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15
Out23

Quase metade dos moradores de Gaza tem menos de 18 anos; as razões por trás da população jovem

Talis Andrade
Criança palestina

CRÉDITO, GETTY IMAGES Fatores culturais, geográficos e políticos contribuem para alta natalidade em Gaza


  • por Giulia Granchi
  • BBC News Brasil em Londres

 

Segundo as autoridades palestinas, crianças da Faixa da Gaza são um terço das vítimas no atual conflito entre Hamas e Israel.

Com uma média de idade de 18 anos, a população de Gaza está entre as mais jovens do mundo — quase metade dos moradores, 47%, são jovens de até 17 anos, de acordo com o Palestinian Central Bureau of Statistics (Escritório Central de Estatísticas Palestino, em português).

A expectativa de vida em Gaza é de 73 anos, o que é relativamente alta em comparação com outros países árabes.

No entanto, devido à manutenção de uma taxa de natalidade muito alta nos últimos anos, a população de Gaza cresceu consideravelmente e, em pouco mais de uma década, cerca de um quarto da população tornou-se significativamente mais jovem.

"A natalidade entre a população palestina é elevada há bastante tempo. Diminuiu um pouco, como se espera pela tendência mundial, mas continua muito alta", diz David Coleman, professor emérito de demografia na Universidade de Oxford à BBC News Brasil.

"No passado, estimativas apontavam que a taxa de natalidade em Gaza era equivalente a 7 ou 8 filhos por mulher, o que era tão alto quanto as maiores taxas encontradas no mundo. Essa taxa diminuiu e é estimada em cerca de 4 filhos atualmente."

Para comparação, de acordo com dados da Divisão de População das Nações Unidas, a taxa de fecundidade global em 2019 era de cerca de 2,5 filhos por mulher.

gráfico que mostra a idade da população de Gaza
 

Um ponto curioso – e contraintuitivo –, segundo os especialistas consultados pela reportagem, é o fato de a natalidade continuar elevada, embora os níveis gerais de educação tenham melhorado na região.

"Em outros países do mundo, observamos a relação direta entre a melhora da educação e a queda de nascimentos. Embora isso tenha acontecido em parte em Gaza, a taxa ainda é bastante alta", aponta Michael R. Fischbach, Professor de História na Randolph-Macon College, especializado no conflito árabe-israelense.

Em geral, os palestinos apresentam altos níveis de alfabetização. Entre aqueles com 15 anos ou mais, a taxa é de 92% para os homens e 80% para as mulheres, segundo o Gabinete Central de Estatísticas Palestino. Os dados também apontam um aumento na alfabetização e formação em nível superior.

O território, controlado pelo Hamas, é também densamente povoado, com cerca de 5.829 pessoas por quilômetro quadrado, de acordo com dados do The World Fact Book produzido pela CIA, a agência de inteligência americana.

Abaixo, especialistas avaliam as razões que podem contribuir para uma população tão jovem na região.

Crianças palestinas reagem ao som de uma bomba israelense

CRÉDITO, GETTY IMAGEM Razão de tantos nascimentos em Gaza é, em parte, política, na avaliação do professor David Coleman

 

Razões políticas e imigração quase inexistente

Em uma região onde a imigração é baixa devido às restrições nas fronteiras e à falta de apelo por condições de vida precárias, Gaza não costuma receber novos moradores de outros países — fazendo com que a cultura local seja predominante.

Na avaliação do professor David Coleman, a razão de tantos nascimentos na região é, em parte, política.

"Não creio que esteja relacionada às razões usuais, como atraso econômico, analfabetismo ou relações muito desiguais entre os sexos, que é a explicação comum para as altas taxas de natalidade nas partes mais pobres do mundo."

"Em Gaza especificamente as famílias relutam em limitar sua população, sua fertilidade, porque se veem como parte de uma luta contra Israel e contra a dominação israelense", diz ele, afirmando que essa opinião é controversa e nem todos os estudiosos do tema acreditam que seja uma das razões.

"Particularmente, eu imaginaria que isso os torna mais vulneráveis em meio à ataques, já que crianças, principalmente as mais novas, não conseguem cuidar de si próprias e dependem de cuidados especiais."

O historiador Michael Fischbach, concorda que, embora não seja algo bem documentado, pode haver uma questão cultural que liga o crescimento da família a uma ideia de resistência e afirmação do povo palestino como uma ideia de se proteger de ataques.

A suposta capacidade de jovens — especialmente do sexo masculino — para trazer subsistência as famílias, tem sido um argumento usado em algumas pesquisas.

A ideia, no entanto, já foi revogada por estudiosos do tema, já que a taxa de desemprego, mesmo entre homens, que compõem a maior parte da força laboral, é alta.

Segundo o Gabinete Central de Estatísticas da Palestina, em 2020, 53% dos jovens palestinos estavam desocupados (não estudavam nem trabalhavam).

Um menino palestino procura itens recuperáveis entre os escombros de um prédio destruído após os ataques aéreos israelenses noturnos em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 9 de outubro de 2023

CRÉDITO, GETTY IMAGES Um menino palestino procura itens recuperáveis entre os escombros de um prédio destruído após os ataques aéreos israelenses noturnos em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 9 de outubro de 2023

 

Falta de acesso à contraceptivos e outros fatores de planejamento familiar

A falta de uso de métodos contraceptivos por diferentes razões é uma das causas da alta natalidade, e por consequência, população jovem de Gaza.

O grupo islâmico Hamas controla a Faixa de Gaza desde 2007 e assumiu o controle das instituições remanescentes, antes sob comando da Autoridade Nacional Palestina.

Oficialmente, o Hamas governa seguindo os princípios da sharia (lei islâmica), controlando a forma como as mulheres se vestem e, nos primeiros anos no poder, chegou a impor a segregação de gênero em público.

Em teoria, os métodos anticonceptivos são permitidos para controlar a quantidade de gestações e para proteger a saúde das mulheres, mas não podem ser usados para impedir completamente os nascimentos. Métodos irreversíveis, como laqueadura, são proibidos.

Na prática, segundo os especialistas ouvidos, a aplicação depende da interpretação que as famílias fazem das regras e de sua maior ou menor adesão aos preceitos religiosos.

A falta de informação e crenças equivocadas sobre os métodos são considerados fatores importantes que prejudicam o controle da natalidade, de acordo com um estudo publicado no BMC Women's Health.

Segundo a pesquisa, os homens desempenham um papel significativo na escolha do método contraceptivo, porém, devido à falta de acesso a informações, podem impressões falsas sobre os métodos.

"Em algumas famílias, pode haver dinâmicas desiguais entre os sexos. Apesar de as mulheres carregarem os filhos em seus ventres, muitas vezes opiniões dos maridos podem prevalecer sobre as das esposas. É especulativo da minha parte, mas considero essa possibilidade porque tais dinâmicas são bastante comuns em todo o mundo", comenta David Coleman, de Oxford.

Outro estudo, feito pela UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), chegou a conclusões semelhantes, adicionando ainda a falta de conhecimento dos próprios profissionais de saúde sobre métodos contraceptivos de longa duração como o DIU.

"Além disso, o bloqueio que Gaza enfrenta, especialmente por parte de Israel e Egito, muitas vezes torna contraceptivos de diferentes tipos e outros materiais de saúde indisponíveis", aponta o historiador Michael Fischbach.

De acordo com uma publicação do OCHA (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) feita em 2019, naquele ano, dois produtos essenciais de planejamento familiar, pílulas de progesterona e preservativos masculinos, não estavam disponíveis para nenhuma parte da população.

O documento mostra que a falta geral de materiais não só contribui para gestações não-planejadas, mas também põe em risco a saúde de gestantes e bebês.

"A contínua falta de estoque de produtos farmacêuticos essenciais para a saúde materno-infantil e de produtos descartáveis ​​afeta significativamente os serviços e coloca cada vez mais mulheres grávidas e recém-nascidos em risco de incapacidade e morte."

Além de fornecer os dados, a publicação cita a história de Sahar Al Nabaheen, que aos 31 anos, mora com o marido e os seis filhos no campo de refugiados Al Bureij, na região central de Gaza.

"Três das gestações de Sahar não foram planejadas devido à falta de contraceptivos disponíveis. Como ela e o marido não conseguem encontrar trabalho, a sua família de oito pessoas vive sem rendimentos."

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