Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

19
Jan22

'Zambelli é uma pessoa abominável', diz Jean Wyllys após deputada pedir suspensão da vacinação infantil

Talis Andrade

zambeli.jpeg

 

Carla Zambelli impune, falsa, criminosamente, alega que “dezenas de crianças estão sofrendo reações adversas” por conta da vacinação

 

247 - O ex-deputado Jean Wyllys (PT) criticou nesta terça-feira (18) a deputada Carla Zambelli (PSL) por defender a suspensão da vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a Covid-19

"Que pessoa abominável", escreveu Wyllys ao compartilhar reportagem sobre o pedido de suspensão da vacinação infantil, feito pela deputada bolsnarista.www.brasil247.com - Jean Wyllys e Carla Zambelli

No ofício enviado ao Ministério da Saúde e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Carla Zambelli alega que “dezenas de crianças estão sofrendo reações adversas” devido à aplicação incorreta do imunizante da Pfizer destinado a adultos em crianças.

A deputada federal usa como base para o pedido a vacinação de quase 50 crianças no município de Lucena, na Paraíba, com doses de adultos da Pfizer, em dezembro de 2021. A Secretaria de Saúde do estado investiga, ainda, se as doses estariam vencidas. Até agora, contudo, não há qualquer registro de reação adversa no grupo de meninos e meninas que receberam a dose errada.
Image
 
29
Dez21

“Deixo de comer para dar aos meus filhos”

Talis Andrade

crianca fome__osama_hajjaj.jpeg

 

 

Mães que sustentam sozinhas suas famílias foram atingidas em cheio pela perda de emprego e renda; mulheres são sempre as últimas a comer

 

por José Cícero e Mariama Correia /Agência Pública

 

Era por volta das 11 horas quando Letícia dos Santos, 32 anos, moradora da ocupação Nova Esperança, no Jardim São Luís, Zona Sul de São Paulo, começou a preparar o café da manhã para os quatro filhos que cria sozinha. Enquanto a panela com óleo aquecia, ela misturou farinha de trigo, água e açúcar. O cheiro de fritura que se alastrou pelo barraco lembrava um bolinho de chuva, mas faltavam ingredientes: “não tenho ovo, fermento, leite e canela”.

leticia.jpg

Letícia com seus filhos pequenos e outros parentes que moram em outros barracos na mesma ocupação

 

Naquele dia, as refeições da família vieram de doações. Desde que perdeu o emprego como cuidadora de idosos, em plena pandemia, Letícia depende dos donativos para alimentar os filhos. Ela também faz bicos com biscuit, doces e trabalhando em eventos para conseguir alguma renda. 

No ano passado, quando Letícia ficou desempregada, mais de 96% dos postos de trabalho fechados eram ocupados por mulheres, muitas delas mães solteiras. Segundo o IBGE, 11,5 milhões de mães cuidam dos filhos sozinha no Brasil. A insegurança alimentar é mais grave nesses lares, justamente porque as mulheres foram as mais prejudicadas pela falta de emprego e perda de renda na pandemia, como mostrou o inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil. 

Em 2020, segundo o Inquérito, a fome atinge mais as famílias sustentadas por alguém do sexo feminino, ou de raça/cor da pele autodeclarada preta/parda ou com menor escolaridade. No ano passado, 43,4 milhões de brasileiros – 20,5% da população – não tiveram acesso a alimentos em quantidades suficientes. Os percentuais de insegurança alimentar são mais altos em domicílios sustentados por uma única pessoa (66,3%), sobretudo se a responsável for mulher (73,8%). Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade da população brasileira (55,2%) conviveu com algum grau de insegurança alimentar em 2020. Ou seja, 116,8 milhões de pessoas não tinham acesso absoluto e permanente a alimentos.

 

Nutrição das mães em segundo plano 

Letícia ainda amamenta o filho caçula, um bebê de três meses. Como tem anemia profunda, deveria tomar um suplemento de ferro e ter uma alimentação balanceada, mas a nutrição dela fica sempre em segundo plano. “Por causa da minha alimentação ruim, o leite do peito fica fraco”, diz.  A ajuda que a família recebe do governo encolheu de R$ 375 para R$ 217 por mês, com o fim do auxílio emergencial. O dinheiro serve basicamente para comprar as fraldas e o complemento alimentar do bebê, que custa R$ 52 por lata. 

leite fraco.jpg

“Por causa da minha alimentação ruim, o leite do peito fica fraco”, diz Letícia

 

A maioria das 260 famílias que moram na ocupação Nova Esperança são chefiadas por mães solo. Lá, recebem cestas básicas que “garantem ao menos o arroz e o feijão”, diz Letícia. Também não pagam aluguel, que já foi uma fonte de dívidas para ela no passado. “Tive que sair do apartamento apenas com as roupas. Não deixaram nem trazer os meus móveis porque eu estava devendo”, relembra.

mapa-da-fome.jpg

“Se não fossem as cestas básicas, tinha passado fome”, diz Zenaide Severina, 40 anos, vizinha de Letícia. Com dois filhos para criar sozinha – um adolescente de 17 e uma menina de três anos -, ela foi morar na ocupação depois de ter a casa interditada pela defesa civil em 2020. Não recebeu auxílio moradia. No mesmo ano, foi afastada do emprego por problemas respiratórios, mas ainda espera as perícias para conseguir o auxílio doença. 

Na escola pública, a filha mais nova de Zenaide consegue ter todas as refeições. Quando as crianças estão em casa, muitas vezes a mãe come apenas uma vez por dia. “Não tenho coragem de fazer uma mistura para mim e não dar a eles”, diz. A pequena nem sempre aceita comer feijão com arroz várias vezes ao dia. Então, quando não há nada além disso para oferecer, Zenaide faz uma mamadeira de leite.  “Quando você é só, para quem vai pedir ajuda? Muitas vezes pedi ajuda ao pai da minha filha, mas ele ameaça tirar ela de mim”. 

O pesquisador José Raimundo estuda a fome no município de São Paulo desde os anos 2000. Ele afirma categoricamente que: “uma pessoa que está fazendo uma refeição por dia, está passando fome.

Quando não há alimentos necessários para toda a família, mesmo nos lares chefiados por homens, “as mulheres são as últimas a comer”, diz o pesquisador. “Em um domicílio que está em situação de fome ou risco de fome, as mulheres são as primeiras a sofrer porque elas tendem a priorizar a alimentação dos filhos e em seguida a dos maridos. A chance da mulher estar com fome é maior que a do homem e das crianças”, explica.

Em uma sociedade machista, argumenta Raimundo, “o cuidado com os filhos recai sobre as mulheres, que muitas vezes ficam presas até para arrumar um emprego, porque dependem de alguém para cuidar dos seus filhos”. 

 

Doações escassas, auxílios insuficientes 

“Tudo é mais difícil para uma mulher”, desabafa Ednalva do Nascimento, 43 anos, moradora do Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro. Ela sustenta cinco filhos com bicos de faxinas e lavagem de roupas. O caçula tem nove anos e o mais velho, que está desempregado, 25.  

“Perdi o emprego um pouco antes da pandemia. Quando a covid começou, nem faxina eu conseguia”, conta. A família não passou fome graças às doações de cestas básicas, mas até isso está se tornando mais escasso, com a desaceleração da pandemia, conta Ednalva.  “Muitas vezes deixo de comer para dar aos meus filhos. Verdura, fruta, carne só compro quando dá”, diz. 

Para ela, que só de aluguel paga R$ 500 por mês, a  promessa de aumento do auxílio brasil, criado após a extinção do Bolsa Família, para R$ 400 anima, mas não resolve os problemas. “Ajuda, mas não sei como vai ser até o fim do ano porque as doações estão diminuindo e ainda não tem emprego. Acho que ainda vai demorar muito para melhorar mesmo nossa situação”.

Vazio nos pratos e também nas políticas públicas

O cotidiano de insegurança alimentar repercute na saúde mental das mães solo de várias formas. Diante da incerteza sobre a condição de sustentar a própria família, Zenaide sofreu de depressão. Ela faz acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da Zona Sul, mas até o acesso ao serviço de saúde é complicado porque o atendimento fica distante da casa dela. “Se eu tirar esse dinheiro do transporte faz diferença nas contas, então nem sempre vou”. 

Para controlar crises de ansiedade, ela cuida do pequeno quintal onde cultiva plantas medicinais. Conta que não recebeu o auxílio emergencial na pandemia, por estar afastada do trabalho, embora o benefício do INSS ainda não tenha sido liberado. “Também não tenho direito ao auxílio para comprar gás de cozinha porque recebo o auxílio brasil. Como não tenho direito se estou sem emprego e com filho pequeno?”, questiona.

zenaide.jpg

Zenaide organizou um pequeno jardim no barraco. Para ela, cuidar das plantas ajuda a reduzir a ansiedade

 

“O pobre é esquecido”, lamenta Letícia. Desde que foi morar na ocupação, há um ano, ela tenta, sem sucesso, arrumar vagas para os filhos na escola pública mais próxima. “Parece que quanto mais a gente é humilde, mais difícil é para conseguir as coisas. Criam programas para ajudar os pobres, mas os pobres não são socorridos.” 

A percepção de Letícia se aproxima do Informe Dhana (Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequada) 2021, que analisa os impactos da Covid-19, ações e omissões do poder público diante da crise sanitária, econômica e social. O documento alerta para “cortes orçamentários e o enfraquecimento de programas voltados à promoção de segurança alimentar no Brasil”, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa de construção de Cisternas, de grande relevância para a segurança hídrica no semiárido brasileiro, entre outros. 

É o que também pensa a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello. Para ela, os impactos da pandemia poderiam ter sido mais amenos, caso o Governo Federal tivesse adotado medidas que fortalecessem políticas públicas e de proteção social. “Alguns países tiveram um aumento da pobreza, de problemas, mas não passaram enfrentar uma situação de fome. No Brasil, a gente viveu um acirramento gigantesco da fome e da insegurança alimentar nos seus vários níveis, porque todo colchão de proteção social que existia foi desmontando.” 

Tereza lembra que, no primeiro mês do governo Bolsonaro, a Medida Provisória 870 encerrou as atividades do Conselho Nacional de Segurança  Alimentar e Nutricional (Consea). Instituído em 1993, o Consea fazia parte do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), como um espaço crucial para garantir a participação da sociedade civil nas discussões sobre acesso a alimentos. 

“Ao desmontar o Consea, ele (Bolsonaro) desmontou o controle social, que é fundamental, porque o Consea era muito ativo, não só fiscalizando e cobrando o Governo Federal pelo bom funcionamento das políticas públicas, como ajudando na construção de uma política social sólida. Quando se extingue o Consea, se desorganiza toda essa agenda da transparência e do controle social”, explica Tereza. “Esse governo não liga para a alimentação saudável e não só, também não liga para a fome”, diz.

Pin em BCN Portal de Noticias

Publicação de Rosângela Moro gera polêmica nas redes sociais - Eu, Rio!

Em shopping de alto padrão, Rosângela Moro defende fim de assistencialismo

Leia mais aqui

Em shopping de alto padrão, Rosângela Moro defende fim de assistencialismo  - 22/07/2019 - UOL Notícias

Folha de S.Paulo on Twitter: "ITENS NÃO ESSENCIAIS | Defesa gasta verba da  Covid para comprar filé mignon e picanha, diz TCU. Pasta usa R$ 535 mil do  combate à pandemia com

28
Dez21

Número de sem-teto vivendo nas ruas “explodiu” em São Paulo, diz jornal francês

Talis Andrade

O jornal católico La Croix traz em sua versão on line uma reportagem sobre o Natal de Brasileiros em condições de rua em São Paulo. O número de pessoas nessa situação mais que dobrou desde 2019.

moradores de rua sp.png

 

O jornal católico La Croix traz em sua versão on line uma reportagem sobre o Natal de Brasileiros em condições de rua em São Paulo. O número de pessoas nessa situação mais que dobrou desde 2019. © copie La Croix on line



por 
RFI

O site do jornal La Croix publicou nesta quarta-feira (23) uma reportagem sobre o aumento de pessoas vivendo em situação de rua em São Paulo, afetados pela difícil situação econômica do Brasil.  O número "explodiu nos últimos meses" e já é três vezes maior do que em 2019.

A correspondente do jornal em São Paulo, Marie Naudacher, participou de um dos jantares de Natal oferecidos pela ONG SP Invisível em dezembro, na capital paulista.

O objetivo da organização é dar visibilidade aos precários, diz o La Croix. "Não é somente uma refeição, mas um momento acolhedor, como em uma verdadeira família", explicou o fundador da ONG André Soler ao jornal. 

De acordo com a reportagem, as ruas de São Paulo se transformaram na única opção para as pessos atingidas  pela crise econômica e, em seguida, pela crise sanitária. "De acordo com os números do Movimento da População de Rua, uma associação criada em 2000 por um ex-morador, 66.280 pessoas vivem nas principais avenidas de São Paulo", de acordo com o La Croix.

 

Mudança de perfil

natal moradores de rua nascimento Jesus num .jpeg

Bruno Tabet, diretor da SP invisível entrevistado pelo jornal, diz que o perfil das pessoas mudou. "Vemos mais famílias, com crianças. Antes eram mais homens, principalmente negros", diz. "As ajudas públicas para alguém em situação vulnerável como eu não são suficientes, eu me organizei morando na rua", diz Leonardo Melo, de 43 anos.

As estruturas de acolhimento existem, mas não são suficientes e muitas vezes impõem condições que desanimam os mais precários, como a proibição de animais de companhia e de carrinhos para transportar pertences.

Muitos sem-teto deixaram de participar do jantar oferecido pela OMG por conta do surto de gripe que atinge a cidade, explica a reportagem do La Croix. 

 

Insegurança alimentar

Às pessoas que estão nas ruas, somam-se os mal abrigados. Quase meio milhão de famílias são vítimas da falta de moradia em São Paulo, segundo a reportagem. O jornal também traz dados sobre a "onda de pobreza" que atinge o Brasil. "Neste país de 213 milhões de habitantes, 13% da população vive abaixo do limiar da pobreza".

Segundo o Programa alimentar mundial (PAM), citado pela reportagem, aproximadamente 50 milhões de brasileiros sofrem de insegurança alimentar "moderada ou grave". Os números do desemprego explodiram há dois anos. "Oficialmente, 14 milhões de brasileiros estão sem emprego atualmente e 7 milhões de pessoas estão subempregadas", diz o jornal.

jefferson morador de rua trablhar por comida.jpg

teto de gastos morador de rua.jpeg

03
Dez21

Pobreza é maior entre crianças, negros e moradores do Norte e do Nordeste

Talis Andrade

pobreza linha.jpeg

 

 

 
Pobreza é maior entre crianças, negros e moradores do Norte e do Nordeste 
 
Levantamento do IBGE mostra que mais de 17 milhões de crianças e adolescentes até 14 anos viveram abaixo da linha de pobreza no País, o equivalente a 38,6% da população nessa faixa etária
 

bolsonaro ensina criança.jpg

 

03
Dez21

8 em cada 10 mortes violentas entre crianças e adolescentes são de negros

Talis Andrade

militares crianças.jpg

 

 

247 - Em cada 10 mortes violentas intencionais na faixa etária de 0 a 17 anos, cerca de 8 são de crianças e adolescentes negros. A maior parte das vítimas, 86%, são do sexo masculino, enquanto o grupo mais atingido é o de jovens de 15 a 17 anos (82%). A reportagem é do jornal Folha de S.Paulo. 

Os dados fazem parte do novo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (2), que reforça o risco de morte que homens negros jovens correm no Brasil.

O levantamento Violência contra crianças e adolescentes reuniu boletins de ocorrência a respeito de cinco tipos de crimes, entre janeiro de 2019 e junho de 2021, contra vítimas de 0 a 17 anos.

Foram compilados números de maus tratos, lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, exploração sexual, estupro e mortes violentas intencionais (homicídios dolosos, feminicídios, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial).

Segundo a pesquisadora Sofia Reinach, coordenadora do levantamento, essa é a primeira vez que o instituto detalha os tipos de crimes cometidos contra as crianças. "É um estudo que qualifica melhor a violência", diz.

plicia crianca.jpeg

 

17
Nov21

'Minha aluna desmaiou de fome': professores denunciam crise urgente nas escolas brasileiras

Talis Andrade

fome -escolas-1.jpg

 

Desmaios por fome e pedidos de doação de alimentos tornaram-se rotina nas escolas públicas, em meio ao desemprego elevado e avanço da insegurança alimentar no país. Ilustração André Valente

 

por Thais Carrança /BBC News

"Essa aluna chegou bem atrasada. Ela bateu na porta da sala de aula, eu abri e notei que ela não estava bem, mas não consegui entender o porquê. Passei álcool na mão dela e senti a mão muito gelada, num dia em que não estava frio para justificar."

"Ela sentou e abaixou a cabeça na mesa. Eu estranhei e chamei ela à minha mesa. Ela veio e eu perguntei se ela estava bem. Ela fez com a cabeça que estava, mas com aquele olhinho de que não estava. Perguntei se ela tinha comido naquele dia, ela disse que não."

"Fui pegar algo para ela na minha mochila — porque eu sempre levo um biscoitinho ou uma fruta para mim mesma. Mas não deu tempo. Ela desmaiou em sala de aula."

O relato é de uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro. A aluna tem 8 anos, é negra e estuda em uma escola localizada em um complexo de favelas na Zona Norte carioca. O episódio aconteceu em setembro deste ano.

"Eu fiquei realmente sensibilizada por essa situação", conta a professora. "Por que é isso: a fome. Uma fome que a criança não sabe expressar a urgência. E que envolve muitas vezes a vergonha. Para ela é algo humilhante, por isso ela não consegue expressar."

O caso ocorrido na escola do Rio de Janeiro não é isolado. Professores da rede pública de todo o Brasil relatam episódios semelhantes, num momento em que o país soma 13,7 milhões de desempregados e a inflação de alimentos consumidos em domicílio acumula alta de mais de 13% em 12 meses, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo estudo da Universidade Livre de Berlim, a insegurança alimentar grave — como é chamada a fome na linguagem técnica — atingia 15% dos domicílios brasileiros em dezembro de 2020. Esse percentual chegava a 20,6% nos lares com crianças e jovens de 5 a 17 anos.

Os professores ouvidos pela BBC News Brasil relatam que os alunos com fome sofrem com perda de motivação e apresentam episódios de agressividade com colegas e educadores.

Na volta às aulas presenciais, após o período de ensino à distância forçado pela pandemia, os estudantes enfrentam os efeitos da perda de emprego e renda dos pais e do falecimento de avós que muitas vezes sustentavam a família com suas aposentadorias.

Conforme os professores, jovens estão abandonando os estudos para trabalhar e ajudar suas famílias na geração de renda e crianças moradoras de favelas estão, em alguns casos, mudando para regiões ainda mais precárias das comunidades, devido ao custo do aluguel.

Nesse cenário de crise social que bate à porta das escolas, os educadores fazem o que podem, organizando coletas de alimentos e direcionando as crianças e famílias que estão passando por necessidade à rede pública de assistência social.

"Procuro manter meu coração sempre firme, não cair em desespero", diz uma professora de língua portuguesa na rede estadual do Paraná, com quase 30 anos de profissão.

"A gente respira fundo e vai fazer campanha para cesta básica, para coleta de alimentos, para mantê-los em sala de aula. Eu me sinto às vezes cansada, mas me sinto na obrigação de me manter firme e fazer algo por essas crianças, para que eles sintam que podem contar conosco, que não seremos mais um a abandoná-los."

A BBC News Brasil optou por manter todos os entrevistados anônimos, como uma forma de preservar a privacidade das crianças citadas em seus relatos (Continua)

 

13
Nov21

Papa Francisco: “É hora de devolver a palavra aos pobres”

Talis Andrade

São Francisco nas expressões artísticas - Comunidade Católica Shalom

 

Na manhã dessa sexta-feira, o Santo Padre Francisco presidiu o Encontro de Oração e Testemunhos em Assis, onde se encontrou com um grupo de 500 pobres provenientes de várias partes da Europa, para um momento de escuta e oração. O encontro ocorreu por ocasião do V Dia Mundial dos Pobres, que se celebra no domingo, 14 de novembro de 2021.

Ao chegar a Assis, antes de chegar em Santa Maria dos Anjos, o Santo Padre dirigiu-se ao Mosteiro de Santa Clara para um breve encontro com a comunidade das clarissas.

Chegando à Basílica de Santa Maria dos Anjos, o Santo Padre foi acolhido no adro por algumas autoridades. Depois, três pobres dirigiram palavras de boas-vindas e entregaram simbolicamente a capa e o bastão do Peregrino ao Papa Francisco, indicando que todos foram como peregrinos aos lugares de São Francisco para escutar a sua palavra.

Posteriormente, o Santo Padre entrou na basílica e foi à Porciúncula, onde parou para rezar por alguns minutos. Depois de vários testemunhos, o papa proferiu o seu discurso.

O sítio da Santa Sé publicou o discurso que o Santo Padre dirigiu aos presentes durante o encontro. A tradução é de Moisés Sbardelotto.Pin on Imagens Católicas

Discurso do Papa Francisco no encontro de oração e testemunhos em Assis

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Agradeço-lhes por terem aceito o meu convite – mas fui eu o convidado! – para celebrar aqui em Assis, na cidade de São Francisco, o quinto Dia Mundial dos Pobres, que ocorre depois de amanhã. É uma ideia que nasceu de vocês, cresceu e já chegamos à quinta [edição]. Assis não é uma cidade como outra qualquer: Assis traz impresso o rosto de São Francisco. Pensar que, entre estas estradas, ele viveu a sua juventude inquieta, recebeu o chamado a viver o Evangelho ao pé da letra é, para nós, uma lição fundamental. Certamente, em certo sentido, a sua santidade nos faz estremecer, porque parece impossível poder imitá-lo. Mas, depois, no momento em que lembramos alguns momentos da sua vida, aqueles “fioretti” que foram recolhidos para mostrar a beleza da sua vocação, sentimo-nos atraídos por essa simplicidade de coração e simplicidade de vida: é a própria atração de Cristo, do Evangelho. São fatos da vida que valem mais do que as pregações.

Gosto de recordar um deles, que expressa bem a personalidade do Pobrezinho (cf. Fioretti, cap. 13: Fonti Francescane, 1841-1842). Ele e o frei Masseo haviam se posto em viagem para chegar à França, mas não haviam levado provisões com eles. Em certo ponto, tiveram que começar a pedir caridade. Francisco foi para um lado, e o frei Masseo, para outro. Mas, como contam os Fioretti, Francisco era de estatura pequena e quem não o conhecia o considerava um “mendigo”; em vez disso, frei Masseo “era um homem grande e belo”. Foi assim que São Francisco mal conseguiu recolher alguns pedaços de pão duro e velho, enquanto o frei Masseo recolheu belos pedaços de pão bom.

Quando os dois se reencontraram, sentaram-se no chão e, em uma pedra, puseram o que haviam recolhido. Vendo os pedaços de pão recolhidos pelo frade, Francisco disse: “Frei Masseo, nós não somos dignos deste grande tesouro”. O frade, admirado, respondeu: “Padre Francisco, como é possível falar de tesouro onde há tanta pobreza e faltam até as coisas necessárias?”. Francisco respondeu: “É precisamente isso que considero um grande tesouro, porque não há nada, mas o que temos foi doado pela Providência que nos deu este pão”. Eis o ensinamento que São Francisco nos dá: saber se contentar com aquele pouco que temos e compartilhá-lo com os outros.

Estamos aqui na Porciúncula, uma das igrejas que São Francisco pensava em restaurar, depois que Jesus lhe pedira para “reparar a sua casa”. Então, ele nunca teria pensado que o Senhor lhe pediria para dar a sua vida para renovar não a igreja feita de pedras, mas a de pessoas, de homens e mulheres que são as pedras vivas da Igreja. E se nós estamos aqui hoje é justamente para aprender com aquilo que São Francisco fez.

Ele gostava de ficar muito tempo nesta igrejinha para rezar. Ele se recolhia aqui em silêncio e se colocava à escuta do Senhor, daquilo que Deus queria dele. Nós também viemos aqui para isto: queremos pedir ao Senhor que escute o nosso grito, que escute o nosso grito!, e venha em nosso auxílio. Não esqueçamos que a primeira marginalização que os pobres sofrem é a espiritual. Por exemplo, muitas pessoas e muitos jovens encontram um pouco de tempo para ajudar os pobres e levar-lhes comida e bebida quente. Isso é muito bom, e eu agradeço a Deus pela sua generosidade. Mas, acima de tudo, alegra-me quando ouço que esses voluntários param um pouco para conversar com as pessoas e às vezes rezam junto com elas... Pois bem, o fato de nos encontrarmos aqui, na Porciúncula, nos lembra a companhia do Senhor, que Ele não nunca nos deixa sozinhos, sempre nos acompanha em todos os momentos da nossa vida. O Senhor está conosco hoje. Ele nos acompanha, na escuta, na oração e nos testemunhos dados: é Ele, conosco.

Há outro fato importante: aqui na PorciúnculaSão Francisco acolheu Santa Clara, os primeiros frades e muitos pobres que vinham ao seu encontro. Com simplicidade, ele os recebia como irmãos e irmãs, compartilhando tudo com eles. Eis a expressão mais evangélica que somos chamados a assumir: a acolhida. Acolher significa abrir a porta, a porta da casa e a porta do coração, e permitir a quem bate que possa entrar. E que possa se sentir à vontade, não em sujeição, não, à vontade, livre.

Onde há um verdadeiro senso de fraternidade, vive-se aí também a experiência sincera da acolhida. Onde, ao invés disso, há o medo do outro, o desprezo pela sua vida, então nasce a rejeição ou, pior, a indiferença: aquele olhar para o outro lado. A acolhida gera o senso de comunidade; a rejeição, pelo contrário, fecha no próprio egoísmo.

Madre Teresa, que fizera da sua vida um serviço à acolhida, gostava de dizer: “Qual é a melhor acolhida? O sorriso". O sorriso. Compartilhar um sorriso com quem precisa faz bem a ambos, a mim e ao outro. O sorriso como expressão de simpatia, de ternura. E depois o sorriso envolve você, e você não poderá se afastar da pessoa a quem sorriu.

Agradeço-lhes porque vocês vieram até aqui de tantos países diferentes para viver esta experiência de encontro e de fé. Gostaria de agradecer a Deus que deu essa ideia do Dia dos Pobres. Uma ideia nascida de um modo um pouco estranha, em uma sacristia. Eu estava prestes a celebrar a missa, e um de vocês – chama-se Étienne – vocês o conhecem? É um enfant terrible –, Étienne me deu a sugestão: “Vamos fazer o Dia dos Pobres”. Eu saí e senti que o Espírito Santo, por dentro, me dizia para fazer isso. Foi assim que começou: a partir da coragem de um de vocês, que tem a coragem de levar as coisas adiante. Eu o agradeço pelo seu trabalho ao longo destes anos e pelo trabalho de muitos que o acompanham.

E gostaria de agradecer, desculpe-me, eminência, pela sua presença, cardeal [Barbarin]: ele está entre os pobres, ele também sofreu com dignidade a experiência da pobreza, do abandono, da desconfiança com dignidade. E ele se defendeu com o silêncio e a oração. Obrigado, cardeal Barbarin, pelo seu testemunho que edifica a Igreja.

Eu dizia que viemos nos encontrar: essa é a primeira coisa, isto é, ir um na direção do outro com o coração aberto e a mão estendida. Sabemos que cada um de nós precisa do outro e que até a fraqueza, se vivida juntos, pode se tornar uma força que melhora o mundo. Muitas vezes, a presença dos pobres é vista com incômodo e suportada; às vezes, ouve-se que os responsáveis pela pobreza são os pobres: um insulto a mais! A fim de não fazer um exame de consciência sério sobre os próprios atos, sobre a injustiça de algumas leis e medidas econômicas, um exame de consciência sobre a hipocrisia de quem quer enriquecer desmedidamente, joga-se a culpa sobre os ombros dos mais fracos.

Ao invés disso, é hora de devolver a palavra aos pobres, porque, por muito tempo, os seus pedidos não foram ouvidos. É hora de abrir os olhos para ver o estado de desigualdade em que vivem tantas famílias. É hora de arregaçar as mangas para restaurar a dignidade, criando postos de trabalho. É hora de voltar a se escandalizar diante da realidade de crianças famintas, reduzidas à escravidão, sacudidas pelas águas em meio ao naufrágio, vítimas inocentes de todo o tipo de violência. É hora de que cessem as violências contra as mulheres e de que elas sejam respeitadas e não tratadas como moeda de troca. É hora de romper o círculo da indiferença para voltar a descobrir a beleza do encontro e do diálogo. É hora de nos encontrarmos. É o momento do encontro. Se a humanidade, se nós, homens e mulheres, não aprendermos a nos encontrar, iremos rumo a um fim muito triste.

Escutei com atenção os seus testemunhos e lhes agradeço por tudo o que vocês manifestaram com coragem e sinceridade. Coragem, porque vocês quiseram compartilhá-los com todos nós, embora façam parte da sua vida pessoal; sinceridade, porque vocês se mostram assim como são e abrem o coração no desejo de serem entendidos.

Há algumas coisas de que eu gostei particularmente e que gostaria de retomar de alguma forma, para torná-las ainda mais minhas e deixar que elas se depositem no meu coração. Em primeiro lugar, senti um grande senso de esperança. A vida nem sempre foi indulgente com vocês, pelo contrário, muitas vezes lhes mostrou um rosto cruel. A marginalização, o sofrimento da doença e da solidão, a falta de muitos meios necessários não lhes impediu de olhar com olhos cheios de gratidão para as pequenas coisas que lhes permitiram resistir.

Resistir. Essa é a segunda impressão que eu recebi e que deriva precisamente da esperança. O que significa resistir? Ter a força para seguir em frente apesar de tudo, ir contra a corrente. Resistir não é uma ação passiva, pelo contrário, requer a coragem de trilhar um novo caminho sabendo que dará frutos. Resistir significa encontrar motivos para não se render diante das dificuldades, sabendo que não as vivemos sozinhos, mas juntos, e que somente juntos podemos superá-las. Resistir a toda tentação de desistir e de cair na solidão ou na tristeza. Resistir, agarrando-se à pequena ou pouca riqueza que possamos ter.

Penso na jovem do Afeganistão, com a sua frase lapidar: “O meu corpo está aqui, a minha alma está lá”. Resistir com a memória, hoje. Penso na mãe romena que falou no fim: dores, esperança, e não se vê a saída, mas a esperança forte nos filhos que a acompanham e que lhe devolvem a ternura que receberam dela.

Peçamos ao Senhor que nos ajude sempre a encontrar a serenidade e a alegria. Aqui, na PorciúnculaSão Francisco nos ensina a alegria que vem de olhar para quem está perto de nós como um companheiro de viagem, que nos entende e nos sustenta, assim como nós somos para ele ou para ela. Que este encontro abra o coração de todos nós para nos colocarmos à disposição uns dos outros; abrir o coração para tornar a nossa fraqueza uma força que ajude a continuar o caminho da vida, para transformar a nossa pobreza em riqueza a ser compartilhada e, assim, melhorar o mundo.

Dia dos Pobres: obrigado aos pobres que abrem o coração para nos dar a sua riqueza e curar o nosso coração ferido. Obrigado por essa coragem. Obrigado, Étienne, por ter sido dócil à inspiração do Espírito Santo. Obrigado por esses anos de trabalho; e também pela “teimosia” de trazer o papa a Assis! Obrigado! Obrigado, eminência, pelo seu apoio, pela sua ajuda a este movimento da Igreja – dizemos “movimento” porque se movem – e pelo seu testemunho. E obrigado a todos. Trago-os no meu coração. E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim, porque eu tenho minhas pobrezas, e muitas! Obrigado.

24
Out21

A cada 20 minutos, uma menina estuprada

Talis Andrade

 

 

Criança-de-comuniddae-não-gosta-de-helicopetro

Manuela D'Ávila na mídia

 
Manuela
@ManuelaDavila
Mais um triste dado levantado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Unicef: jovens negros representam 80% das vítimas de mortes violentas de crianças e adolescentes no Brasil nos últimos 5 anos. Até quando?

violenciario rio criança.jpg

É preciso proteger nossas meninas. Em estudo inédito divulgado pelo Unicef e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 20 minutos, uma menina foi estuprada no Brasil no período entre 2017 e 2020. De todos os casos analisados, 86% foram praticados por conhecidos das vítimas, como pais, padrastos, vizinhos e tios. O estudo traz ainda orientações para frear o índice de violência contra as crianças. Entre elas, a capacitação de profissionais que trabalham com crianças e adolescentes, além da educação, de acordo com cada idade, sobre o que é violência sexual e como identificar casos de abuso. Somente com acesso a informação nossas crianças poderão compreender os diversos tipos de violência e assim pedir ajuda.Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA MULHER POUPARIA R$ 214 BILHÕES EM 10 ANOS, DIZ FIEMG Fonte: Universa UOL FEMI NISMO"

Segundo a pesquisa Impactos Econômicos da Violência contra a mulher, feita pela Fiemg, seriam poupados em 10 anos mais de R$ 214 bilhões do PIB brasileiro se houvesse o combate a este problema. Os cálculos levam em conta o fechamento dos postos de trabalho resultantes da violência contra a mulher, que impacta na queda da renda, na redução do consumo, no faturamento das empresas e também na arrecadação de impostos. Violência é sempre ruim para todos.Ato em embaixada do Brasil em Paris usa absorventes para atacar Bolsonaro - Coletivo Alerta França Brasil/MD18 Ubuntu AudiovisualRelatores da ONU cobraram Bolsonaro sobre veto na distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nosso país precisa garantir dignidade menstrual para quem menstrua. Seguiremos na luta para derrubar esse veto!

Nojento! Acusado de cometer crimes contra humanidade, Bolsonaro segue com seu projeto de morte, espalhando a absurda fake news de que quem está tomando as 2 doses da vacina está adquirindo HIV/AIDS.

zumbi suástica.gifSabem o cartaz com suástica que levaram na Câmara dos Vereadores no dia dos ataques racistas e fascistas? Conforme a delegada da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância, a mulher que levou alegou que recebeu um "chamado divino" para confeccioná-lo. Como pode isso, gente??!Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé e interioresEu quero voltar a esse episódio para falar sobre como funcionam as redes de ódio da extrema direita. Hoje cedo, li no jornal que dois dos homens envolvidos na violenta manifestação da extrema direita são militantes do movimento cristão conservador do PTB. Não acho uma casualidade que esse seja o Partido de Roberto Jefferson, que numa manifestação recente sugeriu que invadissem plenários e atirassem em parlamentares de oposição. Aliás, essa manifestação foi o que me fez procurar o MP e denunciá-lo e que agora faz com que o supremo o investigue novamente. Muitas vezes ouvimos que esses discursos não causam nada. Sabemos que isso não é verdade. Não causam nada apenas para quem não os enfrenta. Inflamados por esses discursos e por Fake News, “lobos solitários” se movimentam e agem. O discurso falso gera um ódio verdadeiro. Foi isso que vimos na Câmara de vereadores dessa semana. Por isso, a importância de identificar e punir quem produz e distribui os conteúdos falsos e de ódio. Eles são a raiz. Mais um abraço cheio de carinho pras minhas camaradas Daiana e Bruna.

📷 Lucas Leffa

 

 
07
Out21

O drama das crianças brasileiras deportadas para o Haiti

Talis Andrade

Haitianos deportados dos Estados Unidos chegam ao Aeroporto Internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe, Haiti, em 19 de setembro de 2021.Haitianos deportados dos EUA chegam ao Aeroporto Internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe

 

Parte dos haitianos deportados do Texas são crianças nascidas no Brasil – que portanto têm direito de ser assistidas pelo governo brasileiro

 

 

por Thomas Milz /DW

Mais de 7 mil migrantes que se encontravam em baixo da Ponte Internacional, na cidade fronteiriça texana de Del Rio, já foram deportados para o Haiti, segundo dados publicados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) na segunda-feira (04/10). Entre elas, estavam 381 crianças nascidas no Chile e 85 no Brasil. Estas são, portanto, brasileiras natas, ainda que de pais haitianos. Elas têm o direito de ser assistidas pelo governo brasileiro e de ser repatriadas.

Mas ao chegarem, forçadas pelo governo americano, ao aeroporto de Porto Príncipe ou de Cabo Haitiano, cidade no norte do Haiti que também recebe os voos vindos do Sul dos Estados Unidos, essas crianças e seus pais estão jogados no meio de um país à beira do colapso, em meio a uma violência quase generalizada pelas gangues que dominam, hoje em dia, grandes partes da região. Cada pessoa recebeu da OIM 120 dólares, o salário mínimo haitiano, suficiente apenas para sobreviver os primeiros dias num país que suas famílias, na maioria das vezes, tinham abandonado há muitos anos.

Na mídia, diz-se que o governo brasileiro, através da embaixada em Porto Príncipe, já está fornecendo ajuda a essas crianças. Estive no aeroporto da capital haitiana na ocasião da chegada de alguns voos, mas não encontrei nenhum representante do governo brasileiro. Por outro lado, encontrei haitianos que, durante anos e anos, tinham vivido e trabalhado no Brasil, onde seus filhos haviam nascido.

Alguns deles não sabiam que o governo brasileiro tem obrigação de ajudá-los; outros não sabiam como acionar tal ajuda. Assim, acabam se espalhando pelo Haiti, uns com a ajuda de familiares, outros se refugiando em favelas, na busca de uma moradia barata. Muitos carregam traumas pelos acontecimentos em tais viagens. Afinal, para se chegar do Chile ou do Brasil até a fronteira com os Estados Unidos, leva-se de um a dois meses. Neste percurso, eles gastam milhares de dólares com os "coyotes" – os facilitadores na travessia de um país para o outro.

Caos e miséria da América Latina

Há relatos chocantes de passagens de migrantes pelas selvas do Peru e, principalmente, pelo região de Darién, no Panamá, com sua selva densa e perigosa de atravessar. Lá, na região que liga o país à Colômbia, eles são vítimas de gangues que roubam e matam. O mesmo perigo espera os migrantes no México, onde regiões inteiras estão sobre o domínio de bandos criminosos.

Além de haitianos e migrantes hispano-americanos, há também muitos brasileiros tentando entrar nos Estados Unidos de forma ilegal. Nos últimos tempos, houve inclusive notícias de crimes contra eles. Estão à busca de uma vida melhor, já que a situação econômica de muitos países – como o Brasil e o Chile – tem se deteriorado ultimamente. Assim, os EUA se transformam, cada vez mais, na "terra prometida" para muitos latinos. E também na única opção.

Cheguei ao Brasil no começo do século, quando o otimismo com o futuro era palpável. Havia uma onda de governos "progressistas" na região, que ensaiavam iniciativas de mais inclusão social. Hoje, olhando para o caos e a miséria que ronda o Haiti, encontro muitas similaridades com cidades brasileiras. A falta de comprometimento das administrações públicas com a melhoria das vidas dos cidadãos se reflete numa negligência com as cidades e seus habitantes.

Pergunto-me o que será dessas crianças haitiano-brasileiras, que, com pouca idade, já sentiram na pele as veias abertas da América Latina. Uma região cada vez mais fragilizada pela fragmentação das instituições governamentais e dominada pelas gangues do tráfico de drogas, de armas e humano. A América Latina se encontra num estado lamentável, numa emergência humanitária. E, aparentemente, sem governantes responsáveis e com visão de futuro para dar uma esperança à população. Dar uma perspectiva às crianças brasileiras que chegaram, sem querer, no caos haitiano, já seria um começo. Pelo menos isso.

08
Set21

O dia seguinte

Talis Andrade

Jorge Braga - 21 de abril de 2020

 

Editorial de O Estado de S. Paulo 

Bolsonaro exibiu exatamente o que tem mostrado desde o início do mandato: sua irresponsabilidade e seu isolamento político

 

O presidente Jair Bolsonaro exibiu ontem exatamente o que tem mostrado desde o início do mandato: sua irresponsabilidade e seu isolamento político. Tratadas nas últimas semanas como prioridade nacional pelo Palácio do Planalto, as manifestações bolsonaristas do 7 de Setembro serão interpretadas pelo presidente como a prova de que o “povo” o apoia, mas um presidente realmente forte não precisa convocar protestos a seu favor nem intimidar os demais Poderes para demonstrar poder; apenas o exerce. Assim, Bolsonaro reiterou sua fraqueza, já atestada por várias pesquisas que indicam o derretimento de sua popularidade.

Os atos – que configuraram evidente campanha eleitoral antecipada, bancada parcialmente com recursos públicos – revelaram também que, depois de tantas ameaças proferidas, Jair Bolsonaro já não tem muito mais o que falar de novo a seus seguidores. Ontem, chegou a dizer que convocaria o Conselho da República, órgão previsto na Constituição para consulta sobre “intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio”, além de “questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas” (art. 90).

“Amanhã, estarei no Conselho da República, juntamente com os ministros. Para nós, juntamente com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, com esta fotografia de vocês, mostrar para onde nós todos deveremos ir”, disse Jair Bolsonaro, em seu dialeto trôpego. Os três presidentes citados, Arthur Lira, Rodrigo Pacheco e Luiz Fux, disseram desconhecer a tal reunião. Como é de seu feitio, Bolsonaro trata assunto sério de forma leviana.

Se as manifestações tiveram considerável afluência, algo até previsível ante o fato de que o presidente passou os últimos dois meses usando sua tribuna privilegiada para convocar sua militância, o fato inexorável é que o governo exatamente continua no mesmo lugar. E os problemas nacionais continuam os mesmos. A rigor, por força de Bolsonaro, eles até se agravaram nas últimas semanas: aumentou o pessimismo, decaiu a confiança, cresceu o desalento. A saída da crise social e econômica está mais distante.

charge fim miséria pobre.jpg

 

Não há como negar. É patente o descaso do presidente com a realidade do país. Basta ver que, diante da inflação crescente e ao emprego em baixa, a aposta de Bolsonaro, interessado somente em permanecer no poder e proteger sua prole e a si mesmo da Justiça, continua sendo acirrar tensões com os outros Poderes e sugerir a possibilidade de uma ruptura institucional. Em seu léxico, não há solução.

genildo- miséria .jpg

 

Eis a grande disfuncionalidade dos atos bolsonaristas de 7 de setembro. Por mais que pretendam demonstrar apoio, as manifestações são incapazes de modificar a natureza dos reais desafios do Palácio do Planalto. Os problemas continuam os mesmos e tendem a se agravar, já que é cada vez mais explícito o desinteresse de Jair Bolsonaro em enfrentá-los.

Por mais que Bolsonaro não goste da ideia, há um país a ser governado. Havia antes do 7 de Setembro e continuará a haver depois. São muitos os assuntos a respeito dos quais se deve esperar uma atitude responsável por parte do presidente, como o enfrentamento da pandemia e a gestão da crise hídrica. Vidas, empregos e o futuro das novas gerações estão em risco.

É esse cenário de desolação que se apresenta aos olhos da população todos os dias, seja feriado ou dia útil, tenha motociata presidencial ou não. Os índices de desaprovação recorde do governo Bolsonaro são um dos sintomas desse quadro disfuncional.Capa do jornal Estadão 08/09/2021

comemorar 7 set.jpgCharge da semana - 04/01/2019

Jovem Jornalista: Rosa e Azul: cor tem ou não gênero e as convenções sociais

miseria tem cor .jpg

pobreza criança miséria _brum.jpg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub