que prescinda da compreensão do sentido a que técnica pré-exista, uma vez que na sociedade contemporânea (re)organiza-se e (re)orienta-se por meio de uma postura ética que adote uma conduta investigativa fundada na racionalidade prática que (re)aproxime o saber teórico e sua aplicação prática de modo a estimular o interligar entre a ciência, a técnica e o humano na preservação e construção do Estado Democrático de Direito para além da ascensão do subjetivismo.

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[1] Para um breve rememorar da construção deste papel contramajoritário do Poder Judiciário, ver aqui coluna escrita por Frederico Pessoa da Silva e Ziel Ferreira Lopes.
[2] Sobre um repensar do modo como pensamos o debate jurídico na Academia, ver aqui excelente coluna escrita por Ziel Ferreira Lopes a esse respeito.
[3] Ler também a coluna do professor Lenio Streck sobre o tema Escola sem partido. Não é a única sobre, pois o tema exige combatividade, mas serve como iniciação à crítica do ilustre professor.

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28
Out18

Sexo, mentiras e violência: cenas de uma campanha inflamada até a reta final

Talis Andrade

 

 

 

por Gil Alessi

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A revolução do WhatsApp

whatsapp nacho doce reuters.jpg

NACHO DOCE REUTERS
 

Independentemente das causas que fizeram com que Bolsonaro se esquivasse do debate com Haddad após ser liberado pelos médicos, houve uma arena na qual a o capitão reinou supremo.

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Nas redes sociais e grupos de WhatsApp sua campanha foi avassaladora e deixou os adversários a ver navios. Usando os aplicativos de troca de mensagens, a tropa de choque do militar da reserva composta por familiares, parlamentares aliados e apoiadores construiu uma complexa rede de troca de informações que desnorteou os adversários.

Fake news

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Estas foram as eleições das fake news. A campanha e os apoiadores de Bolsonaro seguiram um modelo semelhante ao posto em prática pela campanha de Trump com o auxílio de Steve Bannon, estrategista político americano com quem o filho do capitão chegou a se reunir. Com vídeos curtos, montagens e memes, os simpatizantes do peeselista conseguiram atingir em cheio o rival petista, com mentiras que beiravam o absurdo mirando sempre os chamados “bons costumes” da “família tradicional brasileira”. Os boatos iam de “Haddad defende a legalização da pedofilia com crianças acima de 12 anos de idade” até “Petista tem seguranças do Exército cubano”. Haddad, que criticou o volume de notícias falsas em circulação, chegou ele mesmo a propagar algumas, como a de que o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, teria sido torturados na época da ditadura. A gafe veio depois de o cantor Geraldo Azevedo chegou a afirmar que o vice do exmilitar teria sido um de seus torturadores quando foi preso pela ditadura. Mas Azevedo acabou voltando atrás e pediu desculpas. Seus seguidores também fomentaram as correntes de fake news, espalhando, por exemplo, que Bolsonaro não teria sido esfaqueado, e sim alvo de uma cirurgia de câncer de estômago.

Justiça sem ação

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Despreparados para lidar com este fenômeno em tal magnitude, o Judiciário admitiu que não sabia lidar com fake news. A ministra Rosa Weber, presidenta do Tribunal Superior Eleitoral, chegou a afirmar que gostaria "imensamente que houvesse uma solução pronta e eficaz (...), mas de fato, não temos". A magistrada ainda fez um apelo, dizendo que quem tiver "uma solução para que se coíbam fake news, por favor, nos apresentem. Nós ainda não descobrimos o milagre”.

Violência

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O Brasil sempre foi famoso por episódios de violência eleitoral. Mas este ano, com a polarização política atingindo o ápice, os casos de agressões, assédio e até morte provocados por ódio a um ou outro dos candidatos se popularizaram. 

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Foram mais de 50 casos documentados em um período de 10 dias, grande parte dos crimes cometida por simpatizantes de Jair Bolsonaro. O mestre de capoeira Moa do Katendê, 63, foi assassinado em Salvador com mais de dez facadas nas costas na madrugada após o primeiro turno, dia 8 de outubro. O autor do crime teria, segundo testemunhas, se irritado quando Moa declarou ter votado no PT. Por todo o país casos de agressão provocada por intolerância política se propagaram, e pessoas foram atacadas por usar boné do Movimento dos Sem Terra e até adesivos da campanha #EleNão. Bolsonaro condenou qualquer ato de violência, mas a retórica agressiva usada por ele ("vamos varrer do mapa os vermelhos", disse o capitão em um ato de campanha) foi apontada como combustível para seus simpatizantes.

A reinvenção da campanha eleitoral

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O WhatsApp e o Facebook assumiram o papel de principal plataforma da propaganda este ano, deixando para trás o chamado palanque eletrônico no rádio e na TV. O horário eleitoral televisivo, tido como um pilar de todas as campanhas desde a democratização e responsável por alianças partidárias pouco republicanas, perdeu peso. Prova disso é que Bolsonaro teve apenas 8 segundos e foi ao segundo turno. Já Geraldo Alckmin (PSDB) com seus 4 minutos e 46 segundos de propaganda diária (quase 44% do total) era tido como um dos favoritos para ir ao segundo turno. Ficou em quarto colocado. Marina Silva (Rede), que em 2014 obteve mais de 22 milhões de votos no primeiro turno, ficando na terceira colocação, este ano derreteu e ficou com pouco mais de um milhão de votos. Transcrevi trechos

 

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19
Out18

'Temos 11 dias para vencer um candidato mentiroso que idolatra Brilhante Ustra'

Talis Andrade

Manuela D'Ávila denuncia a campanha de fake news dos mentirosos Jair Bolsonaro e general Hamilton Mourão

 

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Questionada sobre o motivo de Bolsonaro atrair votos das mulheres, ela foi taxativa: 'porque ele é um mentiroso. Nunca antes se viu isso na história das eleições. Escuto absurdos a meu respeito. Deve ter milhões de dólares para garantir espalhar tantas fake news. São mentiras absurdas, como a história do kit gay'.

 

Ela também subiu o tom das críticas ao falar sobre o perfil político do adversário que, segundo ela, não teria condições de tocar um governo e reverter a atual situação de crise do Brasil.

 

Sobre a geração de empregos, Manuela afirmou que, em 28 anos como parlamentar, ele nunca aprovou nada, e, por isso, ‘não sabe o que vai fazer com nada’.

 

A candidata fez questão de destacar que o candidato do PSL sequer aceita participar de um debate. 'Seria ótimo que ele tivesse a hombridade de participar'. O mesmo recado foi dado a Mourão: 'Quero que ele mostre quem são as mulheres desajustadas', afirmou, em relação a declaração de Mourão de que famílias sem pai e mãe, com estrutura tradicional, forma desajustados. 'Eles são baixos e sujos. Não acredito que quem usa criança para fazer política tem condição de governar o Brasil'.

 

A candidata fez menção, de forma recorrente, às palavras democracia e liberdade. Em certo trecho da conversa com os jornalistas, rejeitou a ideia de que uma vitória petista representaria uma interferência no Judiciário, por exemplo. ‘Todos sabem que nos anos de governo do PT não houve isso’, declarou, em alusão ao ex-presidente Lula e à ex-presidente Dilma. ‘A democracia e a liberdade são o que nos move agora.'

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19
Out18

Ku Klux Klan motiva bate-boca entre Haddad e Bolsonaro no Twitter

Talis Andrade

 

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Os dois candidatos à Presidência que disputam o segundo turno trocaram mensagens no Twitter

 

 "Meu adversário também está compondo com aliados e somando forças. Hoje ele recebeu o apoio da Ku Klux Klan...", provocou o candidato do PT, Fernando Haddad.

 

O bate-boca entre os presidenciáveis foi provocado pelo fato de o ex-líder do KKK David Duke ter feito comentários sobre o candidato do PSL em seu programa de rádio nos Estados Unidos e também em sua conta no Twitter.

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Um dos mais conhecidos defensores da supremacia branca, apoiador de Donald Trump, Duke compartilhou no Twitter um vídeo antigo de Bolsonaro, com legendas em inglês, no qual o deputado discursa, em comissão da Câmara, contra a educação de gênero na escola pública.

 

No vídeo, Bolsonaro diz que "canalhas e covardes estão emboscando crianças nas escolas" com um suposto programa de governo (do PT à época) que previa a "desconstrução da heteronormatividade" e "a esculhambação da família". A postagem de Duke tem o seguinte título: "Bolsonaro prestes a conquistar a presidência do Brasil em 28 de outubro. (Você) precisa assistir!"

 

No seu programa de rádio, o ex-KKK, depois de elogiar Bolsonaro como candidato forte e nacionalista, diz que ele "é branco como um europeu". Afirma ainda que Bolsonaro "está falando sobre o desastre demográfico que existe no Brasil e a enorme criminalidade que existe ali", dando como exemplo "bairros negros do Rio de Janeiro".

 

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Além de discutirem no Twitter sobre a KKK, os presidenciáveis trocaram farpas sobre a realização de debates no segundo turno da disputa presidencial. Em resposta a uma publicação de Bolsonaro, que chamou Haddad de “fantoche de corrupto”, o candidato petista chamou o adversário para o debate. “Tuitar e fazer live é fácil, deputado. Vamos debater frente a frente, com educação, em uma enfermaria se precisar”.

 

Bolsonaro respondeu dizendo que “quem conversa com poste é bêbado”. 

 

Haddad respondeu com a foto de uma bancada de debate vazia e a frase: "Te espero aqui, deputado".

 

 

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