Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Set21

Ao sequestrar o Sete de Setembro, Bolsonaro certamente desagradou à caserna

Talis Andrade

golpe 7 setembro.jpeg

 

 

por Ricardo Bruno

- - -

Após se apropriar do verde e amarelo e da bandeira nacional, Jair Bolsonaro conseguiu ofuscar as comemorações da Independência Brasileira. Reduziu o Sete de Setembro a um espetáculo grotesco, beligerante, um revide público às instituições com viés profundamente antidemocrático.  O fez movido exclusivamente por interesses pessoais, num movimento em que sobrepôs as questões que o afligem – entre elas a possibilidade de prisão – aos valores de bravura e coragem historicamente evocados neste dia pelas Forças Armadas. 

A irresponsável subordinação dos grandes temas nacionais à pauta estreita do bolsonarismo certamente não agradou aos comandantes das tropas. A fala do general Carlos Alberto Santos Cruz de que o 7 de setembro foi sequestrado por interesses políticos não foi fortuita, fruto de um arrobo verbal disparado ao acaso. Ao contrário, representa com clareza a posição de setores importantes da caserna.

Em 199 anos de independência, pela primeira vez, um presidente da República - logo um ex -oficial do Exército Brasileiro - se coloca acima da Nação. Trata as questões penais que o adormentam com mais importância do que o conjunto de valores que dignificam a história das Forças Armadas e, de resto, do povo brasileiro. 

Historicamente, o Sete de Setembro é o momento em que as Forças Armadas exaltam a essência do patriotismo dos brasileiros, dada a importância do fato para a construção da identidade nacional. Os conceitos que fundamentam a independência constituem a base de nossa formação cívica. Nesta terça-feira, contudo, os compromissos inarredáveis de devoção pública à pátria e a seus símbolos  foram substituídos por achincalhes do presidente da República à Suprema Corte.  Assim,  valores cívicos basilares da Nação, os quais as Forças Armadas tradicionalmente exaltam e dos quais se orgulham em datas simbólicas, foram obnubilados pela fanfarronice presidencial. 

Ressalvadas as diferenças ideológicas e de caráter de seus protagonistas, a mobilização de Jair Bolsonaro para o Sete Setembro poderia ensejar a apresentação de medidas estruturais para a transformação do País, a exemplo do que fizera João Goulart com as reformas de base no comício da Central do Brasil. 

Ao juntar em praça pública a sua base de sustentação política, Bolsonaro poderia estar criando, hipoteticamente, as condições objetivas para apresentação de um conjunto de metas e diretrizes governamentais num ato altissonante em que supostamente obteria o aval popular para seus planos. Ainda que se discordasse de tudo que ele propusesse, seria inegavelmente um momento afirmativo do governo.

Nada disto aconteceu. É esperar demais de Bolsonaro. Minúsculo em tudo que faz, ele se ocupou apenas de uma contraofensiva retórica às investigações do STF que podem eventualmente levá-lo à cadeia. Capturou o sentimento pátrio do Sete de Setembro para promover uma patuscada cívica. Sequestrou valores nobres num movimento que, por baixo, malbaratou a história de bravura e coragem das tropas na construção da identidade nacional.

Ao fazê-lo, praticou crimes de responsabilidade aos borbotões numa cena pública deplorável para um país da importância e da dimensão do Brasil.

golpe berrante gado .jpeg

ditadura golpe movimento revolução .jpg

amarildo cabo soldado.jpg

 

04
Set21

Independência ou morte

Talis Andrade

 

por Miguel Paiva /Jornalistas pela Democracia

- - -

Escrevo este texto antes do dia 7 de setembro, o maior enigma político dos últimos tempos. Racionalmente e até com um certo desejo achamos que não vai acontecer nada, mas no fundo todos temos medo, não aquele medo que paralisa, mas o medo da quebra total de regras por parte da direita que quer ver o circo pegar fogo, literalmente.

Para este governo e para a ideologia que o acompanha isso é normal. Não há nada a construir nem mesmo a candidatura do presidente para 2022. Ele sabe que não terá fôlego e, portanto, só sobrevive com o golpe, e golpe hoje em dia tem um significado muito mais complexo. O bolsonarismo aposta na morte. É da morte que ele se alimenta apesar disso se parecer um paradoxo já que morte é fim. Mas várias mortes juntas, a morte como filosofia, acaba fornecendo o que eles querem. 

O fascismo sempre viveu dessa ideologia. Acabar com a política, com os políticos, com os pobres, com as minorias, enfim, com tudo para que o tirano possa governar com suas milícias de estimação impondo a morte como filosofia e como punição para os incautos opositores.

Mas a morte morre cedo. A morte não resiste ao instinto de sobrevivência das pessoas. Por mais que assuste por não entendermos o que acontece depois, se é que acontece, queremos distancia dela. Desde quando damos o nosso primeiro respiro queremos dar o próximo. 

Viver é instintivo para a maioria das pessoas, mas o instinto de morte, a ideologia da morte assusta e acaba arrebanhando seguidores que encaram a morte como solução, desde que seja a morte do próximo e não a sua. É uma espécie de loteria constante como filosofia de vida. Para quem não tem dinheiro essa acaba sendo mesmo uma saída. Acreditar em Deus, na loteria e no caso, no presidente enquanto ele não te escolher para o sacrifício divino. Somos todos cordeiros de Deus em potencial esperando o chamado para o juízo final em Brasília ou o sacrifício em qualquer viela de Rio das Pedras pelas mãos da milícia. 

Este é o medo que estabelece regras. Mesmo não durando, e a História está aí para provar, ele causa muitos estragos. Perdemos um tempo social irremediável. Andamos anos para trás e retomar o caminho tem um custo muito alto. Mesmo que Lula vença as eleições, o trabalho será enorme, mas a vontade de trabalhar também. Sair fora deste ambiente mórbido e perverso vai criar automaticamente uma alegria de viver. Reconstruiremos a vida no Brasil com prazer, passando pelo trabalho, pela saúde, pela cultura e pela liberdade de viver, não de comprar fuzil e não tomar vacina. 

Venceremos a Covid como seria normal em um país democrático e não teremos mais medo de festejar nas ruas. Por enquanto vamos para as ruas defender esse sonho que está ameaçado. E que as ruas voltem a ser palco de festas e não campo de batalhas como eles querem.

 

09
Ago21

Com escárnios e bizarrices em série, o Brasil virou um circo de horrores

Talis Andrade

Image

 

por Ariovaldo Ramos /RBA

O Presidente do Brasil ataca ministros do STF da forma mais grosseira possível. Os ministros reagem, segundo especialistas, com mão pesada demais, e suspendem a proposta de diálogo com os presidentes dos demais poderes. Um grande número de oficiais generais das três forças armadas foi agraciado com a patente de marechal ou congênere, reservadas só a heróis de guerra. Inclusive o coronel conhecido como um dos maiores torturadores da maligna ditadura, ganhou a patente de marechal.

Olhando para essa “promoção”, o Brasil, com esse governo, parece ter se tornado apenas uma republiqueta de bananas, daquele tipo em que os militares têm tudo porque sustentam o ditador no poder.

Um escárnio!

Outro desejo do governo federal foi satisfeito pelo Congresso: foi autorizada a privatização dos Correios, mais uma perda para o povo brasileiro. Isto para além do fato de que, graças a outra deferência do Congresso para com o governo federal, a Amazônia, na prática, foi entregue aos grileiros. E ainda há o risco de passar a lei que estabelece o marco temporal que, para além do que já sofrem os povos originários, descaracterizará a presença indígena, e condenará a muitos a não ter mais lugar, terminando o que os invasores portugueses começaram.

Ao mesmo tempo, o presidente da Câmara, mesmo contra parecer de Comissão que descartou a medida, colocará questão do voto impresso para decisão do plenário.

E, em meio à vergonha de viver a realidade de um presidente para quem governar é proferir ameaças, um pastor vem a público para defendê-lo e pedir intervenção militar. Outro pastor ainda fala em “perigo de guerra civil” se o Presidente for condenado de modo a perder o mandato.

O Brasil virou um circo de horrores!Image

 

07
Jun21

Imprensa internacional destaca decisão de realizar Copa América no Brasil em plena pandemia

Talis Andrade
Pichações dizem "Copa América não" e "Sem paz, sem futebol" na parede de um estádio em Bogotá em 19 de maio de 2021.
Pichações dizem "Copa América não" e "Sem paz, sem futebol" na parede de um estádio em Bogotá em 19 de maio de 2021. DANIEL MUNOZ AFP/Archives
29
Mai21

Despreparada, a CPI da Pandemia vira um fiasco

Talis Andrade

Charge do Dia: Charge do Dia: CPI da Covid | Tribuna Online

 

por Alexander Busch

É um grande circo político o que está ocorrendo em Brasília neste momento - mas com um pano de fundo sério demais para ser visto com diversão. Há exatamente um mês, uma comissão de investigação se reúne no Senado para documentar sistematicamente as falhas do governo na pandemia. Muitos na imprensa disseram que não havia necessidade da CPI. O argumento dos críticos é de que seria do conhecimento geral que o governo do negacionista pandêmico Jair Bolsonaro fracassou em todas as frentes, com 450 mil mortes até agora.CPI do Genocídio: Bolsonaro cada vez mais vulnerável - Outras Palavras

E de fato, com suas tiradas ofensivas diárias e aglomerações dominicais, o presidente continua a não deixar dúvidas de que não está nem aí para vacinação, uso de máscara ou isolamento social, e de que o destino de seus compatriotas lhe é bastante indiferente.

Mas depois de um mês, pode-se dizer: a CPI também é um fiasco. Ela não conseguiu atingir seu objetivo. Os resultados são vergonhosamente escassos. Após quatro semanas, o governo pode se vangloriar de ter lidado bem com uma situação arriscada. Depoentes aliados ao governo mentem sem restrições. Eles passam horas apresentando sua versão da realidade. Mas isso é de se esperar. Réus fazem isso para salvar suas peles.

O surpreendente, porém, é como aparecem os senadores e senadoras, despreparados e sem criatividade. Parece que eles não têm interesse real em reunir fatos que provem em detalhes que o governo está fracassando na pandemia. Por que eles não convocam representantes dos produtores de oxigênio para provar que o governo não se preocupou em fornecer tanques de oxigênio? Por que eles não entrevistam técnicos dos ministérios que podem fornecer provas detalhadas de que a encomenda de vacinas dos fabricantes foi boicotada a partir do topo? Esta lista de perguntas não respondidas poderia ser alongada o quanto se quiser.

Os senadores da "oposição" concentram-se na convocação dos representantes mais conhecidos e polêmicos do governo, que só fizeram uma coisa antes no cargo: mentir, seguir ordens e manter a boca fechada diante dos absurdos que o presidente e seus confidentes dizem diariamente.

Os senadores e as senadoras utilizam a CPI e a imprensa principalmente para a autopromoção. Muitas vezes, não fazem perguntas, e sim apelos vãos para si mesmos e para sua base - e concluem no final com uma pergunta simbólica. Perguntas rápidas rebatendo, contrainterrogatório de testemunhas, confronto com fatos? Isso não existe na comissão.

Parece que foi feito um acordo amigável nos bastidores para os participantes da CPI esquecerem sua ferocidade e tenacidade. Afinal de contas, as senhoras e senhores do Senado, de outra forma, provam quase diariamente nas lutas políticas internas no Congresso que podem ser astuciosos quando querem ser. Mas 2022 é ano de eleições, e eles precisam de fundos e projetos para seus bastiões eleitorais.

Tudo isso é um triste espetáculo. Especialmente quando se considera o que poderia ser feito. O Congresso é uma das câmaras legislativas mais caras do mundo. Cada um dos 81 senadores tem uma equipe média de 37 pessoas. Renan Calheiros, o relator da CPI, sozinho tem 51 assistentes e funcionários. Será que eles não poderiam pensar em nada para se perguntar na comissão?

Brasil 247 on Twitter: "Quem tem medo da CPI da Covid-19? | Por  @LatuffCartoons… "

12
Mar21

Pode isso, “Dr. Judiciário”?

Talis Andrade

“A história nega as coisas certas. Há períodos de ordem em que tudo é vil e períodos de desordem em que tudo é alto. As decadências são férteis em virilidade mental; as épocas de força em fraqueza de espírito. Tudo se mistura e se cruza, e não há verdade senão no supô-la.”

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

 

Era uma segunda-feira, 17 de março de 2014, quando o telefone tocou cedo. Uma operação da Polícia Federal. Nesses casos, a gente sempre espera para ver a dimensão da operação antes de aceitar qualquer cliente. Logo em seguida, 3 dias depois, foi preso Alberto Youssef. Mal sabíamos que ali seria o início da Operação Lava Jato, importante operação que viria movimentar o país, com resultados surpreendentes até virar uma operação política, conduzida por um juiz determinado a ser presidente da República, instrumentalizando o Poder Judiciário e tendo como pupilo um grupo de procuradores da República que instrumentalizavam o Ministério Público. Tudo isso com apoio da grande mídia e um forte esquema de marketing coordenando as ações e divulgações. Começava ali a maior fraude ao sistema de justiça do Brasil.

Dos três clientes que me procuraram, optei por advogar para Alberto Youssef. Já sabia quem ele era, bem como tinha conhecimento de quem eram Moro e seus pupilos procuradores, pois eu havia atuado na Operação Sundown, impingindo ao grupo de Curitiba a maior derrota que eles até então haviam sofrido. Conhecia a indigência intelectual e moral do grupo, que fazia tudo pelo poder. Mas agora, a briga seria muito maior. Os caipiras estavam com poder midiático de fogo e queriam ainda mais poder. A qualquer custo.

Não demorou para eu deixar a advocacia de Youssef pois, em setembro daquele ano, os procuradores, com medo de uma derrota, exigiram que Youssef desistisse de um habeas corpus lque impetrei para tratar da liberdade. Atitude canalha e covarde dos procuradores que se aproveitaram do momento de fragilidade de um cidadão preso. Ali, comecei a ver e a sentir os abusos daquela República de Curitiba que, cega pela mídia, se julgava salvadora da pátria. Escândalo anunciado e tragédia certa. Mas ainda não imaginávamos o estrago que seria causado à credibilidade da justiça brasileira. A grande Cecília Meirelles sempre nos salva:

“O rumor do mundo vai perdendo a força
E os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas de vidro, de seda de abraços difusos.”

Sentindo o cheiro dos abusos, vendo e ouvindo os personagens lúgubres que coordenavam o circo, criando fortes laços com a barbárie e com um golpe ao estado democrático, resolvi resistir. Eram muitos os absurdos: excessos de prisão, estupro das delações premiadas, achaques, juiz com jurisdição nacional, juiz parcial, enfim, o caos.

Um grupo de advogados resolveu debater, questionar, enfrentar o que já se anunciava como um bando de delinquentes. Sem maiores acessos à grande mídia, que até assessorava a gangue, resolvi cair no mundo e, 2 ou 3 vezes ao mês, ao longo dos últimos 5 anos, corri o Brasil de norte a sul para discutir o direito, a Constituição, as garantias, sempre recitando poesia depois dos debates para ridicularizar os bárbaros. Eles têm medo da literatura. Tive plateias de 4000 pessoas, outras de 200, pouco importava. Sem ser dono da verdade, seguia falando e desmontando esse grupo de golpistas, incultos, banais. Em cada cidade, após as palestras, sempre surgia um convite para entrevistas nos jornais locais, rádios, programas de TVs. Se era para apontar o esquema criminoso engendrado pela “gangue de Curitiba”, eu aceitava o convite.

E o bando se especializou em fraudar não só o sistema de justiça, mas em vender uma imagem de salvadores da pátria. Em 9 de setembro de 2015, escrevi um artigo na Folha de São Paulo, “QUE PAÍS QUEREMOS?”. Já em 2015, afirmei que não admitia que absolutamente ninguém, juiz, procurador ou policial, pudesse dizer que quer o combate à corrupção mais do que eu, mais do que qualquer cidadão sério. Mas, repetia eu um conceito que se transformaria num mantra: esse combate tem que ser dentro das garantias constitucionais, do devido processo legal e com a ampla defesa assegurada. A resposta a essa pergunta está no voto do Ministro Gilmar Mendes, proferido no julgamento da última terça-feira.

Muitas vezes, sentia o peso avassalador dos grandes interesses querendo nos esmagar. A verdadeira guerra travada na discussão que levou à vitória da presunção de inocência, no Supremo Tribunal, mostrou que o Brasil não é um país para amadores.

A força econômica, a grande mídia, o punitivismo exacerbado, a criminalização da política, a substituição de parte da política por uma proposta de não políticos, o controle da narrativa por parte dos medíocres de Curitiba, a falsa crença de que nós éramos contra o combate à corrupção e a favor da impunidade fizeram com que andássemos pelo País em busca de um sonho que a realidade insistia em negar.

Mas o debate e a palavra têm uma força devastadora quando nós sentimos a justiça do nosso lado, mesmo que grupelhos se apoderem inescrupulosamente da narrativa simbólica entre os “maus e os homens de bem.” Bando de medíocres que não se vexaram em brincar e zombar com a liberdade e as garantias constitucionais em nome de um projeto de poder. Lembro-me de Mário de Sá-Carneiro, no poema A Queda:

“E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la

Peneiro-me nas sombras- em nada me condenso…
Agonias de luz eu vivo ainda entanto.
Não me pude vencer
mas posso me esmagar.
– Vencer as vezes é o mesmo que tombar-

Tombei …
E fico só esmagado sobre mim.”

Na sina, na busca incessante por um mundo mais livre, mais justo e igual, começamos a ver cair os pilares de um projeto hipócrita, com viés fascista e demolidor, de um direito que representa a dominação e o obscurantismo. No julgamento da parcialidade do juiz e da força-tarefa de Curitiba, parecia que passava um filme dos melhores momentos dos últimos anos. Algumas frases dos votos nos remetiam a plateias espalhadas, ao longo de 5 anos, pelo imenso Brasil. Eu me reconheci ali naquelas frases, naqueles votos.

A decisão do Ministro Fachin anulando os processos por uma chapada incompetência do juiz nos remete às centenas de críticas feitas à jurisdição nacional ou universal de Curitiba. Nunca o óbvio demorou tanto a vir à tona. Mas veio, e lembrei-me do poeta: “é tarde, mas ainda é tempo”.

Agora, o projeto de poder desse grupo que procurou deslegitimar a política, que criminalizou os políticos e a advocacia, que corrompeu o sistema de Justiça e abalou a crença em um poder Judiciário justo, começa a ser realmente desnudado. O juiz e seus asseclas, os procuradores, delegados e advogados de araque que lhe eram submissos, devem também ser responsabilizados.

Não é hora de comemorar, pois estamos no pior momento deste horror da crise sanitária. O grupo fascista e orientado pela necropolítica, que cultua a morte, foi eleito e é filho legítimo da gangue de Curitiba, responsável pela dimensão da catástrofe. A visão covarde, canalha e negacionista levou o país a inacreditáveis 2.349 mortos em um só dia. Números oficiais, pois a subnotificação é brutal. Mais de 270 mil mortos. A banalização da morte, a ridicularização da dor da perda dos que sofrem, o sadismo e falta de empatia são a marca desses desalmados. Uma enorme e densa nuvem cegou a todos os que queriam ver. Uma nuvem que nos abraça, não o abraço da solidariedade, mas o que nos imobiliza e nos sufoca. Que tira nosso ar. Que, de tão densa, nos esmaga e não permite que a esperança saia e respire.

Mas, o enfrentamento dos abusos dessa operação fajuta e criminosa, que é o que se tornou a Lava Jato, há de ser um alento para o cidadão que viu a liberdade ser manietada, a dignidade ser usurpada e sentiu que um Judiciário corrompido politicamente consegue uma morte da cidadania tão angustiante como a morte física pela falta de ar. A irresponsabilidade que fez faltar o ar nos hospitais e nos pulmões é irmã siamesa da irresponsabilidade que sufocou o sistema de justiça. Escondo-me em T.S. Eliot:

“Súbito num dardo de luz solar
Enquanto a poeira se move
Aflora o riso oculto
Das crianças na folhagem
Depressa agora, aqui, agora, sempre
-Ridículo o sombrio tempo devastado
Que se estende antes e depois.”

 
 
 
 
 
 
30
Jan21

'Traidora, a Lava Jato militou contra seus concidadãos e levou o Brasil à ruína'

Talis Andrade

minha-luta .jpg

 

 

247 - Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), o professor Rafael Valim bateu duro na Operação Lava Jato pelas várias irregularidades reveladas nos últimos anos. 

"A Lava Jato é, sem dúvida alguma, o maior escândalo da história do sistema de justiça brasileiro. Os responsáveis por esse circo dantesco devem ser para sempre lembrados como traidores que militaram contra seus concidadãos e levaram o país à ruína", afirmou o professor.

A partir de junho de 2019, o site Intercept Brasil passou a divulgar trechos de conversas entre membros da Lava Jato e apontou que Sérgio Moro agia como uma espécie de assistente de acusação. O juiz e procuradores do Ministério Público Federal (MPF-PR) violavam a equidistância entre quem julga e quem acusa. 

Em abril de 2016, por exemplo, Moro disse ao então procurador Deltan Dallagnol que faltava uma informação na denúncia contra Zwi Skornicki, representante da Keppel Fels, estaleiro que tinha contratos com a Petrobrás.

Em fevereiro daquele ano, o então juiz também perguntou se os procuradores não tinham uma "denúncia sólida o suficiente" para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, denunciado sem provas no processo do triplex em Guarujá sete meses depois, em setembro - ao formalizar a acusação, o procurador Henrique Pozzobon admitiu que não havia "provas cabais" de que o petista era o proprietário do imóvel. 

lava-jato  erro.jpg

 

06
Abr20

Reinaldo Azevedo narra o grande milagre de Bolsonaro

Talis Andrade

jejum _fred.jpg

 

Podemos assistir nesta segunda, quem sabe?, ao "Grande Milagre do messias Bolsonaro".

Neste domingo, em que convocou a população a fazer jejum, o presidente dirigiu-se, como sempre, às portas do Palácio da Alvorada para conversar com apoiadores.

Provocou aglomeração, abraçou admiradores, fez selfies... Tudo o que não deve. Tudo o que não pode.

Convidado por um pastor, ajoelhou-se enquanto ouvia orações e cantos de louvor. Foi a vez, então, de o religioso determinar: a partir daquele instante, disse o homem, ninguém mais morreria de Covid-19 no Brasil porque o país estaria sendo, atenção!, abençoado por Deus e... por Bolsonaro! Leia mais aqui

jejum  _zedassilva.jpg

 

06
Abr20

Rien, por Luis Fernando Veríssimo

Talis Andrade

Representação da população parisiense realizando a tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789

No dia da Queda da Bastilha (14 de julho de 1789), o rei Louis XVI da França voltou à sua casa, Versailles, depois de uma caçada matinal, tomou (presumivelmente nessa ordem) um banho e seu café, e abriu o diário em que anotava os principais acontecimentos do dia, todos os dias. Na falta de um acontecimento notável, Louis XVI escrevia um pensamento e, na falta de um pensamento, recorria a trivialidades, como o número de animais abatidos no bosque do castelo, ou alguma observação de Maria Antonieta sobre os modos da corte, ou uma indisposição digestiva do próprio rei. Naquele dia, nem detalhes da caçada, nem intrigas da corte e nem cólicas mereceram uma citação real. Depois de encarar a página em branco do diário por alguns instante, com um certo tédio, Louis XVI escreveu:

“Rien”.

“Rien”, “rien” de “rien”! A história do mundo chegava a um dos seus cotovelos, quando tudo muda de direção, e Louis XVI não julgou o fato digno de nota. Mas esta crônica não é sobre a insensibilidade dos reis ou sobre a importância da eterna vigilância em quem não quer ser pego de surpresa pela História, e muito menos sobre a incompetência de quem deveria, pelo menos, manter o rei bem informado. Esta crônica é uma proclamação de inveja. Imagine-se morando em Versailles, onde as notícias do mundo real custam a chegar. Imagine-se um Louis XVI desobrigado de saber o pior, abençoado pela ignorância.

Imagine poder escrever “rien” em todas as páginas do seu diário, hipotético ou não, que tratariam da pandemia dos coronavírus e seus estragos se não tivéssemos renunciado à vida real ou assumido a inconsciência de um rei de França, que inveja. Como não podemos nos fingir de Louis XVI, também não podemos exigir os privilégios do seu trono e estamos condenados ao assunto único, esperando que o leitor entenda.

Se o assunto inescapável é repetitivo e trágico, acompanha-o um circo: um governo, pior do que sem cabeça, com muitas cabeças se batendo no picadeiro. Ninguém está rindo.

 

voto.jpg

 

23
Dez19

Jornalistas deviam evitar circo do Alvorada

Talis Andrade

 

censor censura jornalista militar indignados.jpg

 

Por Ricardo Kotscho

 
O circo montado há meses por Bolsonaro na entrada do Palácio da Alvorada foi dividido assim:
de um lado, o gradil do chiquerinho dos jornalistas, com uma plataforma de microfones, mantendo os repórteres à distância para a “entrevista coletiva”; de outro, bem ao lado, outro chiqueirinho para o “grupo de apoiadores” de camisas amarelas, que ficam batendo palmas e atiçando o capitão a bater pesado nos jornalistas.

Até hoje não entendi como as empresas e os profissionais podem se submeter a isso.

Na manhã desta sexta-feira, foi um festival de baixarias do presidente da República (!), que ficou completamente transtornado quando os repórteres lhe perguntaram sobre o caso Flávio & Queiroz.
 

laranja bolsonaro queiroz.jpg

 



Ao ser perguntado por um repórter de O Globo se tinha comprovante do empréstimo de R$ 40 mil que teria feito ao motorista Fabrício Queiroz, ele destrambelhou de vez:

“Oh, rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai, tá certo?”

Muito aplaudido por meia dúzia de debilóides que urravam, Bolsonaro se empolgou e partiu para o ataque contra outro repórter:

“Você tem cara de homossexual terrível, nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual…”

E foi por aí, até virar as costas e sair batendo o pé, indignado.

Se o presidente não se dá ao respeito, as empresas deveriam poupar seus profissionais de participar desse teatro grotesco e exigir mais civilidade nas “entrevistas coletivas”, que mais parecem bate-bocas de mesa redonda de futebol.

Não existe no mundo “entrevista coletiva” com platéia de apoiadores atrapalhando quem está ali para entrevistar o presidente sobre os assuntos quentes do dia.

Eu fui Secretário de Imprensa e Divulgação no começo do governo Lula, durante dois anos, e nunca aconteceu nada parecido a isso.

São testemunhas os repórteres setoristas que cobriam o Palácio do Planalto naquela época, que sempre foram tratados com o maior respeito pelo presidente e por mim.

Às vezes, é verdade, eu tinha que afastar algum microfone ou gravador, de algum repórter mais afoito, da boca do presidente, para colocar ordem na bagunça.

Mas nunca houve ofensa a nenhum profissional e todos tinham condições de fazer seu trabalho, repórteres e fotógrafos.

É preciso dar um basta nessa palhaçada.

Que organizem essas entrevistas no Palácio do Planalto, com regras civilizadas, sem platéia de áulicos e batalhões de seguranças intimidando jornalistas.

Os sindicatos, a Federação Nacional dos Jornalistas e a Associação Brasileira de Imprensa, entidades para as quais eu já fui eleito em outros tempos, deveriam zelar pela dignidade do exercício profissional.

Chega de baixaria!

Vida que segue.
 

jornalista imprensa marrom .jpg

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub