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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

08
Set21

O dia seguinte

Talis Andrade

Jorge Braga - 21 de abril de 2020

 

Editorial de O Estado de S. Paulo 

Bolsonaro exibiu exatamente o que tem mostrado desde o início do mandato: sua irresponsabilidade e seu isolamento político

 

O presidente Jair Bolsonaro exibiu ontem exatamente o que tem mostrado desde o início do mandato: sua irresponsabilidade e seu isolamento político. Tratadas nas últimas semanas como prioridade nacional pelo Palácio do Planalto, as manifestações bolsonaristas do 7 de Setembro serão interpretadas pelo presidente como a prova de que o “povo” o apoia, mas um presidente realmente forte não precisa convocar protestos a seu favor nem intimidar os demais Poderes para demonstrar poder; apenas o exerce. Assim, Bolsonaro reiterou sua fraqueza, já atestada por várias pesquisas que indicam o derretimento de sua popularidade.

Os atos – que configuraram evidente campanha eleitoral antecipada, bancada parcialmente com recursos públicos – revelaram também que, depois de tantas ameaças proferidas, Jair Bolsonaro já não tem muito mais o que falar de novo a seus seguidores. Ontem, chegou a dizer que convocaria o Conselho da República, órgão previsto na Constituição para consulta sobre “intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio”, além de “questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas” (art. 90).

“Amanhã, estarei no Conselho da República, juntamente com os ministros. Para nós, juntamente com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, com esta fotografia de vocês, mostrar para onde nós todos deveremos ir”, disse Jair Bolsonaro, em seu dialeto trôpego. Os três presidentes citados, Arthur Lira, Rodrigo Pacheco e Luiz Fux, disseram desconhecer a tal reunião. Como é de seu feitio, Bolsonaro trata assunto sério de forma leviana.

Se as manifestações tiveram considerável afluência, algo até previsível ante o fato de que o presidente passou os últimos dois meses usando sua tribuna privilegiada para convocar sua militância, o fato inexorável é que o governo exatamente continua no mesmo lugar. E os problemas nacionais continuam os mesmos. A rigor, por força de Bolsonaro, eles até se agravaram nas últimas semanas: aumentou o pessimismo, decaiu a confiança, cresceu o desalento. A saída da crise social e econômica está mais distante.

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Não há como negar. É patente o descaso do presidente com a realidade do país. Basta ver que, diante da inflação crescente e ao emprego em baixa, a aposta de Bolsonaro, interessado somente em permanecer no poder e proteger sua prole e a si mesmo da Justiça, continua sendo acirrar tensões com os outros Poderes e sugerir a possibilidade de uma ruptura institucional. Em seu léxico, não há solução.

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Eis a grande disfuncionalidade dos atos bolsonaristas de 7 de setembro. Por mais que pretendam demonstrar apoio, as manifestações são incapazes de modificar a natureza dos reais desafios do Palácio do Planalto. Os problemas continuam os mesmos e tendem a se agravar, já que é cada vez mais explícito o desinteresse de Jair Bolsonaro em enfrentá-los.

Por mais que Bolsonaro não goste da ideia, há um país a ser governado. Havia antes do 7 de Setembro e continuará a haver depois. São muitos os assuntos a respeito dos quais se deve esperar uma atitude responsável por parte do presidente, como o enfrentamento da pandemia e a gestão da crise hídrica. Vidas, empregos e o futuro das novas gerações estão em risco.

É esse cenário de desolação que se apresenta aos olhos da população todos os dias, seja feriado ou dia útil, tenha motociata presidencial ou não. Os índices de desaprovação recorde do governo Bolsonaro são um dos sintomas desse quadro disfuncional.Capa do jornal Estadão 08/09/2021

comemorar 7 set.jpgCharge da semana - 04/01/2019

Jovem Jornalista: Rosa e Azul: cor tem ou não gênero e as convenções sociais

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29
Mai21

Le Monde chama a atenção para a alta mortalidade de crianças por Covid-19 no Brasil

Talis Andrade

Jornal Le Monde chama a atenção para a mortalidade de crianças por Covid-19 no Brasil

Jornal Le Monde chama a atenção para a mortalidade de crianças por Covid-19 no Brasil © Reprodução Le Monde

O site do jornal francês Le Monde traz, neste sábado (29) uma reportagem sobre os altos números de mortalidade de crianças no Brasil por conta da Covid-19. Desde o início da pandemia, mais de 2.800 crianças menores de 10 anos morreram de Covid-19 no Brasil. Destas, mais da metade tinha menos de 1 ano de idade. Os dados são da ONG Vital Strategies.

Esses números assustadores, diz Le Monde, não podem ser comparados com os de nenhum outro país do mundo onde existem dados sobre o assunto (na França, por exemplo, apenas 13 crianças e adolescentes menores de 19 anos morreram de Covid-19). Acima de tudo, são dois a três maiores do que os divulgados pelo Ministério da Saúde.

O motivo é que os dados da ONG Vital Strategies incluem crianças que morreram de dificuldade respiratória aguda de causas desconhecidas, na maioria das vezes o resultado de Covid-19 não diagnosticada. “Mas os números reais são indiscutivelmente ainda mais importantes. A subnotificação é imensa ”, diz Fátima Marinho, epidemiologista que coordenou o estudo, em entrevista ao Le Monde.

Isso causou um rebuliço no Brasil, já devastado pela epidemia (459 mil vítimas no total), onde, como em outros lugares, os mais jovens não são considerados vulneráveis. “Desde o início, essa retórica foi definida ao dizer que a Covid só mata os idosos. Está errado. A mortalidade é muito alta em todas as faixas etárias e até entre as crianças”, insiste Fátima Marinho.

Em pessoas mais jovens, no entanto, os sintomas diferem daqueles dos adultos. “As crianças sofrem com tosse, problemas respiratórios, mas também com muito vômito, diarreia e dores abdominais...”, observa o pediatra Ricardo Chaves, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

"Mais raramente, alguns morrem dos efeitos da chamada síndrome 'PIMS' [para síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica]: uma inflamação generalizada dos órgãos que afeta algumas crianças e pode ocorrer várias semanas após a infecção por Covid", acrescenta o médico.

Uma evolução "rara" em direção à morte

No Brasil, diz o texto, todos se perguntam sobre a influência da variante P1 no drama infantil. Esta última, mais contagiosa, responsável pela maioria das infecções, também é suspeita de ser mais letal. “Essa nova cepa gera uma carga viral maior. Crianças com comorbidades - câncer, asma, diabetes etc. - têm, portanto, maior probabilidade de desenvolver formas graves e sucumbir ao vírus”, afirma Fátima Marinho.

Mas, sobre o assunto, as opiniões estão divididas “Nenhum estudo ainda mostra que a P1 é mais agressiva contra os mais novos. Crianças doentes, mesmo bebês com co-morbidades e infectados com a variante, geralmente não desenvolvem formas graves e sua condição muito raramente evolui para a morte ", disse Marcelo Otsuka, membro da Sociedade Brasileira de Doenças Infecciosas.

O pesquisador se baseia em outro estudo recente, publicado pela National Pediatric Society. “As pessoas de 0 a 19 anos representam 25% da população brasileira, mas em 2020 eram responsáveis ​​apenas por 2,46% das internações e 0,62% das mortes ligadas à Covid”, explica Otsuka. 

Esses indicadores também tenderam a melhorar durante os dois primeiros meses de 2021, apesar da disseminação da variante P1 (1,79% para internações e 0,39% para óbitos).

Falha na atenção primária

Para explicar a morte de tantas crianças no Brasil, os cientistas avançaram com outras explicações. A primeira estaria relacionada ao mau estado crônico do sistema de saúde e, em particular, da atenção primária. De acordo com as Nações Unidas, 14 em cada 1.000 crianças morrem, em média, no Brasil antes do quinto aniversário: o dobro da média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

“Crianças de comunidades negras e indígenas, em áreas rurais ou favelas, são particularmente afetadas. Nessas populações, a exposição ao vírus é muito alta, a doença se espalha rapidamente e as comorbidades em crianças são mais importantes. O atendimento no hospital público é tardio e muito precário. Daí uma mortalidade altíssima”, explica Francisco Ivanildo Oliveira, infectologista do hospital infantil de Sabará (SP).

A tendência não deve melhorar. Após uma breve calmaria, os indicadores brasileiros voltaram ao vermelho. Embora apenas 10% da população tenha recebido até agora uma dose dupla da vacina, os especialistas prevêem até 300.000 mortes a mais até o final de agosto. Um verdadeiro massacre, crava o jornal francês.

“O relaxamento geral dos controles e o distanciamento social podem contribuir para o surgimento de novas mutações no vírus”, teme Paulo Ricardo Martins Filho, epidemiologista-chefe da Universidade Federal de Sergipe.

 

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