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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Set21

"Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil": 247 lança novo documentário

Talis Andrade

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 A  TV 247 lança hoje às 21 horas o documentário Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil.

O repórter investigativo Joaquim de Carvalho foi a Juiz de Fora, Montes Claros e Florianápolis para apurar o caso que mudou a história do Brasil.

O documentário mostra que inquérito da Polícia Federal não seguiu a linha do auto atentado, apesar de existirem evidências nesse sentido.

Logo depois da facada ou suposta facada em Juiz de Fora, houve um movimento que parece sincronizado para associar Adélio à ideologia de esquerda.

Esse movimento resultou na publicação de notas na imprensa que mostravam Adélio em um protesto pela renúncia de Temer em maio de 2018 e a informação pela Câmara dos Deputados de que Adélio visitou o parlamento em agosto de 2013.

O que a imprensa não contou é que o protesto tinha sido organizado por um militante bolsonarista e Adélio já não participava do PSOL quando entrou na Câmara.

Na época, ele estava próximo do PSD. A Polícia encontrou em seus pertences um cartão do deputado Marcos Montes, hoje secretário-executivo do Ministério da Agricultura, o número da pasta. Encontrou também uma carta em que ele pede desfiliação do PSD, em 2016.

Um sobrinho de Adélio, o mais próximo dele, deu entrevista pela primeira vez e contou que o tio costumava pregar em igrejas evangélicas para falar do kit gay e contra o projeto que criminaliza a homofobia.

“Ele totalmente próximo do que dizia Bolsonaro”, contou Jefferson Ramos.

O clube de tiro ponto 38, em Florianópolis, por sua vez, tentou esconder que Adélio e Carlos Bolsonaro se encontram no local dois meses antes do episódio em Juiz de Fora.

A Polícia Federal descobriu que os dois tiveram aula com o mesmo instrutor, no dia 5 de julho. Mas essa pista não foi perseguida. 

Bolsonaro foi tratado como vítima, e o trabalho dos advogados de Adélio atendeu ao interesse do então candidato, não do suposto cliente, de quem viraram curadores. 

Desde o episódio da facada, Adélio não vê os parentes. 

Uma irmã conta que nem sequer é informada pelo advogado do estado de saúde dele. E recebeu carta de Adélio única vez, mas afirmou que não tem certeza se é dele mesmo.

O documentário tem 1 horas e 42 minutos, com direção de Max Alvim e imagens de Eric Araújo, além de vídeos e fotos inéditas do dia da visita de Bolsonaro a Juiz de Fora.

Interessante que o atirador treinado dispensa o uso de uma arma de fogo, e prefira atacar sua vítima de perto, enfrentando uma multidão e seguranças, inclusive pessoal treinado das forças armadas, da polícia militar e da polícia federa. Na rua, ladeada por edifícios, Adélio poderia escolher um local ideal, para se esconder e atirar sem ser visto, o que lhe facilitaria a fuga, e dificultaria descobrir sua autoria. Mas Adélio preferiu usar um canivete, e correr o risco de enfrentar corpo a corpo o alvo e uma multidão de fanáticos que poderiam, sedentos de vingança, partir para o linchamento do audacioso e inconsequente assassino amador. Adélio sabia que era intocável. 

 

11
Set21

Xadrez de como Braga Netto tentou operação Davati quando interventor no Rio

Talis Andrade

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O remanejamento do general Ramos da Casa Civil não foi medida isolada de Bolsonaro. Sua entrevista ao Estado, dizendo-se atropelado por um trem, visou esconder o óbvio: a entrega de anéis ao Centrão foi uma decisão conjunto dos militares no governo, visando salvar o mandato de Bolsonaro.

10
Set21

Bolsonaro não sustenta “moderação” e faz insinuação sexual com Barroso

Talis Andrade

 

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"Barroso, as urnas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis", disse o presidente

 
 
 

O presidente Jair Bolsonaro até tentou, mas não sustentou por muito tempo a “moderação” que a nota elaborada por Michel Temer tentou lhe imporApesar de rebater apoiadores irritados, o presidente “escorregou” ao falar sobre Luís Roberto Barroso, presidente do TSE.

O chefe do Executivo voltou com a narrativa da fraude eleitoral e pregou o voto impresso durante live presidencial. Nesse momento, Bolsonaro decidiu comentar sobre discurso de Barroso e se desviou do rumo de Temer.

“Se o Barroso anuncia que tem novas medidas protetivas por ocasião das urnas, é porque elas tem brecha. É porque, Barroso, elas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis. Ministro Barroso, entendeu? As urnas são penetráveis, o pessoal pode penetrar nelas”, disse, provocando risos entre assessores.

Assim, Bolsonaro reforça os ataques de cunho sexual que ele e apoiadores já fazem contra Barroso. Os comentários que mais dominaram a transmissão de Bolsonaro foram “arregou”, “amarelou” e “perdeu meu voto”. Ainda que alguns mais fiéis tentassem ponderar, a maioria das mensagens eram críticas ao presidente.

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Nota deste correspondente: Sobre o pênis inflável na Paulista: Nas creches petistas as criancinhas mamavam em madeiras em forma de piroca denunciou Bolsonaro, que agora espalha que Doria usa "calças apertadas" e Barroso é das "urnas penetráveis". Vem Rodrigo Maia, sem meias-palavras, revela que Bolsonaro é gay enrustido.
 
Toda essa gente esquece a vida severina de milhões de brasileiros sem emprego, sem teto, sem dinheiro para pagar a conta de luz, o gás, o aluguel do mocambo, a água de beber e o "pão nosso de cada dia". 

 

07
Ago21

Adélio volta à cena, mas ninguém cita que ele frequentou o Clube de Tiro dos bolsonaros

Talis Andrade

Adelio Bispo preso pela Polícia Federal, que vem se transformando na polícia política de Bolsonaro 

 

por Larissa Roncon

 

Após as complicações de saúde do presidente, que esteve internado por causa de obstrução intestinal, Adélio Bispo voltou a bombar nas redes.

Internautas questionam onde está Adélio e o que foi feito dele após ser acusado de esfaquear Bolsonaro em setembro de 2018.

A polêmica se estabeleceu entre bolsonaristas e críticos do presidente.

De um lado, apoiadores usam Adelio de bode expiatório para justificar cada espirro de Bolsonaro, enquanto outros acreditam que a facada nunca aconteceu e foi uma jogada eleitoral para o capitão poder escapar dos debates.

LEIA: Adélio volta ao debate com aparelhamento da PF por Bolsonaro e tentativa de desenterrar caso facada

Adélio está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).

Em maio, desembargadores do Tribunal Regional Federal decidiram que ele não poderá sofrer sanções administrativas pelo crime, já que tem laudo médico em que apresenta transtorno mental delirante persistente. Por isso, é considerado inimputável.

LEIA: Liberdade de Adélio, autor de facada em Bolsonaro, será decidida em 14 de junho de 2022

O seu caso deverá voltar a ser discutido em julho de 2022, quando Adélio pode solicitar liberdade [Mês que antecede as eleições presidenciais, para criar um clima emocional que favoreça mais uma vez Bolsonaro, que disputará em outubro a presidência com Lula. E Adelio continuará proibido de falar com a imprensa. Vários pedidos de entrevista continuam engavetados. O bolsonarismo impede a fala de Adélio. Que permaneça amordaçado. O atirador treinado, que prefere matar com um canivete, continua preso em uma penitenciária federal, administrada por bolsonaristas] 

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Embora não tenha sido condenado à prisão, ele foi mantido preso por ter sido considerado pessoa de alta periculosidade, cuja liberdade representaria risco a si e a terceiros.

Quem quer saber o paradeiro do autor da facada hoje nunca se importou com um fato real e que gera ainda mais suspeitas.

Carlos e Eduardo Bolsonaro frequentavam o mesmo clube de tiro, o 38, que Adélio, em Florianópolis.

Eis um fato que tem potencial para deixar todo mundo com a pulga atrás da orelha.

Renan Antunes contou essa história aqui no DCM.Clube de tiro frequentado pelos Bolsonaros e por onde Adélio Bispo passou  tem curso a R$ 5 950Eduardo Bolsonaro comemora aumento da letalidade policial — Conversa Afiada

O clube de tiro ponto 38 é um templo do bolsonarismo: a maioria dos frequentadores é gente sarada, bombada, tatuada, de sorriso forçado e pistola na cintura.

Localizado a 10 minutos da ponte Hercílio Luz, cartão postal de Floripa, o clube ganhou, nos cinco meses do governo Bolsonaro, a notoriedade que jamais teve em 27 anos de existência, graças a dois frequentadores ilustres e um maldito.

Os notáveis são os filhos do Bozo, o Zero 2 Carlos e o Zero 3 Eduardo.

O infame é Adélio Bispo, o maluco da facada de Juiz de Fora, gesto que catapultou a candidatura de Jair à presidência.

Por mais que se busque, ninguém conseguiu estabelecer uma conexão dos filhos do presidente com o maluco, exceto pelo fato de terem estado ao mesmo tempo no 38.

Corre uma versão que o clube pertence aos Bolsonaros, que seriam sócios ocultos.

É fake news. Talvez a fonte desta informação seja a mesma que espalhou que os filhos de Lula eram donos da JBS.

Passei duas tardes entre os frequentadores comuns do lugar – tem gente que chega de Porsche!

O pessoal fica algumas horas dando tiros em alvos de papel, ao custo mínimo de 99 reais a saraivada de balas calibre 22. Os preços sobem de acordo com o calibre.

O público principal é gente da segurança, mas também encontrei advogados e universitárias dando tiros nos estandes, só pelo prazer da coisa: tem gosto pra tudo.

O “ponto 38” do nome da casa significa o calibre do velho três oitão, arma padrão da polícia brasileira das antigas.

O clube foi fundado em 1992 por um delegado de polícia de Santa Catarina, Tim de Lima e Silva Hoerhann.

Eu conheci o delegado Tim. Ele é descendente do patrono do Exército, Luiz Alves de Lima e Silva, nosso Duque de Caxias.

Uma pesquisa histórica feita pela família, exibida em quadros no clube, sustenta que ela está no ramo de armas desde o tempo das Cruzadas, dos cristãos  contra os mouros, no século XII.

A linhagem inicia por um certo Ferdinand Brandon, cavaleiro normando, ancestral dos Lima e Silva.

O lado Hoerhann também era de armas:  o delegado Tim descende do fidalgo Miguel, instrutor de artilharia do império austro-húngaro, professor de esgrima de salão e ginástica sueca no… Maranhão!

Mais: em 1904, Miguel assinou o horripilante livro “A esgrima de baioneta”, muito popular na época.

O delegado tem uma mancha inapagável na carreira. Nos anos 80, ele foi encarregado de guardar um pacote de joias de um joalheiro morto num acidente aéreo.

Quando o pacote foi aberto pelas autoridades, havia pedras e até um bloco de concreto. Tim foi punido por negligência, mas as joias jamais reapareceram.

Tim ergueu o 38 num galpão industrial, ao lado da uma oficina mecânica, em local hoje muito valorizado, no bairro Campinas.

O salão de tiros é isolado da rua por uma chapa de aço de 15 milímetros, capaz de deter o chumbo de qualquer das armas ali existentes. Pode abrigar seis atiradores ao mesmo tempo.

Em quase três décadas no anonimato, o local reuniu a nata dos atiradores das redondezas – isto é, quem ama dar tiros, policiais e seguranças de lojas.

Hoje, os  irmãos Tony e Rafael, filhos do delegado, administram o 38. Nenhum deles tem formação militar ou policial, mas se vestem como se estivessem enfrentando tempos pós apocalipse.

Tony (38) é parrudo, luta jiujitsu com os lendários irmãos Gracie e dizem que até ensina os caras.

Tony também dá cursos à polícia da China comunista, treinou a segurança do primeiro ministro – o que faz com que entre no radar como uma possível conexão vermelha.

Mesmo com este currículo de amigo de comunistas, Tony é amigão dos filhos do Bozo.

A amizade começou antes do pai virar candidato. Vem dos tempos em que o Zero 3 entrou na Polícia Federal e fez curso de treinamento com Tony, evoluindo para o clube. O Zero 2 veio junto com o brother.

Tony adquiriu a ojeriza dos Bolsonaros à imprensa e não dá entrevista. Ele fica num salão acima do retrato do duque, espiando pela janela, enquanto o pessoal de marketing da casa fala com o repórter.

O guru civil dos Lima e Silva é Olavo de Carvalho. Recebeu da família a medalha de amigo da família, honraria cunhada pela própria família.

O herói da turma é Troy, um amigo de Tony, da SWAT do estado americano de Oklahoma. Ele vem de tempos em tempos e pá, pum, ensina os nativos a atirar no estilo americano.

Os caras amam muito os States. Tanto que o salão de jogos ostenta uma bandeira americana tamanho gigante, maior do que uma brasileira.

Do outro lado, estão as bandeiras, também gigantes, do xerifado de Oklahoma e do estado de Oklahoma – uma espécie de nirvana para atiradores.

O 38 tem uma lojinha de armas, pequena, mas bem movimentada.

É uma sala com espingardas calibre 12 e revólveres até o 45. Há carabinas AR15 como as usadas pelo exército americano (e pelos traficantes cariocas), numa versão popular, ao custo de 14 mil reais.

O negócio de venda de armas é legal, registrado no Exército. Qualquer um pode entrar, escolher a arma, manuseá-la, dar tiros para testar e sair com uma embaixo do braço, desde que atendida uma pequena burocracia – a casa faz tudo para o cliente.

O negócio só vende armas importadas. Carlos Souza, double de instrutor e vendedor, explica que “as nacionais Rossi e CBC só dão problemas”.

E aí está o tchã do 38: todos os papos giram, naturalmente, em torno de armas. Fala-se do coice que dá uma 12 ao disparar? O vendedor engatilha a arma mesmo sem balas e oferece: “Ouça o clique”, ensina. Pá, bate o gatilho.

Outra rodinha de papo é sobre o revólver Colt 45. Tratava-se de uma réplica, não pude apurar se era chinesa.

Mais papo: alguém viu um meliante num terreno baldio perto das lojas Koerich e queria saber se alguém poderia ir dar uma olhada, mas ninguém se escalou.

O salão de jogos, o mesmo onde está o memorial ao Duque de Caxias, abriga também a mesa de sinuca e um pequeno bar, quase sempre vazio.

“O nosso horário forte é depois do expediente, o pessoal passa por aqui e lota os estandes. Dão uns tiros para relaxar e vão para casa”, explica Carlos.

Como é relaxar dando tiros: a pessoa escolhe as armas (ou traz a sua de casa) e entra no estande de tiro. Bota óculos e protetores de ouvido. Aí, compra um pacote de balas, coloca um meliante de papel como alvo e pipoca nele.

Feito isto, ele recolhe o “morto”, confere os acertos e, se estiver num grupo, vai comentar os furos com os amigos. Se estiver sozinho, pode fazer um discreto gesto de “yes”, com o punho fechado.

Não achei muita gente disposta a puxar papo comigo no 38.

Me senti um zero à esquerda ao comprar o pacote básico calibre 22, com direito a um guaraná e uma barra de cereais, ao preço promocional de 56 reais.

Enchi de balas meu alvo – se fosse um meliante de verdade, estaria no mínimo num hospital, com o peito furado.

Saí do estande para um grupinho de instrutores. O papo era sobre Troy, o americano, com chegada prevista para sábado – era como se Zeus fosse descer do Olimpo.

O pessoal que frequenta a casa tem um figurino mais ou menos padrão, começando por uma botinha 3×4 e calças com bolsos laterais, coldre fabricado no próprio 38, lanterna e faca na cintura.

Surpresa: apesar de SC ter um baixo índice de violência, um em cada 422 habitantes do estado tem uma arma.

Do outro lado do 38, atravessando a avenida, temos o mar, com seu azul profundo.

 

Os tiros que nosso repórter deu foram no alvo
01
Jun20

Escancara-se o projeto miliciano de Bolsonaro

Talis Andrade

 

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No desejo de armar seus correligionários, transformando adversários em alvos, a intenção de liquidar a democracia. Para isso, presidente relaxou leis sobre venda de armas, ofereceu privilégios a clubes de tiro e exonerou general que se opôs

por Almir Felitte

Outras  Palavras

- - -

Desde o início dos cursos de direito, aprendemos que a Administração Pública deve obedecer ao Princípio da Impessoalidade. Isso significa dizer, de forma bem resumida, que a Administração Pública deve agir sempre na defesa do interesse público, e não de interesses privados. Assim, não é permitido que um governo use a máquina pública para defender interesses individuais, beneficiar aliados ou perseguir rivais. Esse Princípio da Impessoalidade parece simplesmente não existir para Jair Bolsonaro.

Mas as interferências do Presidente na máquina estatal vão muito além das claras investidas contra a independência da Polícia Federal nas investigações que atingem em cheio sua família e suas estranhas relações com milicianos.

10 dias antes de Moro deixar o Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de tentar intervir nestas investigações, outra interferência grave do Presidente já havia virado notícia. Em seu Twitter1, Bolsonaro anunciava, em recado para “atiradores e colecionadores”, que havia determinado, nas palavras dele, “a revogação das Portarias COLOG Nº 46, 60 e 61, de março de 2020, que tratam do rastreamento, identificação e marcação de armas, munições e demais produtos controlados por não se adequarem às minhas diretrizes definidas em decretos”.

Essas Portarias editadas pelo Comando Logístico do Exército tratavam da criação do SisNaR, o Sistema Nacional de Rastreamento de Produtos Controlados pelo Exército, além de estabelecer regras para os PCE (Produtos Controlados pelo Exército). Em resumo, elas tinham o objetivo de fortalecer o controle logístico de armas e munições no país, melhorando o rastreamento das mesmas, facilitando, por exemplo, investigações sobre crimes cometidos com armas. Assim, atendiam plenamente as funções garantidas pelo Estatuto do Desarmamento, uma lei de hierarquia superior a qualquer Decreto editado por Bolsonaro.

Mas a interferência de Bolsonaro não ficou apenas na ordem de revogar as portarias. O episódio foi além e culminou na exoneração do General Eugênio Pacelli Vieira Mota, diretor de Fiscalização de Produtos Controlados e responsável pela edição da portaria contestada pelo Presidente da República. Embora o Exército tenha dito, oficialmente, que sua saída já era programada, Pacelli deixou uma carta de despedida que não parecia dizer o mesmo.

A carta2, de modo quase irônico, dizia: “Nossos empresários e industriais do ramo de PCE tem suas parcelas de colaboração neste trabalho modernizador. Muito obrigado! Aliás, desculpe-me se por vezes não os atendi em interesses pontuais… não podia e não podemos: nosso maior compromisso será sempre com a tranquilidade da segurança social e capacidade de mobilização da indústria nacional”.

O ocorrido despertou a atenção do MPF, que investiga a possível interferência ilegal de Bolsonaro no Exército. Para a Procuradora Raquel Branquinho3, que aponta que a revogação das Portarias facilita ao crime organizado o acesso a munições e armas desviadas, Bolsonaro teria agido de forma inconstitucional, podendo levar a uma improbidade administrativa ou até mesmo a um inquérito no STF. Para tornar tudo ainda mais suspeito, dias depois, já exonerado, o General Pacelli teria, em tempo recorde, redigido um parecer autorizando uma nova norma que triplicava o limite de compra de munições no país.

O curioso, porém, é que, ao olhar um pouco mais para trás, esta talvez não tenha sido a primeira interferência no Exército para a defesa de interesses privados da cúpula do Governo Bolsonaro. Outra Portaria referente ao controle de armamentos e munições pelo Exército já foi alvo de estranhas revogações que, ao que tudo indica, atenderam aos mesmos interesses privados deste último caso.

A Portaria Nº 125, também do COLOG4, publicada em 22 de outubro de 2019, teve uma vida curta, de apenas 17 dias. Ela dispunha “sobre a aquisição, o registro, o cadastro e a transferência de armas de fogo de competência do Sistema de Gerenciamento Militar de Armas e sobre aquisição de munições”. Na base eleitoral de Jair Bolsonaro, o sentimento espalhado pelas redes sociais foi de insatisfação entre os chamados CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores), que reclamaram muito do aumento da burocracia para a aquisição de armas e munições por este grupo.

Em sua página oficial5, um deputado estadual do PSL, Ruy Irigaray, manifestou seu “total repúdio e indignação a Portaria 125”, afirmando que “General Neiva, responsável pelo COLOG, é quem assina essa portaria que reflete a falta de respeito ao povo brasileiro que votou nas eleições de 2018 a favor do porte de armas, do porte esportivo e dos CACs, principais apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro”.

No mesmo caminho, Alexandre Leite, deputado federal pelo DEM-SP, chamou a Portaria 125 de “ato autoritário” e “bola nas costas”6. Horas depois, tranquilizou os CACs ao informar que o DFPC do Exército entrara em contato com ele para explicar que tudo era apenas um mal-entendido causado por erros de digitação7.

Mas os “simples erros de digitação” demoraram longos 17 dias para serem corrigidos com a nova Portaria 136, publicada em 8 de novembro8. As mudanças realizadas, porém, foram muito maiores do que qualquer erro de português. A nova Portaria, que revogou a antiga, manteve a maior parte de seu texto, mas trouxe alterações profundas nos dispositivos que tratavam justamente dos CACs.

Algumas mudanças trazidas foram, por exemplo, o aumento da validade da autorização para aquisição de arma de fogo de 180 dias para 1 ano e a abertura de brechas para que a quantidade de armas e munições adquiridas por esse grupo pudesse superar o limite previsto no recente Decreto 9.846/19 assinado por Bolsonaro. Outras excluíram exigências formais para CACs adquirirem armas de uso restrito, reduzindo declarações de entidades esportivas nacionais a meras declarações do próprio comprador.

Ao todo, em relação à Portaria 125, a Portaria 136 adicionou 9 dispositivos que não existiam na anterior e alterou outros 9, sendo que nenhuma dessas mudanças referiu-se a meros “erros de digitação”. Foram todas mudanças substanciais do conteúdo da lei, comemoradas publicamente pelos CACs. Difícil crer que, após pressão política e recados diretos à base eleitoral de Bolsonaro, a edição de uma nova Portaria tão diferente da antiga tenha sido mera correção.

Dias depois da publicação da nova Portaria, em 21 de novembro, o General Carlos Alberto Neiva Barcellos, então Comandante Logístico, foi transferido para a reserva e exonerado de seu cargo, sendo designado para assumir o cargo de Conselheiro Militar na Conferência do Desarmamento em Genebra9.

Estas movimentações todas, porém, ganharam um ingrediente explosivo e preocupante nos últimos dias. Entre crimes e imoralidades, a publicação do vídeo da reunião ministerial na semana passada revelou, ainda, um plano nem tão oculto assim de Bolsonaro. O Presidente foi direto ao falar de seu interesse em armar parcelas da população contra as instituições democráticas e em demonstrar que seus Decretos regulando o setor tinham esse objetivo.

Conforme falei na minha coluna anterior10, parece ser antigo o sonho da família Bolsonaro em importar o modelo de milícias privadas dos EUA para o Brasil. Há anos, aliás, membros dessa família, incluindo o próprio Jair, defendem publicamente a legalização desse tipo de atividade paramilitar. Uma atividade que, aliás, só se tornou possível nos EUA diante de legislações tão frouxas no que diz respeito ao controle de armamento.

As frequentes interferências do Presidente para a edição de normas que facilitem o acesso privado a armas e munições levantam uma forte suspeita de que Bolsonaro usa descaradamente a máquina pública para seus projetos pessoais de poder, seja para favorecer grupos políticos armamentistas que compõem sua base eleitoral, seja com um ainda obscuro objetivo de formar milícias privadas de extrema-direita.

Notas:

1 https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1251182870556741632

2 http://www.dfpc.eb.mil.br/index.php/noticias-menu/573-palavras-de-despedida-aos-integrantes-do-sisfpc-gen-pacelli

3 https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,mpf-aponta-interferencia-de-bolsonaro-no-exercito,70003283704

4 http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-125-colog-de-22-de-outubro-de-2019-223849459

5 http://ruyirigaray.com.br/nota-de-repudio/

6 https://twitter.com/lexandreleite/status/1187772096501469184

7 https://twitter.com/lexandreleite/status/1187834522454364165

8 http://www.dfpc.eb.mil.br/images/Portarian136.pdf

9 http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decretos-de-21-de-novembro-de-2019-229136343

10 https://outraspalavras.net/direita-assanhada/estariamos-assistindo-a-milicianizacao-da-politica/

 

 

 

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