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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

16
Abr21

Covid: 'Quem cometeu erros graves na pandemia precisa ser punido', diz Drauzio Varella

Talis Andrade

Prêmio USP de Direitos Humanos homenageia Drauzio Varella » Sala de  Imprensa - USP – Universidade de São Paulo

 

 

Em abril de 2020, o médico Drauzio Varella deu uma entrevista à BBC News Brasil em que analisou a evolução da covid-19 e disse que a pandemia poderia resultar numa "tragédia nacional".

Passado um ano, ele entende que seus prognósticos estavam corretos e se revelaram ainda piores do que o esperado.

De acordo com o especialista, reconhecido em todo o Brasil por sua participação ativa em programas de televisão e pela publicação de vários livros, essa catástrofe foi intensificada pela desorganização do Ministério da Saúde e por um "presidente da República que dá exemplo pessoal do que fazer para disseminar a epidemia".

Numa nova entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Varella avalia que toda a discussão sobre o tratamento precoce foi armada intencionalmente para desviar a atenção das pessoas e entende que a vacinação contra a covid-19 está num ritmo "ridículo".

"Se tivéssemos começado a vacinar em dezembro ou janeiro, não estaríamos com mais de três mil mortes diárias como acontece atualmente", observa.

O médico também destaca o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) e entende que os erros cometidos precisam ser apurados e julgados.

"O Brasil tem menos de 3% da população mundial. No momento atual, de cada quatro pessoas que morrem de covid-19 no mundo, uma é brasileira. É uma mortalidade absurda", critica.

 

André Biernath entrevista o médico Drauzio Varella

BBC News Brasil - Na entrevista que o senhor nos concedeu em abril de 2020, uma das frases que chamaram a atenção foi: "Eu acho que vai acontecer uma tragédia nacional, eu não tenho dúvida disso". Passado um ano, o senhor avalia que esse prognóstico se cumpriu ou foi ainda pior que o esperado?

Drauzio Varella - Infelizmente, esse prognóstico se cumpriu e foi pior do que eu esperava naquela época. Eu passei três fases nesta epidemia. A primeira foi em janeiro do ano passado, quando a doença estava só na China, não tinha nem chegado direito na Europa. Quer dizer, já tinha chegado, mas não havia ainda um número grande de casos. E as informações que a gente tinha é que não haveria mais mortos por esse coronavírus do que pelas epidemias de gripe. E que a maioria das pessoas, por volta de 80%, teria sintomas leves.

Isso foi antes da epidemia chegar à Itália. Quando chegou lá, nós já tivemos noção do que estava acontecendo. Em abril do ano passado, nós já sabíamos o que estava se passando em Nova York e que estávamos diante de uma epidemia grave. E os primeiros casos começaram a acontecer em São Paulo. A primeira morte por covid-19 no Brasil foi em março do ano passado.

E eu achei que ia ser uma tragédia porque você tem uma epidemia de um vírus que se transmite por meio de gotículas que a gente elimina quando fala, tosse e espirra. E esse vírus, quanto mais próxima uma pessoa fica da outra, mais fácil de pegar. Quando se tem uma epidemia dessas, o ideal então era fechar e ter isolamento, que é o que começava a ser feito na Itália e na China. Isso é clássico na saúde pública, ninguém inventou nada agora. Isso é feito assim há milênios: afastar as pessoas, trancar, deixar em casa para proteger.

Mas eu sabia que fazer isso no Brasil seria muito difícil. Eu já rodei muito pelas periferias das cidades brasileiras por causa dos programas de televisão, e nós temos um cinturão de pobreza e miséria em volta de cada metrópole e até ao redor cidades menores... São pessoas que não têm condição de ficarem isoladas. Elas não têm condições porque dependem do trabalho diário para poder comer e levar alimento à família. Como é que essas pessoas iam fazer isolamento? Eu já imaginava naquele momento que teríamos um problema sério e que o Brasil ia ser fortemente assolado pela epidemia.

Mas eu não tinha previsto que haveria uma desorganização do Ministério da Saúde, a ponto de o ministério perder completamente a relevância no país. E ter um presidente da República que dá exemplo pessoal do que fazer para disseminar a epidemia. Porque se você acordar amanhã e disser: o que vou fazer para disseminar a epidemia no Brasil, o que você faria? Você sairia sem máscara e faria aglomerações. É a única coisa que você poderia fazer para disseminar a epidemia. E foi o que ele fez, e é o que ele tem feito. Eu não previ que isso pudesse ter um impacto tão grande. E a epidemia foi ficando cada vez pior.

Você se lembra que nós tivemos uma fase em que todo mundo ficava esperando o pico? Lembra disso no ano passado? O pico vai ser em maio, em junho... O que aconteceu no Brasil? Nós atingimos esse pico e ele não foi seguido por uma queda, como aconteceu em vários países. Ele foi seguido por um platô. E ficamos com um número grande de mortos até setembro e outubro, só começou a cair um pouco depois disso. Aí veio a segunda onda. A gente sabia que existia essa possibilidade, mas não dava para prever nem quando e nem como ela aconteceria.

 

BBC News Brasil - Em outro trecho dessa entrevista do ano passado, o senhor comentou: "Nos últimos dez anos, nós tivemos 13 ministros da Saúde. A média de permanência no cargo foi de dez meses, porque o Ministério da Saúde foi usado como troca política". Naquele período, em abril de 2020, o Brasil estava à beira de trocar o então ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta. Depois dele, vieram Nelson Teich, Eduardo Pazuello e agora Marcelo Queiroga. Ou seja: a média de troca, que era de dez meses, caiu nesse período para quatro meses. Como essa troca constante em meio à pandemia prejudicou a resposta do Brasil à crise sanitária?

Varella - Quando você tem uma epidemia, você tem que ter um governo central que decida combater a epidemia. A decisão de combater a epidemia é política. É o presidente da República que tem que tomar essa decisão. E aí o que ele faz? Bom, ele é o presidente, ele não tem obrigação de ser formado na área da saúde. Ele então escolhe um ministro da Saúde que tenha. O ministro da Saúde não precisa ser um médico, um especialista naquela área. Mas precisa ser uma pessoa com formação para se cercar dos profissionais competentes que possam definir a orientação. E aí o ministro da Saúde impõe essas medidas e o presidente da República apoia. Nós não tivemos nada parecido com isso.

Na verdade, quem conduziu o combate à pandemia foi o presidente da República. Um ex-ministro disse claramente: um manda, outro obedece. O que está acontecendo agora? A mesma coisa. O que você pode cobrar do atual ministro da Saúde, se ele não pode falar a favor do isolamento social e tem que manter essa enganação que é o tratamento precoce? Ele não pode dizer para parar com essa história de hidroxicloroquina, ivermectina... Ele simplesmente não pode fazer isso. Ele tem que dizer que os médicos possuem o direito de prescrever. Quer dizer, ele está numa situação em que foi escolhido para obedecer o presidente da República e esse é o problema todo.

 

BBC News Brasil - Ao longo dos últimos meses, o nome do senhor e trechos de vídeos antigos foram utilizados fora de contexto para relativizar a covid-19 ou espalhar desinformação sobre a pandemia. Como foi lidar com isso do ponto de vista individual?

Varella - É muito desagradável. Eu tenho uma carreira e comecei a divulgar temas de saúde numa época em que médicos sérios não apareciam na televisão ou nas rádios. E eu me expus ainda nos anos 1980, por causa da epidemia de aids. Eu achei que a informação tinha que chegar à população, porque naquela época a aids era tratada como peste gay. E mantenho esse trabalho até hoje. Uma parte importante de minha atividade é essa, de divulgar informação sobre saúde.

Aí tem gente que vai buscar um vídeo que você fez em janeiro de 2020, quando não havia nenhum caso de covid-19 no Brasil ou qualquer descrição da doença no país. E essas pessoas pegam esse material e jogam nos meios de comunicação como se eu tivesse acabado de dizer aquilo. Acontece que eu tenho um desprezo tão profundo por essas pessoas que sinceramente eu nem me sinto ofendido.

Eles pretendem o que com isso? Se pretendem me atingir, com que finalidade? Eu não sou candidato a nada. Não sou político, nunca fui e nunca serei. O que pode acontecer com isso? Nada. Não vão me atingir de maneira nenhuma. Não vão prejudicar a minha carreira por causa disso. E também não vão prejudicar as minhas pretensões, simplesmente porque não as tenho.

A finalidade disso é confundir a população. Esse é o aspecto mais doloroso. É dizer: olha, o nosso presidente disse que é uma gripezinha, mas o Dr. Drauzio Varella também fala o mesmo. Mas eles não avisam que esse vídeo foi feito antes de a epidemia chegar de verdade. O Dr. Anthony Fauci, que é a maior autoridade em doenças infecciosas nos Estados Unidos, falou a mesma coisa. Assim como várias outras autoridades mundiais em saúde do mundo inteiro. À época, havia uma série de razões científicas para essa interpretação.

 

BBC News Brasil - Por um lado, a internet tem esse lado perverso, da descontextualização e do uso político de certas falas e personalidades. Mas ela também possui um lado leve, como os memes, os stickers de WhatsApp, os vídeos virais. Como o senhor encara esses materiais feitos com sua imagem?

Varella - Olha, eu me divirto com eles. Eu acho engraçado, ainda mais quando jovens e crianças repassam esses stickers e memes com minhas caricaturas. Eu acho que isso faz parte da comunicação. Você é jornalista e é interessadíssimo em comunicar as coisas para as pessoas. No decorrer de seu trabalho, você está sempre pensando: como que eu consigo atingir mais gente? Como é que essa informação que eu tenho pode ir mais longe, não é verdade?

Eu penso assim também. Como eu posso levar essa informação mais longe do que ela poderia chegar? Se eu quero que as pessoas entendam e aprendam coisas de saúde que são importantes para o dia a dia delas, quanto mais gente eu atingir, melhor. E eu acho que a internet, ao lado dos mil problemas que causa, tem essa vantagem. De as pessoas poderem interferir e tornar a informação mais leve e interessante.

 

BBC News Brasil - O Brasil também gastou (e ainda gasta) muito tempo com discussões sobre tratamento precoce e remédios como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Como esse assunto desviou o foco e nos atrasou no combate à pandemia?

Varella - Essa discussão foi armada justamente para isso. Ela foi armada para desviar a atenção, não aconteceu por acaso. Nós temos um presidente que adotou medidas para as pessoas saírem na rua e pegar o vírus. E ele deu exemplo de medidas assim. O que ele podia dizer? "Pode ir à rua, não seja maricas, forme aglomerações. Mas se você ficar doente, pode ser que você não ache vaga na UTI". Ele não poderia dizer isso, não é mesmo? Então qual foi a estratégia? Se você ficar doente e pegar o vírus, faça o tratamento precoce com cloroquina ou ivermectina.

Quando o presidente teve covid-19, ele deu exemplo disso. Ele pegou um copo d'água e disse: "Já tomei um comprimido de cloroquina, estou me sentindo melhor. Vou tomar o segundo agora". O que ele estava querendo? Enganar as pessoas. Enganar. Em outras palavras, a mensagem era: se você pegar o vírus, é só tomar isso aí que você vai ficar bom e está acabado. Não precisa se preocupar...

O Donald Trump fez a mesma coisa nos Estados Unidos. Só que a legislação americana pune os médicos que prescrevem medicações que não são indicadas para o tratamento daquela enfermidade. O médico americano que receitar cloroquina no tratamento da covid-19 pode ser punido legalmente. Não pelo conselho de medicina ou seu equivalente, mas pela justiça comum.

E aí o Trump fez o quê? Desovou no Brasil toda a cloroquina que estava encalhada nos Estados Unidos. Porque os médicos americanos não vão prescrever um medicamento que não tem indicação e eficácia numa doença, porque podem ser processados criminalmente e pagar indenizações milionárias. Com isso, a cloroquina sobrou por lá. Ela foi encaminhada pra cá, para ser distribuída e enganar as pessoas, como se aquilo tivesse alguma capacidade de proteger da doença.

 

BBC News Brasil - O senhor citou o Conselho Federal de Medicina (CFM) e, nas últimas semanas, eles têm batido muito na tecla da autonomia, que o médico é quem sabe o melhor tratamento para seu paciente. Eles não chegam a falar de tratamento precoce ou da hidroxicloroquina diretamente, mas esse debate acontece dentro dessa discussão. Como o senhor vê a atuação do CFM e das outras entidades representativas da medicina brasileira durante essa pandemia?

Varella - Elas são entidades políticas, que não representam os médicos brasileiros. Essa coisa de dizer que o médico tem autonomia para fazer o que ele acha melhor, não é bem assim. Como autonomia? Eu tenho autonomia de receitar um medicamento ou um procedimento inútil para tratar a doença de um paciente? E o paciente? Ele não tem o direito de receber apenas tratamentos que sejam ativos contra a doença dele? Quer dizer, o médico diz e escolhe o que fazer? E digo para o paciente que determinado remédio tem eficácia quando isso é mentira? É isso, eu proponho uma mentira para meu paciente? Isso é antiético.

Aí você pode me dizer que muitos médicos prescrevem o tratamento precoce. Olha, os médicos que prescrevem fazem-no por duas razões. Primeiro, por ignorância. Por não estudarem, por não acompanharem a literatura. Faltam para eles os fundamentos de formação científica. São até pessoas bem intencionadas, mas despreparadas. E o segundo grupo são médicos políticos. São pessoas que defendem as posições do presidente da República e acham que eles têm que fazer isso por razões políticas. As duas situações não falam a favor dessas pessoas...

 

BBC News Brasil - Como o senhor avalia o atual ritmo da vacinação contra a covid-19 no Brasil?

Varella - É um ritmo ridículo em relação ao que poderia ter sido. Nós temos um dos melhores programas de imunização do mundo. Não sou eu que estou dizendo isso, é a Organização Mundial da Saúde e muitas outras instituições. O Brasil tem 38 mil salas de vacinação pelo país inteiro. No Brasil, ninguém precisa viajar para ser vacinado. As pessoas vão para as unidades básicas de saúde e recebem a vacina lá. O que nós fizemos foi desorganizar o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Foi colocar nos quadros de chefia pessoas que não tinham noção, que nunca participaram de campanha nacional.

Você pega o ministro anterior: ele mesmo dizia que não tinha nenhuma experiência. Não tinha vacinado uma pessoa na vida dele e, de repente, tem esse desafio pela frente. E ainda tem que lidar com um presidente que não se interessou pelas vacinas logo de cara. Ele falava mal da vacina do Butantan, que hoje é o que está salvando a pele dele e do PNI. As vacinas do Butantan são responsáveis por 80% das vacinas administradas no Brasil.

Nós não compramos vacinas, não nos preparamos para esse momento. O mundo inteiro estava comprando: os Estados Unidos, a Comunidade Europeia, o Japão, os países asiáticos… As vacinas estavam disponíveis. Mas nós não compramos. E caímos na situação que a gente se encontra hoje.

Bom, é claro que vamos ter vacinas. Mas quantas pessoas terão morrido até lá sem necessidade? Pessoas essas que poderiam já ter sido protegidas. Se tivéssemos começado a vacinar em dezembro ou janeiro, não estaríamos com mais de três mil mortes diárias como acontece atualmente

 

BBC News Brasil - E como foi a sensação de poder tomar a vacina? Como o senhor se sentiu?

Varella - É engraçado, você tem um sentimento contraditório nessa hora. De um lado, é um alívio grande. Bom, tomei a vacina, posso até pegar a doença, mas parece que a chance de morrer agora é muito pequena. O que eu não quero é morrer. Ficar doente e me curar, está bom. Não quero também, mas é menos grave.

Do outro lado, é uma sensação de frustração, de saber que a gente podia estar vacinando milhares e milhares de pessoas por dia. Eu vejo pessoas da minha própria família e amigos meus que ainda vão demorar para tomar a vacina. Então você tem alívio e frustração pelos outros que não tiveram a mesma sorte que tive.

 

BBC News Brasil - Os últimos meses foram marcados por recordes nos números de casos e óbitos por covid-19 e um colapso do sistema de saúde em vários locais do país. Como o Sistema Único de Saúde (SUS) se portou diante deste desafio? E como seria a situação se não tivéssemos ele?

Varella - Bom, vou começar pela segunda pergunta. Se não tivéssemos o SUS, seria a barbárie. As pessoas estariam morrendo nas ruas. Para dizer a verdade, eu acho que o SUS me surpreendeu. Ele reagiu muito melhor do que as possibilidades que tinha. Com a criação de leitos de UTI, de leitos hospitalares, de programas de atendimento... Eu sinceramente acho que o SUS teve uma atuação impecável. Eu não consigo dizer que vi algum desleixo. Teve essas coisas de desvios de dinheiro, claro. Mas não são coisas que o SUS fez, mas bandidos que se aproximam do serviço público.

Me parece que pela primeira vez os brasileiros entenderam o que é o SUS. Porque até agora a impressão dos brasileiros era que o SUS era aquela bagunça, que você vai ao pronto-socorro, não é atendido, fica em maca no corredor... Agora nós vimos o que aconteceu. Agora os brasileiros têm uma dimensão do que é o SUS. Eu acho que isso pode ser uma das boas consequências da epidemia, se é que a gente pode dizer assim. Ela chamou a atenção para a importância do Sistema Único de Saúde no Brasil.

Você vê, no Reino Unido existe NHS [National Health System, ou Sistema Nacional de Saúde numa tradução literal] e os ingleses têm um orgulho dele. Nas Olimpíadas de Londres, em 2012, eles colocaram o NHS no centro do gramado. Nós fizemos as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro e não colocamos o SUS. E olha que o SUS é muito mais importante do que o NHS.

Primeiro, o NHS surgiu depois da Segunda Guerra Mundial. Então ele está aí na faixa dos 70 anos de existência. Houve tempo para aprimorá-lo. Isso num país rico, com população de alto nível educacional, muito organizado e com cerca de 66 milhões de habitantes. Até eu organizo um sistema de saúde assim. Quero ver fazer essa organização num país de 210 milhões de habitantes, com essa tremenda desigualdade social e regional que nós temos e com esse baixo nível de escolaridade. Não é fácil. Nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes tem um sistema de saúde com as características do brasileiro. É um caso único, citado no mundo inteiro.

Aqui no Brasil nós não temos a visão dessa importância que o SUS tem. Eu acho que agora, passada a epidemia, quando as coisas acalmarem um pouco, nós vamos ter a ideia de como nós podemos contribuir para o aprimoramento do SUS. Isso é possível. Como? Você não precisa trabalhar no SUS para ajudar a aprimorá-lo.

O SUS tem a organização do Ministério da Saúde e das Secretarias Estaduais de Saúde. Mas o SUS acontece no município. É lá que você vai procurar a unidade básica de saúde. Então é no município que a nossa participação pode ser muito mais eficiente e eficaz. Porque você fala com o vereador, você cobra do prefeito, você participa dos conselhos de saúde... A população brasileira tem que participar da organização do Sistema Único de Saúde.

 

BBC News Brasil - Os últimos meses também foram marcados por muitos pedidos de cientistas por um lockdown nacional de algumas semanas. Como o senhor vê essa questão? E como lidar com um lockdown num país tão desigual como o nosso?

Varella - Vamos dizer que agora, por um passe de mágica, você conseguisse deixar todos os brasileiros dentro de casa, sem receber visita nenhuma, por duas ou três semanas. Você acabaria com a epidemia. Acabaria. O vírus vai passar pra quem? Só que isso é inviável: as pessoas acham que basta decretar lockdown. Não é verdade. Você tem pessoas que precisam sair de casa para manter os serviços essenciais. E você tem pessoas no Brasil que saem de casa para ganhar o suficiente, comprar o alimento e levar para a família. Se elas não fizerem isso, a família passa fome.

O nível de pobreza é muito grande. Nós estamos vendo isso agora. Temos 120 milhões de pessoas com a segurança alimentar sob risco. Olha a desigualdade social no Brasil! A gente encarava a desigualdade como? Ah, o Brasil é desigual, é assim mesmo... Não é possível aceitar esse nível de desigualdade, não podemos permanecer dessa maneira.

Então como você faz lockdown? Nós temos um exemplo importante, que foi Araraquara, cidade do interior de São Paulo. O prefeito chamou os industriais da cidade, os comerciantes, os sindicatos, conversou com todos, explicou o que estava acontecendo, e o que temos que fazer. Ele disse que as pessoas estavam morrendo e iam morrer muito mais se nada fosse feito. E aí eles fizeram um lockdown rápido.

Mas as pessoas que estavam em casa recebiam cestas básicas, que foram doadas pela Prefeitura e pela iniciativa privada. Não foi fácil, o prefeito foi até ameaçado de morte. E eles conseguiram dessa maneira fazer cair rapidamente o número de ocupação de leitos, de pessoas internadas na UTI e as mortes. O resultado só não foi melhor porque as cidades em volta não fizeram lockdown.

Por isso, você tem que ter uma coordenação central. Eu acho que um lockdown em território nacional nunca vai ser realizado no Brasil. O que vai acontecer é que, de acordo com a evolução dos casos, com a lotação das UTIs e o colapso dos sistemas de saúde, vai ter que fazer pequenos fechamentos regionais. Eu não vejo outra alternativa.

 

BBC News Brasil - Outra discussão muito forte no Brasil ao longo dos últimos meses foi a dicotomia entre saúde e economia. Muitos de nossos representantes, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), disseram que medidas restritivas quebrariam nossa economia e isso seria até pior que a própria covid-19. No entanto, estamos no pior momento da pandemia até agora e sem perspectiva alguma de retomada econômica. O senhor vê algum caminho para lidar com essa questão?

Varella - Houve um mal entendido desde o início. Se dizia que as pessoas precisavam trabalhar para preservar a economia. Mas o que provoca a crise econômica e financeira é a existência da epidemia. Não é o fato de as pessoas ficarem em casa, não é o combate à epidemia. É justamente o contrário. Quanto mais rápido a epidemia desaparecer, mais depressa a gente retoma a economia. Isso é um clássico da história das epidemias.

Aqui foi o contrário. Você vê agora, o ministro da Economia dizia há uns dois meses que a solução é a vacina. A única coisa que vai recuperar a economia é a vacina. Veja as montadoras aqui no Estado de São Paulo, que fecharam as fábricas. Elas não fecharam porque queriam fazer um lockdown. Fecharam porque são incapazes de garantir a segurança dos funcionários numa situação em que a epidemia está correndo solta, sem nenhum controle. Ou você vacina e recupera a economia, ou a economia vai ficar patinando nessa situação grave. E quanto mais tempo levar, pior. Mais tempo durará a crise.

 

BBC News Brasil - Nos últimos dias, aumentou a discussão sobre uma CPI para apurar as ações do Governo Federal e até dos governos estaduais e municipais durante a pandemia. O senhor pessoalmente acha que é necessário rever o que foi feito até agora e responsabilizar agentes públicos por ações que foram tomadas ou ignoradas?

Varella - Veja, o Brasil tem menos de 3% da população mundial. No momento atual, de cada quatro pessoas que morrem de covid-19 no mundo, uma é brasileira. É uma mortalidade absurda. Nossa participação é de 27% das mortes. O país não precisava se encontrar nessa situação. E isso é muito grave, porque são pessoas que perderam a vida. E se cria esse clima de que estamos numa guerra... Não estamos numa guerra. As pessoas que pegam o vírus só morrem porque pegaram o vírus. Se elas não tivessem pegado o vírus, estariam vivas. Portanto, são mortes evitáveis.

Quem cometeu erros graves na pandemia precisa ser punido. Que tipo de punição? Não tenho ideia, não sou jurista. Isso vai ficar para os advogados, para o Supremo Tribunal Federal, para o sistema jurídico brasileiro. Eles que vão estabelecer quais são as responsabilidades.

Se receito para o meu paciente um remédio que não tem ação para tratar a doença dele e tem efeitos colaterais, eu posso ser punido eticamente pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. E também posso ser punido pela justiça comum. E isso quando prejudico uma única pessoa. Agora, imagina se eu prejudiquei centenas de milhares de pessoas. Eu acho que isso tem que ser apurado e não pode ficar sem um processo jurídico.

BBC News Brasil - O senhor sempre viajou muito pelo país e tinha uma rotina de atendimentos e consultas constantes. Como foi a adaptação ao trabalho neste último ano?

Varella - Olha, não tive tempo de me adaptar. Eu passei de uma vida para outra imediatamente. Eu tinha muita atividade mesmo. Eu lembro que, em novembro de 2019, teve uma semana que eu peguei avião todos os dias. Entre idas e vindas, às vezes eu pegava dois aviões num dia, um pra ir e outro pra voltar. Eu saía de São Paulo, fazia uma palestra numa cidade do Nordeste ou do Norte, e voltava, tudo no mesmo dia. Fazia parte de minha rotina. De repente, fiquei fechado em casa.

Por outro lado também, comecei a ter uma demanda para manter atividade educacional, o que foi muito bom. E é um trabalho completamente diferente daquele anterior. Eu gosto de fazer, mas às vezes fico um pouco tumultuado quando tem muita coisa na agenda. E essa comunicação pela internet é esquisita. A gente não estava habituado com ela. Se você vai numa reunião com dez pessoas em torno de uma mesa, uma está anotando, a outra está tirando um dado de um celular, uma terceira está olhando pra cima e ouvindo a conversa... Nós não estamos acostumados a nos encarar tanto tempo como a gente se encara hoje.

E mais: nós não estamos habituados a ver nossa própria imagem na tela o tempo inteiro. Nós não estamos acostumados a ver a nossa imagem enquanto falamos. Esse estímulo é invasivo. Eu estou olhando pra você, as suas reações, olhando nos seus olhos. Você está olhando nos meus. E, ao mesmo tempo, você está olhando para você mesmo numa tela. É uma comunicação que gera estresse. Tanto que você participa de uma live e se sente cansado. Cansado até fisicamente, porque ficar sentado o tempo todo cria problemas. A nossa espécie não tem adaptação ainda para esse tipo de comunicação. E isso causa um estresse geral.

 

BBC News Brasil - O senhor é oncologista e sabemos que essa é uma área da medicina em que as novidades não param. Durante este ano, o senhor conseguiu se atualizar nas últimas descobertas sobre o câncer, ou o foco total foi em entender a pandemia?

Varella - Eu continuo lendo e estudando, até porque eu gosto e não sou capaz de me afastar desse conhecimento. Mas você fica muito mais desfocado. Muito mais. Eu tenho que participar de uma mesa redonda sobre um tipo de câncer do aparelho digestivo. Eu me preparo para essa aula, estudo, leio...

Mas tenho também que acompanhar o que está acontecendo com a covid-19, porque eu sou solicitado a dar opinião. Eu não posso estar desinformado e isso me desfoca um pouco. E é algo que está acontecendo com os médicos de forma geral.

 

BBC News Brasil - E a rotina? O senhor conseguiu criar novos hábitos de exercício, alimentação e bem-estar diante das necessidades de restrição?

Varella - Antes da pandemia, eu levava uma vida muito complicada. Não parava nem para almoçar. Às vezes, comia um pão de queijo na hora do almoço para aguentar até o jantar. Era uma vida muito irregular. Saía de manhã pra trabalhar e ia até de noite. Às vezes, chegava tarde. Em casa, você estabelece um regime mais disciplinado. Isso foi bom, eu consegui me manter. Não ganhei peso, ao contrário, até emagreci um pouco. Mas fiquei com medo. Pensei: agora, com atividade reduzida e em casa, com a geladeira à disposição, se eu bobear vou ganhar peso. Na minha idade, ganhar peso é muito ruim. Aliás, em qualquer idade é ruim, mas na minha é pior.

Eu continuo fazendo exercício. Eu não tenho corrido na rua agora por uma série de razões. Mas eu subo a escadaria do meu prédio. Era um exercício que eu já fazia antes e agora faço com muito mais regularidade. Subo as escadas até o último andar e desço de elevador, até porque na descida de escada a gente pode machucar o joelho. Esse é o exercício que eu faço.

Eu me convenci do seguinte nesses 50 anos de medicina: todo mundo quer viver muito, claro. Você também quer, imagino. Mas não a qualquer preço. Se eu disser que, aos 80 anos, sua memória vai começar a ir para o espaço, você vai ficar restrito, não vai ter coordenação motora para levar o garfo à boca, não vai conseguir ir até o banheiro, precisará usar fralda... Aposto que assim você não vai querer.

 

BBC News Brasil - E para evitar isso, é preciso tomar aquela série de cuidados e medidas de saúde...

Varella - Aí é que está. Isso não vem de graça. Para alguns, até vem de graça, por causa da genética. São pessoas muito privilegiadas. Mas são raras também. É pouco provável que isso aconteça com você ou comigo. Nós vamos ter que batalhar mesmo. É fazer exercício, não deixar o corpo parado… Corpo parado estraga depressa.

 

BBC News Brasil - Em outro trecho da entrevista de abril de 2020, o senhor disse: "Esse vírus vai ficar um bom tempo entre nós. Não com essas características que está tendo agora, promovendo essa mortalidade absurda, mas ele vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade." O senhor já enxerga alguma luz no fim do túnel?

Varella - Eu acho que daria agora exatamente a mesma resposta que eu dei há um ano atrás. Só espero que, daqui a um ano, eu não tenha que dar essa mesma resposta também. O que eu acho é que esse vírus vai ficar por aí mesmo. E isso por várias razões. Primeiro, as vacinas que nós temos protegem contra a doença. Todos os estudos foram feitos assim. Vamos dar a vacina para um grupo e para outro não. Depois, nós vamos ver quantos morreram, foram parar na UTI e comparar com o outro grupo. Mas, até agora, nós não fizemos nenhuma comparação de quantos vacinados vão adquirir o vírus e ficaram assintomáticos. Se eu pego o vírus e fico assintomático, está ótimo. Só que aí eu vou para uma festa, vou visitar meus filhos, minha netas... Eu vou transmitir o vírus, apesar de ter sido vacinado. Nenhuma vacina provou até agora que é capaz de inibir a transmissão do vírus.

Segundo ponto, será que nós vamos conseguir vacinar a população brasileira inteira? Nós vamos conseguir vacinar grande parte da população. Mas inteirinha, não vai dar. Porque tem gente que se nega a tomar vacina, que toma a primeira dose e não vai tomar a segunda... Enfim, é muito difícil você vacinar 100% das pessoas.

Terceiro, podem aparecer variantes que não respondam às vacinas que nós desenvolvemos. E isso obriga a gente a criar novas vacinas e ficar vacinando periodicamente. Então é muito pouco provável que a gente elimine o vírus definitivamente. Agora, quanto mais gente vacinada, mais cairá o número de casos e o número de mortes. Mas vamos ter o vírus presente por aí por bastante tempo ainda.

E isso quer dizer que as medidas que nós temos que tomar hoje, especialmente o uso de máscaras, precisarão ser mantidas. No ano que vem, nós vamos usar máscaras ainda. Porque, veja, você tem a covid-19. Passam seis, sete meses, e tem outra vez a mesma doença. Quer dizer, provavelmente não há imunidade permanente.

Com isso, é possível, ou pelo menos existe uma grande probabilidade, de que as vacinas também não o façam, o que vai obrigar a novos ciclos de vacinação. Não tem drama, é o que a gente faz com a gripe hoje. Mas não conseguimos ficar livres do vírus da gripe. E não vamos conseguir ficar livres desse coronavírus.

 

BBC News Brasil - Que recomendação o senhor deixaria para as pessoas diante desse momento que estamos na pandemia para proteger a si e a todos aos redor?

Varella - A primeira medida a tomar é identificar em que fase da epidemia nós estamos. No momento atual, estamos numa fase muito dura. Os hospitais seguem lotados de gente. O sistema de saúde está em colapso. E as pessoas muitas vezes não entendem o que é colapso. Colapso quer dizer: não tem jeito de atender. É como se não tivesse hospital para as pessoas que precisam dele. Você é atropelado na rua, tem um afundamento de tórax, precisa ser levado para UTI e não tem lugar. Você morre no pronto-socorro por essa falta de atendimento.

Nessas fases, em que a doença está dessa maneira, a gente tem que tomar cuidado o máximo possível. E qual é o cuidado? Usar máscara. E não é só evitar aglomeração. Porque aglomeração é um bando de gente. A gente não acha que três ou quatro pessoas façam uma aglomeração. Você pode até não ir numa balada ou no pancadão. Mas imagina que você resolve reunir dois casais de amigos para uma pizza num domingo. Se uma dessas pessoas estiver infectada, o risco de você se infectar vai ser grande. Ah, mas eu conheço e sei que essas pessoas estão se cuidando... Não dá pra assumir quarentena alheia. Não dá. Porque cada pessoa tem o seu jeito de fazer. Portanto, numa fase como essa, todo cuidado é pouco.

Quando as coisas começarem a melhorar, você estiver vacinado, as pessoas ao seu redor também, aí você vai ter mais liberdade. Até para eventualmente convidar os dois casais de amigos para a pizza de domingo. Daí você vai abrir as janelas, deixar ventilar o máximo possível o ambiente. E vai evitar ficar em lugares apertados, com gente sem máscara.

E você vai continuar a usar máscara. A máscara é hoje uma peça do vestuário. Você não sai à rua sem camisa, mesmo que esteja calor. Você põe a camisa. A máscara é a mesma coisa.

As pessoas vão ter que entender a necessidade dessas medidas. Se nós fizermos isso direito, vamos proteger a nós mesmos e os nossos familiares. Se a gente continuar nessa coisa de sair e negar o problema, nós vamos correr riscos e vamos correr risco pelos nossos familiares. E esse é um problema muito sério.

Uma lição que a gente tem que aprender nessa epidemia para não repetir na próxima é o conceito de grupo de risco. Espero que nunca mais se fale numa coisa dessas nas epidemias. Olha o que aconteceu na aids. Quem eram os grupos de risco naquela ocasião? Os homossexuais e os usuários de droga injetável. Isso saía em tudo quanto é jornal. Na prática, uma mulher que não é homossexual e que não usava droga na veia, achava que não corria risco nenhum e não usava preservativo. Ela não era do grupo de risco... Quantas mulheres não se infectaram assim?

Agora, na covid-19, quem é grupo de risco? Pessoas acima de 60 anos e quem tem pressão alta, diabetes ou obesidade. Aí eu estou com 32 anos, não tenho essas condições, e penso que está tudo bem, se eu pegar vai ser uma doença de nada. Olha o que está acontecendo agora: mais da metade das pessoas nas UTIs brasileiras tem menos de 40 anos de idade.

Grupo de risco não existe. O que existe é o comportamento de risco. Porque eu posso estar numa aglomeração com 100 pessoas e, se nenhuma delas estiver infectada, eu não vou pegar o vírus. E eu posso estar num jantarzinho íntimo de quatro, cinco pessoas e uma pessoa infectada pode infectar todos os outros.

05
Abr21

Não foi só incompetência, infelizmente.

Talis Andrade

 

Imbecilidades

02
Abr21

Impeachment: 321.886 assinaturas

Talis Andrade

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por Antônio Carlos de Almeida Castro

- - -

"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”                 Cecília Meireles

Por mais que queiramos ter qualquer átimo de otimismo, a realidade brasileira nos sufoca, nos deprime e nos faz perder a esperança de qualquer saída civilizada. Nenhum país presidencialista resiste a um presidente despreparado, genocida, sem compromisso com a nação, com a humanidade, com a vida. É um encontro infeliz de graves distúrbios.

Não estamos mais discutindo ideologia, visão de mercado, definições sobre religião ou costumes. O embate é sobre um pensamento de culto à morte, de desprezo às instituições, de profunda ignorância sobre a importância da ciência no combate à epidemia, enfim, sobre o caos e um arrematado fascista que quer destruir o estado brasileiro. Não podemos mais perder tempo debatendo questões laterais. A história há de cobrar dos omissos, dos cúmplices, dos aproveitadores, dos canalhas.

Importante ressaltar que alguns pontos hão de ser insculpidos em bronze, para que cada um se posicione.

O primeiro é que o presidente optou pela morte. Ao se posicionar ideologicamente contra a vacina, contra o isolamento social, contra o uso da máscara, ele optou por matar o povo brasileiro. Deve ser responsabilizado por homicídio, não apenas por crimes contra a saúde pública. Nem me refiro à correta hipótese de levá-lo às barras do Tribunal Penal Internacional, mas sim aqui mesmo. No país em que ele escolheu, deliberadamente, matar os concidadãos. Não é possível a passividade covarde como resposta. Basta ler Miguel Torga, em Penas do Purgatório, no verso Princípio:

“Não tenho deuses.
Vivo desamparado.
Sonhei Deuses outrora.
Mas acordei.
Agora, os acúleos são versos.
E tateiam apenas a ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte.
O desnudo da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma.
Também não me diz nada, a paz possível é não ter nenhuma.”

Em segundo lugar, a relevância de nossa resistência às inúmeras tentativas de golpe institucional. Como o Presidente tem um raciocínio raso, limítrofe, nossa tendência, no início, era desprezá-lo. Era apenas um folclore. Mas, agora, ele é Presidente da República, e embora inepto, tem o cargo.

Por diversas vezes ousou contra as instituições, acenou com rupturas. Como ninguém o leva a sério, nada foi feito. Mas foram inúmeras as tentativas de subverter a ordem constituída. Poderíamos citar a subleitura fascista do artigo 142 da Constituição, numa tentativa burlesca de colocar as Forças Armadas como poder moderador.

Impossível não termos presente as incontáveis vezes que, pessoalmente, o Presidente se insurgiu contra o Supremo Tribunal Federal e pregou o fechamento do Congresso Nacional. Inclusive com a ousadia de zombar das Forças Armadas indo pessoalmente à frente do Forte Apache, como é conhecido o Quartel General do Exército, para propor a volta do AI 5, o afrouxamento da quarentena, o fechamento do Congresso, o golpe militar. Tivesse esse presidente, inepto e sem prestígio, qualquer poder junto às Forças Armadas já estaríamos sob o jugo de uma ditadura.

E, agora, temos a proposta golpista do líder do PSL de ampliar a “mobilização nacional.” Na realidade, uma tentativa de ter o comando dos servidores civis e militares, inclusive, e principalmente, das polícias civis e militares, para gestar o golpe. Nos últimos tempos, todos nós alertamos sobre a tentativa de fortalecimento desse governo, desprezado pela inteligência das Forças Armadas, numa aproximação criminosa com as polícias militares.

Repito, ainda que sujeito a críticas: as Forças Armadas brasileiras, forças do Estado e não do Governo, mantiveram a nossa independência e soberania ao não se alinharem com a milícia e o crime organizado. Esse será um marco quando formos estudar a história destes tempos estranhos. Lembrar-nos-emos de Bertolt Brecht, no poema Os Esperançosos:

“Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Devolvam- lhes algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!!
É por isso que esperam!”

Importante termos em mente que a estrutura fascista se instalou no governo como um todo. Nem vamos perder tempo com bizarrices como Ernesto, Pazuello, Damares, Moro, Salles. O que deve nos mobilizar é o fato de a deputada que preside a CCJ, principal Comissão da Câmara, Bia Kicis, ter usado o prestígio do cargo para tentar, usando fake news, incitar um motim na PM da Bahia. E o Conselho de Ética da Câmara não se dá ao respeito de abrir um processo de cassação do mandato.

Mas há algo a ser enfrentado, apesar de esse governo genocida nos distrair com a morte, nos aniquilar com a dor da tragédia. Insensível e sádico, ele joga com a nossa fragilidade, com o fato de sermos humanos, de sofrermos. Mas devemos começar a desnudar a nossa dor. Ontem foi mais um dia marcante, vejamos o quadro dos 8 países com mais mortes em apenas 1 dia. É chocante. É humilhante. É revoltante.

  1. 1º Brasil – 3.769
  2. 2º EUA – 921
  3. 3º Polônia – 621
  4. México – 577
  5. 4º Itália – 501
  6. Índia – 468
  7. Ucrânia – 421
  8. Rússia – 383

Ou seja, o Brasil é responsável por 3.769 mortes diárias pelo Covid, enquanto os outros dez países, juntos, somam 3.892.

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Eis a nossa sina e nossa luta: fazermos dos nossos pulmões, que têm o ar aqui de fora, uma tentativa de manter os que estão sofrendo nos hospitais. Vamos promover uma espécie de boca a boca usando o coração amoroso como instrumento. Brincar com a vida e tentar entrar, como anjos, nos ambientes austeros e tristes das UTIs, dos corredores, dos quartos nos hospitais. Olhar de cima, como se fôssemos mágicos, como se numa lufada de carinho e amor fosse possível acariciar os que estão solitários no isolamento obrigatório.

O fascista assassino não permite o isolamento aqui na sociedade, mas o vírus nos impõe o isolamento nos hospitais. O infectado está isolado no seu leito, sem o afeto e o carinho de um beijo, de um abraço. Mas o genocida segue pregando que o isolamento é desnecessário. Não há crise política que supere esse desastre do vírus coordenado pelo verme. Na política, nós ainda temos como resistir, nos oferecendo ao combate no fortalecimento das instituições. Na necropolítica, nossa saída não pode ser apenas conviver com a morte, é preciso enfrentá-la e derrotá-la. Invocando o poeta chinês Li Po, escrito no ano de 601, traduzido por Cecília Meireles:

“Esse grande floco de neve, é uma garça branca que acaba de pousar no lago azul.
Imóvel, na extremidade de um banco de areia, a garça branca observa o inverno.”

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02
Abr21

O paradoxo do genocídio

Talis Andrade

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Por Rafson Ximenes Valéria Teixeirano /Migalhas

Após um ano da chegada da covid-19 no Brasil, choramos quase 300.000 mortos, segundo os dados do Ministério da Saúde.

Nos últimos dias, diversas pessoas, como o youtuber Felipe Neto, têm sido ameaçadas com a abertura de inquéritos por chamar o presidente da República de genocida. A investigação, cuja legitimidade em um regime democrático é bastante controversa, foi suspensa1. Um número cada vez maior de pessoas adere ao discurso que incomoda o governo, em virtude das políticas relacionadas à terrível doença que assola o planeta. Haveria razão nas acusações?

Após um ano da chegada da covid-19 no Brasil, choramos quase 300.000 mortos, segundo os dados do Ministério da Saúde2. É o segundo país com mais vítimas fatais. Atualmente, somos o país com mais mortes diárias, com quase o dobro do segundo colocado3. A curva de casos é a mais ascendente e explosiva do mundo4 e a vacinação caminha a passos de tartaruga5, de modo que é questão de tempo para conquistarmos a mórbida liderança.

Todos os Estados estão prestes a enfrentar um colapso do sistema de saúde. Já apresentam falta de leitos de UTI e correm risco de ver acabar o estoque de oxigênio e de insumos para intubação.

O Brasil teve a pior gestão da pandemia do mundo, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Lowy6, que analisou 98 países. Isso se deve, claramente, ao comportamento do presidente da República. A ciência identificou o isolamento social, o uso de máscaras e as vacinas como únicos meios de combater a doença. O mandatário inventou sua própria “ciência”.

O presidente do Brasil passou o ano promovendo e incentivando aglomerações. Invariavelmente, participava delas sem máscaras e, mais grave, estimulou verbalmente a descrença no seu uso7. Em relação às vacinas, além da notória omissão, também cansou de colocar em dúvida a sua eficácia e afirmou que não tomaria. Por outro lado, minimizou a enfermidade, fez propaganda de tratamentos sem comprovação científica8 e acusou de autoritárias as medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos. Isso sem falar no pedido para que pessoas entrassem nos hospitais para filmar uma suposta existência de leitos vagos e assim “comprovar” que a pandemia era “só uma gripezinha”.9

As manifestações verbais ou simbólicas são bastante relevantes, por mostrar que houve participação ativa e consciente do presidente. Mas, também são importantes porque ele representa a autoridade central do país e, portanto, influencia comportamentos e serve de exemplo. O enfrentamento da pandemia depende umbilicalmente de mudanças de comportamento da população, mudanças que podem ser bastante dolorosas, afetiva e economicamente e, por isso, dependem de confiança na sua necessidade. Não é de se estranhar, portanto, a assustadora quantidade de pessoas que descumprem as recomendações sanitárias, emulando o chefe do executivo.

Para além do exemplo, as medidas oficiais também demonstram a existência de uma escolha. O Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da USP, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, analisou 3.049 normas relacionadas à covid editadas pela União10 e concluiu pela existência de estratégia deliberada de disseminação do vírus, uma vez que a maior parte dele visava o enfraquecimento das medidas sanitárias.

No pior momento da pandemia no país, após pesquisadores do Observatório covid-19 da Fiocruz noticiarem que estamos vivendo o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil, o presidente da República ajuizou ação direta de inconstitucionalidade (ADI 6764)11 contra decretos dos governadores que visam evitar a circulação de pessoas e assegurar o êxito do isolamento social. Fez questão de assinar pessoalmente. Esta é a comprovação do incansável empenho em negar a ciência, maximizar a propagação da covid-19 e colocar a vida de um número cada vez maior de brasileiros em risco, transformando o país em cenário de uma tragédia humanitária sem data para acabar.

O crescimento exponencial do número de mortos sem haver qualquer aceno do chefe do Poder Executivo Federal no sentido de se alinhar às recomendações dos cientistas, da OMS, de apoiar as tentativas municipais e estaduais de conter a pandemia alimentou, em grande parte da população, a certeza de que ele está praticando um genocídio.

O Estatuto de Roma, tratado ratificado pelo Brasil em 2002 (Decreto 4388/02)12, criou o Tribunal Penal Internacional e definiu a sua competência para julgar o crime de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e o crime de agressão. O texto explica que “genocídio” se dá por quatro espécies de atos, quando praticados por indivíduos “com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Dentre eles está a “sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial” (art.6º, c).

O conceito veste quase com perfeição o cenário. Há sujeição de pessoas à destruição física. Há também intencionalidade e convém lembrar, inclusive, que dois ministros da Saúde foram demitidos justamente por apontar os caminhos recomendados para evitar a tragédia. O requisito da definição do grupo alvo, no entanto, é mais problemático.

Apesar da gravidade da situação, da conduta do presidente potencializar a letalidade do coronavírus, e da mortalidade por covid-19 ser maior entre a população negra e pobre13, ela não é direcionada apenas para estes grupos. É fundamental à configuração de Genocídio que a conduta tenha como alvo um grupo específico, um coletivo de pessoas que possam ser identificadas como vítimas14, como ocorreu com população da etnia Tutsi, em Ruanda, e com os cidadãos chilenos contrários à ditadura de Pinochet15, regime para o qual, aliás, trabalhava o atual ministro da Fazenda Paulo Guedes.

O conceito de genocídio se contrapõe à ideia de uma matança difusa, aleatória e generalizada, que é o que está acontecendo no Brasil.  Apesar da relevância sociológica e do poder que a qualificação da conduta do presidente da República como genocida tem, este não é o melhor enquadramento do ponto de vista jurídico. Por incrível que pareça, a conduta de Bolsonaro não constitui tecnicamente genocídio por ser grave demais para isso. O paradoxo, porém, não afasta a atuação do Tribunal Penal Internacional.

O Estatuto de Roma também apresenta o conceito de Crimes contra a Humanidade, que são algumas espécies de atos, quando cometidos no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque (artigo 7º).

Dentre os atos previstos como crime contra a humanidade, está o extermínio, que “compreende a sujeição intencional a condições de vida, tais como a privação do acesso a alimentos ou medicamentos, com vista a causar a destruição de uma parte da população”. Já ataque é qualquer conduta “contra uma população civil, de acordo com a política de um Estado ou de uma organização de praticar esses atos ou tendo em vista a prossecução dessa política”16.

Desta vez, o enquadramento parece alinhar-se melhor à situação do país. Há um ataque generalizado e intencional que sujeita os brasileiros à privação da saúde e que causa a destruição de parte expressiva da população. O mais importante é que, no extermínio, o sujeito passivo é qualquer população civil, sem necessidade de haver direcionamento a grupos específicos.

O grupo alvo da política de morte adotada pelo Governo Federal é o Brasil inteiro. Não será surpreendente se o Tribunal Penal Internacional vier a condenar Bolsonaro. Mas, provavelmente, não será por genocídio, será por crime contra a humanidade. Extermínio. De brasileiros.


1. Para os efeitos do presente Estatuto, entende-se por “crime contra a humanidade”, qualquer um dos atos seguintes, quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque:

a) Homicídio;

b) Extermínio;(…)

2. Para efeitos do parágrafo 1o:

a) Por “ataque contra uma população civil” entende-se qualquer conduta que envolva a prática múltipla de atos referidos no parágrafo 1o contra uma população civil, de acordo com a política de um Estado ou de uma organização de praticar esses atos ou tendo em vista a prossecução dessa política;

b) O “extermínio” compreende a sujeição intencional a condições de vida, tais como a privação do acesso a alimentos ou medicamentos, com vista a causar a destruição de uma parte da população;(…)

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1. Juíza suspende investigação contra Felipe Neto por suposta violação a LSN.

2Clique aqui. Acesso em 21/03/21

3Clique aqui. Acesso em 21/03/21

4Clique aqui. Acesso em 21/03/21

5Clique aqui. Acesso em 21/03/21

6Clique aqui. Acesso em 21/03/21

7Clique aqui. Acesso em 21/03/21

8Clique aqui. Acesso em 21/03/21

9Clique aqui. Acesso em 21/03/21

10Clique aqui. Acesso em 21/03/21

12Clique aqui. Acesso em 21/03/21

14. DE VITO, Daniela; GILL, Aisha; SHORT, Damien. El Delito de violácion tipificado como genocidio.  SUR – Revista Internacional de Derechos Humanos, São Paulo, ano 6, n. 10, p. 29-51, jun. 2009.

15. GÓMEZ-ROBLEDO VERDUZCO, Alonso. El crimen de genocidio en derecho internacional. Boletín Mexicano de Derecho Comparado, [S.l.], jan. 2002. ISSN 2448-4873. Disponible aqui. Fecha de acceso: 21 mar. 2021 doi:http://dx.doi.org/10.22201/iij.24484873e.2002.105.3736

16. Artigo 7º Crimes contra a Humanidade

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02
Abr21

Um terço das mortes no mundo: 3 gráficos fundamentais para entender a pandemia no Brasil

Talis Andrade

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  • por Matheus Magenta /BBC News

De todo modo, é possível afirmar hoje que o Brasil concentra um terço das mortes diárias por covid no mundo, mesmo com 3% da população mundial. Além disso, morreu mais gente em março no Brasil do que na pandemia inteira em 109 países, que soma 1,6 bilhão de habitantes.

Além disso, dados oficiais de hospitais brasileiros apontam que o número de mortes por covid-19 já pode ter passado de 443 mil, quase 120 mil a mais que as estatísticas divulgadas pelo governo Bolsonaro. A mesma estimativa aponta que morrem cerca de 4.000 pessoas por dia no país.

A BBC News Brasil apresenta abaixo três gráficos para ajudar a entender a situação do Brasil e como ela se compara a outros países. Mortes diárias, mortes ao longo da pandemia inteira, velocidade da vacinação e quando o Brasil deve chegar a 500 mil mortes por covid.

1. Hoje, Brasil tem 3% da população mundial e 33% das mortes por dia no mundo

A população mundial soma quase 7,8 bilhões de pessoas. Em 31 de março de 2021, foram registradas 11.769 mortes por covid em todos os países do mundo juntos.

O Brasil, com 212 milhões de habitantes, representa 2,7% do total da população. Em 31 de março de 2021, morreram 3.869 pessoas por covid.

mortes no brasil e mundo.png

Ou seja, a cada 100 pessoas no mundo, 3 são brasileiras. E de cada 100 mortes diárias no mundo, 33 ocorrem no Brasil.

2. Covid matou mais em março no Brasil do que na pandemia inteira em 109 países juntos

E se o tamanho da população entrar na conta, o Brasil será o 17º em pior situação, atrás de países como Estados Unidos, Itália, Portugal, Reino Unido, Espanha e México.

Então, seguem abaixo duas comparações levando em conta o tamanho da população e a situação atual do país.

morre mais no brasil.png

A. Em março, morreram mais pessoas de covid-19 no Brasil do que em 109 países juntos durante a pandemia inteira. Foram 66.573 mortos no Brasil, país de 212 milhões de habitantes. Em 109 países, que somam 1,6 bilhão de habitantes, foram 64.571 mortes ao longo de 12 meses.

Esse grupo de países inclui 36 países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto que o do Brasil e 26 com mais de 20 milhões de habitantes. Entre estes estão Coreia do Sul, Austrália, Malásia, Nigéria, Gana, Angola e Vietnã.

B. Na comparação da taxa atual de mortes a cada 1 milhão de habitantes, o Brasil tem a sexta pior situação do mundo, atrás apenas de Hungria, Bósnia e Herzegovina, Seychelles, República Tcheca e Bulgária. Todos têm menos de 11 milhões de habitantes.

3. Brasil ocupa 18ª posição em ranking de vacinação

Há diversas formas de comparar o ritmo de vacinação entre os países. Em números totais, o Brasil estaria na quinta posição, com 18 milhões de doses distribuídas. Mas, como mencionado acima, mesmo aqueles que minimizam a gravidade da situação defendem que as comparações levem em conta o tamanho da população.

Nesse caso, o Brasil despenca para a 18ª posição global, com 9 doses para cada 100 habitantes. O líder é Israel, com 116 para cada 100 pessoas.

Esses números não consideram quem recebeu uma ou duas doses (que garantiriam a plena eficácia da vacina). Até agora, o Brasil já vacinou 7% da sua população com pelo menos uma dose. O Reino Unido vacinou 45%, o Chile, 35%, e os EUA, 29%.

vacinação brasil.png

Na comparação do ritmo atual de vacinação, o Brasil está em 13º lugar. São vacinadas duas pessoas a cada 1.000 habitantes por dia. No Uruguai, são 10 a cada 1.000.

4. Projeções do futuro próximo: 500 mil mortes até maio?

A falta de dados precisos sobre a situação da pandemia, algo que o Brasil enfrenta desde março de 2020, dificulta muito a análise do que acontece hoje e do que pode vir a ocorrer daqui um mês, por exemplo.

Oficialmente, o Brasil ultrapassou encerrou o mês de março com a marca trágica de 321 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 443 mil.

As estimativas apontam que morreram 4.000 pessoas por dia no Brasil nesta semana por casos suspeitos ou confirmados de covid em hospitais do país.

E a tendência é que a situação continue piorando. O Imperial College de Londres aponta que a taxa de contágio do país atualmente está em 1,12. A pandemia só recua quando esse número fica abaixo de 1.

Projeções do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, apontam que é bastante provável que o pior cenário se concretize e o Brasil passe de 516 mil mortos por covid até 9 de maio.

A subnotificação, entretanto, aponta que isso pode ocorrer já em abril, caso a situação não melhore. [Transcrevi trechos]

 

22
Mar21

'O caos vem aí', diz Bolsonaro em meio à atmosfera caótica que ele criou

Talis Andrade

anjo da morte bolsonaro.jpg

 

 

Janio de Freitas

- - -

Ficou todo mundo desobrigado de fazer sentido no Brasil depois que Bolsonaro disse, na última sexta-feira, que "o caos vem aí". No tempo em que as palavras ainda tinham significado, um país que executa um plano de vacinação sem vacinas, está na bica de contabilizar 300 mil mortos por um vírus, envia para a fila de espera doentes que precisam de UTI e já não consegue assegurar sedativos e oxigênio para todos os pacientes que conseguem chegar à fase da entubação... um país assim já está mergulhado no caos.

Ao projetar para o futuro um caos que já inferniza o presente dos brasileiros, Bolsonaro revela que, no seu governo, até os fatos já ocorridos tornaram-se imprevisíveis. Num regime presidencialista, caberia ao capitão governar a pandemia que sua inépcia agravou. Mas Bolsonaro é desgovernado pelos acontecimentos. Ao falar em "gripezinha", mercadejar a cloroquina, apelidar de "conversinha" a segunda onda de contágio e dizer que a pandemia "está no finalzinho", Bolsonaro injetou empulhação no caos, potencializando-o.

No meio de uma crise sanitária que mata em escala industrial, o pior cego é aquele que finge que não vê. Nada pode ser mais visível do que uma pilha de corpos que não para de crescer. Quando a cegueira é encenada pelo presidente da República, fica entendido que o político conduzido ao Planalto como solução dos quase 58 milhões de brasileiros que o elegeram, virou parte do caos. Assim como sua sensatez, também a capacidade gerencial de Bolsonaro é invisível a olho nu.

 

Ao trocar o papel de presidente da República pelo de pregoeiro da desgraça, o capitão tenta se dissociar do problema. Dedica-se à atividade que mais gosta: transferir as culpas para alguém. Depois de retardar a compra de vacinas, critica governadores e prefeitos por adotar medidas restritivas que a vacinação a conta-gotas torna inevitável. Chama de "mídia funerária" a imprensa que exibe a mortandade que a cloroquina não foi capaz de deter. Culpa o STF por liberar estados e municípios para tomarem providências que a União se abstém de adotar.

Não foi Bolsonaro quem criou o vírus. Mas é inegável a contribuição do suposto presidente do Brasil à proliferação do contágio e das mortes. Em plena era da informação e da ciência, os brasileiros tornaram-se objetos de um sujeito sem limites, cujo anti-cientificismo rompeu as barreiras do humanismo e da civilidade. Na aparência, o sujeito ambiciona a fama de presidente valentão de um país de "maricas". Na prática, a retórica apocalíptica denuncia o medo de Bolsonaro.

A única morte que Bolsonaro parece temer é a morte do seu projeto de reeleição. Ele disse isso, com outras palavras, em março de 2020, quando o coronavírus começou a matar no Brasil. "Está havendo uma histeria. Se a economia afundar, afunda o Brasil", disse ele na ocasião. "Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta pelo poder".

Paulo Guedes já ensinou: não haverá crescimento econômico sem vacinação em massa. Afora o vírus, quem mantém a economia brasileira na UTI é Bolsonaro, não a "turma do fique em casa". Bolsonaro se finge de desentendido, mas foi ele quem retardou a compra de vacinas, se auto-convertendo em estorvo do Programa Nacional de Vacinação.

Bolsonaro considera-se um político predestinado para os grandes voos. Deveria se familiarizar com a célebre metáfora de Hegel, a "Coruja de Minerva", que só voa quando o crepúsculo chega. Significa dizer que só iremos entender o tempo em que vivemos quando ele já tiver se esgotado. A compreensão só virá quando for tarde demais. No caso de Bolsonaro, que não consegue enxergar o caos que viceja sob o seu nariz, a ficha cairá com um atraso de milhares de cadáveres.

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