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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

09
Jul23

Os laços revelados entre “austeridade” e fascismo

Talis Andrade

Clara Mattei

 

Em pesquisa que abrange um século de políticas econômicas, a italiana Clara Mattei aponta como as medidas de suposta “responsabilidade fiscal” devastam a coesão social, corroem a democracia e abrem as portas para a extrema direita

 

por Francisco Rohan de Lima

Outras Palavras

Assisti a uma conferência da professora Clara Mattei1 e fiquei assombrado porque – se eu resumo bem – suas pesquisas nos levam a concluir que a premissa de austeridade fiscal a ser, supostamente, observada pelos governos, com boa margem de consenso no pensamento econômico de variada coloração partidária, é uma política econômica que conduz ao fascismo. Leiam de novo, bem devagar, por favor. Em outras palavras, e num corte redutor, a austeridade fiscal no orçamento dos governos seria um pressuposto capitalista para alcançar o fascismo.

Notem que ela não diz apenas que a austeridade leva à desigualdade ou que acentua essa desigualdade, pensamento com largo trânsito nas esquerdas. Ela foi além. Afirma que o ponto de chegada, o objetivo final, é o fascismo. A professora Mattei é diabolicamente inteligente, estudiosa, brilhante e… linda. Por favor, não pensem em misoginia. Mas, é difícil discordar dela. Quando ela fala de seu novo livro, seus olhos brilham intensamente. Ela está, visivelmente, possuída pela verdade. Digo isso sem qualquer ironia. Seus olhos têm o brilho da convicção, que somente anos e anos de pesquisas sérias e intensas podem proporcionar aos intelectuais.

Se a professora Mattei estiver certa, bibliotecas do pensamento econômico e político estarão errados e devem ser arquivados, visto que ainda não tinha conhecido essa afirmação antes, nem mesmo vinda de economistas de esquerda. Dizem que economia e esquerda são palavras que não cabem na mesma frase. Mas, eu não costumo brincar com isso. O professor de Economia Política da norte-americana Universidade Brown, Mark Blyth, já nos advertiu em seu livro Austeridade, a história de uma ideia perigosa(Autonomia Literária, 2017) sobre os riscos inerentes a essa política.

Só não lembro se ele incluiu o fascismo. O melhor foi ele citando, não Karl Marx (1818-1883), mas sim o próprio Adam Smith (1723-1790), o pai da economia: “O governo civil, tão logo instituído, é instituído para defender os ricos contra os pobres, ou os que têm algo contra os que nada têm.” E está lá no sacrossanto A riqueza das nações, de Smith. Normalmente os economistas liberais pulam essa parte, tal como os puritanos hipócritas pulam o Cântico de Salomão, ou a aceitação da escravidão humana, tudo no Antigo Testamento.

Uma digressão. Lembrei-me de Jean-Paul Sartre (1905-1980) quando veio ao Brasil. O velho Nelson Rodrigues dizia que todo gênio, para ser gênio de verdade, há que ter seu dia de besta. Nelson contou, então, que foi assistir à palestra de Sartre no Rio de Janeiro e estava lá quando, num auditório superlotado, “que o lambia com a vista”, o filósofo francês afirmou que o “marxismo é inultrapassável”. Nelson pensou que não há uma só ideia no mundo que não possa ser ultrapassada em 15 minutos e, iluminado por um raio, concluiu: “esse marxismo inultrapassável é uma opinião de torcedor do Bonsucesso.” Podem conferir, está em O óbvio ululante (Companhia das Letras, 1994). Nelson, Nelson, quanta falta.

Outra digressão. Alguém já disse – e já digo quem – que se os filósofos e pensadores sociais fossem expostos e humilhados pelos seus erros, como estão sujeitos os engenheiros e arquitetos, cujos cálculos errados levam os edifícios a desabar, a ciência social e econômica seria mais cautelosa nas suas afirmativas audaciosas. Foi aquele intelectual brilhante, Thomas Sowell2 (3). Ele é repudiado pelas esquerdas porque tem demolido falácias do pensamento dito progressista. Eu mesmo não gosto muito dele, mas a força de seus argumentos é muitas vezes irrecusável.

Antes de voltar a Clara Mattei, porém, devo divagar novamente; desta vez para dizer-lhes que revi um filme de Margarethe Von Trotta3 sobre Rosa Luxemburgo (1871-1919) e fiquei mais fascinado do que quando vi pela primeira vez. Rosa, natural da Polônia, foi uma militante marxista do partido social-democrata na Alemanha, e que, ao contrário do partido, se opôs à participação do país na Grande Guerra de 1914.

Luxemburgo escrevia muito e com enorme talento; e era uma oradora magnetizante. No filme, a atriz Barbara Sukowa, também polonesa, captura a personalidade de Rosa, e seus olhos nos dizem da paixão incandescente pelas ideias que abraçou. Pagou caro, porém, por suas convicções: foi presa inúmeras vezes; morreu assassinada em 1919 (segundo uma investigação de 1999, por seus partidários) e seu corpo foi atirado num canal em Berlim, onde hoje há um monumento em sua homenagem.

Voltando à Clara Mattei, garanto que vi a mesma coisa nos seus olhos. A professora Mattei é ainda muito jovem para ser comparada à Rosa Luxemburgo, que tinha uma obra vasta, profunda e palpitante, escrita à mão, muitas vezes nas prisões e defendida para grandes auditórios, embora, neste último caso, baste uma entrevista da professora Mattei no YouTube para alcançar milhões de espectadores. Isso foi algo que Rosa Luxemburgo não teve a oportunidade de conhecer, enquanto combatia o capitalismo com unhas, dentes e palavras. Literalmente.

Pois bem, pelo que eu pude entender da conferência de Clara Mattei sobre seu novo livro, cujo título resume suas conclusões, “The capital order: How economists invented austerity and paved the way to fascism”, em tradução livre, A ordem capitalista: Como os economistas inventaram a austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo. Ela afirma que as políticas de austeridade remontam a um século e são muito mais do que uma ferramenta teórica e prática para estabilizar a ação governamental ou o sistema econômico, cortando gastos e investimentos.

 
 
 
圖片

Segundo a pesquisadora, a austeridade seria, principalmente, um mecanismo para assegurar a prevalência da ordem capitalista, baseada na propriedade privada, tributação regressiva (pela qual quem ganha mais paga menos) e na diferença de classes sociais. Mattei pretende revelar a origem intelectual da austeridade para mostrar seus objetivos originais: a proteção do capital – e do capitalismo – em tempos de convulsão social a partir da base da pirâmide social. Especulo se estaria a professora partindo de um raciocínio, segundo o qual o capitalismo estaria, assim, protegido do caos social?

Mattei nos diz, ainda, que por mais de um século governos enfrentando crises financeiras têm recorrido a políticas econômicas de austeridade – cortes de remuneração do trabalho, equilíbrio fiscal e auxílios públicos – como uma solução para a insolvência. Enquanto essas medidas têm sido bem-sucedidas em satisfazer os credores, elas têm efeitos devastadores sobre o bem-estar social e econômico em todo o mundo. Atualmente, enquanto a austeridade continua como um valor em si, mesmo entre países problemáticos, uma questão importante continua de pé: e se a solvência (liquidez) nunca tenha sido o objetivo da austeridade?  

Vejam que eu ainda nem li o livro da Clara, permitam-me a intimidade, mas já estou gostando de suas ideias provocadoras. Eu pensava, até então, que uma boa política de austeridade servia para conter e melhorar a qualidade dos gastos do governo. Como contribuinte, e cidadão, não me agrada ver o governo gastando fortunas com a compra de cloroquina e outros remédios para verme, com a pretensa finalidade de combater a covid-19, ou um sistema improdutivo de Justiça, ou com policiais no serviço burocrático.

Tudo isso enquanto as escolas são sucateadas, o calote dos precatórios é perpetrado, o SUS é degradado, e o escândalo do inconstitucional orçamento secreto é uma sangria desatada, sem sabermos quem está levando esses bilhões e para onde. Sem falar no uso da máquina governamental em períodos eleitorais, que todos – sem exceção – fazem, em maior ou menor grau, para se reeleger.

De qualquer modo, eu encomendei o livro de Clara Mattei e prometo escrever novamente sobre como a austeridade pode nos levar ao fascismo (porventura até saibam e não seja novidade). Eu achava que, depois de anos e anos com o país namorando o fascismo, já estávamos às portas – para não dizer imersos – no dito cujo.

Afinal, está escancarado o nós-contra-eles: os dossiês forjados, o aparelhamento do Estado, o gabinete do ódio, os fanáticos religiosos infernizando a nossa vida, o assédio político, o populismo, a compra de votos, os neossubversivos libertários atacando as instituições e os policiais, o controle político da polícia, o controle urbano das milícias, as fake news, a terraplana, os antivacinas etc etc.

Será que a professora Clara irá nos dizer que a austeridade conduz ao caos? E que o caos “justifica” a “ordem”? E que a “ordem” virá do estado-militar? E se o caos for artificial e vier das classes burguesas e não da base da pirâmide? Tomara que o livro de Clara Mattei tenha respostas. Algo me diz que não precisamos da austeridade, como política econômica pervertida, para chegar ao fascismo.

Descobrimos, depois de 35 anos de restauração democrática, que estamos de braços dados com o monstro. Encarando o abismo.


1 Professora assistente na New School for Social Research, Nova York, pesquisadora e autora de diversos artigos sobre economia e políticas sociais; uma estrela em ascensão no mundo acadêmico internacional, que anuncia o lançamento de seu primeiro livro.

2 Thomas Sowell, 82 anos, economista, crítico social, filósofo político norte-americano, Universidade de Stanford, autor de Os intelectuais e a sociedade, Conflito de visões e Fatos e falácias da economia.

3 O filme é Rosa Luxemburgo, de 1986, de Margarethe Von Trotta, sobre a vida da pensadora, filósofa, escritora e política, alemã de origem polonesa. Margarethe Von Trotta voltaria a dirigir, em 2012, a mesma atriz Barbara Sukova, desta feita no papel de Hannah Arendt, no filme Hannah Arendt – Ideias que chocaram o mundo.

 
09
Jul23

A economista que desmascarou a “austeridade”

Talis Andrade
 

 

Clara Mattei sustenta: “Falta de recursos” é armadilha ideológica. Dinheiro, os Estados criam o tempo todo. Corte de serviços públicos visa disciplinar as maiorias, forçando-as a aceitar qualquer trabalho

(Continuação)

A pesquisa aborda os primeiros anos do século 20 até a atualidade. E a austeridade esteve sempre presente, como você acaba de dizer, desde o período entreguerras, que é onde começa a pesquisa. Você disse que a austeridade foi uma ferramenta técnica e despolitizada para a ascensão de lideranças autoritárias. Por que unir Mussolini, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán e Giorgia Meloni, por exemplo? A pergunta é: “o que os une?”

É muito importante aqui dar um passo para trás. No livro, faço uma reconstrução da crise do capitalismo após a Primeira Guerra, há exatos 100 anos. Em 1919 e 1920, a população em geral tinha desistido do capitalismo, pensando que haveria um futuro melhor após a reconstrução pós-guerra. E todos esses experimentos que surgem de conselhos de trabalhadores demandam democracia econômica, o que significa que as pessoas estavam se reapropriando da produção e distribuição de recursos. Isso estava acontecendo concretamente.

Meu foco é o movimento de Antonio Gramsci, em Torino, L’Ordine Nuovo, em que é possível ver um esforço real não só para pensar diferente, como também para agir diferente. E só se podia agir diferente realmente pensando diferente e só se podia pensar diferente agindo diferente. Então é a importância da prática, de uma sociedade diferente nascer de experimentos dentro das fábricas e também no campo, em que as pessoas se reapropriaram dos meios de produção e da organização do trabalho.

Nessa situação explosiva, a burguesia ficou muito assustada. Porque, é claro, ela se beneficiava do capitalismo, queriam protegê-lo e qualquer forma de distribuição e democracia econômica teria significado, de certo modo, o fim dos seus privilégios. É nesse momento em que vemos emergir a austeridade como uma contraofensiva e aqui há dois fatores relacionados à sua pergunta. O primeiro é que os economistas participaram muito ativamente na construção de modelos econômicos supostamente “neutros”, teorias “neutras”, conhecimento científico, para dizer às pessoas que elas eram ignorantes, que elas não entendiam e, em suma, que estavam vivendo por conta própria e tinham que aceitar a verdade dura, como diziam, do trabalho duro e abster-se de consumir.

Então esse lema de austeridade, “consuma menos, produza mais”, foi imposto à população italiana e inglesa. Esses dois países são o foco dos meus estudos porque meu interesse é mostrar que a austeridade surge onde a democracia econômica é mais palpável. E naquele momento na Europa as pessoas tinham ganhado o direito ao voto, por exemplo. Mas o que se vê é uma aliança entre economistas e governos. Os economistas são convocados pelos governos para ajudar a impor à população a austeridade. E a austeridade veio em uma variedade de formas. Não foram só cortes de gastos, foi, em primeiro lugar, cortes de gastos sociais, taxação regressiva. Então houve aumento em impostos sobre o consumo, como ainda vemos no mundo todo hoje, mais impostos para pessoas físicas e corte de impostos para ricos e impostos corporativos ou sobre patrimônio etc.

Também se tratava de aumentar as taxas de juros, que também vemos hoje, ou seja, austeridade monetária, e, por último, aquilo que chamo de medidas industriais, que são ataques diretos a sindicatos, privatização, desregulação do trabalho e arrocho salarial. Então essa tríade da austeridade; fiscal, monetária e industrial; foi imposta à população também graças a economistas que estavam dizendo: “Este é o caminho certo a seguir e somos especialistas e objetivos”. Nesse sentido, fica evidente que os economistas desempenharam um papel bastante classista, participaram nessa guerra de uma classe contra o resto dos cidadãos e isso poderia ter sido feito de outro jeito, como foi na Inglaterra, onde a democracia liberal usou a austeridade contra seu povo e isso aumentou o desemprego e assim disciplinou os trabalhadores.

Eles tiveram que deter as greves, voltar ao trabalho com um salário bem menor e em piores condições. Voltando à pergunta, na Itália, vemos que Benito Mussolini, o fundador do fascismo, foi o mais eficiente implementador e aprendiz da austeridade. Mussolini chegou ao poder através de uma eleição, não um golpe, assim como Giorgia Meloni e Orbán hoje. Mas com uma intenção explícita de impor austeridade, dizendo às pessoas para não se preocuparem porque iriam fazer os cidadãos italianos pararem as greves, as reclamações e voltarem ao trabalho.

Agora, eu acho que hoje vemos muitos desses políticos “autoritários parafascistas” emergirem porque as pessoas estão insatisfeitas com a austeridade. A austeridade venceu a um ponto em que não há mais a noção de classe: as pessoas pensam que são indivíduos [isolados], e é uma típica mensagem de austeridade: “Não há classes, não há antagonismo, só indivíduos. E são os empresários que lideram a máquina econômica, não os trabalhadores.”

Então, no caso da Itália, para mim, Meloni chegou ao poder porque prometeu redistribuição de renda, e é claro que não cumpriu, porque assim que assumiu o poder mais uma vez impôs austeridade, como Mussolini e outros regimes autoritários. 

 

Sobre isso, você diz que a austeridade não teve sucesso em estabilizar a crise econômica, mas teve sucesso em estabilizar as relações de classe. Estamos vendo agora uma mudança global nas relações de trabalho. Os sindicatos estão enfraquecidos, perdendo poder em alguns países. Como poderíamos ver nascer uma nova organização de trabalhadores?

Tenho algumas ideias sobre isso. Em primeiro lugar, mesmo se existe essa ideia de que os trabalhadores estão enfraquecidos, isso se deve à ação da austeridade sobre nossa vida por mais de 100 anos. Ela foi muito bem-sucedida, como você disse. A austeridade não teve sucesso em atingir os objetivos estabelecidos de crescimento econômico e pagamento da dívida, mas teve muito sucesso em atingir seu verdadeiro maior objetivo: garantir que as pessoas não pensem que podem viver em outro tipo de sociedade, aceitem sua condição de trabalhadores assalariados. Mais uma vez, impondo a ordem do capital. E isso também é uma armadilha para a mente porque os modelos econômicos reafirmam que os trabalhadores não importam, só os empresários.

Então é justo e correto afastar os recursos dos preguiçosos e favorecer os supostamente meritórios. Eles oferecem justificativas para essas políticas de extração de todos nós. Claramente a austeridade teve sucesso e vemos que, historicamente, os trabalhadores perderam poder, o poder de barganha, o poder de imaginar um novo futuro. Dito isso, quero chamar atenção ao fato de que, no capitalismo, a luta de classes nunca para. É uma constante. Nosso sistema está em movimento, é um processo, não há nada fixo, mesmo que os economistas queiram que acreditemos que há algo fixo. Porque acreditar que algo é fixo nos desempodera e aprisiona nossa imaginação.

Então quero dizer que, é claro, existe um motivo por que a coisa não vai tão bem para os trabalhadores neste momento histórico, mas não é à toa que existem muitas mobilizações novas. Nos Estados Unidos, por exemplo, é o setor de serviços: pessoas em restaurantes, hotéis, em áreas em que normalmente o trabalho é muito precarizado e individualizado, estão agora se sindicalizando. Starbucks, Amazon, Chipotle. E isso está assustando muito as classes dominantes. 

Eu diria que estamos em um momento, na verdade, em que existe novamente certa turbulência. Claro, não é o espírito revolucionário de 100 anos atrás, mas há muita demanda por libertação. Respondendo a sua pergunta, me sinto muito esperançosa. Há pouco estive na África do Sul, apresentando o livro, e me organizei e me encontrei com ativistas das townships [áreas urbanas comparáveis a favelas]. As townships são lugares onde o apartheid ainda existe, em termos de precarização econômica. No entanto, há muita energia no território, muita gente das novas gerações que abandonou as velhas categorias e estão pensando o novo.

Acho que o importante, para avançarmos, é abrir espaço para essas iniciativas que buscam recuperar independência e autossuficiência. Trata-se de romper a principal armadilha, que é a dependência do mercado. O que quero dizer? Que a maioria de nós, para poder viver, precisa ter dinheiro no bolso. Se quiser comer, tem que comprar algo no supermercado. Se quiser morar, tem que pagar aluguel. Se quiser ser curado, tem que pagar pelos médicos. Se quiser ir à escola, muitas vezes tem que pagar. Este é o resultado da austeridade. A mercantilização de todos os aspectos da nossa vida para nos desempoderar cada vez mais. 

Acho que a primeira missão aqui é ser capaz de recuperar nosso poder através da organização, de conselhos, da vizinhança, de atividades locais, de formas de produzir e distribuir por nossa conta. Assim não dependeremos do salário dos capitalistas e não gastaremos nosso dinheiro em supermercados, para que o dinheiro não vá embora assim que entrar. Precisamos que os recursos permaneçam dentro da comunidade. E acho que esse é um primeiro passo importante para engajar as pessoas na ideia de organizar, colaborar e perceber que não é suficiente só votar nas eleições. Votar nas eleições é um ato muito superficial. E é algo que mantém viva a servidão econômica.

Então é preciso romper e combater a servidão econômica. E esse seria um primeiro passo em um projeto muito mais ambicioso, que vai além da democracia social. É a derrubada das relações salariais em si. Repito que isso está acontecendo. Está acontecendo nas townships, eu estive lá há pouco. Está acontecendo no Chile, onde os conselhos são fortes. Acho que está acontecendo no mundo todo, mas a mídia não fala disso. Mas é suficiente para se envolver, ir para a rua, conhecer sua vizinha, ver que essas realidades existem e a austeridade está aí justamente para parar esses processos. Mas nós precisamos lutar contra isso.

 

Você mencionou a viagem à África do Sul. Seu livro será publicado no Brasil no segundo semestre, editado pela Boitempo. Está preparada para esse tour ao redor do mundo?

Tenho um filho de 8 meses que está viajando conosco. Seria melhor não ter que me mover tanto, mas faço isso porque acredito no poder do conhecimento, em ajudar a levar processos adiante. Novamente, a mudança tem que vir de baixo, de quem está mobilizado. Mas acho que as bolsas de estudo de militância podem ajudar a desenvolver ferramentas para afiar a mente e o conhecimento sobre as estratégias inimigas. E é por isto que a História é útil, para abrir espaço a novas maneiras de fazer as coisas, para fomentar a imaginação política porque, no passado, houve muitos esforços para mudar a nossa sociedade. E ainda existem esforços assim e acho que meu papel é fazer a discussão avançar e dar esperança às gerações mais novas.

 

A ideia de ter um orçamento elevado é o debate central no Brasil hoje. Esse debate eterno torna impossível avançar em direção a uma agenda positiva para o país. Por outro lado, muita gente, incluindo o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, acredita que os juros altos vão barrar o crescimento econômico e que o controle da inflação não deveria ser o foco principal. Essa ideia sobre o orçamento primário tem a mesma origem que a austeridade?

Com certeza. É exatamente isto que a austeridade faz. Passa a mensagem de que não há alternativa. Equilibrar o orçamento é uma prioridade indiscutível. É uma prioridade neutra e necessária. Agora, sabe que a mensagem do livro não é que esses economistas estão necessariamente errados. Acho que em boa parte dos casos, principalmente em países do Sul, nos quais os limites do capitalismo são reais, é realmente um problema que a inflação esteja alta, que a moeda esteja desvalorizada. Mas isso dialoga com a violência econômica que é muito estrutural no sistema. Por isso a solução não é só fazer remendos no nosso sistema, com algumas reformas. Porque o estrangulamento é forte.

E é verdade que, sob o capitalismo, dependemos da confiança dos investidores para o crescimento econômico. E como você atrai investidores? Só se mantiver baixas as taxas sobre grandes riquezas e as taxas empresariais. Só se abrir às privatizações. O que ocorre agora é que grandes gestores de ativos estão comprando infraestrutura, imóveis, para tirar o máximo de taxas e renda, para aumentar o máximo possível as nossas necessidades diárias. Mas é exatamente isto que o Estado capitalista deve fazer, em suma, abrir-se a esses investidores privados. Essa é a realidade do sistema. É por isso que é muito idealista pensar que o Estado capitalista pode se opor a essas tendências global de austeridade. É por isso, repito,
que temos que encontrar formas através de processos de libertação da propriedade privada, meios de produção e relações salariais. Porque o capitalismo realmente nos aprisiona. Não sei se isso faz sentido.

Esse debate entre economistas soa, é claro, como se não fosse uma escolha política. E podemos dizer que obviamente é uma escolha política. Mas também é uma escolha restritiva porque são decisões políticas favoráveis à manutenção da estabilidade de certa forma de mercado capitalista, certo? E isso requer nossa subordinação às leis do mercado que nos estrangulam e beneficiam uma minoria muito pequena. Essas escolhas políticas são restritivas. Mas nós podemos pensar grande, querer mais que migalhas para manter o povo controlado. Precisamos pensar grande, pensar em realmente romper com a nossa posição de subordinação ao mercado.

 

Aqui no Brasil, em 2016, o governo, que aliás não tinha sido eleito pelo povo, criou um marco fiscal conhecido como “teto de gastos”. A ideia era controlar o orçamento e a relação entre gasto público e PIB. Na verdade, vimos uma drástica redução em investimentos sociais, como educação, saúde pública e outros programas sociais. Essa política de austeridade, junto a outros eventos do sistema político brasileiro, pavimentaram o caminho para a eleição de Jair Bolsonaro. Movimentos como esse poderiam dar lugar ao avanço de partidos de extrema direita?

Sim, esse é outro exemplo de que a austeridade não é um erro. Muita gente na esquerda diz que é fruto de uma economia ruim, que é um erro. Infelizmente, não é um erro. O que você descreveu mostra o sucesso da austeridade. As pessoas foram tão desempoderadas, que perderam seu senso de união de classe. Perderam a noção da luta coletiva contra o inimigo, que é a minoria que se beneficia do sistema, e terminaram votando por essa minoria que se beneficia do sistema. Porque a austeridade nos individualiza, nos convence que todos nós podemos ser empresários se nos esforçarmos e que deveríamos sentir vergonha de ser pobres. O motivo por que as pessoas votam em alguém como Trump é exatamente o sucesso da austeridade. Não acho que podemos culpá-las por votarem em Bolsonaro ou Trump. Deveríamos culpar a elite dominante, incluindo, infelizmente, o Partido Democrata [dos Estados Unidos] e todos os partidos supostamente progressistas que, de forma hipócrita, já vinham praticando a austeridade. 

A austeridade atravessa fronteiras partidárias. Infelizmente, aqueles que supostamente representam o povo, incluindo os sindicatos, apoiaram a austeridade, criaram a sensação de falta de esperança e de que deveríamos fazer o possível para nos salvar como indivíduos, sem olhar para o fato de que somos, na verdade, produtores, produtores coletivos que deveriam lutar contra a exploração e contra aqueles que nos exploram. Então é só através da recriação do senso de coesão de classe e da conscientização de classe que podemos nos libertar da armadilha de pensar que regimes autoritários vão nos salvar. Eles não vão. Mas o mesmo vale para partidos democratas, como o de Biden, que estão desfinanciando todos os setores sociais. Por toda parte.

“Sucesso da austeridade é o motivo de votarem em Trump e Bolsonaro” 

Clara Mattei, economista italiana e professora da New School of Economic Research, de Nova York que fala sobre o livro ‘A ordem do capital: Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo’, e explica os fracassos e os sucessos das políticas de austeridade (entrevista vídeo)

08
Jul23

A economista que desmascarou a “austeridade”

Talis Andrade

 

Clara Mattei sustenta: “Falta de recursos” é armadilha ideológica. Dinheiro, os Estados criam o tempo todo. Corte de serviços públicos visa disciplinar as maiorias, forçando-as a aceitar qualquer trabalho

 

A professora e escritora Clara Mattei é objetiva: já no título de seu mais recente livro ela fala da conexão direta entre austeridade econômica e o fascismo. Em The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism (ainda sem título em português – em tradução livre: “a ordem do capital: como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo”) ela destrincha essa relação. O livro será lançado no Brasil ainda este ano pela editora Boitempo.

Mattei foi a convidada do Brasil de Fato Entrevista desta semana. Ela contou sobre o processo para elaboração da obra, que é fruto de dez anos de estudo. Italiana radicada nos Estados Unidos (ela é professora de Economia na The New School for Social Research, em Nova Iorque), a pesquisadora cita personagens como Benito Mussolini, Donald Trump e a atual primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como frutos políticos de um caminho trilhado com apoio na lógica da austeridade econômica.

“Para o capitalismo funcionar, a maioria das pessoas deve estar desempoderada, precarizada e dependente do mercado. E é isso que a austeridade faz. Tira recursos da maioria das pessoas, que ganham dinheiro através de um salário, e entrega a uma minoria, cuja riqueza vem de patrimônios e rendas”, afirma ela, que destaca que a alternativa a esse sistema passa pela organização das pessoas em suas comunidades locais.

 

José Eduardo Bernardes

entrevista Clara Mattei

 

A senhora passou dez anos escrevendo o livro que nasceu da sua tese de doutorado. Como e quando decidiu se aprofundar neste assunto?

Tudo começou quando estava vivendo os anos de grande austeridade de Mario Monti, na Itália. Ele chegou ao poder após a crise da dívida soberana em nosso país e estava estudando e vivendo na pele, assim como a maioria das pessoas no mundo ainda vive hoje, os efeitos da austeridade, a redução de verbas para a educação e saúde pública. Vi as pessoas na Itália ficarem cada vez mais pobres a olhos vistos. Era um país em que não tínhamos pessoas morando na rua e as ruas estavam ficando cheias de gente. Não havia moradia.

 

Mas você passou dez anos pesquisando e procurando material em arquivos, certo?

Sim, é um trabalho em economia histórica e política. É baseado em fontes primárias e na reconstrução do passado através de uma nova perspectiva, analisando material que ainda não havia sido publicado. O tipo de debate sobre austeridade que estava ocorrendo na mídia, na política pública e até entre movimentos de esquerda era muito insatisfatório porque era muito apolítico.

Transformaram a austeridade em uma ferramenta técnica para gerir a economia e a discussão era se a austeridade estava ou não funcionando para equilibrar o orçamento e promover crescimento. Era um debate sem solução. E não muito útil para entender por que a austeridade continuava emergindo mesmo que claramente não estivesse gerando crescimento, nem ajudando a resolver a questão da dívida.

Então o estudo histórico é muito importante porque nos dá uma análise com perspectiva de classe que estava ausente no debate econômico contemporâneo, que era muito tecnocrático. A tentativa era então olhar para o que aconteceu 100 anos atrás e mostrar como a austeridade tem uma clara lógica política que visa manter todos nós em uma situação de precariedade, de dependência do mercado, desempoderando assim a população para que o sistema se proteja e mantenha a ordem do capital, que é o título do livro: A ordem do capital, para se manter intacto. 

Se olharmos para a história, isso só é visível porque aconteceu em um momento em que o capitalismo foi muito contestado depois da Primeira Guerra, e assim realmente vemos como a austeridade operava como uma contraofensiva usada pelas elites para impedir qualquer alternativa ao nosso sistema.

 

Na apresentação do livro, você fala sobre várias crises econômicas e políticas em países do mundo todo, já que essas crises e essa austeridade são intrínsecas à nossa sociedade moderna. Nos últimos anos, mais uma vez vimos uma crise do neoliberalismo no mundo todo, algo que já se dizia no início do século passado. Esse modelo econômico não é o mais adequado, certo?

Sim, com certeza. Estamos em outro momento em que as pessoas não acreditam no sistema, penso eu. Aliás, é por isso que a austeridade voltou com força total. Não só no Brasil. Eu moro nos Estados Unidos e o motivo pelo qual o Federal Reserve, o [equivalente ao] Banco Central, está aumentando a taxa de juros é porque a maioria das pessoas não está voltando ao trabalho.

Muitos trabalhadores estadunidenses, 46 milhões, em 2022, largaram seus empregos porque estão cansados da exploração e porque veem que o sistema não trabalha para eles e sim para uns poucos que enriquecem constantemente. Então é nessa situação que a austeridade deve voltar para nos convencer que, na verdade, estamos enganados e não existe outra saída a não ser através do sacrifício dos trabalhadores e, em última instância, do corte de salários para atrair a confiança dos investidores.

 

E o capital parece tentar se reestabilizar e se preservar o tempo todo. Mesmo diante de uma crise, os bancos, o sistema inteiro, e até os governos liberais, ainda tentam protegê-lo.

Com certeza. Mas acho que existe aí uma mensagem de esperança que surge quando levamos a História a sério: o capital não é fixo, não é algo dado e não é uma coisa, não é um objeto. É uma relação social e se traduz em uma maioria que aceita sua condição e aceita sua condição de vender sua capacidade por um salário.

A relação social não é de maneira alguma estática. É dinâmica e pode ser subvertida. É dinâmica e pode ser subvertida. Então a realidade é que a ordem do capital é muito frágil. E é por isso que a austeridade é tão cara a ela, porque a protege de todas essas demandas de transformação social que vão surgindo.

A mensagem aqui é que precisamos saber como a classe dominante opera para preservar um sistema injusto. Precisamos parar de idealizar o capitalismo como um sistema que pode ser reformado e que tem flexibilidade para incorporar nossas necessidades, e perceber que o capitalismo tem limites rígidos. É um sistema que só cresce e produz para gerar lucro e isso requer austeridade.

A tese central aqui é que a austeridade não é uma exceção no capitalismo, não é algo que só se vê nas etapas neoliberais, começando nos anos 80. Ela é muito mais intrínseca à longa história do capitalismo. Está no DNA do sistema exatamente porque, para o capitalismo funcionar, a maioria das pessoas deve estar desempoderada, precarizada e dependente do mercado. E é isso que a austeridade faz. Tira recursos da maioria das pessoas, que ganham dinheiro através de um salário, e entrega a uma minoria, cuja riqueza vem de patrimônios e rendas. (continua)

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