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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

11
Out23

"A cada bomba minha filha tapa as orelhas e pergunta 'o que é isso, papai?'", diz palestino-brasileiro na Faixa de Gaza

Talis Andrade

Hasan Rabee mora no Brasil e viajou para a Faixa de Gaza com a esposa e as duas filhas pequenas para visitar a mãe e as irmãs. À RFI, ele contou o horror que vive com os bombardeios israelenses. "Não existe lugar seguro aqui", relatou.

O palestino-brasileiro Hasan Rabee ao lado das duas filhas.
O palestino-brasileiro Hasan Rabee ao lado das duas filhas. © Arquivo Pessoal
RFI
 
 

O palestino-brasileiro chegou há dez dias à cidade de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, sem imaginar o que estaria por vir. Desde que os bombardeios israelenses tiveram início, em retaliação ao ataque do grupo Hamas no último fim de semana, ele está em contato com as autoridades brasileiras para tentar voltar ao país.

A situação no local, segundo Hasan, é calamitosa. "Faltam alimentos, Israel cortou a água e a luz, a torre central de telecomunicação foi destruída. Estão tentando cortar tudo para matar a gente", diz.

Hasan classifica como "mentira" a alegação das forças de Israel de que apenas as infraestruturas do Hamas estão sendo visadas. "Eles atacam residências de civis, bairros inteiros estão no chão. O que estão fazendo conosco é uma miséria", afirma.

O palestino-brasileiro afirma que quando os ataques israelenses começam, os moradores não sabem como se proteger. "Não existe abrigo antibomba na Faixa de Gaza. Não há onde se esconder", salienta.

Pai de duas meninas, ele conta que ele e a mulher tentam lidar com o estresse da filha mais nova. "A cada bomba que cai, ela tapa as orelhas e pergunta 'o que é isso, papai?' A gente diz que é uma festa, que um time de futebol venceu uma partida e as pessoas estão comemorando", conta.

Hasan está em contato com as autoridades brasileiras para tentar voltar para o país. Mas teme que o fechamento dos pontos de passagem o impeçam de sair da Faixa de Gaza. "A única esperança que tínhamos era a passagem de Rafah, mas Israel já destruiu tudo lá", afirma, referindo-se ao ponto fronteiriço entre o enclave e o Egito, bombardeado diversas vezes nos últimos dias. 

O palestino-brasileiro classifica como "uma loucura" o pedido do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para os civis deixarem a Faixa de Gaza. "Vamos sair por onde?", questiona, classificando o enclave como "a maior prisão do mundo". "Não tem por onde sair!"

 

Temor que conflito se espalhe na Cisjordânia

O palestino-brasileiro Akram Affaneh mora em Ramallah há 30 anos, para onde se mudou do Brasil com a família na adolescência. Segundo ele, atualmente, a situação é relativamente calma na Cisjordânia, mas a apreensão dos moradores é grande.

"A gente vivencia a tensão e o medo. No sábado, no dia dos ataques, a gente viu filas em postos de gasolina, aglomerações em supermercados, com o receio de que o conflito possa se estender para cá", diz. 

Em Ramallah, a cerca de 80 quilômetros da Faixa de Gaza, Akram relata que o impacto dos bombardeios israelenses é sentido na cidade. "A gente ouve os estrondos dos mísseis e as sirenes, o que causa muito medo aqui", explica.

O brasileiro-palestino Akram Affaneh mora em Ramallah há 30 anos.
O brasileiro-palestino Akram Affaneh mora em Ramallah há 30 anos. © Arquivo Pessoal

 

Akram também relata que a explosão de violência suscita um sentimento de frustração por parte dos palestinos que veem o sonho de ter um país se distanciar. "Tentou-se muitas vezes, através dos acordos de paz, de conversas e negociações com Israel, obter direitos. Mas infelizmente esse processo de paz nessas últimas décadas se mostrou uma enrolação do lado israelense, para eles ganharem tempo e continuarem a construção de mais colônias e incentivar mais israelenses a virem morar nesses assentamentos que eram pra ser o Estado palestino no futuro, praticamente anulando essa possibilidade", observa.

A palestino-brasileira Ruayda Rabah, também moradora de Ramallah, teme ser alvo de agressões. "Esse novo governo fascista israelense tem incentivado os colonos a atacarem, queimarem, matarem a população palestina. Eles estão dentro do território palestino e já roubam terras, acabam com as plantações palestinas, queimam oliveiras", denuncia, temendo uma "limpeza étnica".

 

Tarja de terrorista

Ruayda se revolta quando fala da tarja de terrorista imposta à população palestina. "Há mais de 75 anos são agressões diárias, não cumprimento de leis internacionais. Todo e qualquer direito que o povo palestino tem é infringido por Israel, que nunca foi condenado por nenhum crime. Então, é indigno que alguém coloque essa tarja em um palestino. Chamar um povo inteiro de terrorista é inadmissível", diz. 

Ruayda, que é professora e tradutora, viajou na última quarta-feira (4) a Portugal para um simpósio e acompanhou de longe os ataques do último fim de semana e as retaliações dos últimos dias. O marido e o filho, de 14 anos, relatam à ela os desdobramentos da guerra e o agravamento das violências. 

A palestino-brasileira Ruayda Rabah tem esperanças de um futuro melhor.
A palestino-brasileira Ruayda Rabah tem esperanças de um futuro melhor. © Arquivo Pessoal

 

Ela se emociona ao lembrar as conversas com o filho quando falam por telefone. "Ele me pergunta: 'mamãe, por que estão matando? Por que estão nos chamando de terroristas?"

Segundo Ruayda, essas são dúvidas que emergem não apenas em sua família. "As crianças não conseguem entender o que acontece. Já estamos na terceira geração que não conhece absolutamente nada que não seja a violência do Estado de Israel", lamenta.

A professora e tradutora conta que quando viaja com o filho para o Brasil, ela e o marido se impressionam com as observações que o garoto faz sobre a possibilidade de circulação sem controle. "Ele diz: 'Aqui não tem check-point? Aqui a gente pode andar livre, ninguém vai nos impedir de ir e vir?'. Com três, quatro anos de idade, ele já percebia que podíamos atravessar a fronteira para o Paraguai, para a Argentina, para o Uruguai sem sermos barrados", relembra.

Apesar de toda a revolta com a perpetuação das injustiças e violências, Ruayda mantém as esperanças de um futuro melhor. "Gostaria que a opinião pública pressionasse os governos que apoiam Israel para que eles convençam Israel a respeitar todas as resoluções da ONU, todas as leis internacionais e que desocupe o território palestino para colocar um fim a essa ocupação animalesca", diz.

21
Fev23

Berlinale 2023: longa brasileiro “O Estranho” relaciona conflitos de identidade a invasões de territórios indígenas

Talis Andrade
 
 
O Estranho (2023) – Meio Amargo
 
Cena do longa "O Estranho", de Flora Dias e Juruna Mallon, em competição na mostra Forum na Berlinale 2023.
Cena do longa "O Estranho", de Flora Dias e Juruna Mallon, em competição na mostra Forum na Berlinale 2023

O longa “O Estranho”, de Flora Dias e Juruna Mallon, estreia nesta segunda-feira (20) na mostra Forum do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Através de personagens retratados de forma documental, o filme propõe uma reflexão sobre a apropriação de espaços indígenas e mostra a busca das origens como um ato de resistência.

Alê é funcionária do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e marcada por perdas ao longo da vida (da mãe, da irmã, da casa de sua família), busca incansavelmente “tesouros” em malas alheias. Nas horas vagas, se aventura pela natureza, onde o contato com a terra e a água parece aliviar o vazio das ausências e injustiças do passado.

O trabalho de Flora Dias e Juruna Mallon é resultado de uma longa pesquisa que teve início em 2014. O filme – extremamente reflexivo e sensorial – vai sendo desenhado através da conexão das experiências de Alê (vivida pela atriz Larissa Siqueira) com as camadas desenterradas da história do território de Guarulhos.

 
Larissa Siqueira - Elenco Digital
 
 
Larissa Siqueira
 

Não por acaso o título do filme em inglês é The Intrusion (a intrusão) – fenômeno geológico em que camadas rochosas se rompem, expandindo-se à superfície. “Sinto que é um pouco o que a Alê faz: ela vive essas camadas e esses diferentes tempos. Ela tem essa sensibilidade, essa abertura com a natureza e outros seres, evocando essa intrusão, essa erupção da memória do próprio território”, aponta Flora.

“A memória emerge de várias formas: nem sempre lembrar é um exercício mental”, indica Juruna. “A memória está no corpo, no toque, no sentir. E o filme trabalha bastante essa dimensão do gestual, do caminhar, do olhar”, diz, em referência às vivências da personagem principal.

Os diretores do longa "O Estranho": Juruna Mallon e Flora Dias.
Os diretores do longa "O Estranho": Juruna Mallon e Flora Dias. © Daniella Franco/RFI

 

Causa indígena: das injustiças à reviravolta

Estranho ou intruso, o aeroporto abre um canal para a denúncia da invasão do território indígena local, interrompendo o percurso natural de gerações. No roubo desse espaço, personagens apresentados ao longo do filme – fictícios ou não – expressam o desamparo gerado pelos laços cortados à força com a terra e os ancestrais.

Embora essas dores e vitórias de indígenas e afrodescendentes sejam conhecidas e inerentes à história do povo brasileiro, o convite à reflexão feito em “O Estranho” é um reforço necessário, em uma época em que tragédias como a recente crise humanitária dos Yanomamis continuam ocorrendo.

O poético desfecho do longa, no entanto, é uma aliviante reviravolta. “Os povos indígenas sofreram tanto apagamento, tanto silenciamento, mas renascem todos os dias. O filme é sobre isso, sobre essa persistência”, ressalta a cineasta.

Para os dois diretores, o longa evoca sofrimento e injustiça históricos, mas também enfatiza a ascensão dos povos autóctones brasileiros a espaços de poder e arte. “Isso está no filme porque está nas nossas vidas”, diz Flora, antes de concluir citando uma frase da ministra brasileira dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara: “Nada sobre nós sem nós”.

 
19
Fev23

Conheça Ane Oliva, a alagoana que brilha em dois filmes brasileiros que competem na Berlinale 2023

Talis Andrade

 

A atriz alagoana Ane Oliva atua em dois filmes brasileiros que concorrem na Berlinale 2023.
A atriz alagoana Ane Oliva atua em dois filmes brasileiros que concorrem na Berlinale 2023

 

Ela tem 28 anos de carreira nas artes cênicas, mas resolveu se aventurar nas telonas há cerca de cinco anos. A atriz Ane Oliva brilha em dois concorrentes de peso que representam o Brasil na 73a edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Ane Oliva na pele de Ludmilla, no curta "Infantaria", da diretora alagoana Laís Santos Araújo.
Ane Oliva na pele de Ludmilla, no curta "Infantaria", da diretora alagoana Laís Santos Araújo


por Daniella Franco /RFI

“Fiquei em estado de graça”, conta a alagoana de 46 anos que não esconde a emoção de atuar em duas produções brasileiras selecionadas para este que é um dos maiores festivais do mundo. “A Berlinale é um salto e está no desejo de todos que fazem cinema”, celebra.

A satisfação da atriz não ocorre à toa. No longa “Propriedade”, de Daniel Bandeira, Ane interpreta Sandra, uma das trabalhadoras rurais da fazenda no interior de Pernambuco que serve de cenário para a trama. “É uma mulher que tem uma força muito grande, uma determinação, um olhar crítico para aquela situação de opressão. Mas ao mesmo tempo que ela tem essa posição de enfrentamento, ela também age com ponderação”, descreve.

O trabalho de Daniel Bandeira faz sua estreia internacional neste sábado (18) na badalada mostra Panorama, levando para a capital alemã a temática de luta de classes no Brasil. A união dos personagens do longa na revolta contra a opressão foi ritmada pela coesão do elenco, segundo Ane.

Ana Oliva interpreta Sandra no longa "Propriedade", dirigido por Daniel Bandeira.
Ana Oliva interpreta Sandra no longa "Propriedade", dirigido por Daniel Bandeira

 

Já no curta “Infantaria”, da diretora alagoana Laís Santos Araújo, Ane interpreta Ludmilla, uma mãe solteira que, ao mesmo tempo em que cria um filho que idolatra o pai ausente, tem que gerenciar o dilema de uma filha de 10 anos que quer a todo custo se tornar adulta. O filme, que concorre na mostra Generation 14 Plus, também aborda o sofrimento das mulheres que não têm direito ao aborto no Brasil.

“É um assunto muito delicado, mas necessário e urgente. A Laís teve muita sutileza ao abordar esse tema difícil, tornando-o menos doloroso, através de um viés não violento. Porque a violência está na falta do direito da mulher sobre o seu próprio corpo”, salienta Ane.

 

 

Uma estrela ausente

Apesar de brilhar em dois filmes que representam o Brasil em Berlim, a alagoana não pôde vir participar presencialmente da Berlinale. Uma ausência que é resultado do estado do setor da cultura, após os anos de desmonte durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

“A gente andou uns passinhos para frente nos governos anteriores a essa tragédia que foi o governo Bolsonaro, iniciado pela gestão do Temer. Foi uma catástrofe para todo o setor cultural. O artista não foi apenas marginalizado, ele foi criminalizado”, aponta.

Ane classifica a ausência de políticas públicas para a área artística como uma perseguição explícita. “Não sei quantas vezes eu escutei frases que viraram slogans de bolsonaristas, como ‘acabou a mamata’, ‘acabou a lei Rouanet’. Foi um absurdo! Essa foi uma época em que eu tive que refletir não apenas sobre o que eu teria que fazer para seguir na minha profissão, mas também para aguentar aquela carga emocional”, desabafa a atriz.

No entanto, para a atriz alagoana, esse é um momento de esperança. “Acho que o governo Lula vai ter muito trabalho para reerguer tudo o que foi destruído. Mas ao mesmo tempo que levamos uma lapada com Bolsonaro, estamos muito motivados a seguir adiante, a fazer mais e mostrar que somos importantes para o desenvolvimento desse país. É uma burrice não considerar que o mundo se desenvolve a partir da cultura”, ela conclui.

 

19
Fev23

Berlinale 2023: “Propriedade”, de Daniel Bandeira, evoca thriller diário vivido por oprimidos no Brasil

Talis Andrade
A atriz Malu Galli interpreta a personagem Teresa no longa-metragem "Propriedade", de Daniel Bandeira.
A atriz Malu Galli interpreta a personagem Teresa no longa-metragem "Propriedade", de Daniel Bandeira

Racismo, desigualdade social, luta de classes: o longa dirigido e escrito por Daniel Bandeira leva problemas-chave da sociedade brasileira à 73ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Por meio de uma trama angustiante, grande concorrente da mostra Panorama, o cineasta pernambucano aborda as consequências dos séculos de opressão no país.

 
22
Ago22

Imprensa francesa faz intensa cobertura da campanha eleitoral no Brasil temendo golpe militar

Talis Andrade

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A campanha eleitoral começou oficialmente nesta semana no Brasil e não passou despercebida na Europa. As mídias francesas acompanham com preocupação os acontecimentos políticos no país temendo violências e um golpe militar em caso de derrota de Bolsonaro.

Na França, canais de TV, rádios e jornais destacaram diariamente os primeiros dias da corrida eleitoral - um interesse ainda limitado ao duelo entre a esquerda e a direita para o cargo de chefe de Estado. Até o momento, pouco se falou sobre outros candidatos à presidência e as eleições de senadores, deputados e governadores. 

O tom, em geral, das mídias francesas é de muita preocupação com o cenário político no Brasil. Em uma matéria publicada na terça-feira (16), dia em que a campanha eleitoral começou oficialmente, o jornal Libération diz que essas serão as eleições mais importantes no país desde o final da Ditatura Militar e que o Brasil já vive um clima de "forte tensão". 

O jornal Le Monde se concentra principalmente na queda de braço entre o Lula e o Bolsonaro. O diário destaca, por exemplo, que o líder do PT uniu nove partidos políticos, de várias tendências - da centro-direita até à esquerda mais radical - para tentar vencer o atual presidente. 

Apesar de estar atrás de Lula nas intenções de voto, "o líder da extrema direita ainda é extremamente popular entre os evangélicos". Além disso, "Bolsonaro multiplicou nas últimas semanas ameaças de um golpe em caso de derrota", sublinha o Le Monde.

Nesta sexta-feira (19), a revista francesa Marianne traz uma matéria focando essencialmente na figura de Lula. O líder do Partido dos Trabalhadores (PT) é apresentado como "um sobrevivente de um golpe de Estado", em referência aos 580 dias que Lula passou na prisão, entre 2018 e 2019. 

O jornal Ouest France enviou dois repórteres para cobrir esse início de campanha no Brasil. Eles acompanharam o comício do Lula em Belo Horizonte na quinta-feira (18) e classificam o candidato do PT como "uma estrela de rock". A manchete da matéria é uma declaração de Lula durante seu discurso: "Eu tenho a energia de um homem de 30 anos". 

 

Preocupação com polarização é unanimidade na imprensa francesa

 

A imprensa francesa é tradicionalmente opinativa, com posicionamento político explícito. O jornal Libération, por exemplo, segue uma orientação à esquerda; o Le Monde é de centro, enquanto o Le Figaro pende à direita. No entanto, por mais que haja diferença de viés político entre eles, há, em geral, uma forte preocupação com as consequências da polarização da campanha no Brasil e com a aceitação do resultado das urnas. 

A manchete do Libération de 12 de agosto - que dedicou sua capa e suas cinco primeiras páginas à corrida eleitoral - foi: "A democracia está em jogo no Brasil". Em editorial, o diário expressou o temor de que possa ocorrer no Brasil um incidente similar à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, por partidários de Donald Trump, após as eleições presidenciais de 2020.

O jornal Le Monde também expressa sua preocupação com o próximo 7 de setembro, quando será comemorado o bicentenário da Independência. Vários atos pró-Bolsonaro haviam sido convocados em todo o país, mas o presidente voltou atrás na quinta-feira e disse que os eventos irão se concentrar em Brasília. Ainda assim, o Le Monde lembra que muitos militantes da extrema direita estão se organizando para transformar a data numa espécie de "insurreição popular" e que o risco de violência é muito alto. 

A rádio France Inter realizou nesta sexta-feira uma entrevista com a historiadora brasileira Silvia Capanema, professora na universidade Sorbonne Paris Nord. Ela alerta para a possibilidade de um 7 de Setembro trágico e da recusa de Bolsonaro de deixar o poder, podendo resultar em um golpe militar.

 

Ataques de Bolsonaro às instituições democráticas

 

O tom do resto da imprensa europeia não é diferente da francesa. O jornal espanhol El País trata das eleições no Brasil em seu editorial desta quinta-feira, expressando sua preocupação com os frequentes ataques de Bolsonaro às instituições do país, como o STF, o TSE, neste esforço de "criminalizar a oposição". Segundo o El País, a atitude do presidente coloca em perigo a democracia brasileira. 

O editorial também diz esperar que as autoridades eleitorais brasileiras possam cuidar da integridade da campanha e combater as fake news com instrumentos legais. Além disso, faz um apelo para que as forças de segurança redobrem os esforços para que os candidatos e os eleitores possam sair às ruas sem se preocupar com episódios de violência. 

O jornal português Público faz uma cobertura apurada desse início de campanha, publicando matérias e colunas de opinião diariamente. Em matéria publicada em 16 de agosto, o diário destaca a escolha de Bolsonaro de começar a corrida eleitoral em Juiz de Fora, onde ele recebeu uma facada em 2018. O jornal português trata também do discurso do Lula no ABC paulista. 

Uma das colunas do Público nesta semana, intitulada "Brasil: campanha de embate e não de debate", foi assinada por Rita Figueiras, professora da Universidade Católica Portuguesa. Segundo ela, "nas próximas semanas, vamos assistir a uma escalada incessante da guerra de rejeições, movida por ódio, ressentimento e intransigência" no Brasil. Figueiras se preocupa sobre como ficará a sociedade brasileira depois das eleições.

Em editorial do dia 16 de agosto, o jornalista Manuel Carvalho afirma no jornal Público que há muitos brasileiros que duvidam de Lula e do PT, mas que, com o candidato da esquerda, os eleitores "têm ao menos a certeza de que a Constituição, o Estado de direito e as liberdades fundamentais não estão em risco".

 

Desconfiança sobre urnas eletrônicas e armamento da população

 

O jornal britânico The Guardian prevê que a tensão vai aumentar até o primeiro turno, em 2 de outubro. Para o diário, esse clima é principalmente impulsionado pela questão da desconfiança nas urnas eletrônicas, frequentemente evocada por Bolsonaro. 

O The Guardian também se preocupa com a recomendação de Bolsonaro de aquisição de armas pela população, sob a justificativa de que, segundo o presidente, é algo autorizado na bíblia. Para o diário britânico, isso seria uma estratégia para preparar os bolsonaristas a uma reação violenta em caso de derrota. 

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung traz uma matéria de seu correspondente em São Paulo intulada de "Populista contra populista", referindo-se a Lula e Bolsonaro. O diário diz que nos dois campos há seguidores "leais e às vezes fanáticos". 

A matéria lamenta que nessas eleições não haja espaço para outros candidatos e que "uma busca incômoda pela 'terceira via' até agora não produziu nenhum representante promissor". 

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Depois de um período sem falar das urnas eletrônicas, o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar o sistema de apuração brasileiro, desta vez envolvendo também as Forças Armadas.
 
Essa investida começa a levantar suspeitas de que o chefe do Executivo poderia tentar algum tipo de golpe, caso seja derrotado nas eleições.
 
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Edson Fachin, subiu o tom em defesa das eleições e do processo eleitoral.
 
Durante a visita à sala do Teste Público de Segurança das eleições, em Brasília, o magistrado disse que: “no Brasil de hoje, quem duvida, quem põe em dúvida o processo eleitoral é porque não confia na democracia”.
 
Sobre a participação das Forças Armadas nas eleições, Fachin disse que a “Justiça Eleitoral está aberta a ouvir, mas jamais estará aberta a se dobrar a quem quer que seja e tomar as rédeas do processo eleitoral”.
 
O Brasil deve receber 100 observadores internacionais para acompanhar as eleições de outubro deste ano, o maior número de autoridades estrangeiras para executar esse tipo de atividade desde as eleições de 2010. 
 
No episódio de hoje, vamos entender como funciona a participação de entidades internacionais nas eleições brasileiras. Para isso, convidamos a coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, Ana Cláudia Santano
 
 

 
 
 
 
 
 
07
Out21

Bolsonaro "vai perder" as eleições e "deixará o poder", diz Lula em entrevista para jornal francês

Talis Andrade

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é a manchete de página inteira do jornal Libération desta quinta-feira (7).

 

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estampa, em foto de página inteira, a capa do jornal Libération desta quinta-feira (7). O líder do PT deu uma entrevista exclusiva para o diário que destaca que, a um ano das eleições presidenciais no Brasil, Lula domina as pesquisas de intenção de voto.

"Bolsonaro vai perder", essa é a manchete de capa do jornal Libération, que dedica cinco páginas e seu editorial à pré-campanha eleitoral brasileira. Em uma longa entrevista à Chantal Rayes, correspondente do diário em São Paulo, Lula garante que mesmo que o atual presidente não queira deixar o poder, "o povo vai decidir de outra forma". 

O líder do PT diz ao Libération que ainda não é candidato, mas está refletindo e debatendo com outros partidos e organizações de esquerda uma aliança para governar o país a partir de 2023. Ele garante que, apesar das ameaças, tem confiança nas intituições brasileiras para que as eleições sejam realizadas. Outra certeza é de que Bolsonaro será derrotado e "responderá diante dos tribunais por seus atos arbitrários", diz o ex-presidente.

Questionado sobre o enfraquecimento da imagem do Brasil no exterior, Lula afirma que Bolsonaro jogou a diplomacia "no lixo", tornando o Brasil um pária internacional. "Ninguém quer recebê-lo ou ser recebido por ele", diz. O líder petista também declara não se arrepender de classificar o presidente de genocida, diante da gestão da epidemia de Covid-19 no Brasil, que deixou quase 600 mil mortos. 

Lula também falou de seus projetos, como a ideia de criar um salário universal "para todos os que foram expulsos do mercado do trabalho pela nova economia", do papel da comunidade internacional na preservação da Amazônia, sobre a qual afirma que o Brasil tem soberania, e da necessidade do debate sobre a regulação das mídias, que, lembra, não deve ser confundida com censura.

Como ex-presidente, durante dois mandatos, o líder petista acredita ter "uma responsabilidade infinitamente maior do que aqueles candidatos que nunca governaram". "O Brasil precisa, mais do que nunca, de um partido como o PT e de alguém que tenha sensibilidade social e conheça a alma do povo", destaca.

Em editorial, Libération escreve que "Bolsonaro se tornou tão perigoso para o país que os brasileiros parecem prontos a recorrer a um veterano que todos acreditavam estar aposentado". O jornal critica a falta de renovação no PT, mas afirma que é urgente levar os brasileiros a adotar um líder que o país merece. 

 
 

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