Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Out21

“Uma cegueira assassina”, diz jornal francês sobre postura de Jair Bolsonaro diante da pandemia

Talis Andrade

Capa do jornal La Croix desta segunda-feira (18), mostrando que a CPI traz à tona, em primeiro lugar, a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro. “Uma cegueira assassina”, diz a manchete do diário.Capa do jornal La Croix desta segunda-feira (18), mostrando que a CPI traz à tona, em primeiro lugar, a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro. “Uma cegueira assassina”, diz a manchete do diário. © Fotomontagem Adriana de Freitas

O jornal La Croix desta segunda-feira (18) destaca na capa, acompanhada de uma foto de dois coveiros trabalhando em um cemitério do subúrbio carioca, as conclusões da CPI sobre a administração da pandemia no Brasil, que seriam divulgadas amanhã, após quatro meses de inquérito. A reportagem foi publicada antes do anúncio do adiamento da leitura dos resultados.

“Covid, os erros criminosos das autoridades brasileiras” é o título da reportagem. “A responsabilidade do presidente brasileiro é central na catástrofe sanitária provocada pela pandemia, com o segundo maior número de óbitos do mundo, após os Estados Unidos", reitera.

La Croix levanta algumas das questões às quais a CPI da pandemiavai tentar responder: a ausência de lockdown em grande escala, a responsabilidade pelo colapso do sistema de saúde e a suposta corrução na compra de vacinas superfaturadas. 

O jornal francês explica que a CPI traz à tona, em primeiro lugar, a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro. “Uma cegueira assassina”, diz La Croix. O senador Randolfe Rodrigues, vice-presidente da comissão, já anunciou que o ex-capitão enfrenta 11 acusações, entre elas, crime contra a saúde pública, charlatanismo e crime contra a humanidade. 

La Croix também cita outra acusação contra Bolsonaro, a de “prevaricação no escândalo Covaxin”, em que o governo propôs pagar US$ 15 cada dose, contra o preço inicial fixado pelo fabricante indiano Bharat Biotech de US$ 1,34.

 

Disparidade regional

Em meados de outubro, menos da metade da população brasileira (47%) está totalmente vacinada. O diário católico aponta as grandes disparidades entre os Estados: apenas 25% dos habitantes de Roraima ou da Amazônia receberam duas doses, contra 61% no Estado mais rico, São Paulo.

Apesar de a campanha ter se acelerado no verão, a CPI lembra que o presidente recusou a compra de vacina da Pfizer em 2020.

La Croix cita ainda os acordos políticos de Bolsonaro com o “centrão” e o trágico escândalo das cobaias humanas pelo grupo Prevent Senior. 

O Tribunal Penal Internacional (TPI), na Haia, vai examinar o relatório final da CPI e poderá, a princípio, julgar o presidente brasileiro por crimes contra a humanidade, acrescenta o jornal francês. 

 
18
Out21

A CPI vai amarelar diante de Braga Netto?

Talis Andrade

braga.jpeg

 

 

por Moisés Mendes
 
Uma figura da República, recolhida à discrição desde o 7 de setembro, pode reaparecer nos próximos dias. Mas só se estiver na lista da CPI do Genocídio, entre os acusados de envolvimento nos crimes da pandemia.

É o general Braga Netto, ministro da Defesa, considerado o mais poderoso e fiel militar ao lado de Bolsonaro. Braga Netto aparece e desaparece nas listas especulativas entre os nomes que a CPI entende que devam ser indiciados.

O nome do general é dado mais como incerto do que certo, porque integrantes da CPI teriam dúvidas sobre as motivações para o pedido de indiciamento.

Devem ter dúvidas e devem ter medos, sentimentos que o senador Alessandro Vieira, do Cidadania de Sergipe, parece não ter.

Em relatório paralelo, que poderá ter apenas valor político, Vieira vai apontar Braga Netto como incurso em crimes de responsabilidade, de epidemia e contra a humanidade.

Muitos querem esquecer que Braga Netto foi, no começo da pandemia, o poderoso chefe do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19.

Sentava-se ao lado do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, nas entrevistas coletivas, e não dizia coisa com coisa. Mandetta usava o colete do SUS, e o general aparecia de terno e gravata.

Ninguém sabia ao certo o que ele fazia e do que entendia. Mais tarde, o próprio Mandetta deu informações decisivas para a compreensão da tarefa do general.

Braga Netto, pelos relatos de Mandetta, pode ter sido o primeiro grande lobista da cloroquina no governo. Era a voz escalada por Bolsonaro para desencadear o milagre do tratamento precoce.

Foi ele quem chamou Mandetta para a famosa reunião de 6 de abril do ano passado, em que um grupo tentou empurrar a minuta de decreto do governo que mudaria a bula da cloroquina, para que o remédio fosse indicado para a Covid.

Braga Netto era o coordenador dessa reunião, quando começava a se formar o gabinete paralelo dentro do Ministério da Saúde. Estava lá a médica negacionista Nise Yamaguchi.

Em uma das primeiras entrevistas sobre esse encontro pró-cloroquina, ao site Poder 360, Mandetta disse:

“Não conhecia essa médica. Talvez se ela tivesse ido ao meu gabinete para se apresentar. Perguntei o nome dela e qual a formação. Tinha um outro médico do lado que eu nunca o vi antes e nem depois, esse aí nem guardei o nome […] E tinha mais pessoas lá [na reunião]… tinha o ministro Braga Netto, pessoas fardadas também”.

Tinha o ministro Braga Netto? Era mais do que isso. Braga Netto, como comandante do gabinete da pandemia, era o chefe da reunião. Naquele momento, não poderia ser subordinado a ninguém, nem a Mandetta.

A reunião era dele, de Braga Netto. O que Mandetta sugere é que Nise, alguns subalternos, inclusive fardados, e outros infiltrados foram usados como laranjas para empurrar o decreto, que o então ministro rejeitou.

Ficaram suspeitas, depois dessa reunião, de que Braga Netto seria pelo menos o inspirador do gabinete paralelo, para que Mandetta fosse esvaziado, como acabou acontecendo.

A ascensão de Eduardo Pazuello militariza a Saúde, com sua turma de coronéis, e abre a porta também para as facções negociantes de vacinas que não existiam. 

Em julho, Braga Netto foi protagonista de um embate com o senador Omar Aziz. Aziz disse, referindo-se aos intermediários de vacinas, que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”.

O general largou uma nota: “Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

E fez uma advertência: “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”.

As Forças Armadas teriam mesmo a prerrogativa de defender a democracia de pretensos ataques de senadores? Que poder seria esse das Forças Armadas?

Pois Braga Netto é de novo candidato a personagem da pandemia. Talvez seja citado na lista dos que devem ser indiciados. Talvez não. 

A CPI pode amarelar e tirar o nome do general que peitou Aziz e o Senado? Saberemos no dia 19, quando sairá o relatório de Renan Calheiros.

É possível que fique de fora do relatório o primeiro comandante da estrutura montada por Bolsonaro para escantear Mandetta e abrir caminho para o gabinete da cloroquina, do negacionismo e da sabotagem à vacinação?

É uma dúvida que pode ser resumida numa interrogação de meia linha: a CPI tem medo de Braga Netto?

Quem tem medo das Forças Armadas?

 
 

A extrema-direita e as redes sociais

 
 
16
Out21

Religiosos protestam: Bolsonaro em Aparecida foi profanação

Talis Andrade

bolsonaro nossa snhora.jpeg

bolsonaro-aparecida..jpg

 

 

 

“Profanação do Santuário de Aparecida“

 

por Marcelo Auler, em seu Blog 

“Jair Bolsonaro, que gosta tanto de ostentar seu segundo nome, não tem nada de católico, nem de cristão, nem sequer de humano. É um facínora!”

Documento assinado por mais de 400 padres e alguns bispos de diversas partes do país aponta como profanação ao Santuário de Nossa Senhora de Aparecida, em Aparecida (SP), o palco oferecido ao presidente Jair Messias Bolsonaro  no último dia 12, quando a igreja celebrou a Padroeira do Brasil.

 

São religiosos que participam dos grupos, formados através do Whatsapp, Padres da Caminhada e Padres Contra o Fascismo. Juntos eles têm 470 membros, mas como alguns estão em ambos, calcula-se que totalizem 417 adesões ao documento “Profanação do Santuário de Aparecida“.

Na realidade o documento divulgado reflete o pensamento de um grupo bem maior de religiosos. Muitos, porém, por motivos diversos, continuam silenciosos. Alguns simplesmente por falta de oportunidade para se posicionarem publicamente, pois souberam deste texto após ele circular nas redes sociais. Outros não se manifestam por receio.

Há um debate entre os coordenadores do documento se devem ou não abri-lo a novas adesões. Receiam, porém, que leigos engajados na militância dos movimentos da igreja católica incluam seus nomes. Algo que preferem evitar para caracterizar a manifestação como típica de religiosos. Como não foram colhidas assinaturas, mas adesões, os coordenadores do movimento preferem não dar divulgação dos nomes dos religiosos que aderiram ao manifesto: “não temos autorização deles”, explicaram.

“Jair Bolsonaro não é de Deus!”

Os religiosos que aderiram ao texto reconhecem e elogiam a homilia feita por dom Orlando Brandes na missa da manhã. Na missa da tarde, na presença do presidente, a homilia foi feita por um padre que até se referiu ao sermão matinal do bispo, Dom Brandes, no seu serão, de forma dura e direta alertou em um recado claro ao presidente que ainda não tinha chegado a Aparecida:

A Partir desta fala do arcebispo, os religiosos destacam no documento que começou a circular na quinta-feira (14/10):

“Sua reflexão enche de esperança quem a ouve, sobretudo em um Brasil que ainda chora a morte de mais de seiscentos mil filhas e filhos por causa da má gestão de uma cruel pandemia; em um Brasil que sente a dor da fome, sobretudo das crianças cujo dia deveríamos estar comemorando; em um Brasil que sofre por ver milhões de famílias novamente empurradas para abaixo da linha da pobreza e obrigadas a sobreviver com uma sopa rala de ossos ou de carcaça de peixe; em um Brasil que vê suas matas arderem e seus povos originários serem encurralados em pequenos espaços de terra”.

Os religiosos, porém, não poupam críticas à abertura de espaço a Bolsonaro para participar da celebração religiosa no altar-mor da Basílica de Aparecida. Segundo eles, o presidente “usa e abusa da fé como palanque político; tenta reverter suas seguidas derrotas políticas apelando à religião”. Eles afirmam:

Não, Jair Bolsonaro não é religioso. Ele perverte o ensinamento evangélico porque quer dar a Deus o que é do perverso César (Mt 22,21). Jair Bolsonaro não é de Deus!”

O documento coloca em dúvida o próprio catolicismo do presidente. Os religiosos lembram, por exemplo, que mesmo se dizendo católico, Bolsonaro aceitou ser batizado “nas águas do Rio Jordão por um pastor evangélico – líder de um partido político e que foi preso em uma operação anticorrupção”.

“Sua reflexão enche de esperança quem a ouve, sobretudo em um Brasil que ainda chora a morte de mais de seiscentos mil filhas e filhos por causa da má gestão de uma cruel pandemia; em um Brasil que sente a dor da fome, sobretudo das crianças cujo dia deveríamos estar comemorando; em um Brasil que sofre por ver milhões de famílias novamente empurradas para abaixo da linha da pobreza e obrigadas a sobreviver com uma sopa rala de ossos ou de carcaça de peixe; em um Brasil que vê suas matas arderem e seus povos originários serem encurralados em pequenos espaços de terra”.

Os religiosos, porém, não poupam críticas à abertura de espaço a Bolsonaro para participar da celebração religiosa no altar-mor da Basílica de Aparecida. Segundo eles, o presidente “usa e abusa da fé como palanque político; tenta reverter suas seguidas derrotas políticas apelando à religião”. Eles afirmam:

Não, Jair Bolsonaro não é religioso. Ele perverte o ensinamento evangélico porque quer dar a Deus o que é do perverso César (Mt 22,21). Jair Bolsonaro não é de Deus!”

O documento coloca em dúvida o próprio catolicismo do presidente. Os religiosos lembram, por exemplo, que mesmo se dizendo católico, Bolsonaro aceitou ser batizado “nas águas do Rio Jordão por um pastor evangélico – líder de um partido político e que foi preso em uma operação anticorrupção”.

“Jair Bolsonaro profana a fé e vilipendia o Evangelho”

Trata-se de uma referência ao batismo que o então deputado federal se submeteu, em 2016, no Rio Jordão. Cerimônia realizada pelo pastor Everaldo Dias, da Assembléia de Deus, então presidente do PSC, na época mesmo partido de Bolsonaro, que hoje não está filiado a nenhuma legenda.Preso pela PF, Pastor Everaldo batizou Bolsonaro no Rio Jordão

Quatro anos depois, em agosto de 2020, o pastor foi preso pela Polícia Federal acusado de envolvimento no escândalo do desvio de verbas da saúde ocorrido no governo fluminense do então governador, o ex-juiz Wilson Witzel, que chegou ao poder com o apoio do mesmo partido.

O documento assinado pelos religiosos lembra ainda que o discurso do atual presidente choca-se com o que prega o Evangelho:

Jair Bolsonaro profana a fé no Deus da vida fazendo uso dela para meros fins politiqueiros e vilipendia o Evangelho de Jesus de Nazaré que veio para que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Concluindo, o texto diz: “Indignamo-nos com o apoio que autoridades eclesiásticas católicas ainda expressam a esse homem maldoso que não possui o menor respeito pela fé e por aquelas e aqueles que a professam.”

Em  Aparecida foi recebido com vaia de um grupo e aplausos de outro. Em entrevista à TV Aparecida, ele se disse católico e a mulher evangélica. Falou ainda que rezou para que o socialismo e o comunismo não cheguem no Brasil.As críticas dos religiosos ao espaço dado a Bolsonaro encontra eco também em parte da população que vaiou e se manifestou contrária ao presidente em Aparecida (Foto: redes sociais)

 

Abaixo a íntegra do texto divulgado dia 14 pelos Padres da Caminhada e Padres Contra o Fascismo

“Profanação do Santuário de Aparecida”

“O que é de César a César, e o que é de Deus a Deus” (Mt 22,21)

Somamos nossa indignação à de muitas e muitos que professam a fé católica. A causa dessa indignação é a leitura e a oração de consagração a Nossa Senhora Aparecida feitas pelo Sr. Jair Messias Bolsonaro, em uma missa vespertina no Santuário Nacional.

Horas antes ouvimos as palavras de Dom Orlando Brandes, Arcebispo Metropolitano de Aparecida: “Para ser pátria amada, não pode ser pátria armada (…). Para ser pátria amada, uma república sem mentira e sem fake news. Pátria amada sem corrupção e pátria amada com fraternidade.” Sua reflexão enche de esperança quem a ouve, sobretudo em um Brasil que ainda chora a morte de mais de seiscentos mil filhas e filhos por causa da má gestão de uma cruel pandemia; em um Brasil que sente a dor da fome, sobretudo das crianças cujo dia deveríamos estar comemorando; em um Brasil que sofre por ver milhões de famílias novamente empurradas para abaixo da linha da pobreza e obrigadas a sobreviver com uma sopa rala de ossos ou de carcaça de peixe; em um Brasil que vê suas matas arderem e seus povos originários serem encurralados em pequenos espaços de terra.

Sim, as palavras de Dom Orlando Brandes reacendem a esperança! Contudo, o que aconteceu no Santuário Nacional momentos depois acende a indignação!

O Sr. Jair Bolsonaro, ainda Presidente da República, fez uma visita ao Santuário Nacional, participou da missa, leu a leitura do livro de Ester – um escândalo, porque o que menos ele demonstra querer é o bem de seu povo (Est 7,3) – e rezou em nome desse povo a consagração a Nossa Senhora Aparecida. Dizíamos um escândalo, mas, por tudo o que aconteceu, é melhor usar a palavra “profanação”.

Sim, o Sr. Jair Bolsonaro profana a fé no Deus da vida fazendo uso dela para meros fins politiqueiros e vilipendia o Evangelho de Jesus de Nazaré que veio para que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E não pela primeira vez, basta relembrar sua ida a uma missa em Brasília durante a qual recebeu a Eucaristia.

Como alguém que se deixa batizar nas águas do Rio Jordão por um pastor evangélico – líder de um partido político e que foi preso em uma operação anticorrupção – ainda se diz “católico”? Ou bem assume um credo ou outro e não fique usando-os para seus mesquinhos fins. Como alguém pode bradar pelos princípios cristãos da “família tradicional”, uma vez que em sua vida pessoal não dá provas de que acredita verdadeiramente neles, como quando ainda era parlamentar e mantinha uma residência oficial na capital federal “para comer gente”? Como alguém consagra o povo brasileiro à Mãe Aparecida tendo manifestado inúmeras vezes descaso por esse mesmo povo, especialmente pelos povos originários, pelos afrodescendentes, pelas mulheres, pelas e pelos LGBTQIA+? Como alguém reza a consagração a Nossa Senhora Aparecida dizendo que poucos morreram durante a ditadura militar, elogiando o torturador Coronel Brilhante Ustra e pregando o uso de armas pela população? Como alguém recorre à proteção da Padroeira do Brasil quando desprotegeu a população toda negando a gravidade da violenta pandemia?

Jair Bolsonaro, que gosta tanto de ostentar seu segundo nome, não tem nada de católico, nem de cristão, nem sequer de humano. É um facínora! Ele usa e abusa da fé como palanque político; tenta reverter suas seguidas derrotas políticas apelando à religião. Não, Jair Bolsonaro não é religioso. Ele perverte o ensinamento evangélico porque quer dar a Deus o que é do perverso César (Mt 22,21). Jair Bolsonaro não é de Deus!

Indignamo-nos com sua participação na missa em Aparecida, com sua profanação do sagrado no templo e fora dele, porque quem despreza a vida profana o sagrado. Indignamo-nos com o apoio que autoridades eclesiásticas católicas ainda expressam a esse homem maldoso que não possui o menor respeito pela fé e por aquelas e aqueles que a professam. Indignamo-nos com seu profano gesto de dar a César o que é de Deus.

Padres da Caminhada & Padres Contra o Fascismo. (grifo do original)

 

 

 

 

16
Out21

O paraíso fiscal e o inferno real de Paulo Guedes

Talis Andrade

fome paulo guedes gordo no paraíso.jpeg

 

por Weiller Diniz

A anunciação do ministro Paulo Guedes foi a de um redentor milagroso, enviado para expiar os pecados econômicos na seita bolsonarista. Rapidamente desabou do paraíso para o inferno sem estagiar no purgatório. Intoxicado por uma ceia profana de dólares em uma “offshore”, num paraíso fiscal, Guedes terá de rezar muitas novenas para evitar a crucificação na diocese da economia, da qual sempre vocalizou um desapego insincero. Os US$ 9,5 milhões nas Ilhas Virgens Britânicas, o equivalente a R$ 52 milhões (mesmo valor das malas penitentes do contrito Geddel Vieira Lima), foram excomungados até mesmo na prelazia governista, erodida sistematicamente por sacrilégios éticos.

O silêncio dos confessionários, liturgia adotada nos primeiros dias após revelado o escândalo não empolgou os seguidores. A consequência da pregação herética foi a convocação dele nas duas Casas do Congresso Nacional. Na Câmara foram 310 votos para que Guedes purgasse suas blasfêmias no púlpito dos parlamentares. Dias depois, quando foi constrangido a sair da clausura para iluminar os fiéis incrédulos do bolsonarismo, em 8 de outubro, pontificou estar dentro da lei. Disse que se afastou da diretoria da empresa antes de assumir a capela bolsonarista. Confessou, inclusive, que perdeu dinheiro. Pobre alma, desviada pela avareza.

Profetizada por toda a paróquia, a legalidade evangelizada pelo ministro não convenceu, nem pela palavra, menos ainda pelo mau exemplo. Há muitas dúvidas quanto a outras heresias praticadas por ele nas trevas financeiras das Ilhas Virgens. Ao se afastar da diretoria da empresa, Guedes deixou de ser sócio ou acionista? Quem o sucedeu? Qual a atuação da sua mulher e filha, que são suas sócias? Fizeram investimentos? Obtiveram lucros a partir de decisões tomadas por Paulo Guedes? Além da legalidade, há outros questionamentos, morais e éticos, entre o céu e a terra.

paulo-guedes-dolar.jpg

 

A Lei de Conflito de Interesses é tão peremptória quanto os cânones bíblicos: ministros estão proibidos de atuar em empresas que possam ser eventualmente beneficiadas por suas decisões no governo. Um dos pontos desse mandamento ético diz que é conflito de interesse “praticar ato em benefício de interesse de pessoa jurídica de que participe o agente público, seu cônjuge, companheiro ou parentes, consanguíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, e que possa ser por ele beneficiada ou influir em seus atos de gestão”. O afastamento de Guedes da diretoria não redime o pecado, já que mulher e filha seguiram no comando da abadia milionária no paraíso das Ilhas Virgens.

Em julho desse ano, Paulo Guedes, ao apostolar sobre tributos, defendeu retirar do projeto de lei do Imposto de Renda a regra que taxaria recursos de brasileiros em paraísos fiscais: “Ah, porque tem que pegar as offshores’ e não sei quê. Começou a complicar? Ou tira ou simplifica. Tira. Estamos seguindo essa regra”, doutrinou o ministro no debate em evento organizado pelo altíssimo clero da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). O patriotismo retórico de Guedes é renegado pelo comportamento infiel e descrente. Quem esconde empresas e valores em paraísos fiscais prefere rezar por cartilhas pouco ortodoxas e para santos de pau oco. Paraíso fiscal, majoritariamente, é a terra santa para o dinheiro sujo.

Enquanto se ajoelhava no milho da basílica buscando a benção para os dólares em paraíso fiscal, Guedes foi abençoado com lucros celestiais. Há um reluzente conflito de interesses entre a ganância e a gestão da economia brasileira. Mais do que o sacrilégio de deixar os recursos longe do Brasil, o reinado dele é apocalíptico para a economia brasileira. A inflação voltou ameaçadora e já se avizinha dos dois dígitos, realidade cruel desconhecida de muitas gerações. Até mesmo o bem-sucedido plano Real, que Guedes tanto excomungou em missas reservadas, responsável pela redenção inflacionária nas gestões Itamar Franco/Fernando Henrique Cardoso, está amaldiçoado.

Apresentado como a reencarnação da dádiva divina, Paulo Guedes sacralizou-se como o ícone do fracasso na Administração. O desemprego atingiu níveis infernais. Mais de 14 milhões de pais e mães de família não conseguem trabalho. A renda brasileira desabou e o real é uma das moedas que mais se desvalorizou no mundo. O Ministério da Economia virou um Éden estéril. A pasta assiste, genuflexa, a fome se expandir, a indigência crescer, a mendicância se alastrar, a fuga de investidores, o crescimento da dívida pública, a queda abrupta da renda per capita e um tombo histórico no ranking das economias mundiais. Mas há altares para consagrar orçamentos paralelos, cloroquinas, tubaínas e propinas. A vida dos brasileiros só piora. Um verdadeiro calvário.

A meta de zerar o déficit em um ano, assim como a maioria das prioridades da equipe econômica, eram pregações de um vigário incapaz, de um falso profeta. A ideia “luminosa” de iniciar a capitalização com os recursos do FGTS sublimou. As ambicionadas reformas administrativa e tributária agonizam na mesma proporção da queda da credibilidade do ministro. Guedes também perdeu na CPMF e no auxílio emergencial. Vítima de uma possessão diabólica, promete um paraíso econômico em “V”, virtual. Os Estados Unidos, cultuados pelo bolsonarismo até a era satânica de Donald Trump, está a 5 milhões de postos de trabalho para recuperar o nível de emprego antes da pandemia. A gestão Biden mostra um gráfico em “V” real.

Em um estudo da OCDE, o Brasil é o único em 30 nações analisadas a apresentar PIB negativo (-0,1%) na comparação entre os trimestres mais recentes. Enquanto Portugal, Reino Unido, Áustria apontam uma ascensão gloriosa (+ de 4%) e países da América do Sul registram perspectivas de crescimento acima de 1%, o Brasil desce às profundezas de maneira consistente rumo ao purgatório da miséria. Outra projeção, do Banco Mundial, mostra que o Brasil terá o pior desempenho da América Latina e do Caribe em 2022. Bahamas e Barbados crescerão acima de 8%, Bolívia, Colômbia, Argentina, Paraguai acima de 3% e o Brasil, na lanterna infernal da região, com estimativa de 1,7% de expansão.

As estimativas do Fundo Monetário Internacional sobre crescimento também foram revisadas para baixo em 2022. Reflexo da alta na taxa básica de juros, inflação elevada e desemprego. Cresce o endividamento das famílias e a fome ressurge como resultado do flagelo. O levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) é obsceno. Quase 20 milhões de brasileiros declararam passar 24 horas ou mais sem ter o que comer. Mais de 25 milhões não têm segurança se irão se alimentar regularmente e já diminuíram a quantidade ou qualidade do que comem. Mais de metade do país (55%) sofre de algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve).

Guedes é mais um apóstolo ordinário entre os descaídos. É o ministro responsável pela ruína da economia que deveria proteger. Equipara-se aos demais anjos caídos do culto bolsonarista que fracassaram em outras paróquias da esplanada. O ex-ministro da Educação não sabia escrever, errava nas contas e escapuliu de maneira fraudulenta. O atual, cujo nome é ignorado, exorciza os centros do saber, as universidades. O ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, catequizava a destruição da natureza e é suspeito de contrabando de madeiras. O ex da Saúde, Eduardo Pazuello, e o atual, Marcelo Queiroga, profanam o santuário da Saúde em plena pandemia, condenando milhares de pessoas à morte.

Outros sacerdotes macabros completam a legião dos incapazes. Ernesto Araújo dessacralizou a diplomacia brasileira, outrora venerada. Na devoção servil ao bezerro de ouro acima dos trópicos ideologizou o Itamaraty e nos isolou do mundo com versículos xenófobos, negacionistas e terraplanistas. Outro idólatra da prelazia bolsonarista trapaceou, corrompeu a Justiça e o Ministério Público até ser recompensado com um altar dentro da seita maligna. Depois foi renegado pelos infames. Alma penada que não desapega. Ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro emporcalhou o Estado Democrático de Direito com pregações fascistas para alcançar a glória política. Ainda reza pela improvável ascensão.

O messias da destruição, da morte, do negacionismo e da mentira purgou ao abandonar a catedral do cercadinho do Alvorada e as celebrações ensaiadas para ir ao Santuário de Aparecida nas comemorações da padroeira. Jair Messias Bolsonaro foi xingado de “genocida”, “assassino”, “ladrão” e “lixo”. O arcebispo da cidade, Orlando Brandes, foi inclemente: “Para ser pátria amada, não pode ser pátria armada.

Para ser pátria amada seja uma pátria sem ódio. Para ser pátria amada, uma república sem mentira e sem fake news. Pátria amada sem corrupção… Mãe Aparecida, muito obrigado porque na pandemia a senhora foi consoladora, conselheira, mestra, companheira e guia do povo brasileiro que hoje te agradece de coração porque vacina sim, ciência sim e Nossa Senhora Aparecida junto salvando o povo brasileiro”.

Mesmo incinerado no submundo dantesco, Paulo Guedes, ainda praguejou. Disse estar “indignado” com as labaredas esconjurando seu tesouro nas Ilhas Virgens. Um monastério da candura financeira, mais puro que os desejos impuros das domésticas que insistiam em pecar na sublimação esbanjadora do dólar baixo: “todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”.

A riqueza dele também não paga os impostos para ajudar as bolsas ofertadas até para os filhos dos porteiros. Definitivamente, na subida aos céus ou na queda às profundezas, Paulo Guedes não divide o elevador de serviço com o brasileiro. Sempre irá pelo social. Guedes se regozijará no paraíso enquanto padecemos no inferno de mortes, dor e fome. Legado de uma legião demoníaca.

paulo Guedes Paraiso Fiscal.jpg

 

 

 

15
Out21

Bolsonaro chora, desafia Espinosa, entristece o país e faz promessa absurda 

Talis Andrade

bolsonaro -lagrimas-de-crocodilo.jpg

 

por Reinaldo Azevedo

Não duvido de que Jair Bolsonaro seja um homem torturado por seus fantasmas. E o maior deles ganha corpo todos os dias — e fantasmagoria não é, mas realidade: sua atribuição é governar o Brasil. E ele não tem a mais remota noção do que fazer. Toma decisões sobre temas que desconhece de modo absoluto. E por isso ele diz chorar em segredo quando teria motivos episódicos até para rir. Deve mesmo se trancar no banheiro em desespero.

Nesta quinta, o presidente participou de um culto evangélico da igreja Comunidade das Nações. E afirmou o seguinte:

"Cada vez mais, nós sabemos o que devemos fazer. Para onde devemos direcionar as nossas forças. Quantas vezes eu choro no banheiro em casa! Minha esposa [Michelle Bolsonaro] nunca viu. Ela acha que eu sou o machão dos machões. Em parte acho que ela tem razão até".

Não seria um Bolsonaro autêntico, claro!, se não exaltasse suas supostas qualidades viris até quando se mostra um tantinho vulnerável, o que não é estranho à sua trajetória. Já fez isso outras vezes. Líderes de corte messiânico buscam, esporadicamente, demonstrar um lado frágil para despertar a solidariedade alheia.

Ele tentou explicar as lágrimas que diz verter:

"O que me faz agir dessa maneira? Eu não sou mais um deputado. Se ele [um deputado] errar um voto, pode não influenciar em nada. Um voto em 513. Mas uma decisão minha mal tomada, muita gente sofre. Mexe na Bolsa, no dólar, no preço do combustível".

O presidente demorou para perceber que seus atos e palavras mexem com os preços. Entre as razões que explicam o dólar na estratosfera, com todas as suas consequências deletérias, está a sua espantosa irresponsabilidade. E, acreditem, não foi diferente nesta quinta, em pleno culto. Já volto ao ponto. Quero me fixar um pouco no choro — e na ausência de riso.

MOTIVOS PARA RIR

Bolsonaro governa um país em que mais de 600 mil pessoas morreram de covid-19. Parte dessas mortes, todos sabemos, transitaram no orbital que vai da incompetência do governo às decisões dolosas, uma vez que autoridades sabiam que estavam recomendando -- e distribuindo -- remédios comprovadamente ineficazes, além de sabotar os esforços em favor da vacinação e das medidas protetivas. Tudo isso é conhecido.

Ainda assim, a despeito desses desastres, o país já conta com mais de 100 milhões de indivíduos com vacinação completa. Passam de 150 milhões os que receberam a primeira dose, e contaminações e mortes estão em declínio.

O presidente da República — e é possível que qualquer outro em seu lugar o fizesse — poderia tentar chamar para si esses números vistosos, ainda que fosse uma apropriação indébita porque a vacinação, na prática, lhe foi imposta. Mesmo assim, ele poderia comemorar, ao menos, a retração da pandemia em solo nativo porque isso, afinal, salva vidas.

Mas ele faz o contrário. Declara que não vai se vacinar, põe a eficácia dos imunizantes em dúvida, reafirma seu compromisso com drogas comprovadamente ineficazes e ataca todas as medidas sanitárias que foram e ainda são tomadas para evitar a contaminação.

Bolsonaro parece incapaz de sentir, genuinamente, o que Espinosa chama em "Ética" de "afetos de alegria", ainda que "afetos de tristeza" sejam, às vezes, necessários, diz o filósofo, para conter os excessos — havendo, pois, tristezas que podem ser boas e alegrias que podem ser más. Mas convenham: isso sabemos todos pela experiência.

Penso, no entanto, na "alegria" da forma como a definiu Espinosa: aquilo que aumenta a nossa potência de agir, o que também precisa ser disciplinado, sendo a tristeza o que diminui essa potência. Bolsonaro não é apenas um homem quase sempre furioso e em guerra com o mundo — incluindo qualquer forma de saber. Por que chora no banheiro ao pensar, segundo diz, nas suas graves responsabilidades? Porque o mundo como é, na sua complexidade, revela a sua impotência. E, como resta evidente, ele senega a aprender — inclusive com a experiência.

AS CHUVAS E A TARIFA

Prestem atenção a duas frases de Bolsonaro, que traduzem o exato contrário da experiência que ele vive: "Cada vez mais, nós sabemos o que devemos fazer. Para onde devemos direcionar as nossas forças." Não é preciso ser muito bidu para perceber que assume um tom milenarista, missionário, embora o profeta se negue a anunciar o mundo revelado. É preciso acreditar nele.

Antes de falar no culto, já havia reclamado numa entrevista de rádio: "Aumentou o preço da gasolina? Culpa de Bolsonaro! Aumentou o preço do gás? Culpa de Bolsonaro!" E aí especulou se não seria o caso de privatizar a Petrobras. Não que ele tenha umum projeto para isso. Não que seu governo tenha feito essa escolha. Não que que isso seja um plano. No seu mundo sem alegrias — exceção feita às reiterações de suas ideias estreitas —, fala em privatizações como forma de excluir-se da culpa e da responsabilidade. É pura expressão de irracionalidade. E a razão é o maior dos "sentimentos de alegria".

Aos fiéis, Bolsonaro resolveu falar sobre a tarifa de energia e as chuvas. Disse:

"Meu bom Deus nos ajudou agora com chuva. Estávamos na iminência de um colapso. Não podíamos transmitir pânico à sociedade. Dói a gente autorizar o ministro Bento [Albuquerque], das Minas e Energia: 'Decreta bandeira vermelha'. Dói no coração! Sabemos das dificuldades da energia elétrica. Vou pedir para ele -- pedir não, determinar -- que ele volte para a bandeira normal no mês que vem".

Pela ordem! Vige no país a "Bandeira de Escassez Hídrica", que é mais cara do que a vermelha, anunciada há meros dois meses. As chuvas de agora, um tantinho acima das expectativas, estão muito longe de tirar o país do quadro, como diz o nome, de "escassez". Não há especialista na área que descarte o risco de racionamento ou mesmo de apagões.

Mudar a bandeira não decorre da vontade do presidente. Para tanto, criou-se a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (Creg). Ela tem competência para tomar medidas excepcionais, orientando-se por estudos da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). É pouco provável que a Câmara faça o que ele quer. Se o fizer, a crise se agrava. Lá nas alturas daquele mundo complexo que o presidente não alcança — o que o entristece e diminui a sua potência de agir —, há os investimentos com vistas ao futuro. Mas como investir se falta o mais básico de todos os insumos: energia? O que o presidente da República tem a oferecer? Conversa mole e promessas irrealizáveis.

CONCLUO

Não duvido, não, de que Bolsonaro chore. Deve até acontecer com frequência. Certamente é um sofrimento adicional que não consiga reduzir o Brasil ao tamanho de seus afetos de tristeza. Que isso passe! Afinal, entre as suas heranças, há milhares de cadáveres. E os que choraram seus mortos sabiam o motivo de sua dor.

lagrimas admael.jpg

 

13
Out21

Bolsonaro "aborrecido" com perguntas sobre mortes por covid

Talis Andrade

 

desmatamento machado.jpeg

 

O Brasil na imprensa alemã 

Die Tageszeitung (taz) – Queixa climática contra Bolsonaro (13/10)

O que a humanidade está fazendo com o planeta é uma "guerra suicida contra a natureza", disse Inger Andersen, chefe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente na cúpula de biodiversidade realizada nesta semana em Kunming, na China.

Mas a nova ONG Allrise, da Áustria, não quer se contentar com a referência à humanidade como um todo. Ela quer responsabilizar aqueles que, em sua visão, têm pessoalmente responsabilidade. Num primeiro passo nesse sentido, os ambientalistas denunciaram o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ao Tribunal Penal Internacional. A grave acusação: crimes contra a humanidade. Assim, a destruição do meio ambiente estaria no mesmo patamar de crimes de guerra e genocídios.

Concretamente, trata-se da destruição da Floresta Amazônica, pois as taxas de desmatamento dispararam desde a posse de Bolsonaro.

"A destruição da Amazônia afeta todos nós – a população e especialmente os grupos indígenas que vivem lá, mas também as pessoas em todo o mundo por meio das mudanças climáticas", disse Johannes Wesemann, fundador da Allrise. [...] "Nossa expectativa é que as emissões por CO2 provocadas pelo desmatamento continuem a subir enquanto Bolsonaro for presidente."

"Querermos estabelecer um precedente", diz Weseman. "Há mais Bolsonaros, há mais Amazônias. Temos muito o que fazer."

Süddeutsche Zeitung – Problema de meninas (13/10)Pobreza menstrual, um problema de política pública | Veja Saúde

O presidente de direita Jair Bolsonaro vetou um projeto de lei que previa, entre outras coisas, a distribuição de absorventes gratuitos em escolas públicas. A iniciativa deveria ajudar a combater a chamada pobreza menstrual: somente no Brasil, há mais de 4 milhões de meninas que não têm dinheiro para produtos de higiene ou acesso a banheiros ou água corrente, de acordo com a ONU.

Segundo Bolsonaro, absorventes não estão na lista de produtos essenciais e não estaria claro de onde o dinheiro para os produtos de higiene deveria vir. A ministra evangélica da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foi além e disse que, por causa da pandemia de covid-19, os cofres estavam tão vazios que seria preciso decidir: "A prioridade é a vacina ou é o absorvente?"

Agora o Congresso tem 30 dias para reconhecer ou derrubar o veto do presidente. Bolsonaro acredita que, com os absorventes gratuitos, a oposição queira sobretudo conquistar votos. Ele já anunciou o que vai fazer, se a lei ainda passar: "Vou tirar dinheiro da saúde e da educação. Tem que tirar de algum lugar." Especialistas, ativistas, políticos e famosos consideram isso uma besteira. O dinheiro está disponível, o que falta é vontade.

Spiegel Online – Bolsonaro "aborrecido" com perguntas sobre mortes por covid (12/10)

Ele não quer se aborrecer com perguntas sobre mortes ligadas à covid-19 no país: foi o que disse o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, numa aparição pública no Guarujá, no estado de São Paulo, na segunda-feira (11/10). Há poucos dias foi oficializado que mais de 600 mil pessoas morreram em consequência do coronavírus no Brasil.

"Em qual país não morreu gente? Responda", disse Bolsonaro em resposta à pergunta de um repórter sobre as mortes por covid-19. "Não vim aqui para me aborrecer."

O populista de direita minimizou o coronavírus desde o início e rejeita medidas de proteção e restrições. Ele também coloca em dúvida o sentido das vacinas e ressaltou mais de uma vez que ele mesmo ainda não foi vacinado. Em julho do ano passado, ele se infectou com o vírus.

Está em andamento uma comissão parlamentar de inquérito sobre a gestão da pandemia por seu governo. No início de outubro, houve manifestações contra o presidente em várias cidades brasileiras. Os participantes exigiam o impeachment dele, mais vacinas e empregos.

Welt am Sonntag – Luta pela floresta (10/10)

No momento, está em jogo o julgamento do Supremo Tribunal Federal para decidir: a quem pertence de fato a Floresta Amazônica? Aos povos indígenas que viveram e, em alguns casos, ainda vivem lá, ou às gerações sucessoras dos senhores coloniais europeus e, portanto, praticamente à indústria brasileira?

Trata-se da regra do marco temporal, segundo a qual somente teriam direito às suas terras os povos que estavam em posse delas ou em batalha judicial ou conflito direto com invasores em 5 de outubro de 1988, quando a Constituição foi proclamada. Comprovar isso, no entanto, é praticamente impossível, pois, desde a colonização pelos europeus, os povos indígenas, não somente no Brasil, mas em toda a América Latina, estão em fuga ou ameaçados de serem expulsos de suas terras.

"O futuro da Amazônia está em jogo", diz a ativista indígena Samela Sateré Mawé, do Fridays for Future Brasil.

Uma decisão judicial que obrigue os povos indígenas a provarem algo que, devido à falta de documentos, é difícil que eles consigam pode acabar liberando as áreas para a exploração de petróleo e gás, mineração de ouro, comércio de madeira ou agronegócio.

cpi da covid.jpeg

 

10
Out21

Carol Solberg volta a confrontar estupidez bolsonarista e lamenta as 600 mil mortes

Talis Andrade

bola no cangaço .jpeg

 

 

A jogadora Carol Solberg, que gritou “fora, Bolsonaro” em setembro de 2020 após ganhar medalha de bronze no Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, voltou a criticar o governo  Bolsonaro. Desta vez foi em entrevista pós-jogo neste sábado (9), no Open de Duplas do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, no Rio de Janeiro.

"A gente completou 600 mil mortes por Covid. A gente tem um presidente defendendo tratamento precoce nessa altura do campeonato. Isso é muito sério. Me dói muito ver o Brasil representado por isso", disse.

Ela também utilizou o espaço da entrevista para criticar o veto de Bolsonaro à distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Em entrevista ao canal SporTV, a atleta disse o seguinte:

“A gente não pode esquecer… A gente completou ontem 600 mil mortes por covid. Acho que os torneios não podem passar sem a gente estar falando sobre isso.

A gente tem um presidente que está defendendo o tratamento precoce nessa altura do campeonato. Isso é muito sério.

Me dói muito ver o Brasil sendo representado por isso.

A gente viu o presidente vetando nessa semana a distribuição gratuita de absorvente para meninas total em situação de vulnerabilidade.

Eu fico muito triste, O Brasil para mim é um país maravilhoso. Eu tenho maior orgulho de tanta coisa que o Brasil representa.

Mas me dói muito ver esse momento sabe? Eu sou atleta, adoro estar aqui jogando, mas eu não entro em quadra e fica alheia a tudo que está acontecendo.

Então me dói muito. Eu estou aqui como cidadã, como atleta.

Esse é um momento muito duro.

Obrigado pela torcida e toda minha solidariedade às famílias que perderam seus amores, seu parceiros para essa coisa horrível da covid.“

 

10
Out21

600 mil mortes no Brasil: "liberou geral" pode fazer curva da Covid-19 voltar a subir

Talis Andrade

 

Estádios de futebol com mais público, cidades cogitando o fim do uso obrigatório de máscaras, espaços de lazer liberados em condomínios. O Brasil, que chega aos 600 mil mortos por Covid 19 nesta sexta-feira (8), já pode mesmo se dar ao luxo de afrouxar as medidas sanitárias contra o coronavírus?

Com cerca de 450 óbitos diários pela doença, o país de fato tem o que comemorar porque já teve índices bem piores, chegando a 4 mil mortes por dia no auge da pandemia este ano e ao dramático platô de mil vidas perdidas diariamente durante vários meses.

Hoje, mais da metade dos municípios brasileiros celebra o fato de não ter registro de óbitos, graças ao avanço da vacinação. Mas especialistas dizem que o ‘liberou geral’ que muitos querem para ontem pode colocar a perder esse quadro que, finalmente, parece caminhar para a redenção pandêmica coletiva.

A especialista em saúde pública e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ligia Bahia disse à RFI que o foco deve ser o retorno consistente das atividades essenciais como as aulas nas escolas e universidades, com as medidas sanitárias respeitadas. “A gente nunca teve um quadro tão favorável na pandemia. Entretanto, ainda não dá para dizer que acabou. Nós demoramos muito tempo para chegar a esse patamar de vacinação e, mais de oito meses depois, a gente ainda não tem 70% da população com duas doses”, explica. "Além disso, o número de novos casos e de mortos ainda é relativamente alto. Então não podemos bobear agora. Não estamos num patamar seguro ainda e a variante delta circula por aqui.”

O epidemiologista Julival Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirmou à RFI que a falta de cuidado nesse momento pode trazer consequências imprevisíveis. “Essa falsa impressão de que a pandemia acabou é muito preocupante. A pandemia está aí presente e temos que observar o que pode acontecer nos meses vindouros, não só aqui no Brasil, mas também no mundo inteiro. Lembrar que Israel, mesmo com a vacinação da população adiantadíssima, está sugerindo a terceira dose para toda população por causa da variante delta”, ressalta o especialista.

 

CPI na reta final

No Congresso, a CPI da Covid deve finalizar os trabalhos, com a votação do relatório final até o dia 20. Nessa fase derradeira, parlamentares se concentram no tenebroso caso da operadora de saúde Prevent Senior, que virou símbolo do descaso com a vida e da insistência fatal em remédios sem eficácia contra a doença. O paciente Tadeu Andrade, de 65 anos, contou no Senado que quase morreu porque a empresa convencia parentes a aceitar tratamento paliativo, encerrando a internação na UTI, mesmo quando ainda havia chance de sobrevivência.

Minha família não concordou, nessa reunião, com o início dos cuidados paliativos, se insurgiu, ameaçou ir à justiça para buscar uma liminar e impedir que eu saísse da UTI, ameaçou procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recuou e cancelou o início do tratamento paliativo, ou seja, eu, em poucos dias, estaria vindo a óbito e hoje eu estou aqui”, disse, emocionado, à CPI.

O último a ser ouvido deve ser o ministro da saúde Marcelo Queiroga, que já está de volta ao Brasil depois da quarentena que fez nos Estados Unidos por contrair Covid 19. Ele foi convocado pela terceira vez após um órgão técnico subordinado à sua pasta ter adiado a análise de um parecer que contraindica o uso da cloroquina e outras drogas no tratamento da Covid. O adiamento se deu por pressão do Planalto.

 

09
Out21

Bolsonarista presidente do CFM reconhece que liberou cloroquina “sem evidência científica”

Mauro Ribeiro investigado pela CPI do Genocídio

Talis Andrade

Filme de terror - Nando Motta - Brasil 247

 

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, reconheceu num vídeo com o representante do Conselho Regional de Medicina de Goiás que liberou o uso da cloroquina mesmo “sem evidência científica”, e “fora das normas” do órgão (veja ao final). 

“Existem estudos observacionais para a hidroxicloroquina, mas não existe nenhuma evidência científica que comprove alguma eficácia da hidroxicloroquina” disse o presidente do CFM na conversa. Ele ainda completou: “Mas nós, numa decisão fora das nossas normas, acabamos liberando o uso da hidroxicloroquina. Fizemos uma análise grande do que existe na literatura e não tem nenhum trabalho que sustente a hidroxicloroquina como recomendável para o tratamento da Covid. No entanto, o Conselho Federal de Medicina liberou o uso”.

Na mesma conversa, atacou a ex-presidente Dilma Rousseff por abrir escolas de Medicina e disse que o órgão atua em parceria com Jair Bolsonaro. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ficou indignado com a divulgação do vídeo pelo site Metrópoles, uma conversa ocorrida em maio de 2020, e defendeu que Ribeiro seja julgado por um tribunal internacional. O CFM é alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF).Image

No vídeo, Mauro Ribeiro atacou a ex-presidente e o deputado federal Alexandre Padilha, ministro da Saúde de 2011 a 2014 por abrirem escolas de Medicina. "Não vamos recuperar o dano da época do governo da (ex) presidente Dilma e do ministro Alexandre Padilha", disse o presidente do CFM. "Teremos aproximadamente 1,5 milhão de médicos no Brasil, é a popularização da Medicina”.

Em outro trecho, o presidente Bolsonaro afirmou, enfaticamente, ter sido recebido cinco vezes por Bolsonaro entre janeiro de 2019 e maio de 2020 e regozijou-se: “Todas as nossas reivindicações foram atendidas pelo presidente, todas as nossas reivindicações. Ele nunca falou ‘isso aqui eu não posso atender’”. E escancarou: “por isso, existe sim apoio do Conselho Federal de Medicina ao Ministério da Saúde e ao presidente Bolsonaro”.

Lafa
“Não sou de direita, nem de esquerda”
 

Image

De acordo com o ex-prefeito Fernando Haddad, as declarações do chefe do CFM significam que a instituição "liberou o governo para promover desinformação que causou a morte de milhares de brasileiros". Seiscentos mil mortos. 

"Isso é caso para tribunal internacional", escreveu o petista no Twitter.

A CPI da Covid, que terminou a fase de depoimentos e apresentará o relatório final ainda este mês, investigou, por exemplo, a defesa do tratamento precoce, com remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina e a hidroxicloroquina. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, afirmou que a CPI vai pedir o indiciamento de 50 pessoas.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, confirmou que a comissão pedirá o indiciamento de Bolsonaro.

 

 

06
Out21

Eliane Brum lança livro na França e diz que “esperança é um luxo que Brasil não tem mais”

Talis Andrade

A jornalista Eliane Brum vive em Altamira, onde acompanha de perto o impacto das políticas ambientais na Amazônia.A jornalista Eliane Brum vive em Altamira, onde acompanha de perto o impacto das políticas ambientais na Amazônia. © Azul Serra

O livro “Brasil, construtor de ruínas – Um olhar sobre o Brasil de Lula a Bolsonaro”, da jornalista Eliane Brum, acaba de ganhar uma versão em francês, publicada pela editora Anacaona. Além de apresentar e explicar a política brasileira dos últimos anos para o público internacional, ela alerta que a crise no país não é apenas um problema nacional e diz respeito ao futuro do mundo todo.

A versão internacional da publicação tem cerca de 300 páginas e é apresentada como uma ferramenta para entender “o Brasil em transe desse início do século”. A edição foi adaptada, com algumas passagens e alguns detalhes resumidos para que o conteúdo pudesse ser compreendido por um público que não necessariamente conhece os meandros da política brasileira, mas que, segundo a autora, deve se sentir tocado pela situação do país.

“Não é apenas uma questão de curiosidade ou de solidariedade com a população do maior país da América Latina. O que acontece no Brasil hoje tem impacto em todo o planeta. A gente está vivendo algo inédito na trajetória da nossa espécie, que é a crise climática provocada pela ação de parte dos humanos e é a sexta extinção em massa, também provocada pela minoria dominante de humanos”, resume a autora, que mora em Altamira desde 2017, onde acompanha de perto o impacto das políticas ambientais na região amazônica.Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro |  Amazon.com.br

Coletânea de crônicas

Eliane redigiu seu livro parcialmente baseado nas crônicas e reportagens que vem redigindo principalmente para a versão brasileira do jornal El País, mas também para veículos internacionais, como o britânico The Guardian. Foi a partir de um desses artigos, publicado em 2018 no Blätter für deutsche und internationale Politik, que nasceu a ideia de “Brasil, construtor de ruínas”.

O projeto se concentra principalmente no período que vai da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva até os cem primeiros dias do governo de Jair Bolsonaro. Mas para a versão francesa, um posfácio foi escrito, em julho de 2021, trazendo informações atuais, mas também um apelo aos leitores estrangeiros.
 

“Como o Brasil abriga 60% da maior floresta tropical do mundo no seu território e a Amazônia é fundamental para a regulação do clima e essa floresta está chegando ao ponto de não retorno, é muito importante que a Europa e a França entendam com profundidade, para além dos clichês, o que está acontecendo no Brasil”, insiste a autora. “É urgente conhecer o que está acontecendo no Brasil, por que é urgente barrar o processo de destruição que se acelerou com Jair Bolsonaro”, sentencia.

Bolsonaro

No entanto, a jornalista, que se apresenta como uma pessoa de esquerda, pondera a importância do presidente, lembrando que Bolsonaro é apenas o resultado de um processo muito mais longo.

“Bolsonaro é uma criatura de cinco séculos no Brasil e o que ele representa vai continuar, porque se ele fosse apenas uma aberração, que não representasse nada, não teria sido eleito. E ele não continuaria no poder no Brasil apesar de 600 mil mortes por Covid-19, cuja maioria poderia ter sido evitada se ele tivesse agido para prevenir a Covid-19 e tivesse aceitado vacinas, por exemplo”.

Pessimista, a autora termina o livro dizendo que independentemente do que pode acontecer nas próximas eleições presidências brasileiras, a situação é complexa e não depende apenas do ganhador do pleito. Porém, ela defende a necessidade de agir.

“Eu acho que estamos num momento histórico, em que a esperança é um luxo que a gente não tem mais”, afirma. “Nós não podemos ser mimados ao ponto de só agir se tivermos a esperança de que algo mude. A gente tem que agir porque estamos lutando pela própria vida. Eu não me movo nem pela esperança, nem pelo otimismo, nem pelo pessimismo. Eu me movo a partir da realidade e pelo imperativo ético de agir”.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub