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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Out21

Os senadores da CPI da Covid envolvidos com médicos da escola de Mengele, o anjo nazista da morte

Talis Andrade

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A CPI da Covid tem que denunciar senadores envolvidos na necropolítica. Pela divulgação de medicamentos ineficazes.

Hospital da polícia militar do RS testou proxalutamida sem autorização da Anvisa em pacientes com Covid-19

Pacientes internados no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre receberam remédio fabricado na China e tratado por Bolsonaro como a “nova cloroquina”. Não havia liberação para testá-lo em seres humanos na capital gaúcha.

 

Participação na CPI da Covid

Os responsáveis pelo experimento, segundo o major médico Christiano Perin, foram o endocrinologista Flávio Cadegiani e o infectologista Ricardo Zimerman, que trabalha como especialista terceirizado no hospital desde 2017, e teria sido o coordenador principal dos testes rodados na capital gaúcha. 

Em maio, Zimerman depôs na CPI da Covid a convite do senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), para defender o uso de medicamentos ineficazes contra o coronavírus, de antiparasitários a antimaláricos. Na ocasião, também defendeu o uso de antiandrogênicos, como a proxalutamida. Outro suposto estudo semelhante ao de Porto Alegre, mas realizado em Manaus na mesma época, com participação de Cadegiani e Zimerman, está sob investigação da Conep por indícios de irregularidades e infrações éticas. O órgão prepara uma denúncia ao Ministério Público Federal com base em uma apuração interna sobre as irregularidades cometidas no estado do Amazonas.

 

Topa tudo por dinheiro

Essa ideia de testar bloqueadores de testosterona para conter o coronavírus existe desde o início da pandemia e tem sido promovida pela Applied Biology, um centro de pesquisas norte-americano focado em inventar e patentear terapias contra a calvície. Um dos idealizadores da tese do potencial dos antiandrogênicos contra a Covid-19 foi o presidente da empresa, o dermatologista norte-americano Andy Goren, que se define como um especialista na “descoberta de novas terapias”.

Infográfico: Pedro Papini

 

Antes mesmo de publicar o primeiro artigo sobre a teoria ou testar sua eficácia clinicamente, a empresa deu entrada para uma patente do tratamento antiandrogênico contra a Covid-19 nos EUA ainda em março de 2020, com menos de dois meses de pandemia decretada. Esse pedido de patente da Applied Biology tem validade internacional desde julho de 2020, após ter sido registrado na Organização Mundial de Propriedade Industrial (OMPI), na qual o Brasil é signatário. Isso significa que, no caso da aprovação de eventuais tratamentos antiandrogênicos contra a Covid-19, governos e hospitais deverão royalties à Applied Biology pela invenção. E o tratamento com proxalutamida sequer seria a primeira patente da clínica norte-americana no Brasil, que já reserva royalties a duas terapias para calvície criadas pelo centro de pesquisas.

Inicialmente, o tratamento em vias de ser patenteado para Covid-19 previa o uso de outros antiandrogênicos já disponíveis no mercado, como a dutasterida. A escolha pela proxalutamida como droga-propaganda da teoria surgiu após a Kintor, a farmacêutica chinesa que fabrica o medicamento, fazer sua primeira oferta pública de ações na bolsa de valores de Hong Kong, em maio daquele ano. Desde a sua fundação, em 2009, a startup opera no vermelho. A empresa se beneficiou de uma mudança de lei no mercado de capitais chinês que permitiu a oferta de ações de companhias que operam no prejuízo – mas a crise financeira que surgiu no início da pandemia atrapalhou parte do otimismo da startup, que foi forçada a fechar as portas de um centro clínico em Miami. A ideia da abertura das ações era viabilizar os trâmites necessários para a comercialização da proxalutamida, que recém concluía estudos preliminares que sugeriam sua potencial eficácia contra o câncer.

Na época, as ações da Kintor foram vendidas a preços entre HK$ 17,80 e HK$ 20,15 (em valores de dólares de Hong Kong), o equivalente a R$13,30 e R$ 15, segundo o câmbio do período, conforme a calculadora do Banco Central. Dois meses depois, em julho de 2020, a farmacêutica fechou uma colaboração com a Applied Biology dias após o pedido da patente para a terapia antiandrogênica ser registrado pelos norte-americanos. Hoje, com mais de um ano de parceria e as especulações sobre a eficácia da proxalutamida contra a Covid-19, o valor das ações da companhia em Hong Kong atingiu HK$ 79,95 em julho deste ano, o equivalente a R$ 54 por ação, uma valorização de quase 350%, que tem atraído ceticismo de agentes do mercado financeiro. 

Um dos motivos dessa desconfiança são informações duvidosas divulgadas pela própria Kintor a investidores: em julho, os chineses anunciaram uma aprovação emergencial para uso da proxalutamida no Paraguai que não existiu, conforme apuração da Agência France-Press. Procurado, o Ministério da Saúde paraguaio não respondeu às tentativas de contato do Matinal. No caso da Covid-19, a vigilância sanitária paraguaia depende das aprovações de nações vizinhas para autorizar vacinas em caráter emergencial – porém, o órgão não explica bem como funciona o processo para a aprovação de outros medicamentos contra o coronavírus. Sobre o caso, a Kintor Pharmaceutical se limitou a indicar as informações oficiais contidas em seu site, que não respondiam a nenhuma das perguntas enviadas.


Após a divulgação de resultados sem revisão de cientistas do estudo com indícios de fraude no Amazonas, em 11 de março, as ações da Kintor Pharma valorizaram mais de 300%. Fonte: Google Finance

 

O endocrinologista Flávio Cadegiani, um dos coordenadores do experimento realizado em Porto Alegre, foi diretor clínico da Applied Biology, conforme sugerem os “conflitos de interesse” apontados pelo próprio médico nos artigos sobre a proxalutamida que assinou com pesquisadores da companhia. Junto a Andy Goren, o presidente da empresa norte-americana, Cadegiani se reuniu com o ministro de Ciência e Tecnologia Marcos Pontes no ano passado com o objetivo de promover a teoria antiandrogênica no país. Desde ao menos outubro de 2020, o médico promove o uso da proxalutamida em supostos testes clínicos, inclusive com postagens públicas em suas redes sociais e recrutamento de voluntários via WhatsApp – o que não é usual em pesquisas médicas por criar um viés em que apenas os pacientes com tendência a “acreditar” na terapia são selecionados.

Além do experimento realizado no Hospital da Brigada, a dupla Cadegiani e Zimerman também assinou a pesquisa que amparou a criação do TrateCov, um aplicativo promovido pelo Ministério da Saúde que receitava um combo de medicamentos sem eficácia contra a Covid, como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, e que foi tirado do ar após dez dias, em janeiro, por causa da recomendação de doses cavalares dos medicamentos para crianças. O estudo que amparou a iniciativa do governo brasileiro teve participação da Applied Biology, e incluiu perguntas sobre calvície aos pacientes do app. O próprio aplicativo TrateCov foi hospedado nos Estados Unidos. Na época, mais uma vez, essas inconsistências motivaram questionamentos da Conep.  

No início do ano, a mesma Applied Biology, com apoio da Kintor Pharmaceutical e em parceria com o grupo hospital amazonense Samel, rodou o já mencionado estudo clínico com indícios de irregularidades no estado do Amazonas, com participação da dupla de médicos. Nessa época, Ricardo Zimerman havia viajado para Manaus a convite do Ministério da Saúde para promover o uso de cloroquina no estado por meio do TrateCov. Lá, encontrou-se com Cadegiani e passou a auxiliá-lo na pesquisa com proxalutamida. Em seguida, os dois médicos ampliaram o uso do medicamento para o Hospital da Brigada Militar, onde Zimerman trabalha. O infectologista gaúcho havia sido convidado pela pasta para viajar ao Amazonas por indicação do médico Helio Angotti, o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde da pasta, um dos principais entusiastas do tratamento precoce no governo federal, que apresentou o experimento com proxalutamida realizado no Amazonas ao presidente Jair Bolsonaro.  

Na época, Bolsonaro se animou com a divulgação dos supostos resultados milagrosos da droga e chegou a usar um almoço que debateria a demissão do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello para discutir uma eventual aprovação do uso emergencial do medicamento. A Anvisa marcou duas reuniões com uma consultoria especializada em regulação de medicamentos contratada pela Applied Biology para discutir a aprovação da proxalutamida no Brasil, mas o escritório desmarcou e nunca mais procurou a agência reguladora. 

Em abril, o governo federal tentou convencer a Fiocruz a produzir a proxalutamida no Brasil, diante da falta de interesse de farmacêuticas da iniciativa privada brasileira. À Fiocruz, a Kintor Pharmaceutical garantiu que poderia entregar 100 milhões de comprimidos do medicamento ao País a partir de junho, segundo uma reportagem da CNN Brasil, mas as negociações novamente travaram na falta de anuência da Conep aos experimentos realizados no Amazonas. 

No mês seguinte, em maio, na CPI da Covid, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, chegou a ser perguntado sobre uma eventual aprovação do uso da proxalutamida pelo senador Eduardo Girão (PODE/CE), um dos defensores do uso do medicamento. Torres relatou o que discutiu sobre o remédio em conversas realizadas nos dias 11 e 15 de março, das quais participaram a Applied Biology, autoridades da Anvisa e o médico Flávio Cadegiani. “Um dos pontos que apresentamos foi, sim, a necessidade da interlocução com a Conep, porque, sem ética em pesquisa, absolutamente, não dá para fazer nada, a ética tem que prevalecer na seleção dos voluntários testadores, enfim, é fundamental. E esse grupo não voltou mais a nos contatar”, respondeu Torres na ocasião

Apesar dos entraves burocráticos e regulatórios, a droga continuou a ser defendida por Bolsonaro. Em julho, o presidente voltou a defender a liberação da droga. Com isso, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reforçou que o medicamento precisa ser melhor estudado. [Transcrevi trechos de reportagem de Pedro Nakamura (com edição de Marcela Donini e Sílvia Lisboa e checagem de Juan Ortiz) para Matinal Jornalismo. Leia mais ]

Anvisa veta uso de remédio defendido por Bolsonaro contra a COVID-19Charges - Fotografia - Folha de S.Paulo

O medicamento proxalutamida, que vinha sendo testado no tratamento da COVID-19 no Brasil, foi barrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Diretoria Colegiada da agência reguladora decidiu, por unanimidade, suspender o uso da droga em pesquisas científicas no país e a importação da substância. A proibição foi feita de forma cautelar diante de denúncias e investigações que estão sendo feitas a respeito dos estudos com o fármaco, exaltado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em agosto, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul abriu um inquérito civil público para investigar o uso irregular da proxalutamida em testes no Hospital da Brigada Militar, em Porto Alegre. A medicação teria sido aplicada em cerca de 50 pacientes, em um ensaio supostamente clandestino, apesar de a Brigada ter assegurado que "o estudo obedeceu às exigências dos órgãos competentes e as normas legais aplicáveis aos procedimentos em questão" - afirmou em nota.
 
Porém, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão vinculado ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) - responsável por autorizar a realização de pesquisa com seres humanos no país -, negou ter recebido "qualquer solicitação para a realização de estudo com a substância proxalutamida no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre" [Transcrevi trechos de reportagem de Maria Eduarda Cardim, para o Correio Braziliense]. É desconhecido o número de mortos nesse experimento nazista à Mengele em Porto Alegre. 
 

Unesco denuncia 200 mortes com experiência bolsonarista da proxalutamida no Amazonas como "das mais graves da história"

Arquivos josef mengele - Rede Brasil Atual

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) considerou a denúncia de 200 mortes de voluntários de pesquisa clínica com a proxalutamida feita no Amazonas uma das infrações éticas mais graves da história da América Latina. A declaração foi divulgada nesse sábado (9) por meio da Rede Latino-americana e Caribenha de Bioética (Redbioética-Unesco). A informação foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo.

A Unesco deu seu posicionamento, após a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) fazer uma denúncia à Procuradoria-Geral da República no mês passado. A entidade é responsável por regular a participação de seres humanos em pesquisas científicas no Brasil.

Jair Bolsonaro defendeu o uso da substância no combate ao coronavírus, mas o remédio não teve eficácia comprovada contra a Covid-19. O uso da substância em pesquisas científicas também foi vetado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no começo do mês passado.

De acordo com o comunicado da rede de bioética da Unesco, a denúncia da Conep incluiu graves violações dos padrões éticos de pesquisa com a proxalutamida. "É ética e legalmente repreensível, conforme consta do ofício da Conep, que os pesquisadores ocultem e alterem indevidamente informações sobre os centros de pesquisa, participantes, número de voluntários e critérios de inclusão, pacientes falecidos, entre outros", disse.

"Qualquer alteração em um protocolo de pesquisa deve ser aprovada pelo sistema de ética em pesquisa local", afirmou.

Por que o senador Marcos do Val deu “ombrada” no deputado Luis Miranda?

O deputado Luis Miranda passou a ser conhecido depois que denunciou ao presidente Jair Bolsonaro favorecimento na compra das vacinas Covaxin pelo Ministério da Saúde, crime que vem sendo investigado pela CPI da Covid 19.

Escreve Caio Barbieri: Em mensagens disparadas por WhatsApp no dia 23 de março deste ano, as quais o Metrópoles teve acesso, Luis Miranda questionou ao ajudante de ordens de Bolsonaro o motivo da falta de respostas do presidente sobre a pressão sofrida pelo irmão dele, Luis Ricardo Miranda, que é concursado do Ministério da Saúde, para autorizar a aquisição do imunizante indiano. 

“Bom dia irmão, o PR [presidente da República] está chateado comigo? Algo que eu fiz? Só precisamos saber o que fazer em uma situação como essa”.

Como resposta, o militar que assessora o presidente da República respondeu: “Bom dia. Negativo, deputado. São muitas demandas. Vou lembrá-lo”.

“Obrigado irmão! Você sabe que a vontade é de ajudar. Estamos juntos”, agradeceu o deputado, mas acabou ficando sem respostas.

Esta denúncia levou os irmãos Miranda à CPI. 

Pressão

À coluna Janela Indiscreta, ainda nesta quarta-feira (23/6), o deputado Luis Miranda afirmou que o coronel Marcelo Pires foi um dos nomes dentro da alta cúpula do Ministério da Saúde a pressionar o irmão dele, Luis Ricardo Fernandes Miranda, para a compra da Covaxin.

O militar chefiava desde janeiro a Diretoria de Programas do ministério, mas foi exonerado em meados de abril após a chegada do atual ministro Marcelo Queiroga.

“O coronel Pires foi um dos que pressionou meu irmão a assinar a compra da Covaxin, mas o processo estava todo errado e cheio de falhas. Esse foi um dos pontos que levamos ao presidente Bolsonaro sobre o que estava acontecendo no Ministério da Saúde”, garantiu o congressista em conversa exclusiva.

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No print encaminhado à coluna Janela Indiscreta, o militar que ocupava a diretoria da pasta escreveu: “Obrigada, meu amigo, estamos com muitos brasileiros morrendo. Precisamos fazer tudo para ajudar. O representante da empresa veio agora a noite falar com o Elcio para agilizar a LI para embarcar as vacinas esta semana. Quatro milhões”.

Bolsonarista e propagandista do tratamento precoce, do kit cloroquima, o kit me engana, o senador Marcos do Val não gostou do atrapalho dos irmãos Miranda, que colocaram uma pedra no meio do caminho do gabinete paralelo e o gabinete de Bolsonaro.

O deputado Luis Miranda (DEM-DF) e o senador Marcos do Val (Podemos-ES) se desentenderam durante intervalo de sessão da CPI da Covid na sexta-feira 25/6. No vídeo é possível ver que outros parlamentares precisaram apartar a briga entre as partes.

Marcos do Val é instrutor da SWAT desde o ano de 2000 e membro de Honra da SWAT de Beaumont no Texas desde 2003. Fundador e instrutor-chefe do CATI - International Police Training, inc, primeira e única empresa de treinamento policial Multinacional da atualidade, com filiais na Europa e EUA. Criador das inovadoras técnicas de IMOBILIZAÇÕES TÁTICAS®, hoje difundidas em várias unidades policiais ao redor do mundo. Treina policiais para derrubar com pernada, golpe de mão e ombrada

Do Val era mediador da entrega do kit covid (vide tags). Victor Fuzeira e Luciana Lima registraram: Luís Miranda reclamou da briga. “Aqui mesmo, no intervalo. Sempre admirei o Marcos Durval, e ele teve um descontrole comigo. Onde está a nossa história?”, disse. Onde? Uma história que precisa ser contada. Ninguém bate no próximo, dentro do Senado, de graça. 

 

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11
Out21

‘O PADRINHO’ Senador da CPI trabalhou com ‘gabinete paralelo’ de Carlos Wizard para popularizar cloroquina

Talis Andrade

Em reunião secreta, Marcos do Val afirma a grupo de médicos que trabalhava para garantir acesso à droga; CFM e Ministério participaram. Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Folhapress

senador Marcos do Val, do Podemos do Espírito Santo e membro da CPI da Covid, trabalhou com o gabinete paralelo que orientou o uso de medicamentos e políticas públicas inúteis contra a covid-19. Em uma longa reunião privada, classificada pelo empresário Carlos Wizard como um “encontro nacional” com médicos de “27 estados”, o senador foi apresentado como o “padrinho político” da iniciativa.

Uma gravação do encontro foi entregue agora ao Intercept por uma fonte que pediu para se manter anônima por medo de represálias. O material, com confissões até então inéditas, não faz parte dos documentos recolhidos pela CPI. Para preservar a identidade da fonte, o Intercept optou por não publicar a íntegra do vídeo, mas apenas trechos dele.

Numa fala de quase dez minutos, do Val afirmou que trabalhava para convencer autoridades para que adotassem o chamado kit covid, assim como para organizar a distribuição de fármacos comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus. O senador mencionou tratativas dele com as Forças Armadas, governadores, prefeitos, o Ministério Público e a Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A reunião ocorreu em 28 de junho de 2020.

“Estou aqui não só como padrinho, mas como ponta de lança para entrar onde vocês vão ter dificuldade”, disse o senador no encontro. “Até peço: não entre na seara política, que é muito complicada. Pode contar comigo que vou estar na neutralidade, não quero e não vou fazer publicidade disso. Para mim, fazer publicidade disso é um crime”.

A confissão do senador – que meses depois mentiu a respeito, como mostram notas taquigráficas de sessão da CPI – foi feita em uma reunião fechada de duas horas do grupo, que se autodenomina “conselho científico independente”.

No mesmo encontro virtual, o médico Emmanuel Fortes, que é um dos vice-presidentes do Conselho Federal de Medicina, o CFM, e membro ativo do gabinete paralelo, confirma que a entidade trabalhou alinhada aos defensores do tratamento precoce para dar garantias a quem prescrevesse a medicação inútil a pacientes de covid-19.

Além disso, o vídeo confirma o papel central de Wizard no gabinete paralelo montado por Jair Bolsonaro para aconselhá-lo no combate à covid-19. Ao longo de mais de duas horas, é ele quem preside a reunião, distribui tarefas e faz pedidos aos médicos que participam do encontro virtual.

23
Set21

NAZISMO. Bolsonaro recebe negacionistas alemães em Brasília

Talis Andrade

Jair Bolsonaro dá entrevista a negacionistas alemães

Na entrevista, Bolsonaro repetiu mentiras e teorias conspiratórias

 

Presidente concedeu entrevista para dois propagadores de teorias conspiratórias ligados ao Querdenken, movimento negacionista e antivacinas que está na mira do serviço de inteligência alemão por laços com nazistas

 

 

  • por Jean-Philip Struck /DW

     

    O presidente Jair Bolsonaro se reuniu na primeira quinzena de setembro com dois membros da cena conspiracionista e negacionista da pandemia na Alemanha.

    Bolsonaro concedeu uma entrevista para Vicky Richter e Markus Haintz, ligados ao Querdenken ("pensamento lateral" em alemão), movimento que organizou no último ano protestos contra as medidas do governo alemão para frear a pandemia de covid-19. Em abril, o serviço de inteligência interno alemão colocou setores do movimento sob vigilância nacional por suspeita de "hostilidade à democracia e/ou deslegitimação do Estado que oferece riscos à segurança".

    A entrevista com Bolsonaro, concedida pelo presidente em Brasília, foi publicada em redes sociais ligadas a Richter e Haintz nesta segunda-feira (20/09).

    A dupla alemã também realizou entrevistas com o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo federal, e a deputada bolsonarista Bia Kicis. Os encontros foram registrados entre os dias 8 e 10 de setembro. A dupla também fez filmagens no ato antidemocrático de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, que contou com a participação de Jair Bolsonaro.

    Dupla de conspiracionistas

    Haintz se apresenta como "advogado, jornalista e ativista pela liberdade". Baseado na cidade de Ulm, ele é uma figura proeminente do movimento Querdenken e costuma usar os protestos negacionistas do movimento para discursar contra o governo alemão e medidas de isolamento. Em agosto, ele chegou a ser detido pela polícia durante um protesto em Berlim.

    Várias manifestações do Querdenken no último ano contaram com participação explicita de grupos neonazistas e de extrema de direita, além de seguidores do culto conspiracionista QAnon.

    Em abril, ao colocarem setores do Querdenken sob vigilância, as autoridades alemãs mencionaram que essas alas constituem ameaça por questionarem a legitimidade da democracia e do Estado alemão. As autoridades também citaram ligações entre o movimento Querdenken e os grupos de extrema direita Reichsbürger e Selbstverwalter, que negam a existência do Estado alemão ou não se consideram parte dele. O Facebook também já baniu dezenas de páginas ligadas ao Querdenken.

    Em outubro de 2020, Haintz foi demitido de uma faculdade de Biberach, onde atuava como professor, por causa das suas atividades no Querdenken. Um administrador da instituição afirmou à época da demissão que as declarações de Haintz legitimam a violência e que o advogado deveria "se envergonhar" pelo seu envolvimento no Querdenken.

    Em seus discursos e publicações no Telegram (ele possui 100 mil assinantes), Haintz pinta a Alemanha como "uma ditadura" sob a chanceler federal Angela Merkel. 

    No entanto, Haintz viu sua posição no movimento ser enfraquecida recentemente após alguns rivais internos passarem a espalhar boatos de que ele trabalha como informante do serviço secreto.

    Em uma publicação recente no Telegram, ele afirmou que há "um ataque global contra as liberdades" e que a sua viagem ao Brasil e outros países tinha como objetivo buscar aliados. Nos últimos dias, ele compartilhou no Twitter diversas publicações de Eduardo Bolsonaro e imagens das manifestações antidemocráticas do Sete de Setembro.

    Já Richter se apresenta como uma ex-militar da Bundeswehr (Forças Armadas da Alemanha) e possui vários canais negacionistas no YouTube, Twitter e Telegram, nos quais propaga conteúdo antivacinas e teorias conspiratórias. Em uma publicação no Telegram, ela afirmou que conversou com a ministra Damares Alves sobre "a elite cabalística por trás do tráfico de crianças" no mundo e "estupros rituais em comunidades indígenas", temas que ecoam teorias conspiratórias do culto QAnon.

    Outras publicações ecoam o discurso radical da base bolsonarista e parecem ter a intenção de apresentar o presidente brasileiro para o público extremista alemão. Nessas publicações, Bolsonaro aparece como "perseguido" pelo Judiciário e "boicotado" pela imprensa internacional. "O fato de que ele enfrenta comunistas e globalistas desagrada os poderosos", diz uma publicação.

    Outras mensagens tem teor ainda mais conspiracionista, afirmando falsamente que "sete ministros do STF" chegaram a "fugir temporariamente do país" por medo de serem presos por Bolsonaro. Outros textos elogiam a gestão negacionista de Bolsonaro durante a pandemia.

    A dupla alemã Vicky Richter e Markus Haintz também participou da fundação do partido Die Basis, uma agremiação negacionista da pandemia surgida em 2020 e que afirma ter quase 30 mil membros. A legenda chegou a disputar uma eleição regional em março, mas não obteve votação expressiva. Richter e Haintz deixaram o partido no início de setembro após disputas internas.

Vicky Richter entrevista a ministra Damares Alves

Vicky Richter entrevista a ministra Damares Alves

Palco para negacionismo

Na entrevista com a dupla alemã, que se estendeu por uma hora, Bolsonaro repetiu mentiras e teorias conspiratórias que ele já havia propagado durante o último ano.

Ele afirmou falsamente que hospitais inflacionaram o número de doentes com covid-19 para receber mais dinheiro, atacou a Coronavac – a vacina promovida pelo governo de São Paulo, chefiado pelo seu rival João Doria –, defendeu tratamentos ineficazes e potencialmente perigosos contra a doença – como a cloroquina – e até mesmo chás medicinais.

Ele também sugeriu que a melhor forma de se proteger contra o vírus é ser contaminado, reiterando novamente a tese da imunidade de rebanho pela infecção. "Eu disse para as pessoas não terem medo, que enfrentassem o vírus", disse Bolsonaro. "A liberdade é mais importante que a vida", completou, quando falava sobre sua oposição à vacinação obrigatória.

Bolsonaro também reclamou da TV Globo, se apresentou como "perseguido", defendeu o armamento da população e mentiu sobre não haver escândalos de corrupção em seu governo.

Já na entrevista com Eduardo Bolsonaro, a dupla Haintz-Richter abordou temas como voto impresso e as manifestações antidemocráticas do Sete de Setembro. O deputado aproveitou a oportunidade para espalhar mentiras sobre as urnas eletrônicas, reclamar da imprensa e se queixar da China.

A entrevista de Richter com Damares, por sua vez, abordou inicialmente a biografia da ministra, mas logo passou para temas mais caros a grupos conspiracionistas. Richter parecia especialmente interessada em práticas de povos indígenas. Damares afirmou que alguns indígenas têm práticas de "estupro coletivo como prática cultural" e "estupro como castigo" para mulheres.

Em uma pergunta, Richter afirmou à ministra que há "uma grande cabala" mundial por trás do "tráfico de crianças" e perguntou se Damares não tinha medo de enfrentar esses supostos grupos. "Eu recebo muitas ameaças de morte", respondeu Damares.

O termo cabala era originalmente usado para se referir à mística judaica, mas com o tempo antissemitas passaram a usar o termo como sinônimo para "conspiração" ou "complô". Esse uso de forma derrogatória costuma ser usado tanto por antissemitas quanto por seguidores do culto QAnon. 

A dupla ainda se encontrou com a deputada de extrema direita Bia Kicis, uma aliada próxima de Bolsonaro. Eles discutiram supostos riscos da aplicação de vacinas em grávidas e uso de máscaras. "O uso de máscaras faz você perder sua identidade", disse Kicis, que regularmente publica conteúdo negacionista nas redes. "Eu desejo que os conservadores se aliem e construam uma rede", afirmou a deputada para os alemães. "Precisamos nos manter juntos e lutar contra o comunismo."

Beatrix von Storch ao lado de Jair Bolsonaro e do marido dela

Bolsonaro e deputada de ultradireita Beatrix von Storch em julho

 

Essa não é a primeira vez que Bolsonaro e seu filho Eduardo e a deputada Bia Kicis se reúnem com alemães do espectro político populista e extremista de direita. Em julho, o presidente recebeu no Planalto a deputada alemã de ultradireita Beatrix von Storch. Filiada à AfD, Von Storch é uma figura influente da ala arquiconservadora e cristã do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que tem membros acusados de ligações com neonazistas. Uma organização ligada ao partido também chegou a ser colocada sob vigilância dos serviços de inteligência alemães no início do ano. Neta do antigo ministro das Finanças de Adolf Hitler, Von Storch ficou conhecida na Alemanha por publicações e afirmações xenófobas.

À época, o encontro com a deputada alemã causou ultraje entre organizações judaicas brasileiras.

19
Set21

Joaquim e os reacionários

Talis Andrade

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por Paulo Henrique Arantes

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Em junho último, auge pandêmico, publicamos aqui a palavra de especialistas a explicar, com propriedade, por que não se deve propugnar pelo equilíbrio jornalístico quando um dos lados nega a ciência. “Ao dar amplo espaço aos discursos presidenciais contrários às medidas não-farmacológicas e a favor de drogas sem eficácia, como a cloroquina, na maioria das vezes sem problematizá-los, as mídias contribuíram para a disseminação da tese completamente equivocada e antiética da imunidade natural de rebanho”, destacava Cláudia Malinverni, jornalista, pesquisadora do Instituto de Saúde de São Paulo. 

De forma condescendente, a imprensa expunha considerações de Osmar Terra e Nise Yamagushui de uma parte, e de infectologistas e epidemiologistas conceituados de outra. Como legado, parcela dos leitores ficava com os primeiros, para risco de sua vida. Quem comprou negacionismo agora pode comprar, sem receio, a versão oficial sobre a facada que tornou Jair Bolsonaro presidente do Brasil.

Essa ânsia por pluralidade, uma pluralidade acrítica, substitui em certos veículos o ímpeto investigativo. Repórteres amarrados ao “fontismo”, que são presenteados com furos e os publicam sem critério ou checagem, predominam. Possuir o celular de um político, ou de um assessor dele, está valendo mais do que gastar sola de sapato para descobrir a verdade. Colunistas de notas maliciosas de três linhas viram celebridades.

Não se bancam reportagens de fôlego, salvo exceções. As revistas semanais publicam apanhados editorializados do noticiário diário. Preguiça de investigar, medo de afrontar poderosos (principalmente os da finança), receio de afugentar anunciantes e de contribuir para que o poder no Brasil mude, de fato, de mãos – é o jornalismo estabelecido, hoje saudavelmente confrontado pela mídia progressista da Internet.

Nesse contexto, é natural que o documentário da TV 247 “Bolsonaro e Adélio: uma fakeada no coração do Brasil” incomode tanta gente, a despeito de ser aplaudido em volume muito maior.

Conheci Joaquim de Carvalho nos anos 80, na redação do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, numa rápida passagem. Tempos depois, trabalharíamos juntos em outros veículos, um dos quais tendo eu como editor e ele como repórter, outro com ele editor, eu colaborador esporádico. Em qualquer função, Joaquim é pragmático: desconfiar da versão oficial lhe é espontâneo, caçar a verdade factual é seu oxigênio.

Os pluralistas de fachada jamais se entenderão com Joaquim de Carvalho, mesmo porque muitos deles são, na verdade, porta-vozes do reacionarismo que legou ao Brasil Jair Bolsonaro. Um reacionarismo ora arrependido pero no mucho

Reacionários à moda nativa gostam de posar de liberais, de democratas conservadores, mas não enganam ninguém. O bom conservador situa-se entre os limites da régua democrática e não compactua com sua quebra – este aplaudiu “Uma fakeada no coração do Brasil”. O reacionário que diz não compactuar com Bolsonaro mas ataca a megarreportagem da TV 247 recusa-se a abraçar a denúncia contundente, permanecendo apegado às críticas que não dão em nada e, claro, contorcendo-se de inveja por jamais ter produzido algo tão forte.

 

25
Ago21

Heinze gastou R$ 731 mil com aluguel de veículos em 12 anos

Talis Andrade

Heinze afirma que países acusam o Brasil de desmatar para prejudicar  exportações do agro

 

Locadora é do filho de liderança do PP em São Borja (RS); pai do empresário foi administrador financeiro da campanha do senador

 

Tony Chastinet /Record TV /Brasil R7Brasil R7

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O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) gastou R$ 731 mil da cota parlamentar com aluguel de veículos em uma empresa de São Borja, cidade onde já foi prefeito e tem base eleitoral. Os registros mais antigos são de abril de 2009, quando Heinze ainda era deputado federal. Foi neste ano que a Câmara dos Deputados passou a divulgar os gastos parlamentares.

De acordo com a prestação de contas do Senado, Heinze declarou ter gastado de janeiro a agosto deste ano, R$ 64 mil para a locação de uma caminhonete Toyota Hilux da Pedrinho Automóveis, nome fantasia da empresa Machado & Barroso Comércio de Automóveis. As notas fiscais que constam na prestação de contas indicam pagamento de R$ 8.000 por mês.

O aluguel de um Jeep Compass em uma outra locadora da mesma cidade sai por R$ 4.100 mil por mês. O parlamentar informou na declaração de bens à Justiça Eleitoral ter três veículos, um deles um utilitário Toyota. Heinze também tem fazendas na região de São Borja.

Segundo dados do cadastro da Receita Federal, um dos sócios da Pedrinho Automóveis é Pedro Rodrigues Machado Junior, que é filho de Pedro Rodrigues Machado. De acordo com dados da Justiça Eleitoral, Pedro pai foi o administrador financeiro da campanha de Heinze ao Senado. Ele recebeu R$ 6 mil pelo serviço.

A Pedrinho Automóveis também foi fornecedora da campanha. Na prestação de contas, consta que a empresa alugou três carros para a campanha de Henize – um Gol e dois Onix, com total de R$ 10.500 de aluguel.

Pedro Rodrigues Machado é uma liderança do PP em São Borja. Ele é presidente do Hospital Ivan Goulart e também tem uma empresa de venda de veículos: a Pedrinho Automóveis Eireli que fica no mesmo endereço da empresa do filho.

Em julho deste ano, a imprensa local registrou a inauguração das novas instalações da Pedrinho Automóveis, apontada como a maior loja de venda e revenda de veículos novos e usados da região.

 

Empresa é idônea, diz senadorO menino de Rancho Queimado se queimou?', ironiza leitor - 02/08/2021 -  Painel do Leitor - Folha

O senador Luiz Carlos Heinze diz não ver “nada de errado” em locar os veículos da Pedrinho Automóveis. “É idônea, correta e foi a única que nos atendeu dentro do que precisávamos: preço, modelo e quilometragem livre. De Porto Alegre a São Borja são cerca de 1,2 mil km para ir e voltar. Soma-se a isso os vários municípios que visito entre sextas e segundas-feiras”, afirma.

O parlamentar considera também que a opção pelos carros da empresa é válida: “Jeep Compass não atende as minhas necessidades, tampouco oferece a segurança e agilidade nos deslocamentos. Além disso, em qualquer locadora, o veículo que alugo, com quilometragem livre e seguro, não se encontra por menos de R$ 12 mil por mês. O preço pago está abaixo dos valores cobrados por outras locadoras”, justifica Heinze.

Sobre o fato de possuir três carros declarados à Justiça Eleitoral e utilizar os veículos alugados, o progressista afirma que um deles foi vendido, o outro é de uso da esposa e o terceiro é um Toyota Bandeirante de 1987, para uso em propriedade rural.

(colaborou Tiago Muniz, da Record TV em São Paulo)

 

17
Ago21

A colunista e os dois demônios que lhe tiram o sono

Talis Andrade

Humor Político sur Twitter : "Governo Bolsonaro se alia a Roberto Jefferson  https://t.co/EWPvqXXXqM… "

 

 

 

É patético comparar a aplicação de garantias processuais nos casos de Jefferson e Lula

O grande Norberto Bobbio dizia que a lição número um de um cientista é não comparar ovos com caixa de ovos. Sempre dá errado. Outra lição vem de Ludwig Wittgenstein (muito lido em faculdades de filosofia), que dizia: sobre o que não se tem competência para falar, deve-se calar.

Essas duas lições parecem não ter sido captadas pela colunista da Folha e filósofa Catarina Rochamonte, autoproclamada liberal-conservadora (sic).

Em artigo na Folha (“Bob Jeff, o herói bolsonarista”; 15/8), Rochamonte usa a prisão de Roberto Jefferson para atacar Lula. Sim. Diz que gritar pela liberdade de Bob Jeff é o mesmo que gritar Lula livre. Eis aí: ovos e caixa de ovos. Como filósofa, deveria saber sobre a tese dos dois demônios, raso truque retórico pelo qual, se tenho que, inexoravelmente, criticar um amigo (ou ex-amigo, porque Rochamonte é bolsonarista arrependida), tenho de, ao mesmo tempo, esculhambar um inimigo, arrastando-o para o mesmo terreno da infâmia. Nota zero na aula sobre sofismas.

 

Chumbou na prova. Claro. São coisas do direito que, quem não é da área, não entende um ovo. Nós também não palpitaríamos sobre operação cardíaca. Ou sobre física quântica. A filósofa-colunista é negacionista do direito. Negar a suspeição de Moro é como dizer que Christiaan Barnard não fez o primeiro transplante cardíaco. E que cloroquina cura Covid-19. Essa comparação é pertinente, porque o cerne é o negacionismo. Ou a ignorância.

É feio uma colunista dizer que a profissão de advogado serve para defender “abusos com unhas e dentes” e que advogados quiseram fazer prevalecer “narrativa torpe”. Sabe a colunista que, em uma democracia, quem diz o direito por último é a Suprema Corte? Ah, não gostou? Que coisa, não? Bob Jeff também não gosta. Todos os bolsonaristas e os lavajatistas não gostam do Supremo Tribunal Federal. Logo, por qual razão Rochamonte estaria de acordo com o uso de garantias processuais, coisa que qualquer aluno da faculdade UniZero sabe?

Rochamonte, ao pretender criticar o Grupo Prerrogativas e o ex-presidente Lula, e, ao mesmo tempo, elogiar a Lava Jato, esqueceu de olhar o dicionário. Afinal, ela fala em sanha persecutória. Que quer dizer ódio, rancor, fúria, ira, desejo de vingança. Na mosca. A Lava Jato foi isso mesmo. Um rancor, uma fúria, uma ira e um desejo de vingança.

Uma operação criminosa a serviço de um projeto eleitoral que tirou do último pleito aquele que era o franco favorito para vencê-lo.

Uma operação que mergulhou nosso sistema de Justiça em uma crise sem precedentes, levando a cárcere político um réu sabidamente inocente por mais de 580 longos dias.

Portanto, numa palavra final, patético não é gritar “Lula livre” —afinal, ficou provado que Lula foi vítima de uma sanha persecutória. E não o contrário. Patético é comparar a aplicação de garantias processuais, só ignoradas por quem não sabe nada de direito (“jusnegacionistas”), com a delinquência de um celerado como Roberto Jefferson.

O Supremo merece nosso reconhecimento e o nosso aplauso. Tem agido com absoluta correção na defesa da democracia e das instituições. Desconhecer esse papel é fruto de má-fé ou de profunda falta de informação e conhecimento.

A tese dos dois demônios realmente é muito rasa. Esperamos mais criatividade. Há por aí bons cursos de retórica. Fica a dica.Filho, nunca seja um Roberto Jefferson... - Charge - Estado de Minas

 

14
Ago21

TEM CLOROQUINA?

Talis Andrade

 

 

Tempos de peste. Um balconista de farmácia conta seu dia a dia durante a pandemia

 

por SANDRO AURÉLIO /Revista Piauí

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1º DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Saí de casa às 8 horas, já preparado para um dia cansativo. O movimento da farmácia não diminuiu quase nada desde o começo da pandemia. Os clientes estão mais ansiosos, tem fila para atendimento no balcão, quase sempre com discussões, porque um reclama da proximidade do outro. Desde março, a farmácia dá aos funcionários uma máscara e um par de luvas por dia. Eu prefiro álcool em gel à luva, mas uso a máscara o tempo todo e também no trem de volta para casa. Não é o ideal, mas acabo tendo que usar a mesma máscara no dia seguinte ao voltar para o trabalho, e só então pego uma nova.

Normalmente, trabalho seis dias por semana, das 10 horas às 18h20. Nesta semana, estou trabalhando todos os dias até as 19 horas para compensar a folga extra que tive no domingo passado. Pode parecer pouco, mas como ficamos em pé o dia inteiro, faz diferença para as pernas.

Minha maior dificuldade com o trabalho é, de longe, o tempo que levo para chegar lá. Eu moro em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense, e a farmácia fica em Copacabana, na Zona Sul. São duas horas para ir e duas para voltar. Faço esse trajeto seis vezes na semana, há praticamente um ano, e ainda não me acostumei. Passar quatro horas dentro de transporte público não é coisa simples.

Antes dos bloqueios por causa do novo coronavírus, eu pegava um ônibus até a Pavuna, bairro da Zona Norte, onde fica a estação de metrô mais próxima da minha cidade, e de lá seguia para Copacabana. Agora não há mais ônibus entre os municípios da Baixada e o Rio. Então, como é complicado chegar ao metrô, só me restou o trem. Todos os dias tenho que mostrar minha carteira de trabalho para os policiais que ficam na frente da estação de Nilópolis provando que estou indo para o emprego.

Os trens estão demorando mais a chegar. Passam de 30 em 30 minutos (antes era de 12 em 12 minutos). Hoje a plataforma estava cheia, menos que nos dias anteriores à pandemia, mas cheia. Quando peguei o trem, às 8h19, já não tinha nenhum lugar para sentar. Em Ricardo de Albuquerque, três estações depois da minha, o vagão lotou. Fiquei bem nervoso quando me vi em meio a tanta gente. Nunca na minha vida cheguei perto de ser hipocondríaco, mas tenho medo de pegar o novo coronavírus. Ainda mais por morar com minha mãe, que tem 63 anos.

Tirei uma foto com o vagão abarrotado de gente, postei no Twitter e marquei o perfil da SuperVia. Eles me responderam: “Sandro, bom dia. Entendemos a sua insatisfação. Por conta do cenário atual em nosso sistema, realizamos alguns ajustes na operação para adequação à nova realidade. Estamos analisando essas mudanças de perto para possíveis melhorias.” Entendi assim: “Bom dia, Sandro, o serviço vai continuar do jeito que está, esperamos que você aceite da forma mais dócil possível.” Um escárnio.

Para mim, ficou claro que a SuperVia se aproveitou da situação para diminuir o número de trens ao mínimo possível. Claro que eles poderiam oferecer viagens mais confortáveis e que ocasionassem menos aglomerações, mas isso teria um custo maior. Me lembro das sábias palavras de Bernardo Negron, vulgo BNegão: Desde que o mundo é mundo, ele nunca foi brinquedo/enquanto uns choram/outros se apressam para vender o lenço/isso nunca foi segredo. O ideal seria ir e voltar com dignidade, mas, se em mais de quinhentos anos de Brasil a classe trabalhadora não recebeu isso, não seria diferente agora.

Na farmácia, cada funcionário é responsável por uma seção diferente. Eu fico com o chamado OTC (uma sigla em inglês: over the counter), os medicamentos de venda livre, que qualquer pessoa pode pegar: paracetamol, ibuprofeno, dipirona, Novalgina, Dorflex, Neosaldina, Buscopan etc. Passei também a fazer entrega nas casas. A farmácia teve que começar com delivery para não perder a clientela. Não ganho nada a mais com as entregas, mas eu gosto, pois me permite caminhar um pouco. Me faz lembrar do período em que trabalhei no IBGE, como recenseador. Também acho legal porque, assim, posso conhecer melhor as ruas de Copacabana. Acontece muita coisa nesse bairro. Às vezes, penso que, se Gabriel García Márquez passasse uns dias vendo o que eu vejo, ele acharia o Rio de Janeiro mais realisticamente mágico do que Macondo.

Hoje fiz quatro entregas. Em uma ganhei uma gorjeta de 5 reais. Na última, no fim do dia, fiquei bem chateado. Fui levar um Xarelto 20 mg, medicamento que custa 240 reais. Ao chegar ao prédio, percebi que tinha esquecido o troco na loja. Esperei o cliente descer, entreguei o remédio em mãos e avisei que voltaria com o dinheiro. E corri até a farmácia. O rapaz viu quando eu voltava correndo, mas ele nem sequer me agradeceu. Pegou o troco e entrou no prédio sem dizer uma palavra. Eu me senti como se nem fosse um ser humano.

 

2 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Trem menos lotado do que ontem, mas ainda com muita gente. Em Deodoro, quatro estações após a minha, consegui lugar para sentar, ao lado de uma senhora de máscara. No vagão, vi apenas seis pessoas de máscara, contando ela e eu. Pouca gente está levando essa pandemia a sério. Na Baixada, as ruas ficaram até um pouco mais vazias em março, mas agora, em abril, o movimento voltou praticamente ao normal.

Lá pelas duas da tarde, uma senhora que eu atendia começou a falar mal do presidente. Adorei. Hoje em dia, muitos clientes começam, do nada, a falar mal dele. E olha que Copacabana é um bairro que, em 2018, apertou com força o 17, o número eleitoral de Bolsonaro. Passei quase um ano sem dar nenhuma opinião sobre política no trabalho. Não acho que possa ser vantajoso para mim e também não quero criar embates. O ponto de mudança foi o pronunciamento do presidente em rede nacional em 24 de março. No dia seguinte, logo que cheguei, não se falava em outro assunto: “Como assim? Um presidente se coloca contra o isolamento da população no meio de uma pandemia?” O fato de ele agir contra o que prega o mínimo bom senso foi demais para muita gente. Ver quase todos os meus colegas falando mal do presidente foi para mim uma libertação. O dia seguinte ao pronunciamento me marcou também de outra forma: pela primeira vez presenciei um panelaço ao vivo. Eram 20h30, eu ainda estava na farmácia quando ouvi muita gente bater panelas. Em Nilópolis, nem no auge do ódio contra a Dilma ouvi panelaço. Atualmente é a mesma coisa: na hora dos panelaços pelo país, que são divulgados nas redes sociais, coloco o ouvido para fora da janela da minha casa e tudo está um silêncio sepulcral.

No final do dia, fiz uma entrega perto de Ipanema, uma compra de 1 240 reais. A cliente morava no décimo andar de um prédio chique de frente para a praia. Quando ela abriu a porta do apartamento, pude avistar o mar. Eu nunca tinha visto o Oceano Atlântico de um lugar tão alto. Ela me deu uma gorjeta gorda de 10 reais (a primeira do dia) e fiquei bem feliz.

 

3 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA_Minha mãe voltou ao trabalho depois de uma licença de três meses. Ela é funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro, trabalha na parte administrativa de um posto de saúde na Pavuna, que fica a quinze minutos de carro de Nilópolis. Peguei uma carona com ela, embarquei no metrô e fui da Pavuna até Copacabana. Bem mais confortável e vazio que o trem. Em nenhum momento vi gente em pé.

Trabalhar em farmácia nessa época me dá a oportunidade de testemunhar o efeito prático da disseminação de notícias sobre curas milagrosas. A primeira foi que o paracetamol era bom para combater o novo coronavírus. Do nada, as pessoas passaram a comprar loucamente cartelas e caixas de Tylenol. Depois, quando propagaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam a cura da Covid-19, os medicamentos baseados nesses princípios ativos, como Reuquinol, esgotaram. Agora, só podem ser comprados com receita médica. Mas até hoje não chegou nenhuma nova remessa desses produtos. Todo dia, alguém que de fato precisa do remédio por causa de alguma doença – lúpus, por exemplo – sai frustrado da farmácia.

Um dos três farmacêuticos da loja está afastado por suspeita de Covid-19. Além dele, outra pessoa também está afastada, mas por alergia. Todos os funcionários estão aflitos com a pandemia e passam álcool em gel na mão de hora em hora. O maior medo, disparado, é o de pegar o vírus de algum cliente. Estamos trabalhando mais, com menos pessoas. O telefone toca quase que ininterruptamente.

Às 11 horas, atendi ao telefone pela primeira vez. Anotei o pedido, mas só consegui sair para entregar às 13 horas. Antes não tivesse ido. A maquininha não funcionou na casa da cliente. Voltei à farmácia para pegar outra. Mais uma vez, não havia sinal. A cada tentativa frustrada de fazer o pagamento, ela ficava mais nervosa. Já bem alterada, começou a reclamar, num tom de voz alto e angustiado, dizendo que nada na farmácia funcionava e que não deveria nem estar tendo contato comigo, pois tem 75 anos. Eu já estava a mais de 1 metro dela, de luvas e máscara, mas dei dois passos para trás para que percebesse que eu também estava incomodado. Falou ainda que eu tinha atrapalhado o seu cochilo da tarde e que ela não merecia estar passando por aquilo. Eu ouvi tudo calado, mas no final não aguentei e respondi: “Eu também não, senhora.”

Parti para a segunda entrega do dia. Quem me atendeu foi a empregada doméstica, e logo ao abrir a porta senti um cheiro maravilhoso de comida. Já eram quase 14 horas, e eu ainda não tinha almoçado. Voltei para a loja, bati meu ponto do intervalo e devorei minha marmita em dez minutos na cozinha da farmácia, onde dispomos de mesa, geladeira e micro-ondas. Às vezes, depois do almoço, deito uns vinte minutos no chão para dar uma relaxada. Foi o que eu fiz hoje.

Sempre trago comida de casa, porque é mais barato e mais saudável. Minha mãe cozinha bem demais, tenho sorte. Além disso, o auxílio-alimentação é de apenas 4 reais por dia trabalhado. Uso o tíquete no mercado. Esse mês, como vou trabalhar 24 dias, serão 96 reais.

Na parte da tarde, mais uma vez uma pessoa foi até o balcão e perguntou: “Tem Reuquinol?” Chegou mostrando a foto do medicamento no celular e me pareceu ser alguém que não precisava do remédio. O movimento na farmácia foi ininterrupto, e só consegui bater meu ponto de saída às 19h15. Estava tão exausto que mal sentia as pernas.

 

4 DE ABRIL, SÁBADO_Dia de folga. Dormi onze horas seguidas. Foi uma delícia.

 

5 DE ABRIL, DOMINGO_Ao contrário da maioria das pessoas, eu prefiro trabalhar aos domingos. É o único dia em que o movimento é menor. No trem, sentei do lado de um homem que começou a tossir. Troquei de lugar.

Primeiro atendimento do dia: um senhor perguntou sobre cloroquina. Respondi que estávamos sem o remédio e não havia previsão de recebê-lo. Ele continuou, dizendo que conhecia pessoas que tinham sido curadas do novo coronavírus em 24 horas após usarem cloroquina. A história fazia tão zero sentido que em nenhum momento pensei em questionar o homem.

A primeira entrega do dia foi para uma senhora que fez questão de dizer que estava grata por estarmos prestando o serviço de delivery. Não deu gorjeta, mas só por ter me tratado com respeito e dignidade, eu já fiquei feliz. Na parte da tarde, anotei por telefone o pedido de uma cliente, separei o que ela queria e pedi o endereço: Rua Saint Roman. Só descobri que é a rua que leva à comunidade do Pavão-Pavãozinho quando já estava lá perto.

Aos 18 anos, trabalhei por três semanas como vendedor em uma empresa que vendia purificadores de água, porta a porta, nos subúrbios e nas favelas do Rio de Janeiro. Então eu já sabia que, caso encontrasse algum trabalhador do tráfico, era só me identificar que tudo ficaria tranquilo. Traficante respeita trabalhador. A não ser, é claro, que esse trabalhador seja da polícia.

A cliente morava na parte alta do morro, de onde se tem uma vista linda de Copacabana. Tirei uma selfie. Na volta, sentei numa calçada para postar minha foto nos stories do Instagram. Um moleque magrelo de uns 15 anos veio ao meu encontro. “E aí, mano?”, ele falou. Eu respondi: “E aí, mano, suave? Tô só dando uma sentada aqui que já tô cansadão.” O menino era olheiro do tráfico e perguntou se eu andava muito. Falei que sim, que estava com as pernas exaustas.

 

6 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Hoje é aniversário do meu pai. Ele mora em Guapimirim, que fica depois de Magé. É o último município da Região Metropolitana, mas parece interior. Com a pandemia, em Guapimirim (como nos demais municípios da Região Metropolitana) só tem acesso à cidade quem mora lá. Mas, mesmo que tivesse um jeito de chegar, eu não iria, pois meu pai está no grupo de risco: é quase sexagenário, tem pressão alta e sobrepeso. Seria muita irresponsabilidade da minha parte. Postei uma foto nossa que eu amo: nós dois em frente ao Estádio do Maracanã, em 2014, antes de assistirmos ao primeiro jogo do Botafogo pela Libertadores em casa, em dezoito anos. E demos sorte, o placar foi de 4 a 0 contra o Deportivo Quito, do Equador. Em se tratando de Botafogo, assistir a uma goleada assim é sorte em dobro.

Decidi contar ao meu pai que estava escrevendo este diário para a piauí. Eu o ouvi chorando pelo telefone. Fiquei emocionado. Puxei dele a tendência a chorar sempre que dá vontade, e isso me orgulha. Ele disse que essa notícia era o melhor presente possível para ele. Se tem uma coisa que eu não curto nessa vida é me fazer de vítima. Mas o fato de eu nunca ter conseguido nada na área de comunicação depois de formado me dói, e dói muito.

Ninguém na farmácia sabe que eu fiz faculdade de jornalismo. Não contei porque, primeiro, não quero que me olhem ou me tratem de maneira diferente. Segundo, porque é doloroso lembrar como estou distante daquilo que sonhei.

Minha história com o jornalismo não é das mais usuais. Em 2007, eu fui jubilado do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca), onde eu fazia o ensino médio e também um curso técnico de eletromecânica. Eu tirava notas altas em português, história e geografia, mas me dava mal em física e matemática. Por causa dessas matérias, fui reprovado de ano duas vezes seguidas e acabei sendo expulso. A vergonha de ser expulso foi duas vezes maior que o orgulho de ter entrado na escola.

Nessa época, coloquei na cabeça que eu era incapaz de aprender certas coisas. Terminei o ensino médio em uma escola estadual e fui trabalhar numa escolinha de futebol da qual meu irmão era sócio. Com meu primeiro salário, comprei uma sandália da Mr. Cat para a minha mãe. Com o segundo, me matriculei em um curso de inglês. Era o que eu precisava para recuperar minha autoestima intelectual.

Em 2009, a Joss Stone veio tocar no Brasil. Na comunidade da cantora no Orkut, os fãs decidiram fazer uma vaquinha para dar presentes a ela: vestido, bijuterias etc. Eu resolvi dar um texto sobre dez artistas da música popular brasileira, escrito com meu inglês bem mais ou menos da época. Chamava-se “Introducing Brazilian Music”. Deixei na portaria do hotel dela. Como eu não tinha dinheiro para o ingresso do show, decidi imprimir dez cópias desse texto e tentar vender aos gringos na praia. Demorei o dia todo, mas consegui vendê-los e comprar o ingresso.

Em 2010, meus pais se separaram. Meu pai foi morar com uma médica, que o convenceu a pagar um pré-vestibular para mim. Eu estava com 20 anos. No ano seguinte, fui aprovado em letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e em jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Então me lembrei do meu texto sobre música brasileira, que na minha cabeça era um trabalho jornalístico. Em 2012, fui para Minas Gerais.

Trabalhei durante todo o curso, por isso levei seis anos para terminar a faculdade. Fui garçom, entregador de panfleto, secretário em curso de ioga, recenseador do IBGE e até segurança em show do Michel Teló (apesar de minha baixa estatura: 1,68 metro de altura). Foi na universidade que conheci a minha companheira, Regina, o melhor presente que o curso me deu. Desde que voltei para o Rio, em 2018, vivemos um relacionamento a distância: eu na Baixada, e ela em Ouro Preto, fazendo mestrado em história. Prometi conseguir um trabalho para alugar uma casa para nós dois. Ainda não cheguei lá, mas vai rolar.

Por volta de 16 horas, fui entregar uma compra de quase 1 500 reais na Avenida Atlântica. A moradora foi super mal-educada, pegou a sacola e jogou no chão, não deu nenhuma gorjeta e ainda fechou a porta com força na minha cara. Depois pude ouvi-la gritando com o marido. Quando desci, disse para o porteiro: “Pô, grossa pra caramba essa fulana, hein?” Ele respondeu: “Tu não viu nada. Ela reclama o dia inteiro. Uma vez, na reunião de condomínio, pediu para retirar a televisão que fica na portaria para os porteiros não ficarem assistindo.”

Na volta para casa, li no Twitter que o presidente pretendia demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Às vezes eu tenho a impressão de que estamos vivendo uma distopia. Fiquei balançando a cabeça, como se dissesse: “Não, não, não.” Uma moça sentada à minha frente ficou olhando para mim. Ela deve ter pensado que eu estava discutindo com a minha namorada.

 

7 DE ABRIL_TERÇA-FEIRA_Consegui me levantar às 4h30. Primeiro gol do dia. Peguei o trem exatamente às 5h19. Segundo gol. Cheguei na loja antes das 7 horas. Hat trick.

O bom de chegar a essa hora é que às 15h20 posso ir embora. Cheguei em casa às 17h20, e ainda deu tempo de passar no mercado e comprar o que faltava: produtos de higiene, frutas, pão, macarrão e 2 quilos de peito de frango. E duas barras de chocolate também, que ninguém é de ferro.

Eu moro só com a minha mãe, e temos uma relação muito boa. Ela está perto de se aposentar, então só trabalha às quartas e sextas. Vivemos em uma vila de seis casas, sendo três da minha família: além de nós, moram duas tias aposentadas, que agora estão também em quarentena. Só saem de casa pra ir ao mercado ou à farmácia, sempre protegidas.

Nossa casa é pequena mas confortável. Minha mãe tem o quarto dela, eu tenho o meu. Nos últimos meses, por causa das chuvas frequentes, um pedaço do teto do meu quarto abriu. Tive que dormir no quarto da minha mãe por alguns dias. Quando o sol voltou, juntamos uma grana e compramos o material necessário para consertar o estrago. Moro em uma das avenidas principais de Nilópolis e tenho uma vista privilegiada da estação de trem. Quando está muito quieto na rua, consigo ouvir da minha casa o sistema de som da SuperVia avisando em quantos minutos os trens vão chegar. É uma facilidade estar perto do principal meio de transporte público de que nós, baixadenses, dispomos para ter acesso ao Rio. Sou um suburbano privilegiado. Quase um playboy.

 

8 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Voltei para o meu horário normal de 10 horas. O gerente já me esperava para fazer duas entregas, felizmente para duas senhoras bem simpáticas, que me deram gorjetas: a primeira, 2 reais; a segunda, 5 reais. O movimento estava bem baixo, então deu tempo de esfregar com esponja e sabão duas prateleiras da minha seção.

Às três da tarde, fui fazer uma entrega para uma senhora de 94 anos, que se tornou minha mais nova cliente favorita de todos os tempos. Primeiro, porque ela me chamou para entrar na casa dela. Eu não acreditei, a maioria das pessoas nem sequer me olha. Depois, logo que entrei, ela fechou a porta e perguntou se eu queria água. Nunca nenhum cliente tinha me perguntado isso. O tempo todo ela foi educada: é a personificação daquele estereótipo da velhinha fofa. Perguntou onde eu morava. Quando eu respondi que era na Baixada, ela contou que já tinha morado em Nova Iguaçu. Ela foi gentil e carinhosa o tempo todo, e eu, como bom pisciano, amo receber carinho. Teve um momento em que ela até pediu para me dar um abraço. Mas, infelizmente, tive que recusar e explicar que não era seguro. O turno foi até mais agradável depois de fazer a entrega para a dona Augusta.

 

9 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_No momento em que eu batia o ponto ao chegar no trabalho, o gerente falou: “Sandrinho, tem cinco entregas para você fazer.” Lá fui eu. Quando voltei, havia mais duas. Sete entregas antes do almoço! Um recorde. Só fiquei um pouco chateado porque não foi um dia de pessoas generosas. Apenas duas deram gorjetas, de 2 reais e 4 reais.

À tarde, criei coragem e fui pedir ao gerente para sair vinte minutos antes do meu horário. Como sou impulsivo e sincero, fui logo explicando que o motivo era fútil: assistir ao show do cantor Péricles Faria numa live no YouTube. Eu sou muito fã do Pericão. Minha psicóloga, a Cláudia, sempre me diz que eu tenho que ter mais malícia. O consultório dela fica no Centro de Nilópolis, a cinco minutos a pé da minha casa. Vou duas vezes por mês, que é o que dá para pagar com o meu salário, economizando muito. Mas vale a pena.

O gerente me deixou ver o Pericão.

 

12 DE ABRIL, DOMINGO DE PÁSCOA_Hoje saí de casa bem arrumadinho. Passei meu spray antifrizz no cabelo e borrifei três vezes o perfume que comprei de presente de Natal para minha mãe. Tirei uma selfie. Postei. Desejei que a foto tivesse cheiro. Não o cheiro do Centro de Nilópolis, que é bem desagradável, e sim o meu. A máscara escondeu meu sorriso (eu uso máscara o tempo todo fora de casa), mas meu cabelo estava lindo na foto. Não à toa minha namorada me chama de Príncipe da Baixada.

Cheguei na farmácia às 6h55. A supervisora, que abre a farmácia, mandou mensagem dizendo que ia atrasar. Fui olhar o mar. A praia estava deserta. Tirei uma foto que gostei tanto que mandei para a Regina, para a minha mãe, para o meu pai, para os meus stories e, se pudesse, colocava num outdoor.

Tenho uma conexão bem forte com o mar, desde pequeno. Na adolescência, ver o mar se tornou uma terapia para mim quando fui jubilado do Cefet. Eu aproveitava a gratuidade do transporte a que tinha direito e ia até a Zona Sul. Não gastava um real e passava a tarde sozinho olhando o oceano. De vez em quando, pedia para alguém olhar minha mochila e dava um mergulho rápido. Só de estar diante do mar, eu já me sentia melhor.

A farmácia abriu só às 7h30. Na maior parte da manhã fiquei no caixa. Nos raros momentos em que não tinha ninguém, fui separar as caixas de produtos que haviam chegado na noite anterior. Oito caixas de álcool em gel de 440 ml e duas de frascos de bolso. Para a alegria de quem estava sem Reuquinol, chegaram três caixas do remédio. Foi o primeiro medicamento à base de cloroquina ou hidroxicloroquina que a farmácia recebeu desde que os boatos começaram. Na parte da tarde, um rapaz passou pelo meu caixa com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina, o antibiótico que geralmente é receitado junto com a cloroquina. Eu até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado.

Só fui fazer entrega a partir do meio-dia, quando chegou mais um funcionário. Não ganhei gorjeta nem votos de Feliz Páscoa. Mas a verdade é que não tem ninguém feliz nessa quarentena.

 

13 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Manhã com movimento de domingo de final de mês. Bem fraco. Até as entregas estavam devagar, apenas duas. A segunda foi na Avenida Atlântica. Na volta, comecei a ouvir uma discussão. O som da briga foi ficando mais intenso e, quando procurei de onde vinha, reparei que era de um prédio. Uma moça, num dos andares mais altos, estava ameaçando se jogar da varanda. Teve uma hora em que ela se pendurou na tela de proteção, mas alguém a puxou de volta. Gelei. Acho que nunca me recuperaria do trauma que é ver um suicídio assim. Não faço ideia de quem seja essa mulher, mas hoje estou mandando pensamento positivo para ela.

Na hora do almoço, li sobre a morte do Moraes Moreira. Que triste. Como bom estudante de ciências humanas, ouvi muito os Novos Baianos durante os anos de faculdade. Minha tia me falou que o Moraes Moreira era amigo do balconista de uma farmácia perto da casa dele. Me imaginei esse rapaz, não vou mentir. Seria uma honra. Acabou chorare.

 

15 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Hoje eu completo um ano na farmácia. É uma mistura de sentimentos. Existe a frustração por eu não estar trabalhando na área em que me formei, mas existe também o orgulho. Orgulho por saber que trabalho bem, que todo mundo, nas três lojas por onde passei, gosta de mim. Aprendi muito neste ano. Passei a pesquisar sobre os princípios ativos dos medicamentos, coisa que nunca antes tinha imaginado fazer.

Minha história com essa farmácia é um pouco curiosa. Quem me indicou foi uma amiga querida, que conheço da época em que eu frequentava a comunidade da Joss Stone no Orkut. Ela ficou com pena de mim, no ano passado, quando viu uma postagem que fiz sobre os sucos que eu estava vendendo no trem. Naquela época, eu trabalhava como massoterapeuta – o que ainda faço nas horas vagas –, mas fazia uma semana que não tinha nenhum cliente. Como estava parado, tive essa ideia dos sucos de laranja e maracujá. Preparei o suficiente para umas vinte garrafinhas e assim fui camelô de trem por dois dias. Vendi todos em menos de duas horas. Como amo um elogio, eu perguntava para alguns clientes: “Tá gostosão, né?”

Essa minha amiga é farmacêutica e trabalha na empresa há cinco anos. Com bastante moral aqui dentro, ela me indicou para uma entrevista, e fui aprovado. Comecei numa loja na Visconde de Pirajá, em Ipanema, das 7 horas às 15h20. Mas, como a gerente regional logo gostou de mim, três meses depois me transferiu para uma loja de Copacabana. De início foi horrível, porque o movimento é infinitamente maior. Demorei para acostumar meu corpo ao novo ritmo de trabalho. Em janeiro, fui promovido a atendente 2 e mudei de filial mais uma vez (mas ainda em Copacabana).

Esse tempo entre Ipanema e Copacabana serviu para que eu entendesse bem melhor a Zona Sul. Para muitas pessoas do subúrbio, a Zona Sul é uma coisa só. Agora que vou todos os dias, consigo enxergar bem as diferenças. Catete, Glória e Laranjeiras são bairros de classe média pouco elitizados. Flamengo e Botafogo são também de classe média, mas com algumas pessoas de classe alta. Copacabana é bem menos elitizado do que parece. Tem gente de classe alta, mas boa parte é falida. O que mais vejo na farmácia é gente implorando um desconto. Claro que há uma diferença abissal entre o custo de vida de Copacabana e o de qualquer lugar da Zona Norte ou da Baixada Fluminense. Mas Copacabana está longe de ser um bairro só de rico.

Ipanema, Leblon e Gávea são os bairros que mais se aproximam do imaginário propagado no subúrbio do que é a Zona Sul. Em Ipanema, eu atendia muito mais gente nitidamente endinheirada do que em Copacabana, e foi lá que vi empregadas domésticas uniformizadas, que para mim, até então, eram apenas personagens das novelas de Manoel Carlos. Como iam fazer compras na farmácia, eu conversava com elas. Eram em geral mulheres pretas, dando amor para os filhos brancos das patroas. Em Copacabana, atendo muita empregada doméstica, mas nunca vi nenhuma de uniforme. Eu também conversava muito com os gringos, por ser o único funcionário da farmácia que fala inglês. Eles eram muitos em Copacabana, durante o ano todo. Desde o início da pandemia, porém, os gringos sumiram.

Na parte da tarde, o gerente regional foi à nossa filial para falar sobre o farmacêutico que teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado e ficaria mais catorze dias afastado. Explicou que uma equipe de limpeza viria desinfetar a loja.

 

16 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Dia de folga. Dormir bem é delicioso demais.

Além da cloroquina, nos últimos dias o ministro da Ciência, Marcos Pontes, passou a apostar num outro medicamento que já existe – o vermífugo Annita – para combater o novo coronavírus. Pois bem, hoje ele virou um medicamento controlado, justamente por causa das fake news dos últimos dias. Agora, só com receita.

O que era esperado aconteceu. Mandetta foi demitido. Temos um presidente que demite um ministro por ele seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Chega a ser difícil acreditar nisso. Mais uma vez, teve panelaço em muitos lugares. Nilópolis não foi um deles.

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado”

Sandro Aurélio, com indumentária de trabalho: “Um rapaz passou com uma caixa de Reuquinol. E também com azitromicina. Até tentei puxar assunto com ele, mas era muito mal-encarado” FOTO: RICARDO BORGES_2020

Sandro Aurélio, 29 anos, formou-se em jornalismo, mora na Baixada Fluminense e trabalha numa farmácia em Copacabana. No balcão ou nas entregas em domicílio, convive com clientes estressados, ouve desaforos, recebe algumas gorjetas – e ganha o dia quando é tratado com pequenos gestos de gentileza.

30
Jul21

Impeachment: medalha de ouro

Talis Andrade

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Vamos falar como o cidadão comum, angustiado, que não se esconde de torcer para nossos atletas nas olimpíadas, mas que, no fundo, sabe que hoje o único pódio que interessa é a votação do impeachment

“Turbulência
O vento experimenta
o que irá fazer
com sua liberdade…”

 Hai-kai, João Guimarães Rosa

Na época do famoso caso Mensalão, havia uma maldade que corria entre os advogados, dizia-se que que a Globo investia muito na espetacularização da divulgação do processo, quase que de maneira romanceada, por ter perdido o direito de transmitir as Olimpíadas. Era uma espécie de concorrência. Claro que sabíamos que outros, muito além da audiência, eram os motivos daquela cobertura. E vimos tudo se repetir durante a Operação Lava Jato.

A verdade é que sinto agora, tantos anos depois, uma certa síndrome de abstinência com o recesso da CPI, exatamente quando as atenções se voltam para as Olimpíadas de Tóquio. Já havia manifestado minha opinião no sentido de que a Comissão não deveria ter tido recesso e que já era hora de elaborar um relatório parcial para começar a cobrar responsabilidade. Essa investigação visa descobrir e apontar os culpados pelas mortes de mais de meio milhão de brasileiros. E a omissão criminosa continua fazendo milhares de mortos todos os dias. Banalizamos a dor. Acostumamo-nos a contar os óbitos como quem conta números e não vidas. Então, como interromper a investigação? É como se tivessem pedido um tempo e parado o relógio, como se faz nos jogos de basquete. Um timeout. E nesse intervalo, as pessoas ficassem proibidas de morrer.

Repito: façamos um relatório parcial, somente com o seríssimo trabalho feito até agora para apontar os responsáveis pelo negacionismo que foi e é o responsável pelos óbitos. Compra de medicamentos sem base científica, desprezo pela vacina, política de culto à morte, enfim, tudo que a CPI já pode provar e que todos nós, o Brasil e o mundo já sabemos. Fecha.

Apontem os culpados e joguem no colo da dita sociedade organizada a cobrança a ser feita na Câmara, no Senado, no TCU, na PGR… E aí, instaura-se uma CPI parte dois: a dos corruptos, para investigar quem mercadejou com a vida!

Desculpem insistir no tema chato e pesado, entre uma tomada de onda no surfe e um lance de ousadia no skate. Mas nós somos ouro no número de mortos na olimpíada da irresponsabilidade no trato com o vírus.

Temos que entender que existem Comissões Parlamentares de Inquérito diferentes umas das outras. Lembro-me que, em 23 de março de 1994, recebi o telefonema de um colega advogado dando a notícia da prisão de um cidadão no Rio Grande do Sul que estava embarcando para Brasília, algemado, para depor numa CPI. O decreto prisional era assinado pela Presidente da Comissão. Teratológico. A ordem de prisão é ato privativo do Judiciário. Mas essa deputada, que assinou o mandado, realizava o sonho de muitos parlamentares: ocupar o lugar dos juízes. Àquela época, mal poderiam imaginar que hoje os juízes/ministros é que estão a legislar, ocupando o lugar de um Legislativo acuado e enfraquecido.

Impetrei um habeas corpus pela liberdade no STF, HC 71279/ RS, sem ter sequer acesso ao decreto de prisão. Despachei com o grande ministro Celso de Mello alegando a fé do meu grau para comprovar a veracidade dos fatos. No mesmo dia, adentrei a sessão da CPI para libertar meu cliente com um alvará de soltura nas mãos. Era o Supremo impondo limites constitucionais à CPI, e ao Poder Judiciário. Esse é o jogo democrático, todos saem ganhando com a definição clara dos poderes constituídos.

Qual a diferença dessas CPIs? Todas são importantes e a advocacia cumpre seu papel no resguardo dos direitos e garantias dos investigados, e mesmo das testemunhas. Hoje em dia, cumpre preservar até o direito dos advogados. Mas a importância fundamental e crucial é que a CPI da covid, mais do que apurar responsabilidades, tem o objetivo de salvar vidas. Esse tem que ser o compromisso principal: salvar vidas e responsabilizar os assassinos. Qualquer adiamento é perigoso.

Toda demora tem consequências. Vamos falar como o cidadão comum, angustiado, que não se esconde de torcer para nossos atletas nas olimpíadas, mas que, no fundo, sabe que hoje o único pódio que interessa é a votação do impeachment, é colocar a nossa bandeira hasteada e se emocionar ao ouvir o hino nacional dentro do Congresso, no plenário e nas galerias. Pode ser brega, mas significará que estamos tentando entrar no jogo democrático. Não existe vitória olímpica que possa superar a derrota do nosso país no trato com a tragédia sanitária. Vamos, ainda assim, nos permitir torcer e vibrar com os atletas. Sabendo que há um Brasil perplexo, triste, acabrunhado e humilhado com a condução criminosa e desastrosa desse técnico que preside o país. Resistir, com suavidade, mas com firmeza e sem medo, é a nossa única jogada. A que pode virar o jogo.

É necessário nos refugiarmos no Livro do Desassossego, do nosso Pessoa:

Na grande claridade do dia o sossego dos sons é de ouro também. Há suavidade no que acontece. Se me dissessem que havia guerra, eu diria que não havia guerra. Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.”ImageImage

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14
Jul21

Senadores estão aprendendo a cortar o lero-lero dos negacionistas na CPI

Talis Andrade

Quem é a médica Nise Yamaguchi, a próxima a depor na CPI da PandemiaNise Yamaguchi pega nas mentiras

 
 

QUANDO O MUNDO estava atônito com a ascensão de presidentes de extrema direita em 2018, escrevi sobre um artigo alemão que dava dicas para jornalistas de como confrontá-los. Um resumo delas: faça perguntas básicas e técnicas, e não dê espaço para o proselitismo ideológico, que é a única arma de um extremista em um debate. Mantenha a conversa no campo técnico e não permita que ela caia para o debate moral, que é a seara em que eles se sentem mais à vontade. Todo extremista é, via de regra, um sujeito com intelectual limitado e invariavelmente se enrola com perguntas simples e técnicas.

Durante um debate no primeiro turno da eleição daquele ano, o jornalista Reinaldo Azevedo fez uma pergunta das mais simples sobre dívida interna para Bolsonaro. O então candidato ficou tenso, gaguejou e parecia estar à beira de sofrer a mesma síndrome vasovagal que derrubou Pazuello na CPI. A resposta do candidato foi um ajuntamento de palavras aleatórias que formavam frases desconexas e sem qualquer relação com a pergunta.

Foi essa a tática utilizada pelos senadores de oposição na última terça-feira na CPI da Covid durante o depoimento da médica negacionista Nise Yamaguchi, que recentemente se tornou a nova queridinha da extrema direita.

Os senadores bolsonaristas estavam otimistas com o depoimento da doutora. Além de estar alinhada ao presidente, ela ostenta um belo currículo na área médica. Os senadores governistas esperavam que isso fosse dar alguma credibilidade às teses negacionistas, mas o que se viu foi o contrário. As pretensas explicações científicas de Yamaguchi não resistiram ao escrutínio dos senadores oposicionistas que estavam afiados. Eles se focaram em questões básicas e técnicas, sem dar margem para o proselitismo negacionista.

O ponto alto do constrangimento de Yamaguchi veio quando Otto Alencar, que também é médico, fez uma pergunta simples: “qual é a diferença entre protozoário e vírus?”. A médica, que defende fervorosamente a aplicação de um remédio para protozoário para combater um vírus, não soube responder. Otto emendou então outra pergunta elementar: “a senhora sabe a que grupo pertence a covid-19?”. Ela ficou nervosa, começou a murmurar e a folhear papéis como se estivesse procurando uma resposta. Quando Yamaguchi tentou apelar para o enrolation, Otto não deixou o lenga-lenga negacionista florescer. Interrompeu a doutora e cobrou uma resposta para suas perguntas técnicas, mas, mais uma vez, ficou no vácuo.

Yamaguchi, que era apresentada pelo bolsonarismo como uma especialista no enfrentamento da pandemia, se mostrou uma profunda ignorante na área de infectologia. Uma pessoa completamente despreparada foi alçada pelo governo Bolsonaro à condição de conselheira de alto nível para assuntos relacionados à pandemia. É esse o tamanho do buraco em que nos encontramos.

O relator emedebista Renan Calheiros perguntou qual a opinião de Yamaguchi sobre as vacinas. Ela respondeu que a imunização não é o único caminho para combater a pandemia, dando a entender que as vacinas têm o mesmo nível de importância que o famigerado tratamento precoce. O presidente Omar Aziz então a interrompeu para pedir para o povo não acreditar nela: “não acreditem nela. Quem está nos vendo neste momento, não acredite nela. Tem que vacinar. A vacina salva. Tratamento precoce não salva. Não vou fazer propaganda enganosa para a população brasileira. Eu tenho responsabilidades aqui, e a responsabilidade é grande”. Um golaço. Omar deixou claro que não haveria mais espaço dentro da CPI para se contrariar um consenso científico. O tratamento precoce é comprovadamente ineficaz e não se pode admitir que uma profissional médica trate um consenso científico como se fosse mera questão de opinião.

A senadora Eliziane Gama, do Cidadania do Maranhão, perguntou se a médica já teria se vacinado. Ela respondeu que não pôde tomar a vacina por ser acometida de vasculite, uma doença autoimune. Pouco tempo depois, a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a SBR, emitiu nota desmentindo: “(…) vasculites não representam, por si só, qualquer contraindicação para receber qualquer vacina contra a covid-19″.

Depois, a depoente disse para os senadores que foi integrante do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass. Poucos minutos depois, o próprio Conass publicou nota declarando que Yamaguchi não possui qualquer vínculo com a entidade. Confrontada com a nota, a doutora admitiu que não fez parte do conselho e, como se nada tivesse acontecido, alegou apenas que tem apreço pelos secretários da entidade.

As mentiras escabrosas foram muitas e não pararam por aí. A oncologista mentiu quando afirmou ter feito parte da criação do comitê de crise do Ministério da Saúde para o enfrentamento da pandemia de H1N1 em 2009. José Gomes Temporão, o ministro da época, a desmentiu. Mentiu ao dizer que o estado do Amapá tem uma das menores taxas de letalidade da doença do mundo graças ao uso do tratamento precoce. Mentiu ao citar um estudo de Nova York que comprovaria a ineficácia do lockdown. Mentiu ao dizer que o governo mexicano recomenda uso de hidroxicloroquina. Mentiu quando disse que nunca teve encontros privados com Jair Bolsonaro.

As agências de checagem tiveram trabalho. A doutora mente demais até mesmo para os altos padrões bolsonaristas. Nem o festival de mentiras protagonizado por Pazuello na CPI foi tão ostensivo.

O depoimento de Yamaguchi foi uma derrota e tanto para o bolsonarismo. Senadores e outros políticos governistas iniciaram então uma campanha em defesa da médica, alegando que ela foi humilhada e desrespeitada pelos senadores de oposição durante a CPI. Um grupo de médicos saiu em defesa da colega, incentivados pelo presidente do Conselho Federal de Medicina, que está aparelhado por bolsonaristas. Ele agitou uma reação corporativista da classe ao gravar um vídeo em que anuncia a publicação de uma moção de repúdio em defesa do profissional médico, ao respeito e à civilidade na CPI. A narrativa é a de que toda a categoria médica estaria sendo desrespeitada na comissão. Mas quem de fato desrespeita a profissão de médico são os médicos que desrespeitam a ciência.

Os extremistas estão sempre tentando tirar o debate na área técnica para levá-lo para o campo moral. Yamaguchi foi humilhada sim, mas pela verdade dos fatos. Desrespeitada não foi em nenhum momento, muito pelo contrário. Os senadores a trataram com cordialidade a todo momento. Apenas tiveram a firmeza necessária para quem está investigando as responsabilidades de um crime contra a humanidade. Ficou claro que a doutora não tinha a menor condição de se apresentar como conselheira do governo no combate à pandemia.

Um dia após o depoimento de Yamaguchi, outra depoente médica, Luana Araújo, aquela que foi chamada para trabalhar com Queiroga mas foi barrada por não estar alinhada às loucuras negacionistas, classificou a defesa da cloroquina no tratamento precoce como uma “discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente”. São adjetivos feitos sob medida para o depoimento de Yamaguchi.

A tática utilizada para desmascarar a falta de conhecimento técnico da médica bolsonarista pode ser um aperitivo para as eleições de 2022. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro pode até fugir dos debates, mas não vai poder ficar apenas naquele cercadinho em que todos os dias alimenta o seu gado. Vai ter que se expor, dar entrevistas e responder questões básicas e técnicas para quem ocupa o cargo de presidente. Esse é um bom caminho para se enterrar o extremismo. 

 

29
Jun21

UM LÍDER FAMINTO

Talis Andrade

Charge Ricardo Barros | Charge de Simon Taylor sobre a insac… | Flickr

 

Ex de FHC, Lula, Dilma e Temer, novo articulador de Bolsonaro na Câmara faz jejum com regularidade - mas não de poder

 

por FELIPPE ANÍBAL

Exatamente às 14h23 da última terça-feira (18), o deputado federal Ricardo Barros (Progressistas-PR) tomou a palavra no plenário da Câmara dos Deputados. Era a primeira vez que ocupava o microfone em uma sessão como líder do governo Jair Bolsonaro (sem partido) na Casa. De máscara preta e óculos apoiados na ponta do nariz, fez um discurso protocolar: agradeceu a confiança do presidente e pediu apoio aos colegas. Às 15h14, Barros voltou ao microfone – já sem máscara nem óculos. E se mostrou ainda mais confortável no perfil que vem exibindo ao longo de seis mandatos: um profissional da política, capaz de permanecer no poder mesmo que o poder mude de mãos. Foi líder de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), vice-líder de Lula (PT) e de Dilma Rousseff (PT), além de ministro da Saúde de Michel Temer (MDB). E não vê problema nisso.

“Qual o sentido disso? [de ser líder de diferentes governos]. O sentido é dar governabilidade ao governo que se elege. O nosso sistema é o presidencialismo de coalizão. O nosso sistema exige maioria ou três quintos [dos votos] para emendas”, disse, em tom didático, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo. “A função do líder do governo é formar maioria, agregar, convencer, ceder, para que haja o entendimento e para que o conjunto dos partidos possa, por maioria, aprovar as matérias aqui na Casa”, disse. Deputado federal desde 1995, notável membro do Centrão, grupo de partidos mais conservadores da Câmara, Barros já passou pro PR, PFL, PPB e PP. Sabe a hora de se aproximar de determinado governo, mas também é capaz de desembarcar dele sem pudores. À piauí, definiu-se como “um político de resultados” e “um bom articulador”. 

O anúncio de que fora escolhido como novo líder veio num período delicado, quando Barros faz o que chama de “programa de desintoxicação”  – a cada três meses, passa uma semana sem se alimentar de sólidos, jejuando e tomando exclusivamente água. A restrição terminara no domingo retrasado, quando completaram-se sete dias de jejum. Sete dias sem comer. É um tema sobre o qual o deputado evita falar. “É um programa de desintoxicação que eu faço de forma frequente. Em uma semana, só água”, disse. “É jejum. Jejum está na Bíblia, amigo”, acrescentou Barros, que não se diz essencialmente religioso.

Se faz o jejum nesses períodos definidos, Barros não esconde o apetite pela política e pelo poder. Deputados da base e da oposição fizeram uma leitura parecida sobre a escolha dele para o posto de líder: Bolsonaro abraça definitivamente o Centrão na tentativa de minimizar sua inaptidão política em compor consensos, terceirizando o trabalho para um “profissional”. Em sua primeira sessão na liderança, Barros já elegeu sua primeira missão: a costura política para aprovação da reforma tributária. O Centrão, por sua vez, também já demonstrou sua voracidade: de cada cem funcionários comissionados com filiação partidária no Executivo, 39 são filiados a partidos do bloco (como PP, MDB, DEM, PSD, entre outros).

Nascido em Maringá, interior do Paraná, Barros tem 60 anos. É um homem de estatura mediana, ligeiramente calvo e de expressão sisuda. Raramente ri e, quando o faz, nunca é um sorriso aberto. Até aos domingos costuma cumprir expediente em seu escritório, em Maringá, e quem é próximo dele diz que seu único interesse é a política. “Você nunca vai ver o Ricardo [Barros] falando de futebol, de um lugar que ele foi, de alguma coisa que comprou. É só política”, disse um aliado. Entre colegas e desafetos, a palavra usada com unanimidade para descrevê-lo é “pragmático” ou expressões que caem como sinônimos, de “calculista” a “trator” – perfil que, para quem está do lado oposto, pode ajudar a botar panos quentes na tensão entre Bolsonaro e o Congresso.

“Todo mundo sabe que o Ricardo [Barros] cumpre o que ele combina. Não tem surpresa. Vai chegar na hora da votação e ele não vai descumprir a palavra. Para nós, da oposição, é bom você ter um líder assim, que cumpre, senão vira confusão. O Ricardo tem esse pragmatismo e essa condição”, opinou o deputado Luciano Ducci (PSB-PR). “O que mais chama a atenção é o pragmatismo dele. Qual a visão que parte da sociedade tem de um bom deputado? É o que consegue recursos. Isso ele faz. E faz o que acha que precisa fazer”, disse o deputado federal Gustavo Fruet (PDT-PR). 

Um exemplo do modus operandi de Barros se deu em 2016, quando ele abandonou o governo Dilma. Em abril daquele ano, durante o processo de votação na Câmara da admissibilidade do pedido de impeachment da então presidente, Barros era vice-líder do governo. Apenas na véspera da votação anunciou publicamente que se posicionaria em favor da tramitação do impeachment. Embora ainda estivesse no governo, nos bastidores Barros vinha negociando com o grupo de Temer e já era cotado para o Ministério da Saúde, caso Dilma fosse deposta – o que acabou ocorrendo. “Ele [Barros] fez como um bom batedor de pênalti: esperou até o último momento pra bater na bola. Quando viu que o goleiro ia cair para um lado, virou o pé e chutou no outro canto. Mas se você preferir, pode usar a metáfora de ‘um pé em cada canoa’”, comparou um parlamentar de oposição.

Outra passagem, essa em 2010, lhe rendeu um apelido do qual não gosta nem um pouco: Leitão Vesgo. Na ocasião, o deputado avaliava quem apoiaria nas eleições para o governo do Paraná, se Beto Richa (PSDB) ou Osmar Dias (PDT), então aliado do PT.  Em uma reunião em Brasília, da qual participavam Gleisi Hoffmann (PT) e o deputado federal Fernando Giacobo (PL), Dias se irritou com a indefinição e disse: “Ô, Ricardo! Você fica mamando na teta do governo, enquanto, feito um leitão vesgo, já tá olhando para a teta do Beto Richa”. No Paraná, a alcunha pegou, principalmente entre os desafetos. 

 

Como ministro da Saúde, deu uma série de declarações que repercutiram muito mal. Criticou a quantidade de exames feitos pelo SUS, argumentando que 80% apontavam “resultado normal”, disse que pacientes “imaginam” doenças e que médicos “fingem trabalhar”. Mas os deslizes no discurso não foram os maiores problemas em sua gestão no Ministério.Ministro da Saúde diz que maioria dos pacientes "imaginam" estar doente -  Jota A! - Portal O Dia

No ano passado, o deputado foi alvo de  uma ação  civil pública de improbidade administrativa ajuizada pelo Ministério Público Federal  (MPF) em razão de fatos que ocorreram quando era ministro. Conforme a investigação conduzida em 2017, houve irregularidades na compra de medicamentos para doenças raras. As fornecedoras atrasaram a entrega dos medicamentos, o que resultou na morte de catorze pacientes, segundo o MPF. De acordo com a ação, uma das empresas, a Global, ganhou um dos processos de compra emergencial em 2017 sem cumprir os requisitos exigidos, como dispor de todas as licenças, ser cadastrada pelo fabricante e dispor do medicamento em estoque. Ainda assim, de acordo com o MPF, o Ministério da Saúde levou  a compra adiante e fez um adiantamento à Global. O processo ainda não foi analisado pela Justiça. 

Na ocasião da denúncia, Barros emitiu nota em que afirmou que o MPF  escolheu “o lado errado da luta no SUS” e que “deveria acusar as empresas que mantêm monopólio de representantes para explorar o erário público”. O deputado disse que a legislação foi cumprida rigorosamente nas aquisições e que, no período em que esteve à frente do Ministério, bilhões de reais foram economizados em 22 meses. A piauí não conseguiu contato com a Global. À época, a empresa afirmou que parte dos produtos havia sido entregue e que estava negociando com o Ministério da Saúde a devolução do dinheiro referente ao montante não repassado. 

Também em 2017, em outra ação civil pública do MPF, o então ministro da Saúde foi acusado de tentar beneficiar seu reduto eleitoral. Na época, Barros anunciou uma parceria milionária por meio da qual o Ministério da Saúde transferiria ao Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), empresa pública do governo do Paraná, e à empresa suíça Octapharma a responsabilidade da produção de parte dos hemoderivados que seriam, posteriormente, adquiridos pelo próprio Ministério. A ideia era que o Tecpar passasse a gerir o processamento e a logística do plasma no Centro-Sul e Sudeste do país, além de investir 82 milhões de reais na construção de um centro em Maringá. O anúncio foi feito quando Cida Borghetti, mulher de Barros, era vice-governadora, em uma solenidade com a presença do ministro.

Na época, os hemoderivados eram produzidos exclusivamente na Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), cuja sede fica em Pernambuco. O MPF chegou a pedir que Barros fosse afastado do Ministério – o que foi negado pela Justiça. Responsável pelo caso, a procuradora Silvia Regina Pontes Lopes disse que o então ministro assumiu o compromisso público de levar o “mercado de sangue” ao Paraná, como forma de “esvaziar” as atribuições da Hemobrás e beneficiar seu estado natal. 

Barros acabou deixando o Ministério da Saúde não em razão do processo, mas para disputar as eleições de 2018. No governo Bolsonaro, o Ministério da Saúde mudou seus planos em relação aos hemoderivados, o que fez com que a ação perdesse efeito. A fábrica do Tecpar em Maringá nunca chegou a ser construída. Em julho do ano passado, o Ministério da Saúde suspendeu as parcerias, que se encontram em processo de revisão. Com a suspensão, os recursos anunciados na solenidade conduzida por Barros e Cida não chegaram a ser repassados ao Tecpar, conforme o Instituto. “A técnica manda que se tenha três fábricas, com operações com sangue. Por ativismo político, o MPF quer que tudo fique lá na Hemobrás. Não há razão técnica nem logística para isso. Vamos aguardar a nova direção da Hemobrás, que posicionamento trará, porque é importante que tenhamos mais opções de produção e processamento de plasma”, disse Barros, em áudio enviado à piauí.

No campo político, Barros tem um inimigo em comum com Bolsonaro: o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, também maringaense. Como quase todo o Centrão, o deputado é ferrenho crítico da Lava Jato. Ao longo dos últimos anos, deu uma série de declarações contra a força-tarefa – dizendo coisas como a operação “quebrou o país” – e contra seus principais personagens, como Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Nas planilhas da Odebrecht com nomes de doações feitas a políticos – o que não é ilegal – , Barros é citado. Entre os documentos apreendidos na casa de Benedicto Junior, então presidente de Infraestrutura da empreiteira, o deputado aparece como tendo recebido 100 mil reais.  Entre os 3,1 milhões de reais que recebeu em doações em 2014, não há doações da empresa. 

Segundo Barros, a planilha se referia a pedidos de doação eleitoral para a campanha de Carlos Roberto Pupin (PP), a quem o deputado apoiava na disputa à prefeitura de Maringá, nas eleições de 2012. Barros afirmou que “não era candidato e não houve nenhuma doação, nem oficial, nem extraoficial da Odebrecht ao candidato na época” e que “seu nome não apareceu em nenhum inquérito, denúncia ou delação” da Lava Jato.

 

veia política de Barros vem de família, uma oligarquia do Paraná baseada em Maringá – município de 423 mil habitantes, emancipado em 1951. Pai de Ricardo, Silvio Magalhães Barros é reverenciado como um dos “pioneiros” da cidade. Aportou na região ainda na década de 1940, para trabalhar com agrimensor. Ao longo dos anos seguintes, o forasteiro nascido em Minas Gerais foi se tornando influente politicamente, a ponto de se eleger vereador em 1960, pela União Democrática Nacional (UDN). A partir daí, a carreira de Silvio decolou. Com a ditadura militar e o bipartidarismo, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro, pelo qual foi eleito deputado estadual, federal e prefeito de Maringá. Em 1979, morreu vítima de um infarto fulminante.

Com a morte prematura do pai, coube a Ricardo assumir o papel de chefe dos Barros. Após concluir o curso de Engenharia Civil, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), aproximou-se, ao poucos, da política. Em 1988, aos 28 anos, venceu a eleição à prefeitura, pelo PFL. Em 1994, fez-se deputado federal. Seu irmão mais velho, Silvio Magalhães Barros II, entrou na política e foi eleito prefeito de Maringá em 2004. 

Barros também levou para a política sua mulher Cida Borghetti, ex-militante do PDS Jovem –  como foi rebatizada em 1980 a Arena, partido de sustentação ao regime militar. Cida Borghetti foi deputada estadual e federal. Em 2014, foi vice na chapa de Beto Richa (PSDB), que disputava a reeleição e em 2018, quando Richa deixou o governo para concorrer ao Senado, Cida assumiu o Palácio Iguaçu até o fim do mandato. Ela chegou a disputar a eleição seguinte ao governo, mas foi derrotada por Ratinho Junior (PSD). A filha caçula do casal, Maria Victoria, já está no segundo mandato como deputada estadual do Paraná. 

Ao longo das eleições de 2018, a posição de Barros beirou a neutralidade em relação à sucessão presidencial. No primeiro turno, o PP integrou a coligação que apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), mas o deputado concentrou todos seus esforços fazendo campanha pela mulher, Cida Borghetti, que disputava o governo do Paraná. No segundo turno, permaneceu em cima do muro, dizendo que o partido liberaria seus filiados para votar como quisessem.

Em uma manhã no fim de janeiro de 2019, Barros encontrou parlamentares paranaenses em um voo comercial de Curitiba a Brasília. Ao longo da “conversa de avião”, um colega da Câmara observou que Barros se mantinha distante do governo que se iniciava.“Tá quietão por quê, Ricardo?”, perguntou. Barros respondeu com uma espécie de prenúncio: “Eles vão precisar de articulação. Minha hora vai chegar”. No mês seguinte, disputou a eleição para  presidência da Câmara, mas obteve apenas quatro votos. Quem convive com o deputado diz que ele nem se abateu. Sabia que a forma como Bolsonaro vinha se relacionando com o Congresso não se sustentaria por muito tempo. Em setembro do ano passado, Barros subiu o tom em uma reunião da bancada paranaense com o titular da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, como se preparasse o terreno. 

“O presidente não pode demitir o deputado, mas o deputado pode demitir o presidente”, disse. “A palavra final é nossa. Ele é que tem que querer estar de bem conosco. Se ele não quer, está ótimo para nós”, acrescentou. Conforme percebia que a necessidade de articulação do governo com o Congresso aumentava, Barros adequava seu discurso ao bolsonarismo. Já nos primeiros meses deste ano, passou a ser a sondado pelo Planalto. Em abril, em meio à pandemia do novo coronavírus, Barros, a mulher, a filha, o genro e a neta foram diagnosticados com Covid-19. O deputado chegou a ficar internado por dois dias na Santa Casa de Maringá. Em entrevista à CNN após receber alta médica, declarou que tomou cloroquina. Um ano e sete meses depois daquela “conversa de avião”, em que previu que o governo precisaria de sua ajuda, Barros se tornava líder de Bolsonaro. “O Congresso e o Executivo têm que trabalhar juntos para atingirem seus objetivos”, disse Bolsonaro ao final da primeira reunião com o líder. Estava selada a aliança. Em se tratando de Barros, só não se sabe até quando.TRIBUNA DA INTERNET | Sob o signo da Liberdade

 

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