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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

17
Fev22

O "jênios" das redes sociais e os "formadores" de opinião: pobre país

Talis Andrade

nazismo aroeira .jpeg

 

Por Lenio Luiz Streck /ConJur

 

O cronista da Folha de São Paulo, Antônio Prata, inspirou-me. Em um belo texto, mostra como os perdedores, os burros, os caras do fundão da classe da oitava série acabam se dando bem e se transformam em "comunicadores". Ou políticos.

Têm milhões de seguidores esses agentes da "fundãocracia", diz Prata. Ele lista as pérolas que constam no site do Monark (o que não difere de outros "formadores").

Incrível o conjunto de bobagens, tolices e platitudes que parecem ter sido tiradas de almanaques tipo Biotônico Fontoura ou Renascim. Ou Sadol. Ou daqueles livrinhos "pílulas de felicidade" — mas sem citar a fonte, é claro. E milhões de néscios seguem.ImageImage

 

Monark, para ficar no "case" da "moda", diz qualquer coisa sobre qualquer coisa (e foi demitido por defender a existência de um partido nazista). Ele tem o mesmo perfil do ex-Big Brother Brasil (que incrível coincidência ele ser ex-BBB; estou muito surpreso!) que foi demitido da Jovem Pan. Cá entre nós, ser demitido da JP por fazer gesto nazista é o sujeito ser expulso de uma rave por fumar maconha. Ou ser expulso da igreja do RR Soares por pedir mais do que dez por cento de dízimo. É o próprio paroxismo. Mas, enfim, parece que até na JP há limites (essa é a parte positiva da coisa toda).

Quando Bolsonaro repercutiu uma notícia das redes de que vacina e Aids estavam interligados, um dos "influencers" (argh — é uma onomatopeia) semianalfabetos, que serviu de fonte, tinha mais de 4 milhões de néscioseguidores.

Pizzaria Angelo's promove batalha de sabores com influencers - Tribuna  Feirense

Sim, o sujeito não tem futuro, é ignorante, esculhambou no colégio, é da turma do fundão e...pronto. O que vai fazer da vida? Simples. Será blogueiro e/ou influencer. Alguns fazem faculdade de Direito, é verdade. Ou fazem podcast espalhando fake news. Ou tiktokeiam.

Vasculhando as redes, encontramos especialistas tipo Almanaque. Algo como "não tenho partido". E aí tasca uma frase como "obrigar a vacinação é nazismo". "Minha liberdade vale mais do que a vida". Burrice autocontraditória.

Em mais de uma TV do RS é possível ver agentes da fundãocracia. Também em rádios. Dizem todos os dias, com ar de inteligentes, coisas como "os que defendem medidas restritivas na pandemia deviam passar férias em Cuba ou Venezuela". Que coisa "jenial", não? Ou copiam descaradamente notícias da internet (muitas fake) e "contam" sem mencionar a fonte. O pessoal do fundão não é perigoso por ser do fundão. São perigosos porque existem muitos...!

Dos Monarks e Adrilles aos atuais BBB's (que discutem herpes e bizarrices sob os olhares de milhões de egressos dos fundões das salas de aula espalhados pelo país — talvez eles já sejam maioria), passando pelos pastores que "curam" milhares de doentes de Covid retirando-lhes percentuais dos seus ganhos via PIX, o Brasil (ainda) resiste.

Image

O país resiste. Bravamente. Bom, se a justiça resiste a membros do MP que dizem coisas (em audiência) como "esses advogados são bosta" (sem o "s") ... é porque temos alguma gordura para queimar.

Sim, o Brasil é como o escaravelho. Voa. Mas ninguém sabe como voa. Impossível de explicar.

O Flow — que demitiu Monark — é um sucesso (eu nem sabia que existia). Bom, dá para ver o nível a partir do que aconteceu no "papo" entre os "filósofos contemporâneos" Kim, Monark, Tabata e quejandos.

Tempos de pós-modernidade (sabe-se lá o que é isso, exatamente) é assim. Se fizer um bate papo sobre ciência, enche uma Kombi. Ou uma monark. Quanto mais bobagem, melhor.

Saudade dos velhos almanaques. Eram bem melhores que os blogs e "falas" dos atuais influencers.

Junto com Antônio Prata, pergunto: onde foi que erramos? Não, não respondam. A pergunta é retórica. Ou não.

 

26
Jul18

LUGAR DE FALA, É PRECISO FALAR SOBRE ISSO

Talis Andrade

indignados fala .jpg

 


Léo Rosa de Andrade 

---


Algumas controvérsias tomam lugar nos debates públicos. Nem sempre alcançam toda a Sociedade, mas, se encerram importância, merecem atenção. No momento, discute-se quem pode discursar em nome de quem.

 

Há uma “moda” chamada lugar de fala: um grupo social teria a compreensão de sua situação no mundo, então, desse lugar que possibilitaria a leitura “real” dos próprios predicados, decorreria a titularidade exclusiva do lugar de fala.

 

Segundo esse entendimento, se uma minoria não falar por si mesma, terá o seu dizer “traduzido” com ou sem má intenção, mas, de toda forma, distorcido. As falas, portanto, não podem ter um intercessor, ou um “procurador”.

 

“Eu quero falar, não quero ser falado”, dirá quem se há com validade para reivindicar. Diz com razão, embora seja evidente que se alguém se manifesta em nome próprio é porque já abriu uma brecha nos espaços sociais dos falantes.

 

A “moda” lugar de fala construiu uma narrativa que objetiva, em nome de uma posição pretensamente exclusiva, desautorizar o outro que, carente de um alvará de origem, estaria deslegitimado para dizer sobre uma causa.

 

A questão é que a luta para que todos falem é de todo mundo. É inaceitável imaginar-se a substituição de alguém, mas é igualmente impróprio que alguém se insurja contra sua fala ser repercutida por quem concorde com ela.

 

As hierarquias delimitadoras de expressão foram erigidas por autoritarismos diversos; o combatê-los não atine somente às suas vítimas. As condições sociais demarcadas não são causa que interessa precipuamente aos injustiçados.

 

Relações sociais injustas, não obstante vitimarem mais objetivamente certos grupos, subjetivamente insultam toda mentalidade libertária. Lutas igualitárias, pois, não têm posse, ainda que a desigualdade faça vítimas “preferenciais”.

 

A afirmação de situações no mundo, é certo, é feita a partir das diferenças reais que existem na ocupação dos lugares de poder. Quem os ocupou no correr na História sempre produziu justificativas para o estado de disparidades.

 

Relações sociais díspares produzem e abrigam disparidades, valorizam e reproduzem dessemelhanças. E as vítimas das desigualdades, no geral das vezes, não lutam para dar-lhes um fim geral, mas para o sucesso num drible particular.

 

Resta que os sistemas de dominação subsistem, em boa parte, com a colaboração de seus próprios dominados. O lugar de fala “original”, numa tal situação, estaria “traído”, já, pelo vício de comprometimento de um titular “colaboracionista”.

 

Então, seja se consorciando com quem queira se livrar de injustiças, seja à revelia do oprimido desavisado, seja contra a vítima que colabora, a luta por franquias libertárias é direito e obrigação de toda e qualquer mentalidade livre.

 

Quem quer que deseje manifestar-se contra modos opressivos está no lugar de fala adequado para realizar sua manifestação. As injustiças da vida, todas as injustiças da vida não são reduzíveis a situação de propriedade.

 

Hierarquias sociais oprimem, opressões reafirmam hierarquias sociais. Hierarquias distinguem. Não pode haver nenhuma distinção na construção de igualdades. Nem o sujeito mais violado está melhor posicionado para essa fala.

 

A luta para democratizar possiblidades de falar não será pretextada como uma falácia da autoridade: ao invés de reivindicar a ampliação de atores falantes, apela-se a uma determinada condição no mundo para discorrer sobre ela.

 

Djamila Ribeiro (Carosamigos, 18mai17, editado), eloquente falante: “O conceito de lugar de fala está sendo muito deturpado, sobretudo nas redes sociais. Acham que é ‘cala a boca que aqui não é seu lugar de fala’. Nada a ver.

 

Significa o quê? Quebrar a voz única. Romper com uma história única, porque a gente quer uma multiplicidade de vozes. Que as vozes que foram historicamente silenciadas possam falar. Tem que quebrar o monopólio de lugar de fala.

 

Romper com a história única, com a voz única. [O privilegiado] pode e deve falar, mas ele vai falar a partir de outro lugar. Eu falo no meu e a gente cria uma multiplicidade e juntos a gente vai pensar uma sociedade diferente.

 

Quem está numa posição de poder muitas vezes quer falar para o outro, mas tem que aprender a ouvir o que o outro fala. Todo mundo pode falar, e entender como quem tem espaços pode usá-los para dar voz a quem não teve”.

 

Talvez se careça mesmo de escuta. Muitos do que estão em posição de falar supõem-se com o saber adequado para dizer sobre o outro. Podem saber, ou não. Mas o outro certamente tem o que dizer e o direito de ser ouvido.

 

Como a fala tem que ser franqueada, igualmente, a escuta deve ser exercitada. Mais por narcísicas pequenas diferenças do que por legitimidade, disputa-se a titularidade de narrativas, deslembrando-se de contemplar outras vozes.

 

A disputa pelo lugar de fala é uma disputa de poder. É legítimo disputar poder. Talvez não seja conveniente, contudo, contender com aliados na ampliação de possibilidades distributivas de poder. É preciso falar e escutar sobre isso.

 

 

 

 

03
Nov17

O Estado brasileiro e a impunidade em crimes contra comunicadores

Talis Andrade


É necessário políticas públicas que possam mapear as violações cometidas contra comunicadores

 

por Paula Martins e João Ricardo Penteado

El País/ Madri

 

 

Município de Miguel Pereira, Rio de Janeiro. Era pouco mais de 19h, do dia 13 de fevereiro de 2014, uma quinta-feira, quando o jornalista Pedro Palma chegou em casa depois de sair do trabalho. Ao descer de seu carro, dois homens em uma motocicleta se aproximaram. Um deles sacou o revólver e realizou três disparos; dois deles acertaram a barriga de Pedro; o outro, o tórax. O jornalista morreu na hora.

 


Pedro Palma era dono do Panorama Regional, um pequeno jornal local. O veículo era conhecido pelas matérias sobre irregularidades praticadas pelas prefeituras das cidades da região. Apesar de os criminosos ainda não terem sido indiciados pelas autoridades, a principal suspeita é que o assassinato do jornalista tenha ligação com seu exercício profissional.

 

Pedro Palma momento do crime e um dos atiradores.j

Imagens do assassinato do jornalista Pedro Palma, de 47 anos, em Governador Portela, distrito de Miguel Pereira, localizado no sul do Rio, mostram Pedro descendo do carro; momentos depois, dois homens em uma moto se aproximam do veículo; um deles desce e dispara contra o jornalista. Veja vídeo aqui . Ninguém foi preso

 

A morte de Pedro é um dos 12 casos de assassinatos de comunicadores¹ ocorridos entre 2012 e 2014 cujos desdobramentos a ARTIGO 19 vem monitorando até hoje. De todos eles, apenas três tiveram criminosos identificados e responsabilizados. Nos outros nove, incluindo o caso de Pedro Palma, ninguém foi responsabilizado, sendo que em seis deles, as investigações sequer foram concluídas.

 

Esse é o enredo que reflete a impunidade em crimes contra comunicadores não apenas no Brasil mas também em outros países. Segundo a Unesco, no período de 2006 a 2016, 930 jornalistas de todo o mundo foram assassinados por conta de seus trabalhos. E só em 8% dos casos os responsáveis pelos crimes foram identificados e levados à Justiça.

 

Tal cenário representa um terreno fértil para que o ciclo de violações contra comunicadores siga ocorrendo. Como consequência, surge a autocensura, a qual outros comunicadores acabam se sujeitando pelo medo de represálias. Informações de interesse público deixam então de ser publicadas, prejudicando não apenas o direito à liberdade de expressão desses indivíduos, mas também o direito à informação de toda a sociedade.

 

Para atacar o problema por aqui, é fundamental que o Estado brasileiro empreenda os recursos e esforços necessários na resolução desses crimes. Nesse sentido, uma boa prática é a designação de delegacias especializadas em homicídios e de grupos de trabalho interinstitucionais para conduzir as investigações, medida que, segundo o histórico, aumenta as chances de se alcançar a responsabilização dos criminosos envolvidos. Outro fator decisivo é a atuação do Ministério Público, que pode contribuir não só com o controle externo da atividade policial, mas também com a eficácia dos inquéritos policiais.

 

Vale ainda citar que, de acordo com o monitoramento da ARTIGO 19, os casos de assassinatos de comunicadores em que as investigações transcorreram com maior êxito foram aqueles em que as provas foram reunidas rapidamente e que consideraram a atividade profissional da vítima como principal hipótese para a motivação do crime. No caso desta última, apesar de parecer uma presunção óbvia, ela nem sempre é levada em conta pelas autoridades investigativas.

 

Assassinatos contra comunicadores trazem ainda uma característica marcante: em quase todos eles, os crimes são cometidos por pistoleiros contratados para isso, com a existência da figura de um ou mais mandantes por trás. Estes, no entanto, dificilmente são responsabilizados – nos 12 casos monitorados pela ARTIGO 19, por exemplo, a responsabilização dos mandantes não ocorreu sequer uma vez. Por isso, para que a impunidade seja combatida de fato, é de suma importância que todos os envolvidos no crime, e não somente os executores, sejam responsabilizados.

 

Por fim, é essencial que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade de produzir políticas públicas que possam mapear de forma mais detalhada as principais características das graves violações (ameaças, sequestros, tentativas de assassinato e assassinatos) cometidas contra comunicadores no Brasil, levantando informações sobre os locais e a forma que ocorrem, o perfil dos perpetradores e os tipos de cobertura que oferecem mais risco. E, indo mais além, que também sejam capazes de fomentar ações preventivas e garantir a proteção de comunicadores que estejam sob risco.

 

Neste dia 2 de novembro, data em que o mundo celebra o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade em Crimes contra Jornalistas, precisamos mais do que nunca lembrar daqueles que foram assassinados exercendo o direito à liberdade de expressão e informação. Para que essa realidade não continue, precisamos também seguir cobrando o Estado para que enfrente esse cenário de violência e impunidade, com a adoção de medidas rápidas, consistentes e duradouras.

 

---

Paula Martins é diretora-executiva da ARTIGO 19

João Ricardo é coordenador de Comunicação da mesma entidade

 

¹ Comunicadores são aqueles que têm no exercício da comunicação sua atividade regular, como, por exemplo, jornalistas, blogueiros, radialistas e midiativistas

 

Autoridades podres de ricas perseguem, prendem, torturam e matam comunicadores. Principalmente porque denunciadas por abuso de poder, enriquecimento rápido e ilícito, por receber salários roubados acima do teto constitucional, por chefiar máfias, por comandar o tráfico (caso dos comandantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro). Leia aqui a peregrinação absurda a que a Justiça do Paraná submete um grupo de jornalistas

 

 

 

 

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