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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

22
Jun21

Os superegos vigilantes

Talis Andrade

 

bolsonaro genocida.jpg

 

por CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

Fascismo”, “nazismo” e “perversão” na crítica política.

Desde que Bolsonaro chegou ao poder, e mesmo antes disso, muitos vêm comparando sua trajetória política com o fascismo, com o nazismo e com a figura clínica da perversão como maneira de alertar para o mal que seu governo representa para o espírito e para a sociedade brasileira. Assim como ninguém se diz racista, ninguém se reconhecerá nazista, com as exceções notáveis de sempre. No entanto, esse argumento, que se poderia chamar argumento do pior, vem sendo neutralizado por um certo neoliberalismo digital complacente, sempre disposto a ir um pouco além na tolerância e na administração do sofrimento humano. Foi nesse contexto que os anos 1990 viram aparecer a lei de Godwin, que afirma: “À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazistas tende a 100%.”

Segundo essa ilação satírica, o ponto de Godwin é o momento exato em que alguém, exaurido em seus argumentos, passa a ofender o outro com a pior das analogias. O surgimento de comparações exageradas poderia assim funcionar como uma espécie de pedido indireto para a interrupção da conversa. Em 2018, para surpresa geral, o próprio Mike Godwin, criador da lei, veio a público para dizer que a lei continua valendo, mas que é correto chamar Bolsonaro de nazista.

No contexto geral de luta pela deposição de Bolsonaro e pela redemocratização do país, muitos são aqueles que parecem ter reservado para si o uso de categorias críticas, como se elas não devessem ser usadas quer pela consideração da autoridade de quem enuncia a crítica, quer pela banalização de fenômenos totalitários, quer pela sua imprecisão histórica. Tudo se passa como se o emprego de uma destas categorias quaisquer pudesse ser traduzido por uma expressão simples do tipo: “Você é um radical tomado por suas crenças (assim como quem você critica)”. Desta forma, o argumento só confirma as crenças do grupo de quem o enuncia e afasta mais ainda o grupo que se quer conquistar ou incitar a uma mudança de opinião.

Para outros, mais estratégicos, trata-se de evitar esse argumento porque ele é uma espécie de tudo ou nada, que representa por si só o que não se deve negociar, ceder ou contemporizar, no sentido estrito da antipolítica. Desta forma, a argumentação não é eficaz pois aqueles que já pensavam assim antes permanecem onde estão e os outros, envolvendo desde conservadores arrependidos, liberais enganadas até religiosos fundamentalistas e antipetistas reativos, não sairiam do lugar. Ademais, incitamos a confirmação de que a esquerda continua radical como antes, arrogante e dona da verdade.

Um terceiro grupo dirá que há inexatidão, posto que nem todas as condições políticas do fascismo europeu dos anos 1930 estão dadas, assim como nem todos os quesitos para perversão estão atendidos, ou que as melhores condições de diagnóstico não estão disponíveis. Eis aqui como a ciência pode tornar-se irresponsável por excesso de responsabilidade. Pesquisadores de bancada e intelectuais orgânicos se recusaram a sujar as mãos com o mundo empírico da política, enquanto outros, também irresponsáveis, criavam entre sombras o gabinete paralelo da saúde.

Tais objeções são retoricamente pertinentes, mas até onde elas escondem um compromisso com o colaboracionismo? Por exemplo, o analista político Michel Gherman foi repreendido publicamente pelo presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, por ter se referido aos bolsonaristas como nazistas. Ou seja, alguém com uma larga experiência no uso político de expressões religiosas, como shoa e nakba, que se dedicou ao entendimento histórico e conceitual do nazismo, pode ser assim desqualificado por um representante religioso? Quando um candidato à presidência diz que: “as minorias devem se adaptar ou desparecer”, isso deveria ter ativado um botão histórico de emergência e alerta contra a repetição.

O caso levanta um outro aspecto do problema, ou seja, instituições e pessoas, que acreditam possuir para si o sentido e o domínio do uso de certas palavras. Quando produzi material técnico para o processo de impeachment de Bolsonaro, movido pela Academia Paulista de Direito, tive que ouvir de colegas que não se deve politizar diagnósticos. Assim também quando nosso grupo da USP publicou uma série de textos mostrando como o bolsonarismo retomava vários dos elementos do fascismo, ouvimos que isso não era um problema, pois se nem todos os elementos do fascismo estavam presentes estávamos cometendo um abuso conceitual.

O que se destaca nesses comentários é o desentendimento cabal de que experiências como o nazismo e o fascismo têm uma história. Isso significa que elas se transformam com o tempo, assumem novas máscaras e criam aliados. Mas isso não muda o fato de que Auschwitz não é apenas um acontecimento excepcional, mas é também um paradigma do que não deve se repetir. De Adorno a Agamben, insistimos no fato de que os campos de concentração não são um efeito do fato de que, repentinamente, milhões de alemães se tornaram perversos e que isso aconteceu, como diz Gherman, a partir de 1933 quando Hitler ascendeu ao poder, e não em 1941 quando o sistema de extermínio e a formulação da solução final foi proposta. O paradigma dos campos é um paradigma justamente porque ele se aplica fora de si mesmo, ao racismo, ao sexismo, à homofobia, à xenofobia e a tudo o mais, nos laços de produção e reprodução social, que possua estrutura de segregação.

Em 2015, muito antes da própria candidatura Bolsonaro, fiz uma coluna no blog da Boitempo dizendo que ele deveria pedir desculpas imediatas à deputada Maria do Rosário a quem disse “não te estupro porque você não merece”. Pedir desculpas a todos os brasileiros e, de preferência, procurar ajuda psicológica imediata. Vários amigos também consideraram um exagero quando disse que um psicanalista não pode votar neste sujeito, pois se outras profissões e formações não exigem rigor de escuta e entendimento do que é um discurso, a ponto de reconhecer seu potencial de periculosidade e violência, nós somos formados eticamente para isso. Aquele que não consegue ver isso diante de seus olhos é melhor que se retire do ofício. A incapacidade de perceber que “isso vai dar naquilo”, que “1933 dá em 1941” e que “a abertura para as armas dá em crise de vacinas” é um indício sério de quem pensa por exemplos e não por conceitos. Para esses “enquanto não tiver bigode e câmera de gás, com Ziklon B, então ainda não é nazismo”. Para esses eu digo: “volte atrás agora, senão a vacina de Nuremberg vai chegar para você amanhã”.

A apropriação de termos e conceitos, quando não de palavras, é um problema político curioso porque cria por um lado especialistas e estudiosos que não devem se pronunciar e, do outro, comunidades de gosto, religiosos e não-políticos, que adquirem a propriedade, marca patente e prerrogativa de uso.

Há aqui em curso algo mais complicado do que apenas os territórios e as políticas discursivas de silenciamento e tolerância seletivas. Há o efeito do trauma representado em cada uma destas expressões. O trauma facilmente cria os seus superegos vigilantes para se reproduzir. Ele silencia e desautoriza a experiência como coletiva, individualizando seus atores. Ele torna invisível o retorno de sua violência por meio de um pequeno trabalho de maquiagem, também chamado por Freud de “deformação simbólica”. Ademais, o trauma se repete. Daí a importância de que nazismo, fascismo e perversão (no que ela carrega de traumático ao seu redor) têm estrutura de repetição. A maneira pela qual se interrompe tal repetição demanda um processo de memória completamente diferente do que vemos com os modos de lembrar.

Estive recentemente num debate com Ilana Feldman e Felipe Poroger sobre como os alemães estão lidando com essa repetição do trauma por meio de uma nova linguagem fílmica. São filmes que permitem entender como o enquadre, o regime de ficcionalização-factualização e a separação entre e nomeação e o Real são elementos elaborativos de traumas históricos.

Por exemplo, em Colegas (Janis Kieffer, 2020) percebemos como a terceira geração de descendentes do nazismo pode agora falar disso sem cair no monumentalismo e no descritivismo que caracterizam os primeiros tempos de elaboração do Auschwitz nunca mais. Dois trabalhadores rurais são apresentados confeccionando suásticas nazistas e outros artefatos em um quadro de apatia e alienação. Logo nos damos conta que se trata de “mais um filme sobre o nazismo”.  Mas a nossa indiferença é rompida quando se trata de testar o forno de extermínio. Mesmo sabendo que se trata apenas de um pórtico, sem fundo e malfeito, os personagens são tomados por um silencioso instante de mal-estar infinito quando o diretor de cena esbraveja para que o prisioneiro número 6, vestido a caráter, entre no forno. É só neste momento que os atores parecem despertar para o tom insólito dado ao tratamento do tema, ou seja, o ponto em que a brincadeira foi longe demais. Ou seja, não é apenas pelo uso rigoroso e conceitual dos termos que uma experiência se elabora, mas também pela irreverência respeitosa da deformação trazida pela arte, permitindo que emerja um novo fragmento de verdade em meio à apatia.

No segundo curta, A Mentira (Rafael Spínola e Klaus Diehl, 2020) vemos como é possível recorrer ao amor, narrativizar o trauma. Um espião da Stasi retrata objetivamente os pormenores da vida de um casal em um monótono documentário com apresentação de slides com cômodos vazios e resíduos de uma festa. Não aparecem personagens, apenas hipóteses sobre o que poderia ter acontecido. Contudo, ao final o relatório de espionagem serve de suporte para uma carta de amor. Essa carta de amor, escrita no rodapé do informe do perito, é o foco do documentário sobre o documentário, feito 30 anos depois, e que explora o trauma do amor ligado pela afinidade de angústia.

Em Aquele que Cruzou o Mar (Jonas Riemer, 2020), acompanhamos a trajetória de um fugitivo da Alemanha Oriental que se torna, ele mesmo, um policial perseguidor de imigrantes ilegais. Mas é só quando ele se escuta, fazendo perguntas chaves, no contexto de interrogatórios que a temporalidade do trauma pode ser refeita, percebendo no outro os sonhos que um dia foram os nossos.

É preciso incorporar o silêncio dos sobreviventes, renovar nomeações, recolher versões e trabalhar para que certas palavras se separem da moldura imóvel do museu: “nazismo”, “fascismo” e “perversão”. Precisamos nos interrogar sobre o que significam tais palavras hoje, sem que elas se fechem em uma reconciliação encobridora ou se tornem propriedade de alguns, pois elas pertencem a todos nós. Além disso, é muito importante dar lugar ao sem-sentido. Daí que seja preciso certo humor, paródia e ironia construtiva para evitar o complexo de superioridade moral de vencidos e vencedores.

Annette Wieviorka lembra como a narrativa que hoje temos do holocausto deve-se muito a um documentário algo sensacionalista produzido para uma série de televisão, em 1978. Considerado kitsch e de mal gosto por sobreviventes, como Elie Wiesel, ainda assim inspirou a construção, durante o governo Jimmy Carter, do Museu Memorial do Holocausto, em Washington D.C., e a revogação da lei de anistia aos que participaram como burocratas e tecnocratas do holocausto. Ainda que imprecisa e pouco rigorosa, e talvez por isso mesmo, a série televisiva inspirou uma onda de coleta de novos testemunhos. A própria redefinição da experiência dos campos de extermínio como “holocausto” ou como “shoah” procede do desejo de dizer: “não foi assim”, ou seja, de dizer mais uma vez, de dizer melhor, aquilo que nos escapa representar em toda sua extensão. A própria aparição do filme A Lista de Schindler (Spielberg, 1993) é outro capítulo deste processo. Ainda que agora os testemunhos tendam à conciliação, com cada qual a “colocar uma pedra em cima do ocorrido” em memória dos homens justos, haverá aquele que dirá que outras versões virão. Teria sido melhor que o filme não tivesse existido por causa disso?

Ou seja, o trabalho de correção, a elaboração de versões mais rigorosas, o debate para definir o escopo destas palavras parece ser um caminho melhor do que o uso restrito, coorporativo e administrado. A história se move para outro patamar quando ela se refaz e quando encontramos nela matéria de resistência e memória para reinvenção do presente.

27
Dez20

A covardia de Olavo de Carvalho

Talis Andrade

bolsonaro guedes moro olavo.jpg

 

Olavo de Carvalho abriu uma queixa-crime em reação à minha coluna no Blog da Boitempo. A petição jurídica é um documento de autoconfissão da miséria intelectual que assola nosso país. É disso que é feita essa empáfia bélica baseada na retórica das armas: a covardia

 

por Christian Ingo Lenz Dunker

Olavo de Carvalho abriu uma queixa-crime contra mim por calúnia, difamação e injúria baseando-se em uma coluna, publicada aqui no Blog da Boitempo, na qual eu o apresento como “ideólogo de Bolsonaro”. A queixa baseia-se na suposta afirmação de que Olavo não tem diploma universitário. Diz ela:

 

“O querelado, num revezamento macabro, em tese, com outros mercenários, incautos ou subservientes aos podres poderes populistas bolivarianos, aduzem com ênfase que; o Mestre Olavo não teria curso reconhecido, como se isso nos impedisse de admirar Jô Soares, Silvio Santos, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Santos Dumont e tantos outros gênios em suas áreas.”1

A petição é um exemplo estético-jurídico do tosco brasileiro, que testemunha o rigor textual que encontramos nas argumentações de Olavo de Carvalho, pois na coluna em questão eu afirmava justamente que:

“O fato de que ele não tem nenhuma formação regular, como uma graduação em ciências humanas, nem mestrado nem doutorado, não deveria ser um empecilho, afinal existem muitos bons pensadores que vieram de fora do sistema universitário ou permaneceram em sua periferia.”

Christian Dunker, “Olavo de Carvalho, o “ideólogo de Bolsonaro”, contra o professor Haddad”, Blog da Boitempo, 15 out. 2018.

Ou seja, a paranoia de Olavo o faz repetir meu argumento em sua própria queixa, como que a antecipar uma crítica que eu não fiz, mas que quiçá o atormenta. Isso é o que se chama de falta de rigor. Em filosofia, rigor é critério de método, seja na precisão, seja na compreensão, interpretação e crítica de textos. Em vez disso, abundam termos desqualificativos como “mercenário” e “bolivariano”, assim como a típica “humildade” que coloca a si próprio ao lado de… “Ronaldo Fenômeno”. A comparação é simples: Olavo estaria para a filosofia assim como Santos Dumont está para a aviação. Complemento: Eike Batista e os donos da JBS “não têm formações acadêmicas basais”. Só faltou dizer: “o Palmeiras não tem mundial, e daí?”

Mas o que declaro aqui em primeira mão é que Olavo de Carvalho perdeu o processo que movia contra mim, como perdeu todos os sete outros processos que foram julgados até aqui. Vai ter que pagar advogado, custas e tudo mais. Estes foram os termos da juiz que que me deu ganho de causa:

“Mostra-se incompatível, com o pluralismo de ideias (que legitima a divergência de opiniões), a visão daqueles que pretendem negar, aos meios de comunicação social (e aos seus profissionais), o direito de buscar e de interpretar as informações, bem assim a prerrogativa de expender as críticas pertinentes.”

Posso traduzir para você, Olavo, aqui no nosso cantinho da verdade, em síntese quase dialética entre seu estilo e o meu: chupa que é de uva, senta que é de menta.

Mas voltemos à causa. Argumentei, no referido artigo, que o problema não estava na ausência de diploma, mas na irrelevância da produção de Olavo, segundo critérios quantitativos que valem para qualquer pesquisador e que qualquer leitor pode verificar por si mesmo em bases informáticas de dados que contam quantas vezes a obra de alguém é mencionada por outros, indicando sua consequência ou importância para aquela área. O livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota foi citado 39 vezes por especialistas; O imbecil coletivo, apenas 28 vezes; e O jardim das aflições, 36 vezes – na maior parte dos casos como exemplos da ascensão do novo irracionalismo brasileiro. Para ter uma base de comparação, Paulo Freire, que o governo quer destituir como patrono da educação é, atualmente, o autor brasileiro mais citado, com 342.711 menções. Marilena Chaui, uma das autoras preferencialmente atacadas por Olavo, e que tem idade comparável à dele, possui 24.095. Ou seja, leia com atenção, agora por extenso: vinte e quatro mil e noventa e cinco trabalhos a mencionam como fonte fidedigna de pesquisa.

A petição jurídica de Olavo é um documento de autoconfissão da miséria intelectual que assola nosso país. Dele passo agora a extrair os termos vexatórios da peça jurídica a que fomos expostos:

  1. Amiguismo intelectual. Presente em expressões como “ao nosso sentir: meu e do Mestre Olavo”, repetida três ou quatro vezes, combinando a elitização provinciana da linguagem com a grandiloquência da cultura de bacharel passadiço.
  2. Citacionismo. Uso de referências eruditas feitas para impressionar. Por exemplo: Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Sócrates e Aristóteles, autores que teriam sido lidos por Olavo. Frases de efeito do tipo: “o que fazemos em vida ecoa pela eternidade”, de Marcus Aurelius (com nome em latim em vez do usual Marco Aurélio, um caso de exibicionismo para incautos).
  3. Intimidação. Exemplificada pela interrogação ao juiz: “de qual o lado o meritíssimo quer passar para a história?”. Pérolas do mau gosto retórico combinam-se com referências totalmente estranhas à matéria em juízo: “pústulas, que não passam de traidores da pátria, que por intermédio de expedientes heterodoxos, vem lesando os cofres públicos e a nossa pátria mãe gentil. Faz parte de um plano macabro para assassinar reputações […]”; ou: “canalhas, canalhas e canalhas nada mais do que subservientes aos poderes populistas bolivarianos”.
  4. Defesa contextual. Aqui entra de tudo: “Lula, o chefe de uma organização criminosa”, “notinhas contra Deltan e Moro”, “IBOPE e Instituto Vox”, “fome e sede na Coréia do Norte, Cuba e Venezuela”.
  5. Ausência de volumetria egóica. A acusação arrola como testemunhas para um caso de disputa textual nada menos do que o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, a ministra Damares Alves e o ex-ministro Ricardo Vélez Rodrigues.

O conjunto da obra é um exemplo maiúsculo do tosco brasileiro na área do marketing jurídico. O autointitulado “maior pensador do Brasil” tinha a seu dispor vários argumentos. Ele poderia ter dito que a contagem de citações é um índice muito tecnocrático, mas aparentemente ele não conseguiu entender a crítica e transformou isso em uma “contagem de palavras” ou de livros publicados. Ele poderia ter dito, ainda, que a quantidade de menções refletiria simplesmente aquilo que já sabíamos: todos os universitários, não só os brasileiros, estão envolvidos nesta grande conspiração vermelha que tomou conta do mundo. Ele poderia ter mostrado textualmente como a Escola de Frankfurt defende a erotização das relações entre mãe e filho, contrariando ao que objetei em minha crítica. Mas, em vez disso, o “vacilão” escolhe partir para a intimidação jurídica. Ou seja, confessa assim que seus argumentos não são suficientes e se acovarda no plano das ideias. Arrega como arregou no desafio lançado por Débora Diniz para que ele viesse debater no Brasil. É disso que é feita esta empáfia bélica baseada na retórica das armas: a covardia.

O ideólogo de Bolsonaro xinga e esperneia, mas quando é confrontado no texto apela para o papaizinho jurídico. Perdeu na bola, grita e recorre à justiça. O parecer do Ministério Público comenta da seguinte maneira a queixa de Olavo:

“Não há como cogitar, portanto, que o querelado, ao proferir suas críticas, estivesse no afã de atingir a honra objetiva do querelante.”2

Será que se poderia dizer o mesmo das afirmações alopradas de Olavo, do tipo:

“Pegue um garoto alfabetizado pelo método socioconstrutivista e aplique-lhe um enema de Jacques Lacan na faculdade. Ele vira o Christian Donkey.”

Parece que depois da “mamadeira de piroca”, o “enema de Lacan” tornou-se o novo fetiche da fixação anal que tomou conta do governo.

A prática compulsiva de processos jurídicos é uma espécie de compensação sintomática, como que levar a sério o que o outro diz para ocultar sua própria inconsequência com a própria palavra. Isso ocorre com Olavo, isso ocorre com Bolsonaro: a cada semana digo algo diferente e oposto no Twitter e tudo bem. No meio da confusão, ninguém paga a conta. Essa inconsequência com as palavras é a cláusula de isenção para o programa eleitoral de Bolsonaro e suas sucessivas inequidades discursivas no governo. Quando alguém responde na mesma moeda, ou um pouco menos, a pessoa se sente ofendida e processa seu opositor. O acusacionismo tomou conta do país e, com ele, os acusões. Quando sua filha, Heloisa Arribas, denunciou o descaso e abuso sexual sofrido na infância, a resposta de Olavo foi a mesma: processar e acusar a própria filha.

É essa nuvem contagiosa e imbecilizante que estamos enfrentando. Olavo de Carvalho processou Daniel Tourinho Perez, professor de filosofia da UFBA, porque este mostrou como ele não sabe ler Kant. Processou Gilberto Dimenstein quando este apresentou dados sobre sua suspeita situação econômica. Pede dinheiro aos discípulos para despesas médicas e o emprega em despesas jurídicas. Morando fora do Brasil, esconde-se da réplica jurídica, mas foi surpreendido por Caetano Veloso que o processou de volta, em solo americano, tendo em vista o uso ofensivo de expressões como: “delinquente travestido”.

O sistema discursivo de Olavo de Carvalho, cujo único interesse é estar assimilado ao poder conferido pelo presidente e seus filhos, baseia-se em projetar nos outros aquilo que ele mesmo está a praticar. Calunia a honra dos generais, acusando-os de conspiradores. Difama professores brasileiros, como corruptores e ignorantes. Injuria a honra de adversários, recorrendo a palavrões e ofensas. Ao agir assim, cria-se uma espécie de balbúrdia calculada. O efeito “briga de marido e mulher” equaliza fatos e argumentos estimulando a sensação de incerteza que faz cada qual reforçar seus próprios preconceitos e estereótipos. Ao fim e ao cabo, Olavo acusa um, acusa outro, e se mostra mesmo um “acusão”.

Não posso mais que refazer a pergunta que coloquei lá atrás em minha primeira coluna aqui no Blog da Boitempo, desde meus debates com Rodrigo Constantino, discípulo de Olavo: o que aconteceu com a direita brasileira que ela se tornou incapaz de argumentar? É certo que desde então o número de deslocamentos nesse campo da direita aumentou: Reinaldo Azevedo mudou de postura, Villa experimentou um solavanco de deslealdade, Pondé ensaia uma abertura de conversa com a democracia, e até Lobão parece ter largado a Vida Bandida.

Será que só você, Olavo, continuará na covardia em vez de defender seus pontos de vista a céu aberto como um verdadeiro filósofo?

Notas

1 Processo 1000175-60.2019.8.26.0050 conforme Petição Inicial ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Vara do Juizado Especial Criminal. Grifos nossos.
2 Juizado Especial Criminal do Foro Central da Capital, auto 1000175-60.2019.8.26.0050.

 

27
Dez20

Uma missa e a estética do Bolsonarismo

Talis Andrade

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Tudo do bolsonarismo [...] é marcadamente tosco, desajeitado. É uma estética de convencimento 'popular', pois quer se identificar com setores da sociedade onde a raiva estava guardada, onde o ressentimento já imperava há muito tempo, onde se buscavam desculpas para o ódio

 

por Marcus Vinicius de Souza Nunes

 

Talvez não devêssemos nos assustar com qualquer coisa aparentemente desvairada que o atual governo do Brasil protagonizasse. O chefe do executivo, os ministros, os secretários, os partidários, os militantes esbravejando contra a vacina, tudo isso parece uma pantomima, uma atuação exagerada, uma encenação de mau gosto. Às vezes somos tentados a entender isso tudo sob a rubrica da loucura, da mania, da dissociação psíquica. Parece-me que tomamos um caminho fácil, e mesmo errado, quando fazemos isso.

A missa celebrada e transmitida ao vivo no canal oficial do Ministério da Saúde, no dia 14 de dezembro (festa litúrgica de São João da Cruz) é mais que uma pantomima, e bem menos do que mereceria a dignidade sacramental. Creio que estamos contemplando uma pequena expressão de uma ampla estética, absurda, kitsch, desengonçada, mas que é coerente com o antiprojeto de Nação do bolsonarismo.

No dia 17 de junho de 2019 o psicanalista e professor da USP, Christian Dunker, publicou um vídeo em seu canal no Youtube intitulado Olavo de Carvalho e o tosco brasileiro (disponível aqui) Em tom de brincadeira, em uma fina ironia, Dunker ressalta que no futuro olharemos para esse momento da história brasileira e precisaremos, além de categorias históricas, sociológicas e políticas, de noções estéticas.

Tudo o que diz o pretenso filósofo da Virgínia (que se quer mais católico que o Papa) é atravessado por uma grotesca estética, chula, grosseira, vulgar: palavrões e obscenidades que se combinam com imagens de santos e obras clássicas da filosofia, como uma confissão de desejo sacrílego, uma vontade de profanação. Também o chefe do executivo nacional, que além da chula e obscena conduta, gosta de apresentar-se simploriamente, comendo pasteis, andando de chinelo em atos oficiosos, querendo parecer “próximo” das pessoas, não faz mais que uma mímica debochada de vida simples, um simulacro de cotidianidade, já que algumas fontes nos revelam que os gastos do Alvorada são um pouco mais altos que os necessários para a vida que “pobre” que ostentam nas redes.

Tudo do bolsonarismo, lives, camisetas, palavras de ordem, xingamentos, discursos, comentários, filmes, músicas, tudo é marcadamente tosco, desajeitado. É uma estética de convencimento “popular”, pois quer se identificar com setores da sociedade onde a raiva estava guardada, onde o ressentimento já imperava há muito tempo, onde se buscavam desculpas para o ódio.

A missa de segunda-feira, dia 14, é mais uma peça publicitária dessa estética tosca, não obstante a dignidade intrínseca do sacramento, ou apesar dela. Missas sempre foram celebradas para os servidores dos mais variados setores de Brasília. Mas na missa de segunda (valha o trocadilho) tudo é propositalmente displicente: a toalha torta sobre a mesa de conferências, a credência improvisada, o painel do Ministério ao fundo, a fala do presbítero sobre sua vitória contra o vírus. Tudo desajeitado como a tosca estética bolsonarista, feita para inflamar os ânimos das suas fileiras e para confundir os sentidos dos opositores. No dia de São João da Cruz, como uma mensagem codificada, preparando-nos para essa noite do espírito em que mais e mais nos aprofundamos

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