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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

05
Ago22

UOL Investiga T1E4: Investigações sobre Flávio conectam Jair Bolsonaro ao esquema

Talis Andrade

CHARGE – Blog do CardosinhoPreso pela PF, Pastor Everaldo batizou Bolsonaro no Rio JordãoVídeo: Pastor preso por desvios no Rio batizou Bolsonaro nas águas do rio  Jordão - ISTOÉ Independente

Pastor Everaldo e Bolsonaro, batismo no Rio Jordão

 

O escândalo das rachadinhas, nome popular para a prática criminosa do peculato, revela o passado oculto do presidente Jair Bolsonaro. Este é o tema do podcast "UOL Investiga - A Vida Secreta de Jair".

Intitulado "A Verdade Liberta", o quarto e último episódio conecta todas as histórias da família Bolsonaro e do esquema ilegal de devolução de salários nos gabinetes.

O programa traz bastidores da prisão de Fabrício Queiroz e um resumo das provas contra ele e Flávio Bolsonaro. Também revela o que se descobriu para conectar o presidente Jair Bolsonaro diretamente ao esquema.

Você pode ouvir o quarto episódio completo no arquivo mais abaixo, ler na íntegra o roteiro do programa aqui.

Em formato narrativo, o podcast apresentado pela jornalista Juliana Dal Piva, com ajuda da equipe do núcleo investigativo do UOL, foca em aspectos não revelados do envolvimento direto do presidente da República no esquema ilegal de entrega de salários de assessores na época em que ele exerceu seguidos mandatos de deputado federal (entre os anos de 1991 e 2018).

 

Jornalista fala sobre entrevista exclusiva com militar que ocultou o corpo  de Rubens Paiva - Portal IMPRENSA - Notícias, Jornalismo, Comunicação

Juliana Dal Piva, premiada jornalista

O Negócio do Jair - Juliana Dal Piva - Grupo Companhia das Letras

 

"A VIDA SECRETA DE JAIR"

EPISÓDIO 4 - A VERDADE LIBERTA

 

JAIR BOLSONARO, discurso de vitória em outubro de 2018: "Meu muito obrigado a todos no Brasil por essa oportunidade. E, se me permitem, eu quero fazer a leitura do meu discurso da vitória."

JULIANA DAL PIVA: O presidente Jair Bolsonaro costuma contar para a família e para os amigos que ele já leu a Bíblia duas vezes. E tem um trecho que ele cita sempre. É do Novo Testamento: O Evangelho de João, capítulo 8 e versículo 32.

JAIR BOLSONARO, discurso de vitória em outubro de 2018:

"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Nunca estive sozinho (...)"

JULIANA DAL PIVA: Esse trecho é tão importante para o Bolsonaro que ele citou logo no início do discurso de vitória da eleição presidencial em 2018. Naquele dia, 28 de outubro, o Bolsonaro estava em casa ao lado da atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e de vários apoiadores.

O Bolsonaro estava usando um terno cinza e uma camisa azul. Era o único mais formal. Já era quase verão no Rio de Janeiro e todo mundo em volta dele estava com camisetas brancas ou amarelas com algum slogan da campanha ou adesivos com o número do PSL, o 17, que era o do partido do presidente Bolsonaro.

 

Humor Político auf Twitter: „Um, ex - voto... por Renato Aroeira #comédia # MagnoMalta #humor #charge https://t.co/ErKdWDgOOu“ / Twitter

Logo depois do resultado, as televisões entraram ao vivo com o clima na casa de Bolsonaro. O SBT, por exemplo, mostrou até quando o presidente recém-eleito rezou de mãos dadas com a mulher e o ex-senador Magno Malta.

www.brasil247.com - Aroeira: após Bolsonaro, militares também enquadram Onyx

 

Ali estava ainda o Gustavo Bebianno, que era presidente do PSL. O deputado Hélio Lopes, grande amigo do Bolsonaro. Tinha o futuro ministro Onyx Lorenzoni e o senador Luis Carlos Heinze, que agora, durante a pandemia de covid-19, ficou conhecido por defender a cloroquina, um remédio que não tem eficácia para combater a doença. No fundo, longe das câmeras, também estava o advogado Frederick Wassef.

 

O menino de Rancho Queimado se queimou?', ironiza leitor - 02/08/2021 -  Painel do Leitor - Folha

E foi na frente de toda essa gente que o Bolsonaro citou que a verdade ia libertar.

JAIR BOLSONARO, discurso de vitória em outubro de 2018: "A verdade vai liberar esse grande país. E a liberdade vai nos transformar em uma grande nação. A verdade foi o farol que nos guiou até aqui e que vai seguir iluminando o nosso caminho."

JULIANA DAL PIVA: O Bolsonaro já tinha citado essa passagem da Bíblia várias outras vezes na campanha e no plenário da Câmara dos Deputados.

Quando o Bolsonaro menciona essa passagem sobre a verdade, o que ele quer é dizer que a visão dele é a "verdadeira". Mesmo que os fatos neguem o que ele chama de "verdade".

E pra conhecer a "verdade" primeiro é preciso encarar os fatos. Mas justamente são os fatos sobre o caso da rachadinha que expuseram um passado que o presidente e a família dele parecem querer esquecer. Ou esconder.

E, investigando essa história, fiquei pensando no que significava conhecer a "verdade" sobre os gabinetes da família Bolsonaro.

 

Eu sou Juliana Dal Piva, colunista do UOL, e nesse quarto episódio do podcast UOL Investiga: A vida secreta de Jair, vou te contar por que os promotores do Rio de Janeiro denunciaram o senador Flávio Bolsonaro.

O filho mais velho do presidente foi apontado como líder de uma organização criminosa capaz de ter desviado pelo menos 6 milhões de reais dos cofres públicos.

Para fazer essa acusação, os investigadores reuniram milhares de documentos que se tornaram provas contra o Flávio.

Mas, no meio desses papéis, apareceram também indícios que conectavam ao esquema pessoas muito próximas ao presidente Jair Bolsonaro. Assessores, parentes, suas ex-mulheres e até a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Também vou te mostrar mais gravações inéditas de familiares do presidente. Áudios que mostram uma conexão direta de Jair Bolsonaro com o esquema de devolução de salários.

 

ANDREA SIQUEIRA VALLE, em gravação: "Não é pouca coisa que eu sei, não. É muita coisa que eu posso ferrar a vida do Flávio, ferrar a vida do Jair, posso ferrar a vida da Cristina. Entendeu? Então, é por isso que eles têm medo aí e mandam eu ficar quietinha, não sei o quê, tal"

JULIANA DAL PIVA: Revelações que apontam para uma conclusão: os gabinetes da família Bolsonaro funcionavam como uma coisa só, sem divisões. E o presidente colocou os filhos na política, mas comandava cada um dos mandatos. Tudo parece um grande negócio de família. Fica comigo até o final que você vai ouvir e também vai entender.

 

JULIANA DAL PIVA: Os gritos assustaram quem passou perto do gabinete presidencial no Palácio do Planalto no fim daquela terça-feira. Era 20 de outubro de 2020.

O presidente estava aos berros naquele início de noite e quem passou perto não pode evitar de ouvir o Bolsonaro gritando que o filho mais velho, o Flávio, era perseguido pelos promotores do Rio de Janeiro.

No dia anterior, o Ministério Público do Rio de Janeiro entregou no Tribunal de Justiça do estado uma denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro.

Não se sabe ao certo como, porque o caso corre em sigilo, mas o presidente Jair Bolsonaro soube de alguns detalhes da denúncia.

Além da raiva, é difícil saber ao certo o que passou na cabeça do Bolsonaro naquele dia.

O rompante do presidente até foi notado pelos auxiliares, mas o motivo dos gritos acabou escondido do público em geral por mais duas semanas.

Depois de 820 dias no caso, o Ministério Público do Rio de Janeiro finalmente decidiu denunciar o Flávio e o amigo de longa data do presidente, Fabrício Queiroz. Além deles, mais 15 pessoas.

E os principais crimes apontados foram desvio de verba pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Soa bem pesado e é. Mas não foi uma surpresa.

A família Bolsonaro já dava como certo que o Flávio teria que enfrentar essas acusações na Justiça.

Esse destino parecia selado desde o dia 18 de junho do ano passado, quatro meses antes da denúncia.

 

TELEJORNAL: "Olá, bom dia. A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo prenderam agora há pouco Fabrício Queiroz, que foi assessor de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual do Rio."

JULIANA DAL PIVA: O Brasil acordou naquela manhã com a resposta para a pergunta que rodou o país por mais de um ano e meio.

PERGUNTA: Cadê o Queiroz?

 

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JULIANA DAL PIVA: Eram três horas da manhã quando 20 policiais do Garra, o Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos, deixaram a capital paulista. Já era o início do inverno, então fazia frio em São Paulo. O Brasil estava no meio da primeira onda de casos da pandemia de covid-19.

Os policiais saíram sem informação de quem era o alvo da operação. Uma hora depois eles chegaram em Campinas e aí sim receberam instruções de alguns promotores. Só os promotores é que sabiam o nome do alvo da operação num endereço da cidade de Atibaia, no interior de São Paulo.

Mais uma hora passou e todo o grupo chegou ao local. Às seis horas da manhã, policiais e promotores estavam na frente de uma casa numa chácara que fica no número 644, na rua das Figueiras, bairro Jardim dos Pinheiros.

Na frente do endereço tinha uma placa que identificava o lugar como o escritório do Frederick Wassef, o advogado da família Bolsonaro. Por isso, representantes da OAB também acompanharam tudo.

Os policiais, então, tocaram a campainha algumas vezes. E nada. Como ninguém apareceu, eles decidiram entrar. Cortaram uma corrente no portão e depois forçaram a porta da frente da casa.

Quando entraram no imóvel, os agentes encontraram um homem assustado e ainda deitado na cama. Era o Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro. Quem me contou esses detalhes foi o promotor paulista José Cláudio Báglio, que comandou a operação de prisão do Queiroz em Atibaia.

 

JOSÉ BÁGLIO, em entrevista a Juliana Dal Piva: Ele estava deitado, ainda, no interior de uma casa. Uma casa confortável, mas antiga, de chácara mesmo, típica da região ali. Parecia que algumas coisas estavam meio improvisadas ali, alguns colchões lançados em outros cômodos, etc.

JULIANA DAL PIVA: Quando vocês chegaram e entraram, viram ele deitado, como é que ele reagiu?

JOSÉ BÁGLIO: Ele se mostrou bastante surpreso, não acreditando no que estava acontecendo. Num primeiro momento, ele não queria dizer nada, mas depois ele confirmou que era efetivamente ele. Mesmo porque a gente estava com a identificação positiva de que ele estaria no local e o próprio caseiro disse que não sabia quem era. Se eu não me engano, o caseiro disse que conheceu ele por outro nome. Foram realizadas as buscas. Os documentos e objetos que eram de interesse da investigação foram apreendidos conforme a ordem judicial.

(...)

Anjo" Wassef vira 'homem bomba' no laranjal - O CORRESPONDENTE

 

JULIANA DAL PIVA: A ação policial foi chamada de "Operação Anjo", em uma referência a como Queiroz e a família dele chamavam o advogado Frederick Wassef. Falei para você sobre isso no episódio anterior. Lá em Bangu, o Queiroz ficou numa cela do lado do Sergio Cabral, que era o governador do Rio de Janeiro, você deve lembrar.

Anjo" Wassef vira 'homem bomba' no laranjal - Vermelho

Enquanto o Queiroz descobria a cadeia, as equipes do Ministério Público e da polícia ainda procuravam a mulher dele, a Márcia Aguiar. Ela também teve a prisão decretada, mas ninguém achou a Márcia. A mulher do Queiroz fugiu dos investigadores e ficou foragida da Justiça por 40 dias.

Já tinha meses que a Márcia tinha medo de ser presa. Lembra?

(...)

 

E, naquele dia da prisão do Queiroz, eu falei com o advogado Paulo Emílio Catta Preta sobre a entrada dele no caso.

JULIANA DAL PIVA: Quando o senhor começou a atuar na defesa do Queiroz?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Olha, rigorosamente, primeiro ato mesmo, a partir de hoje. Mas eu já estou sendo procurado pela família há alguns dias, cerca de uns 15 dias, no sentido de eu advogar para ele, defendê-lo nessa questão da Alerj. Ele estava sem advogado porque o defensor tinha renunciado já há algum tempo. Eles me perguntaram se eu podia advogar, falei que sim, pedi para estudar os autos e, enfim, prosseguimos.

 

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JULIANA DAL PIVA: O senhor atendia o ex-capitão do Bope Adriano Nóbrega. O senhor está dizendo que foi procurado pela família do Queiroz, o senhor acha que também teria alguma relação?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Não fui informado sobre isso, mas posso supor que, por eles terem visto a minha atuação no caso do Adriano, eles eram amigos, talvez isso tenha sido um dos motivos de eles terem me procurado. Mas não me foi dito isso.

 

JULIANA DAL PIVA: O senhor foi procurado por quem especificamente da família?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: ui procurado pelas filhas inicialmente, depois falei com ele ao telefone. Não estive com ele ainda não, até porque achava que tinha tempo para estudar o processo e, enfim, acho que a medida (prisão) de hoje abrevia o meu tempo.

 

JULIANA DAL PIVA: O senhor foi procurado em Brasília?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Em Brasília.

 

JULIANA DAL PIVA: Pessoalmente, por telefone?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Por telefone.

 

JULIANA DAL PIVA: Entendi. or tinha conhecimento de que ele estava no imóvel do Wassef?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Não, não tinha conhecimento.

 

JULIANA DAL PIVA: Quando as filhas procuraram, elas não disseram isso pro senhor?

PAULO EMÍLIO CATTA PRETA: Não, elas não falaram onde ele estava e eu também não perguntei. Foi uma conversa inicial de tentar procurar um advogado, basicamente contar o caso e dizer o que é que tem e vai querer essa defesa. Não cheguei a perguntar isso [onde ele estava] e eles [família] também não me falaram.

 

JULIANA DAL PIVA: Esse é um trecho de uma entrevista que o advogado Paulo Emílio Catta Preta me deu naquele dia. A íntegra foi publicada na revista Época.

Antes de continuar, tem uma coisa importante que eu preciso te contar. Quatro meses antes do Queiroz ser preso, o Adriano morreu numa operação policial na Bahia.

O Adriano era foragido da Justiça fazia um ano. A polícia diz que ele reagiu e houve um confronto. Já a família do Adriano diz que ele foi executado.

Mas essa é uma história longa, cheia de polêmicas que rende sozinha um episódio inteiro. Vai ter que ficar pra outro dia.

O que interessava naquele 18 de junho de 2020 era a prisão de Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro.

Todo mundo procurou o Wassef por uma explicação. Afinal de contas, fazia meses que ele dizia que não sabia onde o Queiroz estava. Aí o Queiroz foi preso e o Wassef mudou a versão. O advogado passou a dizer que emprestou a casa para o Queiroz ficar durante os tratamentos de saúde que ele fazia em São Paulo. O Wassef inclusive repetiu isso em uma entrevista para minha coluna no UOL este ano.

 

JULIANA DAL PIVA: O senhor nunca se encontrou com nenhum desses assessores que é investigado, além do Queiroz?

FREDERICK WASSEF: Quem te disse? Eu falei que eu me encontrei com o Queiroz? Nunca falei isso. Você nunca ouviu falar que eu me encontrei com o Queiroz, isso é mentira. Nunca disse a ninguém que me encontrei com o Queiroz.

 

JULIANA DAL PIVA: O Queiroz esteve na sua casa, como o senhor bem sabe, ele foi preso em Atibaia.

FREDERICK WASSEF: Eu falei? Você acabou de fazer uma afirmação que eu não disse.

 

JULIANA DAL PIVA: Eu estou corrigindo, é uma pergunta, o senhor pode responder e dizer: o senhor nunca esteve com o Queiroz.

FREDERICK WASSEF: Olha o que eu vou falar sobre o Queiroz, preste bem atenção. Fui vítima de fake news. Jamais escondi Queiroz. Jamais Queiroz esteve escondido, procurado ou foragido. Queiroz não era indiciado. Não era denunciado. Não era réu em ação penal. Não era nada. Era apenas um averiguado, assim como Flávio e outras 40 pessoas. A senhora deveria saber Juliana que jamais existiu uma determinação judicial que impedisse Queiroz de viajar, ir, vir ou que ele tivesse que declarar ao juízo "senhor juiz vou sair hoje, vou passar uma semana em São Paulo pelos motivos tais e retorno na data tal". Nunca teve nada disso. Portanto, jamais houve qualquer ilegalidade no Queiroz viajar. Então vou fazer um breve resumo da história Queiroz para combater a fake news. O Queiroz morava no Rio, em endereço declinado à Justiça, e era lá que ele morava e sempre esteve. Jamais morou comigo e muito menos se escondeu comigo. São mentiras criminosas e fake news. Vou dar duas informações importantes para a senhora. Onde estava Queiroz antes de ele ser preso em Atibaia? Por que falaram que ele morava em Atibaia há um ano? Mentira. Ele estava no Rio de Janeiro. O Queiroz chegou em Atibaia e foi preso apenas três dias após a sua chegada. Ele foi preso no quarto dia. Onde o Queiroz estava antes? Na residência dele, no Rio de Janeiro, no endereço fornecido nos autos do processo. Quanto tempo ele esteve lá? Dois meses. E antes disso? Sim, ele esteve em Atibaia, 10, 12 dias. Não sei, porque não estava lá. Não vi. Não falei com ele. Mas e antes? Rio de Janeiro. Então vou resumir para a senhora: o Queiroz viajava. Morava no Rio e fazia viagens. Ficava a maior parte do tempo no Rio. Aí vinha a Atibaia, fazia seu tratamento de saúde, passava uns dias e voltava. Ele apenas viajava e transitava. Permitir o uso de uma propriedade, para que uma pessoa em tratamento de câncer, pudesse ter um abrigo, não é irregular, imoral ou crime. Não é nada.

 

JULIANA DAL PIVA: O Wassef não gosta de falar desse assunto. Até porque é no mínimo difícil de imaginar que ele emprestasse a casa e não falasse com o Queiroz. Eu até já te mostrei uma mensagem do Queiroz falando de uma conversa com o "Anjo".

FABRÍCIO QUEIROZ, em áudio de outubro de 2019: "O 'Anjo' também a primeira coisa que o 'Anjo' chegou pra mim e falou na minha cara foi: você foi traído, você foi traído ontem à noite!"

(...)

 

ITALO NOGUEIRA, entrevista com Jair Bolsonaro em janeiro de 2018: "Então vamos falar do seu patrimônio. O senhor estava criticando o fato de a Folha ter divulgado o valor do patrimônio do senhor, da sua família."

JAIR BOLSONARO: "Peraí? Você tem que divulgar é o meu patrimônio. Daqui a pouco você vai querer pegar a minha mãe. Meus pais, meu pai já morreu. Meus irmãos. Tem que pegar o meu, esquece meus filhos (...)"

JAIR BOLSONARO: "Você tá enchendo o saco, porra. Tá procurando cabelo em ovo."

JULIANA DAL PIVA: Nessa ocasião, a Camila Mattoso perguntou por que ele recebia auxílio-moradia se tinha um apartamento em Brasília e o Bolsonaro respondeu na maior grosseria.

CAMILA MATTOSO, entrevista com Jair Bolsonaro em janeiro de 2018: "E o senhor utilizou em algum momento, deputado, o dinheiro do auxílio-moradia para esse primeiro apartamento?"

JAIR BOLSONARO: "Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava para comer gente. Você está satisfeita agora? É a resposta que você merece. O dinheiro do auxílio-moradia eu dormi em hotel, eu dormi em casa de colegas meus militares. O dinheiro foi gasto em alguma coisa. Você quer que eu preste a continha? Recebi 3 mil, eu gastei 2 mil de hotel, vou devolver mil. Tem cabimento?"

 

Partido dos Trabalhadores RJ - BOLSONARO: “ESSE DINHEIRO DE AUXÍLIO MORADIA  EU USAVA PRA COMER GENTE, TÁ SATISFEITA AGORA OU NÃO?” O pré-candidato à  Presidência da República Jair Bolsonaro (PSC-RJ) afirmou em

 

ITALO NOGUEIRA: "Diversos colegas seus fazem isso".

JULIANA DAL PIVA: Nessa entrevista, o presidente Jair Bolsonaro também falou uma coisa que me fez pensar sobre como ele e os filhos atuavam juntos.

JAIR BOLSONARO, entrevista janeiro de 2018: "Não há diferença, muitas vezes um funcionário que trabalha para mim, trabalha para os dois também."

JULIANA DAL PIVA: Nesse dia, o comentário do Bolsonaro não chamou a atenção necessária sobre o que realmente significava não ter diferença trabalhar para ele ou para os filhos. Não parecia nada demais que eles compartilhassem algum serviço entre os assessores.

Só que com o tempo e a investigação sobre a rachadinha, isso foi se mostrando um modus operandi. A filha do Queiroz, por exemplo. A Nathália.

NATHÁLIA QUEIROZ, em áudio: "Meu pai é muito burro, cara. Muito burro. O que é que ele tem que ficar falando essas coisas? Ele não aprendeu com esse monte de merda que aconteceu? Vai e ainda fica falando mais de política, gente, que prazer é esse que ele tem?"

JULIANA DAL PIVA: Ela sempre foi personal trainer. Mas passou um tempo nomeada no gabinete do Flávio e depois virou funcionária do Bolsonaro. Se ela trabalhasse normalmente como assessora parlamentar, isso não importava. A questão é que as provas mostraram que ela sempre foi personal. Era, portanto, funcionária fantasma na Alerj e na Câmara dos Deputados.

Então, desde 2018, a situação dos funcionários dos Bolsonaro deixava dúvidas. E o patrimônio da família do agora presidente também.

Só que faz pouco tempo que a gente sabe em detalhes as suspeitas em algumas dessas negociações de imóveis. E o Bolsonaro já tinha sido eleito presidente da República quando os problemas vieram à tona.

O fato inegável antes da eleição de 2018 era que o Bolsonaro e os três filhos construíram quase todo aquele patrimônio depois de entrar para a política.

A primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro disputou uma eleição foi em 1988. Ele concorreu a vereador no Rio de Janeiro e disse para a Justiça Eleitoral que tudo o que ele tinha era um Fiat Panorama, uma moto e dois terrenos em Resende, no sul do estado.

Já o Flávio e o Carlos foram eleitos pela primeira vez no início dos anos 2000. Ainda eram estudantes universitários e nunca tiveram outro emprego fora da política.

Décadas passaram. Hoje o Flávio é senador e teve antes quatro mandatos de deputado estadual.

FLÁVIO BOLSONARO, em discurso no Senado em junho de 2021: "É fácil depor quando você está com a verdade do lado, então eu senti isso do general Pazuello, muita tranquilidade."

TRIBUNA DA INTERNET

JULIANA DAL PIVA: O Carlos já está no sexto mandato de vereador.

CARLOS BOLSONARO, em discurso na Câmara de Vereadores em 2012: "Não trata-se aqui de sermos héteros ou homossexuais, trata-se de caráter."

Você é realmente tão ingênuo e ignorante?”, pergunta cônsul da China a Eduardo  Bolsonaro | bloglimpinhoecheiroso

JULIANA DAL PIVA: O Eduardo foi para o segundo mandato de deputado federal. Ele se tornou deputado em 2015. Antes, foi policial federal concursado por quatro anos.

EDUARDO BOLSONARO, em uma aula em 2018: "Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe, manda um cabo e um soldado."

Indo fechar o STF — Indo fechar o STF — Alô Notícias - Com Lucio Jaques —  Notícias políticas em Santa Catarina

JULIANA DAL PIVA: Essa carreira de políticos profissionais da família Bolsonaro rendeu. Todos eles enriqueceram na política. Esse também é outro fato.

O Bolsonaro só não tem um patrimônio maior porque na separação da Cristina ela ficou com dois terços do total, mais de 2 milhões de reais na época. É aquela segunda mulher dele de quem eu te falei no segundo episódio.

O patrimônio de Bolsonaro hoje é um apartamento em Brasília, duas casas num condomínio na Barra da Tijuca, uma casa onde funciona um escritório político dele em Bento Ribeiro, na zona norte do Rio, e a casa de praia em Angra dos Reis. Aquela onde ele fazia um tour mostrando as armas pros convidados. Tudo isso, mais umas ações e uns carros, soma, segundo o Bolsonaro, uns 2,2 milhões de reais.

Mas é o tamanho do empreendedorismo do Flávio que causou mais surpresa. Lá em 2003, tudo que o estudante de Direito Flávio Bolsonaro tinha era um carro. Um Gol 1.0.

Hoje, o Flávio é dono de uma mansão de 6 milhões de reais em Brasília. E, desde 2005, ele negociou 20 imóveis. Também montou uma loja de chocolates, em 2015. E é justamente essa ascensão financeira do Flávio o coração da investigação do Ministério Público sobre a rachadinha.

FLÁVIO BOLSONARO, em entrevista para a TV Record em janeiro de 2019: "Eu explico mais uma vez. Eu sou empresário, o que eu ganho na minha empresa é muito mais do que ganho como deputado estadual. Eu não vivo só do meu salário de deputado."

JULIANA DAL PIVA: Esse é o Flávio, em janeiro de 2019, tentando explicar por que tinha feito 48 depósitos de 2 mil ao longo de alguns dias.

Imagina essa cena. O Flávio, um deputado estadual, sozinho na frente de um caixa eletrônico, depositando um envelope de 2 mil. Depois outro, mais um e assim por diante. Eu nunca nem vi 96 mil reais em dinheiro vivo. Você não acha mais simples ir direto no caixa fazer esse depósito todo de uma vez? [Transcrevi trecho inicial. Leia mais aqui]

03
Jun22

Coronel Anderson Berenguer foge para não explicar por que o Exército compra Viagra do laboratório que inundou o país de cloroquina

Talis Andrade

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"Ao deixar deputados à espera de suas explicações, é possível que Anderson Berenguer tenha avaliado que deveria proteger a própria pele"

 

CPI da Covid não ousou ouvir o depoimento do misterioso e enigmático coronel Anderson Berenguer (o militar sem rosto) que parece dirigir um laboratório secreto

por Denise Assis

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O coronel Anderson Berenguer, diretor do laboratório químico farmacêutico do Exército, não apresentou motivo para negar o convite feito pela Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, conforme informa a Folha. Mas ao fazer forfait e deixar os deputados à espera de suas explicações, é possível que tenha avaliado que deveria proteger a própria pele. Ou a própria “imagem”, se preferirem.

 Chamado a participar de audiência pública ontem (01/06), o coronel fugiu de ter que debater parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDPs) em curso nos laboratórios públicos do país. Uma dessas PDPs, segundo alega o Exército, é a da transferência de tecnologia para a produção do citrato de sildenafila, (nome científico do Viagra), que incluiu a compra de milhões de comprimidos entre 2019 e 2022. Em carta aos deputados da comissão, Berenguer diz que declinou do "digno convite", e sugere que a Associação dos Laboratórios Oficiais do Brasil seja chamada a falar.  

Jorge Solla, deputado federal do PT-BA, disse ao jornal que "Eles - Forças Armadas – contrataram a aquisição do Viagra como sendo de PDP, com o laboratório EMS. Com isso, fizeram uma compra de Viagra sem licitação. “Nossa suspeita, com evidências fortes, é a de que foi uma forma de burlar a licitação e escolher um laboratório específico", afirma o parlamentar. Bingo!

Conforme apurou a Comissão, como não existe patente do Viagra no Brasil e o sistema de PDP permite que você não precise fazer licitação, já há quatro anos o Exército adotou a prerrogativa de indicar uma empresa detentora da tecnologia, capaz de transferir suas especificidades a um laboratório público do Brasil. Durante esses quatro anos, segundo o deputado, a Força adota esse expediente sem, contudo, se beneficiar da transferência de tecnologia. Uma forma de burlar a licitação, apenas.

Embora a sociedade ignore se há uma “epidemia de impotência” nas fileiras e o Exército alegue que a compra foi para uso no combate à “hipertensão pulmonar” (doença que costuma acometer mais mulheres, e cuja posologia não é a mesma do Viagra, pois no caso da hipertensão é de apenas 20mg, quando a do Viagra é de 25mg), o contrato segue nesses moldes.

Aí começam as coincidências. Prestaram a atenção ao nome do laboratório que fornece o “estimulante” para as fileiras? Não?! Pois foi o EMS, reconhecidamente o “rei dos genéricos”.  

 O EMS, maior indústria farmacêutica do Brasil, foi o primeiro laboratório a obter licença da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para produzir a versão genérica do Viagra, no país, em 2014, ano em que expirava a validade da patente do medicamento (fonte: portal Guiame.com). Àquela altura, - 21/06/2014 -, Waldir Eschberger Júnior, o vice-presidente de mercado da EMS, publicou nota, avisando que aguardava apenas isto para disponibilizar o remédio no mercado brasileiro, a expiração da patente.  

 Tinham diante de si um mercado para lá de promissor, anunciavam, para “um dos medicamentos mais vendidos no país, que movimentou cerca de R$ 170 milhões no ano passado (2013 – grifo nosso). Em âmbito global, esta quantia chegou a US$ 1,9 bilhão.” E avisava: “Queremos ser o primeiro a chegar às farmácias, pois, quem sai na frente, sempre acaba liderando as vendas”, dando mostras do seu “tino” comercial.

E não foi diferente com a Cloroquina, amplamente debatida durante a pandemia, quando foi apresentada por Bolsonaro, filhos e membros do seu governo, como a “saída milagrosa” para as milhares de mortes por Covid-19, em um mercado potencial de R$ 9,7 milhões por mês no Brasil. Bolsonaro queria que a população esquecesse as vacinas e acatasse a sua empulhação negacionista. Fazia corpo mole para a aquisição das vacinas comprovadas cientificamente como eficazes e que não chegavam ao Brasil devido às “negociatas” flagradas pela CPI da Covid.

O que se sabe é que o Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx) aumentou em 80 vezes a produção do remédio desde março de 2020, e laboratórios privados prometiam em julho daquele ano ampliar a fabricação. Embora especialistas em saúde pública temessem efeitos colaterais da cloroquina, no uso contra o coronavírus, o embate em torno do medicamento, com contornos técnicos e políticos, movimentou o mercado farmacêutico brasileiro. Diante de tamanha perspectiva, os laboratórios privados ampliaram a fabricação, para distribuição em hospitais e postos de saúde públicos.  

 

 

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Dito & Feito - AUXÍLIO EMERGENCIAL – Linha “dura” das Forças Armadas manda  comprar Viagra 

O aumento da produção do foi determinado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, defensor enfático da cloroquina. Por que será?

Cloroquina foi assunto dos mais discutidos na PCI da Covid  

 

Antes da pandemia, a média produzida era de 250 mil comprimidos a cada dois anos, quase todos para combater malária e doenças reumatoides, como lúpus. No auge da pandemia foram 2 milhões de pílulas em três meses (março, abril e maio), com prioridade para a covid-19.  A produção ganhou tal ritmo que precisou ser interrompida por falta de insumo - encomendado da Índia -, mas foi retomada em junho de 2020, numa quantia não divulgada pelas Forças Armadas, o que gerou investigação.  

O Ministério Público de Contas (MPC) solicitou ao Tribunal de Contas da União auditoria sobre possível superfaturamento nas compras de insumos de cloroquina feitas pelo Exército, sem licitação, e mandou checar também o porquê da ampliação na oferta de um medicamento que ainda não tinha comprovação científica para tratar a covid-19.

O subprocurador-geral do MPC, Lucas Rocha Furtado, investigou se procediam informes de possível superfaturamento. Afinal, o preço do quilo do sal difosfato (matéria-prima produzida na Índia) comprado pelo Exército, na época, havia saltado de R$ 219 para R$ 1,3 mil entre maio de 2019 e maio de 2020.  

Como a produção, não atendesse à enorme demanda provocada pela propaganda do presidente, a produção do laboratório militar, localizado no Rio de Janeiro e criado em 1808 (com o nome de Botica Real Militar), não tinha mãos a medir quanto à enorme demanda criada por ele e pelo medo da maior ameaça sanitária já enfrentada pelo Brasil. O país, àquela quadra estava com mais de 1,7 milhão de infectados pelo coronavírus e grande parcela permanecia hospitalizada em estado grave. As Forças Armadas não produziam todo o medicamento, mas apenas o difosato de cloroquina (fabricado desde 1940) e não dominavam a forma mais moderna e com menos efeitos colaterais, o sulfato de hidroxicloroquina, segundo alegavam para a compra, pelo governo, nos laboratórios privados.

Foi aí que entraram os laboratórios privados, prometendo medicamento de última geração, em troca da perspectiva de um mercado de R$ 9,7 milhões mensais. Uma fatia mercadológica a ser disputada. Somente três indústrias particulares estão autorizadas a comercializar a hidroxicloroquina no Brasil: a multinacional Sanofi, e as brasileiras EMS e Apsen. A da Sanofi é importada da Europa. Essa empresa, inclusive, decidiu interromper as vendas no Brasil, em meio à polêmica sobre efeitos adversos em pacientes com covid-19.  

Uma quarta empresa, a brasileira Cristália, se ofereceu para também produzir. Essas indústrias farmacêuticas informaram à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que reuniam condições de produzir 7,2 milhões de comprimidos por mês.  

Um deles, o laboratório EMS - Chamado de "rei dos genéricos". O EMS produz uma hidroxicloroquina genérica, semelhante ao Plaquinol, da francesa Sanofi-Aventis (que tem como acionista o presidente norte-americano Donald Trump). O dono do EMS e de outro laboratório apto a produzir cloroquina, o Germed, é Carlos Sanchez, chegaram a participar de duas reuniões de industriais com Jair Bolsonaro, nas quais o presidente prometeu pressionar a Índia pela venda de produtos necessários à fabricação do medicamento. Sanchez foi um dos que pediram e conseguiram que o imposto de importação dos insumos da cloroquina fosse zerado. Ele também obteve aprovação da Anvisa para estudos clínicos apoiados pela empresa EMS para uso de hidroxicloraquina em pacientes com coronavírus, (de acordo com informações da GZH).

Por toda esta interligação entre uma situação e outra, o coronel Berenger deve ter avaliado com os botões da sua farda se valia a pena amarrotá-la durante horas de depoimento a deputados ávidos a espremê-lo, sobre tema espinhoso e cujas explicações ele talvez não detenha todas. Por fim, concluiu: melhor escapar desses congressistas cheios de tesão para arrancar dele a história da contratação de lotes de Viagra.  

Charge - Angelo Rigon

 
 
 
 
24
Mai22

Juiz anula nota do governo que recomendava cloroquina contra Covid-19

Talis Andrade

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INEFICÁCIA E EFEITOS ADVERSOS

Kit Cloroquina

kit me engana

 

Por José Higídio

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Devido à ausência de certeza científica formal e ao risco de dano sério ou irreversível à saúde pública, a 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro anulou uma nota informativa do Ministério da Saúde — e suas notas substitutivas — que recomendava o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

O documento foi publicado em maio de 2020, poucos meses após o início da crise sanitária, quando o Brasil tinha ainda 300 mil casos e 20 mil mortes pela doença. A ideia era orientar o uso de medicamentos no SUS para tratamento precoce dos pacientes com sintomas de Covid-19.

A nota foi substituída duas vezes nos meses seguintes, mas sem alterar substancialmente a original, e mantendo a recomendação de uso da cloroquina e hidroxicloroquina. 

A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade acionou a Justiça contra a União, argumentando que o protocolo contrariou inúmeros estudos científicos e pareceres de entidades médicas quanto à prescrição de tais medicamentos.

O juiz Mário Victor Braga de Souza observou que 18 das 32 referências bibliográficas da própria nota apontavam inexistência de evidências, indicavam uso apenas em casos graves, não mencionavam os fármacos, pontuavam a necessidade de mais estudos ou até demonstravam efeitos adversos graves. Além disso, o próprio ministério afirmava que ainda não havia ensaios que comprovassem o "beneficio inequívoco" dos remédios no tratamento da Covid-19.

"É patente a incerteza quanto ao custo-benefício do uso dos medicamentos cloroquina e hidroxicloroquina", ressaltou o magistrado. "O uso da terapia em questão pode causar um prejuízo evitável, desnecessário ou desproporcional ao provocado pela própria enfermidade que se pretende tratar".

Mário lembrou de vários estudos que apontavam a ineficácia e os efeitos adversos de tal tratamento e listou entidades internacionais e nacionais que não recomendaram o uso dos medicamentos, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e suas equivalentes norte-americana (FDA) e europeia (EMA).

Para o juiz, a manutenção da nota informativa ainda promoveria o direcionamento de verbas e o estímulo à adoção do tratamento "sem eficácia e segurança comprovadas", "sem observância às particularidades do paciente" e "sem o devido acompanhamento de possíveis efeitos adversos".

Clique aqui para ler a decisão
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29
Jan22

O governo Bolsonaro em 22 frases

Talis Andrade

Cercada de polêmica, a gestão bolsonarista ficou marcada por declarações controversas

O Brasil volta às urnas em 2022 para uma nova eleição presidencial. O presidente Jair Bolsonaro tenta a reeleição, desta vez sob a sigla do Partido Liberal (PL) e em meio a grandes índices de rejeição. A mais recente pesquisa do Datafolha, com 3.666 brasileiros maiores de 16 anos ouvidos entre 13 e 16 de dezembro do ano passado, mostrou que 60% dos eleitores não votariam no atual mandatário. Em outubro, uma mudança nas urnas: sai o 17 do PSL com o qual foi eleito em 2018, entra o 22 da nova sigla, que já elegeu José Alencar como vice de Lula em 2002.

A crise econômica e a condução da pandemia do coronavírus pesam no cenário pessimista no qual transita Bolsonaro, cercado de uma equipe que acumula polêmicas desde a posse. Relembre algumas frases marcantes que ajudam a ilustrar a trajetória do atual governo.

Covid-19

Gripezinha

Dias após as primeiras medidas de restrição contra a Covid-19 terem sido adotadas isoladamente por governadores e prefeitos, o presidente Jair Bolsonaro entrou em rede nacional para criticar a postura dos gestores e pedir volta à normalidade. No mesmo dia, o Comitê Olímpico Internacional (COI) comunicava o adiamento das Olimpíadas de Tóquio,  enquanto a Itália, um dos países mais afetados pela pandemia nos primeiros meses, voltava a acumular mais de 700 mortes diárias.

Em horário nobre, o presidente proferiu palavras interpretadas como um tira-gosto do que seriam suas políticas contra a crise:

Foto: Marcelo Camargo/ABr.

 

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão. Enquanto estou falando, o mundo busca um tratamento para a doença. O FDA americano e o Hospital Albert Einstein, em SP, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento do Covid-19.”

Bolsonaro, em rede nacional de televisão.

Embora a tendência é que tenham organismo mais forte, atletas e ex-atletas não são imunes nem estão livres de sofrer consequências da infecção pelo coronavírus, vêm alertando especialistas ao longo da pandemia. O ex-jogador da seleção brasileira de futebol do tetra Claudio Ibraim, conhecido como Branco, foi intubado na UTI com Covid-19 e ficou 12 dias internado. No último dia 24, o ginasta campeão olímpico em Sydney, nos anos 2000, Szilveszter Csollány, morreu vítima da doença.

A cloroquina, desde o início incorporada pela ala política do presidente como a única saída possível da pandemia, já teve sua ineficácia comprovada. O próprio Ministério da Saúde reconheceu a impotência do medicamento para tratar do vírus Sars-Cov-2, embora a ala política da pasta continue insistindo no uso.

Não sou coveiro

A primeira morte pelo coronavírus no Brasil foi comunicada no dia 17 de março, pelo governo de São Paulo. O homem estava internado em um hospital da rede Prevent Senior – mais tarde investigada pela CPI do Senado sob suspeita de ter usado pacientes como cobaias do chamado “tratamento precoce”, com drogas como a hidroxicloroquina e ivermectina, de ineficácia comprovada contra o coronavírus.  

Um mês depois, os casos já haviam fugido do controle – e os óbitos, consequentemente, entravam na curva de ascendência vertiginosa. Estados e municípios começavam a retomar atividades, sem planejamento coordenado pelo governo federal.

Na saída do Palácio do Planalto, Bolsonaro se irritou com a pergunta de um repórter sobre as mais de 300 mortes registrada naquele 20 de abril de 2020.

Foto: José Cruz/Agência Brasil.

Ô, cara, quem fala de… Eu não sou coveiro, tá certo?”

Bolsonaro, em resposta a pergunta de um repórter sobre as 300 mortes registradas em 20 de abril de 2020.

Um dia antes, Bolsonaro havia participado de um ato pró- intervenção militar, que provocou grande aglomeração nos arredores do Quartel-General do Exército.

E daí?

Em 28 de abril de 2020, o Brasil rompe a barreira dos 5 mil mortos. La fora, começava a ser acompanhado com mais atenção por autoridades sanitárias e chefes de Estado. Aliado de primeiro grau de Bolsonaro, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falou: “Se você olhar os dados, vai ver o que aconteceu, infelizmente, no Brasil”.

Aqui, respondendo à pergunta de um repórter sobre a nova marca de óbitos, o presidente não fingiu sutilezas.

Antônio Cruz/Agência Brasil.

E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.”

Bolsonaro, em resposta a uma pergunta sobre a marca dos 5 mil óbitos.

País de maricas

Durante o lançamento de um programa de turismo, em Brasília, o presidente disse que estava na hora do Brasil “deixar de ser um país de maricas”.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Temos que enfrentar de peito aberto, lutar. Que geração é essa nossa? […] Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento, mas todos nós vamos morrer um dia.”

Bolsonaro, em 11 de novembro de 2020. No dia, o país chegava a 162,6 mil mortes provocadas pelo coronavírus e caminhava para os meses mais letais da crise.

Mimimi

Quem parecia longe de enfrentar seus problemas era, na verdade, o próprio governo.

O Brasil passava por sua pior fase da pandemia, sem uma política integrada contra o coronavírus, com os pagamentos do auxílio-emergencial suspensos em meio ao crescimento vertiginoso da pobreza, e sem artifícios – e licença – para lidar com tanto luto.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Vocês não ficaram em casa. Não se acovardaram. Temos que enfrentar os nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”

Bolsonaro, em um evento no estado de Goiás, em 4 de março de 2021.

Dois meses antes, em meados de janeiro de 2021, Manaus havia agonizado. A crise provocada pelo colapso do sistema de saúde da capital do Amazonas se converteu no tratado do desespero. Conseguir leito não diminuía as chances de morrer: o oxigênio hospitalar havia se esgotado; cabia aos familiares, se quisessem e pudessem, dar um jeito de abastecer cilindros por conta própria. A média de mortes saltou de 20 para mais de 100 em poucos dias. Há provas de que o Ministério da Saúde havia sido comunicado da iminência do caos, e pouco fez. As fotos das filas de carros funerários e dos corpos empilhados em valas comuns – ali também faltou “vagas” – estamparam capas de jornais nacionais e internacionais. Em abril, o Brasil atingiria o pico de mortes diárias, acima de 4 mil.

Clise mundial

O Brasil conseguiu tornar a pandemia um problema também de ordem diplomática. A China foi o grande alvo, por ter sido onde primeiro foi detectada a circulação do Sars-Cov-2.

Não foi preciso muito para que o governo demonstrasse simpatia extrema à hipótese de que o vírus foi criado em um laboratório do país asiático, comprando o discurso do então presidente Donald Trump, um dos maiores influenciadores da política de Bolsonaro e oponente furioso de Xi Jinping.

À época à frente do Ministério da Educação, Abrahan Weintraub usou um recurso pejorativo para endossar a tese interna do governo.

Foto: Agência Brasil.

Geopolíticamente, quem pode sail foltalecido, em telmos lelativos, dessa clise mundial? Podelia ser o Cebolinha? Quem são os aliados no Blasil do plano infalível do Cebolinha pala dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”

Abrahan Weintraub, ex-ministro da Educação empostnoTwitter.

A publicação incorporou o detalhe fonético usualmente associado à fala dos chineses a uma ilustração da Turma da Mônica na muralha da China – nos quadrinhos, o personagem Cebolinha também troca o “erre” pelo “ele”.

Opostfoi apagado, mas se acumulou a várias falas acusatórias do governo contra os chineses – incluindo do presidente, de um dos filho dele, Eduardo Bolsonaro, e do ministro da Economia, Paulo Guedes. Os comportamentos geraram uma série de consequências para o Brasil e chegou a influenciar na liberação de insumos para a fabricação da vacina contra a Covid no país.  

Um relatório feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cujos resultados foram publicados em março de 2021, não conseguiu concluir a origem do vírus, mas ressalva que a principal hipótese é que a circulação tenha se originado do contágio direto de animal para humano.

Liberdade

Há fatos suficientes para corroborar que o governo de Jair Bolsonaro nunca considerou a vacinação contra a Covid-19 uma política sanitária relevante. O próprio presidente afirma não ter se imunizado, e a decisão de sua equipe de recusar doses de vacina Pfizer suficientes para antecipar a campanha de imunização contra a Covid-19 no Brasil entrou em curso de investigação.

Em diferentes países, a chegada do fim do ano e uma nova variante com maior potencial de contágio, a Ômicron, levou governantes a exigirem o comprovante de vacinação na entrada dos aeroportos e no acesso a locais de uso público, como cinemas e restaurantes. O Brasil resistiu.

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.

Nós queremos ser, sim, o paraíso do turismo mundial. E vamos controlar a saúde, fazer com que a nossa economia volte a gerar emprego e renda. Essa questão da vacinação, como realcei, tem dado certo porque nós respeitamos as liberdades individuais. O presidente falou agora há pouco: ‘às vezes é melhor perder a vida que a liberdade’.”

Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em 7 de dezembro.

A fala foi na esteira da recomendação da Anvisa para que o Brasil também adotasse a medida. Só no fim de dezembro é que uma portaria interministerial implementou a prática por aqui.

Meio ambiente e economia

Passar a boiada

Problemas internos aceleraram a sequência de crises políticas enfrentadas pelo governo Bolsonaro em 2020, já então impactado pela pandemia. Em uma reunião que entrou para a história, veio a declaração mais marcante da passagem de Ricardo Salles pela chefia do Ministério do Meio Ambiente.

Foto: reprodução.

Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.”

Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente, em reunião ministerial.

A frase é da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, tornada público pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro foi usado pelo ex-juiz Sergio Moro como justificativa da sua saída da equipe ministerial de Bolsonaro. Ele acusou o presidente de tentar interferir na Polícia Federal, e mencionou uma fala do chefe do Executivo, nesta reunião, como prova.

A atual gestão federal tem sido duramente criticada por suas medidas de redução de controle ambiental. Sob o comando de Salles, o Pantanal viveu o maior incêndio da sua história e as áreas de desmatamento da Amazônia voltaram a bater recordes. No primeiro trimestre de 2020 – onde se encaixa a declaração de Salles -, alertas de desmatamento na Amazônia atingiram recorde, e repasses milionários ao fundo de manutenção de projetos de conservação da floresta foram suspensos já no primeiro ano do governo.  

Muita pobreza

Com o novo ministro da pasta ambiental não tem sido diferente. Em seu discurso na conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Glasgow, em novembro de 2021, Joaquim Leite relacionou áreas de florestas à falta do que comer.

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil.

Onde existe muita floresta também existe muita pobreza.”

Joaquim Leite, ministro do Meio Ambiente.

Precisam comer

A simplificação do problema da fome não é rara no governo Bolsonaro. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já havia traçado a mesma conexão reducionista.

Foto: Alan Santos/Presidência.

“As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer e têm outras preocupações, que não são as de pessoas que já destruíram suas florestas.”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em um painel do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em 21 de janeiro de 2020..

Ricos x pobres

Embora tenha enfrentado pequenos terremotos, Guedes segue intacto desde o início do governo. O chefe da Economia vem acumulando frases polêmicas – mas não dissociadas da postura econômica da gestão.

Em entrevista àFolha de S. Paulo, publicada na edição de 3 de novembro de 2019, Guedes defendeu um novo regime trabalhista baseado em capitalização da aposentadoria – no qual cada trabalhador tem de fazer a sua própria contribuição, sem contrapartida. A medida, segundo ele, ajudaria as famílias mais pobres a aprenderem a economizar. 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

“Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em novembro de 2019

Em 2020, com a pandemia, o Brasil chegou a quase 52 milhões de pessoas na pobreza e 13 milhões na extrema pobreza, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo ano, o rendimento médio domiciliar per capita de 2020 foi de R$ 1.349.

Disneylândia

O dólar no Brasil já tinha começado a disparar, e o ministro da Economia minimizou o impacto da desvalorização do real, durante participação em um evento corporativo em Brasília.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

“O câmbio não está nervoso, (o câmbio) mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro de Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu, vai passear no Brasil, vai conhecer o Brasil. Está cheio de coisa bonita para ver.”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em fevereiro de 2020.

Em maio do mesmo ano, resultado de um acúmulo de fatores, inclusive externos, o dólar colou na casa dos R$ 6. No ano passado, o Brasil acumulou inflação de 10,6%, pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA). Foi a maior desde 2015.

Direito trabalhista atrapalha

O empresariado aderiu à campanha de Jair Bolsonaro. A promessa de uma política econômica mais autônoma, ou seja, mais liberta de deveres e taxação, soou como o caminho em direção ao pote de ouro. A CLT entrou no alvo.

Foto: Isac Nóbrega/PR.

“A mesma coisa é direito trabalhista. Tudo que é demais atrapalha. (…). É tantos direitos (sic).”

Bolsonaro, em entrevista à jornalista Leda Nagle, em agosto de 2019.

Na mesma conversa, comparou a dificuldade da vida dos patrões à da vida dos trabalhadores.

A retribuição da equipe econômica ao voto de confiança da classe empresarial seria encontrar caminhos para desburocratizar as contratações e fomentar o mercado de emprego. Criou-se a medida provisória da carteira amarela, editada em novembro daquele ano e que flexibilizava o recolhimento da contribuição do seguro-desemprego e do FGTS, por exemplo. Sem apreciação do Senado, a medida perdeu o efeito.

Educação

Elite intelectual

O primeiro ministro da Educação do governo Bolsonaro ficou no cargo apenas três meses. O período foi suficiente para determinar uma série de mudanças na pasta, como espaços para publicidade nos livros didáticos das escolas públicas.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

“As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país].”

Ricardo Vélez,ex-ministro da Educação,ao jornal Valor Econômico.

A declaração entra no contexto do fortalecimento do ensino técnico em detrimento do universitário, um dos focos da novo modelo de Ensino Médio implementado pelo ex-presidente Michel Temer.

O atual ministro da pasta, Milton Ribeiro, também já discursou nesse sentido. Disse àTV Brasilque “universidade deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade”.

Balbúrdia

O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub virou alvo de controvérsias por falar de botar os ministros do STF na cadeia e sugerir que a China inventou o coronavírus. Mas não só. Também foi processado pelo Ministério Público Federal por prometer corte de verba em universidades que promovessem “balbúrdia”.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

“Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”

Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação,ao  jornal O Estado de S. Paulo em abril de 2019, logo após assumir o ministério.

Na gestão de Weintraub, as universidades federais sofreram reveses. Ainda em 2019, tiveram 30% da verba de despesas gerais congeladas. Em 2020, outros 20% contingenciados do orçamento das UFs apertaram a gestão financeira. Para este ano, o MEC terá 739,9 milhões a menos de recursos, e as universidades – principais espaços de produção de pesquisa científica no país – podem, de novo, ter um ano difícil.

Fazem tudo, menos estudar

A relação de Bolsonaro com as universidades federais é política. Na sua gestão, a lista tríplice para a escolha de reitores deixou de ter a ordem considerada – pelo rito clássico, o presidente da República apenas carimba o mais votado pela comunidade acadêmica. No entanto, desde 2019 reitores sem a maioria de votos passaram a ser considerados pelo governo federal.

Foto: Isac Nóbrega/PR.

“O que se faz em muitas universidades do Brasil, o que o estudante faz? Faz tudo, menos estudar.”

Bolsonaro, em resposta a um jornalista em um evento no Tocantins, no fim de 2019.

O presidente Jair Bolsonaro pronunciou a respeito da posição do Brasil no ranking que mede o desempenho dos estudantes em cerca de 80 países. Durante seu discurso, no lançamento do programa Governo Municipalista, em Tocantins, Bolsonaro aproveitou para criticar, também, as universidades brasileiras, declarando que os alunos “fazem tudo, menos estudar”.

As universidades públicas são responsáveis por mais de 95% da produção científica no Brasil. Pelo menos três UFs conduzem, hoje, importantes estudos de produção de vacina 100% nacional contra a Covid-19. Entre elas, a UFPR.

Excesso de professor

Aos apoiadores que o esperavam no Palácio do Planalto, em setembro de 2021, o presidente declarou que “o excesso de professores atrapalha”.

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

“Não vou entrar em detalhes, mas o Estado foi muito inchado. Não estou dizendo que não precisa de professor, mas o excesso atrapalha.”

Bolsonaro, para apoiadores em frente ao Palácio do Planalto.

Em nota de contestação, o Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) disse que, só no DF, mais de 10 mil vagas de professor da rede pública de ensino não estão hoje preenchidas por servidor público efetivo.

Direitos

Escória maldita

A época foi a mesma da reunião do governo em que ministros do STF foram chamados de bandidos e o então ministro do Meio Ambiente sugeriu aproveitar a atenção dada aos temas relacionados à Covid-19 para passar a boiada. Em uma sala não tão longe, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, referiu-se ao movimento negro como “escória” e a Zumbi dos Palmares [que dá nome à instituição] como “filho da puta”.

Foto: reprodução/Fundação Palmares.

“Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares que, para mim, era um filho da puta que escravizava pretos. Não tenho que apoiar Dia da Consciência Negra. Aqui não vai ter zero” […] “Invadiram este prédio aqui para me espancar. Quem poderia ter feito isso? Invadiram com a ajuda de funcionários daqui. O movimento negro. Os vagabundos do movimento negro. Esta escória maldita.”

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares,, em reunião a portas fechadas com servidores. Gravação divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas a Corte manteve o jornalista à frente da fundação, instituída para promover e preservar os valores da influência negra na formação da sociedade brasileira.

Novo AI-5

Jair Bolsonaro tem vínculo estreito com as Forças Armadas, uma de suas bases mais sólidas e fiéis.

Capitão reformado, sempre se manifestou favoravelmente à ditadura. Em polêmica recente, servidores que trabalham na formulação da prova do Enem denunciaram ao jornalFolha de S. Pauloum episódio em que o presidente teria pedido ao ministro da Educação questões da prova que tratassem o golpe de 1964 como uma “revolução”. Antes de ser eleito, enquanto deputado federal, chegou a dizer que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Durante a campanha presidencial, um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro, falou que um soldado e um cabo bastariam para fechar o STF. Já com o pai presidente, declarou não ser contra um novo AI-5, “se necessário”.

Foto: reprodução.

“Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada através de um plebiscito como ocorreu na Itália, alguma resposta vai ter que ser dada, porque é uma guerra assimétrica, não é uma guerra onde você tá vendo seu oponente do outro lado e você tem que aniquilá-lo, como acontece nas guerras militares. (…) Temos que ficar atentos.”

Bolsonaro, em declaração foi dada à jornalista Leda Nagle, aliada do governo.

Jornalistas foram duramente reprimidos durante a vigência do AI-5, o mais severo ato institucional implementado pela ditadura de 1964. A medida, baixada em 13 de dezembro de 1968, deu poder ilimitado ao militar presidente, aumentou a repressão e a censura e estabeleceu a tortura e assassinatos como práticas do regime.

Mulher submissa

A frase foi dita pela pastora e ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, uma das mais afinadas à ala ideológica do governo.

Ao ser questionada pela deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) sobre a relação entre mulher e homem no casamento, durante audiência pública na Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres na Câmara, a ministra disse que a submissão é parte da doutrina cristã.

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

“Dentro da doutrina cristã, sim. Dentro da doutrina crista, lá dentro da igreja, nós entendemos que um casamento entre homem e mulher, o homem é o líder do casamento. Então essa é uma percepção lá dentro da minha igreja, dentro da minha fé.”

 

Damares Alves, ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos.

A ministra, conhecida pela declaração “menina veste rosa e menino veste azul”, também chegou a dizer que a personagem princesa Elsa, do filme Frozen, terminou a história sozinha em um castelo de gelo porque é lésbica. “O cão está muito bem articulado e nós estamos alienados”, acrescentou em tom de crítica.

Comprar fuzil

A política de facilitação de acesso a armas se expandiu no governo de Jair Bolsonaro. Por meio de decretos, o mandatário aumentou de dois para quatro o total de registro de armas por pessoa e elevou de 50 para 550 o limite anual de munições, além de permitir a posse a moradores de áreas rurais e revogar portarias de rastreamento e controle de armamentos pelo Exército.

Foto: José Cruz/Agência Brasil.

“O CAC [Caçador, Atirador e Colecionador] está podendo comprar fuzil. O CAC, que é fazendeiro, compra fuzil, o 762. Tem que comprar é… tem que todo mundo comprar fuzil, pô. O povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Tem um idiota: ‘ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar.”

Bolsonaro para seus apoiadores.

Imprensa

Levantamento feito pelaAgência Lupamostrou que o presidente Bolsonaro atacou a imprensa em 86% daslivesfeitas por ele ao longo de 2021. Os números reforçam o comportamento do mandatário com os veículos de comunicação.

Foto: reprodução/TV Brasil.

“O maior problema do Brasil não é com alguns órgãos, é a imprensa”,

Bolsonaro em janeiro de 2021.

Relatório “Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa”, com dados do ano passado, divulgado nesta quinta-feira (27) pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), repetem os dados alarmantes do período anterior e batem novo recorde da série histórica, iniciada na década de 1990.

Em 2021, foram 430 casos de agressões a jornalistas e a veículos de comunicação e ataques à liberdade de imprensa em todo o país. Censura encabeça a lista, com 140 ocorrências – das quais 138 foram naEmpresa Brasileira de Comunicação(EBC), de natureza pública e que coordena aAgência Brasile aTV Brasil.

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27
Jan22

Olavo, o guru de Bolsonaro

Talis Andrade

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Por que a cloroquina não salvou #OlavoDeCarvalho? Por que ele não se tratou com ivermectina também? #BolsonaroTemRazao, Olavo não estaria vivo se tivesse tomado o kit #COVID?

Sidney Andreato
Google resolveu homenagear o Olavo de Carvalho. Mandem no zap!
 
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Carl Mac
"El comunismo, no es un gran ideal que se pervirtió. Es una perversión que se vendió como un gran ideal", #OlavoDeCarvalho
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Pensando Alto
Negacionismo mata - até negacionista. #OlavoDeCarvalhoImage

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Francisco Bach
I'm gonna miss you, rest in peace Professor! The greatest philosopher of our time! #OlavoDeCarvalho

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24
Jan22

O Estado de São Moro

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

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Reacionário e direitista, o Estadão sempre foi.

Pretensioso, também.

Mas, agora, adotou também a covardia como linha editorial.

Como seu “santo do pau oco”, Sérgio Moro, atrai uma rejeição imensa nas pesquisas, quer fazer sua campanha sem citar-lhe o nome.

E, enquanto o país se debate com um governo que nos afunda numa crise (não é exagero dizer, como se verá no próximo post) humanitária, leva para sua capa um vergonhoso editorial “O mal que Lula faz à democracia”.

Claro que não se esperava do jornal, nem mesmo com o país à matroca, que o Estadão fosse adotar, em nome de razões maiores, que o ex-presidente, embora não de seu agrado, é a alternativa para deter o processo de crise e de balbúrdia institucional em que mergulhamos, ao ponto de vermos, em plena pandemia, dirigentes do Ministério da Saúde ainda mentindo sobre a vacina e referendando o charlatanismo da cloroquina.

Mas, ao dizer que “Lula nunca tratou bem a democracia brasileira”, o jornal parte para a mentira, vociferada com ódio, à mesma moda do bolsonarismo de plantão e do “não tenho provas, mas tenho convicção”.

Lula amargou cadeia por exercer seu papel de líder sindical, nos anos 70, ainda sob a Lei de Segurança Nacional da ditadura que censurava o Estadão; perdeu e acatou o resultado de eleições, pacificamente, em 1989, 1994 e 1998; chegou ao poder sem perseguir ninguém e, durante seu exercício, nunca tentou qualquer manobra autoritária contra os outros poderes, nem mesmo quando era seu governo o investigado; recusou o movimento por um terceiro mandato, quando os 87% de popularidade que tinha davam a ele todas as condições de aprovar esta possibilidade no Congresso, como antes Fernando Henrique aprovara a reeleição.

Por fim, pode-se dizer que desrespeita o Estado de Direito que, mesmo ante uma sentença reconhecida como injusta, submete-se a 580 dias de cárcere, sem apelar para o exílio internacional que não lhe faltaria e se recusando, até, a reconhecer a punição optando por uma tornozeleira eletrônica e a uma prisão domiciliar que se lhe ofereceu, para provar sua inocência?

Se Lula jamais investiu contra a democracia no campo político institucional, mais do que qualquer outro trabalhou para aprofundá-la, ainda que modestamente, no campo econõmico social. Elevou o emprego, o salário, a renda e a qualidade de vida da população mais pobre, da classe média e, até, dos privilegiados deste país.

Saneou as contas públicas e obteve superávit primário ao longo de seus dois mandatos, inclusive no período 2008/2009, na crise mundial que ameaçou arruinar o mundo.

Liquidamos a dívida pública externa, nos tornamos credores do FMI e acumulamos mais de US$ 300 bilhões em reservas internacionais que, até hoje, nos livram da insolvência cambial. Viramos a 6ª economia do mundo e agora somos a 11ª, e ladeira abaixo por conta de crescimentos muito menores que a média do planeta.

Reconhecer estes fatos, tranquilize-se o centenário jornal, não é ser “lulopetista”.

Apenas reconhecer verdades, do que não está eximido um jornal por mais que discorde da atenção de Lula ao que chamam de “patuléia”.

Assim como não anistia suas responsabilidades pela eleição deste traste presidencial, ao dizer que era “uma escolha muito difícil” decidir se um ex-capitão de trajetória, esta sim, de desrespeito à democracia poderia merecer o voto dos brasileiros.

O jornal, porém, não poderia esconder dos seus leitores a admissão de que tem um candidato às eleições de outubro e que deve, quanto a ele, dizer se faz bem ou mal à democracia.

Faz bem à democracia que um juiz cujas decisões – ilegais, como reconheceu o STF – tenham influído no resultado das eleições e que, ato contínuo, aboleta-se num cargo de ministro?

Faz bem à democracia que este já ex-juiz, defenestrado do cargo em meio até hoje não explicadas supostas pressões sobre a condução da Polícia Federal, para proteger a prole presidencial, vá se tornar “managing director” de uma multinacional que cuida, a peso de ouro, da administração judicial das empresas quebradas pela Lava Jato?

Faz bem à democracia que um pretendente à Presidência diga que o dinheiro que ganhou nesta relação é privado e que “ninguém tem nada com isso”, quando se trata de um negócio empresarial que se dá por designação de um juiz – portanto, do poder público – de um administrador das massas empresariais em recuperação, que é pública e não privada, pois está sujeita a controles do Estado?

O Estadão fez muitas campanhas políticas e ninguém espere que não atuará nesta.

Mas se excede os limites das razões política e passa a fazer acusações de autoritarismo e pouco apreço às instituições a quem jamais investiu contra elas, o jornal passa a viver, também, no mundo das “narrativas” fascistoides do bolsonarismo, aquelas mesmas que viam um exército de comunistas chineses às nossas fronteiras, prontos a aqui implantar o comunismo.

Como o jornal não assume que apoio Moro e nem o menciona, parece que está diante, agora sim, de uma “escolha muito difícil”: ou embarca no pedalinho do ex-juiz que anda a deriva ou vai de Bolsonaro mesmo.

Se é para ser assim, recomenda-se que o Estadão passe logo à história das mamadeiras e chame o foragido Allan dos Santos para editar o jornal.

09
Jan22

Brasil-2: pandemia e caos econômico e social

Talis Andrade

Retirantes Portinari

Por Altamiro Borges

A barbárie durante a pandemia é tanta que a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, instalada no Senado em abril do ano passado e batizada de CPI do Genocídio, indiciou Jair Bolsonaro, muitos capachos do governo e vários empresários inescrupulosos – como Luciano Hang, o “Véio da Havan”, e os sócios da Prevent Senior, onde “óbito também é alta” – por vários crimes previstos na legislação brasileira. 

O presidente da República só não sofreu impeachment porque se aliou aos políticos pragmáticos do Centrão, cedendo cargos públicos e milhões de reais em emendas parlamentares. Concluído seu triste mandato, o fascista poderá ser preso por liderar a maior mortandade da história recente do Brasil. Ele ainda deverá ser julgado no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia/Holanda, por crimes contra a humanidade. 

No cômputo geral, sua gestão na pandemia misturou incompetência gerencial, principalmente no período do general Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde; com genocídio premeditado, expresso na tese anticientífica da imunidade de rebanho via infecção; e com lucro macabro, escancarado nas tentativas de propina na compra da vacina indiana Covaxin ou na ação de planos de saúde, como a Prevent Senior e a Hapvida. 

O negacionismo teimoso do presidente-capitão – que tratou o coronavírus como “gripezinha”, “histeria da mídia” e “coisa de maricas”, que serviu de garoto-propaganda de remédios ineficazes, como a cloroquina e a ivermectina, e que agiu contra o uso de máscaras e de medidas de isolamento social – só confirmou sua postura criminosa, sua opção pela necropolítica, sua falta de empatia com o sofrido povo brasileiro. 



Desemprego, arrocho e retirada de direitos 

Além das centenas de milhares de mortos e de milhões de sequelados, o péssimo enfrentamento à pandemia da Covid-19 também resultou em efeitos econômicos e sociais ainda mais danosos ao Brasil na comparação com outras nações. 

Enquanto governantes de vários países arquivavam os dogmas neoliberais e aplicavam bilhões de dólares para reanimar suas economias, o “austericídio fiscal” do ministro Paulo Guedes levava à falência quase 600 mil empresas no período, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de setembro último. 

No final de 2019, antes da pandemia, o país tinha 4,369 milhões de estabelecimentos; no segundo trimestre de 2021, o número despencou para 3,788 milhões – baixa de 13,3% ou 581,3 mil empresas a menos. Essa quebradeira agravou ainda mais o quadro de desemprego no país. Neste período, o número de empregados no setor privado caiu 10,1% – de 44,7 milhões para 40,2 milhões. A redução foi de 4,5 milhões de vagas. 

A tragédia social só não foi maior graças ao auxílio emergencial de R$ 600, que foi aprovado em 2020 a partir da pressão do movimento sindical e da bancada progressista no Congresso Nacional. Totalmente insensível, a equipe econômica do governo não tinha previsto qualquer benefício e, quando forçada, aceitou conceder apenas R$ 200 em três parcelas. 

A condução desastrosa do país teve efeitos destrutivos na vida dos trabalhadores. Todos os indicadores pioraram. O desemprego aberto, que já era alto antes da pandemia, explodiu e hoje vitima quase 15 milhões de brasileiros – cerca de 13% da População Economicamente Ativa (PEA). 

Na juventude, a situação é ainda mais desesperadora e sem perspectiva. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o desemprego atingiu 27,1% em agosto último. A renda também despencou. Através de planos capengas e parciais, o governo repôs uma parcela ínfima do salário dos trabalhadores que tiveram suas jornadas reduzidas ou seus contratos suspensos na pandemia. Na média nacional, o rendimento dos assalariados com registro em carteira no setor privado e público diminuiu 20%; no caso dos autônomos, a queda foi ainda mais acentuada, de 40%. 



A precarização do trabalho nas empresas 

A pandemia também acelerou a precarização do trabalho. O patronato aproveitou a crise para promover processos de reestruturação produtiva que ceifaram empregos, renda e direitos. Houve a intensificação do trabalho por aplicativos, do home office e de outras mutações com base na tecnologia da informação. 

A uberização, como fenômeno do trabalho sem direitos e massacrante, cresceu sem qualquer controle ou regulamentação. O trabalho remoto é utilizado pelas empresas para sabotar a legislação, alongar jornadas e intensificar a exploração. As denúncias de aumento da jornada por parte de trabalhadores em home office aumentaram 4.205% em 2020. 

Muita gente hoje está disponível 24 horas por dia para ser explorado; novas doenças crescem no mundo do trabalho, como a depressão e a Síndrome de Burnout, que é o distúrbio emocional decorrente da exaustão extrema, estresse e esgotamento físico. A informalidade está virando regra no Brasil. Segundo o IBGE, já são quase 25 milhões de trabalhadores por conta própria. 

O patronato também aproveitou a pandemia para rebaixar os salários. Segundo balanço de julho último do Dieese (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas), 54% dos reajustes obtidos pelos sindicatos nas datas-base ficaram abaixo da inflação. Só 16,5% dos acordos conquistaram ganhos reais. 

Esse arrocho fica ainda mais grave em função da alta da inflação no último período, que atinge principalmente os alimentos, energia elétrica e combustíveis. Nessa onda da precarização, o governo tentou impor a chamada “carteira verde e amarela” e uma minirreforma trabalhista. Ambas visavam eliminar direitos – principalmente da juventude, com a extinção das férias e do 13º salário –, mas foram barradas temporariamente graças à pressão do sindicalismo. 

Já no setor público, o governo segue tentando aprovar a Proposta de Emenda Constitucional da reforma administrativa – também batizada de “PEC da rachadinha” –, que acaba com a estabilidade e as carreiras no funcionalismo, estimula a privatização e a terceirização e degrada a qualidade dos serviços prestados pelo Estado. 


** Continua...

29
Dez21

Retrospectiva Brasil 2021: negacionismo, fome e CPI no segundo país do mundo mais afetado pela Covid

Talis Andrade
Cemitério de Nossa Senhora Aparecida em Manaus, Brasil, o país com a segunda maior taxa de mortalidade Covid-19 do mundo
Cemitério de Nossa Senhora Aparecida em Manaus, Brasil, o país com a segunda maior taxa de mortalidade Covid-19 do mundo Michael DANTAS AFP/File

O ano de 2021 começou de maneira trágica, com a falta oxigênio nos hospitais de Manaus. Médicos, enfermeiros e parentes desesperados vendo pacientes agonizando dias depois de integrantes do governo federal terem visitado a capital amazonense para divulgar o tratamento precoce sem eficácia contra a Covid. Enquanto nos hospitais a luta por atendimento definia a vida ou a morte.

A crise sanitária aguda, com mais de 600 mil mortos, acabou numa CPI do Senado, instalada por determinação do Supremo Tribunal Federal. Depoimentos e documentos que escancaram a atuação errática do governo Bolsonaro, com gabinete paralelo pró-cloroquina, cartas da Pfizer ignoradas resultando na compra atrasada de vacinas e até papel fraudado para vendar imunizante da Índia superfaturado. Não àa toa que a temperatura subiu muitas vezes na CPI.

A pressão de todos os lados levou o governo a acelerar a compra de vacinas e, com a robustez da estrutura do SUS, a imunização finalmente, reduzindo sobremaneira o número de mortos. Mesmo diante de prova cabal de que a vacinação era o caminho, o presidente Jair Bolsonaro ainda insistia no negacionismo.

“Quando você estiver sentindo falta de ar” - disse Bolsonaro em uma transmissão ao vivo imitando alguém com dificuldade para respirar - “Você vai para o hospital. Para fazer o quê? Para tomar o quê, se não toma nenhum remédio comprovado? Para ser entubado. Esse é o protocolo do Mandetta. E canalha é aquele que critica a cloroquina, a ivermectina e não apresenta uma alternativa.”

Bolsonaro defendeu a divulgação do nome de funcionários da Anvisa que trabalharam na aprovação da vacina para crianças. Antes ele já havia provocado fúria ao divulgar dado mentiroso relacionando imunização contra a Covid ao HIV. 

 

Bolsonaro perde apoio popular

A postura do presidente fez despencar seu apoio popular e ele reforçou a tática de buscar inimigos, mirando a artilharia para o Supremo Tribunal Federal, que fechava o cerco a radicais, com a prisão de bolsonaristas como Daniel Silveira e Roberto Jefferson. O ápice da crise institucional veio no 7 de setembro

“Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou qualquer sentença que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Nós também não podemos continuar aceitando que uma pessoa continue barbarizando a nossa população. Ou o chefe desse poder enquadra o seu, ou esse poder pode sofrer o que não queremos”, disse Bolsonaro numa referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes.

Além dos ataques ao Judiciário, conforme sua popularidade caía, o presidente mais uma vez repetia, feito um mantra, que as urnas eletrônicas não eram confiáveis, e que qualquer resultado diferente da sua reeleição seria por ele contestado. Até dia e horário marcou para apresentar provas, mas não as apresentou.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma foto de 7 de setembro de 2021.
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma foto de 7 de setembro de 2021. PAULO LOPES AFP/Archivos

 

Orçamento paralelo para o Legislativo

Bolsonaro foi orientado a baixar a bola e, se quisesse ter o centrão como apoio, a engolir o discurso golpista. Não foi só isso. O grupo que apoia o presidente engordou os bolsos com cargos, emendas e até orçamento paralelo, dinheiro público sem rastreio dos órgãos de controle. Com isso o Executivo conseguiu aprovar propostas polêmicas como as mudanças no pagamento dos precatórios, o que lhe assegura uma bolada em ano eleitoral. O que tema gerou debate no Congresso entre governo e oposição.

Se no Legislativo Bolsonaro conseguiu certo apoio a custas de muito dinheiro, na economia o ano foi um desastre: inflação nas alturas com a disparada do preço de produtos como a carne, desemprego, alta na conta de luz, e gasolina também com o preço a perder de vista, fazendo até motoristas de aplicativo a abandonarem a função.

 

Multidão faminta e medalhas inéditas

O lado mais perverso de tudo: a pobreza. Famílias indo morar na rua sem dinheiro para o aluguel. E uma cena cada vez mais comum nas cidades brasileiras: pessoas revirando lixo para achar o que comer. Uma multidão dependendo da solidariedade alheia para comer.

O país de uma multidão faminta, o crescimento do PIX como ferramenta nas transações comerciais, o leilão do 5G na telefonia.

No esporte, teve a volta do público aos estádios de futebol, a polêmica sobre comentários homofóbicos no vôlei e as medalhas inéditas no Japão, como no surfe de Ítalo Ferreira, no skate de Rayssa Leal e na ginástica olímpica de Rebeca Andrade. 

“Eu fiquei muito feliz por ter representado o Brasil, por ter ido tão bem, por levar o nome da ginástica, o nome do nosso país para o mundo inteiro. Espero que a gente tenha mais investimento, que as pessoas acreditem mais em todos os esportes, e não só na ginástica. O esporte salva vidas, o esporte educa”, disse Rebeca. 

Da esquerda para direita de cima para baixo:Mayra Aguiar, Rebeca Andrade, Daniel Cargnin, Kelvin Hoefler, Fernando Scheffer, Rayssa Leal e Italo Ferreira
Da esquerda para direita de cima para baixo: Mayra Aguiar, Rebeca Andrade, Daniel Cargnin, Kelvin Hoefler, Fernando Scheffer, Rayssa Leal e Italo Ferreira © Fotomontagem com fotos da AP

 

Fuga de cérebros, incêndio da Cinemateca

O país teve ainda debandada de pesquisadores de órgãos institucionais, incêndio na Cinemateca brasileira, prisão de cantor por agressão à mulher, vinte dias de perseguição a Lazaro Barbosa que assombrou moradores de Goiás, e ação de bandidos que usaram escudos humanos e levaram terror a Araçatuba, no interior paulista, chegando a instalar mais de cem explosivos.

No Rio Grande do Sul, quatro réus foram a júri popular este ano pelo incêndio da boate Kiss onde 242 pessoas morreram há oito anos.

No Rio de Janeiro, houve a prisão da mãe e do padastro vereador acusados pela morte do pequeno Henry Borel e a angústia das famílias de três meninos de Belford Roxo, que desapareceram há um ano e só agora confirmaram que eles foram brutalmente assassinados pelo tráfico.

 

Violência

A violência na floresta também chocou o país, com índios desnutridos, a pele e osso, avanço do garimpo ilegal, morte de animais nos incêndios e desmatamento recorde na Amazônia, reconhecido pelo ministério da Justiça.

Destaque no jornal Le Monde desta quinta-feira (02/07) para a volta das queimadas na Amazônia que registraram em junho o maior número de focos dos últimos treze anos.
Destaque no jornal Le Monde desta quinta-feira (02/07) para a volta das queimadas na Amazônia que registraram em junho o maior número de focos dos últimos treze anos. AP - Leo Correa

 

Políticos comemoraram a anulação de investigações, como o caso do triplex contra Lula, as provas das rachadinhas contra Flávio Bolsonaro, e algumas outras da Lava Jato contra Eduardo Cunha e Sérgio Cabral. De olho e 2022, o presidente Bolsonaro se filiou ao PL, Sérgio Moro foi para o Podemos e Lula tem cortejado o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin para vice.

“Não importa se no passado fomos adversários, se trocamos algumas botinadas, se no calor da hora dissemos o que não deveríamos ter dito. O tamanho do desafio que temos pela frente faz de cada um de nós um aliado de primeira hora”, disse Lula após jantar com Alckmin.

O país fecha 2021 com a chegada da variante ômicron, embate em torno da vacinação de crianças, cidades baianas inundadas com a chuva, surto de gripe e inúmero problemas a resolver, como a fome. Sentindo também saudade de tantos que se foram, como o ator Paulo Gustavo por Covid e a cantora Marília Mendonça, num desastre de avião.

24
Dez21

Nicolelis defende interdição de Queiroga e questiona quantas crianças terão de morrer

Talis Andrade

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A VOLTA DA CAPITÃ CLOROQUINA
 
"Ministro da Saúde tem que ser interditado/demitido depois de uma das declarações mais absurdas na história da medicina"
 
 

247 - O médico e neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, usou as redes sociais para defender a demissão do ministro da saúde, Marcelo Queiroga, em função de sua atitude em protelar a vacinação de crianças contra a Covid-19. 

“Onde estão as instituições brasileiras? Como é possível que nenhuma se manifeste? Ministro da Saúde tem que ser interditado/demitido depois de uma das declarações mais absurdas na história da medicina brasileira! + de 300 crianças mortas! Quantas crianças mais vão ter que morrer?", postou Nicolelis. 

A postagem vem na esteira da decisão de Queiroga em abrir uma consulta pública sobre vacinação infantil, apesar do parecer técnico-científico da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendar a imunização. Ele também minimizou os riscos para esta faixa etária ao afirmar “que não é preciso decidir com urgência sobre a vacinação do grupo”. 

Apesar da reticência do Ministério da Saúde em autorizar a vacinação infantil, a Covid-19 matou uma criança com idades entre 5 e 11 anos a cada dois dias no Brasil desde o início da pandemia. Ao todo, foram registrados  6.163 casos e 301 óbitos nesta faixa etária até o dia 6 de dezembro.

Miguel Nicolelis
Onde estão as instituições brasileiras? Como é possível q nenhuma se manifeste? Ministro da Saúde tem q ser interditado/demitido depois de uma das declarações mais absurdas na história da medicina brasileira! + de 300 crianças mortas! Qtas crianças mais vão ter q morrer?
 
Nas vésperas do Natal e Ano Novo Brasil está completamente à deriva: sem nenhuma estratégia ou plano nacional ou mesmo regional para conter a convergência de epidemias múltiplas no país: DELTA ÔMICRON INFLUENZA Tivemos um respiro e ñ soubemos tirar vantagem dele p/ nos preparar
 

 

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15
Nov21

O legado da CPI da Covid e a midiatização da política

Talis Andrade

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por Rogério Christofoletti e Samuel Pantoja Lima
Pesquisadores e coordenadores do objETHOS

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada para apurar os crimes cometidos pelo governo federal durante a pandemia da Covid-19, terminou seus trabalhos na última terça-feira, 26, depois de quase seis meses de investigação, centenas de horas de sessões e a coleta de milhares de documentos. Aprovado por maioria, o relatório pede o indiciamento de duas empresas e 80 pessoas, incluindo o presidente da República, neste caso por nove crimes, entre os quais charlatanismo, epidemia com resultado morte, infração a medidas sanitárias preventivas, e crimes de responsabilidade e contra a humanidade.

Onze senadores, 66 depoimentos colhidos e 369 horas de sessões transmitidas; 251 quebras de sigilo, mais de mil e quinhentos requerimentos apresentados e a análise de quase 10 terabytes de documentos. Os números impressionam, mas a CPI tem um papel muito maior para história recente do país e que deixa, inclusive, bons legados nas sempre tensas relações entre jornalismo, democracia, cidadania e política.

 

Cidadania eletrônica

Diversos aspectos tornaram esta CPI diferente de todas as anteriores. A participação da sociedade foi um desses fatores distintivos. A participação direta, via plataformas digitais (redes sociais) ou pelo aplicativo e-Cidadania, transformou profundamente o modo do público interagir com os senadores e protagonizar um nível de participação cidadã – que resultou em dezenas de perguntas, diretamente repassadas das contas nas diferentes redes sociais (Twitter, WhatsApp, Instagram, Facebook…) para as testemunhas e investigados pela CPI. O site Senado Notícias que cobriu os trabalhos da Comissão, publicou uma reportagem a respeito destacando o crescimento significativo de mensagens enviadas pelo canal e-Cidadania para os membros do colegiado. Em média, os integrantes da Comissão receberam um total de 350 a 400 mensagens de usuários da internet com sugestões, críticas e correções – no auge da visibilidade da CPI.

Muito naturalmente, por outro lado, a CPI saiu do espaço físico do Senado Federal e passou a integrar os estúdios de televisão e de rádio, ocupando espaços em podcasts com vasta audiência, portais de notícias, blogs e perfis de redes sociais. A TV Senado teve sua transmissão em tempo real reproduzida, em dezenas de horas, em canais nacionais de informação 24 horas, como a Globo News, Band News e CNN Brasil. Somente as emissoras alinhadas ao governo federal (Record, SBT, Rede TV! e Jovem Pan) não pautaram de maneira intermitente, dando destaque sempre à defesa do ponto de vista bolsonarista – seja à base do negacionismo ou da defesa de tratamento cientificamente ineficazes (o chamado “kit covid”).

Outras CPIs também tiveram ampla vitrine midiática, mas desta vez, o alcance e a permanência deram novos contornos à comissão investigativa. Afinal, tratava-se da apuração de ações e omissões numa catástrofe sanitária com a possibilidade real de imputação de crimes das maiores autoridades do país. Além disso, as suspeitas não pairavam apenas sobre numerário desviado para corrupção, mas envolviam dor, sofrimento, adoecimento, sequelas, perdas e mortes em proporções inaceitáveis em qualquer contexto. Desta forma, os meses foram passando e sociedade, governo e classe política criaram muitas expectativas sobre os resultados que colheriam os senadores a partir de tanto trabalho. Num país que, infelizmente, naturalizou a expressão “a CPI pode dar em pizza”, nenhum relatório poderia pacificar as ansiedades sociais. Nas quase 1,3 mil páginas de relatório final, coube muita coisa, mas muito também poderia ser adicionado. Enfim, o documento expressa um tempo, um enredo, seus atores e um drama que está longe de terminar, tanto quanto a própria pandemia que até este momento já ceifou mais de 607 mil vidas.

 

Furo e a disputa da hegemonia

Do ponto de vista midiático, a CPI da Covid não foi só a mais porosa para participação popular e a de maior exposição pública. Ela também permitiu, mais uma vez, que o jornalismo oferecesse contribuições à sociedade e à história nacional.

Foi do jornalismo investigativo, num furo do jovem repórter Guilherme Balza (Globo News e Portal G1) que a CPI recebeu a contribuição mais relevante: o esquema macabro da empresa Prevent Senior, um plano de saúde para idosos, que foi pouco a pouco desvendado pelas reportagens de Balza e pelas investigações parlamentares da CPI (e suas assessorias técnicas). No final, o que se viu foi um esquema de morte: desde a manipulação de certidões de óbitos (falsidade ideológica) nas quais a Covid-19 não aparecia como “causa mortis”, quanto em experimentos para-científicos feitos à revelia das pessoas infectadas e sem autorizações das famílias (uma espécie de experimento à base de cloroquina, no qual os doentes não tinham conhecimento, nem deram seus consentimentos). E tudo isso para comprovar a tese fraudulenta que permitiria a adoção de remédios (cloroquina, ivermetctina, azitromicina etc.) cuja eficácia contra o Sars-CoV-2 (coronavírus) jamais foi comprovada, em nenhum país do mundo. Após as conclusões da CPI, parece não restar dúvida quanto à responsabilidade pelos crimes praticados pelas autoridades do plano federal, que insistiram em estratégias erráticas no combate da pandemia.

A disputa da hegemonia das ideias a esse respeito e a intensa guerra ideológica travada via mídia e redes sociais prossegue ainda mais potencializada agora, depois da entrega do relatório final às autoridades judiciárias e legislativas. Na próxima semana, os senadores devem entregar uma cópia do documento ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), porque a CPI pediu o indiciamento de Jair Messias Bolsonaro também por crime de responsabilidade. Dito de outro modo, isto pode levar a um processo de impeachment, improvável pela correlação de forças na Câmara – e Lira é um aliado fiel do presidente –, mas suficiente para trazer um desgaste ainda mais profundo ao atual governo.

Nos dois primeiros dias após o término da CPI, a disputa midiática em torno dos desdobramentos jurídicos e políticos já deu seus sinais. Na Folha de S. Paulo e no Portal UOL, circulou interpretação atribuída à fonte “off-the-record” da Suprema Corte brasileira afirmando categoricamente: “Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) consideraram ‘fraco’ o relatório final da CPI da Covid. Nos bastidores do Supremo, o comentário é de que não há elementos suficientes para comprovar o cometimento de crimes por parte de Bolsonaro. Um dos ministros ouvidos em caráter reservado afirmou que seria difícil o relatório “resultar em punição ao presidente”. Os próximos dias, a mídia deverá mostrar outros movimentos na disputa ideológica intensa por um diagnóstico definitivo para a CPI. Terá ela efeitos práticos e justos? Será suficiente para atenuar o sabor amargo que a pandemia deixou em nossas bocas? Poderá provocar punições exemplares e levar à adoção de práticas mais acertadas?

 

Legado midiático

As respostas para as perguntas acima ainda estão distantes. Os tempos da política e da justiça são distintos do tempo do cidadão comum e das redações jornalísticas, ávidas por notícias em tempo real. Cientistas políticos, sociólogos e historiadores serão muito mais competentes para desenhar o mapa do território produzido pela CPI da Covid. Mas do ponto de vista midiático, arriscamos contabilizar alguns frutos desse processo.

A Comissão Parlamentar de Inquérito mostrou-se atenta às repercussões nos meios jornalísticos e nas redes sociais, servindo-se de conteúdos e assimilando certas interpretações. Depreende-se com isso que as próximas CPIs não vão se encerrar nas salas de reunião, mas vão constantemente medir as temperaturas políticas nas arenas de discussão pública. Isso acaba sinalizando caminhos e permitindo calibragens finas. Por consequência, as camadas mais articuladas da sociedade perceberam que seus espaços de participação se ampliaram, e isso parece ser irreversível. Do ponto da cidadania, este é um resultado muito positivo, pois reduz a distância que o próprio parlamento cria como escudo das cobranças sociais.

Durante as investigações, percebemos vários episódios de colaboração mútua entre jornalistas e a cúpula da CPI, seja por meio da troca de informações ou por vazamentos seletivos de documentos. Esses casos ora permitiam abastecer o noticiário com informações antecipadas e ora possibilitavam que os políticos avançassem em nichos de investigação. Isso não é novo na política, convenhamos. A proximidade de informantes e informadores faz parte do cotidiano de quem atua nos palácios e casas legislativas, e de quem cobre esses personagens. O que colhemos da CPI é que o jornalismo crítico mais uma vez presta seus serviços à sociedade, mesmo em tempos em que é severamente atacado, sobretudo pela principal autoridade pública do país.

Ainda do ponto de vista midiático, um dos legados é que a CPI deu ao país uma consistente narrativa sobre como o governo brasileiro atuou em meio à maior pandemia de nossos tempos. Esse relato é uma trágica e revoltante crônica, superpovoada de personagens que trazem sobre os ombros muitos indícios de crimes e descasos. Não é qualquer narrativa, extraída apenas das idiossincrasias e conveniências de onze senadores; é um enredo registrado num documento que já é histórico, independente de seus desdobramentos. É uma história escrita por uma instituição política, uma comissão investigativa, que analisou documentos, colheu depoimentos e recorreu a especialistas de diversas áreas para tecer seu relatório final.

Do ponto de vista histórico, essas foram as conclusões à que chegou o Senado Federal, a Câmara Alta do parlamento brasileiro. Não é pouco. Para quem se ocupa de registrar o presente – como é o caso dos jornalistas -, o relatório da CPI é uma voz forte no texto deste tempo que nos aflige. Para quem vive este tempo, é o doloroso noticiário sobre a tragédia que transformou nossas vidas e as mortes dos nossos entes queridos.

 

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