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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

13
Jun18

DE JUSSARA SALAZAR / Exercício sobre a matéria e o amor

Talis Andrade

com tema de auguste rodin

 

rodin.jpg

 

 

Paolo e Francesca emergem de um bloco
pedra sem forma
massa de mármore

 

Rodin esculpiu
a sublime delicadeza do amor
         Dante
         Beatriz
entre o inferno e o paraíso


unidos
contraditórios

 

a claridade da pedra
a escuridão da noite
a leveza do amor
o peso do corpo
ou ainda a matéria bruta do solo
e a fragilidade da carne

 

Camille Claudel
Camille Claudel
chego a ti
ao teu tempo soterrado
entre o amor e
a violência de amar

 

 

13
Jun18

Retrato amoroso ou o retorno do querubim sobre as ondas

Talis Andrade

de Jussara Salazar

 

poesia jussara salazar.jpg

 

vagando
as ondas
o tule
do mar
do extremo amor
devolveu a
cabeça do querubim
perdido


os dias
os dias
os mesmos dias
viram teu torso
um desenho
costurado
à linha do horizonte

 

te aguardarei
menino
quando retornares
com o tempo
teu corpo
e tuas cicatrizes

 

 

---


com tema de Beth Moysés| Reconstruindo Sonhos

Performance realizada em Cáceres, Espanha. 2007

28
Abr18

metamorfose

Talis Andrade

metamorfose patricia smaniotto.jpg

 

 
 
e se eu dissesse
que tudo que havia nas minhas mãos
eram destroços.
e então veio você e me virou
e revirou pelo avesso
fez do meu corpo arena de desejos loucos
dos meus cabelos fontes, dos meus olhos noites
dos meus seios frutos, do meu ventre lago
das minhas coxas abertas pontes,
do meu sexo exposto templo.
e na manhã última dos tempos,
me cobriu de folhas mortas
para que eu fecundasse a terra
e renascesse sem dor e sem nome,
como deusa nova, para o teu deleite.
 
26
Abr18

corpo inconsútil

Talis Andrade

com tema de heather murray

corpo inconsutil.jpg

de Jussara Salazar

 


a linha do rio costura

o céu e a terra

a linha da terra costura

o céu e o mar

a linha do céu dobra

o inferno ao meio


contornamos o sol


a linha do tempo

não se dobra

mas fia

teia de si mesma

acalenta o vento

e costura

a linha dos dias

 

 

 

24
Nov17

Os 18 do forte retrocesso contra os direitos das mulheres

Talis Andrade

 


Como o Congresso brasileiro se tornou o melhor lugar para homens que odeiam as mulheres, especialmente as negras

 

OS 18 VENDILHÕES

 

os 18 do forte .jpg

Os 18 e seu grupo ficaram eufóricos em 8 de novembro porque eles não tinham feito uma sacanagem só: tinham feito duas.

Estes são os 18 que, com seu voto, permitiram a comemoração: Gilberto Nascimento (PSC), Leonardo Quintão (PMDB), Givaldo Carimbão (PHS), Mauro Pereira (PMDB), Alan Rick (DEM), Sóstenes Cavalcante (DEM), Jorge Tadeu Mudalen (DEM), Marcos Soares (DEM), Pastor Eurico (PHS), Antônio Jácome (PODE), João Campos (PRB), Paulo Freire (PR), Jefferson Campos (PSD), Joaquim Passarinho (PSD), Eros Biondini (PROS), Flavinho (PSB), Evandro Gussi (PV) e Diego Garcia (PHS).

 

Para saber as safadezas que os três poderes promovem contra o Brasil e o povo em geral, temos que ler a imprensa estrangeira. Prisões de ex-governadores são despitamentos, o me engana que eu gosto, que logo todos estarão soltos no gozo de uma vida de luxo e luxúria. De um texto de Eliane Brum, transcrevo as frases destacadas pelo jornal espanhol El País:

 

As mulheres não terão mais o direito de abortar em caso de estupro, risco de morte e feto anencéfalo.

Numa canetada só, os 18 adiaram a ampliação da licença-maternidade em casos de prematuros e ameaçaram conquistas da sociedade do tempo das avós.

Os odiadores de mulheres usam a religião para se legitimar enquanto traem os valores de fato cristãos.

Para achar possível obrigar alguém a ter um filho do estuprador é necessário gozar com o sofrimento das mulheres.

Como, “em nome da vida”, os 18 podem tirar o direito de uma mulher escolher não morrer?

Como uma pessoa humana pode condenar uma mulher a viver uma gestação em que ao final terá um caixão e não um berço?

A armadilha é óbvia: a luta das mulheres deixou de ser pela ampliação de direitos e passou a ser para não perder direitos.

Hipocrisia à brasileira: há um país que pode fazer aborto e outro, muito maior, que morre ao tentar fazê-lo.

No Brasil, os direitos só serão ampliados quando existirem mais mulheres negras ocupando espaços de poder.

A escravidão negra, por nunca ter de fato terminado, segue se reproduzindo em formas cada vez mais criativas no Brasil.

Transcrevi trechos. Leia mais e divulgue

26
Jul17

Oração para o povo fechar o corpo e ser feliz

Talis Andrade

 

 

 

TRISTE SINA

 

Triste sina

o povo

consegue ser feliz

preso nos birôs

e oficinas

 

Longe dos prazeres

longe de quem ama

o povo

consegue ser feliz

esperando esperando

o que não tem

e nunca vem

 

O povo

consegue ser feliz

em sendo povo

 

a vida

por um triz

 

 

povo ação coletiva Eray Özbek.jpg

                                                                                                           Eray Özbk  

 

 

 

ORAÇÃO PARA FECHAR O CORPO

 

Seja teu nome

Ghandi ou Guevara

o corpo permaneça

guardado fechado

a todos os inimigos

encarnados descarnados

 

O corpo permaneça

invisível à mira

na tocaia dos fuzis

à bala quente

explodindo o cérebro

de Kennedy

à pontaria no peito

que matou Luther King

o anjo negro da paz

 

Indivisível permaneça

à faca fria

que cortou a mão

de Victor Jara

à lâmina pesada

que rolou por terra

a cabeça

de Thomas Morus

 

O corpo permaneça

livre do destino

do poeta Lorca

que depois de morto

esconderam o corpo

preservado permaneça

do fogo das grelhas

que assaram Atahualpa

do fogo ateado

ao corpo de Joana

reduzido a cinzas e carvão

do fogo que queimou

o coração de Bruno

nos porões da santa

Santa Inquisição

 

Preservado permaneça

da mutilação

que dilacerou em quatro

o índio Tupac Amaru

da corda no pescoço

e do facão que separou

em pedaços

o cadáver de Tiradentes

a cabeça pregada num mastro

braços e pernas

espalhados pelos caminhos

dos inconfidentes

 

Fecha o corpo

com rezas

coisa feita

fecha o corpo

a sete chaves

a sete cadeados

e joga as chaves

na secreta

encantada cova

de Salomão

 

 

15
Jun17

A multiplicidade de Rafael Rocha

Talis Andrade

Poeta. Romancista. Jornalista. São diferentes Rocha ou um só?

 

Que também existem o ativista político, o boêmio, o compositor, o dono do Humanitas, "o jornal dos livres pensadores", uma publicação sem fins lucrativos, cuja linha editorial tem ligação direta com o agnoticismo e o ateísmo.

 

A simplicidade une todos os Rocha, que tem nome de anjo, Rafael, nome de pia dado pela religiosidade de sua santa mãe.

 

Do altar de vários livros, Alguma Poesia

 

poemas ecolhidos capa.jpg

 

TEU CORPO

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

Até quando escrevo um poema olhando um outro

de qualquer outra mulher eu vejo o teu vivaz e lindo.

Eu sei que o tempo torna as coisas carcomidas

mas teu corpo em mim continua sempre novo.

Sempre como aquele de décadas antigas

esperando meus beijos e minhas carícias.

 

Irei assim acompanhando essa imagem de teu corpo

ainda que nós ambos estejamos desenvoluindo

e tendo outros olhos a olhar para outros corpos

fingindo e mentindo que ainda são os de antes.

Mas para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo

onde redescubro sonhos e desejos de paixão.

Sim! Sim! Porque estamos vivos na paisagem

e não custa sonhar e acreditar que somos e somamos.

 

Tudo isso serve para a gente espantar a morte

como a beber uma cerveja, um vinho ou um licor.

Viver é uma bebida venenosa a matar lentamente

e isso nós sabemos e criamos antídotos com o olhar.

O teu corpo vem em sonhos e traz variedades

dos momentos de quando o destino bateu na porta

e de quando nunca e jamais as nossas saudades

foram ideias mortas.

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

É um poema para meu olhar envelhecido de hoje.

 

MARCOS DO TEMPO CAPA.jpg

 

OLINDA

 

Olinda do frevo maior

ofício de minha canção

onde buscando o amparo

fiz milagres nunca vistos

pedindo ao carmo da virgem

o brilho da luz do farol.

No bairro novo do sonho

numa casa recém-caiada

em um varadouro sem fim

nasceu a história maciça

do jardim atlântico novo

onde o doce rio desemboca

e de onde os bultrins da vida

chamam homens/mulheres pra mim

 

 

JUDAS

 

O ideal morreu

trinta moedas foram repartidas.

 

As armas fazem salvas.

Eis o mundo!

(O mundo está vivo?)

 

Os gaiatos obliteram

o homem

nos comícios

e nas passeatas

ideológicas

 

Homens sem-terra replicam

hinos de salvação

salmos inconsistentes

aos estatutos dos ventos

 

E quando a cidade dorme

os encapuzados roubam

carne e frutas

ao peso exato

do sangue

da população

 

 

INSTANTÂNEO NO BAR

 

Quando ela entrou no bar os homens acordaram da bebida

perplexos passaram os olhos por todas as linhas do seu corpo.

 

Gestos invisíveis de sonhos em volúpia a homenagearam.

 

Quando ela entrou no bar, a vida abriu portas e janelas e garrafas.

Copos tilintaram, mãos sorriram,

as almas deram-se graças totais e dinâmicas.

 

O garçom atendeu-a solícito como pôde

fazendo dos olhos lentes objetivas para sentir a substância da carne.

Uma cerveja. Um cigarro. Um enredo moreno.

Um meneio coxas/pernas/seios/olhos/lábios e convites incertos.

 

Ao sair do bar manto e roupa de rainha deu-lhe o vento.

A lua iluminou todas suas perfumadas e sinuosas reentrâncias.

Os automóveis deslizaram de mansinho pelo asfalto.

 

Quando ela saiu do bar tudo lá dentro adormeceu em outro silêncio:

Os copos calaram os cristais.

Os homens tornaram-se falaciosos.

E o garçom resolveu beber sua meiota de cachaça.

  

ANOS DE CHUMBO CAPA.jpg

 

O HOMEM CINQUENTENÁRIO

 

Ao passar um olhar na vida

notou-a amarrotada e tardia.

Os móveis da casa poeirentos.

O cigarro sem gosto.

O café sabendo à água suja.

 

Pôde num só olhar, olhar-se:

barba por fazer. Dedos rugosos.

Cabelos esparsos e olhos opacos.

Desacreditou-se. Já não era

a coisa brincalhona de outros tempos.

 

Teve ódio do espelho e escreveu

uma frase lugar comum cinquentenário:

- Tenho um coração de quinze anos! -

 

A partir desse instante

conseguiu sentir o tamanho das suas rugas.

 

 

 

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