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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

28
Mar21

Signatários de carta terão de ver em Lula o mais capaz de bater Bolsonaro. Por Janio de Freitas

Talis Andrade

As ligações da Bolsonaro faroeste com a indústria da morte

 

Se banqueiros, empresários variados e economistas concluíram que apoio ao atual presidente é suicida, devem preparar-se para o impensável

Janio de Freitas /Folha

Se de fato os banqueiros, empresários variados e economistas signatários da Carta Aberta  concluíram que seu apoio a Bolsonaro é suicida, devem preparar-se para pensar em fazer o impensável.

Seu candidato à Presidência assustou-se com o retorno de Lula e já avisou seus inventores de que não trocará os auditórios de TV pelos palanques da candidatura. Sem a esperança de um milagre com Luciano Huck, os signatários da carta que enfim pressentem seu próprio desastre, não pela pandemia mas pela derrocada do país, terão de ver em Lula o mais capaz, senão o único, de bater o devastador Bolsonaro e os recursos eleitorais do governo.

Vista a perspectiva com objetividade, os signatários da carta e seus assemelhados não tiveram motivo para repelir Lula, em cujo governo obtiveram êxitos e um período de tranquilidade como em nenhum outro.

Só muito depois encontraram a corrupção na Petrobras para explicar a idiossincrasia, mas era um fato que, em inúmeros setores, nunca lhes foi estranho.

Ciro Gomes tem potencial para uma candidatura importante, mas tudo sugere que sua margem de incerteza é, e tende a se manter, muito maior que a de Lula em disputa com Bolsonaro. A preferência de Huck pelo ganho em vez do risco abre a Ciro Gomes portas largas. Não, porém, entre banqueiros e outros segmentos empresariais que o veem com notória desconfiança.

O machinho​

O Bolsonaro que vemos nestes dias é o mesmo valentão que, ao se ver abordado por um assaltante, sacou sua fulminante pistola Glock —e entregou-a ao bandido. Mas não só. Entregou também a moto. Bateu o medo então, bate o medo hoje. O Bolsonaro que voltam a ver em transformação, aceitando a máscara e propagando a vacina, é só o Bolsonaro acovardado. Com citações à derrubada até na celebração do próprio aniversário, que indicam onde e como está sua cabeça.

À falta de arma para entregar, servem os pescoços dos mais próximos paus-mandados. Eduardo Pazuello acha que foi degolado por pressão de Arthur Lira, presidente da Câmara desejoso de ver no cargo uma amiga do peito, ou cardiologista. O general obediente, na verdade, foi vítima da Carta Aberta em que economistas, banqueiros e outros empresários mostraram sua delicada discordância com o consentimento do governo à mortandade pandêmica. A chegada às 300 mil pareceu suficiente a ex ou ainda bolsonaristas para merecer-lhes algumas sugestões suaves.

O noticiário exibiu e falou de um Bolsonaro apressado para dizer-se, na TV, sempre adepto e praticante das providências mencionadas na carta. Mentiu como nos melhores momentos do seu cinismo.

Bolsonaro tinha mais do que pressa, aliás. Tinha pânico desde que soube da carta. Ao Congresso chegaram informações sobre seu estado, e isso se refletiu no passo vindouro: a reunião para constituir-se um pretenso comitê dos Três Poderes contra a pandemia. Não adiantou que só se selecionassem simpatias para o encontro: não deu para disfarçar o fracasso. Mas deu para comprovar o grau de desorientação vigente.

À impropriedade do convite que lhe foi feito, o presidente do Supremo, Luiz Fux, sobrepôs uma aceitação, embora efêmera, que embaralhava Executivo e Judiciário, em função estrita do primeiro. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, aceitou assumir uma coordenadoria que não lhe compete, para a qual não tem o saber científico conveniente, e nem se deu conta do que é o comitê desejado pelo grupo do Planalto: algo que lhe sirva de bode expiatório ou de laranja, conforme as circunstâncias. Como a função dada ao vice Mourão para a Amazônia.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, parece desejoso de esculpir nova personalidade política. Não há comparação sua com o antecessor, mas o crescimento de Rodrigo Maia, no mesmo cargo, é um exemplo estimulante. Lira não amenizou discordâncias na reunião e, ainda por cima, guardou a melhor surpresa para pouco depois. Ao voltar à Câmara, fez um discurso sobre a situação e suas propensões. Lançou-se às mais agudas considerações feitas fora do exasperado jornalismo, e por uns poucos políticos. Não faltou lembrar nem “a solução amarga, e até fatal”, que é o impeachment ao alcance da Câmara.

Com isso, lá se vai a doidice mais simpática e de conceitos mais engraçados no governo. Vai para apaziguar críticos parlamentares. Até um militar já se foi, o coronel Elcio Franco, segundo na caótica hierarquia militar do Ministério da Saúde. Ao general Braga, por exemplo, convém fugir de correntes de ar no Planalto. Quase qualquer um pode servir para Bolsonaro entregar os sucedâneos humanos de sua Glock e da moto.

Ainda que não seja o mais desejado, pode-se esperar por fatos até mais interessantes para daqui a pouco.Bolsonaro ao ser assaltado em 95: "mesmo armado me senti indefeso" |  Revista Fórum

O continuísta

Do novo ministro da Saúde: “Quem quer o lockdown? Ninguém quer lockdown”. É a nova voz de Bolsonaro e Pazuello, portanto. Marcelo Queiroga ainda não conhece os resultados europeus e asiáticos do confinamento. Mas poderia ter deduzido, com menos bolsonarismo a orientá-lo, que, se as pessoas não se oferecem ao vírus nas ruas e outras proximidades humanas, o bicho não tem como infectá-las.

O nosso lugar

Brasil: mais de 300 mil mortos, é muito difícil imaginar essa quantidade. Quase 7.000 na espera desesperada de um leito em UTI. No estado da riqueza, três mortos asfixiados por falta de oxigênio. E quatro na fila do último sopro de vida. No Distrito Federal da presunçosa e riquíssima Brasília, corpos mortos esperam a remoção, alguns por 24 horas, no chão de unidades de saúde e de hospital regional.

Vai piorar, advertem cientistas brasileiros e estrangeiros. Até quando o país tolerará a omissão das classes e dos políticos que controlam o país, eis a incógnita.

Transcrição, em Toda Mídia por Nelson de Sá, de frase em reportagem sobre a pandemia na rede pública de rádio dos EUA: “O Brasil parece o pior lugar do mundo”.

07
Fev21

Ponto de Vista: Folha, Datafolha: a fraude monumental e a normalização do golpe

Talis Andrade

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por Sylvia Debossan Moretzsohn /objETHOS

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Reprodução Tijolaço

 

Quando a Folha de S.Paulo publicou, na manchete de sua edição de domingo (14/7), uma pesquisa que destacava o apoio de metade da população brasileira à permanência de Michel Temer na presidência, muita gente estranhou. Afinal, outras pesquisas – inclusive do próprio Datafolha – apontavam rejeição em torno de 60% ao personagem que conspirou para afastar do poder sua companheira de chapa. Essas pesquisas também indicavam mais ou menos o mesmo percentual de respostas favoráveis a novas eleições. Como seria possível que as expectativas tivessem mudado tão subitamente?

A resposta não demorou muito. No dia 20, reportagem de Glenn Greenwald e Erick Dau, do Intercept, e de Fernando Brito, do Tijolaço, esclareciam tudo.

Tratava-se de uma fraude. Uma fraude monumental, que coincide com um claro movimento da mídia hegemônica para a normalização do golpe.

Uma das perguntas da pesquisa era: “Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018?”. Era óbvio que a pergunta propunha apenas duas possibilidades. Como Greenwald e Dau observaram, as pessoas “disseram apenas que essa seria a melhor opção se a única alternativa fosse o retorno de Dilma. Além disso, simplesmente não procede alegar que apenas 3% dos entrevistados querem novas eleições, já que essa pergunta não foi feita. O que aconteceu foi que 3% dos entrevistados fizeram um esforço extra para responder dessa forma frente à opção binária entre ‘Dilma retorna’ ou ‘Temer fica’”.

O jornal, entretanto, ignorou esse pequeno detalhe e distorceu completamente o sentido dessas respostas, apresentando-as como se os entrevistados tivessem respondido a uma pergunta bem diferente, estampada na primeira página – com o atrativo das figurinhas coloridas do infográfico – e reproduzida em página interna: “O que seria melhor para o país?”, com a fantástica dianteira de Temer (50%, contra 37% de Dilma), e apenas 3% dos que pediam novas eleições.

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Reprodução: The Intercept

Os repórteres do Intercept então especulavam sobre o verdadeiro contingente dos que desejavam a antecipação das eleições, pois ainda não tinham as informações descobertas por Fernando Brito: esse percentual era de 62% e constava de uma tabela que o Datafolha simplesmente havia omitido em seu relatório inicial. A pergunta era: “Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a presidência da República ainda neste ano?”.

“Não foi a única pergunta ‘abduzida’ do relatório”, informou o jornalista. “Também foi tirada a questão sobre a legalidade/ilegalidade da condução do impeachment – que apontou 49% para a primeira opção e 37% para a segunda. Talvez alguém tenha achado ‘pouco’”.

 

A pista do escândalo

 

O Intercept informou que a matéria da Folha começou a desabar quando Brad Brooks, correspondente chefe da Reuters no Brasil, “observou uma enorme discrepância: enquanto a Folha anunciava em sua capa que apenas 3% dos brasileiros queriam novas eleições e que 50% queriam a permanência de Temer, o instituto de pesquisa do jornal, Datafolha, havia publicado um comunicado à imprensa com os dados da pesquisa anunciando que 60% dos brasileiros queriam novas eleições”.

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Reprodução The Intercept

 

Entretanto, no relatório do instituto, não havia nenhuma informação relativa a esse percentual.

Fernando Brito desvendaria o mistério. Ele observou que o endereço URL do documento do Datafolha terminava em “v2”. Era, portanto, uma segunda versão. Como não encontrou a versão original no site do instituto, começou a “tentar adivinhar” o endereço da primeira versão, até que achou. “Embora a versão original tivesse sido retirada do ar pelo Datafolha”, diz o Intercept, ela “ainda se encontrava nos servidores do instituto”. Quando encontrou o endereço URL correto, o Tijolaço obteve o documento.

Brito esclareceu em seu site: “Houve uma segunda versão do relatório – veja aqui – na qual a pessoa encarregada de eliminar as ‘inconveniências’ se distraiu e deixou a chamada para ‘nova eleição’ no subtítulo, o que me deu a dica para ir atrás do primeiro arquivo. Mas foi a única distração. O resto foi escondido de forma deliberada, em verdadeira fraude aos leitores”.

O jornalista mencionou ainda a supressão integral de dois parágrafos inteiros da análise dos resultados, que constava no documento. Reproduziu o texto:

O Datafolha também consultou os brasileiros sobre a possibilidade de uma nova eleição presidencial neste ano, caso Dilma e Temer renunciassem a seus cargos, e a maioria (62%) declarou ser a favor de uma nova votação para o cargo de presidente. Uma parcela de 30% é contra a hipótese, e 8% são indiferentes ou não opinaram. A realização de uma nova eleição tem mais apelo entre os jovens de 16 a 24 anos (68% favoráveis) e na faixa de 25 a 34 anos (também 68%). Entre aqueles que consideram o governo Temer ótimo ou bom, 50% são a favor de nova eleição, e 44%, contra. 

Questionados se o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição, 49% disseram acreditar que as regras e a Constituição estão sendo seguidas. Uma parcela de 37% discorda e acredita que estão sendo desrespeitadas, e 14% não opinaram. Na parcela dos mais escolarizados, 58% avaliam que o processo de impeachment da petista segue as regras democráticas e a Constituição, índice que cai para 40% entre os menos escolarizados (neste segmento, 37% aderem à tese contrária e o índice dos sem opinião sobe para 23%)”.

Em outro texto, no mesmo dia 20, Brito reiterava: “É um enorme escândalo, comprovado com documentos, e joga um facho de luz sobre como se faz manipulação da opinião pública com pesquisas. Não são acusações:  é uma prova, concreta, material, indiscutível de que se sonegou informações ao público”.

Sobre manipulação da opinião pública, aliás, o Tijolaço já havia publicado longo artigo de Letícia Sallorenzo no dia 19, expondo as artimanhas de uma pesquisa que misturava a avaliação do governo Temer com o índice histórico de confiança – que supostamente mede “o sentimento dos brasileiros em relação ao país” –, a intenção de voto em 2018 e a opinião sobre a Previdência, e de quebra metia no meio uma avaliação do desempenho do juiz Sérgio Moro.

No dia 21, Fernando Brito detalharia melhor os passos da sua investigação e mostrava que, além da “sorte, um pouco de palpite” e da necessidade de “estar ligado” e “não aceitar o que não faz sentido”, importava ressaltar que todo trabalho é coletivo.

 

Uma “justificativa” cínica

 

O escândalo levou a Folha a se pronunciar – e a maneira como o fez evidenciou essa mistura de cinismo e canalhice que marca o jornalismo aliado ao golpe.

Num texto sobre o que chamou, candidamente, de “polêmica”, publicado on line na noite do dia 20 e na edição impressa do dia seguinte, o jornal trazia as “explicações” do editor executivo, Sérgio Dávila, e do diretor do Datafolha, Alessandro Janoni. “O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta”, disse Dávila.

Se essa possibilidade não é mais levada em conta, por que incluí-la numa pesquisa?

Sobre a óbvia manipulação da pergunta original feita pelo Datafolha, que provocou o resultado falseador de apoio majoritário à permanência de Temer, nenhuma palavra. Já a exclusão de algumas questões do relatório da pesquisa obedeceriam, como é praxe, a critérios editoriais. Foi o que Dávila reiterou, afirmando que “é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”.

Curioso critério, entretanto. Pois é evidente que a publicação do percentual verdadeiro sobre os defensores de novas eleições simplesmente derrubava a tese que o jornal pretendeu impor: tratava-se da ligeira diferença entre 3% e 62%.

Já Alessandro Janoni conseguiu produzir uma afirmação espantosa: “Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência”.

Notável “transparência”, que omite informações essenciais no próprio relatório de pesquisa. Quanto à ausência de erro, não há dúvida: o que houve foi mesmo uma fraude. Uma fraude escandalosa, indiscutível, indesculpável.

A falta de constrangimento diante das evidências, o despudor em mentir descaradamente, é algo assustador.

Finalmente, a matéria informava o link de acesso para a íntegra do levantamento, mas nessa “íntegra” ainda havia um buraco entre a pergunta 14 e a 21.

Em suma, uma mentira atrás da outra.

No mesmo dia, O Globo saía em defesa de seu concorrente-parceiro, com o mesmo eufemismo sobre a “polêmica” provocada pela pesquisa, tentando já no subtítulo desqualificar as críticas, atribuídas a “blogs pró-Dilma”. (Que o Intercept seja incluído nessa classificação talvez seja mais um dos surpreendentes critérios adotados por nossa imprensa, sempre tão criativa).

Já o El País, embora também falasse em “controvérsia” e em informações apresentadas “de maneira imprecisa” – e não na evidente fraude –, puxava para o título a informação correta: “62% apoiam novas eleições, diz dado que Datafolha publica agora”.

 

O efeito multiplicador e a normalização do golpe

 

A primeira reportagem do Intercept demonstrava bem a gravidade do que ocorreu. “Não se pode subestimar o impacto dessa pesquisa. É a única pesquisa de um instituto com credibilidade a ser publicada em meses. Sua publicação se deu exatamente antes da votação final do impeachment no Senado. E contém a extraordinária alegação de que metade do país deseja que o Michel Temer permaneça na presidência até 2018: uma manchete tão sensacionalista quanto falsa”. Os repórteres apontavam o efeito multiplicador daquela “notícia”, reproduzida, como seria esperado, em outros jornais e sites jornalísticos – sem contar os programas televisivos, como o Fantástico.

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Restaria assinalar que o que não pareceu “jornalisticamente relevante” aos olhos do editor executivo da Folha é nada menos do que decisivo na tentativa de reverter o impeachment: como lembrou o El País em reportagem anterior, a adesão popular à tese da convocação de novas eleições é uma das últimas possibilidades para a presidente afastada tentar obter os votos que lhe faltam no Senado.

 

A “normalização” do golpe

 

Não é difícil concluir que a fraude agora desmontada foi mais um passo – no caso, especialmente arriscado – na tentativa sistemática que a mídia comprometida com o golpe vem fazendo para dar o impeachment como fato consumado. Seja escondendo notícias favoráveis a Dilma – os “critérios jornalísticos” dos principais jornais do país não viram motivo para manchete, nem mesmo para chamada de primeira página, na decisão do MPF de arquivar o processo criminal sobre as “pedaladas fiscais”, que estão na base do pedido de impeachment –, seja promovendo a “agenda positiva” do governo interino. No dia 20 de julho, por exemplo, o colunista Elio Gaspari se derramava em elogios: “Com serenidade, Temer conseguiu estabilizar seu governo”. A própria manchete da Folha na reportagem fraudada, sublinhando o “otimismo” com a economia, é outro exemplo.

Nossa imprensa tem um longo histórico de deturpações escandalosas, no qual a famosa edição do debate entre Lula e Collor, pelo Jornal Nacional, no segundo turno das eleições de 1989, ocupa lugar de destaque. A Folha, que chegou a ser o “jornal das Diretas”, em 2009 virou o jornal da “ditabranda” e da ficha falsa da Dilma – o documento atribuído ao DOPS foi imediatamente contestado e se revelou uma montagem, mas o jornal insistiu numa esfarrapada justificativa para o suposto “erro”. Já então insinuava o discurso sinuoso incompatível com uma publicação que se preze: “a autenticidade [da ficha] não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nos últimos anos, a guinada à direita se radicalizou, culminando com a contratação de um adolescente político líder de um movimento golpista para escrever uma coluna semanal – ainda que “só no site”, como se isso fosse atenuante.

Se tivéssemos uma legislação que regulasse o exercício do jornalismo, provavelmente estaríamos em boas condições de contestar judicialmente essa monstruosa fraude cometida pela Folha. De qualquer forma, o desmascaramento dessa manipulação escandalosa abala diretamente tanto o jornal quanto seu instituto de pesquisa, naquilo que, para ambos, é um valor fundamental: a credibilidade.

É assim que uma publicação outrora referencial trilha o caminho de uma vergonhosa decadência.

[leia também: A fraude da Folha, a ombudsman e a objetividade da crítica]

 

26
Jan21

Bolsonaro não é só mentiroso, ele despreza a vida

Talis Andrade

Jair Bolsonaro tem a compulsão da mentira e a frieza da insensibilidade.

Hoje disse “já somos o sexto país que mais vacinou no mundo” e que “brevemente estaremos nos primeiros lugares, para dar mais conforto à população e segurança a todos, de modo que a nossa economia não deixe de funcionar”.

Além da mentira (porque somos apenas o 50° país em percentagem da população vacinada. como você vê na tabela interativa do site Our World in Data, aqui), há, mesta frase, crueldade.

Então a importância da vacina que pode impedir a morte de mais de mil brasileiros por dia é “que a nossa economia não deixe de funcionar”?

As quase 220 mil mortes, para ele, não são dramáticas, não emocionam, não precisam ser as últimas que vão ceifar pais, mães, irmãos, companheiros, mas apenas um prejuízo dos negócios?

Um homem assim não tem a menor condição de liderar um país, menos ainda numa situação de guerra sanitária como a que nos encontramos.

Os generais brasileiros estão tendo todos os avisos possíveis de que passaram a servir a um genocida, a um organizador de milícias fundamentalistas, a quem é desperdício pedir moderação e foco na saúde da população, pois tudo o que concede dizer – “lamento, mas fiz o que era possível” – é mero cinismo e hipocrisia.

Sangue frio, uma virtude, não é o mesmo que alma fria, uma abominação que retirar a humanidade do comando, para o qual a vida dos comandados é apenas um mero detalhe, desprezível, em seus objetivos.

 

30
Dez20

Acordo podre e cretinismo parlamentar

Talis Andrade

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Políticos de direita, como Maia e Baleia, mentem com grande cinismo: são profissionais hábeis na enganação

 

por ANTÔNIO AUGUSTO /Opera Mundi

Partidos de esquerda como o PT e o PCdoB atolam-se cada vez mais no “Bloco do Maia” na eleição para a presidência da Câmara e, em reunião nesta segunda-feira, praticamente garantiram apoio ao golpista Baleia Rossi (MDB-SP), indicado por Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Baleia foi golpista de carteirinha no “impeachment” da presidenta Dilma e é homem de confiança de Michel Temer.

Políticos de direita, como Maia e Baleia, mentem com grande cinismo.  

As articulações para submeter a esquerda à direita e democratas a golpistas na eleição da Câmara tomaram corpo na sexta-feira (18/12), com o manifesto mentiroso dos 11 partidos (DEM, PSDB, MDB, PSL – o 17 de Bolsonaro na eleição -, etc), incluída a adesão de PT e PCdoB, do PSB e PDT.

Neste manifesto se diz que “alguns buscam corroer e fechar nossas instituições, nós aqui lutamos para valorizá-las. Enquanto uns cultivam o sonho torpe do autoritarismo, nós fazemos a vigília da liberdade”.  

São “belas e altissonantes palavras”. Só têm um “probleminha”: são falsas de A a Z.

“Valorizar as instituições”, “fazer a vigília da liberdade” para golpistas como Maia, Baleia, Temer, deputados como Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) (presente na articulação) são palavras bonitas para definir, segundo eles, crimes reais contra a liberdade como o golpe de 2016 que afastou a presidenta Dilma Rousseff.

São profissionais hábeis na enganação.

Para eles, não é combater “o sonho torpe do autoritarismo” levar adiante nenhum processo de “impeachment” contra Bolsonaro. E não faltam motivos: desde a apologia diária da tortura pelo extremista no Planalto ao descaso na epidemia que já aproxima o número de brasileiros mortos a 200 mil.

Os “heróis” deste “manifesto” chamam golpismo de “união da democracia com a liberdade”.

Qual “democracia”, quando Bolsonaro desrespeita diariamente a Constituição e põe instituições como o Ministério da Justiça e a Polícia Federal a serviço da impunidade da própria família? Nada sobre os mandantes do assassinato de Marielle Franco.

Qual democracia, quando aumenta a espionagem contra cidadãos brasileiros de oposição, fortalecem-se mecanismos de polícia política, sem nenhuma resposta da gestão Maia na Câmara?

Qual “liberdade”, quando a supressão do auxílio-emergencial joga na iminência da mais negra miséria dezenas de milhões de nossos irmãos?

Dizem que são contra os “devotos de fake news”, mas os partidos de direita do bloco do Maia não perdem oportunidade de assegurar a “culpabilidade” de Lula, motivo segundo eles para impedir definitivamente a recuperação dos plenos direitos políticos do ex-presidente.

Com “democratas” assim estamos arrumados. Estranho é que partidos da oposição popular, como o PT e o PCdoB, tenham compactuado e dado um cheque em branco para tal mistificação contra o povo.  Já seria estranho que partidos de “oposição”, como PSB e PDT,  de “esquerda" (?), assinassem tal manifesto, quanto mais partidos de base mais popular como PT e PCdoB.

Acordo podre

Tudo em nome de um acordo completamente podre que avançou ainda mais nesta segunda-feira (28/12), quando PT e também PCdoB, PSB e PDT (bem menos oposicionistas), assinaram nota conjunta comprometendo-se ainda mais em apoiar o golpista Baleia Rossi e praticamente descartaram lançamento de candidatura própria da oposição a Bolsonaro.

Acordo podre em nome do mero funcionamento da Câmara dentro de normas regimentais.

Não se esqueçam, senhores oportunistas, os golpistas têm maioria lá e não fizeram outra coisa desde a preparação do golpe de 2016 até hoje do que passar o trator contra democratas. Voltarão a fazê-lo.

E o que se cede, em troca de ganhos meramente no âmbito do cretinismo parlamentar, sem nenhuma política de mobilização do povo por suas reivindicações?

Diz a nota, fértil em “belas palavras” abstratas, omissa e capitulacionista nas indispensáveis medidas concretas: “Nós, dos partidos de oposição, temos a responsabilidade de combater, dentro e fora do Parlamento, as políticas antidemocráticas, neoliberais, de desmonte do Estado e da economia brasileira, e de lutar para que nosso povo possa ter resguardados seus direitos à vida, à saúde, ao emprego e renda, à alimentação acessível, à educação, entre outros direitos essenciais”.

O "fora do Parlamento" entra aí só para escamotear o exclusivismo cretinismo parlamentar, totalmente só dentro do Parlamento.

Como assim? Se não se propõe nenhuma luta contra o genocida “teto de gastos” sociais (teto só contra o povo, porque não há limite para dar dinheiro a banqueiros)? Como assim, medidas em defesa da Economia e do Estado brasileiro, se não se aponta ao povo a destruição privatista em curso da Petrobras, a entrega do Pré-Sal? "Teto de gastos" ligado indissoluvelmente ao golpe de Estado de 2016.

Como assim, “direito ao emprego e renda”, se se considera fatos consumados e irreversíveis à “legalidade” golpista que propiciou "o teto de gastos", a liquidação de direitos trabalhistas?

É isso que é a “união da liberdade com a democracia”? Com Maia, com o Baleia do Temer, com golpe, com tudo, com não reação ao achincalhe diário de Bolsonaro pela destruição da democracia? Com a viabilização cotidiana do programa de destruição econômica  neoliberal de toda a direita, de Guedes e Bolsonaro, de Maia e da Globo? 

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24
Nov20

Em sinal de desespero, Sebastião Melo parte pra pistolagem política contra Manuela

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

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Nas aparências e na superfície do debate público, a direita de Porto Alegre simula a decência, a civilidade e o bons modos que na vida real não possui.

No subterrâneo das redes sociais e das mídias digitais, entretanto, esta mesma direita vista por inteiro promove terrorismo misógino, machista, fascista e racista contra Manuela D’Ávila, a candidata progressista e de esquerda.

Este comportamento não deixa de ser coerente. Afinal, a direita age assim mesmo na “vida privada”. Eles fazem no escuro da tal “privacidade” escondida tudo o que evitam fazer em público, para não verem sua hipocrisia e cinismo desmascarados.

O estoque de baixarias empregados contra Manuela não tem limites. Abarca desde fantasias delirantes sobre a expropriação da casa das pessoas, até sugestões de estímulo à pedofilia e insinuações machistas e misóginas impublicáveis.

A maquinaria bolsonarista e do MBL usada contra Manuela na eleição presidencial de 2018 revela-se intacta neste pleito municipal.

Com a diferença, contudo, que nesta eleição a pistolagem política é pilotada diretamente pela campanha de Sebastião Melo, que tem como vice Ricardo Gomes, o fundador e coordenador do MBL no Rio Grande do Sul.

Na eleição municipal de 2016, Melo acusou o mesmo MBL, então coordenado pelo seu atual vice, de ter levado à morte seu coordenador de campanha Plínio Zalewski. Na época, Melo acusou o MBL de terrorismo psicológico, e denunciou que “Plínio estava sendo imolado pelo Movimento Brasil Livre”.

Nesta eleição, como se vê, Melo foi precavido. Ele reuniu na sua aliança conservadora, reacionária e ultraliberal toda bandidagem política que causou sua derrota na disputa contra o tucano Marchezan Júnior em 2016.

Eles tiraram Fortunati do caminho e, hoje, ficaram todos – a direita e a extrema-direita, em ordem unida contra Manuela – aboletados com Melo.

No 1º turno desta eleição, a justiça mandou o facebook derrubar mais de 530 mil notícias falsas e calúnias que tentavam atingir a honra e a história de Manuela na vã ilusão de que, com patifaria e vilania política, conseguiriam derrotá-la. Mas eles outra vez fracassaram.

Nos últimos dias, a campanha do Melo propagou entre apoiadores um áudio sobre reunião do seu vice Ricardo Gomes/DEM com dirigentes do SINDUSCON, o poderoso sindicato patronal da construção civil, que tem interesses inconfessáveis nas mudanças do Plano Diretor da cidade que, por Lei, deverão obrigatoriamente ocorrer no próximo ano.

Nesta reunião, os predadores da cidade conclamavam a matilha bolsonarista a não deixar de votar no próximo dia 29, “porque se entrar essa vadia aí vai ser um problema muito sério para a cidade”.

No programa eleitoral de TV desta 2ª feira, 23/11, o programa do Melo afundou ainda mais o pé no esgoto e na pistolagem política.

Com uma narrativa embolorada e típica dos tempos da guerra fria, Melo ressuscitou velhos fantasmas do anticomunismo e do antipetismo, e não conseguiu disfarçar o pânico maior, de que uma “mulher comunista” venha a governar a capital gaúcha e interromper o revezamento de 16 anos dos partidos da direita na gestão destrutiva e neoliberal de Porto Alegre.

Esta semana derradeira da campanha eleitoral será dramática e tensa.

De um lado, a direita cada vez mais extremista e fascistizada, que emprega meios sujos para tentar barrar a possibilidade de mudança; e, de outro lado, a mudança que tem um apelo cada vez mais irresistível no meio popular, com Manuela e Rossetto.

No dia 29, saberemos se o projeto que representa a esperança e a decência conseguirá vencer a vilania e a pistolagem política.

 

25
Out20

É humilhante que o país continue suportando a vergonheira nos seus Poderes

Talis Andrade

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O Brasil não tem governo e é difícil saber o que lhe resta

 

por Janio de Freitas

Bolsonaro teve uma ideia. Ofertou-a a você, eleitor talvez inseguro entre os possíveis destinos do seu voto. Bolsonaro criou a chave atualizada para o voto justo, consciente e consequente. “Você quer reeleger um cara ou não. Vê o que ele fez durante a pandemia. Vê se você concorda com as medidas que ele tomou, se fez o que você achava que tinha que fazer ou não. E você decide o seu voto.”

É uma chave suficiente para lançar a ambição reeleitoral e o próprio Bolsonaro, e antes alguns prefeitos, na famosa lixeira da história. É ainda a resposta do eleitor a quem o abandona aos piores riscos, se não já à vitimação perversa, à ausência inapagável de familiares. É a resposta necessária para compensar, ao menos no plano individual, o escapismo acovardado e vendilhão dos apelidados de autoridades institucionais. As figuras minúsculas incumbidas de resguardar a população, e seu país, da sanha louca que não os quer sob a proteção nem de incertas vacinas.

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Surpreendo-me no dever de dar a João Doria o reconhecimento da única reação adequada ao desaforo feito ao país por Bolsonaro. “Não abrir mão” da sua “autoridade” para cancelar uma providência antipandemia, por politicagem obtusa, não é ato de autoridade. É o que disse Doria em seu momento até agora único: “O presidente da República negar o acesso a uma vacina aprovada pela Anvisa, em meio a uma pandemia que já vitimou 155 mil brasileiros e deixou 5,1 milhões infectados, é criminoso”.

O Brasil não tem governo. E é difícil saber o que lhe resta, inclusive vergonha. Seu nome é posto em acordo de um punhado de ditaduras contra direitos das mulheres. O governo Trump manda a Brasília uma comissão para acordos econômicos. Econômicos? O chefe da delegação foi o secretário de Segurança Nacional dos Estados Unidos. O grupo, na verdade, veio pressionar os generais de Bolsonaro e outros da ativa no Exército contra a China.

Pressão em especial contra a adoção do sistema 5G da Huawei, o mais avançado em prodígios da comunicação (os Estados Unidos estão com anos de atraso nesse campo). No seu disfarce habitual, que é um suborno nunca pago por completo, o governo Trump acenou com US$ 1 bilhão em ajuda, mas para comprar componentes americanos que substituam os da China em uso na telefonia daqui.

Amazônia e o Pantanal ardem, e os 1.600 combatentes do fogo recebem ordem de voltar às bases, porque não foram disponibilizados R$ 19 milhões que pagassem três meses de salários em atraso. No mesmo dia, Paulo Guedes discursa com pedido de dinheiro a investidores americanos e lhes diz: “Nos ajudem, em vez de só criticar. Toda essa história de matar índios, queimar florestas, é exagero”. Saíam os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: em setembro foram detectados 32.020 focos na Amazônia, 60% acima de setembro do ano passado. Na mesma comparação mensal, o aumento do fogo no Pantanal chegou a 180%, com o maior quadro de incêndios de sua história.

O cinismo, como o de Paulo Guedes, não pega mais. Nem por isso deixa de crescer. É o idioma desses que se passam por governo, dos que se deixam desmoralizar por Bolsonaro e desmoralizam seu generalato, dos que não podem fazer sessões no Supremo e podem fazer almoços e jantares com Bolsonaro e outros carnavalescos morais. Ao eleitor, é só não esquecer a ideia de Bolsonaro para escolher o voto. Mas é humilhante que o Brasil continue suportando, apenas para proveito do raso segmento de influentes, a vergonheira que se passa nos seus Poderes.

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28
Set20

Nonsense no governo Bolsonaro comanda e sufoca todo resquício de gravidade

Talis Andrade

 

por Janio de Freitas

- - -

O possível é apenas sondar os traços anedóticos que lhe dão forma e grotesco; e rir

 

Um riso mal contido, pode ser, talvez envergonhado. Como na extravagância de alguns tombos, sobretudo os vistos. E é disso mesmo que se trata: cenas patéticas de um tombo, o deste país.

O Brasil a ameaçar de represália os grandes países que sustem importações de produtos brasileiros, em reação à sanha destruidora na Amazônia. Cada grão de soja e grama de carne que deixem de importar é um rombo na economia bolsonara. E logo quem a propalar a ameaça, o general Heleno, não propriamente do alto de sua lucidez.

Fiel ao sentimento de que o cinismo não tem limite, nem para traição à memória de seus ídolos torturadores e matadores, Bolsonaro a dizer à ONU que “a liberdade é o bem maior da humanidade”. Depois de atribuir a interesses internacionais na riqueza da Amazônia uma campanha para “prejudicar o governo e o próprio Brasil”. No que foi corrigido pelo general Heleno, que, a partir do nível um tanto prejudicado da sua visão do mundo, identificou outra motivação etérea do mundo: é uma “campanha internacional para derrubar Bolsonaro”.

Tamanho nonsense sufoca todo resquício de gravidade que se queira atribuir-lhe, consideradas as responsabilidades funcionais dos emitentes. O possível é apenas sondar os traços anedóticos que lhe dão forma e grotesco. E rir.

Acima e abaixo dos delírios, o problema é que os militares influentes do Exército não compreenderam que a Amazônia é um amálgama de características de flora e de fauna, geológicas, climáticas, fluviais e pluviais, todas em mútua dependência. E que a entrega desse mundo de peculiaridades interligadas à exploração humana resultará, é inevitável, em que não será mais a Amazônia.

Da mata atlântica, por exemplo, restam no máximo 16%, em estimativa otimista. Do Nordeste ao Sul, por toda a costa e por entradas até o interior profundo, o que há são terras descascadas, depauperadas, ocupadas do modo mais desordenado. Cidades em que tudo se amontoa com vastidões vazias em torno. Poluição, agravamentos climáticos —é a realidade que tomou o lugar da mata atlântica. Assim seria com a entrega da Amazônia à exploração humana: não mais Amazônia.

A “exploração racional e planejada” é balela. Iniciado o processo, será o mesmo de sempre. Os aldeamentos logo se transformam em vilas, daí em cidades, a necessidade de infraestrutura e mais exploração transformam mais áreas, e assim em sucessivas destruições ambientais. A entrega da Amazônia à exploração industrial terá, porém, consequências climáticas muito maiores no Brasil todo, e por extensão no mundo, do que o miserável fim da mata atlântica.

Apesar disso, a ocupação da Amazônia é uma tese dita estratégica dos militares do Exército. Ricardo Galvão, cientista e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, desmontou o argumento do vice Hamilton Mourão para criação de uma agência para concentrar todos os monitoramentos da Amazônia. Uma agência sob controle militar. “Como o norte-americano NRO” é um argumento aqui muito forte. Mas errado, se de boa ou má-fé, fica por clarear. A verdade é que o NRO está proibido de atuar no território dos EUA. E o monitoramento por lá é civil.

Mas a agência militarizada seria apenas a porta-estandarte do Exército. Atrás viria o que consiste no projeto real: não só o monitoramento, mas o controle absoluto da Amazônia pelo Exército. Um grande território militar, sonhado como o meio eficaz de neutralizar a presumida ganância de uma ou de outra potência sobre a posse da Amazônia. Até décadas recentes, e por muito tempo, o delírio era a guerra inevitável com a Argentina —motivo até de promoção a general por mérito de planejamentos, como foi o caso do último algoz de João Goulart, o seu amigo Amaury Kruel. No mapa, da Argentina para a Amazônia são centímetros possíveis.

Enquanto o nonsense comanda, o fogo está autorizado a antecipar o serviço.

Paraíso

O Conselho Nacional do Ministério Público vai decidir se suspende por 90 dias o procurador Diogo Castor de Mattos, como proposto pelo corregedor Rinaldo Reis Lima. Ex-integrante do grupo de Deltan Dallagnol em Curitiba, Castor patrocinou enorme outdoor na cidade com fotos do seu chefe e de Sergio Moro. Falta disciplinar e, entre nós outros, ética.

Mas não só. Castor o fez com identidade falsa, usando nome de pessoa que nem ao menos foi informada. No paraíso corporativista, mesmo para tal fraude bastam 90 dias de suspensão. Para os de fora da patota, processo criminal e possibilidade até de cadeia.

Mais que ironia

Bolívia tem na América Latina, como constatado pela ONU, a segunda melhor condição para as mulheres em direitos políticos e em paridade política com os homens (só o México a supera, sendo o Brasil o 3º pior). As bolivianas vieram das últimas colocações para o topo com as conquistas introduzidas, muitas, e outras incentivadas, por Evo Morales como presidente eleito e legítimo, caso raro na história boliviana.

As mulheres congressistas foram uma força decisiva no golpe que derrubou Morales. E uma delas usurpou-lhe a Presidência, que exerce até hoje ilegalmente, com apoio da OEA e de muitos países latino-americanos. Entre os quais, é claro, o Brasil.

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12
Jun20

Bolsonaro é petista, general?

Talis Andrade

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por Fernando Brito

- - -

Nas páginas amarelas da Veja desta semana, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência faz um exercício de cinismo, jurando um arrependimento por ter se envolvido em atos políticos sendo – ainda – um general da ativa.

Cinismo porque usa o exemplo do general norte-americano Mark Milley que, contrariando Donald Trump, disse que como oficial da ativa, não deveria estar numa manifestação política.

Ramos, mesmo louvando o ato do general dos EUA, anuncia orgulhosamente que fez o contrário, agindo como “observador” – ou espião, como queiram – numa manifestação oposicionista, a tirar conclusões ideológicas sobre o figurino dos manifestantes:

Só há uma coisa que me incomoda e me desperta atenção. Um movimento democrático usando roupa preta. Isso me lembra muito autoritarismo e black blocs. Quando falo em democracia, a primeira coisa que me vem à mente é usar as cores da minha bandeira, verde e amarelo. No domingo, fiquei disfarçado no gramado em frente ao Congresso observando o pessoal. Eles não usavam vermelho para não pegar mal. Mas me pareceu que eram petistas.

A ideologia cromática do general não funcionava assim quando as camisas pretas eram pró-bolsonaro, ou quando – há menos de um mês – um bando de paramilitares de camisa preta foram encontrar-se com o presidente.

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Mas, à parte isso, o que faz o general pensar que eram petistas? “Pega mal” usar camisa vermelha? O senhor sabia que Jair Bolsonaro usava uma no dia 19 de abril, quando foi fazer sua pregação golpista em frente ao Quartel General do Exército, o Forte Apache de Brasília? Bolsonaro é petista?

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Mas há pior na entrevista. Diz que o Exército respeita a democracia, desde que não se “estique a corda”. Só que o esticar a corda é a ação do Poder Judiciário.

Primeiro, diz que isso foi feito pelo decano do Tribunal, Celso de Mello, que fez um paralelo entre o que se passa aqui com a ascensão do nazismo da Alemanha, dizendo que Hitler matou seis milhões de judeus e Bolsonaro, não. Ou definindo que o TSE não deve dar atenção aos questionamentos sobre a campanha eleitoral de Bolsonaro, agora temperados pela revelação de uma rede de fake news empresarial.

Com todo o respeito, general, mind your business, cuide de sua área, porque ela não é, certamente jurídica.

O que deveria preocupar não é que o Judiciário, um poder independente, “esticar a corda”. É um general da ativa esticar a língua para falar bobagens e pretender dar lições a outro poder.

 

20
Mai20

A cara de pau de Moro com o ‘aviso’ da PF a Bolsonaro

Talis Andrade

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por Fernando Brito

Tijolaço

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É absolutamente cínico – e nisso não há novidade – a reação do Sr. Sergio Moro dizendo que pretende pedir que seja tomado o depoimento do suplente de Flávio Bolsonaro, Paulo Marinho, de que a Polícia Federal tenha “segurado” a investigação do caso Fabrício Queiroz para não prejudicar eleitoralmente Jair Bolsonaro e ainda mandado avisar o então candidato para que ele e o filho demitissem o ex-PM e sua filha, esta funcionária do seu gabinete na Câmara.

Ora, Moro não apenas escolheu sozinho o diretor da PF como, no mínimo desde que começaram as pressões para trocar a direção do órgão no Rio de Janeiro para, supostamente, favorecer o já presidente da República. É inacreditável que, dentro da estrutura da corporação no Rio o “freio” na investigação – que envolvia muitos agentes, senão também outras autoridades policiais – e que não se soubesse do “segura aí” de um processo que envolvia seis deputados e o próprio presidente da Assembleia Legislativa.

Aliás, em movimento inverso, Moro não se acanhou em “acelerar” a liberação do desacreditado acordo de delação premiada de Antonio Palocci a poucos dias do pleito, numa evidente manobra para causar desgaste à candidatura do PT.

Maurício Valeixo e Ricardo Saadi – o primeiro superintendente afastado da PF do Rio – não sabiam desta história, ao menos de ouvir dizer? Admitir isso seria admitir que são dois péssimos policiais, que não sabem o que se passa debaixo de seus narizes.

O próprio ex-ministro da Justiça, antes mesmo de tomar posse, já tinha conhecimento do relatório do Coaf, então na sua pasta, implicava Fabrício Queiroz e o gabinete do “Filho 01”, como a Folha publicou em manchete no início de dezembro de 2018.

E vem Moro dizer que foi “corajoso” o depoimento de quem guardou por dois anos segredo sobre uma grave manipulação policial de um inquérito, com confessado objetivo eleitoral?

O senso de Justiça de Moro depende de suas conveniências?

A Lei é para todos, mas só quando interessa?

05
Mai20

Até quando?

Talis Andrade

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por Petra Costa

 - - -

Virou costume que, aos domingos, Bolsonaro ataca o Supremo e o Congresso, faz comício pela “intervenção militar” com faixas golpistas, diz que tem Deus e as Forças Armadas ao lado dele e fala como aspirante a ditador. Na segunda-feira, finge recuar e na terça começa tudo de novo.

A repetição constante das ameaças golpistas (que começaram antes de ele chegar ao governo) permitiu a Bolsonaro produzir aos poucos uma “nova normalidade”, expressão agora tão de moda pela pandemia. E nós, brasileiros, já nos acostumamos a viver ameaçados pelo presidente.

A gente se acostumou, como se fosse normal, a ter o filho do Bolsonaro falando em fechar o Supremo Tribunal Federal com “um cabo e um soldado” ou em fazer “um novo AI-5”. E agora o próprio presidente fala em comícios que têm faixas com essas ameaças e ninguém se surpreende.

A gente se acostumou à existência do “gabinete do ódio” e a imprensa se refere a ele como se fosse mais um ministério. Tem um gabinete no Planalto que se dedica a produzir e distribuir fake news, difamar adversários políticos, jornalistas e artistas e incentivar o ódio. Normal.

A gente se acostumou a ver jornalista sendo agredido na rua por seguidores do presidente com camisas da seleção e bandeiras do Brasil. Normal. A gente se acostumou a ver pessoas difamadas pelo presidente ao vivo pelas redes e depois ameaçadas de morte por seus apoiadores. Normal.

A gente se acostumou a assistir a falas de ministros negando a ciência e divulgando teorias conspirativas toscas. Normal. A gente se acostumou a ver sites de fake news divulgados pelos filhos do presidente. Normal. A gente se acostumou às ameaças de golpe. Normal.

A gente se acostumou a ver passeatas contra a quarentena onde os seguidores do presidente debocham dos mortos e até dançam com caixões. Normal. A gente se acostumou a ouvir deputada bolsonarista falando que tem governador enterrando caixões vazios. Normal.

A gente se acostumou a ver cada dia mais mortos pela pandemia do COVID19, enquanto o presidente se dedica a negar o problema e tenta desviar o foco: difamando o @jeanwyllys_real, atacando o @RodrigoMaia, falando baixarias contra a imprensa e ameaçando o STF. Normal.

Eu pergunto: até quando? O que mais precisa para o Brasil reagir a tanta desumanidade, tanto cinismo, tanta mentira, tanta desonestidade, tanta crueldade, tantas ameaças, tanto desprezo pela democracia, tanta incompetência, tanta burrice, tanta falta de civilidade? Chega.

 

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