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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Mar21

No pico da pandemia, Clube Militar realiza “Almoço 31 de Março” para comemorar “Revolução Democrática de 1964”

Talis Andrade

 

De maneira sórdida, viúvas da ditadura querem comemorar o GOLPE DE 64 dançando sobre a pilha de quase 300 mil mortos que se formam diante da inação do governo do "capitão" Bolsonaro e da gestão do general Pazuello

 
De maneira sórdida, o [elitista e luxuoso] Clube Militar do Rio de Janeiro, um antro de viúvas saudosistas da ditadura, vende a “R$ 80 com bebida” ingressos para o “Almoço 31 de Março”, uma “homenagem aos 57 anos da Revolução Democrática de 1964”, que será realizado em meio à pilha de quase 300 mil mortos acumulados pela gestão criminosa do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.
 
O evento, que celebra o golpe que levou o Brasil aos porões da ditadura por mais de 30 anos, é o principal destaque do informativa da caserna do mês de março, distribuído aos reservistas e às vivandeiras, como Jair Bolsonaro, que tem seu governo mencionado junto à pandemia no “recado do presidente”, escrito pelo general Eduardo José Barbosa, que substituiu Hamilton Mourão no comando do clube.
 
“Estamos completando um ano de pandemia, mas agora, assistimos ao perigo principiar a ser controlado, ainda, incipientemente, mas com uma rota definida. Paralelamente, o governo federal demonstra seus progressos fortes e positivos em retirar o Brasil da senda nociva em que vinha há décadas”, escreve o general, que recentemente ameaçou o ex-presidente Lula de morte ao atacar a decisão de Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que devolveu os direitos políticos ao petista.
 

No texto, Barbosa celebra o “movimento democrático de 31 de março de 1964, que afastou do País, à época, as mazelas do comunismo internacional”.

20
Ago19

Mídia francesa destaca sequestro de ônibus no Rio que terminou com morte de agressor que tinha uma arma de brinquedo

Talis Andrade

 

dança macabra.jpg

 

RFISites franceses repercutem o sequestro de um ônibus com 31 passageiros na ponte Rio-Niterói nesta terça-feira (20). Depois de cerca de quatro horas mantendo reféns, um homem foi atingido por disparos de atiradores de elite e morreu no hospital.

 
 

De acordo com a polícia do Rio, a tomada de reféns começou às 5h30 desta terça-feira. O sequestrador foi identificado como Willian Augusto da Silva. Ele chegou a libertar seis reféns durante a negociação com os policiais.

 

O site da rádio francesa RTL destacou que o agressor tinha uma arma e garrafas de gasolina, ameaçando atear fogo no ônibus. Após atingir o sequestrador, os policiais constataram que sua arma era de brinquedo, reitera a matéria.

"Os policiais acreditam que o ato foi premeditado", sublinha o site da TV LCI. O agressor teria se identificado como "um membro da polícia militar" e ameçava a vida dos passageiros, completa.

Já o site 20 Minutes afirma que, até o momento, as motivações do sequestrador são desconhecidas. Segundo os passageiros, ele teria dito que sofria de depressão. A morte do homem "provocou aplausos na multidão de curiosos que assistia à cena", publica.

 

Para o site francês do Huffington Post, o homem sofria de problemas psicológicos. "No ônibus ele não chegou a fazer nenhum pedido claro aos policiais", afirma.

O site do jornal Ouest France publicou a declaração do coronel Mauro Fliess. Segundo ele, "foi necessário atirar" contra o agressor.

Casos traumáticos de sequestros de ônibus

mercenário witzel.jpg

 

O Rio de Janeiro já viveu casos traumáticos de tomada de reféns em ônibus. Em agosto de 2011, três pessoas foram feridas no centro da capital fluminense.

Em junho de 2000, um refém foi morto e o agressor morreu após ser capturado pelas autoridades no caso que ficou conhecido como "O Sequestro do Ônibus 174", que virou filme dirigido por José Padilha.

 

06
Mar19

Carnaval brasileiro visto pelo mundo

Talis Andrade

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05
Mar19

DANIELA MERCURY RESPONDE BOLSONARO: POSSO IR ATÉ BRASÍLIA TE EXPLICAR COMO FUNCIONA A LEI ROUANET

Talis Andrade

Escute e freva a música 'Proibido o Carnaval' 

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247 - Depois de ser atacada, junto com Caetano Veloso, por Jair Bolsonaro por conta da música 'Proibido o Carnaval', que faz críticas à censura e defende a liberdade de expressão, a cantora Daniel Mercury divulgou um longo comunicado em resposta ao presidente. Nele, a artista pede "respeito" pelo que é e pelo que representa e se propõe a ir até Brasília explicar a ele como funciona a Lei Rouanet.

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Em uma postagem no Twitter, Bolsonaro se referiu a Daniela Mercury e a Caetano Veloso, que estão entre os maiores artistas brasileiros, como "dois 'famosos'" e disse que, com a música "Proibido o Carnaval", os dois estavam acusando o governo Bolsonaro "de querer acabar com o Carnaval". "A verdade é outra: esse tipo de 'artista' não mais se locupletará da Lei Rouanet", respondeu.

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Respondeu Daniela:

"Sr. Presidente, sinto muito que não tenha compreendido a canção 'Proibido o Carnaval', que defende a liberdade de expressão e é claramente contra a censura. Mas acho que isso nem vem ao caso aqui porque percebo que há uma distorção muito grave sobre a lei Rouanet. Parece que ela ainda não foi compreendida. Por isso, me coloco à disposição para explicar como funciona o passo a passo dessa lei. E aproveito para tranquilizá-lo. Usei muito pouco de verba pública de impostos da lei Rouanet em cada projeto que tive aprovado. Para que o senhor entenda, cada desfile de trio sem cordas (sem cobrança de ingresso, de graça para os foliões), custa cerca de 400 mil reais. Em 20 anos, Eu tive apoio (TUDO DENTRO DA LEI) de cerca de um milhão de reais de verba de impostos da lei rouanet. 1 milhão em 20 anos, ressalto!!! Dá cerca de 50 mil reais por ano, se assim dividirmos. Considere, sr. Presidente, que eu comecei o movimento de trios sem cordas, de graça para o público, há 21 anos. Eles custaram, por baixo, cerca de 10 milhões de reais! Se tive cerca de 1 milhão de verba pública nesses 20 anos, isso significa que o restante (9 milhões) paguei ou do MEU BOLSO diretamente ou com o patrocínio de empresas privadas. Em 35 anos de carreira, fiz muitas apresentações de graça no Brasil, bancadas do meu bolso. Essa fake news sobre a lei Rouanet criada na eleição não pode continuar sendo usada para desmerecer o trabalho sofrido e suado dos artistas brasileiros. A arte, além de tudo, tem um valor imensurável e o retorno do nosso trabalho para a sociedade, para o turismo, pra a economia é gigante. Para que compreenda melhor, apenas com 1 ano do sucesso 'O Canto da Cidade' (uma música "famosa" minha), Salvador ganhou 500 mil turistas a mais. Mais um exemplo: eu tenho cerca de 50 milhões de reais de retorno de mídia espontânea em cada carnaval de Salvador. Esse retorno, a partir de minhas apresentações (6 horas por dia cantando e dançando sem parar nem para comer – somadas a mais 5 horas prévias de preparação – e mais 2 horas pós apresentação para recuperação da voz e do corpo – durante 6 dias seguidos) traz uma valorização gigantesca para a imagem da cidade, do Estado e do país. Tudo isso estimula o turismo e turbina a economia. Tenho visto que estimular o turismo é um objetivo do senhor. Não se engane: trabalhamos muito. Quando se ataca a arte de um país, quando se ataca os "artistas" brasileiros, se ataca a alma do povo desse país. Mereço respeito pelo que sou, pelo que represento e pelo que faço constantemente pela sociedade brasileira em diversas causas, não apenas na arte. Reitero aqui a minha disposição de conversar com o senhor e com sua equipe sobre a lei Rouanet. Se assim desejar, irei com minha esposa, que é também minha empresária, até Brasília para conversar com o senhor sobre o assunto. Abraços e feliz carnaval." Daniela Mercury Verçosa

EM PLENO CARNAVAL, BOLSONARO ATACA CAETANO E DANIELA MERCURY

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Num tweet na manhã desta terça-feira de Carnaval, Jair Bolsonaro atacou com violência Caetano Veloso e Daniela Mercury afirmando que eles sequer são artistas e acusou-os falsamente de viveram às custas da Lei Rouanet: "Esse tipo de 'artista' não mais se locupletará da Lei Rouanet". 

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No seu tweet, Bolsonaro divulga a gravação de um músico, cujo nome é omitido, com uma marchinha de ataque aos dois artistas, e que começa com o cantor anunciando: "Essa marchinha vai para o nosso querido Caetano Veloso e nossa querida Daniela Mercury... chupa!". O refrão da marchinha é o ataque mentiroso aos dois: "Ê ê ê ê ê, tem gente ficando doida sem a tal Lei Rouanet".

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O ataque de Bolsonaro é uma retaliação ao videoclipe "Proibido o Carnaval", que os dois lançaram no início de fevereiro. Que mistura ritmos e cores carnavalescas, e retrata uma festa repleta de convidados e dançarinos de ambos os sexos. O ritmo é frenético, alegre e o vídeo é sensual. Daniela e Caetano beijam-se, assim como vários dançarinas e dançarinos de todos os sexos, com beijos entre todos.

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O vídeo termina com uma homenagem a Jean Wyllys, que desistiu de seu mandato e exilou-se depois de mais de um ano de ameaças de morte dos bolsonaristas: ""Dedico este videoclipe ao meu amigo amado e incansável guerreiro Jean Wyllys. Estamos te esperando de volta: o Carnaval não está proibido! Axé!!!".

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A letra de "Proibido o Carnaval" faz uma crítica bem humorada a todo ideário bolsonarista quanto aos direitos civis e à moral social, com uma referência direta à declaração da ministra Damares Alves (da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) para quem meninos deve vestir azul e as meninas, rosa. Cantaram Daniela e Caetano: "Vai de rosa ou vai de azul?".

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Leia a letra e veja a seguir o videoclipe de 'Proibido o Carnaval'

guabiras rei carnaval laranja.jpg

 

Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

.

Tô no meio da rua, tô louca
Tô no meio da rua sem roupa
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de rebeldia, provocando a fantasia

.

Tô no meio da rua, tô louca (hum)
Tô no meio da rua sem roupa (ah é)
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de fantasia, provocando a rebeldia

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Só tem asinha

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

.

A mulherada comandando a batucada
O trio elétrico cantava, libertando a multidão
Frevo fervando no Galo da Madrugada
Pernambuco não parava de fazer revolução
Filhos de Gandhi, o afoxé na resistência
O Caboclo era soldado no Brasil da Independência
No crocodilo, Stonewall, estou aqui
No carnaval beijando free
Salvador é a nova Grécia

.
Quilombola, Tupinambá
O corpo é meu, ninguém toca
Vatapá, caruru
Iemanjá lá no sul
Vai de rosa ou vai de azul?

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

.

Tô no meio da rua, tô louca (tá louca?)
Tô no meio da rua sem roupa (uau)
Tô no meio da rua com água na boca
Vestida de rebeldia, provocando a fantasia

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

.

Minha alma não tem tampinha
Minha alma não tem roupinha
Minha alma não tem caixinha
Minha alma só tem asinha

.

A liberdade, a Caetanave, a Tropicália
O povo de Maracangalha sai dançando o meu axé
O samba ensina, o samba vence a violência
O samba é a escola de quem ama esse país como ele é

.

Eu falei: Faraó, e ninguém respondeu
Quem come aqui sou eu, Romeu
Libera a libido
Forró em Caruaru, é?
Vai de rosa ou vai de azul?

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

.

Abra a porta desse armário
Que não tem censura pra me segurar
Abra a porta desse armário
Que alegria cura, venha me beijar

Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical
Está proibido o Carnaval
Nesse país tropical

.

Axé, axé, axé, axé, axé (proibido? Tá proibido proibir)
Axé (axé), axé (axé), axé, axé, axé, axé!

 

 

15
Jan19

Carnaval do Recife

Talis Andrade

por Leonardo Antônio Dantas Silva

frevo.jpg

 

"O frevo como música tem sua origem no repertório das bandas militares em atividade na segunda metade do século XIX no Recife.

O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha, o galope e, mais particularmente, o dobrado e a polca, combinaram-se, fundiram-se, dando como resultado o frevo, criação do Carnaval do Recife ainda hoje em franca evolução musical e coreográfica.

Da pronúncia popular do verbo ferver originou-se o vocábulo frevo, no que são concordes todos os estudiosos do assunto.

Lembro, porém, a observação de José Antônio Gonsalves de Mello, em depoimento pessoal, quando assinala a presença daquele verbo, em sua forma de pronúncia usada pelas camadas menos letradas da população, frever, em autos populares.

Exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, nos é dado por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essas quadrinhas:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia
Bebamos, que a tudo chegam
As esmolas da caixinha.

O mesmo pesquisador chama a atenção para o conto de Luís de Guimarães Júnior (1845-1898), publicado no Diario de Pernambuco de 8 de fevereiro de 1871, sob o título “A alma do outro mundo. Conto do Norte”.

O conto tem o subúrbio recifense do Ibura como cenário, tecendo o seu autor, então estudante da Faculdade de Direito do Recife, comentários sobre o que ele denomina de “samba do Norte”:

"O samba de roda do Norte é uma coisa digna de ver. As toadas das cantigas em desafio prendem d’alma e provocam os sentidos. Há certa poesia selvagem naquelas danças características, entrecortadas de moda e trovas, que revela exuberantemente o mundo de sentimento da alma rude e ingênua do povo!"

No seu texto, o autor transcreve várias estrofes dos cânticos, fazendo referências a Tertuliano, a quem chama pelo apelido, Teto, descrevendo-o como “um rapaz magro, amorenado, como por lá diziam, de olhos vivos e cintura delgada.

Morava em Olinda; nas redondezas de 40 léguas não se começava um samba sem ele chegar.

— ‘Ferva o samba minha gente! Entra na roda, Teto!’ — Dançava como um corisco e pulava como um macaco! Corta jaca, Teto! O passo da tesoura! O passo do tesouro! O caranguejo!”.

— Corta jaca, Teto!
— O passo da tesoura! O passo da tesoura!
— O caranguejo!

Teto entrou e lançou ao chão com uma agilidade graciosa e chapelinho de palha. Estava em mangas de camisa e trazia uma gravata de seda vermelha, que ondulava-lhe ao pescoço, como a bandeira inglesa no mastro grande de uma fragata! As guitarras gemeram; as facas atacaram as botijas, os violões e as violas uniram-se ao ruidoso concerto com as suas longas e plangentes notas:

Batam bem nessa viola,
Deixem as cordas quebrar
Que eu quero espalhar saudades
Quero penas espalhar!

Derivado de fervorescente, efervescente, ferver — palavras então conhecidas popularmente como frevorescente, efrevescente e frever —, o frevo lembra ainda, segundo Luís da Câmara Cascudo, in Locuções tradicionais no Brasil (1977), “confusão, movimentação desusada, rebuliço, agitação popular”, ou ainda, para Pereira da Costa, in Vocabulário Pernambucano, “apertões de grande massa popular no vaivém em direções opostas, como pelo Carnaval , e nos acompanhamentos de procissões, passeatas e desfilar de clubes Carnavalescos”.

No meio dos clubes Carnavalescos, porém, o vocábulo frevo já se encontrava presente em 1907, segundo demonstra Evandro Rabello em artigo sobre o cronista carnavalesco, Osvaldo de Almeida, publicado no Diario de Pernambuco de 11 de fevereiro de 1990. Naquele ano, 1907, o Clube Carnavalesco Empalhadores do Feitosa publica no Jornal Pequeno, edição do sábado de Carnaval, 9 de fevereiro, o repertório da agremiação onde aparece O Frevo como uma das marchas a ser executadas pela orquestra:

"Empalhadores do Feitosa, em sua sede que se acha com uma ornamentação belíssima, fez ontem esse apreciado clube o seu ensaio geral, saindo após em bonita passeata, a fim de buscar o seu estandarte que se acha em casa do sr. Alfredo Bezerra, sócio emérito do referido clube. O repertório é o seguinte:"

"Marchas - Priminha, Empalhadores, Delícias, Amorosa, O Frevo, O Sol, Dois Pensamentos e Luís Monte, José de Lyra, Imprensa e Honorários; Ária - José da Luz; Tango - Pimentão. Agradecemos o convite que nos foi enviado para o segundo dia de Carnaval."

Para o Carnaval de 1907 o Clube Empalhadores do Feitosa contratou como orquestra a primeira fração da Banda da Polícia Militar, realizando o seu ensaio geral na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, no Hipódromo, onde se encontrava a sua sede, fazendo no primeiro dia de Carnaval uma visita à povoação da Torre, seguindo depois para o seu “passeio” pelos bairros do centro do Recife.

Em sua edição de 22 de fevereiro de 1909, o Jornal Pequeno traz ocupando a sua primeira página uma interessante xilogravura de autor desconhecido com a frase Olha o Frevo, anunciando desta maneira os festejos Carnavalescos daquele ano. Tal ilustração, encontrada pelo autor destas notas, passou a ser usada quando da criação do primeiro Baile da Saudade no Carnaval de 1973; festa que se repetiu por dezoito anos, sendo proclamada a mais animada prévia do Carnaval Pernambucano.

"Olha o Frevo", veio a ser popularizada a partir de então, figurando em todos os convites e impressos do Baile da Saudade, bem como na série de cinco LPs, sob o mesmo título, editados pela Fábrica de Discos Rozenblit no Recife.

Pereira da Costa, em seu Vocabulário Pernambucano, assim comenta: “O termo frevo, vulgaríssimo entre nós, apareceu no Carnaval de 1909: Olha o Frevo! -- era a frase de entusiasmo que se ouvia no delírio da confusão e apertões do povo unido, compacto, ou em marcha acompanhando os clubes”.

Na segunda década do século vinte o vocábulo e seus derivados aparecem com frequência no noticiário Carnavalesco da imprensa do Recife:

• “O apertão do frevo, nesse descomunal amplexo de toda uma multidão que se desliza, se cola, se encontra, se roça, se entrechoca, se agarra” (Jornal do Recife, nº 65, 1916).

• Ou nesses versinhos: “O frevo que mais consola, / O que mais nos arrebata, / É o frevo que se rebola / Ao lado de uma mulata” (Diario de Pernambuco nº66, 1916).

• “Os rapazes souberam arranjar uma orquestra tão boazinha, que vem dar uma vida extrapiramidal ao rebuliço do frevo” (O Estado de Pernambuco nº 48, 1914).

• “O clube levará um dos seus carros com uma pipa do saboroso binho berde para distribuir com o pessoal da frevança” (Jornal Pequeno nº 39, 1917).

• “Do mundo a gente se esquece / Pinta a manta, pinta o bode, / E se o frevar recrudesce / Mais a gente se sacode” (Diario de Pernambuco nº 66, 1916).

Por sua vez, Rodolfo Garcia, no seu Dicionário de Brasileirismos (Peculiaridades Pernambucanas) , transcrevendo o nº 32 de A Província, Recife: 2 de fevereiro de 1913, aponta o original registro:

O Frevo, palavra exótica
Tudo que é bom diz, exprime,
É inigualável, sublime,
Termo raro, bom que dói...
Vale por um dicionário,
Traduz delírio, festança,
Tudo salta, tudo dança,
Tudo come, tudo rói"
O frevo como música tem sua origem no repertório das bandas militares em atividade na segunda metade do século XIX no Recife.

O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha, o galope e, mais particularmente, o dobrado e a polca, combinaram-se, fundiram-se, dando como resultado o frevo, criação do Carnaval do Recife ainda hoje em franca evolução musical e coreográfica.

Da pronúncia popular do verbo ferver originou-se o vocábulo frevo, no que são concordes todos os estudiosos do assunto.

Lembro, porém, a observação de José Antônio Gonsalves de Mello, em depoimento pessoal, quando assinala a presença daquele verbo, em sua forma de pronúncia usada pelas camadas menos letradas da população, frever, em autos populares.

Exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, nos é dado por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essas quadrinhas:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia
Bebamos, que a tudo chegam
As esmolas da caixinha.

O mesmo pesquisador chama a atenção para o conto de Luís de Guimarães Júnior (1845-1898), publicado no Diario de Pernambuco de 8 de fevereiro de 1871, sob o título “A alma do outro mundo. Conto do Norte”.

O conto tem o subúrbio recifense do Ibura como cenário, tecendo o seu autor, então estudante da Faculdade de Direito do Recife, comentários sobre o que ele denomina de “samba do Norte”:

"O samba de roda do Norte é uma coisa digna de ver. As toadas das cantigas em desafio prendem d’alma e provocam os sentidos. Há certa poesia selvagem naquelas danças características, entrecortadas de moda e trovas, que revela exuberantemente o mundo de sentimento da alma rude e ingênua do povo!"

No seu texto, o autor transcreve várias estrofes dos cânticos, fazendo referências a Tertuliano, a quem chama pelo apelido, Teto, descrevendo-o como “um rapaz magro, amorenado, como por lá diziam, de olhos vivos e cintura delgada.

Morava em Olinda; nas redondezas de 40 léguas não se começava um samba sem ele chegar.

— ‘Ferva o samba minha gente! Entra na roda, Teto!’ — Dançava como um corisco e pulava como um macaco! Corta jaca, Teto! O passo da tesoura! O passo do tesouro! O caranguejo!”.

— Corta jaca, Teto!
— O passo da tesoura! O passo da tesoura!
— O caranguejo!

Teto entrou e lançou ao chão com uma agilidade graciosa e chapelinho de palha. Estava em mangas de camisa e trazia uma gravata de seda vermelha, que ondulava-lhe ao pescoço, como a bandeira inglesa no mastro grande de uma fragata! As guitarras gemeram; as facas atacaram as botijas, os violões e as violas uniram-se ao ruidoso concerto com as suas longas e plangentes notas:

Batam bem nessa viola,
Deixem as cordas quebrar
Que eu quero espalhar saudades
Quero penas espalhar!

Derivado de fervorescente, efervescente, ferver — palavras então conhecidas popularmente como frevorescente, efrevescente e frever —, o frevo lembra ainda, segundo Luís da Câmara Cascudo, in Locuções tradicionais no Brasil (1977), “confusão, movimentação desusada, rebuliço, agitação popular”, ou ainda, para Pereira da Costa, in Vocabulário Pernambucano, “apertões de grande massa popular no vaivém em direções opostas, como pelo Carnaval , e nos acompanhamentos de procissões, passeatas e desfilar de clubes Carnavalescos”.

No meio dos clubes Carnavalescos, porém, o vocábulo frevo já se encontrava presente em 1907, segundo demonstra Evandro Rabello em artigo sobre o cronista carnavalesco, Osvaldo de Almeida, publicado no Diario de Pernambuco de 11 de fevereiro de 1990. Naquele ano, 1907, o Clube Carnavalesco Empalhadores do Feitosa publica no Jornal Pequeno, edição do sábado de Carnaval, 9 de fevereiro, o repertório da agremiação onde aparece O Frevo como uma das marchas a ser executadas pela orquestra:

"Empalhadores do Feitosa, em sua sede que se acha com uma ornamentação belíssima, fez ontem esse apreciado clube o seu ensaio geral, saindo após em bonita passeata, a fim de buscar o seu estandarte que se acha em casa do sr. Alfredo Bezerra, sócio emérito do referido clube. O repertório é o seguinte:"

"Marchas - Priminha, Empalhadores, Delícias, Amorosa, O Frevo, O Sol, Dois Pensamentos e Luís Monte, José de Lyra, Imprensa e Honorários; Ária - José da Luz; Tango - Pimentão. Agradecemos o convite que nos foi enviado para o segundo dia de Carnaval."

Para o Carnaval de 1907 o Clube Empalhadores do Feitosa contratou como orquestra a primeira fração da Banda da Polícia Militar, realizando o seu ensaio geral na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, no Hipódromo, onde se encontrava a sua sede, fazendo no primeiro dia de Carnaval uma visita à povoação da Torre, seguindo depois para o seu “passeio” pelos bairros do centro do Recife.

Em sua edição de 22 de fevereiro de 1909, o Jornal Pequeno traz ocupando a sua primeira página uma interessante xilogravura de autor desconhecido com a frase Olha o Frevo, anunciando desta maneira os festejos Carnavalescos daquele ano. Tal ilustração, encontrada pelo autor destas notas, passou a ser usada quando da criação do primeiro Baile da Saudade no Carnaval de 1973; festa que se repetiu por dezoito anos, sendo proclamada a mais animada prévia do Carnaval Pernambucano.

"Olha o Frevo", veio a ser popularizada a partir de então, figurando em todos os convites e impressos do Baile da Saudade, bem como na série de cinco LPs, sob o mesmo título, editados pela Fábrica de Discos Rozenblit no Recife.

Pereira da Costa, em seu Vocabulário Pernambucano, assim comenta: “O termo frevo, vulgaríssimo entre nós, apareceu no Carnaval de 1909: Olha o Frevo! -- era a frase de entusiasmo que se ouvia no delírio da confusão e apertões do povo unido, compacto, ou em marcha acompanhando os clubes”.

Na segunda década do século vinte o vocábulo e seus derivados aparecem com frequência no noticiário Carnavalesco da imprensa do Recife:

• “O apertão do frevo, nesse descomunal amplexo de toda uma multidão que se desliza, se cola, se encontra, se roça, se entrechoca, se agarra” (Jornal do Recife, nº 65, 1916).

• Ou nesses versinhos: “O frevo que mais consola, / O que mais nos arrebata, / É o frevo que se rebola / Ao lado de uma mulata” (Diario de Pernambuco nº66, 1916).

• “Os rapazes souberam arranjar uma orquestra tão boazinha, que vem dar uma vida extrapiramidal ao rebuliço do frevo” (O Estado de Pernambuco nº 48, 1914).

• “O clube levará um dos seus carros com uma pipa do saboroso binho berde para distribuir com o pessoal da frevança” (Jornal Pequeno nº 39, 1917).

• “Do mundo a gente se esquece / Pinta a manta, pinta o bode, / E se o frevar recrudesce / Mais a gente se sacode” (Diario de Pernambuco nº 66, 1916).

Por sua vez, Rodolfo Garcia, no seu Dicionário de Brasileirismos (Peculiaridades Pernambucanas) , transcrevendo o nº 32 de A Província, Recife: 2 de fevereiro de 1913, aponta o original registro:

O Frevo, palavra exótica
Tudo que é bom diz, exprime,
É inigualável, sublime,
Termo raro, bom que dói...
Vale por um dicionário,
Traduz delírio, festança,
Tudo salta, tudo dança,
Tudo come, tudo rói

31
Dez18

Bailarina de favela do Rio brilha no palco em Berlim

Talis Andrade

bailarina debora .jpg

A bailarina Debora Goulart tinha 14 anos quando foi descoberta, numa favela carioca, por um professor de balé alemão. Aos 22, ela hoje faz parte do corpo de baile do Friedrichstadt Palast – um dos teatros mais tradicionais de Berlim.

por Cristiane Ramalho, RFI 

O salto aconteceu num lance de sorte. Debora já fazia dança desde os oito anos de idade no projeto “Dançando para Não Dançar”, no morro do Cantagalo, onde morava, em Ipanema, quando foi convidada pelo diretor de uma escola estadual de balé de Berlim – a Staatliche Ballettschule - para estudar na Alemanha.

O diretor da escola, Ralf Stabel, que visitava a favela para ver uma apresentação do projeto, ficou encantado com Debora. “Eu só dancei em grupo, para dar as boas-vindas. Quem deveria ter sido escolhida era uma outra menina, mais experiente”, lembra a carioca, que logo provaria que além de sorte, tinha mesmo talento.

Para se preparar para Berlim, Debora teve que disputar uma vaga na prestigiada Escola de Balé Maria Oleneva, do Teatro Municipal. E conseguiu. “Eram 50 meninas concorrendo, e fui uma das três aprovadas na prova. Foi importante para poder treinar e fortalecer a minha técnica”, conta.

Um ano depois, já estava de mudança para Berlim. Um começo difícil. Além de estudar balé, Debora teve que aprender todas as matérias do curso secundário alemão. Um desafio gigantesco. “Eu tinha que estudar tudo: alemão, inglês, matemática, geografia... Aprendi na marra mesmo”, lembra.

Debora também deu um jeito de estudar sozinha e fazer a prova para ter direito ao diploma do ensino médio brasileiro. “Até hoje não sei como consegui me organizar. Mas graças a Deus deu tudo certo”, conta a bailarina.

Racismo na escola

Negra, com um metro e setenta e oito de altura, e aluna aplicada, Debora chamava a atenção na escola. Tinha várias amigas, mas acabou sofrendo com o racismo de uma colega alemã.   

“Quando a gente chegou na escola de balé – eu e uma amiga minha – uma menina disse que não queria fazer aula com a gente na mesma turma porque éramos negras, e ela não gostava de negros”. Por sorte, foram defendidas pelas demais colegas. “A turma foi super legal com a gente, todas as meninas ficaram contra ela”.

Não foram poucos os momentos em que Debora pensou em desistir de tudo e voltar para o Brasil. “No começo, eu não conseguia me comunicar. Não falava alemão, não falava inglês, era super frio. Às quatro horas da tarde já estava escuro.”

Para uma adolescente acostumada com o calor e a informalidade carioca, foi uma mudança brutal. “Na comunidade você sai na rua e fala com todo mundo. Não gostava de estar aqui”, admite.

Jovens engravidando

Hoje, ela está mais do que adaptada. Mas o Brasil continua a ser uma referência forte na vida da carioca, que costuma visitar a família uma vez por ano. Da última viagem, Debora trouxe uma tristeza: constatar o impacto da crise sobre projetos como o ‘Dançando pra não Dançar’ e o Criança Esperança, que segundo ela, estão praticamente sem patrocínio.

“Esses projetos eram uma possibilidade para os jovens de ocupar o tempo livre. Com os pais trabalhando, eles ficam sozinhos, sem controle. É muito fácil para as meninas acabar engravidando cedo, ou os meninos entrarem pro tráfico. E é exatamente isso que está acontecendo agora”, lamenta a bailarina.

Sem falar no próprio Teatro Municipal. “É uma pena. Um teatro lindo, com bailarinos super talentosos que não têm mais dinheiro para pagar o aluguel, nem a comida. É triste demais a gente ver a nossa arte tão desvalorizada.”

Rotina puxada

Debora reconhece que só continuou no balé por insistência da mãe, que a estimulou a não desistir do projeto. “Eu me achava muito grande, diferente das outras meninas. Tinha vergonha. Elas eram pequenas – apesar de termos a mesma idade. Foi minha mãe que me incentivou. Hoje eu entendo o motivo”.

No teatro, a rotina exige muita disciplina. Mas Debora adora o que faz: “A gente tem ensaios de manhã e apresentações à noite. Mas ver o público aplaudindo no final do espetáculo faz parte do salário. A gente se sente super realizado”.

Depois de quase sete anos em Berlim, a carioca pensa agora em investir também na carreira de modelo. Além de fotografar para agências alemãs, ela acaba de gravar uma participação no famoso programa Germany’s Next Topmodel, pilotado por Heidi Klum, que vai ao ar a partir de fevereiro.

 

09
Out18

MORTO POR BOLSONARISTA, CAPOEIRISTA É ENTERRADO AOS GRITOS DE 'ELE NÃO'

Talis Andrade

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O enterro do grande mestre baiano de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, 63 anos, o Mestre Moa do Katendê, morto brutalmente a facadas por um bolsonarista, aconteceu na tarde desta segunda (8) em Salvador. A cerimônia, no cemitério Quinta dos Lázaros, no bairro da Baixa de Quintas, aconteceu sob forte emoção, a partir de 17h. Assassinado na madrugada da própria segunda, Mestre Moa foi enterrada sob gritos de "EleNão", referência ao movimento contra Bolsonaro, o #EleNão, e acompanhado por cantos-pontos da capoeira e das religiões afro: "Olha o negro, sinhá/ Mataram o negro!" e "Ôooooo, a liberdade pela cidade".

 

O crime ocorreu no Bar do João, na comunidade do Dique Pequeno, no Dique do Tororó, em Salvador (aqui) e foi o mais grave de uma série de ataques perpetrados por apoiadores de Bolsonaro em várias cidades do país (aqui).

 

Sob forte comoção, mais de 500 amigos e admiradores acompanharam o enterro de Mestre Moa, uma referência cultural na cidade e no país e um importante disseminador de manifestações culturais afro-brasileiras.

 

Caetano Veloso compartilhou em sua conta no Instagram o vídeo de uma entrevista com ele e Moa do Katendê, de 2011, e escreveu: "Moa do Catendê, a quem devo a revelação que foi ver e ouvir o grupo de pessoas na rua cantando 'Misteriosamente o Badauê surgiu', foi morto a facadas por ter dito que votara em Haddad. O assassino, um bolsonarista apaixonado, foi encontrado quando tentava fugir. É o que acabo de ler no Yahoo!News. Moa era meu amigo e foi uma das figuras centrais na história do crescimento dos blocos afro de Salvador. Estou de luto por ele. Não olho redes sociais. Abri o Yahoo! pra chegar ao email e vi a foto de Moa, sorrindo, o que me fez parar, meio alegre de vê-lo, e ter a terrível notícia que contei aqui resumidamente. A descrição da cena está no Yahoo! As informações vieram da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Fundador do Badauê, compositor, mestre de capoeira, Moa vive na história real da cidade e deste país".

 

 

 

 

 

 

08
Out18

Após criticar Bolsonaro, artista é morto a facadas

Talis Andrade

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"Mestre Moa, aguerrido defensor da cultura e do povo negro, sempre a frente pela qualidade de vida da população mais pobre e desfavorecida, fará muita falta"

 

 

O mestre de capoeira e militante da cultura negra, Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, foi morto a facadas, na comunidade do Dique Pequeno, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, na madrugada desta segunda-feira (8).

 

A notícia foi publicada por um amigo de mestre no Facebook. Segundo o texto, a morte foi causada por uma discussão política. “Com muito pesar informo que assassinaram o Mestre Moa Do Katende ontem a noite no Dique, no bar do João, Salvador, por causa de política, em eleitor do fascista ‘coiso’ esfaqueou ele”.

 

“Mestre Moa aguerrido defensor da cultura e do povo negro, sempre a frente pela qualidade de vida da população mais pobre e desfavorecida fará muita falta”, disse a postagem.

 

Amigos e familiares lamentaram. “Sinto muito! Para ver como TODOS estamos na verdade expostos a uma loucura generalizada! Meus sentimentos a família e amigos, sem palavras para essa situação tão triste!”, “Asé meu guerreiro Moa…gratidão por sua sabedoria”, “Meu deus! Que tristeza. Salve o Mestre. Que seja um caminho de luz!!!”.

 

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o autor do crime será apresentado nesta segunda-feira (8), na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba

 

 

16
Jul18

Quadrilha golpista

Talis Andrade

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Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós
Lula livre! Lula livre! Ele é a nossa voz (bis)

 

Esta dança aqui agora é prá todos animar
Queremos alegria mas vamos relembrar
Dos manifestoches e todos os golpistas
Como a rede globo que é protagonista

 

A golpista classe média reaça e coxinha
Agora é lembrada na nossa quadrilha
Cadê sua panela com aquela histeria
É só o silêncio com muita hipocrisia 
(volta para o refrão)

 

Golpistas foram às ruas com empolgação
diziam que lutavam contra a corrupção 
Era uma mentira para o golpe dar
Corruptos agora é que não vão faltar

 

Agora no Brasil com o caos se aprofundando
A coxinha diz: estou me acabando
De ônibus viajo, meu carro eu vendi
Miami nunca mais, o emprego eu perdi. 
(volta para o refrão)

 

Sergio Moro é um juiz, é um juiz curitibano
Ele se acha Deus, mas é juiz provinciano
Ele é golpista do estado de exceção
Sem prova prende o Lula, só convicção.

 

Vampiro asqueroso é este Michel Temer
Golpista como Doria e Alckmin também
E ainda o Skaf que é dono do pato
E todos tão levando o Brasil para o buraco. 
(volta para o refrão)

 

O STF tem justiça que é um engano
Apoiou o golpe, não mexe com tucano
Estupra a nossa lei e o golpe justifica 
Ele sempre faz o que a Globo indica.

 

Querem acabar com o voto do povo
Mas o nosso voto não vão amordaçar
Nós vamos gritar queremos de novo
Queremos de novo Lula livre, Lula lá 
(volta para o refrão)

 

 

07
Jul18

Sonho, rito e alteridade: ritual xavante inspira solo de brasileira em Montpellier Danse

Talis Andrade

 

Sonho, rito e alteridade: ritual xavante inspira solo de brasileira em Montpellier Danse
 
A performer brasileira Paula Pi, em Montpellier, 30 de junho de 2018. RFI/Márcia Bechara
 
 
 
Ela levou para os palcos da edição 2018 de Montpellier Danse um solo inspirado em rituais xavantes do centro do Brasil. “Alexandre” é um trabalho que desconstrói discursos, idiomas, gêneros e corpos, performando o sonho, o ritual e a transformação. O RFI Convida nesta quinta-feira (5) a bailarina, música e coreógrafa Paula Pi, direto do festival, no sul da França.

Com passagens pelo teatro, pela dança e pela música no Brasil, a performer brasileira Paula Pi desenvolveu grande parte de sua pesquisa no Centro Coreográfico nacional de Montpellier, dentro do programa Exerce. Em 2015, ela apresentou sua primeira criação na França, “Ecce (H)omo”, que traz inspirações do trabalho da coreógrafa alemã Dore Hoyer.

Em 2018, Paula, que realiza também um trabalho relativo ao corpo e às questões de gênero, apresenta “Alexandre”, nascido a partir de uma gravação da voz de um índio xavante brasileiro, que anuncia um ritual de iniciação.

“A cultura xavante é completamente baseada no sonho, mas o sonho deles é diferente do nosso. O sonho deles é coletivo e estrutura toda a sua cultura. Eles aprendem a sonhar”, conta Paula Pi. “Os adolescentes vivem durante cinco anos em casas isoladas na ponta da aldeia e passam por vários rituais para aprender a sonhar ou receber sonhos. Os sonhos mais importantes são os sonhos de rituais. Eles fazem rituais para sonhar com rituais, o que significa também que todos os rituais foram sonhados”, relata a artista brasileira.

“Existe um livro muito interessante chamado ‘Performing dreams’, de uma antropóloga norte-americana que passou vários anos numa aldeia perto de onde eu estava, que fala sobre toda essa questão da performatividade dos sonhos. E de como, a partir de um sonho, os xavantes vão criar um ritual”, conta.

“O índio que fala na gravação me disse que antes que eu chegasse, eu já estava lá, porque ele havia sonhado comigo. Aquilo foi um choque, e essa frase continua me trabalhando muito. Para eles, o que acontece no sonho, já está acontecendo”, afirma Paula. “Tentamos trabalhar com a questão do sonho, mas sem entrar na psicanálise ocidental”, continua.

Os xavantes internalizam a noção do sonho como instrumento de caça, segundo conta a performer brasileira. “Para sair para caçar, apesar da caça ter diminuído muito na reserva, eles precisam antes sonhar com as futuras presas. Senão não dá certo. No momento em que eles sonham com o animal, ele já está com medo, então fica mais vulnerável à caça”, relata a artista.

Parceria com coreógrafo iraniano

“Alexandre” nasce originalmente como um duo com a participação do coreógrafo iraniano Sorour Darabi, também em cartaz em Montpellier Danse 2018 com “Savušun”. “Quando imaginei a peça, era um solo, depois decidi trabalhar em um duo, que eu nunca tinha feito. Essa dualidade tinha a ver com o principal mito fundador da cultura xavante, que fala de dois gêmeos que criaram tudo. O poder supremo dos criadores xavantes não é somente o de se transformar em alguma coisa, mas também o de se destransformar. E apenas os dois gêmeos tinham esse poder”, conta a coreógrafa.

“Queria trabalhar com a ideia do duplo, como um corpo pode transformar ou formar outro corpo, mas fui percebendo ao longo do processo que havia algo de muito pessoal nesse rito de iniciação, nessa experiência que fiz sozinha junto com os xavantes”, relata Paula. “A peça voltou a ser um solo, então. Tentamos trabalhar com a impossibilidade desse duo, sendo que, no fundo, o que está em jogo é a busca de uma alteridade em si, como é que busco o outro em mim mesma”, detalha a artista.

“Mas Sorour Darabi está presente o tempo todo no trabalho, existem materiais coreográficos concretos que criamos a dois, e que agora faço com o Sorour que não está lá. A questão da ausência e da presença são muito importantes em ‘Alexandre’”, conclui.

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