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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

10
Nov21

Navegando contra vento e maré

Talis Andrade

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Navegando contra vento e maré
José Maschio fala sobre o triângulo Imprensa X Governo X MST

por James Cimino

 

O jornalista José Maschio, o Ganchão, não tem esse nome por acaso (Maschio em italiano significa “Macho”) e, devido ao seu trabalho, um tanto atípico na atual imprensa brasileira, pode ser considerado, como diriam os nordestinos, um “Cabra Macho”. Correspondente do jornal Folha de S. Paulo no Norte do Paraná, Ganchão, como é conhecido no meio jornalístico, tem feito um trabalho bastante respeitado no tocante à questão agrária que, freqüentemente, tem posto em combate os trabalhadores sem- terras e os latifundiários. Ao contrário da imprensa “oficialesca”, como ele mesmo diz, Maschio enfatiza seu compromisso social e ético, como jornalista e cidadão. Isto significa, na maioria das vezes, abordar fatos que a maior parte dos veículos de comunicação faz questão de omitir.


Trabalhando há 13 anos na Folha, Ganchão diz que foi designado para fazer esse trabalho devido à sua experiência e conhecimento das questões que envolvem o MST e a nunca realizada reforma agrária. Numa pequena chácara, em Cambé, região de Londrina, onde mora, Ganchão conversou com nossa reportagem. 

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JAMES CIMINO ENTREVISTA JOSÉ MASCHIO


O que há de verdades e mentiras no que é publicado, na imprensa brasileira, em relação ao MST?
Não há verdades nem mentiras, o que existem são versões dos fatos. A mídia brasileira é controlada pelas elites e o MST é um movimento popular. Então, nada mais natural que haja um processo de satanização em relação aos sem-terras. E o que há também é um embate político no atual governo. A política neoliberal do governo FHC está mais preocupada com a agricultura de ponta. A agricultura de subsistência não é prioridade, principalmente nessa perspectiva que vê apenas o mercado e se esquece do indivíduo, do ser humano.


E qual é a dificuldade em se realizar um trabalho de ideologia contrária à da maioria dos meios de comunicação? 
O que ocorre, de fato, nessa profissão, é o seguinte: para se exercer o jornalismo com responsabilidade, principalmente trabalhando nos grandes jornais, como é o meu caso, é necessário saber que o jornalista tem que entrar em uma “guerra de guerrilha”. Ele acaba descobrindo que de cada dez matérias apenas uma vai cumprir sua função social. No meu caso é um pouco mais fácil porque na Folha há uma certa abertura para esse tipo de matéria. No caso do Estado de S. Paulo, por exemplo, que é um jornal declaradamente “quatrocentão”, conservador, herdeiro das capitanias hereditárias, não há o menor espaço para esse tipo de matéria de cunho social. O jornal O Globo é outro exemplo. É um jornal que tem a ideologia do regime militar, então isso já vem de longa data. 

Como o MST vê a mídia e o retrato que ela faz do movimento? 
Na verdade isso deveria ser perguntado aos militantes, mas o que eu percebo em relação a isso é que eles fazem uma restrição muito grande à mídia em geral. 
E é compreensível porque, como todo movimento popular no Brasil, são muito mal-tratados pela imprensa e, conseqüentemente, pela sociedade em geral. Além do mais, há proprietários dos veículos de comunicação que também são latifundiários. No entanto o MST se utiliza da mídia melhor do ela própria pensa.

" Eu acho que a Rede Globo é a principal responsável pela idiotização da sociedade brasileira." 

"Quem tem um caráter e uma formação humanista sabe que a fome 
é o grande problema do Brasil." 

"O MST, às vezes, quer apoio incondicional do jornalista. 
No entanto, defender o movimento significa também questionar coisas que possam, porventura, estar erradas."


E você já teve algum problema com o MST por representar a Folha de S. Paulo que, por sinal, é o maior jornal do Brasil?
 
Esses dias eu fui cobrir uma denúncia do MST contra um jornalista da sucursal de Brasília (o jornalista Josias de Souza) que foi acusado de utilizar um carro do Incra pra fazer uma matéria. Depois dessa cobertura o jornal determinou queeu refizesse o roteiro do Josias, porém, dessa vez, com um carro alugado. Então eu refiz esse roteiro mas não com intuito de limpar a imagem de um colega de trabalho. O que eu fiz foi jornalismo. Mostrei que quem havia feito a denúncia era um lavrador e que eu estava lá apenas para apurar os fatos e informar a população a esse respeito. Obviamente que também há denúncias contra o MST mas, como eu já disse, o que eu faço é jornalismo. Inclusive mantenho uma postura ética de não participar de jantares ou receber qualquer tipo de “cortesia” oferecidos por empresários. Também mantenho essa postura em relação ao movimento. Às vezes, O MST quer apoio incondicional do jornalista. No entanto, defender o movimento significa também questionar coisas que possam, porventura, estar erradas. 


E você já esteve em meio a um conflito? Como foi essa experiência?
Eu já fui preso (risos) em uma invasão em Guairacá. Era uma desocupação. Eu fui fazer a cobertura do conflito e a polícia me prendeu. Eu também já estive em meio a tiroteios, entretanto, hoje os conflitos são menos violentos. Mas realizando esse trabalho você acaba vendo que tudo isso é uma verdadeira operação de guerra.


E você acha que a questão agrária está se encaminhando para uma solução? 
Não está havendo uma solução para a questão agrária. Se o governo quisesse realmente solucionar o problema ou até mesmo desestabilizar o MST, ele deveria fazer a reforma agrária. É a melhor solução. 


Você disse que o governo está interessado na agricultura de ponta, o que demonstra um certo desdém em relação à capacidade dos trabalhadores rurais. Nesse contexto a Copavi seria uma exceção?
Não é só a Copavi que dá certo. Há outras comunidades que estão seguindo por esse caminho. A Copavi é apenas um exemplo do que pode ser feito. Qualquer experiência que tenha bases sólidas tende a ser bem sucedida. 


E qual é a situação em Querência do Norte? 
Em Querência a situação está complicada. Nós temos que entender que o coro-nelismo não existe só no nordeste. Em qualquer cidade brasileira que se chegue é só perguntar quem são as famílias que controlam o poder político e econômico para se constatar que eles se concentram nas mãos de uma minoria. Em Querência está havendo uma guerra entre a UDR e os assentados. Em Pontal do Tigre, por exemplo, os sem-terras estão realizando um trabalho, a exemplo da Copavi, muito produtivo. Tanto que eles são responsáveis por cerca de 45% do ICMS do município. Isso incomoda os fazendeiros que estão, inclusive, contratando pistoleiros para expulsar os assentados da região. Isso resultou na morte de um agricultor. Eu, infelizmente, acho que ainda vai haver muitas mortes. E o pior de tudo é a ironia do governo que enviou um “ouvidor agrário”, do Ministério da Justiça, que avisou que daqui a 60 dias a Polícia Federal vai passar pela região recolhendo os armamentos. Isto é, eles estão dando um prazo para que os pistoleiros contratados pelos fazendeiros escondam suas armas, e quando a Polícia Federal fizer esta “vistoria” ela só vai recolher enxadas e esparramadeiras dos sem-terras.

Então você acha que essa luta não vai chegar a um ponto de insustentabilidade que acabe obrigando o governo a tomar uma atitude em favor do MST?
 
Isso tudo depende do próximo presidente e do próximo governador. Se o Lerner eleger seu sucessor - e até mesmo o FHC acabar elegendo um substituto - a história vai continuar a mesma. Um governo que utiliza 600 policiais para tirar 350 pessoas de uma fazenda, pelotão de choque pra impedir trabalhadores de chegar a Curitiba, entre outros abusos, não me parece ter qualquer interesse em uma solução pacífica. Então, se esse pessoal continuar no poder, não vai haver pressão que os obrigue a tomar qualquer medida em relação a esse impasse. Apesar disso, não sou pessimista. Espero que tudo isso acabe logo.

 
20
Ago21

O que o 7 de setembro bolsonarista reserva aos que comparecerem

Talis Andrade

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Comida farta e um kit

 
 
Pão e mortadela, o lanche servido no passado a manifestantes que atendessem aos chamados do PT, é comida de pobre. Os pobres que se dispuserem a comparecer ao próximo 7 de setembro bolsonarista terão direito a três refeições completas, segundo os organizadores do ato que acontecerá em Brasília e em São Paulo.
 

Os mais abastados, pelo menos no caso de Brasília, terão também direito a estacionamento exclusivo, gratuito e a salvo de pivetes, e a um kit-Bolsonaro que inclui um copo com a foto do presidente, boton com a imagem do presidente, chaveiro com a imagem do presidente, máscara e fitas com o nome do presidente.

Bolsonaro, em pessoa, será a grande atração do ato, em Brasília de manhã, em São Paulo à tarde. Ainda lhe falta o dom da onisciência para estar presente ao mesmo tempo em vários lugares.

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- - -

Nota deste correspondente: O uso de máscara e de álcool em gel será considerado um ato hostil . Para o general de pijama, ainda lúcido, Augusto Heleno: será o 'Dia do Foda-se'. Quando Sete de Setembro é o Dia da Independência, da Liberdade do Brasil

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