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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

05
Fev24

Anacronismo e redenção em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ de Glauber Rocha

Talis Andrade

 

Por Ben Hur Nogueira 

 

Diferentemente de seus trabalhos pretéritos, em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” Glauber Rocha tenta solidificar uma mensagem possivelmente nunca vista no cinema nacional sobre o folclore brasileiro amplificando debates sobre justiça social, redenção, genocídio, imperialismo, miséria e religião colocando elementos do folclore nacional como prioridade e transformando o sertão brasileiro em um western (ou faroeste para os íntimos) recheado de referências populares e por que não, um misticismo que ocorre no terceiro mundo.

Glauber Rocha por si só era bastante inventivo. Trabalhava o realismo com o misticismo. O real e o imaginário se cruzavam constantemente em suas obras. Em “Terra em transe”, por exemplo, temos um país do terceiro mundo imaginário onde crises políticas ocorrem influenciando o poder e a democracia. Glauber podia facilmente fazer deste um filme cuja mera referência fílmica virasse um thriller com referências noir dos anos 1940 ou 1950, mas ele transforma o que era pra ser um suposto noir, em uma fábula realista repleta de metáforas, diálogos longos e uma edição que não seguia regras cinematográficas impostas pelo cinema comercial. 

Glauber por sua vez, gostava de utilizar diálogos longos com palavras eruditas como uma forma de estabelecer um paralelo entre o filme e o telespectador. Por um lado, temos a consciência daquilo ser uma experiência fílmica, mas pelo outro, através da linguagem revolucionária com movimentações abruptamente randômicas de câmera (o que davam uma sensação de metalinguagem), tínhamos um espectro de ousadia cinematográfica onde haviam repetições de cenas já passadas, trilha sonoras focalizadas na própria ambientação e por fim, a maneira volumosa de trabalhar com personagens vivendo situações caóticas onde o caos decerto impera. Isso tudo faz-nos lembrar que estamos vendo uma película, o que faz a experiência de assistir qualquer um de seus filmes, ser a experiência similar de assistir películas de caras como Pasolini ou de Ousmane Sembene, onde os personagens não participam da famigerada jornada do herói e não são nem mocinhos ou vilões, mas vítimas de uma complexidade humana, complexidade que essa favorece o espectro de “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” onde temos vários volumes de personagens complexos e o filme por si só não estabelece necessariamente um heroísmo dos personagens principais, mas humaniza os personagens através das vivências obtidas por estes em suas ambientações.

Em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” temos Antônio das Mortes, um matador de aluguel que é contratado para assassinar o suposto último cangaceiro vivo de uma pacata cidade sertaneja. Logo ao perceber as injustiças do povo, ele busca sua redenção tanto pessoalmente quanto religiosamente se rebelando contra as próprias autoridades que o contrataram e buscando justiça contras as injustiças que cada vida passou ali.

Antônio das Mortes não chega ser nem de perto, o arquétipo heroico dessa estória, já que como a própria canção-tema do filme diz que o próprio Antônio das Mortes não tem permissão para entrar em uma igreja sendo jurado em mais de dez igrejas e não tem nenhum santo que o protege, trazendo para a própria persona de Antônio, um sentimento ambíguo de desprezo por si próprio e por uma complexidade ampla sobre seu personagem.

Por um lado, nós membros da audiência interpretamos Antônio como um ser malevolente nos momentos primevos da película, mas ao longo do filme temos a ciência de que suas ações são movidas por um espécime de desprezo que Antônio tem por si próprio. Uma cena onde ilustra bem a complexidade desse personagem, é logo no início onde Antônio revela em uma conversa, que foi convidado por Lampião para integrar o grupo de cangaceiros, e mesmo sentindo um desejo endógeno de se tornar um desses, acaba se mantendo como matador de aluguel sendo condecorado por coronéis regionais que não aceitam direitos trabalhistas e melhorias para os povos limítrofes que coabitam as regiões onde eles imperam. Apesar de curta, essa cena humaniza Antônio e o coloca não como vítima de suas ações, mas vítima da naturalização da violência local, onde ao perceber que a violência é comum naquele ambiente, a oportunidade monetária de erradicar justiceiros sociais poderia tornar-se lucrativa.

Tida como uma continuação de “Deus e o diabo na terra do sol” (do mesmo diretor lançado em 1964), “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” utiliza o antagonista do filme predecessor (o próprio Antônio das mortes) como a figura a ser protagonizada. “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” é um tipo de filme que requer atenção nos mínimos detalhes, desde diálogos até sequências com ampla duração. Isso demonstra a natural habilidade de Glauber Rocha em prender sua audiência em eventualidades que ocorrem gradualmente nos seus filmes. 

Esteticamente, temos elementos que fazem desta experiência fílmica algo a ser ponderado, a começar por seu roteiro que traz tantos elementos culturais que tangem a influência afro-brasileira no catolicismo através das personificações de santos populares brasileiros vividos por Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) e Ogum (Mário Gusmão), dois personagens extremamente significativos para a obra já que servem como mentores espirituais dos habitantes da pacata cidade onde o filme se passa. Tanto Santa Bárbara quanto Ogum (ou Antão como se chama no filme) estão sempre próximos ao cangaceiro Coirana, um cangaceiro local que desafia autoridades buscando justiça social e igualdade aos sertanejos. 

Uma cena onde isso é exemplificado é uma cena onde podemos ver Coirana entre Ogum e Santa Bárbara durante um comício popular onde Coirana busca defender o vilarejo ao mesmo tempo que refere-se à Lampião como sua maior referência. Logo nessa cena ao ver estes dois entre um homem tomado pela violência local, passamos a ressignificar a presença destes como se fossem um escudo protetor do vilarejo, como se o próprio Coirana fosse um arauto da justiça e eles seus mentores que são tratados como figuras espirituais protetoras. 

A espiritualidade aliás, é um forte sujeito na película, já que vemos como a religião torna-se um subterfúgio emocional dos habitantes da cidade onde o filme se passa, ao mesmo tempo que coabitamos com figuras místicas como Ogum e Santa Bárbara, demonstrando como que religiosa e mística a ambientação da estória é.

É neste cenário onde somos testemunhas de duelos sangrentos onde muito sangue é derramado. De um lado temos os habitantes cujo o líder é Coirana, que promete justiça e proteção ao povo tendo consigo a proteção de Santa Bárbara e Ogum simultaneamente, do outro, temos Coronel Horácio (interpretado por Jofre Soares), que teme a chegada do povo ao poder e por isso passa as responsabilidades ao seu mandante Mattos (Hugo Carvana) que resolve contratar Antônio das Mortes para derrotar Coirana e passar a ter o controle fixo da cidade para si mesmo. Logo no começo da película, Coirana se refere durante um comício popular ao Dragão da Maldade como um ser orgulhoso e ao mesmo tempo rico, logo, passamos a interpretar Antônio das Mortes como o dragão da maldade ou o vilão do filme, mas é a partir desta premissa que temos uma inversão poderosa no roteiro de Glauber Rocha onde vemos Antônio das Mortes duelando em um duelo de espadas contra Coirana onde Antônio sai como vencedor. Após vencer o cangaceiro, percebemos que Antônio das Mortes torna-se subjetivo para as atividades imperialistas que ocorrem na região sertaneja, onde o colonialismo cultural volta a imperar e o povo torna-se aquém das atividades dos coronéis. Logo vemos que não é Antônio o dragão da maldade, mas sim os fazendeiros ricos da região que são os seres reais a serem desafiados e eventualmente batidos. 

Logo após a vitória contra Coirana, Antônio das Mortes passa a ser perseguido por fantasmas do passado. Primeiro temos uma demonstração de fraqueza humana sua, onde temos o personagem tendo um contato direto com Santa Bárbara onde ela o informa para se afastar da cidade o quanto antes como se fosse um aviso prévio, em seguida, o Coronel Horácio contrata jagunços para assassinar seus opositores em uma sequência reminiscente da Guerra de Canudos, onde quase todos os habitantes participam de um hecatombe regional. É neste momento onde passamos a enxergar a natureza humana de Antônio e por fim sua redenção.

A redenção de Antônio não significa o perdão por suas ações, mas uma tentativa sua de mudar estigmas sobre sua pessoa. Para entender melhor seus estigmas, é preciso voltar no filme predecessor de “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”: “Deus e o Diabo na terra do sol”, onde Antônio não é tão explorado como sua sequel, mas temos aqui Antônio como um matador de cangaceiros contratado tanto pela igreja quanto por fazendeiros para assassinar pessoas que são tidas como subversivas às relações de poder e seus proponentes. Aqui sabemos muito pouco sobre seu passado e sobre suas motivações, só sabemos que suas ações são todas demonstradas por um sentimento de desprezo próprio por si mesmo e uma espécime de obsessão à procura de cangaceiros como um parâmetro pessoal. Aqui Antônio não é tão explorado como no próximo filme, mas aqui vemos ele favorecendo o lado mais poderoso: o lado hierárquico dos poderosos na região simplesmente por desejo próprio. 

No fim de “Deus e o diabo na terra do sol” vemos ele assassinando o cangaceiro Corisco (Othon Bastos) mas antes de morrer Corisco exclama: ”Mais forte são os poderes do povo”, algo que tem um impacto profundo na continuação da obra em “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, onde a vida de Antônio e sua trajetória como matador de aluguel é mais explorada. Em “O dragão da maldade”, Antônio das Mortes passa a ter um sentimento de culpa ao notar que suas ações influenciaram na chegada dos coronéis ao poder, e a partir deste pretexto vemos Antônio se unindo com as forças oprimidas da cidade, uma união que outrora ele não faria, mas em busca de sua redenção pessoal, ele passa a se unir com o Professor da cidade (Othon Bastos) para combater os jagunços contratados pelas forças mais poderosas da cidade para erradicar de vez qualquer espécime de justiça social que pondera imperar por lá e é desta forma que chegamos ao clímax do filme, onde Antônio das Mortes junto do Professor lutam contra os jagunços contratados pelo Coronel e seus vassalos na praça da cidade. Por um lado, tal cena é reminiscente de faroestes norte-americanos clássicos ao mesmo molde que Glauber intercala pitadas de uma montagem neo-realista não sequencial onde personagens são colocados em cena e em seguida temos um plano que não havia sido estabelecido preteritamente. Isso implica e demonstra a facilidade de Glauber em contar estórias nunca antes contadas em um jeito próprio recheado de referências vanguardistas.

O duelo por fim tem seu clímax com Ogum encima de um cavalos carregando consigo uma lança (reminiscente do conto católico de São Jorge derrotando o dragão) e eventualmente lançando ela contra o Coronel da cidade e derrotando de vez o dragão da maldade. Aqui Glauber nos mostra sua versatilidade cinematográfica em subverter nossas expectativas enquanto audiência [continua]

14
Nov23

De Olho nos Ruralistas detalha em novo dossiê a face agrária de Arthur Lira e seu clã em Alagoas - III

Talis Andrade

 

Licitações beneficiam negócios rurais do clã Pereira. (Cartografia: Eduardo Carlini/De Olho nos Ruralistas)

 

CONFLITOS COM INDÍGENAS E CAMPONESES: O LADO OCULTO DOS CLÃS LIRA E PEREIRA. NA CODEVASF, PRIMO DE LIRA GARANTE PALANQUE CONTRA OS CALHEIROS

A relação entre Codevasf e Arthur Lira vem de antes da entrada do primo Joãozinho na estatal. A companhia foi o veículo para o “tratoraço”, o braço agrário do orçamento secreto, que distribuiu R$ 3 bilhões em equipamentos superfaturados para os aliados do governo Bolsonaro.

Entre os beneficiários estava o município de Junqueiro, onde o pai de Joãozinho, conhecido pelo apelido “Prefeitão”, comandou por quatro mandatos. Seu sucessor foi o próprio filho, Fernando Pereira (PP), hoje deputado estadual. Joãozinho entrou na Codevasf um mês após estourar o escândalo.

Arthur e Joãozinho Pereira comemoram a entrega de tratores do orçamento secreto ao lado de Fernando Collor. (Foto: Facebook/Joãozinho Pereira)

 

Com a eleição de Lula, em 2022, Lira traçou uma nova estratégia para manter o fluxo de emendas parlamentares para sua base eleitoral. Enquanto os tratores e obras da Codevasf continuavam sendo entregues por Joãozinho, o presidente da Câmara fortaleceu as ações junto ao Consórcio Intermunicipal do Agreste Alagoano (Conagreste), comandado por dois aliados regionais — um deles, seu primo Teófilo Pereira.

“Todo o desenvolvimento foi feito na Câmara para que os consórcios recebam as emendas diretamente, sem passar mais pelos governos dos estados”, explicou o próprio Arthur Lira durante um evento de entrega de tratores e equipamentos agrícolas para prefeituras em 28 de junho, em Arapiraca (AL).

Por trás dos bois e tratores está a disputa política pelo controle de Alagoas, cujo governo está hoje em mãos do grupo político do senador Renan Calheiros (MDB), principal rival de Lira no estado.

Em 2022, o Conagreste criou um serviço consorciado de inspeção sanitária municipal (SIM) que prescinde da anuência da Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas (Adeal). A operação beneficia os próprios negócios da família: o matadouro municipal de Campo Alegre, onde o frigorífico Dom Grill abate seus bois, é um dos estabelecimentos fiscalizados pelo SIM Conagreste.

 

TRUCULENTO, PRIMO DE LIRA COMANDA O INCRA E PROJETA A PREFEITURA DE MARAGOGI

Wilson César de Lira Santos é filho de Eliete de Lira Santos, uma das irmãs mais próximas de Benedito de Lira. Foi do tio — e não de Arthur — a indicação para que ele chefiasse o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Alagoas. A esposa de César, Livia Costa Saleme, foi secretária parlamentar de Biu no Senado.

César Lira prestigia reeleição de Arthur na Câmara ao lado do primo Sérgio, prefeito de Maragogi. (Foto: Instagram/César Lira)

 

César Lira assumiu o órgão, em 2017, no governo Michel Temer. Seis anos depois, ele continua no cargo, mesmo enfrentando protestos de movimentos sociais e repetidas acusações de agressão.

De Olho nos Ruralistas ouviu diversos relatos de intimidação a camponeses protagonizados pelo primo de Arthur Lira. Inclusive com violência física. Em 10 de agosto de 2020, o camponês Gilvan Emidio da Silva, ex-presidente do Assentamento Prazeres, de Flexeiras (AL), participava de uma reunião, quando foi interrompido com empurrões e tapas por César Lira.

Enquanto se mantém no Incra, ele prepara terreno para disputar as eleições de 2024, substituindo outro primo. Em seu segundo mandato em Maragogi, Sérgio Lira (PP) tenta fazer de César seu sucessor na prefeitura de um dos principais destinos turísticos do litoral alagoano. O superintendente tem dado atenção especial ao município: em  sete anos, as ações do órgão cresceram 980% e mais de 500 títulos de terra foram distribuídos.

Ao mesmo tempo em que enfraquece os movimentos de luta pela terra, César reproduz outra prática comum da família: a entrega de serviços públicos em troca de apoio político.

 

ARTHUR LIRA APOSTA NO FILHO CAÇULA PARA CONTINUAÇÃO DA DINASTIA

Dentro da lógica coronelista, Arthur Lira prepara os filhos para a pecuária e a política, assim como fez seu pai. Arthurzinho, o mais velho, passa boa parte de seu tempo em Brasília, onde negocia verbas de publicidade através de sua agência, a Omnia360º.

Frigorífico Dom Grill promove leilões e vaquejadas dos clãs Lira e Pereira. (Foto: Divulgação/Dom Grill)

 

O caçula Álvaro, ou Alvinho, aparece quase sempre no pódio dos torneios realizados no Parque Arthur Filho. Apaixonado por cavalos e, como o pai, puxador de vaquejadas, ele acompanha de perto os negócios da família, dividindo o tempo entre as visitas ao pai e o dia a dia nas fazendas em Alagoas. Os dois jovens são fruto do relacionamento de Lira com Julyenne Lins e romperam relações com a mãe.

É em Alvinho que Arthur deposita as esperanças de perpetuar o clã político. Prestes a completar a maioridade, ele deve debutar na política ainda em 2024: ele quer disputar uma vaga de vereador em Maceió.

Para seguir os passos do pai, Alvinho conta com o apoio incondicional do clã Pereira. Nas redes sociais, ele exibe sua habilidade em cima do cavalo, durante provas de vaquejada disputadas no Parque Evânio Higino, em Campo Alegre. Ao fundo, em destaque, um balão exibe a logo do frigorífico Dom Grill — aquele dos contratos com prefeituras.

Seja dentro ou fora da vaquejada, a família Pereira patrocina Arthur Lira.

Dossiê revela a dimensão do império agropecuário dos clãs Lira e Pereira.

 

| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

| Luís Indriunas é roteirista e editor-assistente do observatório. |

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): dossiê revela faceta agrária de Arthur Lira e sua família em Alagoas.

LEIA MAIS:
Presidente da Câmara estende seus braços agrários no Executivo, em Alagoas
A cana, o boi e as comunicações comandam a política em Alagoas
Usineiros e seus defensores dão as cartas na política alagoana

14
Nov23

De Olho nos Ruralistas detalha em novo dossiê a face agrária de Arthur Lira e seu clã em Alagoas

Talis Andrade
 

 

Donos de 20 mil hectares, ao lado dos Lira, os Pereira criam gado em terra indígena e vendem carne para prefeituras controladas pela família; relatório “Arthur, o Fazendeiro” revela violências, despejos e uso político sistemático da máquina pública

12
Jul23

Arthur Lira ameaça jornalista de morte

Talis Andrade

 

Por Victor Félix

Portal dos Jornalistas

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O presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL) entrou com uma ação na 24ª Vara Cível de Brasília contra o ICL Notícias para remover do ar reportagens, entrevistas e comentários produzidos pelo veículo que criticam a atuação do deputado.

O processo destaca um programa veiculado em 6 de junho, que abordou o suposto recebimento de R$ 106.000 em propina por meio de um assessor, denúncias de envolvimento de um auxiliar de Lira na aquisição superfaturada de kits de robótica para escolas de Alagoas e uma entrevista com sua ex-mulher, Jullyene Lira, que o acusa de vários crimes, incluindo violência e intimidação.

Na ação, Lira pede a retirada do ar de 43 vídeos do ICL Notícias, além de indenização de R$ 300 mil por danos morais. O mérito do processo ainda não foi julgado. A defesa do deputado diz que as informações veiculadas são inverídicas, desinformativas e que têm o objetivo de atingir a honra de Lira.

Para Eduardo Moreira, responsável pela Editora Conhecimento Liberta, empresa que produz o ICL Notícias, “não há dúvidas, trata-se de covarde e vergonhosa censura. É inaceitável o chefe de um dos três poderes de uma República dita democrática tentar calar um canal de informações via pressão política e jurídica”. Moreira também destacou que a maior parte das informações veiculadas são públicas, e que o ICL Notícias sempre ofereceu espaço para Lira se manifestar, mas o deputado recusou.

Seguidores do ICL Notícias estão promovendo um abaixo-assinado em defesa da liberdade de imprensa e em repúdio à ação de Lira. “Leia e Assine em defesa da liberdade de imprensa e contra as manobras de Arthur Lira para tentar calar o ICL!”, diz o manifesto, que no momento da publicação deste texto contava com mais de 53 mil assinaturas. A hashtag #TocomICL também viralizou nas redes sociais.

18
Jun23

Deputadocracia achaca governo para saquear a República

Talis Andrade
 
 
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Quem decretou a morte do presidencialismo de coalizão foi o deputadocrata Arthur Lira/PP, o chefe da Deputadocracia

 

por Jeferson Miola

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O presidencialismo de coalizão, conceito criado por Sérgio Abranches no final dos anos 1980, já pode ser considerado como “um rio que passou em nossas vidas”, como diz a canção do Paulinho da Viola.

Aquele sistema, por mais questionável que fosse do ponto de vista ético, moral e republicano, pelo menos tinha como premissas a lealdade e a reciprocidade políticas. Tinha, também, uma lógica racional e, por isso, certa previsibilidade.

No presidencialismo de coalizão, o/a presidente eleito/a entregava ministérios a políticos aderentes e, em troca, partidos adversários, ou até mesmo antagônicos, retribuíam com votos para aprovar no Congresso o programa eleito e os projetos de interesse do governo.

Mesmo com sua corrupção intrínseca, o “negócio” tinha funcionalidade e fluía razoavelmente. Isso, no entanto, morreu; não existe mais.

No lugar do finado presidencialismo de coalizão, porém, não voltou a vigorar o sistema presidencialista “original” previsto na Constituição. Tampouco foi adotado o semipresidencialismo. E, menos ainda, o parlamentarismo.

Hoje, o sistema de fato vigente no Brasil é o sistema deputadocrático baseado na extorsão, na chantagem e no achaque.

Esse sistema viola a Constituição, pois usurpa poderes, competências e prerrogativas privativas do Poder Executivo, e sabota a soberania popular, pois impede o governo legitimamente eleito de governar com o programa escolhido nas urnas.

No sistema deputadocrático os deputadocratas sequestram o orçamento da União, os fundos públicos, a administração dos negócios de Estado e as políticas públicas.

Quem decretou a morte do presidencialismo de coalizão foi o deputadocrata Arthur Lira/PP, o chefe da Deputadocracia.

Em março passado, Lira sentenciou que “um governo de coalizão [o presidencialismo de coalizão], com troca de ministérios por apoios, está comprovado que não vai dar certo”.

Na visão dele, “as emendas resolvem isto sem ser necessário um ministério”. A “isto”, Lira está se referindo à estabilidade política, à governabilidade tutelada e, óbvio, à própria sobrevivência do governo Lula – seja da ameaça de morte por impeachment ou por asfixia.

Os deputadocratas são totalmente viciados no orçamento secreto. Eles não conseguem viver sem as emendas parlamentares que manuseiam sem controle público e nenhuma transparência.

Quanto mais consomem verbas públicas de modo corrupto através de emendas parlamentares nas paróquias eleitorais, mais precisam da droga viciante.

No sistema deputadocrático, não importa quem é eleito para a presidência da República e qual programa foi escolhido nas urnas, porque os deputadocratas entendem que são eles, e não o presidente eleito, que devem conduzir o país – sempre, claro, na direção do atraso, do conservadorismo, da preservação das desigualdades, das injustiças sociais e do roubo continuado da riqueza e da renda nacional.

Na votação da Medida Provisória de organização dos ministérios [MP 1154], Lira chantageou derrotar o governo caso o presidente Lula não entrasse de cabeça na articulação política.

O líder chantagista da Deputadocracia disse que “hoje o governo tem contado com a boa vontade [sic] desses partidos que estão votando republicanamente” [sic] para aprovar a MP, mas ameaçou que “esse combustível está acabando”.

Depois, porém, que Lula passou a se envolver diretamente na articulação com as bancadas e partidos, Lira fez o governo saber, por meio de Elmar Nascimento/União Brasil, um dos seus deputadocratas favoritos, que “não há hipótese de apoiarmos formalmente o governo se o presidente Arthur Lira estiver fora da base governista”.

Elmar Nascimento explicou que para o extorsionário Lira aderir à base do governo, seria necessário “um convite formal do presidente Lula”. E complementou: “A partir desse convite, Lula e Lira negociariam os termos do acordo”! Sublinhe-se “os termos do acordo”.

Ou seja, agora Lira exige nada menos que ser sócio forçado do governo “inimigo”, aquele contra o qual ele participou ativa e militantemente da guerra fascista-militar para derrotar na eleição. E a ambição do novo sócio não é trivial: ele quer nada menos que o Ministério da Saúde, com seu orçamento de R$ 180 bilhões capilarizados nos 5.568 municípios brasileiros.

Do mesmo modo que faz o sabotador bolsonarista Roberto Campos Neto no Banco Central, Lira não tira a faca do pescoço do governo Lula. Ele e sua matilha não cessam a guerra contra o resultado da eleição porque querem manter o controle que conquistaram durante o governo fascista-militar sobre o orçamento e os fundos públicos; querem liberdade total para continuar saqueando cada vez mais o país.

Sem correlação de forças no Congresso para se contrapor à Deputadocracia que achaca o governo para saquear a República, Lula está desafiado a construir uma governabilidade popular, ancorada em formas de democracia direta e plebiscitária, para garantir sua sustentação e poder materializar o programa de governo eleito em 30 de outubro.

31
Ago22

Eunício Oliveira denuncia mala de dinheiro para Ciro e anuncia ação de despejo contra presidenciável

Talis Andrade

Ciro é condenado por chamar Eunício de "cachorro mentiroso" e  "picareta-mor" | Carlos Mazza | OPOVO+

 

Ciro não entregou as obras da Transnordestina (R$ 11,2 bilhões) e depois foi trabalhar para o empresário que deveria construir a ferrovia

 

O ex-senador Eunício Oliveira, do MDB do Ceará, fez duras acusações contra o presidenciável Ciro Gomes, "coronelzinho político decadente de meia pataca, mentiroso e dissimulado".

Segundo Eunício Oliveira, Ciro foi demitido por incompetência, por não entregar as obras da Transnordestina. Depois disso, ele foi trabalhar para o bilionário Benjamin Steinbruch, que deveria construí-la. Eunício também falou sobre uma mala de dinheiro que o presidenciável teria recebido e anunciou uma ação de despejo de apartamento de luxo contra o pedetista.

Eunício Oliveira
Ciro Gomes, vocês licitaram a Transnordestina. Vc pediu demissão para presidir a empresa que ganhou, obra de R$ 11,2 bi, vc prometeu 1.753 km e entregou 81. Vc foi demitido por incompetência. Ciro, nos governos Dilma e Lula, que tanto critica, vcs indicaram 6 diversos ministros.
 
E a licitação da Ponte Estaiada, que o MP do CE pediu a anulação por prejuízos ao Erário. Tem gente séria no Ceará que garante que isso rendeu uma boa mala de dinheiro entregue em mãos, dentro de uma Topic.
 
Tem ainda o depoimento do Joesley Batista de que o Governo de vocês no Ceará só liberava o Fundo de Desenvolvimento Industrial mediante pagamento de propina? A PF, que eu respeito, chama isso de extorsão.
 

Ciro Gomes, eu não devo nada à Justiça. Quem foi que a PF acordou de madrugada para fazer busca e apreensão sobre pagamentos de R$ 11 mi em propinas durante as obras de reforma da Arena Castelão disfarçados de doações eleitorais?

Ciro, vc vendeu seu apt para pagar dívidas com a Justiça e eu comprei. Vc mora lá e tem vida nababesca, com dinheiro do Fdo Partidário, mas não paga aluguel, entrarei com uma ordem de despejo. Ciro, vc é um Ciro, vc vendeu seu apt para pagar dívidas com a Justiça e eu comprei. Vc mora lá e tem vida nababesca, com dinheiro do Fdo Partidário, mas não paga aluguel, entrarei com uma ordem de despejo. Ciro, vc é um coronelzinho político decadente de meia pataca, mentiroso e dissimulado.

29
Ago22

Marcia Tiburi: Lula foi uma apoteose no Jornal Nacional

Talis Andrade

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"Lula voltará a dar dignidade ao cargo. Bolsonaro não ama o povo, não ama ninguém. Lula ama o povo"

 

 

247 – A professora e filósofa Marcia Tiburi avaliou, em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, a performance dos candidatos à presidência da República. "Entrevistas são performances dos candidatos no teatro da política", disse ela. "No caso de Jair Bolsonaro, William Bonner mudou de tom como se falasse com uma pessoa infantil. Eles foram muito amenos com Bolsonaro, cujo objetivo maior é mais não ser preso do que se manter no poder. Por isso, a Globo foi tchutchuca com Bolsonaro", afirmou.

Marcia também afirmou que Lula acertou ao chamar Bolsonaro de bobo da corte. "É um espantalho, que está ali para provocar medo e desviar a atenção. E ele faz um trabalho fenomenal nesse sentido. Isso faz parte da estratégia neoliberal", afirmou. Sobre Ciro Gomes, ela afirmou que o candidato também tem a síndrome de Peter Pan, com alto índice de narcisismo. "Ele tenta criar a mistificação do mais preparado, mas é um coronel", destacou. "Ciro pode se reconciliar com o Brasil, se deixar sua candidatura, votar no Lula e quem sabe entrar no PT. Pode até vir a ser presidente", acrescentou. Em relação à candidata dos bilionários, ela afirmou que Simone Tebet não deve crescer e que a direita não é território para mulheres. "A direita gosta mais de criaturas fascistas", afirmou.

 

O desempenho de Lula

 

Sobre o ex-presidente Lula, ela fez grandes elogios. "Lula é verdadeiro, Ciro tenta imitá-lo. Lula consegue falar com cada um e com todo mundo ao mesmo tempo", disse ela. "Lula foi uma apoteose no Jornal Nacional e voltará a dar dignidade ao cargo. Bolsonaro não ama o povo, não ama ninguém. Lula ama o povo. O mundo vai ficar feliz com a vitória de Lula", finalizou.

 
07
Mar21

O Paraguai é o Brasil amanhã?

Talis Andrade

Protestos no ParaguaiProtestos em Assunção contra o Governo de Mario Abdo Benítez.Manifestantes, en las inmediaciones de Mburuvicha Róga.Lamentablemente, uno de los manifestantes terminó muerto, aunque en circunstancias ya ajenas a la gran movilización ciudadana.Manifestações no Paraguai (06 março 2021)La ciudadanía autoconvocada persiste en su pedido de renuncia del presidente Abdo. Los ciudadanos se volvieron a movilizar este domingo para manifestarse contra el Gobierno de Mario Abdo Benítez.

por Moisés Mendes

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O presidente paraguaio, que pode cair a qualquer momento, é cria da velha direita latino-americana, mas não é o Bolsonaro deles. Não há ninguém com o mesmo padrão de crueldade, idiotia e chinelagem de um Bolsonaro na América Latina.

Não há mais ninguém com conexões tão profundas e comprometedoras com a militarização de um governo quanto Bolsonaro. Não há outro presidente com três filhos políticos com vínculos com milicianos.

Bolsonaro afundou o Brasil no lixão do que existe de pior na direita e na extrema direita mundiais.

Mario Abdo Benítez (foto) é de família com vínculos com o fascismo, mas evita apresentar-se como um extremista e tenta se desgrudar do passado comprometedor. Perto de Bolsonaro, seria quase um liberal.

O pai de Marito, como é chamado, foi um dos homens mais próximos do ditador Alfredo Stroessner, como seu secretário particular. Deixou para o filho o nome, uma fortuna em fazendas e a herança política.

Marito também passou pelo Exército e vende a imagem de homem apegado à Bíblia e à família. É a nova cara do caudilhismo do partido Colorado, que manda no Paraguai há seis décadas, com apenas uma interrupção no poder.

Presidiu o Senado e conquistou lugar na elite política. Foi figura importante no Congresso. Estudou marketing nos Estados Unidos. Mas não elogia militares e torturadores. É um reacionário cauteloso.

Bolsonaro é o que sabemos que é. Se derrubarem Marito, os paraguaios que o elegeram estarão mandando um recado ao Brasil.

É possível romper com uma decisão que eles mesmos tomaram ao eleger Marito em 2018 para um mandato de cinco anos.

Se mandarem para casa o caudilho chique, os paraguaios terão cometido uma façanha: abreviar o mandato de um líder do mais poderoso partido do país e filho de um cúmplice da ditatura que nunca foi julgado.

Bolsonaro não tem histórico de família a que possa se agarrar. Não tem nem partido. Tenta se proteger em grileiros, mas não tem ligação com latifundiários tradicionais com os quais possa se identificar.

Bolsonaro tem as milícias, os jagunços da Amazônia, tem os militares e tem o centrão, que alugou por um preço que talvez não consiga pagar.

Marito e Bolsonaro são filhos das ditaduras, um com grife, um homem fino e rico, e o outro um ogro de origem modesta, mas que age como se fosse rico e com uma família que deseja ficar rica a qualquer custo.

Marito tem 49 anos e conviveu, da infância ao início da juventude, com o poder mantido à força pelos militares. Bolsonaro tem 65 anos e nunca esteve próximo de poder algum.

Foi apenas um aspirante a oficial que ganharia fama como militar, por ter passado por quartéis como um rebelado (processado pela tentativa de atos terroristas), com um arremedo de carreira medíocre no Exército.

O partido de Marito organizou o golpe que levou ao impeachment de Fernando Lugo, o único presidente progressista do Paraguai, em 2012.

Ele e Bolsonaro ainda têm em comum o fato de que apoiaram a tentativa de golpe contra Maduro na Venezuela. E os dois foram paraquedistas do Exército.

Marito pode estar se preparando para um salto que talvez Bolsonaro não seja obrigado a dar no curto prazo. Porque o Paraguai tem milhares de jovens em manifestações nas ruas, e o Brasil tem amontoados de jovens em aglomerações em bares, praias e baladas.

Os militares podem segurar Marito lá e Bolsonaro aqui? Se cair, o paraguaio estará derrubando junto mais de meio século de coronelismo, militarismo, corrupção e banditismo dos herdeiros de Stroessner. E nós? Por enquanto, é certo que vamos ficar apenas olhando.

24
Dez20

A lei do “é, se eu quiser que seja”

Talis Andrade

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por Fernando Brito

- - -

Eu ia escrever que é inacreditável a recusa do desembargador Joaquim Domingos de Almeida Neto, plantonista do Tribunal de Justiça do Rio, em cumprir a ordem dada em habeas corpus, pelo presidente do Tribunal Superior de Justiça Humberto Martins, mandando converter em domiciliar a prisão preventiva de Marcello Crivella.

Sinceramente, vi que, a esta altura, nada mais é inacreditável na “casa de Noca” que se tornou o Judiciário.

Quem aí não lembra do “ordem judicial não se discute, cumpre-se”?

Já era.

O doutorzinho daqui dá um “peitaço” e diz: ele que espere preso, porque vou mandar os autos para a “cultissima desembargadora”, para ver se ela quer cumprir a decisão do STJ.

É o Crivella e podia ser o José Manoel e eu posso desgostar de ambos: há uma ordem legal de soltura, tem-se de soltar.

Mas todos passaram a mão na cabeça de Moro quando este, por telefone, “revogou” a ordem de soltura dada por um desembargador do TRF-4.

Ali foi-se a hierarquia do ordenamento jurídico.

E a mídia criou a “jurisprudência” de que, quando o preso for desafeto da Globo, deixa-se de cumprir.

Os juízes deste país viraram coronéis da roça do século retrasado. Ao “teje preso” soma-se o “deixa ele mofando aí“.

Que vergonha!

- - -

Nota deste correspondente: O coronelismo no judiciário corre solto. Existe o lance Sergio Moro versus Rogério Favreto citado por Fernando Brito. Os casos Gilmar versus Bretas. & outros de desmoralização do judiciário marcado pelo corporativismo, salários acima do teto, abusos de autoridade, venda de sentenças, auxílios mil & variados balcões de negócios.

E com Bolsonaro, apareceram os promotores e procuradores, "terrivelmente evangélicos", que realizam campanhas e baixam receituários de cloroquina, ficando a dúvida se a pandemia de coronavírus mata mais que o remédio para malária. 

08
Dez20

Assassinato de Marielle Franco completa 1.000 dias sem solução enquanto suas herdeiras políticas entram na mira

Talis Andrade

marielle- mil dias .jpg

 

Mulheres que assumiram a luta da vereadora negra e ativista assassinada no Rio sofrem graves ameaças. “Tenho que ser escoltada até a padaria”, diz a deputada federal Talíria Petrone, que teve de deixar o Estado

por Naiara Galarraga Gortázar /El País/Combate Racismo Ambiental

Quando Marielle Franco foi assassinada, há mil dias nesta terça-feira, poucos brasileiros fora do Rio de Janeiro conheciam essa vereadora negra, forjada no ativismo social, de favela, bissexual e mãe. O crime fez dela um símbolo da esquerda brasileira e uma inspiração para outras mulheres de origem semelhante que entraram na política. Seu desembarque no Congresso, Assembleias e Câmaras Municipais rompeu tabus e revirou águas enlameadas. Muitas delas são sistematicamente ameaçadas nas redes, mas alguns casos são mais graves, como o da deputada federal Talíria Petrone, de 35 anos. “Tenho que ser escoltada até a padaria”, disse ela nesta segunda-feira ao telefone de seu refúgio secreto.

Esta política e amiga de Marielle teve que deixar seu Estado, o Rio de Janeiro, e vive protegida pela polícia da Câmara dos Deputados. “Desde que comecei minha vida parlamentar convivo com ameaças.” Uma denúncia de que havia um plano para executá-la a forçou a fazer sua segunda mudança, por segurança. Dessa vez, teve que se mudar para outro Estado. “É um grave ataque à democracia”, enfatiza a deputada. Petrone, que se tornou mãe há seis meses, teve que pedir proteção ao Congresso porque no Rio só lhe ofereciam escolta em eventos oficiais. Dos Estados Unidos, 22 congressistas do Partido Democrata criticaram em uma carta o Governo Bolsonaro “por sua incapacidade ou pouca disposição de garantir a segurança dos legisladores eleitos”.

Embora dois ex-policiais militares suspeitos de perpetrar o assassinato de Marielle estejam na prisão, eles ainda não foram julgados e o caso continua rodeado de incógnitas. A violência política é comum no Brasil. Linchamentos misóginos em rede são abundantes, mas também há assassinatos, com frequência longe das capitais, com pouca repercussão na mídia. Só até agora neste ano 90 políticos foram mortos violentamente, segundo a contagem do professor Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), do Rio. As causas são diversas.

Na Amazônia costuma ser por conflitos de terras ou relacionados à exploração ilegal de recursos. No Rio é frequentemente obra de grupos paramilitares, de gangues de policiais que passaram para o lado do crime organizado. São as milícias, que nasceram para oferecer segurança contra os traficantes de drogas e conquistaram território velozmente. No Rio, dominam mais território do que o narcotráfico assentado nas favelas.

O diretor da Open Society para a América Latina, Pedro Abramovay, destaca em uma videoconferência as ligações desses grupos paramilitares suspeitos de matar Marielle e de ameaçar agora Petrone com o presidente Jair Bolsonaro e sua família. “O Palácio do Planalto está ocupado por pessoas com vínculos estreitos com grupos paramilitares. Há uma visão quase positiva desses grupos. Como se aquela violência fosse natural, reflexo de uma sociedade violenta, ignorando que os assassinatos políticos são mais graves para a democracia.” O homem acusado de puxar o gatilho morava no mesmo condomínio do presidente Bolsonaro. E seu filho Flávio Bolsonaro, senador, empregou duas parentes de um obscuro ex-policial que foi interrogado pelo crime contra Marielle e levou seus segredos para a sepultura.

Abramovay acrescenta que essas gangues paramilitares perseguiam um segundo objetivo ao matar Marielle. Enviaram uma mensagem a qualquer pessoa que se sentisse tentada a seguir seus passos. A hostilidade, que surge de diversas frentes, se multiplicou à medida que mulheres negras ou de minorias, como as trans, ganharam eleições e visibilidade em muitos cantos do país. São aumentos tímidos porque as vereadoras detêm apenas 16% das cadeiras municipais.

Abramovay enquadra as ameaças às mulheres na discriminação racial profundamente arraigada, mais do que na polarização atual. “É o racismo estrutural que existe na política brasileira, que não aceita que essas mulheres possam estar em posições de poder. Não importa se entram pela esquerda ou pela direita.” Várias vereadoras recém-eleitas em novembro denunciaram ameaças racistas, incluindo duas estreantes de esquerda em duas das cidades mais brancas do Brasil, Curitiba e Joinville, e uma direitista em Bauru.

Petrone lembra que a violência política acompanha o Brasil desde a sua fundação, “desde o genocídio dos povos indígenas, à escravidão, ao coronelismo, à ditadura …”. Para a deputada do PSOL, “o bolsonarismo e o Governo Bolsonaro são a expressão da velha elite raivosa, temerosa do avanço do povo” em direção ao poder. Esse fenômeno é personificado, entre outros, pelas herdeiras de Marielle Franco, essas políticas que se parecem muito mais com o Brasil real do que com os órgãos de representação da soberania popular. Uma das novas vereadoras é a viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benicio. Ambas cresceram na Maré, uma favela carioca.

Abramovay explica que a Open Fundation se aliou às fundações Ford, Kellogg e ao instituto brasileiro Ibirapitanga para investir dez milhões de dólares (51 milhões de reais) nos próximos cinco anos na formação de mulheres negras em organizações de ativismo social.

Quem mandou matar Marielle, e por quê? É a pergunta que reverbera no Brasil desde que dois ex-policiais foram presos por matar a vereadora. Seu assassinato, em 14 de março de 2018, tinha a assinatura de profissionais. O atirador disparou de um carro em movimento contra o automóvel de Marielle quando este fazia uma curva no centro do Rio. O motorista, Anderson Gomes, morreu com ela, sua assessora de imprensa sobreviveu.

Pouca coisa relevante emergiu oficialmente das investigações desde o golpe de efeito de anunciar a prisão dos dois suspeitos no primeiro aniversário. Anielle Franco, irmã da vítima, explica por telefone que “a investigação continua. Estamos indo para o terceiro investigador-chefe. Mas, por ora, sem resultados nem novidade. Ainda tramita em segredo de Justiça, por isso, o que sabemos é o que vemos na imprensa”, acrescenta a também presidenta do Instituto Marielle Franco, criado para perpetuar o seu legado político.

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