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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

11
Fev20

Cenário de fuga e morte na Bahia do capitão Adriano chefe da mais antiga e poderosa milícia do Rio de Janeiro

Talis Andrade

Assista como ficou o interior da casa após tiroteio que matou suspeito de executar MarielleESPLANADA, BA, 10.02.2020 - ADRIANO-NÓBREGA - Sítio onde ocorreu operação que matou Adriano Nóbrega, um ex-capitão da Polícia Militar, acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio de Janeiro. Foragido há mais de um ano, o miliciano estava escondido no sítio do vereador Gilson Batista Lima Neto, conhecido como Gilsinho da Dedé, do PSL. A operação foi realizada em conjunto entre o Bope da Bahia e inteligência da polícia do Rio. Polícia diz que esconderijo de miliciano ligado a Flávio Bolsonaro tinha 4 armas e 13 celulares. (Foto: Raphael Muller/Folhapress)

O esconderijo do ex-capitão do Bope do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega, na cidade de Esplanada (BA), expõe uma série de dúvidas sobre a rede que teria ajudado o miliciano e sobre a própria versão oficial da morte dele.

Ele estava inicialmente abrigado em uma fazenda que possui um parque de vaquejada, e depois fugiu, na noite do sábado, em um carro, por 8 km, até um sítio onde foi cercado.

Conforme a polícia, a operação envolveu cerca de 70 agentes do Bope da Bahia. Os militares cobriram toda a área, para tentar impedir uma possível fuga do miliciano.

Na abordagem à casa, em uma área isolada, três PMs formaram um triângulo. O primeiro policial, na frente, segurou um escudo e arrombou a porta. A polícia informou que, em seguida, Adriano atirou e houve confronto.

O ex-capitão da PM foi atingido por dois tiros. 

Escreve o jornalista Fernando Brito:

"Os relatos sobre a operação são inacreditáveis.

Imaginar que um especialista em confronto armado, como Adriano, dispararia de peito aberto contra quatro homens armados de escudos e fuzis é menos crível do que se ele praticasse o suicídio. Tiros de fuzil, a cinco ou seis metros de distância, teriam atravessado o corpo e marcado as paredes ou, ao menos, as deixariam salpicadas de sangue.

Isso sem contar a história de um homem que chega a um lugar – sozinho – e se diz comprador de cavalos, recebe hospedagem de um promotor de vaquejadas e, que é por ele obrigado a levá-lo a uma casa semiabandonada de um vereador…

Informa a Folha: 

Segundo a versão oficial, Adriano tinha em sua mão um pistola austríaca 9mm e foi baleado após reagir a tiros contra a polícia. A reportagem identificou apenas uma marca de bala dentro da casa, em uma janela da madeira. 

Segundo a reportagem do jornal Metro, o cenário da casa no sítio indica certo nível de organização de Adriano ao se dirigir ao local. Na mesa da cozinha, havia uma garrafa térmica com café e pães "relativamente frescos". Em um dos quartos havia um colchão e o outro servia como um depósito de sal para animais.

O secretário estadual da Segurança Pública da Bahia, Maurício Teles Barbosa, defendeu o que chamou de "profissionalismo: Estávamos diante de uma pessoa de alta periculosidade, envolvidos em diversos crimes e com treinamento de tiro, pois chegou a ser um policial de operações especiais. Óbvio que queríamos efetuar a prisão, mas jamais iríamos permitir que um dos nossos ficasse ferido ou saísse morto do confronto".

Apesar de a rota de fuga indicar que Adriano recebeu ajuda, os donos dos imóveis, o pecuarista Leandro Abreu Guimarães e o vereador do PSL Gilsinho de Dedé, negam vínculo com ele.

Moradores da região relataram à reportagem que a ação foi rápida, com barulho de tiros por pouco tempo.

Leandro Abreu Guimarães também foi preso durante a operação sob acusação de porte ilegal de armas. Em depoimento, confirmou que Adriano usou sua propriedade como penúltimo esconderijo. Leandro conta que o ex-capitão chegou à região de Esplanada no final do ano de 2019, dizendo que buscava fazendas para comprar.

Leandro e Adriano já eram conhecidos do circuito de vaquejadas. Para o pecuarista, Adriano era um simples criador de cavalos.

Leandro disse que, diante das ameaças, levou Adriano ao sítio de Gilsinho de Dedé na noite de sábado (9). Nos 8 km que separam a fazenda do sítio do vereador, metade do trecho é percorrido por uma estrada de terra, parte na rodovia BR-101 e parte na BA-233 -- estrada que leva ao município vizinho de Acajutiba. O sítio fica logo no início da rodovia estadual, no povoado de Palmeira.

Segundo Leandro, Adriano aparentava nervosismo na véspera de sua morte e, sob ameaças, na noite de sábado (8), o ordenou que fosse levado ao sítio do vereador Gilsinho de Dedé, um dos que havia sido alvo do suposto interesse de compra de fazendas do ex-policial, chefe da principal e mais antiga milícia da ex-Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro.Alex Lima reafirmou que Gilsinho estava viajando e não sabia que Adriano | Foto: Divulgação - Foto: Foto: Divulgação

Deputado Alex Lima 

Dono do sítio onde foi morto o miliciano Adriano da Nóbrega, o vereador Gilsinho da Dedé (PSL) prestou depoimento nesta terça-feira, 11, de forma espontânea, na sede do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), em Salvador, disse o deputado Alex Lima (PSB), em discurso na Assembleia Legislativa. Irmão do vereador, Alex reafirmou que Gilsinho estava viajando e não sabia que Adriano, foragido há mais de um ano, estava no local.

"Meu irmão estava em viagem em Recife, foi visitar uma tia com a minha mãe. No domingo, acordou com ligação de um vizinho da sua chácara dizendo que havia uma troca de tiros naquelas imediações. Então, ele ligou para o delegado, que informou que era uma operação conduzida por Salvador e não sabia do que se tratava", discursou Alex.

O deputado negou que alguém de sua família conhecesse Adriano e destacou que seu irmão se filiou ao PSL, ex-partido do presidente Jair Bolsonaro, quando a legenda era conduzida na Bahia pelo então deputado estadual Marcelo Nilo (PSB), aliado do governador Rui Costa (PT). "O que ocorreu foi uma fuga de um criminoso, que, fugindo da polícia, chegou durante a madrugada e foi abatido nas primeiras horas da manhã. Fomos vítimas de uma invasão", disse.

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Vereador Gilsinho de Dedé

11
Fev20

Morte do capitão Adriano é fruto de operação policial suspeita, diz especialista em milícias

Talis Andrade

O sociólogo e estudioso das milícias, José Cláudio Souza Alves, aponta para evidências de que a morte do ex-capitão do Bope durante operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro, no domingo (9), seja um exemplo de queima de arquivo

adriano magalhaes da nobrega.jpg

 

 

por Fernando Mena

 

Uma operação policial fruto de um ano de trabalho de investigação, inteligência e cooperação que culmina, não com a prisão, mas com a morte de um foragido peça-chave em casos que movimentam a República. Isso é um grande azar ou um caso de queima de arquivo.

O sociólogo e estudioso das milícias, José Cláudio Souza Alves, aponta para evidências de que a morte do ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, durante operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro, no domingo (9), seja um exemplo da segunda hipótese. Uma queima de arquivo.

Acusado pelo Ministério Público de ser chefe do grupo miliciano que atua na região de Rio das Pedras, zona oeste do Rio, Nóbrega estava foragido havia um ano. Localizado na Bahia, ele estava num sítio no município de Esplanada, no interior do estado.

Na versão das polícias, o ex-PM teria reagido com tiros à ordem de prisão. Ferido, foi levado ao hospital, onde não teria resistido aos ferimentos. Uma funcionária do hospital, no entanto, disse à Folha de S.Paulo que Nóbrega já chegou morto ao local.

"Uma operação de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto", avalia Alves, que é professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor do livro "Dos Barões ao Extermínio - Uma História da Violência na Baixada Fluminense" (APPH, 2003), em que remonta as origens das milícias do Rio de Janeiro a partir dos grupos de extermínio que funcionam da região desde os anos 1960.

"Estamos falando de um quadro simplificado: um cerco a uma casa no campo. Investiram recursos públicos para desembocar naquilo que é o oposto do desejável. É inacreditável."Assista como ficou o interior da casa após tiroteio que matou suspeito de executar Marielle

Por que a morte de Adriano é suspeita de ter sido um caso de queima de arquivo? 

Ele não estava em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, armado até os dentes e cercado de outros milicianos do seu grupo. Ele não está numa favela, um território com alta complexidade onde não existe nitidez sobre quem é quem, numa configuração espacial urbana que dificulta a operação. Ele estava numa residência em um espaço rural no interior da Bahia. 

Como o fator surpresa estava nas mãos dos investigadores, se o objetivo fosse prendê-lo, os policiais poderiam eleger o momento ideal para isso e fazer um cerco. Não há plausabilidade na situação descrita pela polícia de que ele teria reagido, se ferido e acabado morto. Na minha visão, é uma operação suspeita.

O Adriano era um cara com ampla experiência nesta área. Atuou no Bope. Numa condição de cerco, ele saberia que não teria chance alguma e se entregaria. Tudo indica, portanto, que partiram de um plano para eliminá-lo.

 

Mas ele pode ter, ainda assim, reagido...

Esse procedimento de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto. E estamos falando de um quadro simplificado, numa casa no campo, e não numa favela ou numa malha urbana, com milhares de variáveis.

Por isso, a suspeita de que a morte de Adriano é um desfecho deliberado, que a operação foi feita com essa intenção.

 

Segundo o advogado do ex-policial miliciano, Adriano teria dito a ele que não queria se entregar porque sabia que iriam matá-lo. 

A esposa dele já havia dito isso quando a polícia invadiu a casa onde ela estava com as filhas na Costa do Sauipe (BA), poucos dias atrás. Que, pela atitude dos policiais, a intenção era matá-lo e não prendê-lo.

O que destoa é toda uma investigação de inteligência desembocar numa operação assim, que culmina com a morte de alguém capaz de fornecer informação sobre casos envolvendo pessoas tão em evidência. Passa-se um ano atrás dele para capturá-lo porque é uma peça determinante em investigações importantes e o matam?

Investiram recursos públicos para desembocar naquilo que é o oposto do desejável. É inacreditável. Não dá para falar em operação policial de inteligência, mas sim de estupidez e de ignorância.

 

A quem interessaria essa morte? 

Sabemos que ele teve vínculos diretos com [o hoje senador] Flávio Bolsonaro porque sua ex-mulher e sua mãe fizeram parte do gabinete do filho do presidente Jair Bolsonaro. Sabemos também que Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, o homenageou na Assembleia do Rio [com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Casa], em 2005.

Condenado por homicídio em 2005 [ele depois foi inocentado, mas respondeu por outros crimes], o ex-policial foi louvado pelo então deputado federal Jair Bolsonaro, que o chamou de 'brilhante oficial'.

Sabemos que Fabrício Queiroz [amigo do presidente e ex-motorista de Flávio Bolsonaro] tinha relações com Adriano Magalhães da Nóbrega e com toda a estrutura de Rio das Pedras. Tudo isso aproxima muito a figura dele da família Bolsonaro. E sua morte evita que várias informações sobre esses esquemas e elos venham à tona.

 

Quem se beneficia com este silenciamento? 

Adriano era uma figura chave em duas questões: a motivação que levou ao assassinato de Marielle e o esquema de rachadinhas que vinculava os gabinetes de vários parlamentares, por meio de suas assessorias, à venda de imóveis clandestinos pelas milícias na zona oeste do Rio de Janeiro.

Tudo leva a crer que uma coisa esteja vinculada a outra. As investigações parecem não ter avançado neste ponto e por isso não sabemos como isso se dava, mas Marielle teria se apresentado como uma ameaça a essa estrutura e por isso teria sido eliminada. 

Todos os que estabeleceram relação com a estrutura de venda de imóveis clandestinos e que são suspeitos de envolvimento com a morte da Marielle se vêem beneficiados porque não existe mais a principal fonte de informações sobre esses casos.

 
10
Fev20

Ex-capitão Adriano, "arquivo-morto" que perseguirá os Bolsonaros

Talis Andrade

Jair e Flávio Bolsonaro, com Fabrício Queiroz, amigos em comum do ex-capitão Adriano Nóbrega 

 

por Marcelo Auler

Certamente nesta segunda-feira (10/02), Jair Bolsonaro evitará a famosa paradinha na porta do Palácio Alvorada onde costuma, a pretexto de cumprimentar militantes e apoiadores, provocar entrevistas nas quais busca manter o controle, escolhendo a quem e o que responder. Assim tenta se manter na mídia, evitando as questões mais incômodas, ainda que de forma atabalhoada, quando não grosseira e mal educada.

Nesta segunda, porém, caso pare e seja abordado pelos jornalistas, não terá subterfúgios para evitar os questionamentos a respeito do assassinato, na manhã de domingo (09/02), do seu amigo, o foragido ex-capitão reformado da PM do Rio, Adriano da Nóbrega Silva, 43 anos, chefe do famigerado Escritório do Crime. Um grupo miliciano que além de executar inimigos e/ou adversários, praticava agiotagem, grilagem de terras, construções ilegais, vendia segurança e costumava explorar serviços como transporte alternativo, venda de botijões de gás e exploração ilegal de sinais de TV a cabo.
 

Uma morte sobre a qual, para muitos, recai, desde que foi anunciada, a suspeita de que se tratou de uma “queima de arquivo”. Arquivo que ao desaparecer, aparentemente, trará benefícios à família Bolsonaro, tal como alertou Alex Solnik, no Brasil247, na postagem Morte do Capitão Adriano é boa notícia para Bolsonaro. Mas caso não fique devidamente esclarecido, poderá se tornar em um eterno motivo de cobranças aos Bolsonaros.

A natural suspeita de queima de arquivo sempre surge quando a policia deixa de capturar vivo alguém que teria muito o que falar/denunciar/esclarecer, se preso com vida e submetido a interrogatórios. Mesmo quando estes interrogatórios ocorram sem que se utilize os métodos violentos que as mícilias, como a comandada pelo ex-capitão Adriano, usam contra seus adversários. Era o caso dele, tal a gama de negócios e crimes em que seu nome foi associado. Em especial, o esquema de “rachadinha” adotado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.

PM-Adriano-da-Nóbrega-Milicia.jpg

 

Ex-capitão Adriano previu que seria assassinado como “queima de arquivo” 

 

Na morte dele, essa suspeita de “queima de arquivo” aumenta ainda mais após se descobrir que a própria vítima, dias antes de morrer, em telefonema ao advogado Paulo Emilio Catta Preta, com o qual jamais falara, previu que seria morto.

Como seu defensor admitiu aos jornais Folha de S.Paulo – Advogado diz que miliciano ligado a Flávio temia ser morto como ‘queima de arquivo’ – e Estado de S.Paulo – Capitão Adriano tinha ‘certeza’ de que queriam matá-lo para ‘queimar arquivo’.

“Me causou surpresa na terça (4) ou quarta (5) ele me ligar diretamente. Se apresentou, e disse que a razão da ligação era que estava receoso pela vida dele. Disse que tinha certeza de que a operação para prender era para matar”, afirmou Catta Preta à Folha.

Temor compartilhado também pela, hoje, viúva, Danielle Nóbrega, em telefonema ao advogado. Para ela, o marido foi assassinado. De acordo com Catta Preta, Daniele explicou que “o miliciano se encontrava em condições precárias de fuga e não estaria armado”. Isso, a se confirmar, contraria a versão da polícia.

Pelo relato oficial, o miliciano estava com uma pistola Glock, 9mm com a qual revidou. Provocou, assim, troca de tiros. Acabou atingido. Para completar ainda mais o quadro de suspeita, consta que o local foi desfeito, pois teriam tentando socorrer o oficial reformado da PM do Rio, levando-o ao Hospital São Francisco São Vicente, conforme esclarece a Folha de S.Paulo, nesta segunda-feira (10/02). Uma funcionária disse ao jornal que Adriano já teria chegado morto ao local, diferentemente do que afirma o governo da Bahia. A versão oficial é de que ele ainda estaria vivo.

A poça de sangue no interior da casa onde Adriano se escondia. (Reprodução do vídeo apresentado pela Folha)

 

A mesma Folha apresenta um vídeo do interior da casa onde o miliciano se escondia, feito após a operação policial.

O sítio pertence a Gilson Batista Lima Neto, conhecido como Gilsinho da Dedé, vereador do PSL. em Esplanada (BA) – município de 37 mil habitantes a 160 km de Salvador. Trata-se do mesmo partido pelo qual os Bolsonaros se elegeram. Mas o vereador, que diz estar em Recife, nega conhecer Adriano e diz desconhecer que ele ocupava seu sítio.

Coincidentemente Flávio Bolsonaro estava em Salvador nesse final de semana.

O curioso no vídeo é a poça de sangue que aparece no chão da sala da casa onde o ex-capitão da PM do Rio se escondia. Teria sido ali que tombou Adriano? De onde os policiais trocaram tiros com ele? São questões iniciais, para se esclarecer o caso que merecem resposta de peritos e legistas. Mas, com a retirada do corpo, o local foi desfeito.

Desfazer locais sob o pretexto de tentar salvar a vida de alguém é forma tradicional de atrapalhar a perícia, muitas vezes para ocultar execuções. Pode não ser o caso. Mas tudo isso leva à necessidade de uma investigação isenta.

A questão, porém, é saber quem terá isenção nesse momento: a polícia baiana, possivelmente autora do disparo que vitimou o marginal? Ou a Polícia Federal, subordinada ao ministro da Justiça Sérgio Moro, incapaz de colocar o ex-militar, criminoso dos mais procurados do Rio de Janeiro, inclusive com alerta vermelho da Interpol, na lista dos bandidos mais procurados pela Justiça brasileira?

Adriano, "um foragido com esconderijo identificado"

Mais ainda, como narra o Painel da Folha de S.Paulo desta segunda-feira, a polícia do Rio chegou a sondar o Ministério da Justiça sobre a possibilidade de ajuda da Polícia Federal, com o empréstimo de um helicóptero na operação que caçava Adriano.

Questionada, a pasta da Justiça disse que não teve envolvimento com a operação e que “não haveria nenhum motivo para disponibilizar helicópteros e policiais para a captura de apenas um foragido com esconderijo identificado”. A Secretaria de Polícia Civil do Rio informou que “a parte operacional foi realizada pela Polícia Civil da Bahia”.” Ou seja, mais uma vez o ministério comandado pelo ex-juiz Moro se omitiu.

Não seria o caso de o governo baiano convocar peritos e legistas autônomos, de universidades públicas, para analisarem oficialmente o caso e afastarem as chamadas “teorias conspiratórias”, como pode ser a própria suspeita de “queima de arquivo”?

O envolvimento com os Bolsonaros

Ao contrário do que foi dito, o ex-capitão Adriano não tinha ligações diretas com a morte da vereadora Marielle Franco. Ela foi executada pelos milicianos Ronnie Lessa, de 48 anos, sargento reformado da PM-RJ, e por Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, ex-soldado PM. Ambos até mantinham relações com Adriano, mas não lhe estavam diretamente subordinados no submundo do crime. Tal e qual o deputado Marcelo Freixo correu a esclarecer em áudio, pelas redes sociais, na tarde de domingo.

Ou seja, além de uma condenação anulada e de diversos outros crimes pelos quais tem a responder, a importância do ex-capitão no cenário político atual era a sua ligação com a família Bolsonaro e com o braço direito deles, Élcio Queiróz, com quem o ex-capitão assassinado serviu em um quartel da PM no Rio.

Em 2003, o então deputado estadual no Rio, hoje senador Flávio Bolsonaro propôs uma moção de louvor a Adriano por desenvolver sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”.

Em janeiro de 2004, o então tenente da PM foi preso preventivamente pelo homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24. Leandro denunciara extorsão de policiais militares a serviço da milícia. Adriano chegou a ser condenado por esse homicídio, no Tribunal do Júri, em outubro de 2005. Depois, conseguiu com um recurso anular a sentença e ser submetido a um novo julgamento. Foi solto em 2006 e absolvido no ano seguinte.

Enquanto preso, foi alvo de uma segunda homenagem por Flávio Bolsonaro. Este lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Na justificativa, entre outras razões, o então deputado estadual escreveu que Adriano teve êxito ao prender 12 “marginais” no morro da Coroa, no centro, além de apreender diversos armamentos e 90 trouxinhas de maconha.

No julgamento do policial, o hoje presidente Jair Bolsonaro, na época deputado federal, serviu como sua testemunha de defesa no Tribunal do Júri. Sua ajuda ao amigo da família não se limitou ao depoimento em juízo. O levou a fazer um pronunciamento na Câmara Federal, no dia 27 de outubro de 2005, em defesa do policial, reclamando de sua condenação (ouça aqui). Falou, inclusive, não saber como colaborar com o condenado, classificado como “coitado” e como um “brilhante oficial”. Não satisfeito, criticou um coronel que relatou ao júri o resultado de uma sindicância interna da PM que responsabilizava o então tenente.

A amizade dos Bolsonaros com o miliciano, por mais esdrúxula que seja – e não é o único laço deles com milicianos – não seria ainda suficiente para apontar a família do presidente como beneficiária da morte do ex-oficial da PM. Isso seria pouco.

Há, porém, a participação de Adriano e seus familiares com o escândalo da rachadinha, que está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual do Rio, envolvendo Flávio Bolsonaro e servidores fantasma do seu gabinete quando deputado estadual. Em um esquema coordenado por Fabrício Queiroz, o ex-companheiro de Adriano no quartel da PM e braço direito da família Bolsonaro.

Sobre a rachadinha, o ex-capitão da PM do Rio teria muito a falar. Afinal, entre os servidores fantasmas de Flávio Bolsonaro estavam a hoje viúva de Adriano, Danielle Nóbrega, e a sua própria mãe, Raimunda.

Danielle foi empregada em 6 de setembro de 2007 e demitida apenas em 13 de novembro de 2018 no gabinete de Flávio. Jamais apareceu para trabalhar. Raimunda conseguiu dois empregos: primeiro, na liderança do PP, partido ao qual Flávio era então filiado; depois, passou a trabalhar no gabinete do deputado estadual — quando o filho de Bolsonaro se transferiu para o PSC. Também nunca esteve na Alerj.

Danielle e Raimunda receberam na Assembleia um total de R$ 1.029.042,48, do qual repassaram R$ 203.002,57 a Queiroz, de acordo com o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. Outros R$ 202.184, 64 foram sacados em dinheiro. Há, portanto, valores ainda não esclarecidos.

São estes fatos que poderão fazer com que a morte de Adriano neste domingo seja sempre relacionada aos Bolsonaros. Como seu viu acima, há motivos de suspeitas – que podem jamais serem confirmadas – de uma “queima de arquivos”. Afinal, o próprio miliciano disse que na operação da polícia baiana com a participação de policiais do Rio de Janeiro ele seria morto, não recapturado.

O envolvimento dele com os Bolsonaros & Queiróz alimentará as suspeitas de que sua morte, como “queima de arquivo”, beneficia a família do presidente, na medida em que seu depoimento poderia servir para esclarecer fatos que estão sendo apurados diretamente relacionados ao crime de utilização de servidores fantasmas para confisco de parte dos seus salários. A chamada “rachadinha”. Logo, Adriano poderia incriminar mais ainda os Bolsonaro. Hipótese pouco provável, já que nas organizações mafiosas, como as milícias, funciona a lei da ormetà. Do silêncio.

A prevalecer a inocência dos Bolsonaros na relação com o miliciano – algo difícil de se acreditar -, a própria família deveria se empenhar para mostrar que não houve “queima de arquivo”. Do contrário, a morte do miliciano continuará sendo uma pedra no caminho da família do atual presidente. A suposta “queima de arquivo” irá persegui-los eternamente, por mais que desagrade a Jair. No caso, não vale apenas pregar a inocência. É preciso prová-la.

 

 

 

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