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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

16
Ago21

Brasil vive escalada de grupos neonazistas e aumento de inquéritos de apologia do nazismo na PF

Talis Andrade

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Por Fernanda Mena

Discurso sectário de Bolsonaro contribui para ascensão de ideologia extremista, avaliam estudiosos

O Brasil vive uma escalada no número de células neonazistas, uma explosão de denúncias de discursos que exaltam essa ideologia de ultradireita nos meios digitais e um aumento de inquéritos que investigam o crime de apologia do nazismo na Polícia Federal.

Esse cenário sinistro acompanha uma onda global de grupos de extrema direita que levaram o secretário-geral das ONU, António Guterres, a instar a criação de uma aliança global contra o crescimento e o alastramento do neonazismo, da supremacia branca e dos discursos de ódio, especialmente a partir da pandemia da Covid-19.

“Tragicamente, depois de décadas nas sombras, os neonazistas e suas ideias agora estão ganhando popularidade”, declarou o chefe da ONU em janeiro de 2021.

 
Já um levantamento na Central de Denúncias de Crimes Cibernéticos da plataforma Safernet Brasil contabilizou uma explosão de denúncias sobre conteúdo de apologia do nazismo nas redes. Em 2015, foram 1.282 casos, ante 9.004 em 2020 —um crescimento de mais de 600%.
 

O ano de 2020 também marcou o recorde histórico de novas páginas de conteúdo neonazista e também o maior número de páginas removidas da internet por conta de conteúdo ilegal ligado às ideias do regime de Adolf Hitler. Foram 1.659 URLs (endereços) derrubadas no ano passado, contra 329 em 2015.

“Quando há remoção é porque o conteúdo era de fato criminoso ou violava os termos de uso dos serviços”, afirma Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil, organização não governamental que atua na prevenção e no combate a crimes cometidos nos meios digitais.

“Quando o conteúdo é ilegal, as plataformas removem as páginas voluntariamente porque constatam que, de fato, há crime.”

Além disso, o número de inquéritos que investigam o crime de apologia do nazismo no âmbito da Polícia Federal aumentaram, no mesmo período, de apenas 6 em 2015 para 110 em 2020. Só de 2019 a 2020, o crescimento das investigações desse tipo de crime foi de 59%. Os dados da PF foram revelados pelo jornal O Globo.

O crime de apologia do nazismo é normalmente enquadrado no artigo 20 da lei 7.716 de 1989. Ela prevê pena de dois a cinco anos de reclusão para quem fabrica, comercializa, distribui ou veicula símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica para divulgar o nazismo.

Tanto Dias, que acompanha as atividades desses grupos, como Tavares, que recebe e encaminha denúncias aos órgãos competentes, avaliam que a presença do neonazismo cresceu e ganhou visibilidade na esteira da ascensão do discurso sectário do hoje presidente Jair Bolsonaro.

“A fala de Bolsonaro é inflamatória. Suas práticas e discursos são determinantes para a ação e manifestação desses grupos tanto na internet quanto fora dela”, avalia a antropóloga que, no mês passado, encontrou em seus arquivos uma carta do então deputado federal Bolsonaro publicada em 2004 em um site neonazista.

A página continha um banner com link direto para a página do político na internet. O caso foi revelado pelo site The Intercept Brasil.

“A descoberta da carta mostra um vínculo com os neonazistas pelo menos desde 2004. E, doravante, todos os sinais que observamos não podem ser vistos apenas como fatos aleatórios ou provocações, mas como projeto”, afirma ele.

Coincidência ou não, em 2016, o neonazista Donato di Mauro foi condenado em Minas Gerais a mais de oito anos de prisão por apologia do nazismo e corrupção de menores e, entre seus pertences encaminhados ao Ministério Público, estava uma carta de Bolsonaro.

 

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À época, Di Mauro causou revolta ao postar uma foto em que supostamente enforcava uma pessoa em situação de rua com uma corrente.Antonio Donato, skinhead que aparece estrangulando morador de rua, é  condenado a 8 anos de prisão - Horizontes - HOME

“É inegável que as reiteradas manifestações de membros do governo, que evocam gestos e palavras próprios da iconografia nazista, têm empoderado essas células no Brasil”, aponta Tavares. “Não são dois ou três exemplos. São vários. E isso faz com que esses grupos se sintam legitimados.”

O presidente adotou como slogan um lema (“Brasil acima de tudo”) que emula o brado nazista “Deutschland über alles” (Alemanha acima de tudo). E seu ex-secretário da Cultura Roberto Alvim protagonizou vídeo em que imitava o ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels.

Em uma live, Bolsonaro e sua equipe tomaram todos copos de leite, num gesto considerado indicativo da exaltação à supremacia branca.

O assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins, foi flagrado fazendo gestos considerados obscenos e racistas às costas do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Ainda deputado, Bolsonaro defendeu alunos de um colégio militar de Porto Alegre que elegeram Hitler como personalidade histórica. E posou para foto ao lado de um “sósia” do ditador nazista.

No mês passado, fora da agenda, Bolsonaro se encontrou com a deputada Beatrix von Storch, vice-líder do partido populista de direita AfD (Alternativa para a Alemanha). Neta de um ministro de Hitler, ela já defendeu publicamente que a polícia alemã atirasse em refugiados que chegassem às fronteiras do país.

O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg, diz ver com preocupação “o crescimento que tem sido percebido em manifestações neonazistas e antissemitas no Brasil”.

Segundo ele, o Brasil tem um governo “nacionalista, eleito em nome de uma linha de extrema direita”. “Mas ninguém decreta a intolerância, que é fruto do silêncio de uma maioria.”

Para Adriana Dias, o silêncio sobre a história dessa ideologia no Brasil, país que sediou a maior filial do Partido Nazista fora da Alemanha, faz parte desse caldo.

“A desnazificação é um processo que passa pela educação, e isso ainda não ocorreu no Brasil”, afirma. “Em muitos lugares do país ficou instalado um pró-nazismo que não é de superfície, mas algo subterrâneo, e essas pessoas vão aos poucos se juntando e se protegendo.”

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16
Ago21

Presença nazista no Brasil cria raiz histórica para adesão à extrema direita, diz historiadora

Talis Andrade

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por Fernanda Mena /Folha de S.Paulo /Grupo Prerrogativas 

 
 

Para Heloísa Starling, fato de o país ter sediado a maior filial do Partido Nazista fora da Alemanha gera apelo ideológico que reverbera até hoje

Ecos de um passado distante e pouco conhecido podem ajudar a explicar como o Brasil se tornou um dos expoentes de uma onda conservadora global que retoma ideologias totalitárias de extrema direita: o país foi sede da maior filial do Partido Nazista fora da Alemanha.

Presente em 83 países, sob o comando centralizado na Organização do Partido Nazista no Exterior, com sede em Berlim, a legenda se internacionalizou a partir do final dos anos 1930 e teve 29 mil membros fora da Alemanha de Adolf Hitler (1889-1945).

No Brasil, o partido se expandiu entre 1928 e 1938, sob a tolerância e até mesmo simpatia do presidente e depois ditador Getúlio Vargas (1882-1954).

O Partido Nazista teve presença em 17 estados brasileiros e chegou a manter 57 núcleos organizados que somavam quase 3.000 membros, como apontou pesquisa da historiadora Ana Maria Dietrich, professora associada da Universidade Federal do ABC.

 

Há registros de celebrações nazistas em espaços públicos, como estádios, praças e avenidas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e no Recife. Na capital paulista, até o estádio do Canindé foi palco de eventos do partido de Hitler.

“O Partido Nazista teve expressão no Brasil, o que não quer dizer que o Brasil foi nazista, mas que existe uma raiz histórica, um passado sobre o qual é possível construir uma linguagem e um apelo ideológico”, avalia a historiadora Heloísa Starling, professora titular da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Ela relaciona a história do nazismo no Brasil a um imaginário reacionário brasileiro cada vez mais evidente nos dias atuais. “É impressionante que nós não conheçamos essa história.” Para Starling, é preciso entender os movimentos extremistas de hoje a partir do repertório que eles estão mobilizando.

“Quando você volta para os anos 1930, encontra a raiz de uma mitificação, de uma utopia muito reacionária”, afirma ela, autora de livros como “República e Democracia: Impasses do Brasil contemporâneo” (Editora UFMG) e “Brasil, Uma Biografia” (Companhia das Letras), este último em parceria com a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz.

Starling prepara um livro sobre o imaginário reacionário no Brasil, que hoje encontra sua expressão mais radical na retórica inflamada e sectária do presidente Jair Bolsonaro, cuja trajetória e governo já flertaram com elementos e referências nazistas.

“Por que uma fatia relevante da sociedade brasileira continua a apoiar esse presidente?”, questiona Starling. “Uma parte da resposta pode vir desse passado, cujos ingredientes totalitários fluem debaixo da sociedade democrática e parecem ter sido destampados nos anos recentes.”

Starling aponta que o Brasil foi constituído a partir do colonialismo e da escravidão, sendo, portanto, de base “violenta, racista e autoritária”, e cita o rompimento daquilo que o político e abolicionista Joaquim Nabuco chamou de “epiderme civilizatória” da sociedade brasileira.

Segundo a historiadora, “o imaginário reacionário evoca um lugar seguro e serve de liga ideológica para coisas como o anticomunismo delirante e o nacionalismo xenófobo, além de ser capaz de nazificar novos grupos sociais, como o antinordestino, o racista e o homofóbico”.

“Conhecer essa história nos ajuda a entender e a enfrentar o problema da degradação da ordem política do Brasil de hoje a partir de uma mobilização efetiva em defesa da democracia e da liberdade.”

Foi Ana Maria Dietrich quem revelou o sucesso do partido de Hitler por aqui e sua adaptação ao país na tese “Nazismo tropical”, que aponta que o Partido Nazista no Brasil era restrito aos nacionais da Alemanha que haviam imigrado para cá. Os teuto-brasileiros, ou seja, filhos de alemães nascidos aqui, não eram aceitos por serem considerados de segunda categoria, menos puros.

Com isso, mesmo a contragosto do Terceiro Reich, esse contingente de centenas de milhares de descendentes de alemães, concentrados no Sul do Brasil, foram atraídos para a Ação Integralista Brasileira (AIB), influenciada tanto pelo fascismo italiano como pelo nazismo alemão.

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Criada em 1932, a AIB se tornou o primeiro partido político de massa do país. Há registros fotográficos que mostram as sedes dos nazistas e dos integralistas lado a lado.

Para Dietrich, a presença de partidários do nazismo na sociedade brasileira “tem repercussão porque seus integrantes na zona urbana trabalhavam em bancos e em firmas e, portanto, estavam em diálogo com a comunidade local”. Esse diálogo pode ter ajudado a naturalizar discursos e simbologias próprias dessa ideologia extremista.

Neta de um alemão que esteve nas fileiras nazistas nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, dos quais retornou quando todos pensavam que havia morrido e então se mudou com a família para o Brasil, Dietrich se debruçou os arquivos do Deops, no Brasil, e do Ministério das Relações Exteriores na Alemanha.

“Sinto imensa responsabilidade social por esse passado e, por isso, dediquei 20 anos da minha vida aos estudos desses arquivos”, explica.

Neles, descobriu que, mais do que a tolerância do governo brasileiro, o partido de Hitler contou com a simpatia interessada de Vargas, que estreitou laços comerciais com a Alemanha durante a vigência da legenda nazista no Brasil.

Vargas partilhava com Hitler da caça aos comunistas e criou sua polícia política à moda da Gestapo, a polícia secreta nazista, que chegou a treinar policiais aqui. Além disso, o governo brasileiro entregou presos políticos, como Olga Benário, ao Terceiro Reich, que a matou na câmara de gás de um campo de concentração.

“Essa aproximação entre Vargas e Hitler também fez com que a população brasileira da época visse com bons olhos um tipo de movimento totalitário”, afirma Dietrich.

Com a liberdade que tinham no Brasil, proliferaram aqui estruturas partidárias como a Juventude Hitlerista, a Associação das Mulheres Nazistas, a Frente de Trabalho Alemão e a Associação de Professores Nazistas. Quando o partido foi proibido pela ditadura varguista do Estado Novo, a instituição e suas estruturas caíram na clandestinidade.

Um dos aspectos da tropicalização do nazismo de que Dietrich trata é a mudança de alvo dos nazistas no Brasil, do antissemitismo para o racismo contra a comunidade negra e mestiça brasileira. “Brasileiros eram chamados de macacos, e o casamento mestiço era proibido. A miscigenação, para os nazistas, era sinal de degradação.”

Dietrich chama a atenção para o fato de a memória do nazismo estar muito viva na Alemanha, onde ela está presente na grade curricular e nas explicações dos monumentos históricos “para que, ao ser sempre lembrado, nunca mais aconteça”.

“Aqui no Brasil não houve uma transição democrática nem há uma memória desse passado. E as comunidades que entraram em contato com o nazismo ainda têm um olhar de exaltação que você não encontra na Alemanha, onde quem exalta nazistas é execrado”, avalia.


FLERTES DO BOLSONARISMO COM O NAZISMO E GRUPOS NEONAZISTAS

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Bolsonaro defende alunos que elogiaram Hitler
Em janeiro de 1998, o então deputado Jair Bolsonaro defendeu alunos do Colégio Militar de Porto Alegre que escolheram Hitler como o personagem histórico que mais admiravam. Em seu discurso, Bolsonaro disse que os estudantes escolheram o líder nazista porque ele soube “de uma forma ou de outra” impor ordem e disciplina. Ao final, disse não concordar com as atrocidades cometidas por Hitler

Sites neonazistas exibem banner de Bolsonaro
Em 2004, três sites neonazistas fizeram propaganda de Bolsonaro com banners que levavam diretamente para a página do político na internet. O registro estava nos arquivos da antropóloga Adriana Dias, que pesquisa células neonazistas no Brasil, e foi revelado no mês passado, quando a doutora pela Unicamp encontrou uma carta de Bolsonaro publicada em site neonazistaCharges | Brasil 247

Foto ao lado de “sósia” de Hitler
Em 2015, Bolsonaro foi fotografado ao lado de Marco Antônio Santos, que estava vestido como Hitler, após audiência pública na Câmara Municipal do Rio de Janeiro na qual o “sósia” do ditador nazista foi impedido de falar. Santos depois se candidatou a vereador pelo PSC, que era então o mesmo partido de Bolsonaro

Slogan da campanha presidencial imita brado nazista
A campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018 elegeu como slogan o lema de um grupo de militares paraquedistas identificado como Centelha Nativista, de cunho nacionalista e anticomunista. “Brasil acima de tudo”, que remete ao brado nazista “Deutschland über alles”, ou “Alemanha acima de tudo”

Secretário de Cultura imita ministro da Propaganda nazista
Em um vídeo de janeiro de 2020 ao som de ópera de Richard Wagner, compositor favorito de Hitler, o então secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, parafraseou trecho de um discurso de 1933 do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels. Sob pressão, inclusive da embaixada de Israel no Brasil, o secretário foi exonerado

Secom usa termo que remete a lema nazista
Em maio de 2020, para divulgar ações do governo na pandemia, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência usou numa postagem no Twitter frase que remete a um lema associado ao nazismo: “o trabalho liberta” (“Arbeit macht frei”, em alemão). A frase estava escrita nas fachadas de diversos campos de concentração

Em julho de 2021, Bolsonaro recebeu a deputada ultradireitista alemã Beatrix von Storch, vice-líder do partido populista AfD (Alternativa para a Alemanha), fora da agenda, no Palácio do Planalto. Beatrix é neta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças na Alemanha nazista. Investigada por disseminar ódio contra muçulmanos, a congressista alemã também se encontrou com os deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF)​

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23
Out19

Alunos são revistados nus em colégio militar de Goiás

Talis Andrade

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Carta Capital - Uma aluna do Colégio Militar João Augusto Perillo, na cidade de Goiás-GO, relatou na sexta-feira 18 que ela e outros colegas foram revistados completamente nus por funcionários do colégio. Segundo o portal G1, o motivo da revista seria uma denúncia de que os estudantes estariam envolvidos com tráfico de drogas.

A estudante ainda relatou que, no momento da revista, os alunos estavam acompanhados por uma policial no banheiro feminino e um policial no masculino. “A gente tinha que tirar a roupa e abaixar cinco vezes”, descreveu.

Os pais dos estudantes envolvidos na ação acionaram o Conselho Tutelar, que acionou o Ministério Público de Goiás para averiguar o caso. A atitude fez com que o Comando Geral da Polícia Militar estadual afastasse os dois policiais acusados de cometer o crime, além do diretor da escola em questão.

Em nota, o Governo de Goiás afirma que determinou “a imediata instauração de procedimento administrativo, objetivando apurar os fatos relatados pelos alunos submetidos à busca pessoal”.

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➤ Leia também:

08
Mai19

ESTUDANTE DE COLÉGIO MILITAR USADA EM PUBLICIDADE DE BOLSONARO PEDE ‘ELE NÃO’

Talis Andrade

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247 - Após aparecer em uma publicidade do governo Jair Bolsonaro, a estudante Marina Reis, do Colégio Militar do Rio de Janeiro, bateu duro no presidente.

 

"Eu sou completamente contra o bolsonaro e contra esses cortes todos!!!! por favor não me associem ao ódio que esse homem prega. Ele não, ELE NUNCA!", disse a jovem no Twitter.

 

Na mesma rede social, o Planalto havia postado a seguinte mensagem: a" dedicação da estudante Marina Reis, do Ensino Médio do Colégio Militar do RJ, foi reconhecida hoje em cerimônia que contou com a participação do presidente @jairbolsonaro. Ela recebeu medalhas pelo seu desempenho e defesa de valores éticos e morais da instituição".

29
Mar19

MENINAS, PREPAREM-SE PARA SOFRER MAIS DO QUE OS MENINOS NA NOVA ONDA DE COLÉGIOS MILITARES

Talis Andrade

por Stéfani Fontanive Stéfani centro na formatura de boina.jpgStéfani (centro) na "formatura de boina" do CTBM-PF, em 2013. Foto: arquivo pessoal

 

Os fracos não entram. Os indecisos desistem. Só os fortes permanecem

ESSA ERA A frase que ficava exposta no CTBM-PF, no Rio Grande do Sul, para receber seus novos alunos. Um dos muitos bordões falados no colégio, que havia sido inaugurado em 2009. Eu fui uma dessas novas alunas, em 2013. Entrei com a expectativa de que a disciplina levasse a um ensino melhor. Ilusão.

Saída de um colégio particular, com muitos sonhos, resolvi que faria a prova para o militar. Escolhi ir, não foi algo imposto, como pode vir a ser para muitas crianças e adolescentes se as escolas começarem a trocar sua administração regular por administrações militares. Fiz até cursinho para passar na prova.

Comparada à antiga escola onde eu estudava, a infraestrutura deixava a desejar. Mas o colégio era novo. Fomos a quinta turma a entrar. Deixei passar, um pouco desapontada. A minha grande decepção foi a biblioteca. No ano em que entrei, a biblioteca ficava em uma espécie de casinha no meio do pátio, que foi destruída para fazerem uma quadra de esportes. Os livros ganharam um canto apertado em uma sala de convivência, bagunçados e desorganizados. A pouca importância que a escola dava aos livros sempre me chocou.

Ou você puxava o saco dos militares, seguia todas as regras, ou seria uma espécie de pária, escanteado, criticado

 

Para entender o colégio, é importante entender o seu funcionamento. No meu ano, eram 60 vagas para entrar, 40 para a comunidade civil, 20 para filhos de militares – sim, havia cotas para filhos de militares. Todos os que pretendem entrar para o CTBM têm que fazer as três fases da prova: teórica, médica e física. A parte teórica possui 50 questões: 25 de português e 25 de matemática. Se tiver um bom número de acertos, passa para segunda fase: a médica, em que tem que se fazer uma série de exames – porque “aluno Tiradentes” tem que ter o corpo saudável. A terceira fase é a física, em que se deve correr 1.600 metros em 12 minutos, fazer 25 abdominais em 1 minuto e 8 apoios em tempo livre.

Passado a prova, entram os 60 alunos, e agora a história começa de verdade. Primeiro, os pais assinam um termo de compromisso, dizendo que vamos seguir as regras e que aceitamos nos basear no regulamento do Tiradentes. Os alunos do 1º ano têm que chegar uma semana antes, para participar da “Semana Zero”. Nela, aprendemos o que é e como “entrar em forma”, que é ficar parado um do lado do outro, cuidando a “cobertura e o alinhamento” (se os alunos estão em uma fila reta) e os comandos, como sentido, descansar, como virar para a direita e para a esquerda em forma. E é “em forma” que se faz a revista dos uniformes: é preciso estar sempre com a saia passada e o sapato lustrado. Até para a trança existem regras: não podem ter fios soltos. A unha deve ser curta e limpa, e só pode ser pintada com tons pastéis, como rosa e nude – uma vez fui com um azulzinho e fui “alterada”. Ah, sim, se você não está com o uniforme e aparência corretos, recebe uma “alteração”, fica de FT e é obrigado a ir para o colégio no sábado de manhã. Quem avalia se os alunos estão “certos ou errados” são os alunos do terceiro ano, os veteranos. Se o aluno do terceiro ano não gosta de você, as alterações tendem a ser frequentes. Eles comandam a formação. E essa formação se divide em duas companhias, uma feminina e uma masculina, que se dividem em pelotões.

Também nos ensinam a marchar e a cantar diariamente o hino. Temos de aprender os lemas das companhias. O da masculina diz “Brigada acima de tudo e Deus acima de todos” – qualquer semelhança com o slogan de Jair Bolsonaro não é mera coincidência.

Além de todo esse controle diário, existia o CAL, comandado por um tenente, que cuidava da disciplina dos estudantes. Porque em colégios militares, além de se preocupar com as notas das matérias, é preciso tomar cuidado com a nota disciplinar. Todos começam com a mesma nota, que podem aumentar se você faz coisas pelo colégio, ou diminuir, caso você cometa alguma infração – como ir à aula de unhas vermelhas.

Alguns comportamentos eram ainda mais combatidos, como pensamentos feministas. Apesar das “zero um” – primeiras colocadas na classificação – serem todas mulheres, o machismo estava entranhado naquele lugar. Tínhamos que nos provar mais capazes. Não acreditavam em nós. Lembro até hoje de uma das formaturas de sexta-feira em que um dos responsáveis pelo comando estava muito bravo.

Ele destilou quase uma hora de xingamentos ininterruptos. Críticas a governos “populistas”, ao Bolsa Família. Lá pelas tantas, disse algo mais ou menos assim: “Mas vocês, meninas Tiradentes, não são meninas comuns, vocês são fortes, meninas comuns são fracas, vocês são fortes, porque, se não, não estariam aqui”. Lembram do lema de que só os fortes permanecem?

“Quem não puxa saco, puxa carroça”, outro famoso bordão dito pelo comandante. E, lá, isso era real. Ou você puxava o saco dos militares, seguia todas as regras, ou virava uma espécie de pária, escanteado, criticado. Eu estava nessa segunda posição. Eu incomodava muita gente. Muitos colegas. Muitos professores. Muitos militares. Quando descobri que as minhas posições e opiniões tinham esse poder de incomodar, passei a usufruir dele, apesar das represálias.

 

Assim que o sargento saiu, fui obrigada a revidar: 'a buceta é de vocês, vocês dão pra quem vocês quiserem'

 

Muito do que acontecia no colégio ficava lá dentro. Não podíamos postar nas redes sociais e precisávamos nos comportar como “alunos Tiradentes” em todos os lugares. Não podíamos fazer comentários políticos em redes sociais. Não podíamos andar de mãos dadas com namorados. Não podíamos sentar na grama na praça perto do colégio. Não podíamos fazer piadas ou brincadeiras nas redes sociais com assuntos do colégio, porque manchava a imagem da instituição.

Em 2014, ano das eleições, eu e meus amigos apoiamos o petista Tarso Genro para o governo do estado e postamos uma foto nas redes sociais com a bandeira de um partido dito de esquerda. A legenda da foto era uma antiga música portuguesa, que dizia: “quem tem medo do comunismo, são os latifundiários, são os monopolistas, são os colonialistas, enfim, os parasitas”. Não acho que soubéssemos exatamente o que era o comunismo, ou se concordávamos com o partido, mas concordávamos com a parte dos parasitas. E essa foto rendeu. O comandante comentou que devíamos crescer e trabalhar antes de pensar em comunismo. Respondemos que o capitalismo não fazia bem para todos. Fomos elogiados, fomos criticados. Mas souberam quem nós éramos. E não esqueceram mais. Porque comentários políticos não eram comportamento de um “aluno Tiradentes”.

Encontrei outros métodos de provocar, inclusive nos trabalhos obrigatórios para todos os alunos. No segundo ano, os alunos têm que fazer um curta-metragem baseado em obras de autores nacionais. No meu ano, o escolhido foi Erico Verissimo. O meu grupo fez o curta baseado em Incidente em Antares, que é a história de sete mortos que, em dezembro de 1963, por não poderem ser enterrados devido a uma greve dos coveiros na cidade, voltam à vida e expõem todos os podres dos habitantes locais. O livro foi lançado em 1971, sendo uma forte crítica à ditadura militar. Como os militares da época (e os do meu colégio) não entenderam? Até hoje não sei. Mas as represálias pelo curta vieram. O colégio inscreveu todos os curtas para o CinEst, o Festival Nacional de Cinema Estudantil, e Incidente em Antares foi o único premiado. Melhor direção de arte. Estava com o meu nome. Eu não pude ir. Quando o prêmio chegou ao Tiradentes, não fui chamada para receber.

“Nem melhor, nem pior: diferente”. Um terceiro lema do Tiradentes. Não éramos melhores do que as outras escolas, só tínhamos o militarismo que nos diferenciava. Mas ninguém acreditava realmente nisso. A ideia de superioridade, de pertencer a uma elite, convencia muito bem. Os alunos tinham muito orgulho de estar ali – o que eu entendo, devido à dificuldade de entrar e de permanecer –, e concordavam e perpetuavam os ideais do colégio.

Quando estava no terceiro ano, fui chamada para fazer parte dos alunos que ensinam os que ingressavam no primeiro. Viver a semana zero mais uma vez. E, um dia, eu e meus colegas estávamos na sala, conversando com os primeiro-anistas, quando um sargento entrou na sala e resolveu contar uma história: “era uma vez, uma chave e uma fechadura. Essa chave abre várias fechaduras, e era considerada uma chave-mestra. Agora, a fechadura que abre com muitas chaves é uma fechadura vagabunda. A fechadura que vale, é a que se abre com só uma chave”.

“Assim é a vida, meninas”, ele finalizou. Eu estava estarrecida e pulei da mesa que estava sentada. Assim que o sargento saiu, no exato momento que a porta fechou, fui obrigada a revidar. A única coisa que saiu da minha boca naquele dia foi impensada, mas significativa: “a buceta é de vocês, vocês dão pra quem vocês quiserem”. Algumas meninas me olharam indignadas. Outras concordaram comigo.

Também eram comuns comentários sobre nossas roupas nas festas – o controle e o militarismo iam além das portas do colégio. Qualquer mínima exposição de liberdade, de não seguir os padrões, de supostamente “não se respeitar”, virava assunto no colégio. As meninas tinham medo de “ficarem faladas”. E todos falavam! No dia seguinte às festas jovens promovidas pelo colégio, o assunto era quem ficou com quem. Os meninos eram vangloriados; as meninas, criticadas.

Lembro de uma vez que o julgamento partiu dos militares, e não dos colegas. Estava abraçando e brincando com uns amigos, não lembro direito o que estávamos fazendo, mas ríamos bastante. E fui chamada no CAL. Não chamaram meus amigos. Só eu.

Finalmente, depois de muito estresse, chegou o dia da formatura. Era dezembro de 2015. Uma nova liberdade desconhecida. Entrei com a música Survivor, da Destiny Child, na versão de Clarice Falcão, que casava perfeitamente com o que eu senti e queria expressar – bom, menos a parte de que eu não falaria na internet, pois é o que estou fazendo agora. Quando recebi o diploma, olhei diversas vezes para o comandante que tentou tornar minha vida um pequeno inferno por três anos. Ele não olhou para mim. Ficou com a cabeça baixa olhando para o celular. Incomodei até o último minuto.

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