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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

13
Jan22

O inferno astral de Sergio Moro

Talis Andrade

 

Por Fernando Brito

Quem assiste – até por dever de ofício – as entrevistas de Sérgio Moro percebe um crescente tom de agressividade nas falas do ex-juiz.

Já desde o final de 2021, quando passou a preocupar-se em “desmentir” as acusações de luxos e benefícios financeiros de sua atuação numa multinacional que administra a recuperação da Odebrecht (e só isso bastaria para impugná-lo), Moro coleciona derrotas e reage mal a elas, preocupando-se em vender versões fantasiosas que não convenceriam nem a velhinha de Taubaté.

Duas delas, para que o leitor e a leitora possam medir o coeficiente de delírio: a de que entrou no Governo para “evitar as maluquices” de Jair Bolsonaro e a de que o atual presidente “quer entregar o poder ao Lula de novo”.

Em 24 horas ganhou duas traulitadas.

Bruno Dantas, ministro do Tribunal de Contas da União, mandou passear o procurador da República Júlio Marcelo de Oliveira, fã confesso de Moro, que tentava intrometer-se no processo em que se cobra da Alvarez & Marsal que informe quanto e a que título o pagavam e em que processos ele atuava, para verificar-se suposto conflito de interesses.

E Joaquim Barbosa, o ex-ministro do STF, a quem foi procurar levando a vaga de candidato a vice na bandeja também o despachou gentilmente, mandando dizer por amigos que acredita que o ex-juiz vá jogar a toalha, desistir e sair candidato a uma cadeira de senador pelo Paraná.

Moro, fraco, tornou-se bom de bater e até Ciro Gomes viu nele a possibilidade de recuperar alguma simpatia, desafiando-o para um debate que Moro não pode aceitar sob pena de ser massacrado.

Ah, sim, para confeitar o bolo amargo, arranjou a “adesão” de Marcos Cintra, ex-auxiliar de Paulo Guedes, que foi logo defendendo a reintrodução da CPMF, irritando o Ipiranga de Moro, Afonso Celso Pastore.

Hoje ou amanhã recomeçam a divulgação de pesquisas e, salvo alguma “mão amiga”, Moro seguirá em índices desanimadores, daqueles que fazem suspeitar que Joaquim Barbosa possa ter razão.

03
Out20

O ‘Posto Ipiranga’ está cercado e falta pouco para fechar

Talis Andrade

O-posto-Ipiranga-de-Jair-Bolsonaro.jpg

 

 

por Fernando Brito

- - -

O primeiro ataque foi frustrado. Quando o general Walter Braga Netto disparou, numa entrevista no Planalto, o canhonaço do Plano Pró-Brasil, em abril, sugerindo um “Plano Marshall” para o Brasil devastado pela pandemia, a blindagem de Paulo Guedes ainda era forte o suficiente para resistir.

O auxílio-emergencial, de lá para cá, manteve o ministro da Economia, mas sempre na dependência de oferecer algo para depois do fim do “cheque especial” que ganhou para gerir o país à base de um déficit que, tudo indica, chegará ao fim do ano em cerca de R$ 1 trilhão, 13% ou pouco mais de nosso Produto Interno Bruto.

A reação da economia, por sinal, foi menos desastrosa do que se previa, mas as pressões de inflação. câmbio e juros, inevitáveis quando se desenha tamanho déficit, só fazem crescer.

Quase aos berros, Guedes pede reforços fiscais: a nova CPMF, travestida de “imposto digital” ou “digitax” como fala o pessoal do mercado, é a divisão de R$ 120 bilhões (sonhou-se até com R$ 240 bi, com a cobrança bífida, como língua de cobra, ao pagador e ao recebedor) era sua principal aposta para liberar os agentes econômicos das contribuições patronais, na esperança que fossem, assim, gerar emprego e renda. O auxílio, à meia-ração, seria obtido com arrocho no salário mínimo e nos proventos de aposentadorias, além de um cata-cata de migalhas em outros programas sociais.

O homem encastelado no Planalto, de olho em sua súbita popularidade com a prodigalidade do auxílio, quase que só dizia “se vira” ao general desesperado, mas se preocupava em segurar os mercadistas, jurando fidelidade ao Santo Teto dos Gastos, seu padroeiro de devoção.

Guedes parece sem alternativas. Sua principal tarefa tem sido a de inventar novas formas e nomes para as ideias que já lhe foram recusadas.

Com a cobertura de um ponta-de-lança civil e político – Rogério Marinho – ombreado a Braga Netto como líder do assalto ao Posto Ipiranga, criou-se o clima para as primeiras escaramuças.

Elas vieram a público, ontem, mais pela reação de Guedes que pela ação dos atacantes.

Ambos levam planos a Bolsonaro: Marinho, o aplauso nas inaugurações de obras antigas no Nordeste; Braga Netto um rol de projetos de obras que se sustentaria num hipotético trilhão de reais de investimentos estrangeiro, uma privatização “no atacado” que venderia 160 empresas e uma carteira de obras que seria uma versão 4.0 das velhas “frentes de trabalho” dos tempos da ditadura, privilegiando aquelas que fossem intensivas em mão de obra.

Sonhar, claro, não custa nada, senão a perda de contato com a realidade.

A fraqueza de Guedes chegou ao ponto de que até seu ex-admirador Merval Pereira diz hoje, em O Globo, que ele não tem forças para pedir a cabeça de Marinho. Nem mesmo a ameaça do Banco Central de subir os juros caso desabe o teto de gastos provocou solidariedade ao quase ex-ministro da Economia.

As coisas só não se definem mais rápido porque Jair Bolsonaro, quem diria, aprendeu a arte política de deixar que as coisas se tornem insustentáveis antes de fazer sua própria vontade.

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