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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Jul21

A Arte de Furtar

Talis Andrade

'A arte de furtar'

por Gustavo Krause

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Arte de Furtar é leitura recomendável para os dias atuais.

É um tesouro de sabedoria e “uma joia literária sob qualquer critério” escreve João Ubaldo Ribeiro, na apresentação do livro, edição Clássicos da Nova Fronteira, 1992.

A história do livro começa com uma burla: até hoje não é possível apontar com certeza quem é o autor do livro: o Padre Manoel da Costa ou o Padre Antônio Vieira, autor profético

Prevalece Manoel da Costa. A data da primeira edição (1652) é precária. Em 1744, a edição impressa em Amsterdã não encerra a polêmica sobre a data e autoria, tanto que o leitor na composição da capa é advertido pela atribuição de “Anônimo”.

As dúvidas sobre datas e autoria são irrelevantes: o conteúdo é precioso.

A dedicatória a D. João IV adverte: “Não ensina ladrões o meu discurso, ainda que se intitula Arte de Furtar, ensina só a conhecê-los, para os evitar”.

Identifica os “ladrões por natureza”, como a pior espécie, pois: con arte e con engaño, vivo la mitad del año; y con engaño y arte vivo la outra parte, recitava um dos mestres da ladroagem.

Os maiores ladrões tomam por ofício se livrar de outros ladrões e criam varas de justiça, guardas, meirinhos, almotaceis, rendeiros e terminam por “fortalecer a todos com provisões, privilégios e armas”.

Com olhar atento, o autor recorre à metáfora das “unhas” para definir quarenta tipos de “unhas para furtar”. Entre elas, “os que furtam com unhas reais” e “os que furtam com unhas políticas”.

O autor cuida da política degenerada que nasce, como ratos da “matéria pútrida”: a mãe é a “Razão de Estado” e o pai “o Amor-Próprio”. De ambos, brota a “Dona Política” cuja máxima é: “bom para mim e mau para vós”.

O caso brasileiro é inesgotável fonte de inspiração. Tome-se “furtar” com a amplitude que vai além do tipo penal. Resulta da cobiça que, como o fogo, nunca diz basta à riqueza, ao poder e às honras da glória.

Por aqui, conhecemos todos os tipos de unhas e esconderijos. Assumem formas de revestimento de cuecas e supositórios, em dinheiro vivo, ou de crime organizado pronto para lavar a grana. Na praga da Covid-19, apareceram as tenebrosas unhas assassinas.

Isso mesmo, unhas que esganam vítimas da pandemia até a morte porque subtrai o dinheiro que salvaria vidas.

As tesouras do Estado, vigiar, reprimir e punir, estão enferrujadas.

 

 
27
Jun21

BOLSONARO, A IMUNIDADE DE REBANHO E O CASO COVAXIN

Talis Andrade

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Um dos focos da CPI da Covid no Senado é investigar se o governo federal estimulou o contágio intencional da doença no país. Em outra frente, a comissão apura suspeitas de irregularidades na aquisição da vacina indiana Covaxin

 

por G1

Depoimentos e documentos colhidos pela CPI da Covid em seus dois primeiros meses de trabalho indicam que, durante a pandemia, o governo do presidente Jair Bolsonaro concentrou esforços na obtenção da cloroquina, ineficaz contra a doença, em vez de priorizar a aquisição de vacinas. A comissão está em funcionamento desde 27 de abril.

IMUNIDADE DE REBANHO

Em diversas ocasiões, o presidente Jair Bolsonaro expôs o que pensava sobre como o Brasil superaria a pandemia: quando a maioria da população fosse infectada pelo vírus, produzindo a chamada “imunidade de rebanho”.

Também chamada de imunidade coletiva, essa estratégia consiste em atingir um ponto em que há quantidade suficiente de pessoas imunes ao vírus, o que faz com que ele deixe de circular.

Infectologistas e especialistas em saúde pública ressaltam, porém, que isso só é viável por meio da vacinação em massa da população. Do contrário, isso significaria expor as pessoas a um vírus letal e infligir um grande número de mortes que poderiam ser evitadas.

Além disso, outro fator que mina essa teoria de atingir a imunidade de rebanho por meio da exposição deliberada das pessoas é o fato de o vírus da Covid sofrer constantes mutações e algumas mais contagiosas. Ou seja, essa característica torna cada vez maior a probabilidade de novos contágios continuarem acontecendo.

Um dos focos de investigação da CPI é apurar se o governo incentivou o contágio desenfreado no país, baseado na ideia da imunidade de rebanho, e se essa estratégia se refletiu na falta de empenho na compra de vacinas em 2020.

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a organização não-governamental Conectas Direitos Humanos mapeou os atos normativos e a propaganda feita pela administração federal durante a pandemia da Covid-19.

O relatório concluiu que o governo “optou por favorecer a livre circulação do novo coronavírus, sob o pretexto de que a infecção naturalmente induziria à imunidade dos indivíduos”.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro defendeu tratamentos sem eficácia, promoveu aglomerações por onde passava e desdenhou do uso de máscara e do distanciamento social, contrariando medidas sanitárias para evitar o contágio.

Mesmo com o agravamento da crise e o aumento no número de mortes pela doença, que passou da marca de 500 mil, Bolsonaro continuou propagando um discurso na contramão das evidências científicas. [Transcrevi trechos. Leia mais e veja fotos, gráficos e vídeos]

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27
Jun21

Bolsonaro pode ser julgado em Haia por gestão da pandemia?

Talis Andrade

Charge: Imunidade de rebanho. Por Laerte

Bolsonaro, imunidade de rebanho, por Laerte

 

  • Paula Adamo Idoeta /BBC News 

 

A discussão em torno da tese da imunidade de rebanho por contaminação em vez de por vacinação, e se essa tese foi ou não colocada em prática no Brasil durante a pandemia - potencialmente contribuindo para as mais de 500 mil mortes por covid-19 no país -, pode ganhar um novo capítulo jurídico, embora longo e de difícil resolução.

Senadores da CPI da Covid têm discutido a possibilidade de denunciar o presidente Jair Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional (TPI), corte em Haia, na Holanda, encarregada de julgar indivíduos acusados de quatro tipos de crimes graves: crimes contra a humanidade, genocídio, crimes de guerra e crimes de agressão — em que políticos e militares podem ser responsabilizados por invasões ou ataques de grandes proporções.

A discussão de Bolsonaro se tornar alvo do TPI por conta da gestão da pandemia já ocorria no ano passado, mas volta a ganhar corpo com os depoimentos da CPI. O argumento de parte dos senadores é de que já há indícios de que teria havido intencionalidade da administração federal em "infectar" deliberadamente a população na busca pela imunidade de rebanho - algo negado oficialmente pelo governo e seus defensores.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam, no entanto, que um caso do tipo teria grandes obstáculos para avançar no TPI - como, por exemplo, comprovar que houve dolo por parte do presidente brasileiro (ou seja, intenção de infectar deliberadamente a população) até explicar por que a Justiça brasileira não daria conta de lidar com a questão (entenda abaixo).

Além disso, a maioria das denúncias que chegam ao TPI costumam não passar pelo crivo rigoroso da Procuradoria do tribunal, e um dos motivos disso é que a corte internacional não tem como atribuição substituir os sistemas judiciais nacionais dos países.

Consultada pela BBC News Brasil, a assessoria do senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, afirmou que até o momento não foi formalizada nenhuma intenção de entregar o relatório final da CPI ao tribunal internacional - trata-se apenas de uma possibilidade discutida por senadores da comissão.

O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da CPI, afirmou na terça-feira (22/6) que é muito cedo para pensar em levar o caso a Haia, mas não descartou que a medida seja adotada caso se conclua nas investigações da CPI que houve "crime contra a humanidade" por parte do presidente.

"Ainda é muito cedo para essa especulação", disse Costa à BBC News Brasil, embora ele ao mesmo tempo opine que, a partir dos depoimentos ouvidos até agora, "já existem elementos suficientes para colocar que o governo adotou isso [imunidade de rebanho] como estratégia. A ideia era o maior número possível de pessoas se contaminarem na expectativa de com isso gerar uma imunidade de uma parcela delas e o vírus parar de circular".

Jair Bolsonaro já é alvo de cinco representações criminais no TPI, e uma nova queixa relacionada à gestão da pandemia foi apresentada por profissionais de saúde em julho de 2020.

Imunidade de rebanho

Do ponto de vista científico, a imunidade de rebanho é obtida por meio de vacinação, criando-se uma proteção coletiva contra determinada doença. Em contrapartida, a ideia de imunidade de rebanho por contaminação não tem respaldo científico e é algo que, no caso da covid-19, potencialmente aumenta o número de adoecimentos e mortes e dá oportunidade para o vírus se proliferar descontroladamente e, por consequência, desenvolver novas variantes mais perigosas.

Embora o Ministério da Saúde nunca tenha oficialmente adotado a estratégia de imunidade de rebanho sem vacinas, Bolsonaro afirmou diversas vezes que a contaminação da maioria da população era inevitável e que "ajudaria a não proliferar" a covid-19.

"Muitos pegarão isso [o vírus] independente [sic] dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde", afirmou Bolsonaro em 15 de março de 2020 à CNN Brasil.

No mês seguinte, Bolsonaro afirmou que "o vírus vai atingir 70% da população, infelizmente é uma realidade".

Em live no último dia 17 de junho, Bolsonaro afirmou, erroneamente, que "todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina". Isso não é verdade: a infecção por covid não impede uma reinfecção, principalmente diante da circulação de cepas mais perigosas do coronavírus. Além disso, os cientistas ainda não sabem, com clareza, o quanto uma infecção de fato produz de imunidade no corpo.

E na última sexta-feira (25/6) o ministro da Economia, Paulo Guedes, também mencionou, em uma audiência, da aposta na imunidade de rebanho. "A ideia de imunidade de rebanho foi uma ideia difundida lá no início (da pandemia). Não se falou em barreira sanitária, testagem em massa, vacinas, nada disso. A ideia é vamos aos poucos porque, se for todo mundo ao mesmo tempo, explode a capacidade hospitalar".

Em depoimento à CPI da Covid em 11 de junho, o médico sanitarista Claudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa, afirmou que se tentou "produzir imunidade de rebanho à custa de vidas humanas".

"O governo se manteve na posição de produzir imunidade de rebanho, com essa conotação toda, para a população, em vez de adotar medidas reconhecidas pela ciência para enfrentar a crise", declarou Maierovitch.

Esse argumento é a base das discussões sobre uma possível queixa contra Bolsonaro no TPI - de intencionalidade na adoção de uma política que acabaria se provando danosa à população.

No entanto, a jurista brasileira Sylvia Steiner, que foi juíza do TPI entre 2003 e 2016, explica que seria preciso coletar um conjunto robusto de provas para que um caso do tipo conseguisse avançar na corte internacional.

"Em relação à CPI, seria necessário aguardar um pouco mais os depoimentos para ver se, para além de uma política desastrosa, houve um projeto de forçar a imunidade de rebanho por contaminação. Se isso ficar demonstrado, não digo que possa configurar crime contra a humanidade, mas pode ser melhor explorado [juridicamente]", diz Steiner à BBC News Brasil.

Ela explica que uma política de saúde, mesmo que mal executada, por si só não necessariamente vai ser entendida pelo TPI como um ataque deliberado à população.

"Se houve uma política de Estado para forçar a contaminação, aí a coisa pode mudar. Mas é cedo para chegar a essa conclusão."

O jurista Belisário Santos Junior também aponta obstáculos que conheceu em primeira mão na tramitação do TPI: ele é integrante da Comissão Arns, entidade de direitos humanos que é coautora de uma das queixas já apresentadas contra Bolsonaro no tribunal internacional. Trata-se de um pedido feito em 2019 por uma investigação preliminar das ações do presidente brasileiro por "incitação ao genocídio e ataques sistemáticos contra populações indígenas". No momento, a queixa está sob análise da Procuradoria do TPI.

Santos explica à BBC News Brasil que qualquer denúncia relacionada à gestão da pandemia teria de demonstrar claramente o eventual "atentado doloso deliberado contra a saúde", além de explicar por que a Justiça brasileira não teria sido capaz de reagir a isso, gerando-se portanto a necessidade de se recorrer à Justiça internacional.

Isso é algo difícil de ser demonstrado em um momento em que a própria CPI ainda está em andamento, explica o jurista - embora ele destaque que o número de mais de 500 mil mortos por covid-19 no Brasil seja "algo dantesco e maior do que muitos genocídios somados", algo que pode ter um peso importante em uma eventual denúncia.

O jurista destaca ainda que o TPI "não é o remédio para todos os males" jurídicos, inclusive porque as denúncias feitas à corte têm um caminho longo a percorrer até de fato serem convertidas em julgamentos - quando o são.

Osmar Terra na CPI; deputado fez defesas públicas da imunidade de rebanho, mas em seu depoimento negou que tenha defendido isso como "proposta de governo"

 

Nos quase 20 anos desde sua implementação, o TPI promoveu 30 julgamentos, resultando na prisão de 17 pessoas. Outras 13 são consideradas foragidas, entre elas políticos internacionalmente conhecidos, como Omar al-Bashir, ex-presidente do Sudão e acusado de homicídio, extermínio, tortura e estupros na região de Darfur; e o líder rebelde Joseph Kony, do Exército de Resistência do Senhor, grupo acusado de homicídios, escravidão sexual e estupro e outros atos desumanos em Uganda.

'Resultado final de pandemias'

O tema da imunidade de rebanho começou a ser investigado pela CPI da Covid a partir de depoimentos como o do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que afirmou ter tido a "impressão" de que o governo Bolsonaro pretendia adotar essa medida no país.

"A impressão que eu tenho é que era alguma coisa nesse sentido [de buscar a imunidade de rebanho], o principal convencimento, mas eu não posso afirmar", afirmou o ex-ministro à CPI.

Uma minoria de cientistas internacionais chegou a aventar essa ideia ou colocá-la em prática em alguns países, como o Reino Unido, mas ela foi rapidamente abandonada depois que estudos começaram a mostrar que ela resultaria na perda de milhares de vidas.

Isso porque a contaminação pelo novo coronavírus, além de potencialmente levar à morte pessoas de diferentes idades e condições de saúde, não necessariamente impede uma reinfecção, nem protege contra variantes mais perigosas do vírus.

Apontado como um dos principais influenciadores de Bolsonaro nesse tema, o deputado Osmar Terra (MDB-RS) afirmou nesta terça (22/6) à CPI da Covid que nunca defendeu a "tese de imunidade de rebanho".

"Essa ideia de imunidade de rebanho ser uma proposta [de governo] é um absurdo. A imunidade de rebanho é um resultado final" de pandemias, disse. "A imunidade de rebanho nunca foi uma estratégia, é uma constatação de como termina uma pandemia. Isso está em todos os livros."

No entanto, declarações prévias de Terra contradizem isso. Em 12 de dezembro de 2020, quando tinham se passado nove meses de pandemia, ele afirmou que "é bem provável que em algumas semanas cheguemos a imunidade coletiva, ou imunidade de rebanho".

Essa e outras falas de Terra sobre o assunto foram exibidas em vídeo na CPI durante o depoimento do deputado.

Terra afirmou, ainda, que não acredita que suas opiniões tenham tido influência sobre as decisões tomadas por Jair Bolsonaro.

Senadores governistas, porém, têm defendido o direito de o presidente se consultar com pessoas de fora do Ministério da Saúde.

"Pedir sugestões, filtrar, é uma obrigação de cada gestor. Não tem nada a ser recriminado de qualquer gestor público, seja ele prefeito, governador, presidente", declarou o senador Jorginho Mello (PL-SC) durante o depoimento de Terra. "Ouvir as pessoas é uma coisa muito salutar e evita o erro. Se aconselhar e depois tomar a posição que quiser tomar."

Daniel A. Dourado
@dadourado
Vejam aí a declaração do Osmar Terra da semana passada. Ele continua sendo o mentor dessa política completamente absurda do governo Bolsonaro.
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25
Jun21

Terceira onda da Covid-19 já chegou ao Brasil, diz jornal Le Figaro

Talis Andrade

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O Brasil estampa mais uma vez as páginas e sites dos jornais franceses nesta quinta-feira (24) com dois assuntos: o novo recorde de contaminações por Covid-19 e o duelo entre Bolsonaro e Lula a um ano e meio das eleições presidenciais de 2022.

Sites de jornais, rádios e tevês francesas repercutem nesta quinta-feira o recorde de contaminações por Covid-19 no Brasil. Segundo dados divulgados na quarta-feira (23) pelo Ministério brasileiro da Saúde, 115.228 novos casos foram registrados em 24 horas, o que para o jornal Le Figaro, confirma a chegada de uma terceira onda da doença no Brasil.

A matéria também indica que o país registrou 2.392 novos óbitos em 24 horas, elevando o total de mortes para 507.109. "O Brasil é o segundo país mais castigado pela Covid-19 em números absolutos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que contabiliza mais de 600 mil mortos", afirma a matéria. 

O site do jornal Le Monde destaca que a situação é muito grave no Brasil, com as infecções em constante aumento há um mês e a média de mortes em 2 mil por dia há uma semana. A matéria sublinha que, em 19 dos 27 estados brasileiros, os leitos dos hospitais registram entre 80% e 90% de ocupação.

O diário publica que, enquanto isso, a vacinação avança lentamente: apenas 30,7% da população brasileira recebeu ao menos uma dose e 11,36% está completamente imunizada. "Em São Paulo, a maior cidade do país, a vacinação teve de ser interrompida na terça-feira devido à falta de imunizantes disponíveis", ressalta. 

Lula x Bolsonaro

A edição impressa do jornal Le Monde que chegou às bancas nesta quinta-feira traz uma análise de seu correspondente no Rio de Janeiro, Bruno Meyerfeld, que afirma que a briga entre o presidente brasileiro e o líder do PT não será fácil.

O texto ressalta que a popularidade de Bolsonaro está em plena queda livre nas pesquisas de opinião e três a cada cinco brasileiros desaprovam seu governo. "Se as eleições fossem hoje, o atual chefe de Estado seria aniquilado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontado como vencedor praticamente desde o primeiro turno", ressalta Le Monde. 

Segundo Le Monde, o cenário parecia improvável há até pouco tempo, ninguém apostaria na volta de Lula, descrito pelo correspondente como "sem credibilidade e humilhado" pela condenação na justiça e pelos 580 dias que passou na prisão. No entanto, com a anulação da condenação pelo Supremo Tribunal, o líder do PT recuperou seus direitos políticos e protagoniza seu retorno, como um "um inabalável fênix político", diz o texto. 

Mas o correspondente do Le Monde no Rio lembra que, apesar da catastrófica gestão da pandemia de Covid-19, Bolsonaro segue contando com um apoio massivo das elites militares, dos evangélicos e do agronegócio. "Fera política e gênio da comunicação digital à moda populista, o presidente não perdeu a forma e ainda impõe sua agenda frenética ao Brasil", sublinha o jornal. 

Além disso, Le Monde lembra que o líder da extrema direita deve se beneficiar da retomada econômica prevista para 2022 no Brasil, anunciado como um ano de festa, com a volta do Carnaval, a Copa do Mundo do Catar e o bicentenário da independência do país. "Todos esses eventos comemorativos podem dar uma vantagem ao presidente no poder", avalia a coluna. 

Sem guinada à esquerda

Outro ponto fundamental, para Le Monde, é que o Brasil não deu uma guinada à esquerda. "Ao contrário: em uma sociedade cada vez mais conservadora e violenta, marcada pela ascensão dos evangélicos", o PT é visto com maus olhos por uma parte da população e continua sendo vinculado à imagem de um partido corrupto. 

A coluna ressalta que diante de uma crise econômica, social e moral, o Brasil precisa, urgentemente, não apenas de um novo presidente, mas de um grande presidente. "Figura considerável da história do país, Lula é o único que encarna hoje essa esperança. Mas a um ano e meio das eleições, o jogo não está ganho", conclui.

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No Brasil, que se tornou o segundo país a superar a marca das 500.000 mortes por Covid-19, o aumento das contaminações diárias confirma a chegada de uma terceira onda. AP - Silvia Izquierdo

25
Jun21

Carta de pesquisadoras: o que o Brasil precisa fazer para controlar a pandemia

Talis Andrade

 

Na Nature Medicine, Ester Sabino, Lorena Barberia e Silvia Figueiredo Costa pedem uma abordagem cooperativa e coordenada para lidar com a crise sanitária que se prolonga em altos índices de casos e mortes

 
por Jornal da Usp
 

As professoras da USP Lorena Barberia , Silvia Figueiredo Costa e Ester Sabino assinam uma carta publicada na revista Nature Medicine nesta segunda-feira, 21 de junho.

Dando um panorama do cenário brasileiro na pandemia, após mais de 14 meses de seu início, as cientistas lembram que os brasileiros ainda sofrem com milhares de mortes todos os dias, aumento de casos, superlotação de hospitais e alta letalidade do vírus. “Quem está na linha de frente entende que o Brasil está em guerra com a covid-19”, declaram. 

Entre os muitos fatores que explicam por que o número de vítimas da pandemia no Brasil é tão alto, elas incluem sua estreita conexão com os mercados mundiais, a vulnerabilidade socioeconômica de grande parte da população e a desigualdade persistente no País.

Mas um dos fatores mais cruciais da crise sanitária no Brasil, argumentam, é a falta de comando centralizado, planejamento estratégico e recomendações claras baseadas em evidências desde o começo.

Enquanto o quarto ministro da Saúde a ser nomeado desde o início da pandemia tenta orientar a resposta à crise, o Brasil continua sendo o epicentro da pandemia na América Latina. “A batalha contra o sars-cov-2 será perdida sem um comando central e deixará para trás um país terrivelmente dividido”, alertam.

Elas sugerem que o plano deve começar reconhecendo as ações, fora e dentro do próprio país, que estão dando certo. “Nos poucos casos em que foram impostos bloqueios mais rígidos, como em Araraquara (SP), e adotadas estratégias de vigilância voltadas para a atenção básica, como em São Caetano do Sul (SP), essas medidas se mostraram extremamente eficazes.”

As cientistas ressaltam o papel de líderes que possam construir consensos, e que uma comunicação clara e concisa com a população, mas sempre com base em evidências, é crucial. Para elas, os governantes precisam agir com o objetivo de construir confiança e cooperação, valorizando a ciência. “Não há mais espaço para os governantes priorizarem o oportunismo político e a divulgação de notícias falsas.”

Além disso, reafirmam que o Brasil precisa adotar medidas mais rígidas de distanciamento físico e, em alguns Estados, lockdown. Intervenções não farmacêuticas devem ser coordenadas entre os Estados, e os programas de assistência social devem ser direcionados para atender às necessidades das populações vulneráveis.

Sem essas políticas mais rígidas, argumentam, “o nível de adesão ao distanciamento social é baixo, em parte porque a maioria das pessoas no Brasil não pode trabalhar em casa”. 

Elas defendem, entretanto, que um lockdown estrito só será eficaz se a capacidade do País de prever e responder à transmissão do sars-cov-2 for melhorada. E isso deve feito com testagem acelerada e em massa, “focada na identificação de pessoas que estão transmitindo o vírus a outras, além do rastreamento e testagem de seus contatos”. Como solução para as regiões com menor infraestrutura para testagem, sugerem como alternativa o uso generalizado de testes rápidos de antígenos. O sequenciamento genético para detectar variantes existentes e novas de interesse também é necessário. 

Quanto à vacinação, as autoras dizem que a velocidade precisa ser ainda maior. A produção no Brasil sofre com “atrasos na importação de insumos farmacêuticos ativos e entregas abaixo dos níveis combinados”. E enquanto isso não se resolve, num contexto de “fornecimento global de vacinas limitado”, os líderes nacionais precisam preparar a população para outras intervenções que reduzam a disseminação.

Por fim, elas defendem que esforços para conter a pandemia no Brasil também precisam da participação da comunidade internacional.

Por exemplo, “em vez de concentrar esforços na introdução de passaportes de vacinas e na propagação do nacionalismo de vacinas, a Europa e os Estados Unidos devem liderar esforços para garantir que os custos de testes, medicamentos, equipamentos médicos e vacinas sejam acessíveis para garantir um suprimento adequado no Sul Global”, declaram.

E cobram: “Não há desculpa para atrasos na entrega de reagentes de vacinas previstos em contratos, especialmente porque os ensaios das vacinas Sinovac [CoronaVac] e ChAdOx1 [Oxford-AstraZeneca] foram conduzidos e parcialmente pagos pelo Brasil.”

(Trechos em aspas em tradução livre)

24
Jun21

A improbidade sanitária em tempos de Covid-19

Talis Andrade

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Por Nésio Fernandes, Edson Pistori e Thiago Campos /ConJur

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A probidade é a qualidade do que é íntegro, reto ou honesto; é a virtude de quem tem comportamento moralmente irrepreensível.

O seu oposto, a improbidade, não é apenas a ausência de probidade, mas a existência de maldade, perversidade ou falseamento proposital da verdade com intuito de enganar ou ludibriar.

A improbidade está diretamente relacionada à ideia da má-fé, que se caracteriza pela atitude contra a lei praticada de plena consciência, com deslealdade e sem justa causa.

A probidade, assim como a boa-fé, são valores intrínsecos à Administração Pública, cujo fundamento está na base da confiança entre os cidadãos e o Estado.

Constitui-se, portanto, em improbidade sanitária os atos ou omissões intencionais que atentem contra o dever do Estado de "garantir a saúde" e de reduzir os "riscos de doenças e de outros agravos" (artigo 196 da Constituição Federal).

Mais grave do que a improbidade administrativa, que se refere à lesão ao patrimônio público e ao enriquecimento ilícito às custas do erário, a improbidade sanitária atenta contra o bem-estar físico, mental, social das pessoas e da coletividade, quando não solapa a própria vida.

A situação sanitária do Brasil é uma tragédia superlativa.

A perda de meio milhão de vidas, em pouco mais de um ano, é a consequência da alta capacidade de transmissão do vírus e da sua natureza letal, mas, sem dúvida alguma, isso foi agravado exponencialmente pela desigualdade social no país, e pela irresponsabilidade do presidente da República e de seus auxiliares.

Não se trataram de meros erros de avaliação quanto às alternativas de políticas governamentais disponíveis, e, sim, de um descaso deliberado, um desprezo absoluto pela vida, pela dor e pelo sofrimento alheios.

Alertas críticos foram dados insistentemente, porém a gravidade da crise sanitária sempre foi minimizada, com um desdém cínico e insofismável.

Diante do número colossal de óbitos e da doença fora de controle, é improbidade sanitária pregar o não uso de máscaras ou deixar de usá-las.

É improbidade sanitária colocar em dúvida a efetividade de vacinas, relativizar a necessidade de tomá-las.

Improbidade maior é causar obstáculos à aquisição de imunizantes ou retardar o início e a velocidade da imunização, sob o falso pretexto de obstáculos legais ou falta de vantajosidade econômica.

Essa improbidade sanitária tem o preço impagável de 500 mil sepulturas até agora, e o fim disso ainda está longe do horizonte.

Para se mostrar ativo, porém com notório propósito divisionista, para levar vantagens diante das divergências ou dissensões, incentivou-se o uso indiscriminado pela população de medicamentos sem nenhuma eficácia contra a doença, o que também é um ato de improbidade sanitária.

A Lei nº 1079, de 1950, estabeleceu que os atos do presidente da República e dos ministros que atentarem contra a probidade da Administração são considerados crimes de responsabilidade.

Temos um crime continuado acontecendo, caracterizado pela unidade de propósito em minimizar a tragédia, falsear intencionalmente a verdade e a gravidade da situação, pela sabotagem as soluções e a prevenção necessária, por se esquivarem das responsabilidades legais que lhes foram conferidas e por ludibriar a boa-fé de algumas pessoas ao custo da vida de milhares de outras.

Tudo isso asfixia a democracia e atenta contra o caráter civilizatório da República, enunciado pela Constituição de 1988.

Há mais de 500 mil consequências graves da improbidade sanitária praticada no Brasil, outras ainda estão por vir. Quantas vidas perderemos a mais até colocarmos um fim nessa loucura?

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21
Jun21

A maior tragédia da história do Brasil

Talis Andrade

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por Alex Solnik

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Essa cifra – 500 mil mortos – é absolutamente perturbadora. Tento desviar meus pensamentos para outros assuntos, a fim de me distrair, mas o número não me sai da cabeça.

Começo a fazer comparações. Morreram 60 mil brasileiros na Guerra do Paraguai. A guerra com mais brasileiros mortos. Então, 500 mil mortos são quase dez Guerras do Paraguai. Dez.

Examino a lista de todas as revoltas no país durante o século XX. Foram dezenas. E a Segunda Guerra Mundial. Somando as vítimas fatais de todas elas não dá 500 mil.

A seguir, procuro paralelos com cidades.

Florianópolis tem 508.826 habitantes. É como se de toda a população de Florianópolis apenas 8.826 restassem vivos entre 17 de março de 2020 e 20 de junho de 2021.

Cidades da Europa. Pelo censo de 2010, Lisboa tem 499.700 habitantes. É como se todos os moradores de Lisboa morressem em quinze meses. Todos.

Nunca houve tragédia semelhante no Brasil. O vírus, sozinho, não conseguiria.

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21
Jun21

A saúde e a lógica miliciana

Talis Andrade

 

por João Paulo Cunha /Brasil de Fato


O chamado gabinete paralelo da saúde já deixou de ser uma desconfiança a ser apurada pela CPI do Senado. É hoje um grupo reconhecido, consolidado, com hierarquia definida e poder de influência, formado por nomes que vão da ponta mais doentia do negacionismo científico aos propagadores de mentiras sem qualquer credencial de conhecimento.

Além de criar um descaminho perigoso para a política oficial de saúde, ele opera com o álibi de não passar pelo crivo das instituições, sejam elas de controle ou de prática profissional e validação científica. Um bando avulso, nem por isso menos perigoso.

Assim como as milícias assassinas atuam no vazio da política de segurança, o shadow cabinet bolsonarista leva para a saúde o mesmo método. Como patrono, nos dois casos, a morte. No caso da segurança pública, como objetivo principal; no terreno sanitário, como objeto de manipulação e temor.

Os milicianos se sustentam em torno da insegurança estrutural, ampliando a sensação de abandono e de descrença no poder público, oferecendo violência como solução para a violência. Em substituição aos comandos geridos por bandidos, a milícia profissional herda o cenário do crime e suas consequências, sob a gestão de profissionais. Tocam o terror e recolhem a grana.

Na saúde, parece que a coisa se sofistica um pouco mais, mas a mecânica é a mesma. Em primeiro lugar, a exacerbação do problema como resultado da falta de coragem do sistema em enfrentá-lo. Afinal, saúde sempre foi um caos e a saída são os planos e seguros privados. Além disso, incorpora-se ao discurso a fundamentação do SUS como obra de sanitaristas de esquerda, quando não de comunistas infiltrados via Cuba.

Como é impossível derrotar o sistema por dentro, o melhor é torpedear as estruturas públicas e montar uma operação nas sombras. Para tanto, o governo fez seu trabalho habitual: sabotou e desconstruiu o que funcionava.

Para isso, seguiu a cartilha destrutiva habitual do governo federal em todas as áreas da administração e do repertório de direitos. Cortou verbas, extinguiu ações de atenção básica e distribuição de medicamentos, dinamitou o Mais Médicos (com Mandetta à frente) e atacou programas humanizados como o de saúde mental.

Substituiu ministros em meio à pandemia pela recusa em utilizar drogas ineficientes e nomeou militares incompetentes para cargos importantes, inclusive o de ministro de Estado, com a calamitosa e mortífera gestão de Pazuello. Tudo isso sem chegar às antecâmaras da pandemia propriamente dita.

Como o combate à doença tem consenso planetário a partir da OMS e entre universidades, institutos de pesquisa e especialistas mais respeitados, era preciso romper com a lógica oficial para instituir um programa paralelo que não fosse alvo de repúdio internacional. Ou seja, jogar para a plateia enquanto sabota por trás.

O governo nunca enfrentou verdadeiramente a emergência sanitária, chegou a confrontar com outros países, como a China, mas precisava enviar um sinal mínimo de racionalidade para se manter no concerto das nações, mesmo com o desonroso título de pior programa de combate à pandemia em todo o mundo.

Mesmo fazendo tudo errado – deixando de testar, abrindo mão da oferta de vacinas, contribuindo por inépcia para a falta medicamentos para intubação e oxigênio, criando conflito entre instâncias de governo, investindo em drogas imprestáveis, incentivando aglomerações, desprezando orientações não farmacológicas, entre outros absurdos sanitários –, o governo federal precisava manter-se no jogo. Seu foco era mais o comércio internacional que a saúde da população.

Duas caras

Assim, criou-se uma situação de dupla face. A primeira, voltada para as conveniências, mesmo estúpida e destruidora em sua organização a partir do governo federal, mantém alguma relação com a saúde pública. O Ministério da Saúde segue atuando minimamente, as agências e órgãos públicos da área, com muita dificuldade, remam contra a maré do descaso da política oficial, governos estaduais e municipais correm por fora para impedir o colapso.

Está armado um péssimo programa nacional de combate à covid, que na verdade sequer chegou a ser oficialmente constituído.

Mas há uma segunda face, que abdica da oficialidade da política pública para disseminar o projeto que de fato alimenta a perspectiva do governo federal. Preocupado fundamentalmente com a economia e míope para entender que a normalidade só viria com as vacinas, Bolsonaro põe em ação seu plano assumidamente genocida: a única saída é espalhar a doença e a morte até que o limite do contágio impeça a circulação do vírus.

Entram em cena, então, as duas instâncias fundamentais do programa necrossanitário brasileiro: o desprezo à ciência e a indústria da mentira.

O gabinete paralelo é fruto desse projeto. Ele foi criado com o fim de sustentar as ações anticiência, o individualismo irresponsável, o incentivo ao retorno à situação pré-pandêmica para aquecimento da economia, o proselitismo da cura milagrosa, o charlatanismo de parte de corporações e militarização do setor.

Para isso, era preciso, como no caso da segurança pública, criar a sensação de profunda insegurança e apontar soluções drásticas que apostassem na defesa dos mais fortes contra a indigência dos fracos.

Por isso, nomes como Nise Yamaguchi, Paolo Zanotto, Osmar Terra, Arthur Weintraub e Carlos Wizard não fazem parte apenas do ministério paralelo, mas de uma força miliciana que se reúne, age e orienta o governo à margem da transparência, do controle público e das normas constitucionais. Assim como milicianos no mundo do crime fazem justiça fora da lei, os protomilicianos sanitários defendem o combate da pandemia longe dos preceitos da ciência e da verdade dos fatos.

Os cientistas, médicos, integrantes de conselhos, políticos, jornalistas, publicitários, militares, familiares do presidente e outros recrutados para o gabinete paralelo se dispuseram a sustentar a farsa. Alguns por mero oportunismo, outros por ambição e inveja, e, ainda, alguns por convicção doentia na palavra de um líder obtuso.

O importante é que todos eles têm o que lucrar com esse comportamento, tanto material quanto simbolicamente.

Como os milicianos que vendem proteção armada em face à ineficiência do sistema e se tornam senhor dos territórios conflagrados, os neomilicianos prometem a cura mesmo que entreguem apenas a morte na forma de uma inviável imunidade coletiva pelo contágio. E ganham sua recompensa pela proximidade ao poder e pela vingança contra o descrédito que recolhem entre seus pares.

O gabinete paralelo é a afirmação infeliz desse comportamento ressentido. Seria um caso de psicopatologia social, se antes não fosse um crime contra a humanidade.

 

 

 
21
Jun21

Qual é o real tamanho da tragédia no Brasil?

Talis Andrade

 

Marca de meio milhão de mortos por covid-19, na verdade, já teria sido atingida há meses. Falta de clareza sobre o quadro real é obstáculo para políticas públicas e sustenta a falsa sensação de controle da doença

 

por Malu Delgado, na DW

O Brasil tem sido um caso mundial raro de acúmulo de erros no combate à doença desde o registro oficial do primeiro caso confirmado de covid-19, em 26 de fevereiro de 2020. Quase 16 meses depois do paciente 1 (nas estatísticas oficiais), o país supera a trágica marca de meio milhão de mortos e quase 18 milhões de infectados confirmados, como constava no painel mundial da Johns Hopkins University na tarde de 18 de junho de 2021. O pior é que o cenário, alertam cientistas, é certamente mais sombrio, e o tamanho da tragédia, maior e mais alarmante.

Estudos estatísticos conduzidos por cientistas brasileiros indicam que, tanto de óbitos quanto de número de infectados pelo coronavírus, a subnotificação atinge altos patamares. A falta de clareza sobre o quadro real é obstáculo para implementação mais racional de políticas públicas e muitas vezes sustenta a falsa sensação de controle da doença.

 

Vítimas seriam até 700 mil

 

O número mais realista de óbitos no Brasil hoje deve estar na casa de 700 mil, não estando afastada a possibilidade de o país chegar a 1 milhão de mortos até o final do ano, segundo afirmou à DW Brasila médica infectologista Ana Luiza Bierrenbach, autora de estudo sobre a subnotificação no país. A pesquisa conduzida por ela, que é conselheira técnica sênior da Vital Strategies, aponta que o Brasil tem pelo menos 30% mais óbitos e 60% mais infectados do que os números oficiais. “Na verdade, já chegamos a 500 mil mortos por volta de meados de abril”, assegura.

Divulgar apenas os casos confirmados, afirma a pesquisadora, é “muito mais confortável para governos”, no Brasil e no resto do mundo. “Existe a tendência de passar a reportar os casos confirmados e suspeitos, os prováveis, porque o dado obviamente é menor.”

Porém, para os infectologistas e epidemiologistas, acrescenta, precisam enxergar o quadro mais realista. “O que preconizamos é passar a falar não só dos confirmados, mas incluir em nossas notificações diárias o número de casos prováveis e suspeitos. Eles precisam se tornar conhecidos.”

O estudo estatístico, que é dinâmico e atualizado diariamente, tem como base de dados o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), do SUS. Esse banco, cujo acesso é público, registra casos e óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

“Pegamos todos esses casos de SRAS, os que eram covid-19 e os que não tinham nenhuma etiologia, nenhum agente etiológico [causador da doença] determinado. Em 2018, 2019, os números eram bem baixinhos. Acontece um boom obviamente a partir de março de 2020, e neste boom tem muitos casos e óbitos não confirmados como covid. Dado que não encontramos a etiologia, a única explicação possível é que seja covid, ou então no Brasil estamos tendo uma pandemia de outro agente respiratório que desconhecemos. Só pode ser covid”, atesta a infectologista.

 

“Em nenhum momento o país controlou número de óbitos”          

 

Além do número estarrecedor de casos letais, o imunologista Alessandro dos Santos Farias, coordenador de diagnóstico da Força-Tarefa contra a Covid-19 da Unicamp, aponta que o principal temor da classe científica é que o Brasil produza uma variante agressiva que leve o país à estaca zero. “A produção de variantes está relacionada ao número de pessoas infectadas. E nós somos o portfólio perfeito de novas variantes, de vírus replicando: temos vacinação lenta com contaminação alta”, explicou Farias, em entrevista à DW Brasil.

Para o pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp, que coordena um programa inovador de testagens, o número de infectados, hoje, deve ser de aproximadamente 50 milhões de pessoas, ou seja, quase três vezes maior do que as estatísticas oficiais registram. Não se pode dizer, segundo ele, que o Brasil estaria entrando numa terceira onda agora. “O Brasil é uma onda só. São picos dentro de uma mesma onda. O país, em nenhum momento, controlou o número de óbitos.”

A possibilidade de surgir uma nova variante para a qual não há cobertura vacinal, diz o pesquisador, é grande justamente pelo gigantesco número de infectados. Farias e os especialistas da Unicamp iniciam, neste mês, uma pesquisa inédita, por amostragem, que vai detectar as variantes em todas as 11 regiões do estado de São Paulo pelo PCR, de forma mais célere e mais barata, sem a necessidade de sequenciamento do vírus.

 

Sem perspectiva de testagem em massa

 

O Brasil, sustenta Alessandro Farias, não tem nenhuma perspectiva nacional para que sejam feitas testagens em massa. “A testagem de sintomáticos tem valor de diagnóstico, mas não tem valor epidemiológico. Não temos uma noção muito boa do que está acontecendo, e não temos perspectiva de testar em massa, de jeito nenhum”, diz. A Unicamp, na força-tarefa coordenada por Farias, já conseguiu testar 200 mil pessoas, o equivalente a 20% da população de Campinas. No Brasil inteiro, pontua o pesquisador, o governo federal testou apenas 135 mil pessoas. As pesquisas e aplicação de testes pela Unicamp foram financiados pelo Ministério Público do Trabalho.

Programas nacionais de testagem em massa, como fez a Alemanha, destaca o imunologista, são cruciais para manejar a abertura e fechamento de serviços e escolas, por exemplo. “A Alemanha chegou a testar 500 mil pessoas em um único dia”, exemplifica, acrescentando que o país europeu, assim como o Brasil, tem problemas com a velocidade da vacinação. No entanto, investe em testagem.

Quando a vacinação é rápida, explica Farias, o monitoramento de variantes é mais eficaz porque o índice de transmissão fica mais lento, o que não é o caso do Brasil:

Ficamos na torcida para a gente não gerar nada que nos leve a começar do zero de novo. Mas pode acontecer. Podemos ter uma variante em que os vacinados e recuperados não tenham nenhuma proteção. Começamos, aí, uma epidemia brasileira do zero. Isso é o que mais me assusta para o futuro. O presente já é sombrio: 2.700 mortes por dia é  um World Trade Center por dia.”

A produção nacional de vacinas, pelo Instituto Butantan e Fiocruz, observa o pesquisador, é a medida mais inteligente e importante tomada no país até agora. “Acreditamos que não vamos nos livrar deste vírus nunca mais. Não sei se teremos que vacinar a população todo ano, mas vamos conviver com o vírus e precisamos monitorar. É muito importante o Brasil ter a capacidade de ele mesmo produzir vacina.”

 

Estimativa de subnotificação é conservadora

 

A médica Ana Luiza Bierrenbach explica que como o banco de dados que foi base para o estudo de subnotificação registra apenas casos graves de síndrome de angústia respiratória ou de pessoas que morreram em ambiente hospitalar ou fora, ou foram internados, certamente as estatísticas são conservadoras. Significa dizer que a subnotificação de óbitos por covid-19, explica, é superior a 30%. “Em muitos casos leves as pessoas nem sequer procuraram fazer os testes. Essa subnotificação que conseguimos calcular é para casos graves e óbitos.”

Segundo a pesquisadora, a subnotificação certamente era maior em 2020, no início da pandemia, quando não havia testes e muitos assintomáticos nem sequer suspeitavam estar com doença. “Mais recentemente a proporção de subnotificação está diminuindo, o que é um mérito de estarmos fazendo mais diagnósticos. E mais diagnósticos oportunos. O que acontece é que pela progressão natural da doença, o vírus tem uma fase de se replicar na nasofaringe e, portanto, com um exame simples, o Swab, a gente consegue detectar. Mas depois o vírus vai para os tecidos, e a detecção do agente viral fica mais difícil”, diz, ressaltando que exame PCR, por exemplo, registra os resultados positivos se feito entre o quinto e oitavo dias da doença.

“Sempre contar casos e óbitos é importante para desenvolver e planejar políticas de saúde. Se a gente não sabe o numero de casos graves, não podemos alocar leitos hospitalares, [definir] quantos são necessários dependendo da fase da doença, quantos leitos de UTI precisamos, [qual a] quantidade de oxigênio que precisaremos para não passar como crise de Manaus. Remédios, recursos humanos e hospitalares são calculados a partir de números”, enfatiza Ana Luiza Bierrenbach.

A divulgação realista e “limpa” dos números acrescenta ela, é crucial também para sensibilizar e alertar a população. “Estamos realmente diante de uma crise muito grave. Ainda precisa ficar em casa. Morrem de 2.500 a 3.000 pessoas por dia no Brasil, e já fazem bons meses que temos mantido esse números.” O Chile, cita a pesquisadora, serve de alerta para o Brasil de que a vacinação, se alta, pode não aplacar a tragédia.

20
Jun21

500 mil mortos por Covid, e agora? 100 médicos especialistas apontam o que nos espera no 2º semestre

Talis Andrade

Capa do jornal O Globo 20/06/2021

 

 

por G1

Trágico, horrendo, pavoroso, nefasto ou ultrajante. Nenhuma dessas palavras basta para definir o impacto das 500 mil mortes causadas pela Covid-19 no Brasil. Se faltam palavras, sobram perguntas, e uma das principais dúvidas que nos afligem é: O que ainda nos aguarda pela frente?

Em busca de respostas, o G1 ouviu 106 médicos de duas especialidades fundamentais na pandemia entre os dias 8 e 14. O objetivo era responder quatro questões que apontam perspectivas para o 2° semestre no Brasil.

Os entrevistados são infectologistas (médicos especializados em doenças infecciosas e parasitárias) e epidemiologistas (especializados no controle de doenças em grupos populacionais) que apontam, em sua maioria, que:

 

Veja abaixo os detalhes de cada uma das perguntas que levaram ao apontamento destas perspectivas e, ao fim da reportagem, a metodologia e o nome dos médicos participantes.

 

1 - Qual percentual da população terá recebido a primeira dose até o fim do ano?

Entre 50 e 70% - "Outros países do mundo estão verificando essa dificuldade. A cobertura vacinal, talvez até o final do ano, não será de 100% da população. Talvez consigamos 70%, 75%, 80% no máximo da população de 18 anos com uma dose. E talvez uns 60% da população com duas doses. Isso atrapalha, mas é ao mesmo tempo um grande desafio. Vai possibilitar talvez oferecermos a vacina para toda população elegível acima de 18 anos porque, infelizmente, as coberturas vacinais não serão as ideais" – Renato Kfouri, infectologista, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

Apesar de a aplicação da 1ª dose ser um termômetro da disponibilidade de doses e do ritmo da vacinação no Brasil, os especialistas são unânimes em alertar que a imunidade contra a Covid só será conquistada com o regime completo com as duas doses.

 

Temos que conseguir alta cobertura de duas doses e só a partir de 75-80% de cobertura da segunda dose conseguiremos controlar a pandemia. Antes disso não da para discutir imunidade coletiva ou controle da pandemia", alerta Alfredo Scaff, epidemiologista da Fundação do Câncer.

 

 

 

2 - O Brasil vai começar a vacinar adolescentes acima de 12 anos ainda em 2021?

NÃO – “Por que não terá vacina suficiente para vacinar este grupo e possivelmente não terá finalizado a vacinação da população acima de 18 anos. Esse não é o grupo com maior risco de adoecimento e morte. Vacinar antes dos pais não será efetivo” – Carla Domingues, epidemiologista e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde

 

 

3 - Será possível mudar os atuais protocolos (máscara, distanciamento e ventilação) com qual cobertura vacinal?Entre 70% e 90% - “De acordo com o estudo feito em Serrana, foi necessário vacinar em torno de 70% da população da cidade para reduzir número de mortes e manifestações graves da doença Considerando que temos outras vacinas no PNI com eficácia global mais alta, talvez a porcentagem de vacinados para relaxamento destas medidas seja menor.” - Pedro Rodrigues Curi Hallal, epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

 

 

4 - Entre março e maio de 2020, a média diária de mortes ficou acima de 2 mil. Teremos novo período com média acima desse número?

SIM - “Teremos um cenário de aumento de casos projetados, principalmente a partir da 2ª metade de julho/21 com o consequente aumento de óbitos em agosto; diversas instituições que projetam cenários e modelos epidemiológicos (como o Institute for Health Metrics and Evaluation - IHME), inferem que poderá haver até 3mil/óbitos/dia nesse período.” – Alfredo Scaff, epidemiologista da Fundação do Câncer.

 

Metodologia do levantamento

 

A consulta aos 106 especialistas foi realizada pela equipe do G1 entre terça-feira (8) e segunda-feira (14) por meio de um formulário on-line. Os especialistas foram acionados com a ressalva de que cada resposta individual seria anônima. Aquelas que foram citadas abertamente nesta reportagem foram autorizadas pelos autores.

Abaixo, veja o nome dos especialistas que foram ouvidos pelo G1:

Adelino de Melo Freire Jr; Airton Tetelbom Stein; Alberto Chebabo; Alexandre Cunha; Alexandre Prehn Zavascki; Alexandre Sérgio da Costa Braga; Alfredo Scaff; Ana Luiza Bierrenbach; Ana Brito; Ana Cisne Frota; Ana Freitas Ribeiro; Ana Helena Germoglio; Ana Menezes; André Bon; Andre Machado de Siqueira; Anna Sara Levin; Bernardo Horta; Bruno Correia Scarpellini; Bruno Ishigami; Camila Almeida; Carla Domingues; Carlos Starling; Claudia Murta de Oliveira; Claudia Neto Gonçalves Neves da Silva; Cristiane Lamas; Cristina Barroso Hofer; Demetrius Montenegro; Denise Garrett; Eliana Bicudo; Enny Paixao; Estevão Urbano Silva; Ethel Maciel; Expedito Luna; Fábio Lopes Pedro; Fernando José Chapermann; Fernando Raphael de Almeida Ferry; Filipe Prohaska Batista; Flavia Gibara; Francisco Ivanildo de Oliveira Junior; Fredi Alexander Diaz Quijano; Gabriel Aureliano Serrano; Gerson Salvador; Gubio Soares Campos; Guilherme Lima Castro Silva; Guilherme Pivoto; Gustavo Romero; Helena Brígido; Henrique Marconi Pinhati; Isabella Ballalai; Jamal Suleiman; Joana Darc Gonçalves da Silva; João Paulo França; José David Urbaez Brito; Julia Moreira Pescarini; Karen Mirna Loro Morejón; Keny Colares; Kléber Giovanni Luz; Leandro Curi; Leonardo Weissmann; Lívia Ribeiro Gomes Pansera; Luana Araújo; Lucia Campos Pellanda; Marcelo Ferreira da Costa Gomes; Marcelo Gomes dos Santos; Marcelo Otsuka; Marcio Bittencourt; Marcio Nehab; Marco Aurélio Safadi; Marcos Davi Gomes de Sousa; Marcos Junqueira do Lago; Maria Aparecida de Assis Patroclo; Maria de Fatima Pessoa Militão de Albuquerque; Maura Oliveira; Melissa Bianchetti Valentini; Melissa Falcão; Mirian Dal Ben; Munir Ayub; Nazareth Fabíola Rocha Setúbal; Otavio Ranzani; Patrícia Guttmann; Paulo Sérgio Ramos; Pedro Rodrigues Curi Hallal; Plinio Trabasso; Rafael da Silveira Moreira; Raquel Muarrek; Raquel Stucchi; Regina Coeli Ramos; Renato Kfouri; Renato Grinbaun; Robério Leite; Roberto da Justa Pires Neto; Rodrigo Guerino Stabeli; Rosana Richtmann; Sylvia Hinrichsen; Tânia Vergara; Tazio Vanni; Thalita Fernandes de Abreu; Tiago Lôbo; Unai Tupinambás; Valéria Paes Lima; Vera Magalhães; Victor Bertollo Gomes Porto; Victor Grabois; Werciley Saraiva Vieira Junior e Wladimir Queiroz.

Créditos da reportagem: (*Com reportagem de Lara Pinheiro, Mariana Garcia, Laís Modelli e Carolina Dantas - G1 Ciência; Renata Bitar, Kleber Tomaz, Marina Pinhoni, Patrícia Figueiredo, Gustavo Honório e Bárbara Muniz - G1 São Paulo; Pedro Alves e Priscila Aguiar - G1 Pernambuco; Filipe Brasil [ estagiário] e Raoni Alves - G1 Rio de Janeiro; Pedro Alves Neto e Marília Marques - G1 Distrito Federal e Maria Lúcia Gontijo - G1 Minas Gerais. Com coordenação de Ardilhes Moreira e Vitor Sorano).

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