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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

05
Abr22

O chicote do racismo

Talis Andrade

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Por Jean Paul d’Antony /A Terra É Redonda

Um novo tipo de chicote resvala, dia após dia, no pós colonialismo, nos corpos dos novos sujeitos pós coloniais

Todos os dias negros ou pretos. Esperem, por favor, um segundo.  É complicado escolher a expressão linguística adequada porque todas parecem nos empurrar para a armadilha do racismo estrutural, para uma representação desse preconceito que pode ser socio-culturalmente mais ou menos aceitável. Talvez a ressignificação simbólica desses léxicos, em suas constituições identitárias, seja bem mais importante do que a sua escolha.  Comecemos assim, todos os dias pessoas negras, nessa chamada civilização pós-moderna, são perseguidas e violentadas em seus direitos, em sua moral, em sua dignidade, em seu direito de ser, e o dito estado democrático de direito usurpa suas existências com o argumento de ataque a uma criminalidade que, na maioria esmagadora das vezes, é instrumento de um projeto maior de eugenia herdado do estado escravocrata. O que aconteceu com o George Floyd é o reflexo, o exemplo de milhares no mundo, como aqui no Brasil todos os dias.

Do 18 de dezembro de 1865, quando os Estados Unidos abolem a escravidão através da 13ª Emenda da Constituição, ao 13 de Maio de 1888 aqui no Brasil,  onde a Lei Áurea não passou de um dispositivo legal para injetar mão de obra no Mercado, deixando sérias questões sobre a suposta ação humanista e suas consequências, o racismo estrutural vem sendo incorporado e instrumentalizado através de diversas teias modernizadas de práticas e representações coloniais que invadem a noção de corpo e poder identitário de cada uma dessas nações e suas singularidades. Toda apresentação de violência, de subjugação do outro, de desumanização, é diferente e reinventada a partir das necessidades de cada espaço de poder. É assim nos EUA bem como no Brasil.

E assim, um novo tipo de chicote resvala, dia após dia, no pós colonialismo, nos corpos dos novos sujeitos pós coloniais.

As colônias estão presentes, o estigma da colonização se apresenta estampada em todas as calçadas, no reflexo das vitrines, nas câmeras dos shoppings, em cada corpo negro estendido pela impunidade das histórias apagadas dos que foram violentados e vencidos, e tiveram que se adaptar à fantasia de um mundo novo cuja narrativa era de liberdade e igualdade. Os senhores das terras hoje são chamados de empresários e muitos estão inseridos na política, agindo com mãos, que não são invisíveis, têm nomes e digitais, em prol da manutenção de um racismo estrutural que não recua, só avança visivelmente e incorporado, continuamente, no ethos de diversos slogans.

Ora, ocorre que, na maioria das vezes, a manutenção da violência racista é instrumentalizada a partir da indústria de consumo a fim de anestesiar o esclarecimento, os sentidos, a razão crítica e o sentimento de escravidão pulsante em muitas esquinas, em muitos pescoços, em muitos cassetetes,  dentro de muitas casas invadidas, em muitas balas que se dizem perdidas e em muitos espaços de fala, criando uma estufa que abafa os gritos, alimenta o esquecimento, as mutilações na alma e as mortes. O isolamento de classes, de gênero e de raça sempre esteve presente, com o cenário da Covid-19 este isolamento se desvelou mais violento. Até quando a manutenção dessa distopia será avaliada apenas de janelas, lentes, músicas e somente por palavras de “desculpa” (quando essas ainda se apresentam)? A distopia do racismo é um câncer que atravessa a ancestralidade, deve ser isolada, extinta, a fim de promover uma sociedade onde os espaços das diferenças sejam compartilhados, não divididos, não mais categorizados. Os espaços das diferenças devem ser vividos a fim de se compartilharem experiências/existências, não como demarcação de histórias e memórias que subjugam outras, sem demarcações. Não falo aqui de homogeneização, falo de respeito, viver-com, existir-com.

A história dos vencedores continua a operacionalizando o discurso onde políticas de inclusão são oferecidas à população como políticas do pão e do circo, como um simples e difícil favor, apagando o direito da resistência e o direito histórico-político-existencial da inclusão. George Floyd e o João Pedro, e muitos Georges e muitos Joãos, como o menino Miguel Otávio, não são números de uma tanatos-política, da necro-política de muitas nações, são resultados de genocídios dilatados como gotas de ácido e sangue nos olhos e na pele dos negros e de todos os grupos isolados de direitos e de voz que são alvos dessas ações todos os dias. Séculos de Asfixia.

O pulso ainda pulsa, o pulso ainda pulsa, o pulso ainda pulsa, e em cada gota de ácido, e em cada gota de sangue, uma avalanche pulsante de pessoas tomará as ruas gritando e buscando espaço de paz na história corrente. Avalanche versus Paz, contraditório? Não! A poética do desespero, a poética de vozes emudecidas que já transbordou. O que escorre é dor, e que esta dor se torne a flecha que rasgará (de uma vez por todas, constantemente no ar, sem cair, como um Arauto) o movimento daqueles que teimam em fragmentar e subjugar a humanidade a partir de seus preconceitos. Não deveria ser assim, mas infelizmente a morte (não! os assassinatos!) também desperta a fúria da resistência. A resistência deve pulsar sempre, vigilante, e não gritar apenas a cada direito e cada vida sufocada. Talvez assim, muito talvez, resta acreditar que a dor que toma hoje as ruas dos EUA e do mundo seja a janela de uma nova humanidade. Em verdade, a memória mostra que muitas dessas ações ficaram na história, mas não ficaram esquecidas, se tornaram a pólvora que navega pelo ar explodindo, alimentando a caminhada. Que seja! Então, não basta apenas acreditar. Contrariando o isolamento e a distância, como diz a canção de Geraldo Vandré, “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores”, “Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não / Nas escolas, nas ruas / Campos, construções / Caminhando e cantando (…), a referência aqui é um clamor da voz de resistência e união, pois as máscaras nas ruas sufocam menos que um joelho no pescoço ou uma bala no peito. Contra a morte causada pela asfixia do covid-19. Contra a morte causada pela asfixia do racismo. Que doença mata mais?

O racismo sempre intenta desfigurar a identidade de sua vítima a fim de subjugá-la e tornar sua existência uma ninharia diante da agressão, bem como tornar a agressão uma ninharia com o propósito de não justificar a aplicação da justiça. O que a agressão não leva em conta é que todo ser humano é uma casa que abriga diversas identidades. Essa casa é seu corpo onde habitam a biblioteca de suas histórias, memórias, lembranças e, como tal, deve ser respeitada. Não se invade a casa do outro, sua privacidade, porque todo tipo de invasão é uma violência, portanto, um crime.

É imperativo que não deixemos a cargo do tempo a transparência da negação ao racismo em todos os espaços. O tempo mostrou-se anódino, alimentando a conivência daqueles que deixam a seu encargo o apagamento da violência racista. Equivoca-se quem usa essa premissa. O racismo é a estética da crueldade, cujas narrativas não são ficções sobre as quais podemos nos debruçar com a pulsão de prazer da leitura. O racismo é uma herança doentia, um cancro que vem se alastrando dos porões dos navios negreiros até os espaços luminosos dos grandes boulevards desse novo século e exposto em cada reflexo de vitrine, bem como em cada promessa da indústria de consumo e seu bio-poder para regulação de uma falsa ascensão social, de um reflexo tosco e fosco de liberdade e de reconhecimento identitário, vestindo os corpos e as consciências, muitas vezes esvaziados de esclarecimento, a fim de servir a uma estética esbranquiçada para a da aceitação de si e do outro opressor. Todo o opressor é, ciente ou não do seu espaço e do seu papel perante o oprimido, educado ou domesticado também por uma cultura pós-colonial, herdeiro de novos nichos e métodos do racismo e sua história de galhos espaçados, que devem ser contemplados e problematizados para que nunca a vigilância baixe a guarda ou sente-se de boca escancarada aguardando o efêmero anestesiar do amplo direito existencial. Que a avance a avalanche, que o chicote não mais estale, ou a orquestra estridente e irônica continuará apenas se alimentando de uma multidão, cujo som do açoite perdura dia a dia, noite adentro, e muitas vozes que foram silenciadas continuarão gritando sem serem ouvidas: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura… se é verdade / Tanto horror perante os céus?!.Image

Esse nó no peito que precisa ser partilhado… – A Tal Mineira

07
Fev22

Modos de acabar com uma raça

Talis Andrade

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Por Urariano Mota

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Existem vários modos de acabar com os negros.

No primeiro deles, o mais cruel, é sob tortura e espancamento de ódio. Um linchamento público, com assistência sob o sol, chope e passividade. Se um negro está sendo morto a porrada, alguma ele fez. Aliás, os negros sempre estão fazendo qualquer coisa de errado.

Assim foi com Moïse Kabagambe, que trabalhava no Rio de Janeiro em um quiosque da praia. O seu erro, a sua petulância. a sua loucura foi não reconhecer o seu lugar, quando cobrou dois dias de pagamento por seu trabalho. Para quê? Foi brutalizado por cinco bárbaros que o destruíram com pedaços de madeira e um taco de beisebol. Um dos assassinos falou que "resolveu extravasar a raiva que estava sentindo" e que, por isso, bateu no congolês com um taco de beisebol.Image

Mas hoje mesmo, em qualquer cidade brasileira, jovens são amarrados em postes, numa recuperação dos velhos pelourinhos. Os novos escravos são espancados, enquanto comunicadores na televisão aprovam e ganham dinheiro e fama por açular a massa para o linchamento de marginais. Alguma coisa eles fizeram.

No segundo e frequente modo, acaba-se com negros, com crianças negras de preferência, pelo terrorismo mais elementar das “balas perdidas” nas favelas e comunidades mais pobres. Meninos e meninas negros, negríssimos, negros claros, negras mestiças, mas sempre negros. Esses são crimes sem criminosos, de mortes sem investigação, porque é o natural morrer em razão da natureza da cor e lugar. Alguma coisa essas crianças fizeram.

No terceiro modo, com aparência suave, mas igualmente infame, negros morrem por desprezo, por descaso, ou pela mais simples desconsideração. Assim foi o caso do menininho Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes. Ali, tivemos a revelação do horror da injustiça de classes no Brasil. E no seu crime, o costume em vigor de acabar com os negros entre brasileiros. Dessa morte típica não podemos nem falar em tragédia, tamanha é a vulgarização de como se anula a vida negra.

Minutos antes da queda da criança Miguel, madame estava pintando as unhas em casa. Havia ficado com o filhinho Miguel da empregada Mirtes, que saíra para a rua com a cadela da patroa. A criança ficou a brincar com a filha da madame. Mas a desgraça de Miguel foi ter amor demais por sua mãe. Quando ela se ausentou, ele se pôs a chorar, a pedir por seu abrigo e colo. Mas por que o menininho, além de amar a mãe, de repente sentiu tanta falta do seu carinho? Alguma ele fez! O fato é que o menino, teimoso, rebelde, “cheio de vontades” – como se não fosse filho de negra – incomodou tanto, que outro jeito não teve a patroa a não ser deixá-lo à própria sorte. Azar, azar, azar, azar. Ou seja: quer sua mãe? Nas imagens do vídeo, a madame aparece levando o condenado a seu destino de menininho negro. Deixa-o sozinho no elevador do arranha-céu no Recife. E volta para as belas unhas. Súbito, um baque, um pequeno estrondo. Ossos quando batem no chão, descidos de boa altura, soam como bombas.

Um terceiro modo de se acabar com negro é confundi-los com assaltantes. Eles não precisam estar armados ou com um objeto furtados. Mas alguma eles fazem, sempre. Porque eles furtam mais que valores materiais: furtam a paciência de quem vê aquela cor. Então não perguntem por que um homem honesto, trabalhador, é confundido com um ladrão sem nunca ter roubado. Pois não veem que é negro? Se não roubou, vai roubar. Se não foi ele, foi um seu comparsa, Portanto, é preciso acabar com a sua raça.

Escrevi lá em cima que existem vários modos de acabar com uma raça. Depois, no primeiro parágrafo, disse que existem vários modos de acabar com os negros. Mas aqui devo fazer uma ressalva: existem vários modos de acabar com as pessoas de pele preta. No Brasil, negro é uma cor. Se alguém descende de negros, mas possui uma pele clara, não é negro. Pode até ser promovido a papel de espancador e assassino da sua raça. Para um cão danado, todos a ele. Até mesmo os cães moreninhos vão pra cima, porque não possuem o mal de ser negro. Apenas possuem a raiva raivosa e ruim de acabar com um negro legítimo. Acabando-se, assim, na própria alma que entregam ao inferno. Pois todo fogo é pouco para os racistas.

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06
Out21

Culpados por nascença

Talis Andrade

Crianças dormindo em calçada"A correlação entre ser negro e ser pobre parece suavizar ou diminuir o 'ser criança' no Brasil"

 

Os 150 anos da Lei do Ventre Livre me fizeram pensar no caso do menino Miguel e em como as crianças negras ainda nascem culpadas. No Brasil, meninos e meninas negros não são tão crianças quanto meninos e meninas brancos

 

por Ynaê Lopes dos Santos

Imagine esta situação: uma criança incomodada, e talvez manhosa, desconfortável num espaço que não lhe pertence. A criança quer a mãe. A criança quer o seu afago, seu colo, sua referência maior no mundo. O que o mundo faz? Uma parte bem representativa deste mundo coloca a criança incomodada e sozinha num elevador. A criança tem 5 anos. Não lê e não escreve ainda. Mal alcança os primeiros botões do elevador. Ela está sozinha. Ela busca a mãe. O elevador para, a criança sai. Ela quer a mãe, ela quer seu lugar no mundo. A criança vê um buraco. O buraco mostra a mãe que ela tanto quer, lá em baixo. A criança cai do buraco. O buraco é fundo, acabou seu mundo...

Nove andares: esse é o tamanho do buraco. A criança morre, sozinha, aos 5 anos, querendo a mãe. Alguém imagina o medo dessa criança? Alguém imagina a dor dessa mãe?

Essa é a história da morte do menino Miguel. No dia 2 de junho de 2020, sua mãe, a doméstica Mirtes Renata, foi trabalhar na casa da patroa – primeira-dama da cidade de Tamandaré, Pernambuco. Mirtes não tinha com quem deixar o filho, pois o Brasil estava em pleno isolamento social em meio à luta contra a covid-19, e levou o filho para o trabalho. Mirtes saiu para passear com o cachorro da patroa, que enquanto isso fazia as unhas. A patroa não quis lidar com o descontentamento de um menino de 5 anos, filho da empregada. A patroa deixou o menino sozinho, e o menino morreu.

Um detalhe que faz toda a diferença: o menino que morreu e sua mãe são negros. Tudo muito triste, tudo desesperador, mas que ganhou contornos de fatalidade.

Camadas do racismo

A história da morte do menino Miguel revela uma série de camadas do racismo que organiza a sociedade brasileira. A mãe, negra e pobre e que não tem onde deixar o filho, mas que também não pode faltar ao trabalho, mesmo numa pandemia. Uma trabalhadora cuja carteira de trabalho indica uma ocupação bem diferente daquela que ela executa diariamente na casa dos patrões, figuras públicas e políticas da região. A patroa que não quer aquele menino negro e pobre lhe incomodando. A mesma patroa que não vê problema algum em deixar um menino de 5 anos sozinho num elevador - afinal, ele não é apenas um menino, ele é um menino negro.

A patroa, Sari Corte Real, foi presa em flagrante por homicídio culposo, quando não se tem a intenção de matar. Conforme as leis nacionais, ela pôde pagar uma fiança de R$ 20 mil e responder ao processo em liberdade. A atuação rápida da polícia parece um alento em meio à dor. A Justiça, que se diz cega, parece estar atuando. Só que nessa história o racismo ultrapassou até mesmo a morte do menino Miguel e a dor de sua mãe. Sim, no Brasil o racismo pode matar quem já morreu.

A principal linha assumida pela defesa da patroa se concentra em culpabilizar o menino Miguel Otávio de Santana. Isso mesmo. Pouco mais de um ano depois, os advogados de defesa estão argumentando que uma criança de apenas 5 anos, que foi abandonada por um adulto, seja responsabilizada pela sua queda de um prédio de nove andares e pela morte decorrente dessa queda. E sabe por que os advogados de defesa tem a pachorra de desenvolver essa linha de raciocínio? Porque Miguel era um menino negro. E, no Brasil, meninos e meninas negros não são tão crianças quanto meninos e meninas brancos.

Quando lida assim, de supetão, a constatação de que existem infâncias e infâncias pode parecer desmedida. Um exagero de quem enxerga racismo em tudo – algo de que fui acusada recentemente numa dessas discussões de redes sociais. Sim, infelizmente eu enxergo racismo em tudo. E tanto a realidade quanto a história brasileiras me dão razão. Seria capaz de apostar que os advogados de defesa traçariam outro caminho caso Miguel fosse um menino branco. Na realidade, é bem possível que a própria Sari jamais deixasse um menino branco de 5 anos sozinho em um elevador.

Mas o menino era negro. O menino era pobre. O menino era o filho da empregada. O menino teve culpa.

História longa e violentaMirtes se emociona ao lembrar do filho; "sinto uma falta terrível", diz — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Mirtes se emociona ao lembrar do filho; "sinto uma falta terrível", diz — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

 

 

O encadeamento dessas condições teve um desfecho funesto no caso de Miguel. A correlação entre ser negro e ser pobre parece suavizar ou diminuir o "ser criança", como se a infância fosse um lugar interditado para crianças negras e pobres, que têm que nascer sabendo por onde e com quem andar, quando e se podem brincar, cientes dos perigos do mundo, da culpa que carregam por serem quem são. Uma correlação que tem uma longa e violenta história no Brasil.

Nesta semana, foram comemorados no dia 28 de setembro os 150 anos da Lei do Ventre Livre. Promulgada em 1871, essa foi uma das mais importantes leis abolicionistas do Brasil. Uma lei que não só estabelecia o fim gradual para a escravidão, como também reconhecia que os escravizados tinham direito ao pecúlio, que a alforria era um direito, e que a partir de então haveria um fundo de emancipação para acelerar o processo de abolição da escravidão no país.

Todavia, essa mesma lei estava calcada em uma premissa: as crianças, que a partir de então eram filhas de ventres negros e livres, não eram assim, tão crianças. Elas eram filhas de mulheres negras e escravizadas. O nascimento continuava sendo uma espécie de mácula, que permitia que os proprietários das escravizadas pudessem escolher se a liberdade do recém-nascido seria paga por dinheiro ou pelo trabalho dessa criança, até que ela completasse os 21 anos. Essas crianças ainda eram vistas como propriedades, como bens, e por isso não tinham os mesmos direitos, não ocupavam o mesmo lugar das brancas. Essas crianças negras continuavam nascendo culpadas.

O que tornou possível que a vida dessas crianças fosse experimentada sob o signo da liberdade foram as ações de mães negras (por vezes escravizadas) que criaram diferentes estratégias, redes de afeto e de apoio, lutando incessantemente para que seus filhos não fossem culpados. Mulheres que, como Mirtes, queriam justiça, mesmo quando já não podiam embalar seus filhos.Miguel Otávio, de 5 anos, morreu após cair de um prédio de luxo, no Recife, em 2 de junho de 2020 — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Miguel Otávio, de 5 anos, morreu após cair de um prédio de luxo, no Recife, em 2 de junho de 2020 — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press / G1

 
08
Dez20

Emilly Victoria, de 4 anos, e a prima Rebeca Beatriz dos Santos, de 7 anos, foram mortas enquanto brincavam

Talis Andrade

meninas.jpgEmilly Victoria, de 5 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7 anos, foram baleadas em comunidade de Duque de Caxias 

 

Advogado da famílias diz que testemunhas viram que tiro partiu da PM. Corporação nega acusação

Por Larissa Schmidt, TV Globo

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As mães e a avó das duas meninas mortas por balas perdidas, em Duque de Caxias, chegaram na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), onde vão prestar depoimento, na tarde desta terça-feira (8).

A família estava acompanhada da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Segundo o advogado de defesa da família, Rodrigo Mondego, as testemunhas viram o momento que os disparos foram feitos de um carro da Polícia Militar.

 

É muito triste dizer isso, mas todas as testemunhas são categóricas em dizer: 'o tiro partiu da viatura da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro. Eles estavam na esquina a cerca de 50 metros de onde estavam as meninas'. Todas as testemunhas são categóricas em dizer. Descobrir quem foi o policial que atirou é o papel da Polícia Civil", afirmou Mondego.

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A avó de uma das meninas contou que estava chegando do trabalho antes do crime. As meninas a esperavam na calçada para comprar um lanche, quando passou um carro da polícia, por volta das 20h.

Os familiares disseram que não sabiam se havia algum tipo de perseguição, mas só viram a polícia atirando.

"Estava chegando do trabalho e saltei do ônibus. Eu escutei no mínimo dez disparos. O ônibus passou e a blazer estava parada e deu aquele arranco para sair. Ele parou em frente à rua e simplesmente efetuou os disparos", disse Lídia Santos, avó de Rebeca.

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06
Dez20

POLÍCIA MATA. As primas Emily, 4, e Rebeca, 7, brincavam na frente de casa. Um tiro de fuzil levou a vida das duas

Talis Andrade

Emilly (de óculos) e Rebecca morreram após serem baleadas pela PM em Duque de Caxias

por Caê Vasconcelos /Ponte Jornalismo

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Família afirma que PMs atiraram na direção das meninas em Duque de Caxias (RJ); “Não tem justiça que vá trazer de volta essas duas crianças”, lamenta coordenador da Iniciativa Direito À Memória e Justiça Racial

Às 20h30 da última sexta-feira (4/12), as primas Emily Victória da Silva Moreira Santos, 4, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7, brincavam na porta de casa na comunidade Barro Vermelho, em Gramacho, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Na mesma hora, acontecia uma operação policial no local. Um único tiro de fuzil atingiu as duas crianças: Emily foi atingida na cabeça e Rebeca no tórax. Não resistiram aos ferimentos e morreram.

Segundo informações da Polícia Militar, uma equipe policial do 15º Batalhão da Polícia Militar, de Duque de Caxias, realizava um patrulhamento na rua Lauro Sodré, quando disparos de arma de fogo foram ouvidos. A PM afirma que os policiais militares não dispararam e seguiram “em descolamento”. O batalhão foi acionado para verificar entrada de duas pessoas feridas na Unidade de Pronto Atendimento de Sarapuí.

Mas essa não é a versão dos familiares das crianças. Ao Globo, Lídia da Silva Moreira Santos, avó de Rebeca e tia de Emily, contou que viu policiais atirarem da viatura em direção à rua e que não houve confronto com criminosos. Ela afirma também que a mesma bala atingiu as duas crianças.

“Estava chegando do trabalho, por volta das 20h30, e quando desci do ônibus começaram os disparos. A rua estava cheia de crianças e pessoas chegando do serviço. Tinha uma viatura Blazer da PM parada em frente à rua e fizeram uns dez disparos de fuzil”, disse Lídia ao Globo.

“Quando os policiais foram embora, atravessei e vi a Emily atingida na cabeça, já sem vida. Depois minha nora veio gritando dizendo que tinham matado a Rebeca também. A mesma bala que pegou a Emily atingiu o coração da Rebeca. Ela deu uns passos e caiu no quintal. Quando vi que ainda estava respirando, corri para a UPA de Sarapuí, mas já era tarde”, lamentou.

Ana Lúcia Alves de Souza, 51, prima das crianças, disse ao UOL que nada estava acontecendo na rua quando os disparos foram feitos. “Do nada parou um carro da Polícia Militar e atirou na direção em que elas estavam”, explicou.

“A Emily faria aniversário agora dia 23 e a gente estava preparando uma festinha que ela queria da Moana [personagem da Disney]. Ela inclusive vai ser enterrada com a roupinha da Moana. A Emily era uma criança muito ativa, querida por todos do bairro. A Rebeca era uma menina doce, saudável. As duas eram muito coladas, moravam no mesmo quintal”, contou Ana Lúcia ao UOL.

Ainda de acordo com o UOL, Ana Lúcia finalizou questionando o Estado. “A gente sai pra trabalhar, pra contribuir com esse governo homicida e é isso que eles nos dão de troco, matam nossas crianças, nosso futuro. Isso tem que acabar, isso tem que parar. Até quando vão matar pessoas inocentes? Que preparação é essa que os policiais não conseguem distinguir entre adulto e criança? Não teve troca de tiros”.

“A Emily levou um tiro de fuzil na cabeça. Você entende o que é isso? O que ela fez pra merecer um tiro de fuzil na cabeça? O que uma criança de 4 anos fez para merecer isso? Elas estavam com o que na mão? Vão dizer o quê? Que elas estavam com droga, com arma e que elas trocaram tiro? Isso nos causa muita revolta. A gente sabe que não vai acontecer nada”, disse.

De junho de 2020 até agora, desde que o Supremo Tribunal Federal proibiu operações policiais durante a pandemia no estado do Rio de Janeiro, segundo dados da IDMJR (Iniciativa Direito À Memória e Justiça Racial), 14 pessoas foram mortas ou feridas em operações policiais do 15º Batalhão da Polícia Militar de Duque de Caxias. Foram 35 operações oficiais, divulgadas pela própria Polícia Militar, e a IDMJR identificou que também ocorreram 27 operações clandestinas no período. Outro levantamento, feito pelo Fogo Cruzado, aponta que, em 2020, 22 crianças foram baleadas: 8 não resistiram e morreram.

À Ponte, Fransérgio Goulart, 48 anos, coordenador-executivo da IDMJR, é lamentável as ações durante a pandemia. “Não tem justiça que vá trazer de volta essas duas crianças. Os moradores alegam que, de fato, não foi uma bala perdida como está sendo noticiado. A polícia mandou tiro para dentro da comunidade. É lamentável isso, ainda mais no meio de uma pandemia em que os números só crescem”.

“As operações continuam acontecendo a todo vapor, na Baixada Fluminense e em todo o estado do Rio de Janeiro. É a barbárie. O que nos deixa triste é que pessoas, e até organizações do campo progressista, cotidianamente não estão lá ombro a ombro com a gente, produzindo o enfrentamento ao Estado. Essa comunidade também está sofrendo com a Covid-19”, completa Fransergio.

Em novembro deste ano, o sociólogo Daniel Hirata, pesquisador da UFF, apontou vários são os motivos para o aumento das operações e da letalidade policial, apesar da proibição do STF, mas destacou um: a chegada de Cláudio Castro (PSC) ao governo do Rio de Janeiro, no lugar de Wilson Witzel (PSC), afastado temporariamente do cargo de governador após abertura do pedido de impeachment, em setembro.

O descumprimento da decisão do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu as operações policiais nas favelas do Rio durante a pandemia com a chamada ADFP das Favelas, explicou Hirata, acontece pelo fato de as “operações policiais serem instrumento de visibilidade política”.

Repercussão
Na tarde deste sábado (5/12), o assassinato de Emily e Rebeca estava entre os assuntos mais falados do Twitter. Ativistas, advogados e parlamentares se manifestaram, repudiando o ocorrido.

O advogado Thiago Amparo, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), disse em sua conta do Twitter que a “bala não é perdida”. “Ela sempre nos encontra. Aqui, encontraram duas crianças: as primas Emilly, de 4 anos, e Rebecca, de 7, que brincavam em frente ao portão de casa quando foram atingidas. Sem responsabilizar PM e governador por genocídio, nada mudará”.

Bala não é perdida. Ela sempre nos encontra. Aqui, encontraram duas crianças: as primas Emilly, de 4 anos, e Rebecca, de 7, que brincavam em frente ao portão de casa quando foram atingidas. Sem responsabilizar PM e governador por genocídio, nada mudará. https://t.co/PtNfbVT2Gm.

— Thiago Amparo (@thiamparo) December 5, 2020
“Estou exausto. Como produzimos uma sociedade que normaliza duas crianças de 4 e 7 anos serem atingidas por um fuzil? Como o país todo não para em estado de horror? Como as ditas instituições, o judiciário e a polícia, correm para normalizar o horror?”, disse Amparo em outra postagem.

O comunicador e ativista Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades, questionou que “se essas duas meninas pretas fossem brancas e não morassem na baixada Fluminense, fossem do Leblon, já estaria todo mundo na Lagoa fazendo um abraço gigante! Que país de merda!!!!!”.

Se essas duas meninas pretas fossem brancas e não morassem na baixada Fluminense, fossem do Leblon, já estaria todo mundo na Lagoa fazendo um abraço gigante! Que país de merda!!!!!

— Rene Silva (@eurenesilva) December 5, 2020
O também comunicador e ativista Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, questionou seu seguidores: “vocês entenderam que essas duas crianças foram assassinadas a tiros, durante mais uma ação da polícia em favela?”. Em outro tweet, Santiago lembrou da morte de Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, quando um disparo de fuzil da Polícia Militar atingiu as costas da criança, tirando sua vida, durante uma operação policial no Complexo do Alemão, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em 20 de setembro de 2019.

“O assassinato brutal de Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7 anos, me doem muito e fizeram lembrar o assassinato da Ágatha Felix, 08 anos. Em ambas as situações, policiais abordando motos, terminou com a execução de crianças!!”.

Não existe “guerra às drogas”.
Não existe “bala perdida”.
Não existe “segurança pública”.

O que existe são fatos!

E os fatos mostram duas crianças assassinadas na porta de sua casa, Emily e Rebeca, primas de 04 e 07 anos, assassinadas por tiros durante ação da polícia!

— (Emily & Rebeca) 🥀😭 Santiago, Raull. (@raullsantiago) December 5, 2020
A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) também lembrou de Ágatha ao postar sobre os assassinatos de Emily e Rebeca. “As primas Emilly, de 4 anos, e Rebecca, de 7 anos, foram assassinadas em Caxias, enquanto brincavam na porta de casa. 22 crianças foram baleadas no Rio em 2020, oito delas não resistiram. O PL Agatha q apresentei na Alerj dá prioridade às investigações em absurdos como esses”.


As primas Emilly, de 4 anos, e Rebecca, de 7 anos, foram assassinadas em Caxias, enquanto brincavam na porta de casa. 22 crianças foram baleadas no Rio em 2020, oito delas não resistiram. O PL Agatha q apresentei na Alerj dá prioridade às investigações em absurdos como esses.

— Renata Souza (@renatasouzario) December 5, 2020
“Enquanto crianças morrerem c/ tiro de fuzil, eu não descansarei. E espero que aqui ninguém descanse. São Emillys, Rebeccas, Ágathas, Annas, Renans, Ruans, Marcos, Leônidas, João Pedro … são tantas vidas e sonhos. Não é natural. O Estado é culpado, se não por ação, é por omissão”, completou Souza.

Dani Monteiro, também deputada estadual do PSOL-RJ, questionou em seu Twitter: “Até quando veremos nossas crianças sendo mortas em decorrência de uma política de segurança genocida? Não dá mais pra naturalizar a barbárie!”

 

07
Jun20

Não temos uma polícia que respeite as pessoas negras

Talis Andrade

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III - Caso Miguel: morte de menino no Recife mostra 'como supremacia branca funciona no Brasil', diz historiadora 

Camilla Costa entrevista Luciana Brito

 

BBC News Brasil - O Brasil parece ter herdado a comoção com a morte de George Floyd e os protestos antirracismo ocorrendo nos Estados Unidos na última semana. E houve quem dissesse que as mortes de pessoas negras em ações policiais aqui, como o caso recente de João Pedro, de 14 anos, não são alvo de protestos tão eloquentes. Por outro lado, muitos ativistas do movimento negro apontaram que manifestações acontecem, sim, especialmente nas comunidades mais atingidas pela violência policial. Por que esses protestos nacionais parecem menos visíveis?
Luciana Brito - Um exemplo disso acabou de acontecer. Eu estava vendo o jornal local e soube que ocorreu um ato por conta de uma ação policial no Bairro da Paz, em Salvador (Nota da redação: Dois jovens negros foram mortos em tiroteio). A comunidade fechou a Av. Paralela, tocou fogo em pneus e em um ônibus. Nós, as pessoas negras que são militantes, não fomos para lá. Não recebi nenhum informe sobre mobilização. E o comandante da polícia disse no jornal que aquelas eram pessoas influenciadas por traficantes de drogas, que mandaram que elas se manifestassem.

Quando ele diz isso, está fazendo duas coisas: primeiro ele conta com esse mito de que as leis não têm corte racial, de que as ações policiais em que morrem negros são casos isolados — embora só negros morram dessa forma. E em segundo lugar, ele também desacredita a capacidade de articulação política daquelas comunidades.

A gente vê que nos Estados Unidos os policiais não negam em momento algum que há uma demanda política nos protestos. Eles podem até discordar, mas sabem que é um movimento político e que há uma questão para ser discutida.

Não temos uma polícia — nas Américas de um modo geral — que respeite as pessoas negras, nem mesmo a sua capacidade política de se organizar para expressar sua revolta através de uma manifestação, por menor que seja.

No Brasil não temos uma imprensa que nos apoie, que esteja realmente comprometida com a luta antirracista. Isso já vemos com mais frequência nos Estados Unidos.

Também não há uma compreensão de toda a população negra brasileira de que aquilo ali poderia acontecer com qualquer pessoa da nossa família, ou com nós mesmos, também por uma cobertura jornalística desses eventos que criminaliza aquelas pessoas.

Temos programas jornalísticos sensacionalistas que mostram todos os dias jovens negros sendo presos, com apresentadores dizendo: "são marginais, é isso mesmo". Não há um olhar mais sofisticado de todo o jornalismo sobre a maneira como são feitas essas prisões ou chacinas.

E nós também não temos um apoio da comunidade branca que se envolva naquilo como se fosse problema dela. E não falo dos brancos conservadores, porque já sabemos qual é a deles. Falo dentro do próprio coletivo que é de esquerda, que tem um olhar humanitário sobre a sociedade, mas que diz "aquilo ali é problema do pessoal do movimento negro, eu não vou lá".

E tudo isso está ligado, é claro, à nossa história racial.


BBC News Brasil - De que maneira?
Luciana Brito - A polícia é violenta, tanto lá nos EUA quanto aqui. Mas nos Estados Unidos — e eu atribuo isso ao movimento pelos direitos civis, nos anos 1960 — as lideranças negras conseguiram promover uma educação racial nas comunidades negra e branca muito cedo. Isso porque lá o racismo era uma política de Estado escancarada.

Depois da abolição da escravidão, houve um período chamado de reconstrução nacional, quando se incentivou que negros fossem para a escola, se candidatassem a cargos públicos, houve fiscalização para que as pessoas não fossem escravizadas.

Mas chegou um momento em que cada cidade e Estado sulista começou a implantar suas próprias leis segregacionistas, que é o que conhecemos como as Leis de Jim Crow. O governo federal fez vistas grossas enquanto os Estados do sul passaram a promover o que eu chamo de terrorismo às populações negras no sul. Linchamento, enforcamentos, cenas que hoje conhecemos de fotografias e de filmes, que mostram churrascos de gente. (Continua)

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06
Jun20

Miguel, os 5 anos mortos, e a escravidão

Talis Andrade

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20 mil reais por um negrinho foi de graça

por Urariano Mota

 - - -

O caso do menininho Miguel, filho da empregada doméstica Mirtes, revela o horror da injustiça de classes no Brasil. E no seu crime, o costume em vigor de morte aos negros entre brasileiros. 

Não exagero. Não é possível exagero diante da criança negra que foi desprezada para cair do nono andar até o chão. Dessa morte não podemos nem falar em tragédia, tamanha é a vulgarização de como se anula a vida negra, das favelas no Brasil onde são caçadas, às domésticas que trabalham e servem sob relações “amigáveis”, e portanto falsas. O caso de Miguel Otávio e Mirtes Renata, filho e  mãe, é um modelo de crime que não se pune, crime didático antes do sangue do menino, durante e depois.

Na primeira lição, vemos a confortável felicidade das relações entre patrões e empregadas domésticas. Devo dizer, a felicidade confortável de patrões que a traduzem para a felicidade das suas empregadas. “Não têm do reclamar. Dou tudo a elas”, chegam a falar. “Aqui em casa, empregada é pessoa da família”, sem vergonha se gabam. O curioso é que eles, nessas bondosas falas, são quase sinceros. Eles querem dizer, sem  a ousadia da expressão, que para negrinhas elas têm mais do que recebem por aí, de outros cruéis de caricatura. E, de fato, em suas casas as empregadas comem – “e como comem!”, observam. Elas comem feito animais, isso quer dizer, elas têm uma fome secular, que nunca foi satisfeita. As empregadas dormem! Ora, até dormem – “dormem melhor que eu, pobre de mim, pois tenho insônia”. Muito bem. E neste capítulo, nesta lição, vê melhor quem ganhou a visão da experiência do sofrer.

Um motorista de uber já me contou uma vez, assim do nada, como se fosse de repente: “Eu reconheço na rua, só de olhar, quem é e quem não é empregada doméstica”. Mas como assim? perguntei. E ele: “No ponto do ônibus, elas estão sempre de cabelo molhado e com uma sacolinha. Sabe o que é? No fim do dia, tomam banho e levam pra casa os restos do almoço da patroa. Até hoje,  não errei uma. Eu sei, porque minha esposa é faxineira”. E seguiu em frente: “Ela é uma explorada! Muitas vezes, de 7 da noite, na hora de largar, a madame chega e pede pra ela aprontar a janta do patrão. Isso quando não vem com umas amigas pra tomar umas. Aí a minha mulher vai de faxineira a cozinheira. Faz tudo pra dondoca”. 

No caso de Mirtes Renata Santana de Souza, e da patroa Sari Corte Real, o afeto, a boa amizade merecia até casa de praia. Em Tamandaré, litoral sul de Pernambuco, onde o patrão Sérgio Hacker Corte Real é prefeito. Acompanham a excelência? Isso quis dizer: para fugir do surto do coronavírus no Recife, a patroa foi para a casa na praia e levou as empregadas e filhinho Miguel. Notem como se reproduz a casa-grande dos bons tempos. Os patrões “empregavam” uma família em sua casa: Mirtes, a sua mãe e Miguel. Que receberam, além do afeto, o coronavírus, pois o prefeito adoeceu e se curou. Enquanto isso, as empregadas contaminadas seguiam no trabalho, porque a faxina e a cozinha não podem parar. Madame ia trabalhar como uma negra? Era só o que faltava. E que se dane a civilização!  Image

Segunda lição de sangue. Minutos antes da queda da criança Miguel, madame estava pintando as unhas em casa. Havia ficado com o filhinho da empregada Mirtes, que saíra para a rua com a cadela da patroa. A criança ficou a brincar com a filha da madame. (Lembram dos escravozinhos negros que distraíam os filhos dos senhores de engenho? ) Mas a desgraça de Miguel foi ter amor demais por sua mãe. Quando ela se ausentou, ele se pôs a chorar, a pedir por seu abrigo e colo. Mas por que o menininho, além de amar a mãe, de repente sentiu tanta falta do seu carinho? Só os que sentem e sentiram essa falta saberiam contar. O fato é que o menino, teimoso, rebelde, “cheio de vontades” – como se não fosse filho de negra – incomodou tanto, que outro jeito não teve a patroa a não ser deixá-lo à própria sorte. Azar, azar, azar, azar. Ou seja: quer sua mãe? Vá lá. Boa sorte. Nas imagens do vídeo, a madame aparece levando o condenado a seu destino de menininho negrinho. E volta para as belas unhas. Súbito, um baque, um pequeno estrondo. Ossos quando batem no chão, descidos de boa altura, soam como bombas. Eu já vi o som de um homem que se jogou do alto do Edifício Holiday em Boa Viagem. Mas de um menininho, nunca. Daí que lhe ponho um pequeno estrondo no seu barulho de ossinhos quebrados.     

E vamos então para a terceira lição didática de um crime de classe em Pernambuco. Na primeira entrevista, um dos investigadores, ao ser perguntado se havia pessoas no apartamento onde a mãe da criança trabalhava, ele respondeu um tanto contrariado: “isso vai depender ainda da investigação”. Pergunta simples, resposta que oculta. Vamos esperar o que o chefe vai dizer, seria o melhor entendimento para o que investigador respondeu. Então o caso passou a ser tratado como uma tragédia, uma fatalidade, vale dizer, um destino de menininhos negrinhos que se metem onde não devem brincar. Então vêm as declarações de familiares da vítima de 5 anos, que falam: “no apartamento estavam a patroa e sua manicure”. Ah, bom, diante do clamor, o diabo de rumo inesperado. Havia que se investigar mais, ir até a inimputável família de elite. Então, é verdade, a patroa foi responsabilizada por crime culposo. Quem não é do mundo das leis até acha que crime culposo é o crime de culpa mesmo. Mas não, é um crime menor, pois nele o autor não teve a intenção de matar. Matou sem querer, por um acidente, uma “fatalidade”, como declarou o delegado em entrevista. Então dona Sari pagou uma fiança de 20 mil reais e foi embora.

Mas a justiça das gentes do Brasil exigem mais investigação e menos morte fatal. Em lugar da tristeza e do ar compungido, todos desejam saber: o que declarou a manicure, testemunha dos “esperneios” da criancinha e das palavras da madame, antes de levar Miguel para o seu cadafalso? Se a manicure foi ouvida, o que declarou? Mais; alguma psicóloga foi chamada para entrevistar a filhinha da madame que brincou com o menininho no apartamento minutos antes da queda? São caminhos que poderiam ser trilhados, anteriores à tipificação menor para o crime da patroa, que poderia receber a pena de um crime de dolo eventual, porque ela assumiu o risco de se desfazer de uma criança, jogando-a para a última viagem em um elevador.  

E por último e por fim, a quarta e terrível lição. As sucessivas entrevistas de Mirtes Renata Santana de Souza revelam uma progressão de luzes na sua consciência. O que no começo lhe pareceu um acidente trágico, revelou-se depois uma estranheza, quase que de piedade, quando a querida patroa lhe falou que ia ser presa. E Mirtes lhe perguntou: “Como a senhora vai ser presa se não cometeu crime?”.  Na pergunta havia uma desconfiança que passava ao longe, mais alta que o nono andar das Torres Gêmeas, de onde Miguel caiu. Mas desconfiança é dor que dá e passa, ainda que deixe umas pistas confusas. Nesse primeiro tempo, Mirtes não quis ver as imagens do último minuto de Miguel no elevador. Mas depois viu, e o que viu lhe causou uma revolta: a madame conduziu o negrinho mais lindo da vida e apertou um andar do elevador. Apertou ou mostrou, o que não diminui o seu crime. E voltou para a sua manicure. Súbito, um pequeno estrondo. Mas não tão súbito, porque era previsível. 

20 mil reais por um negrinho foi de graça.  

 

06
Jun20

'O Brasil encontrou formas perversas que transformaram o racismo em algo não dito'

Talis Andrade

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II - Caso Miguel: morte de menino no Recife mostra 'como supremacia branca funciona no Brasil', diz historiadora 

Camilla Costa entrevista Luciana Brito

 

BBC News Brasil - O que a morte de Miguel Otávio revela, em sua opinião, sobre o racismo no Brasil?

Luciana Brito - É trágico que uma criança tenha que morrer para mostrar isso, mas é assim que a ideia de supremacia branca funciona no Brasil. Eis a principal diferença entre a questão racial aqui e nos Estados Unidos.

Nem posso dizer que não temos aqueles supremacistas brancos clássicos, porque agora vemos aqui passeatas inspiradas na Ku Klux Klan, por exemplo.

Nós tivemos teses racialistas no Brasil, no início do século 20, dizendo que brancos seriam superiores a negros. Mas depois de um certo momento, essa ideia começou a se enraizar nos costumes.

Enquanto a ideia de supremacia branca nos Estados Unidos se transformava em leis, nos anos 1940, 1950 e 1960, aqui ela já estava profundamente nos costumes da população brasileira. Esta é a nossa supremacia branca.

Mesmo que não tenhamos tido as mesmas leis segregacionistas que os EUA, temos o mesmo princípio de que algumas pessoas são mais humanas e mais cidadãs do que outras.

 

BBC News Brasil - Que elementos do caso, na sua opinião, o tornam tão emblemático desse princípio?

Luciana Brito - Desde o início da pandemia estamos falando das trabalhadoras domésticas. Elas foram as primeiras a ser infectadas sem sair do país. Foram as primeiras a aparecer no fundo das lives (transmissões ao vivo) das celebridades. Então essa mulher, Mirtes Renata, a mãe de Miguel, foi infectada, não tinha onde deixar o filho e o levou para o local de trabalho, que era um local de infecção — já que os patrões dela estavam infectados. Esse é o primeiro ponto.

Depois temos a cena da patroa em casa rodeada de serviçais. Eu chamo isso de "delírios escravistas coloniais da sociedade brasileira". É o saudosismo do Brasil escravocrata colonial. É o sentimento que faz uma pessoa se rodear de serviçais num contexto de pandemia e de isolamento social. Ainda que esses serviçais, a doméstica, a manicure e o menino, estivessem correndo risco de vida.Miguel Otávio Santana da Silva

Também há o fato de que a mãe da criança teve que sair para levar o cachorro para defecar, coisa que qualquer pessoa poderia fazer, inclusive a dona do cachorro. Ela não abre mão de fazer as unhas para que o cachorro vá defecar. O cachorro tem um pouco da extensão da humanidade da dona. Ele tem uma atenção mais qualificada, que é a da trabalhadora doméstica.Image

O menino fica (em casa). Ele incomoda a patroa porque chora pela mãe, e ela o deixa no elevador sozinho. Eu vi a cena do elevador (no vídeo das câmeras de segurança exibido pela Polícia Civil). A forma como a patroa se dirige ao menino de 5 anos é como se estivesse falando a um adulto impertinente.

Se a gente quer falar nos Estados Unidos, isso me lembrou Tamir Rice, que morreu em 2014. Ele estava em um parque brincando com uma arma de brinquedo, uma pessoa viu da janela e ligou para a polícia. Disse para a polícia que ele aparentava ter 20 anos. Ele tinha 12. O carro da polícia chegou e ainda estava em movimento quando o policial atirou e matou Tamir. Crianças negras, especialmente meninos, não têm infância.

A patroa de Mirtes fala com um menino de 5 anos sem cuidado. Essa é a idade do meu filho. Ele não fica em momento algum fora de nossas vistas. Meu filho nunca andou sozinho no elevador do meu prédio, nem nos meus momentos de maior cansaço e preguiça.

A mulher bota o menino no elevador, aperta o botão, como dá para ver no vídeo, e aparentemente volta e continua a fazer as unhas. Não conseguimos ter uma ideia exata de tempo pela entrevista da mãe na imprensa, mas entendi que quando a mãe volta do passeio com o cachorro, ela fica sabendo pelo zelador que alguém caiu, e descobre o filho morto no chão.

Ou seja, a patroa colocou o menino no elevador e sequer ficou vigiando pra saber se ele tinha voltado ou não. Ela não sabia que ele tinha caído. Isso revela um desprezo por um ser humano. E é aí que eu vejo uma noção de supremacia branca. Não precisa vestir roupa da Ku Klux Klan. (Continua)

 

05
Jun20

Morte de filho de doméstica obriga Brasil a repensar racismo

Talis Andrade

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Miguel Otávio Santana da Silva, minutos antes de morrer, em um dos vários elevadores das luxuosas torres gêmeas 

por Astrid Prange

DW/ Alemanha

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"Enquanto as redes estavam subindo as tags “blacklivesmatter”, perdemos mais uma criança negra para o racismo enraizado neste país, para a desumanização de pessoas negras", comenta a historiadora Larissa Ibúmi sobre a morte de Miguel Otávio Santana da Silva. "[São] as mesmas estruturas coloniais, aquelas que mantêm mulheres negras a serviço da elite branca, as sinhás."

O trágico incidente ocorreu em 3 de junho no Recife, capital de Pernambuco. A doméstica Mirtes Renata Souza apareceu para trabalhar num luxuoso condomínio. Como as creches estão fechadas devido à pandemia de coivd-19, ela trouxera junto o filho Miguel, de cinco anos de idade.

A mando da patroa, Sarí Gaspar Côrte Real, Mirtes levou a cadela da família para passear, deixando o filho no apartamento. Quando esse pediu para estar com a mãe, Sari o deixou pegar sozinho o elevador. As câmeras do circuito interno do edifício registram como o menino sobe até o nono andar e escala uma grade do corredor. Pouco minutos mais tarde, ele cai de uma altura de 35 metros para a morte.

A empregadora foi acusada de homicídio culposo, mas se encontra em liberdade após pagar fiança de R$ 20 mil. Em entrevista à TV Globo, Mirtes desabafou: "Ela confiava os filhos dela a mim e à minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para tirar [do elevador]."

Miguel era o único filho da doméstica. Após a morte, expressaram-se nas redes sociais luto, consternação, mas também ódio e cólera. Sob o hashtag #JusticaPorMiguel, políticos e ativistas de todo o país se manifestaram. Uma petição online reuniu mais de 680 mil assinaturas em menos de 24 horas.

Herança maldita

A rapper, autora e professora de história Joyce Fernandes escreveu no Facebook e Instagram: "Uma vida novinha foi interrompida pelo ranço dessa branquitude elitista maldita, que compra tudo com essa merda de dinheiro herdado pelos seus vermes antepassados que escravizaram meu povo".

Até 2009, ela própria trabalhava como doméstica. Sob o pseudônimo artístico Preta-Rara, ela é adorada por milhares de afro-brasileiros. No Facebook, criou a página "Eu, empregada doméstica", e lançou um livro homônimo. Atualmente a ativista se apresenta em diversos programas de televisão.

Em comunicado, a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas frisou a negligência da empregadora Sarí Côrte Real: "Que tipo de pessoa deixa uma criança aflita, chamando pela sua mãe, subir qualquer andar de um prédio? O mesmo de tipo de pessoa que acha mais importante ter sua unha pintada e seus cachorros passeados do que preservar a vida das mulheres contratadas para realizar tal serviço."

"Nos não aceitamos que a vida dos cachorros de dona Sari e o brilho das suas unhas valham mais do que a vida de um menino negro e de sua mãe trabalhadora doméstica!", diz o comunicado.

Equiparação no papel

Há apenas cinco anos, em 2º de junho de 2015, entrou em vigor no país a PEC das Empregadas Domésticas, pela primeira vez equiparando-as a outros trabalhadores. Até então, elas eram tratadas como mão-de-obra de segunda classe, incapazes de exigir, por exemplo, pagamento de horas extras ou seguro-desemprego.

Apesar da equiparação perante a lei, mantém-se a prática de discriminação das domésticas no Brasil. Isso se evidencia especialmente na crise do coronavírus: a primeira vítima da covid-19 no Rio de Janeiro foi justamente uma empregada.

Cleonice Gonçalves, de 63 anos, diabética, se contaminou com sua empregadora, que passara férias na Itália em março. Esta se submeteu ao exame de coronavírus ao retornar, mas não comunicou o resultado à criada. Cleonice morreu em 19 de março num hospital do município de Miguel Pereira, a duas horas do Rio, onde morava com o filho.

Também os patrões de Mirtes Renata Souza estavam infectados com o coronavírus. Num vídeo feito por ele mesmo em 22 de abril, Sérgio Hacker, marido de Sarí e prefeito de Tamandaré, explicava que seus testes de covid-19 haviam sido positivos. Apesar disso, a doméstica não foi dispensada.

Muitos brasileiros duvidam que o casal venha a ser realmente responsabilizado pela morte do pequeno Miguel. "Se iludem os que acham que a #JustiçaPorMiguel será feita com facilidade", escreveu no Twitter o deputado Túlio Gadêlha (PDT-PE). "As famílias Corte Real e Hacker são famílias tradicionais da política pernambucana com muito poder e influencia nas instituições. Vcs verão que Pernambuco ainda vive sob o comando de oligarquias familiares."Image

Irudia

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Protesto em frente às Torres Gêmeas

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