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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

01
Mar21

Gaspari e o ‘spoiler’ do voto de Gilmar sobre a Lava Jato

Talis Andrade

por Fernando Brito

Para usar o bordão do próprio Elio Gaspari, ganha um chá com torradas com a velhinha de Taubaté quem não enxergar, em sua coluna de hoje, um trailler do voto que Gilmar Mendes dará no processo de suspeição do juiz Sérgio Moro, ao dizer que ele conterá a “Lava Jato da Lava Jato”.

Ao dizer que um grupo de assessores do ministro do STF está “passando um pente fino” no conteúdo das transcrições das conversas entre Moro, Dallagnol e os procuradores da Lava Jato, Gaspari que dizer que, para usar outro bordão, elas puxam penas das quais virá uma galinha. Marreco, se preferirem.

aroeira debandada moro marreco.jpg

 

Por enquanto, isolados, os trechos que vieram à imprensa revelam desde desvios de comportamento, burlas à Justiça e alguns crimes – como o do “depoimento que não houve, mas a gente dá um jeito”. Sistematizados, vão revelar “o maior escândalo de corrupção judicial da História do Brasil”.

Pelo que descreve Gaspari, a sessão da 2ª Turma do STF onde ele dará seu voto – o placar atual é de dois – Luiz Fachin e Cármem Lúcia – se assemelhará às grandes “viradas” e não é impossível que o placar final, como na votação do direito da defesa de Lula acessar as mensagens, fique em 4 a 1, com Cármem Lúcia anulando seu gol contra com a ajuda do VAR dos diálogos recolhidos pela Operação Spoofing.

A declaração de suspeição de Sergio Moro vai ser – e talvez seja esta a razão para que Gilmar ou Gaspari tenham pensado na expressão “Lava Jato da Lava Jato” – terá o condão de abrir os bicos até aqui calados em áreas que, até agora, têm mantido silêncio para irregularidades que presenciaram ou de que foram parte, na base do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Funcionários da PGR, promotores, policiais e uma série de pessoas que sabem dos porões de Curitiba começarão a falar mais alto o que hoje já sussurram. E delatores mal satisfeitos com o que receberam pelo “serviço” também começarão a revelar as teias montadas na capital curitibana que envolvem muito mais do que o salvacionismo fundamentalista que animava a trupe lavajateira.

Os últimos dos moicanos, já expressam por seu notório site – apelidado do O Bolsonarista nos tempos em que seu herói não tinha sido escorraçado do Governo – a sua única linha de defesa, além de alegar que as provas têm origem ilícita: a de que provas não podem ser examinadas no Supremo.

Mas não eram eles que diziam que, mais que provas (e estas existem, ainda que não lícitas) vale mais a convicção?

Gilmar Mendes fará uma Lava Jato na Lava Jato

Elio Gaspari

Nas próximas semanas, o ministro Gilmar Mendes levará para a mesa da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal o julgamento da suspeição do ex-juiz Sergio Moro no processo da Lava Jato. São pedras cantadas a exposição da parcialidade do doutor e a promiscuidade de suas relações com o Ministério Público. O ministro deu uma pista do que vem por aí ao lembrar que irá além do que chama de “questão Lula”: será algo “muito maior”.

Põe maior nisso. Gilmar tem assessores passando o pente-fino nas mensagens trocadas em Curitiba. Desde junho de 2019, quando o site Intercept Brasil levou ao ar os primeiros grampos dos 7 terabytes capturados, eles têm aparecido de forma explosiva, porém desordenada. Colocados em ordem cronológica e contextualizados, revelam a extensão das malfeitorias blindadas pela mística da Operação Lava Jato.

A última novidade saída dos grampos foi um episódio ocorrido em 25 de janeiro de 2016. Nele, é mencionada a delegada da Polícia Federal Erika Marena, que integrava a equipe. Nas palavras do procurador Deltan Dallagnol: “Ela entendeu que era um pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada. […] Se o colaborador e a defesa revelarem como foi o procedimento, a Erika pode sair muito queimada nessa… pode dar falsidade contra ela… isso que me preocupa”.

Dallagnol propôs um remendo: “Combinar com ela de ela nos provocar diante das notícias do jornal para reinquiri-lo ou algo parecido. Podemos conversar com ela e ver qual estratégia ela prefere. […] Se não fizermos algo, cairemos em descrédito”.

Havia sido simulado um depoimento que não tinha acontecido, e o caso seria resolvido ricocheteando-se uma notícia que seria plantada na imprensa.

No início de 2016, o juiz Moro ordenava operações irregulares de busca e apreensão: “Russo deferiu uma busca que não foi pedida por ninguém… hahahah. Kkkkk”, escreveu um delegado da PF. “Como assim?!”, respondeu uma delegada.

“Normal… deixa quieto… Vou ajeitar… kkkk”.”

O depoimento mencionado pela delegada Erika era uma das muitas peças da colaboração do lobista Fernando Moura, um amigo do comissário José Dirceu. Ele havia sido preso, negociara um acordo, mas vinha se desdizendo. Numa audiência, tratando de um caso de corrupção explícita na Petrobras, Moura perguntou ao juiz: “Assinei isso? Devem ter preenchido um pouco a mais do que eu tinha falado”.

Estava feia a coisa. A delegada já havia dado sua versão para o depoimento que não aconteceu: “Usaram meu nome no cabeçalho, mas não tomei e não participei de nenhum termo. Se ele está se desdizendo, infelizmente não haverá gravações”.

Os procuradores negociavam o que um deles chamou de “terceirização dos depoimentos”. (Ganha uma vacina de vento quem souber o que é isso). O devido processo legal não era devido, nem processo, muito menos legal. Criminalistas veteranos lembram que esse tipo de “depoimento” era prática comum para rábulas bem relacionados com escrivães.

Um procurador exclamou: “Erramos!!”. Outro, Julio Noronha, resolveu a questão com um xeque-mate: Fernando Moura deveria ser “exemplarmente punido inclusive com prisão —ou o instituto [da delação premiada] sofrerá um abalo”.

Assim, a discrepância foi varrida para baixo do tapete em 2016, e a turma da Lava Jato pagará a conta em 2021.

O pente-fino da equipe de Gilmar Mendes poderá responder à sua grande pergunta: “Como nós chegamos até aqui? […] O que nós fizemos de errado para que institucionalmente produzíssemos isso que se produziu. […] Sabiam que estavam fazendo uma coisa errada, mas fizeram”.

Em maio de 2016, a delegada Erika Marena teve 1.065 votos entre seus pares para substituir o diretor da Polícia Federal. Com a fama da turma de Curitiba, Marena foi retratada pela atriz Flávia Alessandra no filme “A Lei é Para Todos”. Afinal, foi ela quem deu o nome de fantasia à operação.

Na manhã de 14 de setembro, uma semana depois da estreia do filme, a delegada mobilizou 105 policiais e prendeu espetacularmente o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, e outros quatro professores.

Marena acusou-o durante uma entrevista coletiva de obstruir as investigações que apuravam um desvio de R$ 80 milhões do programa de ensino a distância. Depois de ter dormido na cadeia, o reitor foi libertado por uma juíza. Não podia pisar no campus da universidade, em cuja vizinhança vivia. Passadas duas semanas, Cancellier publicou um artigo falando da “humilhação e vexame” a que havia sido submetido e, no dia 2 de outubro, atirou-se do sétimo andar de um shopping de Florianópolis.

Depois do voto de Gilmar Mendes sobre a suspeição de Moro, a turma da Lava Jato responderá pelas tramoias que armou contra ministros do Superior Tribunal de Justiça.

Médica notifica suicídio de Cancellier como acidente do trabalho, provocado por assédio moral insuportável

15
Dez20

Alice Carvalho, atriz potiguar, ganha prêmio em festival de cinema na Austrália

Talis Andrade

Atriz potiguar Alice Carvalho tem nome confirmado para gravar série da Globo

Alice Carvalho, de Natal, no Rio Grande do Norte, ganhou o prêmio de melhor atriz pela websérie lésbica SEPTO no Changing Face International Film Festival. Única atriz negra a concorrer na categoria, a jovem interpreta a triatleta Jéssica Borges, que vive as custas do sonho de seu pai, que fantasia um dia ver a filha nas Olimpíadas. Alice também é criadora e roteirista da produção.

Passada em Natal, Rio Grande do Norte, a obra é a primeira websérie ambientada e produzida no nordeste e traz questões da sexualidade de sua protagonista como uma das tantas questões com as quais a jovem tem de lidar e que formam sua personalidade.

À Mídia NINJA, Alice contou que para ela, “o valor desse prêmio vai além de ter uma estatueta dentro de casa ou um título pra se ostentar na internet.”

É simbólico, reafirma não só a minha importância enquanto mulher negra, nordestina e LGBT, mas acentua o fato de que mais meninas como eu merecem ser ouvidas, que existe muita potência nos artistas que vivem à margem e que a única coisa que nos diferencia são as oportunidades.”

“É um prêmio coletivo, sem dúvidas”, concluiu Alice.

A série já está em sua 3ª temporada e você pode assistir aos episódios através do youtube.

 

 

14
Nov20

"Pureza" leva a escravidão contemporânea do Brasil às telas

Talis Andrade

Cena do filme Pureza

Filme "Pureza" já recebeu diversos prêmios

 

Mais de 130 anos após abolição, exploração criminosa de mão de obra perdura no país, do garimpo às casas de família. Baseado em fatos reais, filme de Renato Barbieri visa sensibilizar para o drama da moderna escravidão

 

por Ines Eisele /DW

Início dos anos 90, numa cidadezinha do Maranhão: buscando uma vida melhor, Abel, de origem humilde, parte para os garimpos da Amazônia. Por meses a fio, sua mãe, Pureza, fica esperando um sinal de vida: em vão.

Por fim, decide seguir a trilha do filho, emprega-se como cozinheira numa enorme fazenda, acreditando que ele se encontre lá. O que ela presencia é um mundo de sujeição e trabalho escravo desumano, com que nunca sonhara. E a mãe desesperada se transforma em ativista.

Essa revoltante história, que Renato Barbieri conta em pouco mais de uma hora e meia em Pureza, se baseia em fatos reais. Ao declarar o fim da escravatura, em 1888, o Brasil "foi o último país a fazer a abolição, e foi uma abolição muito malfeita, incompleta", lembra o cineasta brasileiro de 62 anos. Assim, "no dia seguinte da abolição começou a escravidão contemporânea, que segue até os dias de hoje".

Em 2018, a organização pelos direitos humanos Walk Free Foundation calculava existirem no Brasil 369 mil cidadãos vivendo em condições de escravidão. No ano seguinte, só em inspeções pelo Ministério do Trabalho, mais de mil indivíduos foram libertados. A manchete mais recente sobre o assunto acaba de chegar: no início de novembro, 39 trabalhadores alojados em cabanas abertas foram resgatados de um garimpo ilegal no Pará.

É também graças a gente como a verdadeira Pureza Lopes Loyola que hoje em dia pelo menos há controles estatais, frisa Barbieri. "As denúncias dela e de outras testemunhas foram o combustível necessário para criar essas políticas, essas leis [contra o trabalho escravo]. Deu muita força para a ação abolicionista."

A feia cara da escravidão contemporânea

É fato que, desde a abolição da escravatura, não existe relação legalmente reconhecida de posse de um ser humano (branco) sobre um outro (negro). No entanto, dependências econômicas vieram tomar o lugar das correntes.

De acordo com a Walk Free Foundation, uma característica definidora da escravidão contemporânea é alguém "estar incapacitado de evitar ou abandonar situações de exploração, devido a ameaças, violência, coerção, engano ou abuso de poder". No Brasil, escravidão é definida no nível jurídico por componentes como mão de obra forçada, trabalho para pagamento de dívidas, condições humilhantes ou jornadas abusivas.

No país latino-americano de maior população e extensão, tais condições existem sobretudo na agricultura, segundo a historiadora Julia Harnoncourt, que em 2018 publicou em livro os resultados de suas pesquisas.

"Nessa época havia o maior número de casos conhecidos de trabalho escravo nas fazendas de gado, mais precisamente na preparação dos pastos, o que muitas vezes nada mais é do que o desmatamento de florestas tropicais. O cultivo da soja e da cana-de-açúcar igualmente contribuem, anteriormente também a indústria metalúrgica."

Embora em números significativamente menores, nas cidades também há relações trabalhistas não livres, por exemplo na construção civil ou na indústria têxtil. Essa forma de mão de obra escravizada afeta mais frequentemente os imigrantes.

Círculo vicioso da pobreza

"No total, a maior parte dos atingidos são homens", explica Harnoncourt, atualmente fazendo o pós-doutorado na Universidade de Luxemburgo. "Existe, sim, uma área em que atuam principalmente mulheres, mas ela é de muito difícil acesso: os trabalhos domésticos. Escuta-se com frequência que no Norte do Brasil meninas indígenas são atraídas para casas abastadas com a promessa de poderem ir à escola e ganhar dinheiro. E aí não escapam mais, pois não têm meios e não conhecem ninguém."

Os trabalhadores no campo são vítimas de truques semelhantes: também eles ouvem no início que podem ganhar bom dinheiro sob condições justas. Ao chegar às fazendas dos latifundiários, em geral se desiludem: de repente exige-se que paguem a posteriori os custos da viagem, ferramentas, roupa de trabalho e alojamento, a preços exorbitantes.

Como no filme de Barbieri, os empregadores até lhes confiscam os documentos, se possuem algum, dificultando ainda mais uma fuga. Mesmo se conseguem escapar, ou se são liberados após alguns meses ou anos, por falta de perspectivas muitos acabam voltando a assumir atividades semelhantes.

Em Pureza, os capatazes patrulham e humilham os trabalhadores forçados das piores maneiras possíveis, chegando à violência física e até à morte. Segundo o diretor, esses elementos não são exageros para tornar a narrativa mais dramática: tudo é baseado em depoimentos de vítimas.

Documentário Servidão

Desde o primeiro encontro de Barbieri com a verdadeira Pureza até a conclusão do filme transcorreram 12 anos. Embora em parte ditado por dificuldades de financiamento, esse tempo relativamente longo também permitiu ao cineasta se aprofundar ainda mais na temática.

"Vi que eu tinha uma pesquisa muito grande, e que Pureza ia consumir só um pedacinho dela. Nessa minha pesquisa conheci vários abolicionistas, achei eles incríveis, a indignação que eles têm com a humilhação humana, queria colocar isso num documentário."

Lançado em 2019, Servidão traça uma linha dos tempos da escravidão "de verdade" até o aqui e agora, revelando aos espectadores como "a mentalidade escravagista está entranhada na sociedade brasileira, em todos os setores", diz Barbieri.

Também Julia Harnoncourt registra essa relação, mas ressalvando que "o que vemos agora seguramente não é só um efeito da escravidão": "É preciso também se perguntar até que ponto o capitalismo global incentiva tais relações trabalhistas. Afinal, vemos também trabalho não livre em países onde antes não havia escravos, pelo menos não na mesma proporção que no Brasil."

Ativista Pureza Lopes Loyola em locação rural

Pureza Lopes Loyola, a ativista na vida real

 

Ativismo premiado

Depois de 1995, por algum tempo a política brasileira assumiu a bandeira do combate à exploração análoga à escravidão, sobretudo sob o governo Lula.

Contudo, com Michel Temer e depois com Jair Bolsonaro, houve repetidas tentativas de abrandar a lei antiescravidão e dificultar os controles estatais. A influência dos latifundiários na política brasileira sempre foi grande, porém o clima político mudou ainda mais a seu favor.

"A gente está vivendo um retrocesso", está convencido Renato Barbieri. Ao que lhe consta, "não tinha um filme de longa-metragem sobre o escravo contemporâneo rural, um documentário de longa-metragem também não": "Então esses filmes têm a função de sensibilizar principalmente a classe média brasileira para o grande drama crimininoso do trabalho escravo contemporâneo que é praticado ainda."

Pureza já participou de diversos festivais de cinema e ganhou vários prêmios, entre outros melhor fotografia e melhor atriz principal (Dira Paes) no Brazilian Film Festival of New York. Em meados de novembro, a Academia Brasileira de Cinema deve decidir se o filme representará o país na competição pelo Oscar.

Também a Pureza da vida real já ganhou uma distinção importante: em 1997 foi homenageada com o Prêmio Antiescravidão da Anti-Slavery International, a mais antiga organização de direitos humanos do mundo.

21
Ago20

Celso Marconi, 90 anos de rebeldia e cinema

Talis Andrade

O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica 

 

por Urariano Mota

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Entre os grandes personagens de 23 de agosto, a Wikipédia indica Gene Kelly, Nelson Rodrigues, Tônia Carrero, Rita Pavone, Rodolfo Valentino, Vicente Celestino e Alberto Cavalcanti. Mas não registra, em uma só linha, um dos mais importantes críticos de cinema do Brasil, o recifense Celso Marconi. Essa ausência na enciclopédia é, ao mesmo  tempo, injusta e descuidada, para dizer o mínimo. Então, em breves linhas, tento um curta dos seus 90 anos.

Sobre o aniversariante desse domingo já publiquei o texto “Celso Marconi, uma vida de cinema”, https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/urariano-mota-celso-marconi-uma-vida-de-cinema/ . Por sinal, esse artigo circula no sábado entre amigos do mestre de português Diógenes Afonso no WhatsApp.

Nesse texto, eu lembrei que Celso Marconi vinha sendo o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade. Nos seus 90 anos agora, tenho a certeza de que ele é o jornalista com mais tempo de crítica de cinema não só no Brasil, mas em todo o mundo. O paradoxo, ou paradoxal, é que na sua idade ele é o mais jovem crítico de cinema, pela expressão maravilhosa, que nos desconcerta, em meio a um texto como aqui: 

Face a Face é melhor ser visto num aparelho individual, numa TV grande, mas de maneira que você possa parar quando estiver cansado, prostrado, e sair para comer um chocolate ou tomar um café antes de continuar. Penso que, se estivesse vendo esse filme de Ernst Ingmar Bergman hoje numa sala de cinema, eu gritaria para que parassem pra gente descansar um pouco… 

Certamente hoje são poucas as pessoas que conhecem o cinema de Ingmar Bergman e isso se justifica pelo fato de que o atual presidente do País não tem a menor noção do que é Cultura, e sem dúvida nunca viu nem um filme de Ingrid Bergman – quanto mais de Ingmar! É uma pena. Com tantos elementos novos e fundamentais para mudarmos a nossa vida e podermos conhecer melhor o que é uma vida amadurecida, é lamentável que estejamos vivendo esse dilema de moralismos inúteis”

Nele, o que não é reflexão mais profunda é rebeldia, que não se contém nem se contenta. E com ele temos crescido, desde os anos 1970, quando Celso Marconi já era um crítico consagrado, guru de nossa estética de cinema. Lembro, de modo claro, que nós corríamos para aquelas críticas no Jornal do Commercio que nos revelavam o valor da programação do Cine de Arte Coliseu e de outros cinemas. Que oásis! Bebíamos o que ele nos revelava naquele deserto da ditadura. Eram linhas que faziam a cabeça de estudantes contra a ditadura e das novas gerações no Recife. Era uma alegria imensa, nos fins de semana, saber o que o Coliseu nos reservava, a partir do texto de Celso Marconi. Foi com ele que descobrimos Buñuel, artista que nos deixava tontos antes do bar, como destaco no começo do livro Soledad no Recife:

“Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente”.

Lá no início deste artigo, eu escrevi que Celso Marconi é um jovem. E não só na sua expressão de crítico, esclareço agora. O moço que ele é nos seus 90 anos pode ser notado também nos poemas eróticos que publica no Face, porque o seu desejo de vida é permanente. Como aqui:

A PUTA E O POETA

Sonhei que era um poeta russo
E vivia nos tempos dos soviéticos
Com uma bela puta também russa
E tinha muito prazer em trepar com ela
Que era linda e branca azulada
Tinha um ar de tristeza que ameaçava
Qualquer um que trepava com ela
Mas o seu corpo era perfeito para a função
E ela adorava que eu lesse minhas poesias
O que nem sempre era aceito pelos soviéticos
Que implicavam com um sujeito mesmo poeta
Viver comendo por conta de uma puta
Pois nós comíamos e sempre tínhamos
Borsht, solyanka, blini, frango à Kiev,
Pilmeni ou salada olivier à mesa
Que a puta fazia com todo gosto
E não tinha estória de não comer
Só porque era puta ou era poeta
E fomos vivendo com muita alegria
O pior porém era quando queríamos mudar de cidade
Sair de Vladivostoki para Irkutski na Sibéria
Pois os guardas dos aeroportos ou rodoviárias
Mesmo que achassem a gente bonitos
Não aceitavam que o poeta não trabalhasse e
Ficasse comendo com o que a puta ganhava

 

EU QUERO O PRAZER

As religiões condenam o prazer
E inclusive não querem o desejo
Você tem que sentar e esperar
Que todo o desejo se esvoace
Se a religião não quer o desejo
Por que então nascemos com essa
Possibilidade?
O desejo de prazer fujamos
Carnaval dos carnavais
Como vamos fingir o não desejo?
A natureza nos pune
Mas ao contrário nos alegra
Quando concretizamos um desejo

 

 
 
06
Jun20

“Um dos confrontos mais sinistros que eu já tive com um ser humano”, diz Stephen Fry sobre entrevista com Bolsonaro

Talis Andrade

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"Realmente senti que estava encarando dois olhos bem mortos e apavorantes”

Ator, cineasta e ativista inglês, Stephen Fry, que entrevistou o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) para o documentário Stephen Fry e a Luta Gay pelo Mundo (2013), gravou vídeo sobre as ameaças representadas por Bolsonaro. Ele diz que “o Brasil é melhor que Bolsonaro” e pede para que a população reflita sobre “o que significa ser brasileiro”. Esse alerta de Fry foi de antes das eleições presidenciais.

“Venho assistindo à forte ascensão dele na política brasileira com algum espanto. Eu o conheci, o entrevistei. E tenho que dizer, como fiz na época: foi um dos confrontos mais sinistros que eu já tive com um ser humano. Realmente senti que estava encarando dois olhos bem mortos e apavorantes.”

Fry diz que Bolsonaro “vive em um mundo de fantasia, de militarismo”, que ele considera “profundamente perturbador e tenebroso”.

O ator afirma que ama o Brasil e conta ter visitado o país inúmeras vezes. “Acho que sei o que o Brasil significa. Significa cor, riqueza, diversidade, uma simpatia espantosa, cordialidade. E, sim, inquestionavelmente, crime, drogas e violência e todo tipo de efeitos colaterais nefastos de tanta gente vivendo junto numa mistura de pobreza e riqueza extremas. Não estou dizendo que é uma sociedade perfeita. E nenhum brasileiro diria que é. Mas eu diria que o espírito brasileiro é de inclusão, aceitação, amor e puro prazer na variedade.”

Fry diz ainda que as declarações de Bolsonaro contra negros, mulheres e população LGBT são “genuinamente aterrorizantes”. “Vai resultar em mais cabeças quebradas nas calçadas. Mais sangue derramado, mais tortura, mais morte. Mais infelicidade, menos aceitação, mais pais chorando… E isso não pode estar certo.”

Durante a gravação do documentário, que retratava o avanço da homofobia pelo mundo, Fry chegou inclusive a tentar o suicídio. “Ver tanta ignorância, brutalidade, estupidez e horror não ajudou. Tive que me concentrar para não perder a calma diante dos absurdos ditos por esse senhor”, contou em entrevista. Na parte do filme sobre o Brasil, Fry conta a história de Alexandre Ivo, de 14 anos, que foi sequestrado por skinheads quando voltava de uma festa e foi brutalmente assassinado em 2010, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Fry, que também é jornalista e escritor, atuou em filmes como Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras (2011), Alice no País das Maravilhas (2010), V de Vingança (2006), Wilde (1997), Um Peixe Chamado Wanda (1988), dentre outros. Também atuou como dublador em língua inglesa no desenho animado Pocoyo.

 

06
Mai20

Macron quer indenizar artistas até meados de 2021: a cultura pós-Covid na França

Talis Andrade

 

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O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou uma série de medidas a favor da comunidade artística, cujas atividades estão interrompidas desde meados de março. Martin BUREAU / AFP

O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nesta quarta-feira (6) um plano de recuperação para o setor cultural na França, gravemente afetado pela pandemia e pela quarentena, em vigor desde 17 de março no país. Entre as principais diretrizes para a cultura na França, Macron anunciou que manterá o sistema de remunerações dos artistas, produtores e técnicos das artes até agosto de 2021 e a criação de um “fundo de indenização” para todos os profissionais do audiovisual francês cujas produções foram canceladas devido à crise do coronavírus.

Artistas e técnicos das artes puderam finalmente respirar um pouco aliviados nesta quarta-feira (6), após o anúncio do presidente francês com as primeiras medidas destinadas à recuperação do setor cultural na França pós-pandemia. O país começa a sair da quarentena na próxima segunda-feira, 11 de maio, mas o processo deve ser longo e será realizado através de etapas, inclusive para o setor cultural.

Muito criticado pelo setor, e pressionado por grandes nomes da cultura francesa, que recentemente se manifestaram publicamente sobre o “esquecimento da cultura” na França, Macron realizou os anúncios por meio de uma videoconferência com uma dúzia de artistas para tranquilizar a comunidade cultural. Entre eles, a cantora Catherine Ringer, os diretores de cinema Eric Tolédano e Olivier Nakache, o diretor de teatro Stanislas Nordey, o escritor Aurélien Bellanger, o rapper, escritor e diretor de cinema Abd Al Malik, e a atriz Sandrine Kiberlain, entre outros.

Macron defendeu que os direitos [de indenização salarial por parte do governo francês] dos chamados “intermitentes do espetáculo”, como são conhecidos os artistas, produtores e técnicos das artes na França, “sejam prolongados de um ano", num período em que sua atividade será "impossível ou muito degradada, ou seja, até final de agosto de 2021". "Muitos não poderão trabalhar. Quero que nos comprometamos que artistas e técnicos intermitentes tenham seus direitos estendidos até o final de agosto de 2021", disse ele durante a videoconferência com representantes do setor cultural.

O sistema da intermitência, uma especificidade francesa, garante a sobrevivência de artistas e técnicos do espetáculo durante o período em que não estão em atividade na França. Para ter direito a esta indenização especial e dedicada à classe artística, cada profissional deve cumprir e comprovar 507 horas de trabalho por ano, sem as quais não se consegue o subsídio. Ao estender a indenização até metade de 2021, Macron garante a remuneração à classe artística, que não poderá cumprir suas horas de trabalho até lá, devido à crise sanitária.  

 

Pela "reinvenção" da Cultura

Resta saber agora se as medidas anunciadas pelo presidente francês estarão realmente à altura do desafio. Segundo Franck Riester, ministro da Cultura da França, "o que está em jogo é a capacidade de nosso país permanecer um país cultural. Em 30 de abril, um manifesto assinado por cem dos maiores artistas franceses exigiu não ser esquecido nesta crise sem precedentes provocada pelo Covid-19. Hoje, no diário Le Monde, mais de 200 artistas e cientistas de todo o mundo, incluindo Madonna, Robert de Niro, Juliette Binoche e Guillaume Canet, publicaram uma coluna dizendo não ao retorno 'ao normal' após a crise de coronavírus. Entre outras coisas, eles querem uma 'transformação radical' do sistema contra o consumismo", alertou Riester.

A indústria cultural da França emprega 1,3 milhão de pessoas. Ela pesa tanto quanto a indústria de alimentos e muito mais que a indústria automotiva na economia francesa. Só o cancelamento do Festival de Avignon representou uma perda de € 100 milhões para a cidade e a região. A Ópera de Paris já anunciou um prejuízo de € 50 milhões este ano. Na indústria do entretenimento, a perda de bilheteria apenas até o final de maio é estimada em € 590 milhões.

“Um novo relacionamento com o público”

O destino dos trabalhadores intermitentes da cultura era uma das demandas mais importantes do setor na França, que se mobilizou nas redes sociais para deixar de ser a grande "esquecida" das autoridades na crise da saúde. "É necessário que os locais de criação revivam, adaptando-se às restrições da epidemia, e, sem dúvida, inventando um novo relacionamento com o público", sublinhou Macron, que disse contar com o "bom senso" e "criatividade" do setor.

"Precisamos reabrir livrarias, museus, lojas de discos, galerias de arte e os teatros devem poder começar se abrir para ensaios”, disse o presidente francês. Como o setor audiovisual é bastante fragilizado pelo risco da volta da pandemia e uma possível nova quarentena, o presidente francês se declarou a favor de um fundo de compensação temporário para filmes e séries que foram canceladas devido à crise sanitária. "Colocaremos seguradoras e bancos frente às suas responsabilidades", disse o chefe de Estado, com o objetivo de retomar as filmagens, analisando "caso a caso" após o final de maio.

Ajudas e mudanças no setor audiovisual na França

É exatamente nesse período que Macron decidiu reabrir espaços culturais. Enquanto as livrarias e galerias de arte se preparam para reabrir, a cortina permanece fechada até novo aviso em cinemas, festivais e outras salas de concerto, por causa das necessidades de isolamento social, que devem continuar na França.

No setor audiovisual, o primeiro ramo do setor cultural na França em investimentos, o presidente francês defendeu a transposição "antes do final de 2020" da diretiva europeia AVMS (serviços de mídia audiovisual). Este regulamento planeja reequilibrar as regras entre canais de televisão, sujeitos a inúmeras obrigações, e plataformas on-line, contribuindo para a criação audiovisual francesa. 

Macron finalmente anunciou o lançamento de um "grande programa de contratações públicas", visando especialmente "jovens criadores com menos de 30 anos", com a ambição de "inventar uma temporada extraordinária" e procurar públicos às vezes esquecidos no mundo da cultura. "Vamos com tudo", sublinhou ele, "seja para o artesanato, performances ao vivo, literatura, ou as artes plásticas", detalhou. "Estou pensando em criadores com menos de 30 anos", destacou o chefe de Estado.

“Verão diferente”

Emmanuel Macron pediu ao mundo da cultura que ajude a "reinventar" um "verão diferente" para os "milhões de jovens" que não sairão de férias, devido à crise do coronavírus. "A nação não poderá viver suas férias como de costume. Precisamos criar um verão cultural e de aprendizado", declarou o chefe de Estado ao fim da conversa por videoconferência com os artistas e representantes do setor cultural.

Macron insistiu em particular na necessidade de mobilização cultural para os "milhões de crianças, jovens e adolescentes" que "não poderão sair de férias" neste verão, especialmente aqueles "de origem migrante" cujas famílias têm o hábito de viajar várias semanas nas férias para seus países e que não poderão fazê-lo neste verão do Hermisfério Norte em 2020, devido à crise sanitária.  

 As fronteiras devem permanecer fechadas nos próximos meses entre a França e os países do Magrebe, no norte da África, impedindo o retorno de muitos franceses que têm raízes familiares na região. As ligações aéreas foram suspensas com a Argélia e Marrocos desde meados de março.  

"Nos nossos subúrbios, em outros distritos da República, já pedimos um grande esforço aos habitantes em quarentena", sublinhou Emmanuel Macron, convocando a população a "reinventar os acampamentos de verão". O presidente francês disse ainda que os artistas podem ser mobilizados através de uma "plataforma" para coordenar iniciativas. Ele esperava que o Estado "dê aos artistas e suas equipes a possibilidade de inventarem de maneira diferente neste verão".

Jean-Marc Dumontet, proprietário de seis teatros parisienses, elogiou no canal BFMTV "o apoio ao mundo da intermitência cultural" e o tom "voluntarista" do chefe de Estado. "É uma mensagem de esperança e precisamos dela", afirmou.   Na manhã desta quarta-feira, o deputado de oposição do partido França Insubmissa, Alexis Corbière, chegou a exigir do presidente francês a declaração de um "estado de emergência cultural" e uma ajuda de "quantia comparável" aos € 7 bilhões prometidos à Air France para "salvar a cultura".

(Com informações da AFP e imprensa francesa)

27
Jan20

A incrível vida de Benedicta Sánchez, fotógrafa no Brasil, vegetariana aos 17 e vencedora do Goya aos 84

Talis Andrade

A atriz estreou no cinema como protagonista do filme ‘O Que Arde’, de Oliver LaxeBenedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.Benedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.

07
Dez19

'Coringa' e o medo da burguesia histérica

Talis Andrade

coringa em araripina.jpg

 

 

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento,

mas ninguém diz violentas às margens que o comprimem”  

Bertold Brecht

 

Por João Paulo Rillo
Viomundo

Depois de 10 dias em cartaz, fui assistir ao filme Coringa e notei relativo esvaziamento nas salas de exibição.

Já era recorde de público no mundo inteiro, por isso estranhei a não lotação. Sucessos inferiores de bilheteria lotaram por mais tempo as salas dos shoppings paulistas pelo Estado.

Mas o estranhamento durou pouco, logo fui abduzido pela magia da sétima arte, comi um saco de pipoca e aproveitei cada segundo da obra de arte projetada na tela.

Tudo é encantador, o roteiro, a fotografia e a brilhante interpretação de Joaquim Phoenix.

O filme é sensível e profundo. Traduz com exatidão e urgência os conflitos e as letais doenças sociais produzidas pelo capitalismo.

Passei a indicar o filme aos amigos e conhecidos. E encontrei a mesma resistência e preocupação em várias pessoas: “ah, mas não é muito violento?”.

Eis a principal a razão do esvaziamento precoce das confortáveis salas de cinemas.

Os mesmos que naturalizam a violência real contra pretos e pobres e inflam o peito para dizer que “passou da hora de adotar a pena de morte nesse país” se assustaram ao verem desmoronar a ilusão pré-concebida do super-herói.

Passaram a difamar e a demonizar o filme que tanto os incomodou.
 
Nenhuma tese sociológica explicaria de forma tão impactante o caos que a indiferença social pode causar.

O protagonista é o anti-herói, um cidadão emocionalmente quebrado, perturbado e completamente solitário.

À medida que a sociedade do consumo empurra tudo que não é espelho para a margem, cria um ambiente paralelo extremamente imprevisível e perigoso.

Quem não se sente parte do mundo oficial não tem compromisso com ele. Esse é o detalhe sórdido que a burguesia produz e não admite.

Longe de ser panfletário e avesso ao maniqueísmo trivial dos filmes de heróis, Coringa é extremamente poético e assume lado nessa atmosfera de ódio e intolerância que acomete o mundo em seus quatro cantos.

Denuncia a degradação do tecido social e a ausência de Estado na vida dos mais desprovidos de renda e afeto.

Incomoda os opressores e seus cúmplices. Impossível não se mexer na poltrona, não se sentir opressor ou cúmplice pelo menos uma única vez durante a exibição.

O riso desesperado do protagonista – inconsciente do seu papel político – desperta indignação e insurgência nos moradores da cidade.

O filme desvenda, de maneira genial, a origem da violência e radicaliza a problemática do germinar da semente ao desmoronar da árvore.

Ele tira o espectador da zona de conforto e apresenta uma perspectiva utópica e revolucionária.

No meio do caos econômico e social que vive a cidade, o filme propõe que uma classe derrote a outra. Que os muito ricos e opressores paguem com a própria vida todo mal que causaram ao mundo.

Um final apoteótico para alguns e aterrorizador para outros.

Por isso que parte da burguesia nacional passou a militar contra o filme, dizendo se tratar de um palhaço marxista e doutrinador.

Incapaz de olhar em torno e assumir sua responsabilidade nessa tragédia social, a burguesia histérica prefere eleger fantasmas e confundir a realidade.

Para essa gente, a culpa é sempre dos outros; dos pobres, dos pretos, dos marginais, das prostitutas, dos gays e dos comunistas.

Uma obra de arte verdadeira carrega sempre uma beleza livre e subjetiva aos olhos de quem aprecia. Cada um entende como quiser a narrativa exposta.

Eu gosto da metáfora de que precisamos derrotar tudo que nos faz sofrer. Como alcançar esse objetivo é a busca diária dos que lutam por um mundo menos injusto.

O caos na velha Nova York fez-me lembrar de uma frase do jurista e ex-governador de São Paulo Claudio Lembo sobre os ataques do PCC em 2006:

“Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”.

Em tempo, Claudio Lembo não é um marxista, muito pelo contrário, é um liberal clássico.

gervasio coringa moro dallagnol.jpg

 

16
Nov19

Assédios e estupros no mundo do cinema

Talis Andrade

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Duas denúncias públicas de mulheres francesas relançaram nos últimos dias o debate sobre os assédios e estupros no mundo do cinema. Neste fim de semana, o jornal Le Parisien publicou o testemunho de Valentine Monnier, uma ex-atriz, ex-modelo e hoje fotógrafa, que acusa o cineasta Roman Polanski de tê-la estuprado e agredido em 1975. Dias antes, a atriz Adèle Haenel acusou o diretor Christophe Ruggia de tê-la assediado e molestado. Entre 2001 e 2004, quando ela tinha entre 12 e 15 anos, e ele entre 36 e 39. Os acusados negam os fatos.

“Em 1975 fui estuprada por Roman Polanski. Eu não tinha nenhum vínculo com ele, nem pessoal nem profissional, e mal o conhecia. Foi de uma violência extrema, depois de esquiar, em seu chalé de Gstaad (Suíça). Bateu em mim até que eu me rendi. Depois me violentou me fazendo sofrer todas as vicissitudes. Eu acabava de completar 18 anos”, declarou Valentine Monnier ao Le Parisien. Polanski – franco-polonês procurado pela Justiça dos EUA pelo caso envolvendo Samantha Geier em 1977, quando ela tinha 13 anos – estreará nesta semana na França o filme J’Accuse, sobre o caso do capitão judeu Alfred Dreyfus, falsamente acusado de espionagem para a Alemanha no final do século XIX. O ator protagonista, Jean Dujardin, cancelou no domingo uma entrevista para falar do filme no telejornal do canal TF1.

O relato de Monnier – a quinta mulher que diz ter sido estuprada pelo cineasta – é detalhado. Filha uma família burguesa da Alsácia, acabava de concluir o segundo grau e desfrutava de um ano sabático. Uma amiga, que conhecia Polanski, propôs que fossem esquiar na Suíça, onde se alojariam no chalé do diretor. Monnier conta que um colaborador do cineasta – célebre então por ter dirigido O Bebê de Rosemary e Chinatown e pela trágica morte de sua esposa, Sharon Tate, assassinada por fanáticos ligados a Charles Manson – lhe advertiu: “Atenção, você faz Roman lembrar de alguém”. Acrescenta que à noite, depois de esquiar, Polanski a chamou em seu quarto e se jogou sobre ela; depois, aos prantos, lhe pediu perdão.

A abundância de testemunhos também contribuiu para fortalecer a acusação de Haenel – atriz com 23 filmes no currículo e três prêmios Cesar – contra Ruggia – um diretor até hoje pouco conhecido – em uma longa reportagem no jornal Mediapart. Haenel detalha sua experiência intensa e traumática como atriz infantil no filme Les Diables, dirigido por Ruggia. Os testemunhos se referem à proximidade do diretor com a atriz durante as filmagens, mas não ao que aconteceu depois. Haenel conta como, depois das filmagens, Ruggia atuou como Pigmaleão da jovem atriz, que frequentava sua casa aos sábados para assistir filmes.

“Eu sempre me sentava no sofá e ele na minha frente, em uma poltrona; depois vinha ao sofá, grudava em mim, beijava meu pescoço, cheirava meus cabelos, acariciava minha coxa descendo até meu sexo, começava a colocar a mão sob minha camiseta e ia até o peito. Estava excitado, eu o repelia, mas era insuficiente, sempre tinha que mudar de lugar”, diz Haenel. Em uma carta ao Mediapart, Ruggia diz que “nunca” teve com a atriz “gestos físicos nem o comportamento de assédio sexual” do qual ela o acusa. “Mas cometi o erro de agir como Pigmaleão com os mal-entendidos e empecilhos que isso implica”, acrescenta. O Ministério Público de Paris abriu uma investigação preliminar. [Transcrevi trechos de reportagem de Marc Bassets]

 

18
Set19

Bolsonaro e a censura sem fronteiras

Talis Andrade

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Página 12/ Versão em espanhol aqui
 
 

Diz a Constituição que não há censura no Brasil, e que a liberdade de expressão está assegurada.

Diz Jair Bolsonaro, o ultradireitista que preside este país náufrago, que não existe censura: existem ‘filtros’.

Diz escancaradamente a realidade que a censura voltou, e voltou com força. Inimigo radical da cultura, das artes e da inteligência, o governo de Bolsonaro tornou a censurar drásticamente. E começou pelo cinema.  

‘Chico: um artista brasileiro’, documentário do premiado diretor Miguel Faria sobre Chico Buarque, foi convidado a participar de um festival de cinema brasileiro que se realizará por esses dias en Montevidéu. A embaixada do Brasil no Uruguai, uma das patrocinadoras do evento, determinou que o filme fosse eliminado da programação.

Com isso, o governo de Bolsonaro fez sua estréia em uma nova modalidade: a censura além-fronteiras. Se existem os ‘Médicos sem fronteira’, Bolsonaro lançou os ‘Censores sem fronteira’.  

A ojeriza do governo com Chico Buarque não tem limites. Quando ele foi contemplado com o prêmio Camões, o mais importante do idioma, por tudo que escreveu ao longo da vida, Bolsonaro explodiu em cólera. Quis saber quem havia indicado os brasileiros que integraram o júri. Não para felicitá-lo, é claro: para exigir a decapitação do então secretário de Cultura, responsável pela indicação.

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‘Marighella’, primeiro filme dirigido por Wagner Moura – um dos mais brilhantes atores da sua geração em toda a América Latina – vem sendo recibido com forte impacto em festivais de vários países. No de Berlim, um dos mais importantes do mundo, a história do mítico guerrilheiro foi recibida com fortes aplausos. Em Brasilia, com fortes mostras de fúria.

A data de estréia seria o dia 20 de noviembre. Seria: travas postas pela  ANCINE (Agência Nacional de Cinema) suspenderam a estréia, e já não se sabe quando será.

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Onze outros filmes, entre documentários e obras de ficção, serão exibidos em festivais importantes ao redor do mundo. A mesma ANCINE havía aprovado cobrir gastos de transporte dos diretores ou produtores. A contribuição mais generosa: uns mil e cem dólares. Outras, menos. Ou seja, pouquíssimo dinheiro.  

A pesar da insignificância dos valores anunciados, nos últimos días a ANCINE avisou que os recursos anteriormente aprovados estavam cancelados. O argumento: falta de dinheiro. O total não chegava a treze mil dólares.  

Não por coincidência, dois dos filmes tratam de temas homo-afetivos, outro aborda a questão da juventude negra. Um deles, ‘Greta’, tem como protagonista Marco Nanini, um dos maiores atores brasileiros. Não importa: é preciso preservar ‘os valores da família’ defendidos pela família presidencial, que ninguém sabe quais são.

Bolsonaro já havia anunciado que não seriam feitos filmes ‘pornográficos’ com recursos públicos. Foi intensamente aplaudido pelos fundamentalistas que o seguem.  

O critério que determina o que é e o que não é pornografía depende exclusivamente do senhor presidente. Ou do que determinem seus alucinados filhos.

Para fazer ainda mais turva a situação do cinema brasileiro – que passa por um período de forte reconochecimnnto internacional –, a ANCINE está praticamente acéfala.  

Bolsonaro amenaçou liquidá-la. Se acalmou um pouquinho (se é que ele se acalma alguma hora…) diante do argumento de que o setor emprega milhares de trabalhadores e move milhões de dólares. Não liquidou mas congelou: cortou 43% do orçamento do fundo responsável por financiar a produção audiovisual brasileira, e o que restou ninguém sabe quando aparecerá, nem quais serão os critérios para sua liberação.

Com isso, estão paralisadas practicamente todas as novas produções programadas para rodagem ou finalização. A indústria do cinema, como consequência, ameaça colapsar.  

O ministro da Educação, que comete erros de concordância quando fala e de ortografía quando escreve, não pratica censura de forma aberta: optou por suspender em alguns casos, e cancelar em muitíssimos outros, a concessão de bolsas de pesquisa acadêmica. Dedicou atenção especial às destinadas a temas ligados às artes, à cultura e às ciências humanas. E suspendeu, claro, a compra de livros.

Sim, sim, não há censura, o que existem são ‘filtros’. Tremendo cinismo…

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