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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Ago21

Heinze gastou R$ 731 mil com aluguel de veículos em 12 anos

Talis Andrade

Heinze afirma que países acusam o Brasil de desmatar para prejudicar  exportações do agro

 

Locadora é do filho de liderança do PP em São Borja (RS); pai do empresário foi administrador financeiro da campanha do senador

 

Tony Chastinet /Record TV /Brasil R7Brasil R7

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O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) gastou R$ 731 mil da cota parlamentar com aluguel de veículos em uma empresa de São Borja, cidade onde já foi prefeito e tem base eleitoral. Os registros mais antigos são de abril de 2009, quando Heinze ainda era deputado federal. Foi neste ano que a Câmara dos Deputados passou a divulgar os gastos parlamentares.

De acordo com a prestação de contas do Senado, Heinze declarou ter gastado de janeiro a agosto deste ano, R$ 64 mil para a locação de uma caminhonete Toyota Hilux da Pedrinho Automóveis, nome fantasia da empresa Machado & Barroso Comércio de Automóveis. As notas fiscais que constam na prestação de contas indicam pagamento de R$ 8.000 por mês.

O aluguel de um Jeep Compass em uma outra locadora da mesma cidade sai por R$ 4.100 mil por mês. O parlamentar informou na declaração de bens à Justiça Eleitoral ter três veículos, um deles um utilitário Toyota. Heinze também tem fazendas na região de São Borja.

Segundo dados do cadastro da Receita Federal, um dos sócios da Pedrinho Automóveis é Pedro Rodrigues Machado Junior, que é filho de Pedro Rodrigues Machado. De acordo com dados da Justiça Eleitoral, Pedro pai foi o administrador financeiro da campanha de Heinze ao Senado. Ele recebeu R$ 6 mil pelo serviço.

A Pedrinho Automóveis também foi fornecedora da campanha. Na prestação de contas, consta que a empresa alugou três carros para a campanha de Henize – um Gol e dois Onix, com total de R$ 10.500 de aluguel.

Pedro Rodrigues Machado é uma liderança do PP em São Borja. Ele é presidente do Hospital Ivan Goulart e também tem uma empresa de venda de veículos: a Pedrinho Automóveis Eireli que fica no mesmo endereço da empresa do filho.

Em julho deste ano, a imprensa local registrou a inauguração das novas instalações da Pedrinho Automóveis, apontada como a maior loja de venda e revenda de veículos novos e usados da região.

 

Empresa é idônea, diz senadorO menino de Rancho Queimado se queimou?', ironiza leitor - 02/08/2021 -  Painel do Leitor - Folha

O senador Luiz Carlos Heinze diz não ver “nada de errado” em locar os veículos da Pedrinho Automóveis. “É idônea, correta e foi a única que nos atendeu dentro do que precisávamos: preço, modelo e quilometragem livre. De Porto Alegre a São Borja são cerca de 1,2 mil km para ir e voltar. Soma-se a isso os vários municípios que visito entre sextas e segundas-feiras”, afirma.

O parlamentar considera também que a opção pelos carros da empresa é válida: “Jeep Compass não atende as minhas necessidades, tampouco oferece a segurança e agilidade nos deslocamentos. Além disso, em qualquer locadora, o veículo que alugo, com quilometragem livre e seguro, não se encontra por menos de R$ 12 mil por mês. O preço pago está abaixo dos valores cobrados por outras locadoras”, justifica Heinze.

Sobre o fato de possuir três carros declarados à Justiça Eleitoral e utilizar os veículos alugados, o progressista afirma que um deles foi vendido, o outro é de uso da esposa e o terceiro é um Toyota Bandeirante de 1987, para uso em propriedade rural.

(colaborou Tiago Muniz, da Record TV em São Paulo)

 

22
Ago21

'Pare, você não é um cavalo', diz a FDA sobre uso da ivermectina, defendido por Bolsonaro contra Covid

Talis Andrade

Não recomenda? 6 vezes que Bolsonaro defendeu uso da cloroquina

Capitão Cloroquina

ou Capitão Ivermectina? 

 

A Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, sigla em inglês) ironizou neste sábado (21) o uso da ivermectina para o tratamento da Covid-19, que é defendido por Jair Bolsonaro. 

Em post publicado nas redes sociais, o órgão diz: "Você não é um cavalo. Você não é uma vaca. Sério, pessoal. Parem com isso". "Utilizar qualquer tratamento para covid-19 que não seja aprovado ou autorizado pela FDA pode ser extremamente perigoso e pode causar sérios danos", alerta o órgão.

U.S. FDA
@US_FDA
You are not a horse. You are not a cow. Seriously, y'all. Stop it.
Why You Should Not Use Ivermectin to Treat or Prevent COVID-19
Using the Drug ivermectin to treat COVID-19 can be dangerous and even lethal. The FDA has not approved the drug for that purpose.
fda.gov
More answers to questions...
FAQ: COVID-19 and Ivermectin Intended for Animals
Q: Should I take ivermectin to prevent or treat COVID-19? A: No. Ivermectin is not approved for the prevention or treatment of COVID-19.
fda.gov
Respondendo a
@US_FDA
Quando a Ivermectina PARA ANIMAIS é dada a galinhas (off label), os ovos devem ser descartados por pelo menos 2 semanas após a administração para que os humanos não os ingiram. Quando administrado ao gado, deve ser pelo menos 35 dias antes do abate da carne, para que os humanos não a ingiram.
 
 

‘Ivermectina mata bichas’, diz Bolsonaro sobre tratamento precoce contra Covid-19

 

Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a criticar quem é contrário ao uso da ivermectina contra Covid-19. Apesar de o medicamento não ter eficácia comprovada para combater o vírus, o presidente afirmou que funcionários do Palácio do Planalto usam a ivermectina.

Em conversa com a Jovem Pan de Itapetininga na quarta, 21, o entrevistador disse que, quando contraiu a Covid-19, também usou o remédio. Em seguida, Bolsonaro afirmou, enquanto ria: “Cuidado, ivermectina mata bichas, hein? Toma cuidado, hein?”

Com endosso de Bolsonaro, vendas de vermífugo crescem 473% em 2020

Ivermectina, remédio para controle de piolhos, obteve ganho expressivo nas vendas em 2020; só em dezembro o avanço foi de 166,7%.

Com Covid, receita com venda de ivermectina salta 1.272% em um ano 

 

12
Jul21

Explicações do governo para contratos suspeitos na Saúde são esdrúxulas

Talis Andrade

AS-GADANHAS-SAÚDE-.jpg

 

 

por Valdir Moysés Simão /ConJur

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Em dezembro de 2020, o governo federal lançou o Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19. Na cerimônia, realizada no Palácio do Planalto, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello exaltou a experiência do Brasil na produção e distribuição de vacinas e pediu calma aos que cobravam celeridade de sua pasta. "Para que essa ansiedade, essa angústia?", disse o ex-ministro.

Pouco tempo depois, altos dirigentes do Ministério da Saúde envolveram-se em transações pouco transparentes, agora reveladas, sem observar princípios básicos da Administração Pública.

Celeridade atípica em processos de contratação, pressão sobre gestores responsáveis pela liberação e importação de insumos, fornecedores com histórico suspeito e reuniões fora dos muros da Administração apontam para indícios de transações obscuras. As investigações em curso dirão se houve ou não desvio de conduta dos envolvidos.

As explicações dadas pelo governo são esdrúxulas. Em relação ao contrato sem licitação no valor de R$ 1,6 bilhão celebrado com a Precisa Medicamentos, empresa que seria a "fabricante da Covaxin no Brasil", segundo divulgado pelo Ministério da Saúde, disse o atual ministro da pasta, Marcelo Queiroga, que não houve pagamento, o que afastaria qualquer irregularidade.

Parece que o ministro desconhece que o contrato e o empenho criam obrigação para o Estado, regra básica de finanças públicas. O contrato foi suspenso e está sob investigação da CGU (Controladoria-Geral da União).

O presidente da República, que teria sido alertado sobre possíveis irregularidades, explicou-se dizendo que não tem como saber o que acontece nos ministérios.

É verdade que o chefe do Executivo deve confiar na gestão dos ministros por ele escolhidos e não tem condições de acompanhar o dia a dia de cada área do governo. Isso, contudo, deveria aplicar-se também às aquisições bilionárias do principal insumo para o sistema de saúde nos dias de hoje?

Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, a vacinação em massa é a melhor política fiscal e de saúde pública para o Brasil. Há, portanto, alguma outra prioridade?

Qualquer gestor mediano ou agente de controle minimamente preparado é capaz de identificar desconformidades em procedimentos públicos de contratação. E o Brasil conta com um sistema profissional e robusto de controle, com ferramentas e métodos capazes de reconhecer previamente riscos de fraude ou prejuízos em compras públicas.

Capacidade e experiência do fornecedor, preços praticados e formalidades observadas nos processos decisórios são aspectos facilmente verificáveis nas aquisições governamentais. Onde erramos?

A resposta é simples: deveríamos ter estruturado um sistema de monitoramento das principais decisões relacionadas às políticas de enfrentamento da pandemia. Foi esse o sentido da decisão do ministro Luís Roberto Barroso no julgamento das ações contra a Medida Provisória 966, que procurava restringir a responsabilização de gestores públicos, temerosos por estarem tomando decisões num cenário de poucas evidências.

Ressaltou o ministro relator que o controle dos atos da Administração Pública sobrevém muitos anos depois dos fatos, quando não há mais registros da situação de insegurança, de urgência e de incertezas que levaram o administrador a decidir. A MP perdeu a validade e os bons gestores públicos continuam sem garantias.

São poucos os atos administrativos e contratos que precisam de atenção especial, concentrados principalmente no Ministério da Saúde. Seria fácil estruturar um observatório composto por representantes dos principais órgãos de controle, como CGU, Tribunal de Contas da União (TCU) e Ministério Público Federal (MPF), com a participação de entidades da sociedade civil com experiência no acompanhamento dos atos da administração. O mesmo pode se aplicar no âmbito dos Estados.

Não se trata aqui de compartilhamento decisório, mas, sim, de dar publicidade e transparência às decisões, garantindo-se segurança aos bons gestores públicos, cujos atos podem ser homologados em tempo real e, ao mesmo tempo, prevenindo-se que a pátria, distraída, seja subtraída em tenebrosas transações, nas palavras de Chico Buarque.

21
Jun21

A maior tragédia da história do Brasil

Talis Andrade

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por Alex Solnik

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Essa cifra – 500 mil mortos – é absolutamente perturbadora. Tento desviar meus pensamentos para outros assuntos, a fim de me distrair, mas o número não me sai da cabeça.

Começo a fazer comparações. Morreram 60 mil brasileiros na Guerra do Paraguai. A guerra com mais brasileiros mortos. Então, 500 mil mortos são quase dez Guerras do Paraguai. Dez.

Examino a lista de todas as revoltas no país durante o século XX. Foram dezenas. E a Segunda Guerra Mundial. Somando as vítimas fatais de todas elas não dá 500 mil.

A seguir, procuro paralelos com cidades.

Florianópolis tem 508.826 habitantes. É como se de toda a população de Florianópolis apenas 8.826 restassem vivos entre 17 de março de 2020 e 20 de junho de 2021.

Cidades da Europa. Pelo censo de 2010, Lisboa tem 499.700 habitantes. É como se todos os moradores de Lisboa morressem em quinze meses. Todos.

Nunca houve tragédia semelhante no Brasil. O vírus, sozinho, não conseguiria.

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21
Jun21

Qual é o real tamanho da tragédia no Brasil?

Talis Andrade

 

Marca de meio milhão de mortos por covid-19, na verdade, já teria sido atingida há meses. Falta de clareza sobre o quadro real é obstáculo para políticas públicas e sustenta a falsa sensação de controle da doença

 

por Malu Delgado, na DW

O Brasil tem sido um caso mundial raro de acúmulo de erros no combate à doença desde o registro oficial do primeiro caso confirmado de covid-19, em 26 de fevereiro de 2020. Quase 16 meses depois do paciente 1 (nas estatísticas oficiais), o país supera a trágica marca de meio milhão de mortos e quase 18 milhões de infectados confirmados, como constava no painel mundial da Johns Hopkins University na tarde de 18 de junho de 2021. O pior é que o cenário, alertam cientistas, é certamente mais sombrio, e o tamanho da tragédia, maior e mais alarmante.

Estudos estatísticos conduzidos por cientistas brasileiros indicam que, tanto de óbitos quanto de número de infectados pelo coronavírus, a subnotificação atinge altos patamares. A falta de clareza sobre o quadro real é obstáculo para implementação mais racional de políticas públicas e muitas vezes sustenta a falsa sensação de controle da doença.

 

Vítimas seriam até 700 mil

 

O número mais realista de óbitos no Brasil hoje deve estar na casa de 700 mil, não estando afastada a possibilidade de o país chegar a 1 milhão de mortos até o final do ano, segundo afirmou à DW Brasila médica infectologista Ana Luiza Bierrenbach, autora de estudo sobre a subnotificação no país. A pesquisa conduzida por ela, que é conselheira técnica sênior da Vital Strategies, aponta que o Brasil tem pelo menos 30% mais óbitos e 60% mais infectados do que os números oficiais. “Na verdade, já chegamos a 500 mil mortos por volta de meados de abril”, assegura.

Divulgar apenas os casos confirmados, afirma a pesquisadora, é “muito mais confortável para governos”, no Brasil e no resto do mundo. “Existe a tendência de passar a reportar os casos confirmados e suspeitos, os prováveis, porque o dado obviamente é menor.”

Porém, para os infectologistas e epidemiologistas, acrescenta, precisam enxergar o quadro mais realista. “O que preconizamos é passar a falar não só dos confirmados, mas incluir em nossas notificações diárias o número de casos prováveis e suspeitos. Eles precisam se tornar conhecidos.”

O estudo estatístico, que é dinâmico e atualizado diariamente, tem como base de dados o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), do SUS. Esse banco, cujo acesso é público, registra casos e óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

“Pegamos todos esses casos de SRAS, os que eram covid-19 e os que não tinham nenhuma etiologia, nenhum agente etiológico [causador da doença] determinado. Em 2018, 2019, os números eram bem baixinhos. Acontece um boom obviamente a partir de março de 2020, e neste boom tem muitos casos e óbitos não confirmados como covid. Dado que não encontramos a etiologia, a única explicação possível é que seja covid, ou então no Brasil estamos tendo uma pandemia de outro agente respiratório que desconhecemos. Só pode ser covid”, atesta a infectologista.

 

“Em nenhum momento o país controlou número de óbitos”          

 

Além do número estarrecedor de casos letais, o imunologista Alessandro dos Santos Farias, coordenador de diagnóstico da Força-Tarefa contra a Covid-19 da Unicamp, aponta que o principal temor da classe científica é que o Brasil produza uma variante agressiva que leve o país à estaca zero. “A produção de variantes está relacionada ao número de pessoas infectadas. E nós somos o portfólio perfeito de novas variantes, de vírus replicando: temos vacinação lenta com contaminação alta”, explicou Farias, em entrevista à DW Brasil.

Para o pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp, que coordena um programa inovador de testagens, o número de infectados, hoje, deve ser de aproximadamente 50 milhões de pessoas, ou seja, quase três vezes maior do que as estatísticas oficiais registram. Não se pode dizer, segundo ele, que o Brasil estaria entrando numa terceira onda agora. “O Brasil é uma onda só. São picos dentro de uma mesma onda. O país, em nenhum momento, controlou o número de óbitos.”

A possibilidade de surgir uma nova variante para a qual não há cobertura vacinal, diz o pesquisador, é grande justamente pelo gigantesco número de infectados. Farias e os especialistas da Unicamp iniciam, neste mês, uma pesquisa inédita, por amostragem, que vai detectar as variantes em todas as 11 regiões do estado de São Paulo pelo PCR, de forma mais célere e mais barata, sem a necessidade de sequenciamento do vírus.

 

Sem perspectiva de testagem em massa

 

O Brasil, sustenta Alessandro Farias, não tem nenhuma perspectiva nacional para que sejam feitas testagens em massa. “A testagem de sintomáticos tem valor de diagnóstico, mas não tem valor epidemiológico. Não temos uma noção muito boa do que está acontecendo, e não temos perspectiva de testar em massa, de jeito nenhum”, diz. A Unicamp, na força-tarefa coordenada por Farias, já conseguiu testar 200 mil pessoas, o equivalente a 20% da população de Campinas. No Brasil inteiro, pontua o pesquisador, o governo federal testou apenas 135 mil pessoas. As pesquisas e aplicação de testes pela Unicamp foram financiados pelo Ministério Público do Trabalho.

Programas nacionais de testagem em massa, como fez a Alemanha, destaca o imunologista, são cruciais para manejar a abertura e fechamento de serviços e escolas, por exemplo. “A Alemanha chegou a testar 500 mil pessoas em um único dia”, exemplifica, acrescentando que o país europeu, assim como o Brasil, tem problemas com a velocidade da vacinação. No entanto, investe em testagem.

Quando a vacinação é rápida, explica Farias, o monitoramento de variantes é mais eficaz porque o índice de transmissão fica mais lento, o que não é o caso do Brasil:

Ficamos na torcida para a gente não gerar nada que nos leve a começar do zero de novo. Mas pode acontecer. Podemos ter uma variante em que os vacinados e recuperados não tenham nenhuma proteção. Começamos, aí, uma epidemia brasileira do zero. Isso é o que mais me assusta para o futuro. O presente já é sombrio: 2.700 mortes por dia é  um World Trade Center por dia.”

A produção nacional de vacinas, pelo Instituto Butantan e Fiocruz, observa o pesquisador, é a medida mais inteligente e importante tomada no país até agora. “Acreditamos que não vamos nos livrar deste vírus nunca mais. Não sei se teremos que vacinar a população todo ano, mas vamos conviver com o vírus e precisamos monitorar. É muito importante o Brasil ter a capacidade de ele mesmo produzir vacina.”

 

Estimativa de subnotificação é conservadora

 

A médica Ana Luiza Bierrenbach explica que como o banco de dados que foi base para o estudo de subnotificação registra apenas casos graves de síndrome de angústia respiratória ou de pessoas que morreram em ambiente hospitalar ou fora, ou foram internados, certamente as estatísticas são conservadoras. Significa dizer que a subnotificação de óbitos por covid-19, explica, é superior a 30%. “Em muitos casos leves as pessoas nem sequer procuraram fazer os testes. Essa subnotificação que conseguimos calcular é para casos graves e óbitos.”

Segundo a pesquisadora, a subnotificação certamente era maior em 2020, no início da pandemia, quando não havia testes e muitos assintomáticos nem sequer suspeitavam estar com doença. “Mais recentemente a proporção de subnotificação está diminuindo, o que é um mérito de estarmos fazendo mais diagnósticos. E mais diagnósticos oportunos. O que acontece é que pela progressão natural da doença, o vírus tem uma fase de se replicar na nasofaringe e, portanto, com um exame simples, o Swab, a gente consegue detectar. Mas depois o vírus vai para os tecidos, e a detecção do agente viral fica mais difícil”, diz, ressaltando que exame PCR, por exemplo, registra os resultados positivos se feito entre o quinto e oitavo dias da doença.

“Sempre contar casos e óbitos é importante para desenvolver e planejar políticas de saúde. Se a gente não sabe o numero de casos graves, não podemos alocar leitos hospitalares, [definir] quantos são necessários dependendo da fase da doença, quantos leitos de UTI precisamos, [qual a] quantidade de oxigênio que precisaremos para não passar como crise de Manaus. Remédios, recursos humanos e hospitalares são calculados a partir de números”, enfatiza Ana Luiza Bierrenbach.

A divulgação realista e “limpa” dos números acrescenta ela, é crucial também para sensibilizar e alertar a população. “Estamos realmente diante de uma crise muito grave. Ainda precisa ficar em casa. Morrem de 2.500 a 3.000 pessoas por dia no Brasil, e já fazem bons meses que temos mantido esse números.” O Chile, cita a pesquisadora, serve de alerta para o Brasil de que a vacinação, se alta, pode não aplacar a tragédia.

21
Jun21

Mais de 500 mil mortos. A crônica do genocídio narrada pelo genocida

Talis Andrade

CRÉDITOS
Direção Geral: Bob Fernandes
Direção Executiva: Antonio Prada
Produção: Daniel Yazbek
Edição: Yuri Rosat
Arte e Vinhetas: Lorota
Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé

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11
Jun21

Bolsonaro ataca uso de máscara depois que a CPI descobriu sua atividade de lobista da cloroquina

Talis Andrade

Image

Membros da CPI da Covid reagiram ao anúncio de Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (10), de que pediu ao ministro Marcelo Queiroga um parecer para desobrigar o uso de máscaras de proteção contra a Covid-19. 

O senador Renan Calheiros, relator da CPI, chamou Bolsonaro de "Jim Jones" brasileiro e disse que o ataque ao uso de máscaras é um tentativa de desviar o foco das investigações da CPI sobre seu lobby em favor da cloroquina. 

"Logo que foi descoberta sua atividade de lobista de cloroquina, o PR muda o assunto e declara guerra à máscara. Quer o Brasil exposto ao vírus. Temos um Jim Jones na presidência. A diferença é que o louco americano induziu ao suicídio, e o brasileiro quer também o assassinato em massa", disse Renan pelo Twitter. 

Jim Jones foi um pregador religioso e líder da seita Templo dos Povos, famoso devido ao suicídio e assassinato de 918 dos seus membros em 1978.

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em mandar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a desobrigar o uso de máscaras por pessoas que já tiveram Covid-19 e vacinados foi amplamente criticada nas redes sociais.

Palavras como “criminoso”, “psicopata”, “assassino”, e “genocida” foram escritas por alguns políticos ao se referirem ao presidente da República.

Guilherme Boulos
Bolsonaro acabou de dizer que o ministro da saúde assinou uma portaria que retira a obrigatoriedade da máscara para pessoas vacinadas ou que “já foram contaminadas”. A pena do Brasil por manter um genocida no poder será pandemia perpétua!
Quantos brasileiros e brasileiras vão morrer por acreditar em Bolsonaro e não usar máscara?
Não vamos tirar a máscara. Vamos tirar o Bolsonaro!
Marcelo Freixo
É um psicopata. Assassino.
Manuela
A pedido de Bolsonaro, o ministro da saúde Marcelo Queiroga assinou um parecer desobrigando o uso de máscaras por pessoas vacinadas ou que “já foram contaminadas”. É um governo que trabalha pra matar o nosso povo! #ForaBolsonaro
@JoanadeCastro Simbora para o corre! Ignore o rei do gado, #useMascara
Image
Anderson F. Brito
Usar máscara ainda salva vidas, mesmo se você já foi vacinado ou infectado no passado. Vacinas podem prevenir casos graves da doença, mas ainda não sabemos em que medida elas evitam a transmissão do vírus, mesmo se já fomos vacinados (ou infectados no passado). #UseMascaraImage
Juliana Dal Piva
A máscara protege você e quem tá perto. Muitas vezes quem tá perto é quem você ama. #useMascara vá se vacinar quando chegar a sua vez. A dor de perder alguém pra esse vírus e nem poder abraçar os seus é algo que não desejo pra ninguém. Respeite você mesmo. 
ImageCharge de Laerte que mostra Bolsonaro reunido com um monte de vírus planejando destruir o Brasil. Atrás se lê plano nacional.
04
Jun21

"Ministério paralelo" de Bolsonaro ditava quem ia morrer e quem ia viver, diz Aziz, presidente da CPI da Covid

Talis Andrade

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por Victor Fuzeira /Metrópoles 

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), se pronunciou, nesta sexta-feira (4/6), sobre a reportagem divulgada pelo Metrópoles que comprova a existência de um “ministério paralelo” no governo federal para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Em vídeo enviado à reportagem, Aziz afirma que o conteúdo corrobora algo já levantado pelo colegiado, de que o grupo em questão era o responsável por instruir o presidente Jair Bolsonaro sobre as medidas de combate à crise sanitária.

Em suas redes sociais, Aziz disse que

O vídeo que vazou hoje confirma a tese do gabinete paralelo e explica porque o ministro Pazzuello dizia que a vacinação iniciaria no dia D, na hora H. Ele esperava as determinações do ‘shadow gabinet’, o gabinete da morte

 

04
Jun21

NISE YAMAGUCHI E IRMÃOS TIVERAM REUNIÕES SECRETAS COM A CÚPULA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Talis Andrade

Médica que CPI da Covid suspeita ser parte do “gabinete paralelo” de Bolsonaro fez encontros em Brasília sem registro em agendas oficiais. Inclusive defendeu a imunização de rebanho sem uso da vacina

 

por Paulo Motoryn /The Intercept
 

A MÉDICA NISE YAMAGUCHI, que depõe à CPI da Covid nesta terça-feira, 1º de junho, foi apontada como “conselheira paralela” de Jair Bolsonaro pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e o diretor-presidente da Anvisa, o militar da ativa da Marinha Antonio Barra Torres.

Agora, documentos mostram que ela frequentou o Ministério da Saúde, ao longo de seis meses, para reuniões nos gabinetes do então ministro interino Eduardo Pazuello e do secretário-executivo – o número dois da pasta – Elcio Franco. Nise estava tão à vontade que escalou até os irmãos para encontros com a área responsável pela indicação de medicamentos ao  SUS.

Nenhuma das visitas consta nas agendas oficiais de Pazuello e de Franco, nem foi divulgada publicamente. Mas elas indicam a influência direta da entusiasta da cloroquina sobre o alto escalão da pasta. As reuniões secretas são mais um indício da existência do que a CPI da Covid chama de “ministério paralelo”: um grupo de negacionistas que influenciou a tomada de decisões de Bolsonaro na pandemia, contrariando evidências e políticas de saúde.

Os registros das ida da médica ao ministério estão em documento que recebi via Lei de Acesso à Informação, no qual constam os registros de todos os visitantes da sede do ministério em Brasília em 2020. De acordo com a lista, Nise Yamaguchi esteve no prédio em pelo menos quatro datas em junho, julho e dezembro de 2020. Em duas delas, a médica passou pela recepção mais de uma vez, nos períodos da manhã e da tarde – o que indica que teve reuniões que ocuparam todo o dia.

As visitas secretas dos Yamaguchi ao Ministério da Saúde

Da portaria ao gabinete de Pazuello

Em resposta a requerimentos feitos por senadores da oposição, a Casa Civil da Presidência entregou à CPI documentos que mostram quatro visitas de Nise ao Palácio do Planalto. Agora, os registros de acesso ao Ministério da Saúde mostram que a influência da médica e de seus irmãos também foi exercida diretamente no comando da pasta.

As reuniões de Nise Yamaguchi e seus irmãos no Ministério da Saúde, porém, não haviam sido reveladas nem mesmo pela médica.

Nise se encontrou pela primeira vez com Bolsonaro após o início da pandemia de covid-19 em 6 de abril de 2020, quando, a convite dele, foi a um almoço no Palácio do Planalto, em Brasília. À época, o presidente já reclamava publicamente da resistência do então ministro Luiz Henrique Mandetta em defender o uso maciço da cloroquina contra a covid-19.

Dois meses depois do primeiro encontro com Bolsonaro, em 10 de junho, Nise pisou pela primeira vez no Ministério da Saúde. À época, Eduardo Pazuello já era ministro interino.

A lista de visitas indica que a médica entrou às 9h41 no prédio e foi encaminhada ao órgão descrito como “GM” – identificação usada para o gabinete do ministro da Saúde. Foi um dia cheio. Nise voltou a passar pelas catracas do prédio à tarde, às 14h50. Desta vez, foi encaminhada à “SE”, sigla para a secretaria-executiva, então comandada pelo coronel da reserva do Exército Elcio Franco.

Naquele dia, como em todas as outras visitas de Nise à sede da pasta, as agendas oficiais de Pazuello e Franco não registraram os encontros. A Lei de Conflito de Interesses, de 2013, prevê que agentes públicos em cargos de confiança ou de comando divulguem diariamente suas agendas de compromissos, mesmo que reservadas a despachos internos. Quando se trata de ministros e secretários-executivos, a publicação é obrigatória e visa a transparência na administração pública. Nesse caso, a falta de anotação indica que Pazuello e Franco acharam melhor esconder as visitas de Nise.

Naquele 10 de junho, ela não estava sozinha. Foi acompanhada da irmã, Greice Naomi Yamaguchi, que entrou no prédio nos mesmos horários que ela. Greice sequer é médica. Diz ser graduada pela Fundação Getúlio Vargas e ter feito mestrado e doutorado na França em administração de empresas. Participou do governo de transição de Bolsonaro, é adepta de teorias da conspiração e tentou carreira política pelo Novo e pelo PSL.

Nessa e em suas outras visitas ao Ministério da Saúde, Greice Naomi tomou um rumo diferente da irmã: foi encaminhada ao oitavo andar do prédio. Ali, funciona a Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. É o setor responsável por “formular e implementar políticas nacionais de assistência farmacêutica”, fomentar “parcerias público-privadas na produção de produtos estratégicos” e “coordenar o processo de incorporação e desincorporação de tecnologias em saúde no âmbito do SUS”.

Aquela não havia sido a primeira visita de Greice Naomi ao ministério. Na tarde de 6 de abril – logo após a irmã Nise almoçar com Bolsonaro –, ela e outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi, dono de um consultório na Avenida Brasil, uma das regiões mais caras de São Paulo, já haviam ido ao oitavo andar do prédio em que funciona a pasta.

Dois dias depois, em 12 de junho, as duas irmãs voltaram ao ministério para reuniões no período da tarde. No dia seguinte, 13, um sábado, Nise se reuniu no Palácio do Planalto com o então assessor da Presidência Arthur Weintraub.

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Os irmãos Charles Takahito, Nise e Greice Naomi Yamaguchi posam para foto durante evento. Foto: Reprodução/Twitter

 

Em 18 de junho – ou seja, seis dias após a terceira visita de Greice –, a secretaria passou a ser comandada por Hélio Angotti Neto, médico e discípulo de Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira. Ele é mais um defensor do inexistente tratamento precoce da covid-19, que inclui a cloroquina, e chegou a encomendar um manual com orientações sobre a medicação.

Depois da posse de Angotti, Greice Naomi não voltou ao ministério. Mas Nise, sim. A médica voltou a aparecer na lista de visitantes do Ministério da Saúde pouco mais de 15 dias depois, em 2 de julho. Desta vez, passou pelas catracas em dois horários diferentes, às 10h40 e 16h58. Nas duas ocasiões, foi enviada para o gabinete do ministro interino Pazuello.

A médica voltaria a Brasília em 8 de setembro, quando se reuniu com o assessor da Presidência Filipe Garcia Martins no Palácio do Planalto. A última visita dela ao Ministério da Saúde em 2020 ocorreu em 30 de dezembro, quando foi encaminhada à secretaria-executiva comandada por Elcio Franco.

Um levantamento mostra que, enquanto Nise frequentava sigilosamente o Palácio do Planalto e o Ministério da Saúde, de março de 2020 a janeiro de 2021, o governo Bolsonaro implementou ao menos quatro medidas federais promovendo ou facilitando a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina.

Em março, retirou a exigência de receita médica especial para pacientes que recebem os remédios. Em maio, um protocolo do Ministério da Saúde recomendou uso de cloroquina em todos os casos de covid-19, inclusive com sintomas leves; em junho, flexibilizou a prescrição de ivermectina, nitazoxanida, cloroquina e hidroxicloroquina. Em janeiro deste ano, lançou o TrateCov, aplicativo que indicava automaticamente cloroquina em casos de suspeita de covid-19.

Nesse período, Bolsonaro também atuou como garoto-propaganda do remédio, usando o currículo de Nise para sustentar seus argumentos. Contaminado pela covid-19 no início de julho, ele disse a jornalistas, no dia 7 daquele mês, que usou cloroquina para tratar a doença.

“Estou muito bem e credito isso não só ao atendimento dos médicos, mas pela forma como ministraram a hidroxicloroquina, que [teve] reação quase imediata. Poucas horas depois [de tomar], já estava me sentindo muito bem”, disse o presidente. Cinco dias antes da declaração, Nise havia passado o dia no Ministério da Saúde.

Duas semanas depois, em 24 de julho, Bolsonaro foi fotografado por jornalistas oferecendo caixas do medicamento às emas que vivem no gramado da residência oficial.

BRASILIA, DF,  21-05-2020:  A médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi, que defende o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, chega ao palácio do Planalto na manhã de hoje. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Nise Yamaguchi: portas abertas – às escondidas – no governo federal para defender remédios sem efeito contra a covid-19. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

 

Ministério paralelo

Nascida em Maringá, interior do Paraná, em 1959, Nise Yamaguchi se formou em Medicina na Universidade de São Paulo, a USP, em 1982 e se tornou imunologista e especialista em oncologia. Até os primeiros meses da pandemia, atuava no Hospital Israelita Albert Einstein, um dos mais prestigiados no Brasil. Mas foi afastada do corpo clínico da instituição em julho do ano passado, após fazer analogia entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do Holocausto.

Em meados de março de 2020, Nise se tornou conhecida do grande público por conceder entrevistas para diversos veículos de comunicação e gravar vídeos fazendo a defesa do que chama de tratamento precoce com cloroquina e hidroxicloroquina contra a covid-19. As sociedades brasileiras de ImunologiaPneumologia e Infectologia afirmam que os remédios são inócuos contra o novo coronavírus, mesma posição da Organização Mundial de Saúde, a OMS, e das autoridades sanitárias dos Estados Unidos e de países da Europa.

O alinhamento de Nise ao bolsonarismo é recente. A médica chegou a ser chefe de gabinete do Ministério da Saúde em São Paulo de 2007 a 2010, quando a pasta estava sob o comando do então ministro José Gomes Temporão no segundo mandato de Lula. Em reportagem publicada na revista piauí em 2007, a jornalista Daniela Pinheiro investigou os bastidores da atuação do então ministro da Saúde e ouviu de Nise que ela mesma havia sido a autora da indicação dele a ministro do governo petista.

Luiz Henrique Mandetta disse à CPI suspeitar de ‘assessoramento paralelo’ a Bolsonaro sobre pandemia.

“Um dia, encontrei-me com o [Roberto] Kalil [médico que atendia o ex-presidente Lula] na porta do Incor. Foi muita coincidência. Eu falei que tinha que ser o Temporão [o novo ministro da Saúde]. Era preciso um nome da área, suprapartidário, competente. Era a nossa chance de conseguir isso. Ele me perguntou: ‘ele é seu amigo? Você confia nele? Então vai ser’”, disse.

A CPI da Covid tem colhido indícios de que a política de combate à pandemia do governo Bolsonaro foi desenhada por um grupo informal de assessores sem atuação formal dentro do Ministério da Saúde. Chamado de “gabinete paralelo”, “ministério paralelo”, grupo de “aconselhamento paralelo” ou de “assessoramento paralelo”, ele teria insuflado o negacionismo do presidente e, ao mesmo tempo, lhe dado argumentos para defendê-lo.

Além de Nise, os suspeitos de integrar o grupo são os médicos Luciano Dias Azevedo, Paolo Zanotto, Anthony Wong e Osmar Terra, além do empresário Carlos Wizard. Os assessores especiais da Presidência, Arthur Weintraub e Filipe Garcia Martins, também podem ter participado do grupo.

Em seu depoimento à CPI, Mandetta afirmou acreditar que Bolsonaro recorria a “outras fontes” e citou o termo “assessoramento paralelo” para caracterizar a busca do presidente a informações sobre a pandemia de coronavírus diferentes das fornecidas pelo Ministério da Saúde.

“Isso não é nenhuma novidade para ninguém. Havia por parte do presidente um outro olhar, uma outra decisão, um outro caminho. Todas as vezes que a gente explicava, o presidente compreendia. Ele falava: ‘ok, entendi’. Mas, passados dois ou três dias, ele voltava para aquela situação de quem não havia talvez compreendido, acreditado ou apostado naquela via. Era uma situação dúbia. Era muito constrangedor para um ministro da Saúde ficar explicando por que estávamos indo por um caminho, se o presidente estava indo por outro”, afirmou Mandetta aos senadores.

O relator da CPI, Renan Calheiros, do MDB alagoano, e o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues, da Rede do Amapá, disseram nos últimos dias estarem convencidos de que a atuação do grupo pró-cloroquina junto ao presidente realmente existiu.

Em audiência na Câmara dos Deputados, Nise Yamaguchi defendeu a imunização de rebanho sem uso da vacina.

“Acho que já temos muita coisa comprovada com relação à existência do ‘gabinete paralelo’. Já temos até o número de reuniões que eles tiveram”, disse Calheiros. Esse gabinete paralelo apostava – e insiste – em cloroquina, aglomeração e imunização de rebanho”, afirmou Randolfe, durante audiência.

Em 28 de outubro do ano passado, por sugestão do líder do governo na Câmara dos Deputados Ricardo Barros, do PP do Paraná, uma comissão da Câmara discutiu a possibilidade de se buscar a imunidade de rebanho da covid-19 no país, que seria obtida evitando-se o isolamento e permitindo que um alto percentual da população se infectasse pelo coronavírus. Entre os debatedores, estavam Nise, Zanotto e Wang – os três defenderam a estratégia de contaminação em massa da população.

“Nesse momento, não vai existir ninguém no mundo que possa dizer que você vai sair na rua e não vai pegar uma tuberculose, ou uma outra infecção viral”, disse Nise à comissão. A médica chegou a ser cogitada como nova ministra da Saúde depois das demissões de Mandetta, em abril, e de Nelson Teich, seu sucessor, em maio. Nas duas ocasiões, foi preterida.

Entrei em contato com Nise, Greice Naomi e Charles Yamaguchi através dos e-mails e telefones disponíveis em suas redes sociais. Na única ligação atendida, às 11h18 da segunda-feira, 31 de maio, uma secretária do consultório de Nise disse que informaria a médica sobre meu pedido de entrevista. Não tive retorno.

O Ministério da Saúde foi procurado na sexta-feira, 28 de maio. A assessoria de comunicação disse que enviaria as justificativas para as visitas dos irmãos Yamaguchi até a manhã de segunda-feira, 31 – o que não ocorreu. O espaço segue aberto para manifestações.

04
Jun21

Exclusivo: vídeos mostram “ministério paralelo” orientando Bolsonaro contra vacinas

Talis Andrade

Reunião de Jair Bolsonaro com médicos, na qual ouve ressalvas às vacinas; na mesa, Osmar Terra ao lado de Bolsonaro, com o virologista Paolo Zanoto sentado à direita, na foto, de camisa cinza e cabelos longos

Imagens trazem o virologista Paolo Zanoto, a imunologista Nise Yamaguchi e o deputado federal Osmar Terra em reunião com o presidente

 
 
 

Imagens obtidas pelo Metrópoles mostram o aconselhamento do chamado “ministério paralelo” sendo feito diretamente ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – com trechos explícitos de ressalvas à aplicação de vacinas. Trechos de uma reunião, ocorrida em 8 de setembro, também confirmam que Arthur Weintraub intermediava os contatos entre o grupo e o Palácio do Planalto.

Entre os participantes do encontro, estão a imunologista Nise Yamaguchi, o deputado Osmar Terra, o virologista Paolo Zanoto e outros médicos de diversas especialidades. Confinados em uma sala de reuniões do Planalto, nenhum dos profissionais usa máscara.

As imagens também apontam Osmar Terra como o cacique intelectual do grupo. “Uma honra trabalhar com o senhor neste período” afirmou Nise Yamaguchi ao deputado. Na CPI da Covid, ela negou a existência de um gabinete paralelo, e disse que prestava apenas “aconselhamento”.Reunião de Jair Bolsonaro com médicos, em 8 de setembro de 2020; na foto, imunologista Nise Yamaguchi está no microfone

Nise Yamaguchi discursando no Ministério da Morte

 

Tratado com deferência especial, o virologista Paolo Zanoto parece ter intimidade com Bolsonaro. O presidente faz questão de que ele saia da plateia e se sente ao seu lado. Para cumprimentá-lo, o presidente da República bate continência.

Na ocasião, Zanoto aconselha Bolsonaro a tomar “extremo cuidado” com as vacinas contra a Covid-19. “Não tem condição de qualquer vacina estar realisticamente na fase 3”, diz. Na data do encontro, e-mails da Pfizer estavam sem resposta nos computadores do Ministério da Saúde.

A orientação antivacina prossegue. “Com todo respeito, eu acho que a gente tem que ter vacina, ou talvez não”, afirma o virologista, enquanto uma médica balança a cabeça de forma negativa. Ele baseia sua argumentação em um suposto problema dos coronavírus no desenvolvimento vacinal, sem apresentar qualquer evidência.

Veja vídeo aquiReunião de Jair Bolsonaro com médicos, em 8 de setembro de 2020; na foto, Osmar Terra está entre o presidente e o virologista Paolo ZanotoZanoto, sem paletó, na mesa diretora do ministério da morte, do Brasil sem vacinas, da imunidade de rebanho

 

Zanoto deu uma série de entrevistas durante a pandemia avaliando que não seria “uma boa ideia” fazer vacinação em massa no Brasil. Em 8 de dezembro de 2020, por exemplo, em programa da RedeTV, o profissional, formado em biologia na USP e com doutorado em virologia em Oxford, sustenta:

Aqui no caso do Covid-19, do Sars-CoV-2, isso é um vírus que causa muito mais mortalidade em grupos etariamente bem definidos e com comorbidades. Então é óbvio que, se você tem uma função, uma distribuição de risco, deveria ser também uma distribuição de risco associada com, digamos assim, um incentivo a essas pessoas se vacinarem. Por outro lado, vacinar em massa todo mundo não é uma boa ideia, porque a gente não tem uma ideia muito boa de tudo o que acontece com essas vacinas, pois elas não foram desenvolvidas em prazo razoável para se estimar efeitos adversos de baixíssima frequência.”

As imagens também confirmam algo que o Metrópoles revelou na semana passada. O ex-assessor especial da presidência Arthur Weintraub fazia a ponte entre o “ministério paralelo” e Bolsonaro. Zanoto diz que encaminhou a Weintraub a sugestão do que ele chama de “shadow board”, um grupo de supostos especialistas em vacinas para aconselhar o governo sobre o tema.

Na sua vez de falar, o presidente Jair Bolsonaro reforça a retórica antivacina. Ele revela que vetou uma lei que estipulava celeridade da Anvisa na aprovação de fármacos.

“O projeto foi aprovado na Câmara e eu vetei o dispositivo. O veto foi derrubado depois, o que dizia? O que chegasse aqui para combater o coronavírus, a Anvisa tinha 72 horas para liberar [na verdade, o prazo era de 5 dias]. Se não liberasse, haveria aprovação tácita. Eu perguntei: ‘Até vacina? Até vacina.’”

O presidente também expressou desconfiança sobre imunizantes já aprovados no exterior. “Mesmo tendo aprovação científica lá fora, tem umas etapas para serem cumpridas aqui. Você não pode injetar qualquer coisa nas pessoas, muito menos obrigar”, disse, enquanto uma médica reagia com as mãos aos céus e agradecia a Deus.

A atuação de Osmar Terra como uma espécie de “ministro” do gabinete paralelo é explicitada quando ele apresenta a Bolsonaro um cardiologista que seria o primeiro a dizer que não existe risco ao coração no uso da hidroxicloroquina. Bolsonaro endossa a tese com um suposto exemplo de “um amigo” e lança a teoria de que os riscos do medicamento são potencializados para amedrontar as pessoas. “Provavelmente por ser um remédio muito barato”, completa.

Naquele 8 de setembro do ano passado, o Brasil tinha 127.517 mortes por Covid-19 confirmadas, e 4.165.124 casos registrados. Nesta sexta-feira (4/6), o país soma 469.388 vidas perdidas para a doença, e 16.803.472 contaminados. 

A imunidade pretendida não é pela vacina, mas pela contaminação, que tem o preço alto de milhares de mortes, ou milhões. O quê Bolsonaro e o ministério paralelo entendem que seja imunidade de rebanho

 

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