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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

26
Mar22

‘Eles avaliaram mal o perigo’, disse Braga Netto sobre quem mandou matar Marielle. ‘Eles’ quem?

Talis Andrade

 

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Outro general chegou a afirmar que o crime foi planejado por quem via em Marielle “uma ameaça a negócios de grilagem de terras na Zona Oeste do Rio”, ramo e local onde, segundo o MP, Flavio Bolsonaro investia com dinheiro de rachadinha.

 

por Hugo Souza

Nesta segunda-feira, 14 de março, completam-se quatro anos dos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, sem que os mandantes do crime tenham sido identificados. Mas, na verdade, parece que os mandantes do crime foram identificados há tempos, por dois homens, dois generais. Um é o mais forte cotado para ser candidato a vice-presidente da República na chapa de Jair Bolsonaro. O nome do outro desponta como eventual substituto do general Paulo Sergio no comando do Exército Brasileiro.

Aos fatos:

Outra efeméride de março é que o general Walter Souza Braga Netto completará no fim do mês um ano à frente do Ministério da Defesa, após ocupar a chefia da Casa Civil do governo Bolsonaro na volta anterior que a Terra deu em torno do Sol. No dia 30 de março do ano passado, Braga Netto rendeu o também general do Exército Fernando Azevedo e Silva no comando da Defesa. Esta não foi a primeira vez, porém, que Walter Braga Netto rendeu Fernando Azevedo e Silva.

Em setembro de 2016, apenas 23 dias após o Senado cassar o mandato de Dilma Rousseff, o então titular da pasta, Raul Jungmann, empossou Braga Netto na chefia do Comando Militar do Leste. Na ocasião, Braga Netto sucedeu justamente a Azevedo e Silva, que tinha assumido a gestão do CML em março de 2015, no meio da intervenção do Exército no complexo de favelas da Maré, na Zona Norte do Rio.

Em fevereiro de 2018, Michel Temer nomeou Braga Netto chefe da intervenção do Exército no Rio de Janeiro. Ao longo de 10 meses, Braga Netto foi o governador de fato do estado, mas não tinha completado ainda um mês de “mandato” quando Marielle Franco, cria da Maré, foi assassinada no Estácio. Neste meio tempo, Marielle bateu-se fortemente contra a intervenção, e bateu fortemente em Braga Netto: (No texto original no blog ComeAnanás a mensagem no Twitter foi apagada)

Poucos irão se lembrar, mas Jair Bolsonaro, curiosamente, também: (Idem a mensagem do presidente também não aparece). 

Se a intervenção no Rio de Janeiro foi “um laboratório para o Brasil”, a intervenção na Maré havia sido um laboratório para a intervenção no Rio de Janeiro. Dois militares que tinham participado da intervenção na Maré foram nomeados por Braga Netto para postos-chave da intervenção federal no Rio: o general Richard Fernandez Nunes, que virou secretário estadual de Segurança, e o general Mauro Sinott Lopes, feito coordenador do grupo de trabalho da intervenção.

Hoje, Mauro Sinnott Lopes comanda a 3ª Divisão de Exército, o maior poder de combate da Força Terrestre, baseado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Já o general Richard Nunes atualmente é o Comandante Militar do Nordeste, depois de ocupar durante dois anos e meio a chefia do Centro de Comunicação Social do Exército.

Richard Nunes, quando ainda era secretário de Segurança da intervenção, disse que o caso Marielle estava prestes a ser elucidado: “é um crime que tem a ver com a atuação política e a contrariedade de alguns interesses. Se a milícia não está a mando, está na execução. Provavelmente [tem político envolvido]”.

‘Acharam, de repente…’

Quando foi rendido por Walter Braga Netto na Defesa, Fernando Azevedo e Silva saiu do governo não exatamente atirando, mas pontuando um tanto enigmaticamente que enquanto ministro de Bolsonaro logrou malabares de preservar as Forças Armadas como instituições de Estado.

Em janeiro de 2019, logo após o fim da intervenção, o general Braga Netto também deu uma de esfíngico numa entrevista dada à revista Veja logo após o fim da intervenção militar no Rio de Janeiro, por ele chefiada e em cuja vigência Marielle foi executada com quatro balaços na cabeça disparados por um miliciano e vizinho de Jair Bolsonaro em um condomínio na Barra da Tijuca.

Em uma entrevista à revista Veja, quando perguntado sobre o motivo do assassinato de Marielle, se o crime teria sido uma tentativa de desmoralizar a intervenção, Braga Netto afirmou que não, e emendou: “aquilo [o assassinato] foi uma má avaliação deles. Avaliaram mal, acharam que ela é um perigo maior do que o que ela era”.

“Um perigo para quem?”, perguntou, estupefato, o repórter Leandro Resende, da Veja.

“Não vou entrar nesse mérito”, respondeu Braga Netto, para em seguida entrar em contradição, dizendo algo sobre que “acharam, de repente, que o estado, por estar sob intervenção, tinha desorganizado as polícias”…

Não tem grilo?

Já o ex-braço direito de Braga Netto na intervenção, general Richard Nunes, disse ainda em 2018, além de afirmar que o assassinato de Marielle provavelmente tinha envolvimento de políticos, que o crime vinha sendo planejado desde 2017 por gente que via na vereadora “uma ameaça a negócios de grilagem de terras na Zona Oeste do Rio”.

Entre 2016 e 2017, período de salto na evolução patrimonial do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, a mãe e a esposa do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, então chefe de uma milícia da Zona Oeste, na favela de Rio das Pedras, ocupavam cargos comissionados no gabinete de Flavio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

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Quando Adriano foi morto pela polícia da Bahia, em 2020, no sítio de um vereador bolsonarista e com pinta de queima de arquivo, o miliciano estava sendo procurado pelos crimes de receptação de mercadorias roubadas, cobrança irregular de taxas à população e grilagem de terras.

Em janeiro de 2019, logo após o fim da intervenção e quando saia a inacreditável entrevista de Braga Netto na Veja, o major da Polícia Militar Ronald Pereira foi preso por participação no assassinato de Marielle Franco. Ronald já vinha sendo investigado por crimes como agiotagem e, sempre, grilagem de terras. Ele era apontado como o chefe da milícia de outra favela da Zona Oeste do Rio, a da Muzema, onde são pujantes e notórios os empreendimentos da máfia no ramo imobiliário.

Entre 2003 e 2004, tanto Adriano da Nóbrega quando Ronald Pereira foram homenageados na Alerj – um com a Medalha Tiradentes, outro com moção honrosa – por recomendação de Flavio Bolsonaro.

Em abril de 2020, o Intercept Brasil publicou informações sigilosas de um inquérito do Ministério Público do Rio de Janeiro segundo as quais Flavio Bolsonaro lucrou com a construção ilegal de prédios erguidos pela milícia em áreas griladas nas favelas de Rio das Pedras e Muzema e financiados com dinheiro das rachadinhas de Flavio na Alerj, em esquema que era gerenciado por Fabricio Queiroz e que envolvia Adriano da Nóbrega e Ronald Pereira.

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Segundo a investigação do MPRJ à qual a reportagem do Intercept teve acesso, parte do confisco de em média 40% dos salários dos servidores lotados no gabinete de Flavio Bolsonaro – a rachadinha – era repassada para Adriano da Nóbrega aplicar, digamos, em real state: “o lucro com a construção e venda dos prédios seria dividido com Flávio Bolsonaro, segundo as investigações, por ser o financiador do esquema usando dinheiro público”.

A descoberta do esquema de construção irregular em terrenos grilados e irrigado com dinheiro da rachadinha de Flavio Bolsonaro foi feita precisamente em meio aos desdobramentos das investigações sobre os assassinatos de Mariele Franco e Anderson Gomes.

Diz o Intercept:

“A ligação do ex-capitão com as pequenas empreiteiras envolvidas no boom da verticalização em Rio das Pedras e Muzema foi levantada em meio à investigação sobre as execuções da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, na noite de 14 de março de 2018. Foi a partir das quebras de sigilos telefônicos e telemáticos dos integrantes do Escritório do Crime que os promotores descobriram que o grupo paramilitar havia evoluído da grilagem de terras à construção civil, erguendo prédios irregulares na região e, assim, multiplicando seus lucros”.

Ainda segundo o Intercept, a famosa frase “O MP está preparando uma pica do tamanho de um cometa para empurrar na gente”, dita em 2019 por Queiroz em uma conversa de Whatsapp com um interlocutor não identificado, seria uma referência justamente à investigação sobre o uso de dinheiro público desviado no esquema das rachadinhas para financiar o boom de construções ilegais em Rio das Pedras e na Muzema.

A família Bolsonaro vem se valendo de todos os meios que o poder lhe proporciona para sabotar, embaralhar, obstruir as investigações tanto do assassinato de Mariele Franco quanto das rachadinhas de Flavio Bolsonaro na Alerj.

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Já a imprensa brasileira de referência, até agora, parece não ter visto nenhum grilo nos possíveis nexos de todas estas informações, que são públicas, desde as declarações dos generais Braga Netto e Richard Nunes, lá atrás, até o teor do inquérito do MPRJ revelado pelo Intercept mais recentemente, envolvendo um senador e filho do presidente da República, e passando pelos laços de Flavio Bolsonaro com os milicianos – e grileiros – Adriano da Nóbrega e Ronald Pereira

Que país é este que não faz questão de que tão perturbadoras conexões sejam de uma vez por todas esclarecidas?

O Planalto, a planície e a cova

Há poucas semanas, o general Fernando Azevedo e Silva desistiu de aceitar o convite para ser o fiador verde-oliva das eleições 2018; desistiu de assumir um cargo chave no TSE, no momento em que Jair Bolsonaro, Braga Netto e comitiva estavam em controversa viagem oficial – e de alguma maneira eleitoral – à Rússia. O motivo alegado foi um problema no coração.

O general Richard Fernandez Nunes, braço direito de Braga Netto na intervenção, é cotado para assumir o comando do Exército de Caxias, em eventual substituição ao general Paulo Sergio, caso o general Paulo Sérgio seja escolhido para suceder a Braga Netto no Ministério da Defesa.

É que no próximo 2 de abril, três dias após completar um ano na Defesa, e meses após condicionar a realização de eleições em 2022 à adoção do voto impresso, o general Walter Souza Braga Netto deve deixar o cargo para ser candidato a vice-presidente da República na chapa de Jair Messias Bolsonaro

Neste domingo, o jornalista Lauro Jardim deu n’O Globo que se Braga Netto acabar não sendo o vice de Bolsonaro na tentativa de reeleição para o Planalto, o vizinho de Ronnie Lessa deverá recompensá-lo, então, com uma embaixada, “para não deixar o general na planície”.

Marielle, por seu turno, não teve escolha. “Eles avaliaram mal o perigo” e mandaram a vereadora do Psol não para Washington, Roma ou Paris, mas para a cova.

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11
Fev20

Cenário de fuga e morte na Bahia do capitão Adriano chefe da mais antiga e poderosa milícia do Rio de Janeiro

Talis Andrade

Assista como ficou o interior da casa após tiroteio que matou suspeito de executar MarielleESPLANADA, BA, 10.02.2020 - ADRIANO-NÓBREGA - Sítio onde ocorreu operação que matou Adriano Nóbrega, um ex-capitão da Polícia Militar, acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio de Janeiro. Foragido há mais de um ano, o miliciano estava escondido no sítio do vereador Gilson Batista Lima Neto, conhecido como Gilsinho da Dedé, do PSL. A operação foi realizada em conjunto entre o Bope da Bahia e inteligência da polícia do Rio. Polícia diz que esconderijo de miliciano ligado a Flávio Bolsonaro tinha 4 armas e 13 celulares. (Foto: Raphael Muller/Folhapress)

O esconderijo do ex-capitão do Bope do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega, na cidade de Esplanada (BA), expõe uma série de dúvidas sobre a rede que teria ajudado o miliciano e sobre a própria versão oficial da morte dele.

Ele estava inicialmente abrigado em uma fazenda que possui um parque de vaquejada, e depois fugiu, na noite do sábado, em um carro, por 8 km, até um sítio onde foi cercado.

Conforme a polícia, a operação envolveu cerca de 70 agentes do Bope da Bahia. Os militares cobriram toda a área, para tentar impedir uma possível fuga do miliciano.

Na abordagem à casa, em uma área isolada, três PMs formaram um triângulo. O primeiro policial, na frente, segurou um escudo e arrombou a porta. A polícia informou que, em seguida, Adriano atirou e houve confronto.

O ex-capitão da PM foi atingido por dois tiros. 

Escreve o jornalista Fernando Brito:

"Os relatos sobre a operação são inacreditáveis.

Imaginar que um especialista em confronto armado, como Adriano, dispararia de peito aberto contra quatro homens armados de escudos e fuzis é menos crível do que se ele praticasse o suicídio. Tiros de fuzil, a cinco ou seis metros de distância, teriam atravessado o corpo e marcado as paredes ou, ao menos, as deixariam salpicadas de sangue.

Isso sem contar a história de um homem que chega a um lugar – sozinho – e se diz comprador de cavalos, recebe hospedagem de um promotor de vaquejadas e, que é por ele obrigado a levá-lo a uma casa semiabandonada de um vereador…

Informa a Folha: 

Segundo a versão oficial, Adriano tinha em sua mão um pistola austríaca 9mm e foi baleado após reagir a tiros contra a polícia. A reportagem identificou apenas uma marca de bala dentro da casa, em uma janela da madeira. 

Segundo a reportagem do jornal Metro, o cenário da casa no sítio indica certo nível de organização de Adriano ao se dirigir ao local. Na mesa da cozinha, havia uma garrafa térmica com café e pães "relativamente frescos". Em um dos quartos havia um colchão e o outro servia como um depósito de sal para animais.

O secretário estadual da Segurança Pública da Bahia, Maurício Teles Barbosa, defendeu o que chamou de "profissionalismo: Estávamos diante de uma pessoa de alta periculosidade, envolvidos em diversos crimes e com treinamento de tiro, pois chegou a ser um policial de operações especiais. Óbvio que queríamos efetuar a prisão, mas jamais iríamos permitir que um dos nossos ficasse ferido ou saísse morto do confronto".

Apesar de a rota de fuga indicar que Adriano recebeu ajuda, os donos dos imóveis, o pecuarista Leandro Abreu Guimarães e o vereador do PSL Gilsinho de Dedé, negam vínculo com ele.

Moradores da região relataram à reportagem que a ação foi rápida, com barulho de tiros por pouco tempo.

Leandro Abreu Guimarães também foi preso durante a operação sob acusação de porte ilegal de armas. Em depoimento, confirmou que Adriano usou sua propriedade como penúltimo esconderijo. Leandro conta que o ex-capitão chegou à região de Esplanada no final do ano de 2019, dizendo que buscava fazendas para comprar.

Leandro e Adriano já eram conhecidos do circuito de vaquejadas. Para o pecuarista, Adriano era um simples criador de cavalos.

Leandro disse que, diante das ameaças, levou Adriano ao sítio de Gilsinho de Dedé na noite de sábado (9). Nos 8 km que separam a fazenda do sítio do vereador, metade do trecho é percorrido por uma estrada de terra, parte na rodovia BR-101 e parte na BA-233 -- estrada que leva ao município vizinho de Acajutiba. O sítio fica logo no início da rodovia estadual, no povoado de Palmeira.

Segundo Leandro, Adriano aparentava nervosismo na véspera de sua morte e, sob ameaças, na noite de sábado (8), o ordenou que fosse levado ao sítio do vereador Gilsinho de Dedé, um dos que havia sido alvo do suposto interesse de compra de fazendas do ex-policial, chefe da principal e mais antiga milícia da ex-Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro.Alex Lima reafirmou que Gilsinho estava viajando e não sabia que Adriano | Foto: Divulgação - Foto: Foto: Divulgação

Deputado Alex Lima 

Dono do sítio onde foi morto o miliciano Adriano da Nóbrega, o vereador Gilsinho da Dedé (PSL) prestou depoimento nesta terça-feira, 11, de forma espontânea, na sede do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), em Salvador, disse o deputado Alex Lima (PSB), em discurso na Assembleia Legislativa. Irmão do vereador, Alex reafirmou que Gilsinho estava viajando e não sabia que Adriano, foragido há mais de um ano, estava no local.

"Meu irmão estava em viagem em Recife, foi visitar uma tia com a minha mãe. No domingo, acordou com ligação de um vizinho da sua chácara dizendo que havia uma troca de tiros naquelas imediações. Então, ele ligou para o delegado, que informou que era uma operação conduzida por Salvador e não sabia do que se tratava", discursou Alex.

O deputado negou que alguém de sua família conhecesse Adriano e destacou que seu irmão se filiou ao PSL, ex-partido do presidente Jair Bolsonaro, quando a legenda era conduzida na Bahia pelo então deputado estadual Marcelo Nilo (PSB), aliado do governador Rui Costa (PT). "O que ocorreu foi uma fuga de um criminoso, que, fugindo da polícia, chegou durante a madrugada e foi abatido nas primeiras horas da manhã. Fomos vítimas de uma invasão", disse.

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Vereador Gilsinho de Dedé

11
Fev20

Morte do capitão Adriano é fruto de operação policial suspeita, diz especialista em milícias

Talis Andrade

O sociólogo e estudioso das milícias, José Cláudio Souza Alves, aponta para evidências de que a morte do ex-capitão do Bope durante operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro, no domingo (9), seja um exemplo de queima de arquivo

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por Fernando Mena

 

Uma operação policial fruto de um ano de trabalho de investigação, inteligência e cooperação que culmina, não com a prisão, mas com a morte de um foragido peça-chave em casos que movimentam a República. Isso é um grande azar ou um caso de queima de arquivo.

O sociólogo e estudioso das milícias, José Cláudio Souza Alves, aponta para evidências de que a morte do ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, durante operação conjunta das polícias da Bahia e do Rio de Janeiro, no domingo (9), seja um exemplo da segunda hipótese. Uma queima de arquivo.

Acusado pelo Ministério Público de ser chefe do grupo miliciano que atua na região de Rio das Pedras, zona oeste do Rio, Nóbrega estava foragido havia um ano. Localizado na Bahia, ele estava num sítio no município de Esplanada, no interior do estado.

Na versão das polícias, o ex-PM teria reagido com tiros à ordem de prisão. Ferido, foi levado ao hospital, onde não teria resistido aos ferimentos. Uma funcionária do hospital, no entanto, disse à Folha de S.Paulo que Nóbrega já chegou morto ao local.

"Uma operação de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto", avalia Alves, que é professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor do livro "Dos Barões ao Extermínio - Uma História da Violência na Baixada Fluminense" (APPH, 2003), em que remonta as origens das milícias do Rio de Janeiro a partir dos grupos de extermínio que funcionam da região desde os anos 1960.

"Estamos falando de um quadro simplificado: um cerco a uma casa no campo. Investiram recursos públicos para desembocar naquilo que é o oposto do desejável. É inacreditável."Assista como ficou o interior da casa após tiroteio que matou suspeito de executar Marielle

Por que a morte de Adriano é suspeita de ter sido um caso de queima de arquivo? 

Ele não estava em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, armado até os dentes e cercado de outros milicianos do seu grupo. Ele não está numa favela, um território com alta complexidade onde não existe nitidez sobre quem é quem, numa configuração espacial urbana que dificulta a operação. Ele estava numa residência em um espaço rural no interior da Bahia. 

Como o fator surpresa estava nas mãos dos investigadores, se o objetivo fosse prendê-lo, os policiais poderiam eleger o momento ideal para isso e fazer um cerco. Não há plausabilidade na situação descrita pela polícia de que ele teria reagido, se ferido e acabado morto. Na minha visão, é uma operação suspeita.

O Adriano era um cara com ampla experiência nesta área. Atuou no Bope. Numa condição de cerco, ele saberia que não teria chance alguma e se entregaria. Tudo indica, portanto, que partiram de um plano para eliminá-lo.

 

Mas ele pode ter, ainda assim, reagido...

Esse procedimento de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto. E estamos falando de um quadro simplificado, numa casa no campo, e não numa favela ou numa malha urbana, com milhares de variáveis.

Por isso, a suspeita de que a morte de Adriano é um desfecho deliberado, que a operação foi feita com essa intenção.

 

Segundo o advogado do ex-policial miliciano, Adriano teria dito a ele que não queria se entregar porque sabia que iriam matá-lo. 

A esposa dele já havia dito isso quando a polícia invadiu a casa onde ela estava com as filhas na Costa do Sauipe (BA), poucos dias atrás. Que, pela atitude dos policiais, a intenção era matá-lo e não prendê-lo.

O que destoa é toda uma investigação de inteligência desembocar numa operação assim, que culmina com a morte de alguém capaz de fornecer informação sobre casos envolvendo pessoas tão em evidência. Passa-se um ano atrás dele para capturá-lo porque é uma peça determinante em investigações importantes e o matam?

Investiram recursos públicos para desembocar naquilo que é o oposto do desejável. É inacreditável. Não dá para falar em operação policial de inteligência, mas sim de estupidez e de ignorância.

 

A quem interessaria essa morte? 

Sabemos que ele teve vínculos diretos com [o hoje senador] Flávio Bolsonaro porque sua ex-mulher e sua mãe fizeram parte do gabinete do filho do presidente Jair Bolsonaro. Sabemos também que Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, o homenageou na Assembleia do Rio [com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Casa], em 2005.

Condenado por homicídio em 2005 [ele depois foi inocentado, mas respondeu por outros crimes], o ex-policial foi louvado pelo então deputado federal Jair Bolsonaro, que o chamou de 'brilhante oficial'.

Sabemos que Fabrício Queiroz [amigo do presidente e ex-motorista de Flávio Bolsonaro] tinha relações com Adriano Magalhães da Nóbrega e com toda a estrutura de Rio das Pedras. Tudo isso aproxima muito a figura dele da família Bolsonaro. E sua morte evita que várias informações sobre esses esquemas e elos venham à tona.

 

Quem se beneficia com este silenciamento? 

Adriano era uma figura chave em duas questões: a motivação que levou ao assassinato de Marielle e o esquema de rachadinhas que vinculava os gabinetes de vários parlamentares, por meio de suas assessorias, à venda de imóveis clandestinos pelas milícias na zona oeste do Rio de Janeiro.

Tudo leva a crer que uma coisa esteja vinculada a outra. As investigações parecem não ter avançado neste ponto e por isso não sabemos como isso se dava, mas Marielle teria se apresentado como uma ameaça a essa estrutura e por isso teria sido eliminada. 

Todos os que estabeleceram relação com a estrutura de venda de imóveis clandestinos e que são suspeitos de envolvimento com a morte da Marielle se vêem beneficiados porque não existe mais a principal fonte de informações sobre esses casos.

 
10
Fev20

Ex-capitão Adriano, "arquivo-morto" que perseguirá os Bolsonaros

Talis Andrade

Jair e Flávio Bolsonaro, com Fabrício Queiroz, amigos em comum do ex-capitão Adriano Nóbrega 

 

por Marcelo Auler

Certamente nesta segunda-feira (10/02), Jair Bolsonaro evitará a famosa paradinha na porta do Palácio Alvorada onde costuma, a pretexto de cumprimentar militantes e apoiadores, provocar entrevistas nas quais busca manter o controle, escolhendo a quem e o que responder. Assim tenta se manter na mídia, evitando as questões mais incômodas, ainda que de forma atabalhoada, quando não grosseira e mal educada.

Nesta segunda, porém, caso pare e seja abordado pelos jornalistas, não terá subterfúgios para evitar os questionamentos a respeito do assassinato, na manhã de domingo (09/02), do seu amigo, o foragido ex-capitão reformado da PM do Rio, Adriano da Nóbrega Silva, 43 anos, chefe do famigerado Escritório do Crime. Um grupo miliciano que além de executar inimigos e/ou adversários, praticava agiotagem, grilagem de terras, construções ilegais, vendia segurança e costumava explorar serviços como transporte alternativo, venda de botijões de gás e exploração ilegal de sinais de TV a cabo.
 

Uma morte sobre a qual, para muitos, recai, desde que foi anunciada, a suspeita de que se tratou de uma “queima de arquivo”. Arquivo que ao desaparecer, aparentemente, trará benefícios à família Bolsonaro, tal como alertou Alex Solnik, no Brasil247, na postagem Morte do Capitão Adriano é boa notícia para Bolsonaro. Mas caso não fique devidamente esclarecido, poderá se tornar em um eterno motivo de cobranças aos Bolsonaros.

A natural suspeita de queima de arquivo sempre surge quando a policia deixa de capturar vivo alguém que teria muito o que falar/denunciar/esclarecer, se preso com vida e submetido a interrogatórios. Mesmo quando estes interrogatórios ocorram sem que se utilize os métodos violentos que as mícilias, como a comandada pelo ex-capitão Adriano, usam contra seus adversários. Era o caso dele, tal a gama de negócios e crimes em que seu nome foi associado. Em especial, o esquema de “rachadinha” adotado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.

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Ex-capitão Adriano previu que seria assassinado como “queima de arquivo” 

 

Na morte dele, essa suspeita de “queima de arquivo” aumenta ainda mais após se descobrir que a própria vítima, dias antes de morrer, em telefonema ao advogado Paulo Emilio Catta Preta, com o qual jamais falara, previu que seria morto.

Como seu defensor admitiu aos jornais Folha de S.Paulo – Advogado diz que miliciano ligado a Flávio temia ser morto como ‘queima de arquivo’ – e Estado de S.Paulo – Capitão Adriano tinha ‘certeza’ de que queriam matá-lo para ‘queimar arquivo’.

“Me causou surpresa na terça (4) ou quarta (5) ele me ligar diretamente. Se apresentou, e disse que a razão da ligação era que estava receoso pela vida dele. Disse que tinha certeza de que a operação para prender era para matar”, afirmou Catta Preta à Folha.

Temor compartilhado também pela, hoje, viúva, Danielle Nóbrega, em telefonema ao advogado. Para ela, o marido foi assassinado. De acordo com Catta Preta, Daniele explicou que “o miliciano se encontrava em condições precárias de fuga e não estaria armado”. Isso, a se confirmar, contraria a versão da polícia.

Pelo relato oficial, o miliciano estava com uma pistola Glock, 9mm com a qual revidou. Provocou, assim, troca de tiros. Acabou atingido. Para completar ainda mais o quadro de suspeita, consta que o local foi desfeito, pois teriam tentando socorrer o oficial reformado da PM do Rio, levando-o ao Hospital São Francisco São Vicente, conforme esclarece a Folha de S.Paulo, nesta segunda-feira (10/02). Uma funcionária disse ao jornal que Adriano já teria chegado morto ao local, diferentemente do que afirma o governo da Bahia. A versão oficial é de que ele ainda estaria vivo.

A poça de sangue no interior da casa onde Adriano se escondia. (Reprodução do vídeo apresentado pela Folha)

 

A mesma Folha apresenta um vídeo do interior da casa onde o miliciano se escondia, feito após a operação policial.

O sítio pertence a Gilson Batista Lima Neto, conhecido como Gilsinho da Dedé, vereador do PSL. em Esplanada (BA) – município de 37 mil habitantes a 160 km de Salvador. Trata-se do mesmo partido pelo qual os Bolsonaros se elegeram. Mas o vereador, que diz estar em Recife, nega conhecer Adriano e diz desconhecer que ele ocupava seu sítio.

Coincidentemente Flávio Bolsonaro estava em Salvador nesse final de semana.

O curioso no vídeo é a poça de sangue que aparece no chão da sala da casa onde o ex-capitão da PM do Rio se escondia. Teria sido ali que tombou Adriano? De onde os policiais trocaram tiros com ele? São questões iniciais, para se esclarecer o caso que merecem resposta de peritos e legistas. Mas, com a retirada do corpo, o local foi desfeito.

Desfazer locais sob o pretexto de tentar salvar a vida de alguém é forma tradicional de atrapalhar a perícia, muitas vezes para ocultar execuções. Pode não ser o caso. Mas tudo isso leva à necessidade de uma investigação isenta.

A questão, porém, é saber quem terá isenção nesse momento: a polícia baiana, possivelmente autora do disparo que vitimou o marginal? Ou a Polícia Federal, subordinada ao ministro da Justiça Sérgio Moro, incapaz de colocar o ex-militar, criminoso dos mais procurados do Rio de Janeiro, inclusive com alerta vermelho da Interpol, na lista dos bandidos mais procurados pela Justiça brasileira?

Adriano, "um foragido com esconderijo identificado"

Mais ainda, como narra o Painel da Folha de S.Paulo desta segunda-feira, a polícia do Rio chegou a sondar o Ministério da Justiça sobre a possibilidade de ajuda da Polícia Federal, com o empréstimo de um helicóptero na operação que caçava Adriano.

Questionada, a pasta da Justiça disse que não teve envolvimento com a operação e que “não haveria nenhum motivo para disponibilizar helicópteros e policiais para a captura de apenas um foragido com esconderijo identificado”. A Secretaria de Polícia Civil do Rio informou que “a parte operacional foi realizada pela Polícia Civil da Bahia”.” Ou seja, mais uma vez o ministério comandado pelo ex-juiz Moro se omitiu.

Não seria o caso de o governo baiano convocar peritos e legistas autônomos, de universidades públicas, para analisarem oficialmente o caso e afastarem as chamadas “teorias conspiratórias”, como pode ser a própria suspeita de “queima de arquivo”?

O envolvimento com os Bolsonaros

Ao contrário do que foi dito, o ex-capitão Adriano não tinha ligações diretas com a morte da vereadora Marielle Franco. Ela foi executada pelos milicianos Ronnie Lessa, de 48 anos, sargento reformado da PM-RJ, e por Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, ex-soldado PM. Ambos até mantinham relações com Adriano, mas não lhe estavam diretamente subordinados no submundo do crime. Tal e qual o deputado Marcelo Freixo correu a esclarecer em áudio, pelas redes sociais, na tarde de domingo.

Ou seja, além de uma condenação anulada e de diversos outros crimes pelos quais tem a responder, a importância do ex-capitão no cenário político atual era a sua ligação com a família Bolsonaro e com o braço direito deles, Élcio Queiróz, com quem o ex-capitão assassinado serviu em um quartel da PM no Rio.

Em 2003, o então deputado estadual no Rio, hoje senador Flávio Bolsonaro propôs uma moção de louvor a Adriano por desenvolver sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”.

Em janeiro de 2004, o então tenente da PM foi preso preventivamente pelo homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24. Leandro denunciara extorsão de policiais militares a serviço da milícia. Adriano chegou a ser condenado por esse homicídio, no Tribunal do Júri, em outubro de 2005. Depois, conseguiu com um recurso anular a sentença e ser submetido a um novo julgamento. Foi solto em 2006 e absolvido no ano seguinte.

Enquanto preso, foi alvo de uma segunda homenagem por Flávio Bolsonaro. Este lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Na justificativa, entre outras razões, o então deputado estadual escreveu que Adriano teve êxito ao prender 12 “marginais” no morro da Coroa, no centro, além de apreender diversos armamentos e 90 trouxinhas de maconha.

No julgamento do policial, o hoje presidente Jair Bolsonaro, na época deputado federal, serviu como sua testemunha de defesa no Tribunal do Júri. Sua ajuda ao amigo da família não se limitou ao depoimento em juízo. O levou a fazer um pronunciamento na Câmara Federal, no dia 27 de outubro de 2005, em defesa do policial, reclamando de sua condenação (ouça aqui). Falou, inclusive, não saber como colaborar com o condenado, classificado como “coitado” e como um “brilhante oficial”. Não satisfeito, criticou um coronel que relatou ao júri o resultado de uma sindicância interna da PM que responsabilizava o então tenente.

A amizade dos Bolsonaros com o miliciano, por mais esdrúxula que seja – e não é o único laço deles com milicianos – não seria ainda suficiente para apontar a família do presidente como beneficiária da morte do ex-oficial da PM. Isso seria pouco.

Há, porém, a participação de Adriano e seus familiares com o escândalo da rachadinha, que está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual do Rio, envolvendo Flávio Bolsonaro e servidores fantasma do seu gabinete quando deputado estadual. Em um esquema coordenado por Fabrício Queiroz, o ex-companheiro de Adriano no quartel da PM e braço direito da família Bolsonaro.

Sobre a rachadinha, o ex-capitão da PM do Rio teria muito a falar. Afinal, entre os servidores fantasmas de Flávio Bolsonaro estavam a hoje viúva de Adriano, Danielle Nóbrega, e a sua própria mãe, Raimunda.

Danielle foi empregada em 6 de setembro de 2007 e demitida apenas em 13 de novembro de 2018 no gabinete de Flávio. Jamais apareceu para trabalhar. Raimunda conseguiu dois empregos: primeiro, na liderança do PP, partido ao qual Flávio era então filiado; depois, passou a trabalhar no gabinete do deputado estadual — quando o filho de Bolsonaro se transferiu para o PSC. Também nunca esteve na Alerj.

Danielle e Raimunda receberam na Assembleia um total de R$ 1.029.042,48, do qual repassaram R$ 203.002,57 a Queiroz, de acordo com o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. Outros R$ 202.184, 64 foram sacados em dinheiro. Há, portanto, valores ainda não esclarecidos.

São estes fatos que poderão fazer com que a morte de Adriano neste domingo seja sempre relacionada aos Bolsonaros. Como seu viu acima, há motivos de suspeitas – que podem jamais serem confirmadas – de uma “queima de arquivos”. Afinal, o próprio miliciano disse que na operação da polícia baiana com a participação de policiais do Rio de Janeiro ele seria morto, não recapturado.

O envolvimento dele com os Bolsonaros & Queiróz alimentará as suspeitas de que sua morte, como “queima de arquivo”, beneficia a família do presidente, na medida em que seu depoimento poderia servir para esclarecer fatos que estão sendo apurados diretamente relacionados ao crime de utilização de servidores fantasmas para confisco de parte dos seus salários. A chamada “rachadinha”. Logo, Adriano poderia incriminar mais ainda os Bolsonaro. Hipótese pouco provável, já que nas organizações mafiosas, como as milícias, funciona a lei da ormetà. Do silêncio.

A prevalecer a inocência dos Bolsonaros na relação com o miliciano – algo difícil de se acreditar -, a própria família deveria se empenhar para mostrar que não houve “queima de arquivo”. Do contrário, a morte do miliciano continuará sendo uma pedra no caminho da família do atual presidente. A suposta “queima de arquivo” irá persegui-los eternamente, por mais que desagrade a Jair. No caso, não vale apenas pregar a inocência. É preciso prová-la.

 

 

 

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