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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

27
Mai21

Garimpeiros ilegais e coronavírus na terra Yanomami

Talis Andrade

 — Foto: Arte G1

por Valéria Oliveira e Juliana Dama /G1 RR 

Na comunidade Alto Catrimani, na parte da Terra Indígena Yanomami que fica em Roraima, um menino de 10 anos e pesando apenas 8 kg - cerca de quatro vezes menos do que o considerado ideal para a idade - recebe alimento de uma agente de saúde. O corpo franzino, com os ossos completamente aparentes, choca e comove.

A foto, que pode ser vista acima, foi tirada em 9 de fevereiro, quando ele foi resgatado com desnutrição grave. Levado para a capital do estado, Boa Vista, ele fez tratamento no Hospital da Criança Santo Antônio, se recuperou e agora está em abrigo do governo estadual.

Em outra aldeia, Surucuru, um menino de 9 anos, com 10 kg, peso também considerado baixo para a sua idade, pega água em um igarapé (veja foto acima). Resgatado no dia 3 de março, recebeu atendimento em Boa Vista e já voltou para a comunidade, com 16 kg.

Essas imagens se somam a outras de crianças indígenas desnutridasque têm vindo à tona e evidenciam a grave situação que assola a Terra Indígena Yanomami, a maior reserva do Brasil e que completou 29 anos de homologação como reserva nesta semana.

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Terra invadida por garimpeiros

A chaga da desnutrição está diretamente ligada a outro problema na região: o garimpo ilegal de ouro. A extração do minério com mercúrio contamina os rios, matando animais e impactando a disponibilidade de alimentos.

Os garimpeiros são ainda responsáveis por constantes ataques armados às comunidades na disputa por território, causando terror na população local (veja no vídeo acima). Há, inclusive, relatos de crianças que se afogaram ao tentar fugir dos invasores.

A presença disseminada de garimpeiros ilegais (o número estimado é de 20 mil, ante pouco mais de 28 mil indígenas que vivem na reserva) tem ainda outro malefício: a transmissão de doenças, entre elas, a Covid-19.Estima-se que cerca de 20 mil garimpeiros estejam infiltrados na Terra Yanomami  — Foto: Chico Batata/Greenpeace

Estima-se que cerca de 20 mil garimpeiros estejam infiltrados na Terra Yanomami — Foto: Chico Batata/Greenpeace

 

Embora pertença ao grupo prioritário para a vacinação contra o coronavírus, apenas 79% dos indígenas acima de 18 anos estão com a primeira dose, e 58%, com a segunda.

Em meio a esse quadro dramático, a reserva deverá receber nesta quinta-feira (27) uma visita do presidente da República, Jair Bolsonaro. A ida dele deverá se restringir a São Gabriel da Cachoeira, do lado amazonense da terra indígena, onde irá inaugurar uma ponte ligando o município a uma aldeia. Bolsonaro já se manifestou diversas vezes a favor da exploração mineral em terra indígena.

No vídeo abaixo, de 16 de maio, uma mulher yanonami faz um relato dramático sobre a presença dos garimpeiros armados. Ela diz que mulheres e crianças têm precisado fugir para o meio da mata para se proteger e afirma que, sem segurança no local, teme pelo momento em que vão ser mortos pelos invasores.

Desnutrição

 

Problema antigo na região, os Yanomami convivem com a desnutrição infantil há décadas. Estudo do Unicef (braço da Organização das Nações Unidas para a infância) e a Fiocruz aponta que oito em cada dez crianças menores de 5 anos têm desnutrição crônica - nas regiões de Auaris e Maturacá - dentro da Terra Indígena Yanomami.

A pesquisa, divulgada em maio de 2020, revela que 81,2% das crianças têm baixa estatura para a idade (desnutrição crônica), 48,5% têm baixo peso para a idade (desnutrição aguda) e 67,8% estão anêmicas.

O quadro está associado à maior mortalidade e à recorrência de doenças infecciosas, além de causar prejuízos no desenvolvimento psicomotor da criança.

Segundo um dos autores do estudo, o pesquisador e médico especialista em saúde indígena Paulo Basta, a desnutrição que acomete os indígenas está diretamente ligada à pobreza.

 

"Sob o ponto de vista da estrutura de domicílio, os pais não têm renda, falta água potável para beber. Eles estão ameaçados sob vários aspectos e por outras doenças, como diarreia, verminose e malária. É um cenário que está totalmente relacionado à pobreza", afirma Basta.

 

Tradicionalmente, os indígenas se alimentam de produtos que a floresta oferta. No entanto, ressalta o pesquisador, a chegada de não indígenas, com a estruturação de pelotões especiais de fronteira do Exército e de unidades de saúde, além da presença de missões religiosas e garimpeiros, provoca um escasseamento dos alimentos ao afugentar a caça e contaminar os rios.

Na mineração do ouro, o garimpo usa mercúrio, substância que acaba gerando graves danos ambientais e problemas neurológicos nas pessoas.

 

"Isso esgota a fonte natural e a alimentação que vêm da natureza diminui", explica.

 

Na mineração do ouro, o garimpo usa mercúrio, substância que acaba gerando graves danos ambientais  — Foto: Chico Batata/Greenpeace

Na mineração do ouro, o garimpo usa mercúrio, substância que acaba gerando graves danos ambientais — Foto: Chico Batata/Greenpeace

 

Diante desse cenário, as refeições, que, normalmente, teriam como base arroz, feijão, mandioca, carne de caça e peixe, acabam se resumindo a um ou outro item por vez.

Nas regiões pesquisadas, na falta de alimento, os indígenas acabam consumindo também produtos ultraprocessados, pobres em nutrientes, que são levados por pessoas de fora da terra indígena, como biscoitos, salgadinhos e enlatados. A soma desses fatores, segundo o pesquisador, leva ao quadro de desnutrição.

 

“Não dá para isolar a causa e dizer que os Yanomami estão passando fome e, por isso, estão desnutridos. Isso não é verdade", afirma Basta.

 

Ele explica que a criança nasce saudável, mas que, ao desmamar e passar a interagir com o ambiente, fica limitada a alimentos pouco nutritivos e exposta a mais doenças, o que desencadeia o processo de desnutrição.

"A criança nasce dentro do padrão de peso esperado. Enquanto mama, está garantido o alimento e ela cresce bem. Depois que começa a desmamar e interagir com o meio ambiente, se contamina rapidamente, pega uma diarreia, uma verminose e, aí, perde pesocai o estado nutricional. Ainda vai estar permanentemente exposta à água contaminada e alimentos de baixa qualidade e também pode se contaminar por malária ou ter uma infecção respiratória”, diz Basta.

A gravidade da situação é endossada pelo indígena Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

 

"Historicamente, na Terra Yanomami não tem desnutrição. Existe a desnutrição onde há problemas de invasão, problemas no rio e a terra não está boa, não está produzindo muito bem a comida. Onde há os problemas do garimpo, tem, sim [desnutrição], porque não tem como trabalhar, não tem como cuidar da família", relata.

 

Segundo ele, nas localidades sem a presença de garimpeiros, as roças são produzidas. "Então, as crianças são saudáveis, porque a família está trabalhando bastante e produzindo alimento", explica.

 

 

Dimensão da desnutrição

 

O número exato de crianças acometidas pela desnutrição não é disponibilizado pelo governo federal. Os relatos, no entanto, indicam que o problema permeia toda a Terra Yanomami, principalmente as regiões onde há o impacto do garimpo -- grande causador da degradação e desequilíbrio ambiental.

As comunidades de que se tem notícia de casos recorrentes de crianças com baixo peso são ParafuriSurucucuXiteiBaixo Mucajaí Auaris, de acordo com o presidente do Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kuanna (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanomami, que acompanha diariamente os pedidos de remoção para atendimento médico na capital.

Montagem de fotos mostra o mesmo menino yanomami de 10 anos em 9/2 (à esquerda) e em 25/5 (à direita) após tratamento — Foto: Arquivo pessoal

Montagem de fotos mostra o mesmo menino yanomami de 10 anos em 9/2 (à esquerda) e em 25/5 (à direita) após tratamento — Foto: Arquivo pessoal

Mas nem sempre o resgate chega a tempo. Na semana passada, um bebê de um ano que pesava apenas 3 kg morreu de desnutrição. Júnior Hekurari Yanomami acusa o poder público de negligência pela demora na remoção. Naquele mesmo dia, outras duas crianças, também com desnutrição, foram levadas das aldeias onde viviam para serem tratadas em Boa Vista.

Júnior Hekurari afirma que, ao longo dos anos, a falta de assistência de saúde nas comunidades yanomami tem se tornado frequente e se agravou com a pandemia.

 

"A saúde indígena yanomami começou a decair no início de 2014. Desde então, temos enfrentado inúmeras dificuldades. Percebemos que, a partir de 2018, a saúde entrou em colapso", disse.

 

 

falta de transparência em relação aos dados de desnutrição também se repete quanto aos casos de malária e outras enfermidades que atingem o povo Yanomami.

As informações, de responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde, não ficam disponíveis no site. Os dados são restritos a sistemas operados por servidores do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), que respondem para a Sesai.

Montagem de foto da mesma menina yanomami de 8 anos em 17 de abril (à  esquerda) e em 25 de maio (à direita) — Foto: Arquivo pessoal

Montagem de foto da mesma menina yanomami de 8 anos em 17 de abril (à esquerda) e em 25 de maio (à direita) — Foto: Arquivo pessoal

 

Políticas públicas

 

Para o pesquisador Paulo Basta, a gravidade do quadro de desnutrição ressalta a falta de políticas públicas do governo federal na terra indígena.

 

“Se o estado brasileiro cumprisse seu dever constitucional e, de fato, desenvolvesse políticas públicas inclusivas, visando uma reparação histórica por danos e exploração impetrados aos povos indígenas [...], a situação de saúde dos povos indígenas, sobretudo das crianças, poderia ser muito diferente”, explica.

 

Na avaliação dele, para reverter a situação, seria necessário criar alternativas econômicas por intermédio de projetos de desenvolvimento sustentável, adaptados à realidade e respeitando a cultura local.

Ele também defende a criação de uma rede de captação, tratamento e abastecimento de água potável às famílias, além do fornecimento de coleta e destinação adequadas dos resíduos sólidos, com oferta de serviços de saúde de qualidade.

 

O Ministério da Saúde diz ter implementado ações de combate à desnutrição infantil na área indígena e lista programas de suplementação de vitamina e minerais, além da qualificação das equipes de saúde.

A pasta afirma que, mesmo não sendo sua atribuição, a Sesai autorizou a compra e a distribuição de comida nas Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) para os pacientes desnutridos. O processo de licitação, por meio de pregão eletrônico, está em andamento.

 

Histórico do garimpo ilegal na região

 

Barco transporta insumos para o garimpo ilegal — Foto: Divulgação

Barco transporta insumos para o garimpo ilegal — Foto: Divulgação

Os conflitos causados pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami remetem à década de 1980, com o garimpo ilegal de ouro. Nos anos 1990, 12 indígenas foram mortos por garimpeiros no massacre do Haximu, um dos mais violentos registrados na reserva.

A antropóloga e professora emérita da Universidade de Brasília (UnB) Alcida Rita Ramos, que trabalha com o povo Yanomami desde 1968, relata que a invasão do território por não índios vem desde a década de 70, na ditadura militar.

Em 1973, teve início a construção pelo Exército da rodovia Perimetral Norte, que iria ligar toda a Amazônia no chamado Plano de Integração Nacional (PIN). Paralisada no meio, foi abandonada em 1976. No fim da década seguinte, aconteceu a invasão massiva de garimpeiros atrás da exploração de ouro.

 

 

"Os primeiros estragos materiais foram a construção da Perimetral. Em dois anos, destruíram muito, mataram 22% da população de uma aldeia e foram embora. Até hoje, tem comunidades que não se recuperaram. Esse foi o primeiro choque do século 20, que terminou com outro choque violento: a massificação da invasão garimpeira. Foi tudo desencadeado. E, agora, no século 21, são garimpeiros, misturados com Covid e todo o lixo que a sociedade manda para eles", resume.

 

 Invasão do território por não indígenas vem desde a década de 70, na ditadura militar — Foto: Chico Batata/Greenpeace

Invasão do território por não indígenas vem desde a década de 70, na ditadura militar — Foto: Chico Batata/Greenpeace

Segundo a pesquisadora, embora houvesse relato da presença de garimpeiros antes, foi a partir de 1989, com o grande influxo de invasores, que os indígenas sentiram de maneira mais contundente o impacto no território.

 

"Os Yanomami estão calejados de epidemias. Já passaram por isso várias vezes, mas isso não quer dizer que eles estejam acostumados a elas. Eles querem sobreviver", indigna-se.

 

 

Degradação da floresta

 

A busca pelo minério, porém, se intensificou ainda mais nos últimos anos, segundo Instituto Socioambiental (ISA), agravando a degradação da floresta e ameaçando a saúde dos moradores.

Somente no primeiro trimestre deste ano, foram desmatados cerca de 200 hectares de floresta -- o equivalente a 200 campos de futebol.

 

"São mais de 20 mil garimpeiros espalhados e prejudicando a vida do povo Yanomami e Yekuana. A nossa terra está destruída por maquinários. É uma situação muito grave e preocupante. O povo Yanomami está com a vida muito perturbada", afirma Dário Kopenawa Yanomami, da Hutukara Associação Yanomami.

 

 

Desde junho de 2020, uma série de confrontos entre indígenas e garimpeiros foi deflagrada na região.

mais recente foi na comunidade Palimiú, em Alto Alegre, ao Norte de Roraima. Alvo de invasores que entram na floresta para explorar o minério, a região vive dias de tensão. O estopim foi em 10 de maio, quando garimpeiros abriram fogo contra os indígenas, que revidaram. Há relatos de três garimpeiros mortos no confronto. Um indígena foi baleado de raspão na cabeça, mas sobreviveu.

Homens com arco e flecha na comunidade Palimiú — Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica

Homens com arco e flecha na comunidade Palimiú — Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica

 

Covid

 

A presença de garimpeiros, o avanço da degradação ambiental e a dificuldade de acesso para o atendimento de saúde deixam o povo que vive na Terra Yanomami ainda mais vulnerável à transmissão de doençasE com a Covid não foi diferente.

Desde março do ano passado, início da pandemia, os casos de indígenas infectados somam 1.640 e o número de mortes chega a 13. Uma dessas vítimas foi o adolescente Alvanei Xirixana, de 15 anos, o primeiro óbito por Covid entre indígenas registrado em Roraima.

Os casos de indígenas infectados com Covid-19 chega a 1.640 — Foto: Pieter Van Eecke/Clin d'Oeil Films

Os casos de indígenas infectados com Covid-19 chega a 1.640 — Foto: Pieter Van Eecke/Clin d'Oeil Films

 

O presidente do Condisi-YY, Júnior Hekurari Yanomami, ressalta que a pandemia de Covid reduziu ainda mais a assistência que deveria ser feita pelo governo.

 

"A chegada do coronavírus na Terra Indígena Yanomami fez com que ficássemos mais impotentes. Não tivemos o apoio necessário do governo, principalmente, na questão da vacinação. As comunidades não foram vacinadas. Isso resultou em muitas comunidades desassistidas. A dificuldade é muito complexa na Terra Indígena Yanomami. O povo yanomami sofre muito", diz.

 

No início do ano, ele denunciou a morte de 10 crianças com sintomas de Covid-19 dentro da Terra Yanomami. Para ele, houve lentidão na resposta do ministério. "A demora e a burocracia estão matando o povo Yanomami", afirma.

As mortes são alvo de uma apuração da pasta, que ficou de divulgar um laudo até o fim deste mês confirmando se foram por Covid ou não.

 

Vacina

 

Os indígenas fazem parte dos grupos prioritários no Plano Nacional de Imunização (PNI) para receber a vacina contra a Covid.

Segundo o Ministério da Saúde, a meta é imunizar todos os yanomami acima de 18 anos, que somam 12.253 e representam 43,5% do total de indígenas que vivem na reserva.

Desse público-alvo, foram vacinados até agora apenas 79% (9,6 mil) com a primeira dose e 58% (7,1 mil) com a segunda. Não foi informado o prazo para vacinar 100% desse grupo com as duas doses.

 

Acesso difícil

 

Comunidade Surucucu, na Terra Yanomami, no meio da floresta amazônica — Foto: Júnior Hekurari Yanomami/Condisi-YY

Comunidade Surucucu, na Terra Yanomami, no meio da floresta amazônica — Foto: Júnior Hekurari Yanomami/Condisi-YY

 

Cercado pela densa floresta amazônica, o território Yanomami é de difícil acesso, e a comunicação é bastante restrita, o que impacta na divulgação das informações sobre o que acontece na região.

A entrada por via terrestre só é possível pelo Sul da reserva, nas comunidades Ajarani I e II, onde não vivem indígenas.

Já o acesso às demais comunidades é feito por avião e helicóptero, que aterrissam em clareiras abertas na mata fechada ou pistas improvisadas para aeronaves de pequeno porte. Também é possível chegar à Terra Yanomami clandestinamente por embarcação, meio mais utilizado pelos garimpeiros.

Apenas profissionais da Sesai e pessoas autorizadas pelo Condisi-Y ou pela Fundação Nacional do Índio (Funai) podem entrar na reserva.

A comunicação na região é feita na maioria das vezes por radiofonia. Os aparelhos são instalados nos postos de saúde da Sesai e é de lá que servidores se comunicam com o Dsei-Y, sediado na capital, Boa Vista. Há quatro polos-base com internet e orelhão. A energia elétrica também é limitada aos postos de saúde.

A comunicação na Terra Yanomami é 90% feita por radiofonia — Foto: Valéria Oliveira/G1

A comunicação na Terra Yanomami é 90% feita por radiofonia — Foto: Valéria Oliveira/G1

 

Quem atua na terra indígena

 

Direitos: A terra indígena é de responsabilidade da Funai, que tem como missão proteger os direitos dos povos indígenas. Cabe a ela autorizar o acesso à região.

 

Saúde: As questões relacionadas à saúde ficam a cargo do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), subordinado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que, por sua vez, responde ao Ministério da Saúde.

A fiscalização das ações de saúde fica por conta do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Yakwana (Condisi-YY), que é um órgão com autonomia.

Segurança: Exército e a Polícia Federal têm como dever cuidar da integridade física dos indígenas dentro do território.

18
Mar21

Brasil supera a marca das 3 mil mortes diárias por Covid

Talis Andrade

 

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247 - O Brasil ultrapassou a triste barreira das 3 mil mortes por dia de Covid-19 nesta quarta-feira (17). O relatório do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) divulgado às 18h registrou 3.149 mortes. 

O número conta com os 501 óbitos do Rio Grande do Sul que não haviam sido somados nesta segunda. “Na data de ontem (16/3), a Secretaria Estadual do Rio Grande do Sul não consolidou os dados dentro do horário limite para a atualização do painel pelo Conass. Com isso, não foram contabilizados 9.331 casos e 501 óbitos. Estes registros foram somados aos dados publicados hoje”, explicou o Conselho em nota.

Ontem, também até o fechamento do boletim, Minas Gerais havia contabilizado 28 mortes. Nesta quarta, o estado atualizou os dados, registrando 314 óbitos em 24 horas.

Ao todo, o Brasil conta desde o início da pandemia 284.775 mortes em decorrência do coronavírus.

Foram registrados também 99.634 nas últimas 24 horas, somando 11.693.838 pessoas infectadas. Veja mais detalhes no Painel do Conass.

Descontrolada, Covid-19 já matou mais do que doenças como Aids e tuberculose no Brasil

 
Desde 1996, morreram 281.278 de vítimas da Aids no Brasil.
 
O número de vítimas do novo coronavírus também é maior que os 208.975 mortos pela tuberculose, os 115.931 pela doença de Chagas, os 79.648 óbitos causados pela meningite e as 66.683 vítimas da hepatite viral.
 
No pior momento da pandemia, Bolsonanro trocou o comando do Ministério da Saúde. Caiu o general da ativa Eduardo Pazuello. 
 
Nesta quarta-feira (17), o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, prometeu unificar tratamentos hospitalares para pacientes de Covid-19. Este é um dos diversos desafios que Queiroga terá adiante no Ministério da Saúde.
 
31
Dez20

Perdi meu pai para a Covid

Talis Andrade

José Berdusco Simões: vítima da Covid. Foto: Arquivo da família

Eu pedia muito pra ele se cuidar, mas ele repetia as frases do presidente em quem confiava

19
Dez20

“Se tivessem me falado dos perigos, eu não teria autorizado”, diz irmã de paciente medicada com cloroquina sem consentimento

Talis Andrade

hospital mogi.jpgPaciente foi medicada com hidroxicloroquina no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes sem o consentimento da família

 

Zemilda, 54 anos, que tinha pressão alta e sofria de obesidade mórbida e faleceu em maio, foi tratada com a droga sem que a família fosse informada da falta de eficácia e segurança do medicamento

* Hospital referência em Covid-19 em Mogi das Cruzes (SP) não registrou uso de drogas no prontuário da paciente
* Enfermeiro diz que hospitais públicos estão recebendo carregamentos grandes de cloroquina
* Ministério da Saúde não fiscaliza execução de protocolo que exige consentimento da família

por João de Mari /Agência Pública 

No dia 1º de maio deste ano, o telefone da auxiliar de enfermagem aposentada e cuidadora de idosos Zileide Silva do Nascimento, de 56 anos, tocou em sua casa em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, enquanto ela se arrumava para iniciar um fim de semana de trabalho. Do outro lado da linha, uma pessoa da equipe comandada pelo médico Renan Kenji Hanada Pereira, que atua no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, referência no tratamento da Covid-19 na região, informou o estado de saúde de sua irmã Zemilda Silva do Nascimento Gonçalves: “Ela está estável, mas entramos com o medicamento hidroxicloroquina”.

Zemilda, que passou duas semanas internada no hospital por causa da Covid-19, seguiria com o tratamento por mais três dias, segundo o informado pelo hospital. A dona de casa de 54 anos foi medicada com a hidroxicloroquina entre os dias 30 de abril e dia 4 de maio. Depois disso teve que fazer duas hemodiálises porque teve problemas nos rins. No dia 10 de maio, porém, Zileide recebeu um telefonema esperançoso: a equipe médica disse que o estado de saúde de sua irmã estava melhorando, que o pulmão ainda estava afetado, mas que os demais órgãos estavam reagindo bem, inclusive o rim.

Mas na madrugada do dia 11 o hospital ligou para Zileide comunicando o óbito de Zemilda. “Um médico só me falou que ela teve uma parada respiratória. Esse médico me disse que ela estava mal, com os rins comprometidos, completamente o oposto do que me passaram horas antes”, conta Zileide, relembrando a dor de não poder reconhecer o corpo de sua irmã, pois não tinham roupa apropriada.

“Não assinei o reconhecimento do corpo. O hospital me informou que iria verificar se tinha roupa apropriada para eu entrar em uma ala com dois pacientes mortos pela Covid-19, mas no final das contas só me pediram para assinar o atestado de óbito.” No velório, Zileide e seus familiares ainda tentaram olhar para a irmã pela última vez. Ao perguntarem aos funcionários do cemitério como eles tinham certeza de que era Zemilda dentro do caixão lacrado ouviram que bastava ler seu nome na etiqueta colada na madeira.

Na certidão de óbito de Zemilda Silva do Nascimento Gonçalves, constam como causas da morte insuficiência respiratória aguda e infecção por coronavírus, HAS (pressão alta) e hipercolesterolemia (colesterol alto). As duas últimas complicações, que Zemilda já apresentava ao ser internada, além de obesidade mórbida, estão relacionadas com problemas cardíacos, o que torna ainda mais perigoso o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, como já comprovaram estudos realizados no Brasil e em outros países. No dia 17 de junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu definitivamente as pesquisas para avaliar a eficácia da cloroquina e de sua derivada, a hidroxicloroquina, pois os resultados mostram que, além de representar riscos para pacientes, não há benefício na droga para tratar a doença provocada pelo novo coronavírus.

Zemilda era mãe solo de um menino de 14 anos que nasceu com síndrome de Down. A irmã, Zileide, que cuida do garoto enquanto ele não vai morar com a família do pai, falecido há quatro anos, diz pra ele todas as noites que Zemilda “virou uma estrelinha no céu”, como ela conta.

zemilda e filho.jpgZemilda e seu filho, agora órfão de pai e mãe, na época com 10 anos, em festa de aniversário

Desrespeitando o protocolo

O telefonema em que Zileide foi informada de que Zemilda seria medicada com hidroxicloroquina ocorreu no terceiro dia de internação. A comunicação diária com familiares de pacientes foi adotada como protocolo por muitos hospitais brasileiros durante a pandemia porque os familiares não podem acompanhar os doentes na internação. Mas, em relação ao uso da cloroquina e hidroxicloroquina, o protocolo do Ministério de Saúde não foi cumprido, de acordo com o relato dos familiares. Eles dizem que Zemilda não poderia ter autorizado o uso dos medicamentos, como exigido, porque estava entubada; nesse caso, segundo o protocolo, a família é que teria que consentir, mas alega que foi apenas comunicada do tratamento. Também não foi informada de que a droga não tem eficácia nem segurança cientificamente comprovadas, razão pela qual paciente e/ou família poderia recusar a medicação, conforme o protocolo do Ministério da Saúde.

A irmã Zileide, que já trabalhou como enfermeira em uma UTI de um hospital particular de Mogi das Cruzes, diz que nem sabia da existência desses protocolos. “No primeiro dia, o hospital me disse: ‘Sua irmã está ruim; segundo dia, está ruim; no terceiro dia, falaram que entraram com hidroxicloroquina’. Eu até pensei: ‘Só agora?’. Eu imaginava que fosse algum medicamento bom. Se tivessem me falado dos perigos, eu não teria autorizado.”

hospital mogi.jpg

Cloroquina mata. Hospital não respeita Código de Ética Médica

 

O Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, onde Zemilda foi internada e morreu, é referência ao combate da pandemia de Covid-19, sendo a unidade mais equipada das dez cidades que compõem a região do Alto Tietê. Inaugurado em 2014, em uma parceria entre o estado de São Paulo e a prefeitura, hoje é administrado pela Fundação do ABC, uma Organização Social de Saúde (OSS). A Agência Pública entrou em contato com a OSS pedindo explicações sobre o protocolo conhecido internamente como “Protocolo Covid”, que traz as normas para ministrar as drogas — uma combinação da hidroxicloroquina com antibióticos e antivirais — no tratamento do coronavírus. Solicitou também entrevistas com o diretor do hospital e com o médico responsável por atender Zemilda. A assessoria de imprensa informou apenas “não divulgar dados relacionados ao atendimento prestado aos pacientes, como determina o Código de Ética Médica”.

Bolsonaro e os protocolos da cloroquina

Bolsonaro-cloroquina-Alvorada.jpg

 

Desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pressionava sua equipe de saúde a adotar um protocolo orientador sobre o uso da cloroquina. Em maio, com a queda do segundo ministro da pasta, Nelson Teich, que era contra a recomendação do presidente assim como o anterior, Luiz Henrique Mandetta, criou-se um documento de orientação ao uso da hidroxicloroquina em pacientes com a Covid-19, que teve versão atualizada em junho, incluindo diretrizes para lidar com gestantes e crianças.

Na sexta-feira passada, porém, o Ministério da Saúde admitiu a possibilidade de rever o uso da cloroquina, também condenado pela Sociedade Brasileira de Infectologia. Bolsonaro também moderou o discurso por temor de um possível julgamento no Tribunal Penal Internacional por suas atitudes na pandemia, inclusive em relação à propaganda que fez da cloroquina, pelo risco que representa para os pacientes.

Até o momento, porém, a orientação do Ministério da Saúde recomendando a cloroquina continua sendo a base de diversos protocolos de atendimento em cidades por todo o país — Mogi das Cruzes é uma delas. Cerca de um mês antes da publicação da normatização, porém, o município já anunciava que adotaria um protocolo único para o uso da cloroquina. Segundo o prefeito Marcus Melo (PSDB), a medida foi tomada após uma decisão do Comitê Gestor do Coronavírus em conjunto com diretores clínicos dos hospitais públicos e privados. A reportagem tentou contato com o Comitê Gestor do Coronavírus, solicitando explicação sobre a medida. Até o fechamento, porém, não teve resposta.

À época, o secretário municipal de Saúde, Henrique Naufel, destacou que a indicação do medicamento ficaria a cargo do médico responsável pelo paciente. Mas, segundo orientações, a prescrição seria feita assim que o paciente fosse internado com o objetivo de prevenir eventuais complicações e reduzir o número de casos que precisem de UTI. “Desde que haja prescrição médica e consentimento do paciente ou da família, a cloroquina já tem sido utilizada”, explicou Naufel.

Mas nem as secretarias municipais nem o Ministério da Saúde estão fiscalizando o uso da droga, o que preocupa sindicatos e entidades de profissionais. Victor Vilela Dourado, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), diz que não cabe à entidade regular e fiscalizar as decisões dos médicos.

“O Simesp é contra orientações que não tenham comprovação científica. No caso do uso de hidroxicloroquina em pacientes de Covid-19, vale ressaltar que, segundo os pareceres da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Imunologia, pode ocorrer malefícios graves à saúde dessas pessoas”, afirmou.

Também não há canais para os profissionais comunicarem à Vigilância Sanitária ou outras autoridades o uso de hidroxicloroquina na Covid-19. Ou seja, em todo o Sistema Único de Saúde (SUS) a única maneira de saber se o medicamento foi prescrito a algum paciente com coronavírus é pelo prontuário médico.

“O que está acontecendo com as normas do governo federal para o uso da hidroxicloroquina é que o médico fica desobrigado de avisar qualquer autoridade sanitária. Mas mesmo assim ele tem que avisar a família ou paciente, e isso está na própria normatização”, diz a médica e diretora da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Denize Ornelas.

Denize lembra que, além do descontrole no uso do medicamento e da impossibilidade de saber exatamente como o protocolo está sendo executado, medicar pacientes com hidroxicloroquina sem autorização pode levar o profissional a responder processos éticos no Conselho Federal de Medicina (CFM). “Por mais que o protocolo do governo federal não tenha força de lei, não me obrigando a prescrever nada tanto para Covid-19 quanto para outra doença, porque meu exercício profissional não pode ser restrito por nenhum protocolo, o documento está tendo um valor para respaldar os médicos que querem fazer isso”, avalia.

A médica explica que uma possibilidade para a manipulação da hidroxicloroquina sem autorização do paciente ou família seria o médico declarar o chamado “uso compassivo” — reservado a doentes em estado grave e com prognóstico ruim. No entanto, a ação deve estar detalhada no prontuário do paciente.

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O prontuário de Zemilda

A Pública constatou que o prontuário médico da paciente assinado pelo médico Renan Kenji Hanada Pereira, a que teve acesso, não registra informações sobre seu consentimento — ou de seus parentes — ao uso da hidroxicloroquina. Procurado pela Pública por telefone, o dr. Hanada disse que não se lembra do caso da paciente e que todas as dúvidas referentes aos protocolos devem ser tratadas com o hospital. A reportagem enviou o prontuário para que ele analisasse o conteúdo, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.

zemilda familia.jpgAs irmãs posam ao lado do pai em foto de família; a esquerda (de blusa roxa), Zileide; sua irmã que também foi hospitalizada pela Covid-19 (de amarelo); Zemilda, que morreu após complicações da doença, está sentada no chão (de azul)


O prontuário de Zemilda revela o descumprimento também de um protocolo da Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes, qualificado no próprio documento como fundamental para “iniciar o tratamento antes do agravamento do caso e, desta forma, reduzir a necessidade de internação e de cuidados de terapia intensiva”.

Elaborado apenas em maio deste ano, o protocolo orienta as Unidades de Pronto Atendimento (Upas) 24 horas e Unidades Básicas de Saúde (UBS) a encaminhar os pacientes suspeitos de Covid-19 diretamente ao Hospital Municipal de Mogi das Cruzes. Antes de ser internada, porém, Zemilda procurou atendimento médico duas vezes: no dia 23 de abril, ela foi à Upa Oropó com sintomas de febre, coriza e tosse. Foi medicada e voltou para casa. No dia 27 de abril, retornou ao posto sentindo falta de ar. Assim como da primeira vez, recomendaram que voltasse para casa.

Só no dia 28 de abril, quando foi socorrida por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), acionada pela irmã Zileide, a dona de casa foi levada ao Hospital Municipal de Mogi das Cruzes. Entrou na unidade às 20h44.

“Me deixaram ver minha irmã de longe, e ela estava sentada em uma poltrona, ainda dizendo que estava com muita falta de ar. Era 3 e pouco da manhã e ela ainda estava lá”, relembra a enfermeira.

A internação só ocorreu cerca de 12 horas após a entrada no hospital, na manhã do dia 28 de abril. “Me pediram para subir junto para o quarto, o que achei um protocolo super errado, porque subi dentro do elevador com uma cama enorme, três auxiliares e uma mulher que parecia enfermeira. Eu fui bem próxima à minha irmã, que estava com a Covid-19”, conta Zileide.

Além de Zemilda, ao menos cinco pessoas de sua família testaram positivo para a Covid-19 à época. Uma de suas irmãs também teve que ser internada.

Cloroquina a rodo nos hospitais públicos

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O enfermeiro Rodrigo Romão, profissional que esteve na linha de frente em hospitais de campanha administrados pela mesma OSS do Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, acredita que os carregamentos de cloroquina e hidroxicloroquina que estão chegando aos hospitais acabam impulsionando as prescrições feitas pelos profissionais de saúde, também pressionados pelos administradores.

Até maio deste ano, que são os dados mais recentes do governo, o Ministério da Saúde adquiriu 3 milhões de comprimidos de cloroquina. À época, o órgão anunciou que estaria negociando com o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEX), que já tinha produzido 1 milhão de comprimidos e colocado à disposição da pasta a produção de novas unidades do medicamento. Até aquele mês, foram distribuídos 2,9 milhões de comprimidos de cloroquina em três envios diferentes para os estados com base no número de casos confirmados apresentados nos boletins epidemiológicos do próprio ministério.

“O Ministério da Saúde vai mandar cloroquina para todo lugar, porque compraram muitos remédios. Hospitais particulares de referência como o Albert Einstein, por exemplo, não vão se queimar por causa de uma declaração do presidente sobre um medicamento sem comprovação de eficácia. Já nos hospitais públicos parecem adotar protocolos para empurrar a medicação nos pacientes”, diz ele, que também é o diretor do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo e representante da subsede da entidade em Mogi das Cruzes.

O hospital de elite Albert Einstein, localizado em São Paulo, epicentro da doença no Brasil, em 25 de junho orientou que seus médicos não prescrevessem cloroquina e hidroxicloroquina. O Einstein foi a unidade que admitiu o primeiro paciente com sintomas da Covid-19 no país.

“Se o próprio governo contrata as empresas para que elas façam o atendimento sem serem obrigadas a abrir os dados, ele dá total autonomia para fazer a administração do jeito que bem entendem”, diz Kátia Santos, diretora do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúdeSP) da região do Alto Tietê. “As Organizações Sociais que administram os hospitais de campanha têm adotado a prática de prescrever a cloroquina”, afirma.

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A batalha pró-cloroquina

A cloroquina é utilizada há muitos anos para a prevenção e tratamento da malária, e sua derivada, a hidroxicloroquina, indicada para o tratamento de algumas doenças reumáticas como artrite reumatoide e lúpus. Em março, após pesquisadores chineses demonstrarem, em laboratório, que essas drogas tinham a possibilidade de inibir a replicação do coronavírus, seu uso foi encampado como causa pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, que fizeram propagandas públicas do medicamento. Trump chegou a dizer que estava tomando a droga preventivamente. Já Bolsonaro, após ter declarado em 7 de julho passado que testou positivo para a Covid-19, disse estar usando o medicamento e se “sentindo muito bem”.

A batalha se transferiu para as redes sociais, onde apoiadores de Bolsonaro, inclusive médicos pró-cloroquina, defendem abertamente o seu uso e de sua derivada, apesar do parecer contrário de cientistas de todo o mundo. No dia 3 de julho, o site Covid Tem Tratamento Sim, que divulgava o tratamento com um coquetel de medicamentos, incluindo a hidroxicloroquina, como cura para a Covid-19 (com base em uma suposta análise feita por uma comunidade médica internacional), saiu do ar depois de uma reportagem publicada no Uol mostrando que, dos 17 profissionais citados no site, ao menos três disseram não ter conhecimento do uso de sua imagem. A página retornou ao ar em 7 de julho sem citar os nomes das medicações e dos profissionais que estariam dispostos a receitar as drogas.

A obsessão bolsonarista pela cloroquina atrapalhou o trabalho de médicos que estão na linha de frente do atendimento à Covid-19. Uma pesquisa realizada pela Associação Paulista de Medicina (APM), publicada no dia 7 de julho, apontou que 69,2% dos médicos afirma que notícias falsas, informações sensacionalistas ou sem comprovação técnica são inimigos que hoje enfrentam simultaneamente à pandemia. Outros 48,9% falam que, por causa das fake news, pacientes e familiares pressionam por tratamentos sem comprovação científica, incluindo drogas como cloroquina e hidroxicloroquina.

Uma pesquisa do Instituto Ipsos, que consultou formadores de opinião e jornalistas de 14 países da América Latina, publicado em abril deste ano, revelou que o Brasil apresenta um dos piores índices de “bom exemplo” durante a crise do coronavírus, com apenas 14%, ficando à frente apenas do México, com 12%, e Venezuela, com 11%.

Para Pedro Tourinho, professor de saúde da família da PUC-Campinas e médico sanitarista especializado em medicina preventiva e social, o principal responsável pela má performance brasileira no combate a pandemia é o governo, especialmente o presidente da República, que promoveu a desinformação entre os brasileiros com seus discursos sobre a “gripezinha” e a cloroquina, e com atos de desrespeito público a normas de prevenção da doença.

“O principal prejuízo, na minha opinião, foi que o Bolsonaro boicotou as orientações de isolamento social. A cloroquina foi parte desse combo, porque ele vendeu às pessoas uma falsa cura, como bom charlatão que ele é. Isso fez com que muitas pessoas topassem se expor a um risco maior, e isso indiscutivelmente levou a dezenas de milhares de mortes.”

Até o fechamento desta reportagem, o Brasil registrava mais de 2 milhões de casos confirmados da Covid-19 e quase 80 mil mortes decorrentes do vírus.

Ajude-nos a investigar

Queremos sua ajuda para investigar o uso de cloroquina para tratar a Covid-19. Conte sua história através do nosso questionário! Basta clicar aqui.

 

17
Dez20

Covid-19. Número de mortes fica acima de 900 pelo segundo dia seguido, o que não ocorria desde setembro

Talis Andrade

Brasil registrou recorde diário de casos em 24 horas desde o início da pandemia: mais de 70 milBrasilien Sao Paulo | Coronavirus | Gräber

 

DW - O Brasil registrou oficialmente 70.574 casos confirmados de covid-19 e 936 mortes ligadas à doença nesta quarta-feira (16/12), segundo dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) e pelo Ministério da Saúde. É o maior número de casos contabilizados em um período de 24 horas desde o início da pandemia.

O recorde anterior havia sido registrado em 29 de julho, quando 69.074 casos foram registrados, segundo dados do Ministério da Saúde.

Com isso, o total de infecções identificadas no país subiu para 7.040.608, enquanto os óbitos chegam a 183.735.

Também foi segundo dia seguido em que o país registrou mais de 900 mortes. Desde meados de setembro, o país não registrava tantas mortes por dois dias consecutivos.

O Conass não divulga número de recuperados. Na terça-feira, o Ministério da Saúde apontou que 6.132.683 pacientes se recuperaram da doença.

Diversas autoridades e instituições de saúde alertam, contudo, que os números reais devem ser ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da subnotificação.

A taxa de mortalidade por grupo de 100 mil habitantes subiu para 87,4 no Brasil, a 15ª mais alta do mundo, quando desconsiderados os países nanicos San Marino e Andorra.

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais infecções, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam mais de 16,8 milhões de casos, e da Índia, com 9,9 milhões. Mas é o segundo em número absoluto de mortos, já que mais de 306 mil pessoas morreram nos EUA.

Ao todo, mais de 73,9 milhões de pessoas já contraíram o coronavírus no mundo, e 1,64 milhão de pacientes morreram em decorrência da doença.

28
Nov20

Virgem santa, marido de Marta Suplicy diz que Boulos "arrumou Covid para fugir do debate"

Talis Andrade

Marta Suplicy - 28/04/2015 - Poder - Fotografia - Folha de S.Paulo

 

 

“Valha Me Deus, Senhor São Bento, Boulos arrumou Covid para fugir de debate… Seria trucidade e desmascarado… Eita Boulos picareta”, escreveu ele no grupo Política Viva Políticos.

A informação foi divulgada por Vera Magalhães no site BRPolítico, do Estadão, que revelou prints da coversa. 

Eleita senadora, Marta Suplicy tira alguns dias de folga na Bahia com novo  namorado : Blog do Eliomar

 Ele tá de mão boba e pezinho direito. Marta de corpo inteiro desfilando pra Covas

 

23
Nov20

Mais uma ilegalidade no desgoverno Bolsonaro: diretor do Banco Central mora nos Estados Unidos

Talis Andrade

Fábio Kanczuk

 

O diretor de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, mora com a família em Boston, nos Estados Unidos, desde março. Ele se mudou (para a matrix) por conta da pandemia do novo coronavírus (desculpa safada e esfarrapada para quem vive no luxo), apesar do país ser o principal afetado pelo vírus no mundo.

Segundo coluna da Carla Araújo no UOL, a ausência de Kanczuk tem incomodado alguns membros da instituição que, nos bastidores, alertam que seria importante ter contato mais direto com o executivo (para um encontro mais íntimo, comprar uma passagem área. Aliás quem paga as despesas - ele tem auxílio moradia? auxílio transporte? auxílio alimentação? o caríssimo auxílio saúde? - de Kanczuk?

Ilegalidade

Morar no exterior é ilegal, pois servidor público só pode sair com exposição de motivos, em viagem oficial, com a autorização direta de Ministro de Estado ou Presidência da República.

Kanczuk também é do Comitê de Política Monetária (Copom), que decide sobre a taxa de juros do país, como a Selic.

Procurado para comentar o fato de o diretor estar fora do país por tanto tempo, o BC afirmou que segue com mais de 90% do seu quadro em trabalho remoto e ainda não há previsão de retorno ao presencial.

Assim, Kanczuk tem feito um bate e volta entre Brasília e Boston e já gastou mais de R$ 1 mil (?) em viagens pagas (informa o portal 247) pelo BC, um órgão público.

Senador Irajá Abreu & o extinto crime menor de falta de decoro

 

R$ 1 mil gasta por noite aquele pimpolho senador porque a mãe é senadora, praticante do que chamo de nepotismo eleitoral. 

Foi visitar a genitora lá dele, Kátia Abreu, internada em São Paulo, com coronavírus, e aproveitou para uma farra numa boite de nome tristemente famoso Café de la Musique. Em uma boate com o mesmo nome, em Santa Catarina, o conquistador André de Camargo Aranha praticou o famoso 'estupro culposo à brasileira', com Mariana Ferrer, uma jovem então virgem, de 20 anos, contratada para promover a festança noturna nas páginas sociais de Florianópolis. 

Diretoria de Política Econômica

A Diretoria de Política Econômica, que Kanczuk chefia, é responsável pela realização de pesquisas e a elaboração do sistema de metas de inflação, ponto importante da política neoliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, que apesar de ter aprofundado a crise econômica (desemprego, etc.) tem buscado manter uma baixa inflação.

Será que Kanczuk tem nacionalidade estadunidense e foi lá pra Bosta votar no Trump, candidato de Bolsonaro? Assim sendo, viajou com permissão presidencial. No mais, não será o primeiro caso de estrangeiro comandar bancos, empresas estatais deste Brasil colônia, republiqueta de bananas do Terceiro Mundo pós-golpe contra Dilma. 

Meu Abrigo

Esta música de Rodrigo Melim parece que foi composta para agradar Kanczuk (sei que não, mas o grande Simão acha que sim):

Uh, uh, uh, uh, uh
Uh, uh

Desejo a você
O que há de melhor
A minha companhia
Pra não se sentir só

O sol, a lua e o mar
Passagem pra viajar
Pra gente se perder
E se encontrar

Vida boa, brisa e paz
Nossas brincadeiras ao entardecer
Rir à toa é bom demais
O meu melhor lugar sempre é você

Você é a razão da minha felicidade
Não vá dizer que eu não sou, sua cara-metade
Meu amor, por favor, vem viver comigo
O seu colo é o meu abrigo
Uh, uh, uh, uh
Uh, uh

Quero presentear
Com flores e Iemanjá
Pedir um paraíso
Pra gente se encostar

Uma viola a tocar
Melodias pra gente dançar
A benção das estrelas
A nos iluminar

Vida boa, brisa e paz
Trocando olhares ao anoitecer
Rir à toa é bom demais
Olhar pro céu, sorrir e agradecer

Você é a razão da minha felicidade
Não vá dizer que eu não sou, sua cara-metade
Meu amor, por favor, vem viver comigo
O seu colo é o meu abrigo

Uh,uh,uh,uh

Meu abrigo
Uh,

O seu colo é o meu abrigo

Uh,

O meu abrigo

uh, uh, uh, ah
aaaaaaah

Você é a razão da minha felicidade
Não vá dizer que eu não sou sua cara-metade
Meu amor por favor, vem viver comigo
No seu colo é o meu abrigo

Uh,uh,uh,uh

Meu abrigo

Uh

O seu colo é o meu abrigo

Uh,uh,uh,uh
Uhieeeee,

No seu colo é o meu abrigo

 

 
13
Nov20

Com frase sobre “país de maricas”, Bolsonaro mistura homofobia e indecência, diz imprensa internacional

Talis Andrade

 

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Texto RFI
 

As declarações recentes feitas pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro sobre a pandemia de Covid-19 suscitaram reações na imprensa internacional. Jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão de vários países repercutiram a maneira como o chefe de Estado minimizou as consequências da crise sanitária durante um evento oficial usando uma frase homofóbica.

A expressão “Tem que deixar de ser um país de maricas” está dando a volta ao mundo. O canal de televisão francês LCI resumiu o episódio dizendo que “presidente brasileiro recorreu à homofobia para incitar a população a abandonar as medidas de precaução em vigor no resto do planeta”, enquanto a revista francesa L’Obs publica em seu site que o chefe de Estado “minimizou mais uma vez a pandemia de Covid-19, que matou mais de 162 mil pessoas no país”. Já o jornal italiano Giornali di Sicilia martela que essas “palavras fortes” de Bolsonaro “podem gerar polêmica em nível internacional”.

No Reino Unido, o jornal The Guardian ressalta que a declaração de Bolsonaro sobre o país de ‘sissies' foi feita “em um evento onde poucos participantes usavam máscara”. Ainda nas terras da rainha, até o tabloide britânico Daily Mail, que nem sempre tem papas na língua, se policiou ao relatar a derrapagem do líder brasileiro. Com o título “a country of f*gs”, o jornal explica que Bolsonaro “usou o termo ofensivo para gays em um discurso no palácio presidencial”.

A versão mexicana da revista Forbes explica que as declarações de Bolsonaro foram feitas durante um evento sobre o setor de turismo, “um dos mais atingidos pela pandemia Covid-19 no país”. A publicação ressalta que o presidente enfatizou o impacto econômico do vírus e informa que o chefe de Estado reclamou daqueles que “estão começando a intimidar o povo com um eventual segunda onda”.

"Gripecita"

O jornal colombiano El Tiempo dá em titulo que “Bolsonaro fez comentários homofóbicos e novamente subestimou a pandemia”. O diário ressalta que o presidente “já havia chamado a atenção ao comemorar, como uma vitória pessoal, a interrupção no Brasil da fase de estudos da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac” e lembra que o presidente chamou a Covid-19 de "gripecita" e que, desde então, “tem mostrado sua posição contra medidas de confinamento e contra o fechamento de estabelecimentos e locais públicos”.

O britânico Daily Mail também lembrou a declaração sobre gripezinha e disse que várias vezes Bolsonaro “condenou e histeria em torno da Covid-19”.

Mas o que realmente chamou a atenção da imprensa internacional foi a dimensão homofóbica do discurso.  O jornal francês Le Parisien diz que essa não é primeira gafe do líder brasileiro, “homofóbico assumido”.

O tabloide lembra as declarações feitas por Bolsonaro à revista Playboy em 2011, quando ele disse que seria incapaz de aceitar um filho gay e que “preferia vê-lo morto”. “Bolsonaro também multiplicou as frase machistas”, martela Le Parisien, que ressuscita as declarações feitas pelo presidente sobre o nascimento de sua filha – “um momento de fraqueza”, segundo o presidente.

“Sábio Bolsonaro”

A rádio France Culture diz que a pandemia “revela os piores aspectos de Jair Bolsonaro”. Em seu site, a emissora fala da reação efusiva do presidente diante da interrupção dos testes de vacinas no Brasil, “enquanto o resto do mundo se entusiasma com os bons resultados da vacina da Pfizer”.

Como os demais veículos de comunicação internacionais, a rádio, uma das mais apreciadas da elite intelectual francesa, diz que o presidente brasileiro lamentou as mortes relacionadas ao coronavírus, mas declarou que "todos nós vamos morrer um dia": um bom argumento do “sábio Bolsonaro”, ironiza o jornalista, ao vivo. Reproduzindo trechos de matérias publicados no Brasil, France Culture diz ainda que, com esse episódio, Bolsonaro mistura homofobia e indecência.

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08
Nov20

Amapá: “Ou a gente corre risco de pegar o corona ou corre risco de ficar com fome”

Talis Andrade

 

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Nosso repórter conta como os moradores têm dificuldades para dormir, conseguir combustível, água potável e até dinheiro em espécie diante do apagão de energia que já dura cinco dias

 

Por Dyepeson Martins /Agência Pública 

Em um dia comum, a temperatura de quase 40 graus e as medidas restritivas para conter a proliferação da covid-19 seriam mais do que suficientes para evitar a aglomeração de pessoas nas ruas do Amapá. Contudo, apesar da preocupação com a saúde e o desconforto provocado pelo calor, a população precisou escolher entre correr os riscos de contaminação ou atender necessidades básicas, como comer e dormir. 

A escolha desagradável se deu por conta do cenário de caos que se instalou no estado na última terça-feira (2), após o apagão que deixou 89% da população sem energia elétrica — algo entre 765 mil pessoas. Conseguir água potável, combustível, sinal de celular e dinheiro em espécie é um desafio para as pessoas que moram em Macapá e nos outros 12 municípios afetados pela maior crise no sistema elétrico dos últimos anos na região. 

O apagão aconteceu dois dias após o Governo do Amapá manter — por mais sete dias — algumas medidas restritivas no estado em função do aumento de casos e internações por covid-19.

“Ou a gente corre risco de pegar o corona ou corre risco de ficar com fome”, disse a autônoma Deura Costa, que estava há mais de sete horas em uma fila para tentar sacar dinheiro em um dos poucos caixas-eletrônicos que funcionam na capital. “Tenho em casa minha mãe de 81 anos e um neto de dois anos, mas na minha geladeira não tem nada”, lamentou. 

O relato da autônoma reflete a realidade de milhares de moradores desesperados para conseguir dinheiro e comprar, além de comida, materiais de higiene e itens indispensáveis neste período, a exemplo de lanternas, pilhas e cubas de isopor para armazenar alimentos. Cartões de débito e crédito podem ser usados em alguns supermercados que funcionam a base de gerador na região central de Macapá e Santana, cidade localizada a 17 quilômetros da capital. Mas para fazer uma compra simples – de um quilo de arroz, por exemplo – é necessário ter paciência e enfrentar uma fila imensa.

Passar tantas horas na busca por um serviço é uma realidade que todos precisaram se adaptar, inclusive eu. Para abastecer o carro que usei na produção da reportagem, passei cinco horas na fila de um posto de combustível, onde conheci um jovem de 25 anos, que preferiu não se identificar. Sem máscara e em tom de revolta com a atual situação, ele disse ter esquecido da pandemia para sobreviver. “A gente tá mais preocupado em não morrer de fome e de sede do que com o vírus”, ressaltou. 

Por conta do longo tempo de espera, os motoristas preferem ficar com os veículos desligados para ir empurrando os carros e motos para frente até chegar na bomba de combustível. “É um jeito de evitar o desgaste do carro nesse liga e desliga e ainda economizar o pouco combustível que a gente tem”, explicou o vendedor Carlos Gonçaves, de 43 anos, que utiliza o carro para o trabalho. “A gente não consegue táxi e nem motorista de aplicativo. E se acabar a gasolina de casa e a gente precisar ir, sei lá, para o hospital?”.

Para quem já está dentro do hospital a preocupação é outra. A rede particular funciona com geradores e a rede pública foi energizada em uma medida de emergência adotada pela Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA). Mesmo assim, o fornecimento ainda é problemático. 

“Só hoje foram quatro vezes [que o fornecimento de energia foi interrompido]. Ela vai e volta [a energia elétrica] e a gente fica preocupado com os pacientes”, contou uma enfermeira do Hospital de Emergências de Macapá, onde também são atendidas pessoas diagnosticadas com covid-19. 

“No dia [que iniciou o apagão] foi difícil para todo mundo. A gente ‘tava’ fazendo manualmente o oxigênio porque o equipamento estava desligado”, explicou a enfermeira, sobre o processo para ambuzar oxigênio por meio de um equipamento manual para estabilizar um paciente. 

Em frente ao Hospital de Emergências também encontrei a Luceide Serrano. Mesmo tendo 70 anos e, com isso, fazendo parte do grupo de risco de contaminação em meio a pandemia, ela não conseguiu ficar em casa por conta da preocupação com irmão, internado por causa da covid-19.

“Ele precisa de uma UTI e até agora não conseguimos”, contou a aposentada sobre a busca por uma vaga no Hospital Universitário (HU), onde são concentrados os atendimentos de alta complexidade para os pacientes diagnosticados com o novo coronavírus.

 “Eu não sei se a energia tá comprometendo o atendimento dele, eu não sei. Mas a gente fica preocupado, né?”, indagou a idosa, reclamando da falta de informações para os familiares dos pacientes.

O último boletim do Governo do Estado indica mais de 52 mil casos confirmados de covid-19 e 751 mortes. Atualmente, em isolamento hospitalar nas redes pública e privada são 202 pacientes, sendo 128 casos confirmados e 74 suspeitos.

À noite, a iluminação no hospital é da porta para dentro. Nas ruas ao redor, a escuridão é quase que total se não fosse pelos faróis dos carros, lanternas e velas dos moradores. Com uma dessas velas nas mãos, Eliezer Bezerra me recebeu na porta da casa dele, no Centro de Macapá. Aos 65 anos, ele diz só ter presenciado uma situação semelhante na infância. “Naquela época era tudo muito difícil. Mas agora?”. 

Eliezer, como os outros moradores, tem dificuldade em dormir à noite. No Amapá, ar condicionado e ventilador são necessidades, não luxo. O clima quente e úmido faz qualquer pessoa suar muito em um lugar sem refrigeração. Mesmo com todas as janelas de casa abertas, ter uma noite confortável é impossível. “Tô me acostumando a dormir só de ‘manhãzinha’, quando fica menos quente”, relatou o aposentado. 

Hotéis que possuem gerador esgotaram todas as vagas ainda na primeira noite de apagão. A administração de um dos hotéis com o qual entrei em contato, me informou ter montado “um serviço diferenciado para abrigar novos hóspedes”. Pagando uma taxa diária de R$ 100, uma pessoa pode dormir em um colchonete — que precisa ser comprado pelo hóspede – em um salão com dezenas de outras pessoas, mesmo em período de pandemia.  Até a oferta deste serviço está esgotada. 

“Não daria para pagar um serviço de hotel para toda a minha família, mesmo que tenhamos um salário razoável”, lamentou a dona de casa Zânia Ferreira. “Melhor ficar no calor em casa, do que ficar aglomerado e pegar covid-19 depois”, disse a mulher, que faz parte do grupo de risco por ter feito um transplante de rim e, consequentemente, tem imunidade baixa por causa das medicações para que o organismo não rejeite o órgão transplantado. 

Sem água, sem bateria e sem sinal

As tomadas dos supermercados e dos dois shoppings de Macapá que funcionam com sistemas isolados estão cada vez mais disputadas. Uma única tomada chega a ser usada por até cinco pessoas, que se acomodam do jeito que podem: sentadas no chão, escoradas em colunas e, quando não há alternativa, o jeito é ficar em pé esperando o celular carregar. 

“Foi o jeito que encontrei para tentar entrar em contato com a família e meus amigos”, contou o professor Clauber Rosivan, de 38 anos. Ele passou uma manhã inteira em um shopping no Centro de Macapá na esperança de, após carregar o telefone, conseguir o sinal da operadora para fazer ligações. “São poucas pessoas com quem eu consegui falar. Poucas mesmo. Dá uma aflição não saber se todos estão bem.”

Poucos moradores estão tendo o fornecimento regular de água da Companhia de Água e Esgoto do Amapá (CAESA). Mesmo assim, a água da torneira não é a ideal para o consumo. Por isso, milhares de pessoas — sem transporte próprio — precisam andar quilômetros para comprar garrafões de água mineral em distribuidoras e minimercados.

“A nossa água encanada vem meio barrenta, então não tem outro jeito. Tenho um neném em casa e ele precisa de água mineral”, destacou a dona de casa Ediane Gemaque, que precisou ir para outro bairro andando na busca por água para ela e a família. 

O apagão

O apagão foi consequência de um incêndio em uma subestação da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), por volta das 21h de terça-feira (2), na Zona Norte de Macapá. Os três transformadores da subestação foram danificados, provocando a interrupção no fornecimento de energia elétrica.

Na sexta-feira (6), o governador Waldez Góes (PDT) assinou um decreto que estabeleceu situação de emergência no Amapá. O Ministério de Minas e Energia (MME) lançou três planos para normalizar o fornecimento de energia elétrica em até dez dias.  A curto prazo, um dos transformadores – o menos danificado – passa por reparos e, caso o resultado seja positivo, é previsto o restabelecimento de até 70% do fornecimento. Os testes iniciaram na noite de sexta-feira e no sábado alguns bairros de Macapá tiveram o fornecimento restabelecido. Porém, com os problemas de comunicação no estado, não é possível precisar a quantidade de bairros onde houve a normalização.

Um segundo transformador foi transportado do município de Laranjal do Jari – município a 170 quilômetros de Macapá – para a capital. Os testes, segundo o MME, devem iniciar neste domingo. Um terceiro transformador será adquirido de Boa Vista (RR) e deve ser instalado em até 30 dias. 

Conforme o plano apresentado pelo Governo Federal, o funcionamento de dois transformadores será suficiente para garantir 100% do fornecimento de energia elétrica. 

Moradores que conseguem ligação para a CEA são informados que será iniciado um “rodízio de fornecimento” de energia de seis em seis horas nos bairros do estado. O Governo do Amapá montou o Comitê de Crise para amenizar os impactos provocados pelo apagão. São abastecidos a cada 6 horas os geradores dos hospitais, além de um abrigo de idosos e o sistema penitenciário, ainda segundo o Governo do Amapá. 

Fornecimento nunca foi bom

A CEA é uma empresa de economia mista, tendo como o principal acionista o Governo do Amapá. O processo de federalização iniciou em 2013. Desde então, o Governo Federal é o responsável pela presidência, diretorias de administração e financeira, além de indicar os gestores de Gestão e Planejamento e Expansão.

A federalização foi uma saída para a empresa que estava ameaçada de caducidade após contrair uma dívida de quase R$ 1,2 bilhão com a União no acumulado de uma década. Foi necessário um empréstimo com a Caixa Econômica Federal para o pagamento da dívida. 

Mas o fornecimento de energia elétrica na região nunca foi satisfatório para a população. São frequentes as interrupções, principalmente, no período chuvoso. Moradores convivem com eletrodomésticos queimados por causa das quedas de energia, além de outros problemas.

“Nunca foi bom. Três, até quatro vezes por semana a gente fica sem energia em casa. A gente fica uma, duas horas e, às vezes, até mais”, disse a jovem Thais Pelaes, que mora na Zona Sul do município de Santana. “Nunca foi fácil, mas agora essa situação já tá precária demais.”

24
Out20

Imprensa internacional repercute 'crime da cueca' de senador pró-Bolsonaro

Talis Andrade

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por Márcia Bechara /RFI
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"Com a mão nas calças", diz a revista norte-americana Newsweek. "Dinheiro entre as nádegas", exclama o jornal francês Le Figaro. "Dinheiro nas cuecas", titula o jornal português Público. "Propina na Bunda", detalha o britânico The Guardian. A imprensa internacional não se cansa de se surpreender com os "plot twist" de personagens do governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Nesse caso, os jornalistas descrevem, às vezes em detalhes minuciosos, o misterioso aparecimento de R$ 30 mil "entre as nádegas" do senador e liderança bolsonarista no Congresso, Chico Rodrigues.

"Senador brasileiro é apanhado com dinheiro na roupa de baixo [underwear, em inglês] durante investigação de fundos desaparecidos da Covid", titula a revista Newsweek nesta sexta-feira (16). Segundo a publicação, o senador brasileiro bolsonarista Chico Rodrigues teria sido "ousado" ao "supostamente tentar esconder fundos do governo". "A polícia encontrou R$ 30.000 em dinheiro escondidos na cueca do líder do estado de Roraima, quando procurava por dinheiro desaparecido para combater o coronavírus", escreve a revista.

Newsweek vai mais longe e cita a publicação portuguesa Revista Crusoé, que teria dado uma descrição mais "vívida" sobre a história. "Para dar uma ideia de como a situação era absurda, algumas das notas recuperadas estavam manchadas com fezes", publica a revista, acrescentando que "foi uma cena de considerável embaraço".

Mais pudico, o jornal conservador francês Le Figaro titula: "Brasil: maços de notas encontrados na cueca de um senador". "Eleito há dois anos prometendo tolerância zero para a corrupção, o líder de extrema direita [Jair Bolsonaro] foi atingido por escândalos que afetaram seus parentes, incluindo seu filho mais velho, Flavio, também senador", lembra o jornal francês, utilizando informações pré-divulgadas pela agência AFP. "Este último é acusado de ter contratado empregados fantasmas para desviar dinheiro público quando foi deputado pelo Estado do Rio de Janeiro, de 2003 a 2018. O próprio chefe de Estado é alvo de investigação por suposta interferência em investigações da Polícia Federal visando seus familiares", relembra o jornal.

 

#PropinaNaBunda

Incisivo, o britânico The Guardian vai direto ao ponto: "Polícia encontra dinheiro escondido entre as nádegas de aliado de Bolsonaro". "Os brasileiros compartilharam a notícia nas redes sociais com a hashtag viral #PropinaNaBunda (A Bribe up the Bum, em inglês). Muitos sugeriram que o achado seria lembrado 'nos anais da história' ", diverte-se o jornal, com o típico humor inglês. 

Já o jornal português blico lembra que "[o senador Chico Rodrigues] está há mais de 30 anos na política, 20 dos quais como deputado federal e era um companheiro frequente de Bolsonaro". "A relação entre os dois parlamentares era tão próxima que Bolsonaro chegou a descrever esse período de camaradagem na Câmara dos Deputados como 'quase uma união estável'", publica.

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