Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

24
Dez21

Retrospectiva 2021

Talis Andrade

 

No ano em que completou 10 anos, Pública investiga ainda mais os poderosos

 

Não parecia possível, mas 2021 foi ainda mais dramático que 2020. Não apenas pelo agravamento da pandemia, mas pelo aumento da fome, dos despejos, do desemprego, do recorde de desmatamento da Amazônia, que provocou uma seca atroz no Centro-Sul do país, trazendo sofrimento para os agricultores familiares e alta no preço dos alimentos.

A combinação de pandemia e insegurança alimentar, em ambos os casos agravada pela gestão do governo federal, fez desse um ano duro para a maior parte da população, enquanto Jair Bolsonaro distribuía dinheiro a rodo para seus aliados no Congresso, através do orçamento secreto de Arthur Lira. As violações de direitos, especialmente dos mais vulneráveis, se tornou rotina no governo, acusado de genocídio indígena no Tribunal Penal Internacional.

queimada.jpg

Queimada vista em meio a área de floresta próximo a capital Porto Velho, em Rondônia

 

Por aqui, seguimos investigando a condução da crise sanitária e econômica pelo governo Bolsonaro e examinando com lupa os efeitos de sua política de devastação no meio ambiente e sobre a vida das pessoas. Também continuamos olhando de perto para a influência cada vez maior de militares e fundamentalistas religiosos na política, com retrocesso da democracia e dos direitos humanos. Nosso compromisso com o jornalismo independente com foco no interesse público nos fez revelar histórias que deveriam ter sido contadas muito antes, como as denúncias de que o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, teria mantido por três décadas um esquema de exploração sexual de meninas.

Foi neste ano também que a Pública completou 10 anos. A comemoração não teve a festa e os encontros presenciais que queríamos, mas nos fez refletir sobre a caminhada que nos trouxe até aqui e também sobre o futuro: o nosso, do jornalismo, do Brasil e do planeta. Em nosso evento virtual – Pública +10 – realizamos debates com personalidades relevantes da academia e dos movimentos sociais sobre como o Brasil de hoje vai chegar em 2031. Falamos sobre o bolsonarismo, a barbárie na política, o fundamentalismo religioso e sobre os militares que ocupam cada vez mais o governo, temas que serão decisivos no ano que se avizinha. Também falamos sobre o que quer a juventude e sobre como o negacionismo científico agrava as mudanças climáticas.

marina-amaral-deborah-danowski-e-ailton-krenak.jpg

A última mesa do festival Pública+10, mediada pela co-diretora e fundadora da Agência Pública, Marina Amaral, uniu Ailton Krenak e Déborah Danowski para refletir sobre as mudanças climáticas

 

No dia de nosso aniversário, 15 de março, publicamos uma reportagem que mostrou que, apesar de a primeira mulher vacinada contra Covid-19 no Brasil ser negra, dois meses após o início da imunização, o país registrava duas vezes mais pessoas brancas do que negras vacinadas. Assim como em 2020, nossa cobertura da pandemia seguiu intensa: revelamos que o governo soube dias antes sobre o colapso do sistema de saúde que ocorreu em Manaus em janeiro, investigamos como o governo Bolsonaro enviou 2,8 milhões de comprimidos de cloroquina produzida pelo Exército para todo o país e mostramos que a Secretaria de Comunicação e o Ministério da Saúde pagaram influenciadores digitais para fazer propaganda de “atendimento precoce” contra a Covid-19. Meses depois, a reportagem foi citada na CPI da Pandemia pelo senador Renan Calheiros, que perguntou ao depoente, o ex-chefe da Secretaria de Comunicação do Governo, Fábio Wajngarten, se ele conhecia a Agência Pública.

Essa não foi a única vez que nosso trabalho serviu de base para as discussões da CPI. Descobrimos que a Senah – Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, grupo evangélico comandado pelo Reverendo Amilton Gomes de Paula, fez ofertas paralelas de vacinas ao Ministério da Saúde e a prefeituras. Semanas depois, o reverendo foi ouvido pela CPI. No relatório final da comissão, há seis menções ao trabalho da Pública.

A má condução da pandemia é um dos temas mais recorrentes nos mais de 140 pedidos de Impeachment de Jair Bolsonaro, que logo no início de seu terceiro ano de mandato passou a ser o presidente com mais pedidos de impedimento na história do país. Desde 2020, catalogamos os pedidos em uma ferramenta. Enquanto novos pedidos de impeachment se empilhavam na mesa do presidente da Câmara dos Deputados, o governo Bolsonaro perseguia cientistas – como mostramos no podcast Cientistas na Linha de Frente e nesta entrevista com Pedro Hallal, epidemiologista que foi alvo de processo da CGU por se posicionar contra o presidente -, cedia ao lobby de madeireirasflexibilizava a aprovação de novos agrotóxicos e, mesmo com a crise da saúde, fez avançar a pauta antiaborto. E esses são só alguns exemplos do que investigamos por aqui.

Mostramos também que os filhos do presidente praticam tiro em um clube nos Estados Unidos que é acusado de usar sinais nazistas e que a irmã do novo Ministro do Meio Ambiente, Joaquim Alvaro Pereira Leite, é sócia da Glock, fabricante que vende armas para o governo federal.

No ano em que adotamos a emergência climática como prioridade para nossas investigações, tivemos, pela primeira vez, uma correspondente cobrindo in loco a Conferência do Clima da ONU. De lá, revelamos que a baixa credibilidade internacional do governo brasileiro atrapalhou as tentativas de atrair investidores. Com a cobertura da COP, inauguramos nossa série de investigações sobre Emergências Climáticas, tema cada vez mais urgente e que será ainda mais recorrente em nossas investigações. Como sempre, vamos priorizar o ponto de vista das comunidades tradicionais da Amazônia, do Cerrado, da Caatinga e das regiões costeiras sobre o tema. Neste ano, já mostramos como os indígenas têm usado seus saberes ancestrais para combater o fogo e como os quilombolas Kalunga resistem à cobiça de grileiros para preservar o cerrado.

quilombola boaventura carvalho.jpg

O quilombola Boaventura Carvalho afirma que o rio de onde vive “há dois anos, estava cheio de água, até a borda. Quase uma lagoa.”. Agora, ele está seco

 

Seguimos cobrindo a violência ligada à questão fundiária na Amazônia em nosso projeto Amazônia sem Lei, que neste ano ganhou um podcast. Revelamos que em pouco mais de um ano, foram exportadas 100 mil toneladas de madeira da Amazônia, inclusive de árvores ameaçadas de extinção, mostramos que indígenas Yanomami isolados correm sério risco de ter contato forçado com o garimpo e investigamos a relação entre o tráfico de drogas e a madeira ilegal na Amazônia.

Em 2020, publicamos reportagem em que 14 mulheres denunciavam ter sido abusadas sexualmente na infância por Dinamá Pereira de Resende, um homem que promovia atividades religiosas com crianças em Várzea da Palma, Minas Gerais. Após a publicação, outras vítimas apareceram, o caso foi reaberto e em novembro de 2021, Dinamá foi condenado a 87 anos de prisão. No ano seguinte, em abril, publicamos outra reportagem sobre crimes sexuais contra crianças e adolescentes em que o acusado é Samuel Klein, o fundador das Casas Bahia, uma das maiores redes de varejo do país. 

A reportagem foi resultado de uma investigação realizada em sigilo durante quatro meses de uma equipe composta por dois editores e quatro repórteres, que entrevistou diversas mulheres abusadas quando crianças em uma rede de exploração sexual de meninas que funcionou durante mais de 30 em suas propriedades no litoral e na própria sede das Casas Bahia, em São Caetano do Sul.

Apesar de o Caso Klein gerar impactos importantes como inspirar um Projeto de Lei que quer alterar o prazo prescricional para a reparação civil das vítimas de crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes, a reportagem foi pouco repercutida pela imprensa tradicional brasileira. Isso nos mostra a importância de seguirmos independentes e firmes na missão de investigar os poderosos.

Também continuamos a nos engajar em parcerias e projetos colaborativos. Com o Canal Meio, lançamos uma newsletter em série em que a diretora executiva Natalia Viana contava sua experiência como a única jornalista brasileira a trabalhar com o Wikileaks no Cablegate, o vazamento de mais de 250 mil telegramas diplomáticos. Essa história, que completou dez anos no fim de 2020, está na origem da Agência Pública e se mantém: neste ano, graças a um outro vazamento divulgado pelo Wikileaks, revelamos quem são os brasileiros associados a um grupo europeu ultraconservador e antidireitos.

Também participamos do Pandora Papers, a maior investigação colaborativa da história do jornalismo, que envolveu mais de 600 repórteres de 117 países e territórios e revelou documentos de paraísos fiscais em todo o mundo. A série revelou que o Ministro da Economia, Paulo Guedes, mantém uma offshore em paraíso fiscal. Fomos parceiras do Centro Latinoamericano de Periodismo de Investigación (CLIP) em uma investigação transnacional sobre a exportação de madeira amazônica e seguimos investigando o uso de agrotóxicos no Brasil e suas consequências com a Repórter Brasil.   

Seguindo nossa missão de fomentar o jornalismo independente no país, fizemos mais uma edição das nossas já tradicionais microbolsas. Desta vez, em parceria com o Idec, para reportagens sobre acesso à internet no Brasil. Também participamos da fundação da Ajor – Associação de Jornalismo Digital, uma entidade que busca profissionalizar e fortalecer o jornalismo digital no Brasil e já conta com mais de 50 veículos associados.

Com o valioso apoio de nossos 1.600 Aliados, completamos um ano produzindo o Pauta Pública, nosso podcast quinzenal. Entrevistamos diversos jornalistas que nos ajudam a compreender os tempos complexos em que vivemos. 

2021 foi um ano que, apesar de difícil, nos fez celebrar o fato de que há dez anos estamos aqui, fazendo e incentivando o jornalismo investigativo e independente, fundamental para a democracia, tão atacada. Nos próximos meses, vamos lançar um livro comemorativo, dividindo um pouco do que aprendemos até aqui. 

Em 2022, esperamos estar nas ruas, finalmente voltando de vez a sujar os sapatos e olhar nos olhos das pessoas que nos contam suas histórias. Estaremos de olho em quem faz as mudanças climáticas se acelerarem e em quem sofre primeiro com isso; nas eleições que vão definir o futuro de nossa democracia e, como sempre, nas violações de direitos humanos cometidas pelos poderosos.

Mais lidas

capoeiristas-denunciam-mestres-de-um-dos-maiores-g

REPORTAGEM

Capoeiristas denunciam mestres de um dos maiores grupos do país por crimes sexuais

1 de junho de 2021 | por Alice Maciel, Andrea DiP e Mariama Correia

 

Lideranças do Cordão de Ouro teriam cometido abusos contra crianças e adolescentes desde a década de 1970, segundo relatos e informações de promotora de justiça do Ceará

 

 

samuel klein tarado sexual.jpg

REPORTAGEM

As acusações não reveladas de crimes sexuais de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia

15 de abril de 2021 | por Ciro Barros, Clarissa Levy, Mariama Correia, Rute Pina, Thiago Domenici e Andrea DiP

 

Capítulo 1 - Pai e filho investigados por agressões sexuais

 

 

Melhor prevenir do que remediar

REPORTAGEM

Influenciadores digitais receberam R$ 23 mil do governo Bolsonaro para propagandear “atendimento precoce” contra Covid-19

31 de março de 2021 | por Giovana Fleck e Laís Martins

 

Secretaria de Comunicação e Ministério da Saúde gastaram mais de 1,3 milhão de reais em ações de marketing com influenciadores sobre a pandemia

 

 

pedro-hallal.jpg

ENTREVISTA

“Vou continuar emitindo sempre minha opinião científica”, diz professor processado pela CGU

3 de março de 2021 | por Alice Maciel

 

Em entrevista, o epidemiologista Pedro Rodrigues Curi Hallal afirma que “se houve um processo contra mim, isso significa que as minhas críticas estão incomodando”

 

 

aeroporto-de-trancoso.png

REPORTAGEM

Trancoso, Arraial D’Ajuda, Caraíva: os jatinhos voaram, o coronavírus ficou

1 de fevereiro de 2021 | por Anna Beatriz Anjos e Bianca Muniz

 

Levantamento indica o aumento expressivo dos novos casos de Covid-19 em Porto Seguro após o réveillon de aglomerações e festas em algumas das praias mais procuradas do país

Cinco vezes em que nossas reportagens fizeram a diferença

1) Gastos do governo com influenciadores digitais para divulgar “atendimento precoce” contra Covid-19: Após a publicação da reportagem, no final de março de 2021, a bancada do Psol na Câmara protocolou uma denúncia contra o Ministério da Saúde na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal por “abuso do poder e desvio de finalidade manifestado pela atuação do governo federal”. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas também pediu para que o governo federal esclarecesse a fonte dos recursos usados para pagar a campanha com influenciadores. A Justiça Federal em São Paulo deu prazo de 72 horas para que a AGU respondesse a uma Ação Civil Pública que pedia a devolução dos recursos pagos em janeiro pela Secom nas ações de marketing reveladas pela reportagem. Em 30 de abril, a Justiça Federal em São Paulo proibiu que a Secretaria Especial de Comunicação Social do governo federal promova campanhas publicitárias defendendo tratamento precoce contra a covid-19 ou promova o uso de remédios sem comprovação científica contra a doença. Além disso, a justiça obrigou a retratação dos quatro influenciadores digitais pagos pelo governo para divulgar “atendimento precoce” contra a doença.

2) Grupo evangélico fez oferta paralela de vacinas ao Ministério da Saúde e prefeituras: A reportagem que revelou a atuação da Senah, liderada pelo reverendo Amilton Gomes, na compra de vacinas pelo governo, pautou e repercutiu na imprensa nacional. Em agosto, o reverendo foi chamado para dar depoimento para a CPI da Covid. Além disso, na mesma semana publicamos uma reportagem que mostra como o reverendo articulou encontros com o presidente da República, empresários e políticos do DF. A reportagem ajudou a embasar o diálogo durante o depoimento do reverendo, e o início da matéria chegou a ser lido durante a sessão pelo Senador Fabiano Contarato (REDE). Entrevistas e investigações da Pública foram citadas algumas vezes no relatório final da CPI da Covid.

3) As acusações não reveladas de crimes sexuais de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia: Após a publicação da reportagem, a Família Klein decidiu suspender as atividades do Instituto que levava o nome do empresário e promovia atividades na área da educação. No dia 29 de abril, mulheres se reuniram na frente da sede das Casas Bahia, em São Caetano do Sul, em manifestação para pedir que a rua com o nome do empresário seja rebatizada, assim como um centro médico público que o homenageia. Motivado pela reportagem, o Ministério Público do Trabalho abriu inquérito para apurar a relação das Casas Bahia com as denúncias. O inquérito pretende ouvir testemunhas que teriam conhecimento sobre os fatos revelados, incluindo seguranças, ex-funcionários, motoristas de táxi e secretárias pessoais. Em julho, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) propôs um PDL que retire o título de “Cidadão Paulistano” concedido em homenagem a Klein em 2006. Baseada nas revelações da Pública, a deputada Sâmia Bonfim (PSOL), apresentou um Projeto de Lei que visa alterar o prazo prescricional para a reparação civil das vítimas de crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes.

4) Brasil registra duas vezes mais pessoas brancas vacinadas que negras: Nossos repórteres foram convidados a apresentar o levantamento feito para a reportagem em reunião do Conselho Nacional de Saúde sobre o Plano de Vacinação. No dia 30 de março, o Conselho publicou uma recomendação cobrando a adoção de ações antirracistas no acesso à saúde. O documento é destinado ao Ministério da Saúde, secretarias e conselhos de saúde dos estados e município

5) Áudio revela ameaças e intimidação de advogada da Renova aos atingidos pelo desastre de Mariana: O Ministério Público Federal entrou com pedido de suspeição do juiz da 12ª Vara da Justiça Federal em Belo Horizonte, Mário de Paula Franco Júnior, responsável por julgar os processos envolvendo a tragédia de Mariana. A reportagem da Pública que revelou ameaças e intimidação de advogada da Fundação Renova durante reunião com os atingidos, publicada em fevereiro, foi citada na argumentação.

Mais republicadas

 

Nenhuma das campanhas do governo Bolsonaro pagas com dinheiro público mencionava isolamento social

infografico-influenciadores-digitais-receberam-r-2

 

78 republicações – UOL, MSN, Yahoo.

Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020, foram investidos mais de R$10 milhões em marketing de influência apenas pelo Ministério da Saúde, incluindo campanhas de combate à tuberculose, de doação de sangue, de prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de vacinação contra o sarampo. 

Em 2020, apenas 27% do total gasto no ano – R$4,8 milhões – foi para ações relacionadas à pandemia de coronavírus. Leia mais

 

 

Fazendeiros jogam agrotóxico sobre Amazônia para acelerar desmatamento

61 republicações – UOL, Carta Capital, Metrópoles.

Soja e pecuária foram responsáveis pelo despejo de agrotóxicos com uso de avião sobre floresta amazônica e outros biomas em área do tamanho de 30 mil campos de futebol. 

info2-fazendeiros-jogam-agrotoxico-sobre-amazonia-

 

16 de novembro de 2021 /Hélen Freitas,

Para acelerar o desmatamento de grandes áreas e abrir espaço para a soja e o gado, fazendeiros estão jogando grandes quantidades de agrotóxicos de avião sobre a floresta Amazônica e outros biomas. Levantamento inédito feito pela Agência Pública e Repórter Brasil revela que, nos últimos 10 anos, cerca de 30 mil hectares de vegetação nativa foram literalmente envenenados. A área corresponde a 30 mil campos de futebol. Leia mais

 

As acusações não reveladas de crimes sexuais de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia

48 republicações – Marie Claire, El País, O Dia, Ponte, eldiário.es.

 

Agrotóxicos podem aumentar vulnerabilidade à Covid-19, diz relatório inédito

agrotoxico .jpg

47 republicações – Ig, Outras Palavras, Brasil de Fato.

Relatório inédito feito por pesquisadores do Brasil, Portugal e Dinamarca afirma que modelo de produção agrícola deixou o Brasil mais exposto aos efeitos da pandemia

27 de maio de 2021 /Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil

ESPECIAL: POR TRÁS DO ALIMENTO

  • Desde o começo da pandemia, governo federal liberou mais de 600 novos pesticidas, 10 por semana
  • Agrotóxicos comercializados no Brasil podem causar deficiências no sistema imunológico, dizem pesquisadores da Abrasco
  • Agronegócio está relacionado ao surgimento de novas zoonoses e desenvolvimento de comorbidades, diz relatório .Leia reportagem                                 

agrotoxico__antonio__rodrguez.jpg

 

 

A íntima relação entre cocaína e madeira ilegal na Amazônia

madeiracocainaitapoasc.jpg

Fotos de apreensões de cocaína acondicionada em cargas de madeira nos portos de Itaguaí (RJ), Itapoá (SC) e Paranaguá (PR) entre 2019 e 2021

 

47 republicações – Animal Político (México), elDiário (Espanha), InSight Crime (EUA).

Pesquisadores e policiais apontam uso crescente de cargas de origem florestal na exportação de drogas — madeira de crime ambiental é hoje uma das principais “maquiagens”

16 de agosto de 2021 /Ciro Barros

  • Pesquisador vê sobreposição entre as rotas do crime ambiental e o narcotráfico
  • Facções veem crimes ambientais como oportunidade de acumular capital
  • Região de conflitos, Barcarena (PA) se consolidou na rota do narcotráfico.

     

  • Os produtos florestais, frequentemente oriundos de crimes ambientais, vêm servindo cada vez mais de maquiagem para o envio de drogas ao exterior. O destaque vai para as cargas de madeira, campeãs de apreensões nos contêineres enviados do Brasil à Europa.

    Pesquisas recentes já apontam o volume significativo de exploração ilegal no mercado madeireiro nacional e sua relação com o desmatamento na Amazônia. Segundo um estudo da ONG Imazon publicado em 2020, cerca de 70% da madeira explorada no Pará entre agosto de 2017 e julho de 2018 tinha origem ilícita — a exploração ocorreu em áreas onde não havia autorização do Estado. 

    Além de apontar a grilagem e a extração ilegal de madeira como duas das principais causas do desmatamento, o relatório “Máfias do Ipê”, produzido pela ONG Human Rights Watch em 2019, mostrou a relação dessa atividade com a violência. A pesquisa analisou 28 casos de assassinatos, 4 tentativas de assassinato e outros 40 casos de ameaças relacionadas à extração ilegal de madeira entre 2015 e 2019.

    A novidade apontada pelos entrevistados é a sobreposição cada vez maior das rotas entre as facções criminosas do narcotráfico e os grupos ligados aos crimes ambientais. Pesquisadores dizem que o crime ambiental pode estar servindo como uma nova forma de capitalização para os narcotraficantes, com indícios do uso de cargas de origem florestal para maquiar o envio de drogas ao exterior.

    A situação é apontada por fontes ligadas à Polícia Federal (PF) e por pesquisadores da área de segurança pública ouvidos pela Pública. “O principal produto florestal usado para a exportação de drogas para a Europa é a madeira”, afirma Aiala Couto, geógrafo da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e pesquisador associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ao Instituto Clima e Sociedade. Couto desenvolve uma pesquisa a ser publicada neste ano que trata da territorialização do crime organizado na Amazônia e a relação deste com os crimes ambientais. Segundo ele, os produtos minerais, com destaque para o manganês, ocupam o segundo lugar na lista de apreensões. Leia mais

 

publica.png

10 anos de Pública

Em 2021, comemoramos os 10 anos da Agência Pública. Em março, fizemos um evento especial e convidamos grandes nomes para debater o presente e o futuro do Brasil. Falamos de juventude, militares na política, negacionismo científico e mudanças climáticas, entre outros temas. Relembre aqui.

 

 

 

 

 

29
Nov21

Site dos EUA publica reportagem que liga o clube de tiro .38, a indústria de armas nos EUA, Bolsonaro e Adélio

Talis Andrade

Amiga do filho de Bolsonaro vai assumir função na Embratur

 

A publicação aponta Júlia Zanatta, porta-voz do .38 e filiada ao PL (novo partido de Bolsonaro), como elo com a extrema direita norte-americana (Steve Bannon) e um clube de tiro de Nebraska que exibe sinais de idolatria ao nazismo

 

por Joaquim de Carvalho

- - -

Enquanto a mídia brasileira silencia sobre a hipótese do autoatentado no caso da facada ou suposta facada em Juiz de Fora, uma publicação sediada em Nebraska, nos EUA, publicou extensa reportagem que liga o episódio à extrema direita norte-americana e, especialmente, à indústria das armas.

Seeing Red Nebraska, uma publicação que se assume editorialmente como de esquerda, cita a porta-voz do clube de tiro .38 no Brasil, Júlia Zanatta, como elo entre o episódio de Juiz de Fora, a poderosa NRA (National Rifle Associatin), a família  Bolsonaro e a extrema direita que tem Steve Bannon como protagonista.

Como recompensa, sugere a reportagem, Júlia Zanatta foi nomeada como coordenadora da Embratur na região sul do Brasil, além de disputar eleições para prefeita de Criciúma, Santa Catarina, com apoio da família Bolsonaro.Advogada que xingou David Miranda é ligada a clube de tiro usado pelos  Bolsonaros

"Em maio de 2019, Zanatta mentiu duas vezes para um jornalista de rádio de sua cidade natal no sul do Brasil (Criciúma) quando disse que o filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, nunca havia se encontrado pessoalmente com Olavo de Carvalho antes do início daquele ano. Ela também escondeu a informação de que Steve Bannon visitou a casa de Olavo em Petersburg, Virgínia, enquanto ela e Eduardo Bolsonaro frequentaram o mesmo lugar por pelo menos uma semana em janeiro de 2019”, relata.

Segundo a publicação, Steve Bannon foi à casa de Olavo em Petersburg, Virgínia, “para se atualizar sobre o cenário político no Brasil”. Eduardo e a própria Júlia estiveram com Olavo de Carvalho dois anos antes, em janeiro de 2017, antes de irem ao Shot Show de Las Vegas, “a maior feira anual para os entusiastas de armas dos Estados Unidos”. 

Em setembro de 2018, lembra a reportagem, Júlia era namorada de Tony Eduardo, dono do clube de tiro .38. Nessa época, "o clube ganhou as manchetes após o esfaqueamento do então candidato presidencial Jair Bolsonaro".

Adélio fez ali um curso de tiro, dois meses antes de ir a Juiz de Fora e ser preso após a facada ou suposta facada em Jair Bolsonaro, o que alavandou a candidatura deste a presidente da república.

A citação de Tony Eduardo é particularmente interessante para a publicação porque, segundo a reportagem, o brasileiro era funcionário do 88 Tático, que é talvez o maior clube de tiro do mundo e que exibe sinais veementes de apreço pelo nazismo.

O 88 Tático é tema frequente das reportagens do Seeing Red Nebraska. A entidade usa símbolos de inspiração nazista, desde o próprio nome: 88, que seria uma referência à oitava letra do alfabeto, H, a primeira letra de Heil. O outro H seria de Hitler. Heil Hitler. Salve Hitler.

O 88 Tático também promoveu o café SS. Na embalagem, seus diretores dizem que seria a sigla de Silencer Smooth (silenciador suave), mas o mundo identifica SS com Schutzstaffel, a milícia que era ligada ao partido nazista.

A logomarca do 88 Tático é também uma referência ao símbolo nazista: um pássaro que se assemelha a uma águia carregando o numeral de asas abertas e com a face virada para o lado direito. No brasão do partido nazista alemão, havia uma águia adornada pela suástica virada para o mesmo lado.

Pública também fez reportagem sobre esses símbolo, com base em estudo da antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que deu entrevista à TV 247.

Júlia Zanatta é citada na Seeing Red Nebraska como uma das estudantes que fizeram o curso do Institute For US Law (IUSLAW) em Washington, e que também praticou tiros do 88 Tático, assim como Eduardo Bolsonaro e esposa, além de Carlos Bolsonaro. 

Símbolos do 88 Tático foram vistos na roupas de militantes de extrema direita que tentaram invadir o Capitólio nas vésperas da posse de Joe Biden, e o site norte-americano lembra que Eduardo Bolsonaro esteve na Casa Branca na véspera do episódio e, no dia da invasão, se encontrou com o empresário Michael Lindell, apoiador de Trump.

A reportagem cita que Júlia Zanatta ganhou espaço político depois do episódio da facada (ou suposta facada), em que, falando em nome do .38, declarou que Adélio tinha estado lá um único dia.Ex-candidata a prefeita de Criciúma posta foto segurando arma e vira “alvo”  na internet

Equivocadamente, Seing Red diz que Julia teria dito que Adélio fez curso de um único dia. Na verdade, não foi isso que ela declarou. Júlia disse que Adélio fez o cadastro, e não voltou mais. Não é verdade. Adélio fez curso de três dias e até obteve certificado. No último dia, 5 de julho de 2018, dividiu o espaço de estandes com Carlos Bolsonaro.

A reportagem lembra que Julia Zanatta foi candidata a prefeita de Criciúma no ano passado, com apoio da família Bolsonaro. Terminou em terceiro lugar, filiada ao PL. A reportagem não cita, mas é preciso registrar que o PL, de Valdemar da Costa Neto, é o partido a que Bolsonaro deve se filiar para disputar a reeleição.

A reportagem, realizada com base em fontes protegidas pelo anonimato, também sugere que Bolsonaro pode ter tido financiamento da poderosa NRA, mas, neste ponto, defende a necessidade de que as autoridades investiguem em profundidade.

Indícios existem, mas é preciso que haja disposição para colocar o dedo nesta ferida aberta.

.x.x.x.x.

Nota que abre a reportagem do site dos EUA: Seeing Red Nebraska raramente publica contribuições anônimas. Nesse caso, fontes internacionais nos forneceram o seguinte, e têm preocupações de segurança razoáveis ​​que exigem anonimato.

.x.x.x.x.x.

O espaço está aberto para que todos os citados nesta reportagem do Seeing Red se manifestem, inclusive Júlia Zanatta.

 
[Adélio treina tiro, e na 'hora de matar' prefere usar um canivete ou faca]

 

12
Set21

"Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil": 247 lança novo documentário

Talis Andrade

fakeada.jpg

 

 

 A  TV 247 lança hoje às 21 horas o documentário Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil.

O repórter investigativo Joaquim de Carvalho foi a Juiz de Fora, Montes Claros e Florianápolis para apurar o caso que mudou a história do Brasil.

O documentário mostra que inquérito da Polícia Federal não seguiu a linha do auto atentado, apesar de existirem evidências nesse sentido.

Logo depois da facada ou suposta facada em Juiz de Fora, houve um movimento que parece sincronizado para associar Adélio à ideologia de esquerda.

Esse movimento resultou na publicação de notas na imprensa que mostravam Adélio em um protesto pela renúncia de Temer em maio de 2018 e a informação pela Câmara dos Deputados de que Adélio visitou o parlamento em agosto de 2013.

O que a imprensa não contou é que o protesto tinha sido organizado por um militante bolsonarista e Adélio já não participava do PSOL quando entrou na Câmara.

Na época, ele estava próximo do PSD. A Polícia encontrou em seus pertences um cartão do deputado Marcos Montes, hoje secretário-executivo do Ministério da Agricultura, o número da pasta. Encontrou também uma carta em que ele pede desfiliação do PSD, em 2016.

Um sobrinho de Adélio, o mais próximo dele, deu entrevista pela primeira vez e contou que o tio costumava pregar em igrejas evangélicas para falar do kit gay e contra o projeto que criminaliza a homofobia.

“Ele totalmente próximo do que dizia Bolsonaro”, contou Jefferson Ramos.

O clube de tiro ponto 38, em Florianópolis, por sua vez, tentou esconder que Adélio e Carlos Bolsonaro se encontram no local dois meses antes do episódio em Juiz de Fora.

A Polícia Federal descobriu que os dois tiveram aula com o mesmo instrutor, no dia 5 de julho. Mas essa pista não foi perseguida. 

Bolsonaro foi tratado como vítima, e o trabalho dos advogados de Adélio atendeu ao interesse do então candidato, não do suposto cliente, de quem viraram curadores. 

Desde o episódio da facada, Adélio não vê os parentes. 

Uma irmã conta que nem sequer é informada pelo advogado do estado de saúde dele. E recebeu carta de Adélio única vez, mas afirmou que não tem certeza se é dele mesmo.

O documentário tem 1 horas e 42 minutos, com direção de Max Alvim e imagens de Eric Araújo, além de vídeos e fotos inéditas do dia da visita de Bolsonaro a Juiz de Fora.

Interessante que o atirador treinado dispensa o uso de uma arma de fogo, e prefira atacar sua vítima de perto, enfrentando uma multidão e seguranças, inclusive pessoal treinado das forças armadas, da polícia militar e da polícia federa. Na rua, ladeada por edifícios, Adélio poderia escolher um local ideal, para se esconder e atirar sem ser visto, o que lhe facilitaria a fuga, e dificultaria descobrir sua autoria. Mas Adélio preferiu usar um canivete, e correr o risco de enfrentar corpo a corpo o alvo e uma multidão de fanáticos que poderiam, sedentos de vingança, partir para o linchamento do audacioso e inconsequente assassino amador. Adélio sabia que era intocável. 

 

11
Set21

Xadrez de como Braga Netto tentou operação Davati quando interventor no Rio

Talis Andrade

arma povo bolsonaro.jpeg

 

 

O remanejamento do general Ramos da Casa Civil não foi medida isolada de Bolsonaro. Sua entrevista ao Estado, dizendo-se atropelado por um trem, visou esconder o óbvio: a entrega de anéis ao Centrão foi uma decisão conjunto dos militares no governo, visando salvar o mandato de Bolsonaro.

10
Set21

Bolsonaro não sustenta “moderação” e faz insinuação sexual com Barroso

Talis Andrade

 

jair-bolsonaro- visto por rodrigo maia.jpg

 

"Barroso, as urnas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis", disse o presidente

 
 
 

O presidente Jair Bolsonaro até tentou, mas não sustentou por muito tempo a “moderação” que a nota elaborada por Michel Temer tentou lhe imporApesar de rebater apoiadores irritados, o presidente “escorregou” ao falar sobre Luís Roberto Barroso, presidente do TSE.

O chefe do Executivo voltou com a narrativa da fraude eleitoral e pregou o voto impresso durante live presidencial. Nesse momento, Bolsonaro decidiu comentar sobre discurso de Barroso e se desviou do rumo de Temer.

“Se o Barroso anuncia que tem novas medidas protetivas por ocasião das urnas, é porque elas tem brecha. É porque, Barroso, elas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis. Ministro Barroso, entendeu? As urnas são penetráveis, o pessoal pode penetrar nelas”, disse, provocando risos entre assessores.

Assim, Bolsonaro reforça os ataques de cunho sexual que ele e apoiadores já fazem contra Barroso. Os comentários que mais dominaram a transmissão de Bolsonaro foram “arregou”, “amarelou” e “perdeu meu voto”. Ainda que alguns mais fiéis tentassem ponderar, a maioria das mensagens eram críticas ao presidente.

adao arma penis.jpg

penis_verde_amarelo.jpg

piroca.jpeg

 

Nota deste correspondente: Sobre o pênis inflável na Paulista: Nas creches petistas as criancinhas mamavam em madeiras em forma de piroca denunciou Bolsonaro, que agora espalha que Doria usa "calças apertadas" e Barroso é das "urnas penetráveis". Vem Rodrigo Maia, sem meias-palavras, revela que Bolsonaro é gay enrustido.
 
Toda essa gente esquece a vida severina de milhões de brasileiros sem emprego, sem teto, sem dinheiro para pagar a conta de luz, o gás, o aluguel do mocambo, a água de beber e o "pão nosso de cada dia". 

 

07
Ago21

Adélio volta à cena, mas ninguém cita que ele frequentou o Clube de Tiro dos bolsonaros

Talis Andrade

Adelio Bispo preso pela Polícia Federal, que vem se transformando na polícia política de Bolsonaro 

 

por Larissa Roncon

 

Após as complicações de saúde do presidente, que esteve internado por causa de obstrução intestinal, Adélio Bispo voltou a bombar nas redes.

Internautas questionam onde está Adélio e o que foi feito dele após ser acusado de esfaquear Bolsonaro em setembro de 2018.

A polêmica se estabeleceu entre bolsonaristas e críticos do presidente.

De um lado, apoiadores usam Adelio de bode expiatório para justificar cada espirro de Bolsonaro, enquanto outros acreditam que a facada nunca aconteceu e foi uma jogada eleitoral para o capitão poder escapar dos debates.

LEIA: Adélio volta ao debate com aparelhamento da PF por Bolsonaro e tentativa de desenterrar caso facada

Adélio está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).

Em maio, desembargadores do Tribunal Regional Federal decidiram que ele não poderá sofrer sanções administrativas pelo crime, já que tem laudo médico em que apresenta transtorno mental delirante persistente. Por isso, é considerado inimputável.

LEIA: Liberdade de Adélio, autor de facada em Bolsonaro, será decidida em 14 de junho de 2022

O seu caso deverá voltar a ser discutido em julho de 2022, quando Adélio pode solicitar liberdade [Mês que antecede as eleições presidenciais, para criar um clima emocional que favoreça mais uma vez Bolsonaro, que disputará em outubro a presidência com Lula. E Adelio continuará proibido de falar com a imprensa. Vários pedidos de entrevista continuam engavetados. O bolsonarismo impede a fala de Adélio. Que permaneça amordaçado. O atirador treinado, que prefere matar com um canivete, continua preso em uma penitenciária federal, administrada por bolsonaristas] 

arma povo bolsonaro.jpeg

 

Embora não tenha sido condenado à prisão, ele foi mantido preso por ter sido considerado pessoa de alta periculosidade, cuja liberdade representaria risco a si e a terceiros.

Quem quer saber o paradeiro do autor da facada hoje nunca se importou com um fato real e que gera ainda mais suspeitas.

Carlos e Eduardo Bolsonaro frequentavam o mesmo clube de tiro, o 38, que Adélio, em Florianópolis.

Eis um fato que tem potencial para deixar todo mundo com a pulga atrás da orelha.

Renan Antunes contou essa história aqui no DCM.Clube de tiro frequentado pelos Bolsonaros e por onde Adélio Bispo passou  tem curso a R$ 5 950Eduardo Bolsonaro comemora aumento da letalidade policial — Conversa Afiada

O clube de tiro ponto 38 é um templo do bolsonarismo: a maioria dos frequentadores é gente sarada, bombada, tatuada, de sorriso forçado e pistola na cintura.

Localizado a 10 minutos da ponte Hercílio Luz, cartão postal de Floripa, o clube ganhou, nos cinco meses do governo Bolsonaro, a notoriedade que jamais teve em 27 anos de existência, graças a dois frequentadores ilustres e um maldito.

Os notáveis são os filhos do Bozo, o Zero 2 Carlos e o Zero 3 Eduardo.

O infame é Adélio Bispo, o maluco da facada de Juiz de Fora, gesto que catapultou a candidatura de Jair à presidência.

Por mais que se busque, ninguém conseguiu estabelecer uma conexão dos filhos do presidente com o maluco, exceto pelo fato de terem estado ao mesmo tempo no 38.

Corre uma versão que o clube pertence aos Bolsonaros, que seriam sócios ocultos.

É fake news. Talvez a fonte desta informação seja a mesma que espalhou que os filhos de Lula eram donos da JBS.

Passei duas tardes entre os frequentadores comuns do lugar – tem gente que chega de Porsche!

O pessoal fica algumas horas dando tiros em alvos de papel, ao custo mínimo de 99 reais a saraivada de balas calibre 22. Os preços sobem de acordo com o calibre.

O público principal é gente da segurança, mas também encontrei advogados e universitárias dando tiros nos estandes, só pelo prazer da coisa: tem gosto pra tudo.

O “ponto 38” do nome da casa significa o calibre do velho três oitão, arma padrão da polícia brasileira das antigas.

O clube foi fundado em 1992 por um delegado de polícia de Santa Catarina, Tim de Lima e Silva Hoerhann.

Eu conheci o delegado Tim. Ele é descendente do patrono do Exército, Luiz Alves de Lima e Silva, nosso Duque de Caxias.

Uma pesquisa histórica feita pela família, exibida em quadros no clube, sustenta que ela está no ramo de armas desde o tempo das Cruzadas, dos cristãos  contra os mouros, no século XII.

A linhagem inicia por um certo Ferdinand Brandon, cavaleiro normando, ancestral dos Lima e Silva.

O lado Hoerhann também era de armas:  o delegado Tim descende do fidalgo Miguel, instrutor de artilharia do império austro-húngaro, professor de esgrima de salão e ginástica sueca no… Maranhão!

Mais: em 1904, Miguel assinou o horripilante livro “A esgrima de baioneta”, muito popular na época.

O delegado tem uma mancha inapagável na carreira. Nos anos 80, ele foi encarregado de guardar um pacote de joias de um joalheiro morto num acidente aéreo.

Quando o pacote foi aberto pelas autoridades, havia pedras e até um bloco de concreto. Tim foi punido por negligência, mas as joias jamais reapareceram.

Tim ergueu o 38 num galpão industrial, ao lado da uma oficina mecânica, em local hoje muito valorizado, no bairro Campinas.

O salão de tiros é isolado da rua por uma chapa de aço de 15 milímetros, capaz de deter o chumbo de qualquer das armas ali existentes. Pode abrigar seis atiradores ao mesmo tempo.

Em quase três décadas no anonimato, o local reuniu a nata dos atiradores das redondezas – isto é, quem ama dar tiros, policiais e seguranças de lojas.

Hoje, os  irmãos Tony e Rafael, filhos do delegado, administram o 38. Nenhum deles tem formação militar ou policial, mas se vestem como se estivessem enfrentando tempos pós apocalipse.

Tony (38) é parrudo, luta jiujitsu com os lendários irmãos Gracie e dizem que até ensina os caras.

Tony também dá cursos à polícia da China comunista, treinou a segurança do primeiro ministro – o que faz com que entre no radar como uma possível conexão vermelha.

Mesmo com este currículo de amigo de comunistas, Tony é amigão dos filhos do Bozo.

A amizade começou antes do pai virar candidato. Vem dos tempos em que o Zero 3 entrou na Polícia Federal e fez curso de treinamento com Tony, evoluindo para o clube. O Zero 2 veio junto com o brother.

Tony adquiriu a ojeriza dos Bolsonaros à imprensa e não dá entrevista. Ele fica num salão acima do retrato do duque, espiando pela janela, enquanto o pessoal de marketing da casa fala com o repórter.

O guru civil dos Lima e Silva é Olavo de Carvalho. Recebeu da família a medalha de amigo da família, honraria cunhada pela própria família.

O herói da turma é Troy, um amigo de Tony, da SWAT do estado americano de Oklahoma. Ele vem de tempos em tempos e pá, pum, ensina os nativos a atirar no estilo americano.

Os caras amam muito os States. Tanto que o salão de jogos ostenta uma bandeira americana tamanho gigante, maior do que uma brasileira.

Do outro lado, estão as bandeiras, também gigantes, do xerifado de Oklahoma e do estado de Oklahoma – uma espécie de nirvana para atiradores.

O 38 tem uma lojinha de armas, pequena, mas bem movimentada.

É uma sala com espingardas calibre 12 e revólveres até o 45. Há carabinas AR15 como as usadas pelo exército americano (e pelos traficantes cariocas), numa versão popular, ao custo de 14 mil reais.

O negócio de venda de armas é legal, registrado no Exército. Qualquer um pode entrar, escolher a arma, manuseá-la, dar tiros para testar e sair com uma embaixo do braço, desde que atendida uma pequena burocracia – a casa faz tudo para o cliente.

O negócio só vende armas importadas. Carlos Souza, double de instrutor e vendedor, explica que “as nacionais Rossi e CBC só dão problemas”.

E aí está o tchã do 38: todos os papos giram, naturalmente, em torno de armas. Fala-se do coice que dá uma 12 ao disparar? O vendedor engatilha a arma mesmo sem balas e oferece: “Ouça o clique”, ensina. Pá, bate o gatilho.

Outra rodinha de papo é sobre o revólver Colt 45. Tratava-se de uma réplica, não pude apurar se era chinesa.

Mais papo: alguém viu um meliante num terreno baldio perto das lojas Koerich e queria saber se alguém poderia ir dar uma olhada, mas ninguém se escalou.

O salão de jogos, o mesmo onde está o memorial ao Duque de Caxias, abriga também a mesa de sinuca e um pequeno bar, quase sempre vazio.

“O nosso horário forte é depois do expediente, o pessoal passa por aqui e lota os estandes. Dão uns tiros para relaxar e vão para casa”, explica Carlos.

Como é relaxar dando tiros: a pessoa escolhe as armas (ou traz a sua de casa) e entra no estande de tiro. Bota óculos e protetores de ouvido. Aí, compra um pacote de balas, coloca um meliante de papel como alvo e pipoca nele.

Feito isto, ele recolhe o “morto”, confere os acertos e, se estiver num grupo, vai comentar os furos com os amigos. Se estiver sozinho, pode fazer um discreto gesto de “yes”, com o punho fechado.

Não achei muita gente disposta a puxar papo comigo no 38.

Me senti um zero à esquerda ao comprar o pacote básico calibre 22, com direito a um guaraná e uma barra de cereais, ao preço promocional de 56 reais.

Enchi de balas meu alvo – se fosse um meliante de verdade, estaria no mínimo num hospital, com o peito furado.

Saí do estande para um grupinho de instrutores. O papo era sobre Troy, o americano, com chegada prevista para sábado – era como se Zeus fosse descer do Olimpo.

O pessoal que frequenta a casa tem um figurino mais ou menos padrão, começando por uma botinha 3×4 e calças com bolsos laterais, coldre fabricado no próprio 38, lanterna e faca na cintura.

Surpresa: apesar de SC ter um baixo índice de violência, um em cada 422 habitantes do estado tem uma arma.

Do outro lado do 38, atravessando a avenida, temos o mar, com seu azul profundo.

 

Os tiros que nosso repórter deu foram no alvo
01
Jun20

Escancara-se o projeto miliciano de Bolsonaro

Talis Andrade

 

arma outras palavras.jpg

 

No desejo de armar seus correligionários, transformando adversários em alvos, a intenção de liquidar a democracia. Para isso, presidente relaxou leis sobre venda de armas, ofereceu privilégios a clubes de tiro e exonerou general que se opôs

por Almir Felitte

Outras  Palavras

- - -

Desde o início dos cursos de direito, aprendemos que a Administração Pública deve obedecer ao Princípio da Impessoalidade. Isso significa dizer, de forma bem resumida, que a Administração Pública deve agir sempre na defesa do interesse público, e não de interesses privados. Assim, não é permitido que um governo use a máquina pública para defender interesses individuais, beneficiar aliados ou perseguir rivais. Esse Princípio da Impessoalidade parece simplesmente não existir para Jair Bolsonaro.

Mas as interferências do Presidente na máquina estatal vão muito além das claras investidas contra a independência da Polícia Federal nas investigações que atingem em cheio sua família e suas estranhas relações com milicianos.

10 dias antes de Moro deixar o Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de tentar intervir nestas investigações, outra interferência grave do Presidente já havia virado notícia. Em seu Twitter1, Bolsonaro anunciava, em recado para “atiradores e colecionadores”, que havia determinado, nas palavras dele, “a revogação das Portarias COLOG Nº 46, 60 e 61, de março de 2020, que tratam do rastreamento, identificação e marcação de armas, munições e demais produtos controlados por não se adequarem às minhas diretrizes definidas em decretos”.

Essas Portarias editadas pelo Comando Logístico do Exército tratavam da criação do SisNaR, o Sistema Nacional de Rastreamento de Produtos Controlados pelo Exército, além de estabelecer regras para os PCE (Produtos Controlados pelo Exército). Em resumo, elas tinham o objetivo de fortalecer o controle logístico de armas e munições no país, melhorando o rastreamento das mesmas, facilitando, por exemplo, investigações sobre crimes cometidos com armas. Assim, atendiam plenamente as funções garantidas pelo Estatuto do Desarmamento, uma lei de hierarquia superior a qualquer Decreto editado por Bolsonaro.

Mas a interferência de Bolsonaro não ficou apenas na ordem de revogar as portarias. O episódio foi além e culminou na exoneração do General Eugênio Pacelli Vieira Mota, diretor de Fiscalização de Produtos Controlados e responsável pela edição da portaria contestada pelo Presidente da República. Embora o Exército tenha dito, oficialmente, que sua saída já era programada, Pacelli deixou uma carta de despedida que não parecia dizer o mesmo.

A carta2, de modo quase irônico, dizia: “Nossos empresários e industriais do ramo de PCE tem suas parcelas de colaboração neste trabalho modernizador. Muito obrigado! Aliás, desculpe-me se por vezes não os atendi em interesses pontuais… não podia e não podemos: nosso maior compromisso será sempre com a tranquilidade da segurança social e capacidade de mobilização da indústria nacional”.

O ocorrido despertou a atenção do MPF, que investiga a possível interferência ilegal de Bolsonaro no Exército. Para a Procuradora Raquel Branquinho3, que aponta que a revogação das Portarias facilita ao crime organizado o acesso a munições e armas desviadas, Bolsonaro teria agido de forma inconstitucional, podendo levar a uma improbidade administrativa ou até mesmo a um inquérito no STF. Para tornar tudo ainda mais suspeito, dias depois, já exonerado, o General Pacelli teria, em tempo recorde, redigido um parecer autorizando uma nova norma que triplicava o limite de compra de munições no país.

O curioso, porém, é que, ao olhar um pouco mais para trás, esta talvez não tenha sido a primeira interferência no Exército para a defesa de interesses privados da cúpula do Governo Bolsonaro. Outra Portaria referente ao controle de armamentos e munições pelo Exército já foi alvo de estranhas revogações que, ao que tudo indica, atenderam aos mesmos interesses privados deste último caso.

A Portaria Nº 125, também do COLOG4, publicada em 22 de outubro de 2019, teve uma vida curta, de apenas 17 dias. Ela dispunha “sobre a aquisição, o registro, o cadastro e a transferência de armas de fogo de competência do Sistema de Gerenciamento Militar de Armas e sobre aquisição de munições”. Na base eleitoral de Jair Bolsonaro, o sentimento espalhado pelas redes sociais foi de insatisfação entre os chamados CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores), que reclamaram muito do aumento da burocracia para a aquisição de armas e munições por este grupo.

Em sua página oficial5, um deputado estadual do PSL, Ruy Irigaray, manifestou seu “total repúdio e indignação a Portaria 125”, afirmando que “General Neiva, responsável pelo COLOG, é quem assina essa portaria que reflete a falta de respeito ao povo brasileiro que votou nas eleições de 2018 a favor do porte de armas, do porte esportivo e dos CACs, principais apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro”.

No mesmo caminho, Alexandre Leite, deputado federal pelo DEM-SP, chamou a Portaria 125 de “ato autoritário” e “bola nas costas”6. Horas depois, tranquilizou os CACs ao informar que o DFPC do Exército entrara em contato com ele para explicar que tudo era apenas um mal-entendido causado por erros de digitação7.

Mas os “simples erros de digitação” demoraram longos 17 dias para serem corrigidos com a nova Portaria 136, publicada em 8 de novembro8. As mudanças realizadas, porém, foram muito maiores do que qualquer erro de português. A nova Portaria, que revogou a antiga, manteve a maior parte de seu texto, mas trouxe alterações profundas nos dispositivos que tratavam justamente dos CACs.

Algumas mudanças trazidas foram, por exemplo, o aumento da validade da autorização para aquisição de arma de fogo de 180 dias para 1 ano e a abertura de brechas para que a quantidade de armas e munições adquiridas por esse grupo pudesse superar o limite previsto no recente Decreto 9.846/19 assinado por Bolsonaro. Outras excluíram exigências formais para CACs adquirirem armas de uso restrito, reduzindo declarações de entidades esportivas nacionais a meras declarações do próprio comprador.

Ao todo, em relação à Portaria 125, a Portaria 136 adicionou 9 dispositivos que não existiam na anterior e alterou outros 9, sendo que nenhuma dessas mudanças referiu-se a meros “erros de digitação”. Foram todas mudanças substanciais do conteúdo da lei, comemoradas publicamente pelos CACs. Difícil crer que, após pressão política e recados diretos à base eleitoral de Bolsonaro, a edição de uma nova Portaria tão diferente da antiga tenha sido mera correção.

Dias depois da publicação da nova Portaria, em 21 de novembro, o General Carlos Alberto Neiva Barcellos, então Comandante Logístico, foi transferido para a reserva e exonerado de seu cargo, sendo designado para assumir o cargo de Conselheiro Militar na Conferência do Desarmamento em Genebra9.

Estas movimentações todas, porém, ganharam um ingrediente explosivo e preocupante nos últimos dias. Entre crimes e imoralidades, a publicação do vídeo da reunião ministerial na semana passada revelou, ainda, um plano nem tão oculto assim de Bolsonaro. O Presidente foi direto ao falar de seu interesse em armar parcelas da população contra as instituições democráticas e em demonstrar que seus Decretos regulando o setor tinham esse objetivo.

Conforme falei na minha coluna anterior10, parece ser antigo o sonho da família Bolsonaro em importar o modelo de milícias privadas dos EUA para o Brasil. Há anos, aliás, membros dessa família, incluindo o próprio Jair, defendem publicamente a legalização desse tipo de atividade paramilitar. Uma atividade que, aliás, só se tornou possível nos EUA diante de legislações tão frouxas no que diz respeito ao controle de armamento.

As frequentes interferências do Presidente para a edição de normas que facilitem o acesso privado a armas e munições levantam uma forte suspeita de que Bolsonaro usa descaradamente a máquina pública para seus projetos pessoais de poder, seja para favorecer grupos políticos armamentistas que compõem sua base eleitoral, seja com um ainda obscuro objetivo de formar milícias privadas de extrema-direita.

Notas:

1 https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1251182870556741632

2 http://www.dfpc.eb.mil.br/index.php/noticias-menu/573-palavras-de-despedida-aos-integrantes-do-sisfpc-gen-pacelli

3 https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,mpf-aponta-interferencia-de-bolsonaro-no-exercito,70003283704

4 http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-125-colog-de-22-de-outubro-de-2019-223849459

5 http://ruyirigaray.com.br/nota-de-repudio/

6 https://twitter.com/lexandreleite/status/1187772096501469184

7 https://twitter.com/lexandreleite/status/1187834522454364165

8 http://www.dfpc.eb.mil.br/images/Portarian136.pdf

9 http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decretos-de-21-de-novembro-de-2019-229136343

10 https://outraspalavras.net/direita-assanhada/estariamos-assistindo-a-milicianizacao-da-politica/

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub