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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

17
Mai18

As referências de ‘This is America’, o canto antirracista de Childish Gambino

Talis Andrade

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Não esquecer que o Brasil temos o complexo de "dona".

 

O que Donald Glover está fazendo em seu último vídeo musical? O ator e roteirista, que também grava discos sob o pseudônimo de Childish Gambino, acumulou 33 milhões de visitas no YouTube nas primeiras 48 horas de publicação de This is America. Os estranhos movimentos que se encadeiam nesta gravação de pouco mais de quatro minutos têm uma mensagem específica: compilar um bom número de referências à discriminação racial nos Estados Unidos.

 

O homem negro que aspira a ser branco

Um violão e uma cadeira dentro de um galpão estão no centro da primeira imagem do vídeo. Em poucos segundos, um homem negro se senta para tocar violão enquanto a figura de Glover aparece ao fundo da imagem.

 

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O músico dança em primeiro plano e faz um gesto estranho com o olho direito, em referência a Tio Ruckus. Este personagem de ficção, o antagonista da história em quadrinhos The Boondocks, é um homem negro que acredita ser branco e que mostra tendências racistas.

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As leis que fundamentam a segregação

O homem do violão, o artista Calvin the Second, aparece encapuzado e Donald Glover lhe dá um tiro na nuca enquanto assume uma posição muito peculiar. Com ela imita Jim Crow, outro personagem de ficção muito arraigado na cultura popular norte-americana.

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No século XIX, o ator branco Thomas Dartmouth criou um espetáculo blackfaceno qual cantava e dançava com o rosto pintado de preto, interpretando um escravo negro que possuía todos os estereótipos negativos relacionados com a comunidade negra.

 

vaudeville de Darmouth teve tanto sucesso que Jim Crow passou a ser uma forma depreciativa de se referir a um cidadão afro-americano. Embora hoje possa parecer inacreditável, o termo pejorativo também deu nome a um conjunto de leis norte-americanas que promoveram a segregação racial nos Estados Unidos até 1965.

 

Continue a leitura aqui

16
Mai18

As mensagens ocultas no novo videoclip de Childish Gambino

Talis Andrade

Referências aos tiroteios em massa nos Estados Unidos, críticas à discriminação racial e sátiras ao Exército dos Estados Confederados. O novo videoclip de Childish Gambino descodificado

por Marta Leite Ferreira

 

childish-gambino.jpg

 

 

“This Is America”, a nova canção que Childish Gambino lançou há nove dias, está prestes a ultrapassar a marca das 108 milhões de visualizações no YouTube. São quatro minutos e quatro segundos de viagem pela mente psicadélica do alter-ego de Donald Glover, onde o cantor norte-americano disserta sobre o debate em redor do acesso às armas nos Estados Unidos e sobre a discriminação racial no país, dois assuntos que muitas vezes andam de mãos dadas. Este tem sido um assunto recorrente nas produções musicais de artistas afro-americanos nos últimos anos. Mas só mesmo Childish Gambino conseguiu fazer da música uma Pedra da Roseta para essa discussão.

 

 

videoclip de “This Is America”, que chegou ao YouTube no mesmo minuto em que Childish Gambino apresentava a canção no Saturday Night Live, é como o Inferno de Dante na “Divina Comédia”: faz-se de círculos cada vez mais profundos e decadentes. E de camadas. Donald Glover nunca quis explicar nenhum dos crípticos pormenores que lançou no videoclip: “Acho que esse não é o meu papel. É apenas uma coisa que fiz para as pessoas. Não quero dar nenhum contexto sobre o que se passa no vídeo. Sinto que podes assistir a tudo isto e tirar as conclusões que precisares de tirar”, conta o cantor numa entrevista sobre o filme “Solo” da saga Guerra das Estrelas, em que também participa.

Nem precisa. Por detrás deste videoclip tão enigmático quanto desconfortável está Hiro Murai, braço direito de Donald Glover que lhe montou muitos dos videoclips e que participa na realização da série “Atlanta”, onde o cantor de 34 anos é uma das personagens principais: “Visualmente, ‘This is America’ foi inspirado na ideia de um vídeo de dança que aconteceu nos últimos 20 minutos do filme ‘Mother!’  ou no mundo de ‘Cidade de Deus’. No final das contas, era sobre colocar todas as peças no quadro e descobrir o que queríamos enfatizar e qual era o tom que queríamos atingir”, explicou o japonês numa entrevista à Variety.

São as essas as peças que descodificamos a seguir.

 

 

A roupa de Childish Gambino

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Nada é inocente em “This Is America”. As calças com botões e os sapatos amarelos que Childish Gambino, o alter-ego de Donald Glover, usa ao longo de todo o videoclip são semelhantes à farda que era utilizada pelo Exército dos Estados Confederados, a força militar do século XIX que defendia os seis estados do sul dos Estados Unidos — Alabama, Carolina do Sul, Flórida, Georgia, Louisiana e Mississipi — durante a guerra civil norte-americana. Estados do sul dos Estados Unidos que eram os mais preconceituosos e violentos do país. Está feita a primeira sátira à discriminação racial, um dos assuntos que marcam a agenda social norte-americana na atualidade.

 

Os movimentos exagerados

 

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A partir do segundo 27 do filme e ao longo de todo o videoclip, Childish Gambino adota uma dança com movimentos exibicionistas e expressões faciais exageradas. Esses movimentos e a posição com que o ator os trava aos 50 segundos são uma personificação de Jim Crow, o boneco inventado por  Thomas D. Rice que caricatura os afro-americanos do século XIX de acordo com as interpretações caucasianas da época. É desse boneco que fala a música “Jump Jim Crow”, que era cantada nos espetáculos de Thomas D. Rice e que satirizava a vida dos escravos negros levados de África para os Estados Unidos. A personagem “Jim Crow” viria a baptizar as leis que institucionalizaram a segregação racial nos Estados Unidos entre 1876 e 1965.

A glorificação da arma

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A canção de Childish Gambino começa com 50 segundos de uma melodia harmoniosa na guitarra criada pelo músico Calvin The Second. Na primeira dança de Childish Gambino, o guitarrista sai de cena e só volta a entrar com um saco na cabeça para ser baleado na nuca pelo cantor. Esse é o ponto de viragem da música, quando Childish Gambino abandona a alegria da canção para embarcar na crítica aos debates em redor do acesso às armas dos Estados Unidos: depois de matar o homem, o alter-ego de Donald Glover entrega a arma a uma personagem secundária que a recolhe num pano de veludo. Enquanto a arma é cuidadosamente guardada, o cadáver é arrastado por duas pessoas para fora da cena. É assim que o cantor norte-americano critica o facto de se dar mais importância ao poder das armas do que às vítimas que elas provocam.

A dança sul-africana

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Um pouco depois de Childish Gambino matar Calvin The Second, um grupo de jovens afro-americanos entra em cena e junta-se ao cantor para uma dança. A coreografia que o grupo interpreta é uma versão do Gwara Gwara, uma dança típica da África do Sul que Rihanna levou para cima do palco dos Grammy Awards para cantar “Wild Thoughts”. Mas sempre que a coreografia começa, o que acontece várias vezes ao longo do videoclip, o mais importante acontece atrás do grupo: podem ver-se cenas de violência, perseguições, tiroteios e pessoas em pânico em plano de fundo. Há quem leia esta dicotomia como uma crítica ao facto do entretenimento, que preenche grande parte do sonho americano, ser usado como distração para os problemas que assolam o país. Mas há também quem veja na dança um elogio à resiliência dos jovens que constituem a comunidade negra dos Estados Unidos por ter aprendido a conviver com o perigo iminente.

Caso de Tamir Rice

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Numa dessas várias situações que ocorrem enquanto grupo dança, uma delas é especialmente importante: a partir do minuto e meio e durante dez segundos pode ver-se um rapaz com uma arma de plástico a brincar em cima de um carro. Esta é uma referência ao caso de Tamir Rice, um rapaz de 12 anos que foi morto em 2014 por dois polícias que respondiam a um alerta sobre “um homem negro que não pára de tirar uma arma de dentro das calças e de apontá-las às pessoas”. A pessoa que fez a chamada para as autoridades acrescentou que o homem era, na verdade, uma criança e que a arma era muito provavelmente falsa. Essa informação não foi dada aos polícias destacados para responder à situação, que balearam o rapaz quando chegaram ao local. Tamir Rice veio a morrer no hospital no dia seguinte.

O tiroteio de Charleston

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Logo a seguir, Childish Gambino entra numa sala dentro de um armazém onde um coro de gospel volta a cantar a parte feliz da canção. O cantor acompanha-os, mas pouco depois recebe uma metralhadora AK-47 nas mãos e dispara a matar contra o coro: todas as pessoas que o compõem caem mortas no chão e a parede por detrás delas fica manchada de sangue. Esta cena do videoclip é uma referência ao ataque do supremacista branco  Dylann Roof à Igreja Episcopal Metodista Africana Emanuel, frequentada por afro-americanos em Charleston, Carolina do Sul. Nove das doze pessoas atingidas a tiro por Dylan Roof morreram.

Caso Stephon Clark

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Enquanto Childish Gambino volta a entrar em mais uma dança do grupo de colegiais bailarinos, a câmara é desviada para uma situação que está a acontecer num andar superior: vários jovens filmam a coreografia com os telemóveis e assistem passivamente à violência que acontece por detrás dos protagonistas. É uma referência à morte de Stephon Clark, um jovem morto em março deste ano pela polícia de Sacramento com seis tiros nas costas. Tudo aconteceu quando as autoridades procuravam um homem que andava a partir janelas de carros nas vizinhanças de Meadowview e decidiram interrogar Stephon Clark, que estava desarmado no jardim da casa da avó. Quando fugiu dos agentes, o rapaz de 22 anos foi baleado a mando dos polícias que estavam a sobrevoar a zona num helicóptero. O momento foi gravado pelas câmaras de vídeo da polícia e chegou a público três dias depois.

Morte num cavalo branco

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O momento mais macabro do videoclip acontece depois dos dois minutos e trinta segundos quando, atrás de Childish Gambino, uma pessoa coberta de negro atravessa a cena em cima de um cavalo branco. É uma referência ao livro do Apocalipse, capítulo seis e versículo oito, que diz: “E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra”. Atrás do cavalo seguia um carro de patrulha da polícia, que assim é comparado ao inferno.

O tiroteio de Parkland

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Pouco depois de a Morte desaparecer em cima de um cavalo branco, Childish Gambino recomeça a coreografia com os estudantes. Logo a seguir, no entanto, o cantor finge que está a apontar uma arma imaginária e todos os bailarinos fogem. É então que se entra num período de 17 segundos de um silêncio ensurdecedor. É uma referência ao massacre na Stoneman Douglas High School, assassínio em massa levado a cabo por Nikolas Jacob Cruz a 14 de fevereiro que resultou na morte de 17 pessoas. Os dezassete segundos em silêncio são uma homenagem às dezassete vítimas mortais do tiroteio, que também fez 15 feridos.

Uma referência a Michael Jackson

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Logo a seguir à referência ao tiroteio de Parkland, Childish Gambino entra numa garagem com carros dos anos oitenta e noventa, sobe para cima deles e começa a dançar. Se essa coreografia lhe parece familiar, não estranhe: ela é uma adaptação da dança interpretada por Michael Jackson no videoclip de “Black or White” em 1991. Há, na verdade, duas semelhanças entre esse vídeo e este assinado por Childish Gambino: os carros antigos, a dança em cima deles e a posição com que o cantor mata a primeira vítima — são muito semelhantes não só à imagem de Jim Crow, mas também a um dos passos de dança de Michael Jackson. Outro pormenor é que SZA, cantora e compositora norte-americana famosa por “The Weekend”, aparece sentada num desses carros. Ainda ninguém sabe o que a artista está a fazer no videoclip de “This Is America”, mas é possível que Donald Glove esteja prestes a anunciar um novo trabalho com a cantora.

“Get Out”?

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Os últimos vinte segundos do videoclip de “This Is America” mostram Childish Gambino a correr ao longo de um corredor escuro semelhante ao que a personagem de Daniel Kaluuya percorre quando preso numa espécie de limbo no filme “Get Out” de Jordan Peele. No filme, que esteve nomeado para o Óscar de Melhor Filme, dois médicos usam os filhos para atrair afro-americanos e deixá-los mentalmente presos numa espécie de prisão para que os corpos possam ser usados para transferir a mente de caucasianos que tenham morrido. A teoria de que há um paralelismo entre este videoclip e “Get Out” foi ainda mais adensada pelo facto de Childish Gambino ter sido introduzido por Daniel Kaluuya no programa “Saturday Night Live”, onde o cantor mostrou a música pela primeira vez ao mundo. Transcrito do Observador 

 

 

16
Mai18

Quantos mais vão precisar morrer para essa guerra acabar? Marielle, Renata Souza e Childish Gambino

Talis Andrade

Usar a execução de Marielle para legitimar a intervenção é de um oportunismo político vergonhoso e expõe a fragilidade dessa iniciativa. É preciso reafirmar: militarização, não em nosso nome

 

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por Renata Souza

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Completaram-se dois meses da bárbara execução de Marielle, e a pergunta “Quantos mais vão precisar morrer para essa guerra acabar?”, publicada pela vereadora nas redes sociais e reproduzida em todo o mundo, persiste. Essa frase traz a reflexão rápida de uma mulher que passou a vida contextualizando a realidade do Rio de Janeiro a partir do questionamento da ideia de “guerra às drogas” como justificativa da letalidade embutida na política de Segurança Pública. Por isso, é importante lançarmos luz sobre de que “guerra” Marielle se refere para que não se legitime a falácia, sobre a qual a Mari sempre criticou, de que o Rio estaria submetido a uma “guerra”.

 

Enquanto socióloga, mestre em Administração Pública e estudiosa do tema, a vereadora utilizou por diversas vezes a tribuna da Câmara Municipal, cabe observar seus vídeos nas redes sociais, para refutar a ideia de “guerra”. Nessas ocasiões, ao criticar a letalidade policial, denunciava, munida de dados e também por conhecimento de causa, que os alvos cotidianos e prioritários são jovens negros da favela e periferia. Além dos problemas gerados à população que vive nos locais submetidos por horas a fio de operações policiais sem qualquer resultado concreto. E uma de suas principais críticas era a de que a favela não é um problema de polícia e sim de política.

 

Há uma tentativa discursiva de desvirtuar o que está de fato por traz das denúncias que Marielle levantava. Além do racismo, machismo, feminicídio, lesbofobia, transfobia, Mari tratava sobre o grau de letalidade da política de segurança pública. Não é à toa, que a execução sumária de Marielle é utilizada pela elite política para justificar a necessidade de uma intervenção federal. Algo que até a véspera de seu assassinato, criticava e apresentava argumentos para tal. A segurança, para ela, precisava ser pensada a partir de um conjunto de políticas públicas estruturantes e não de polícia, armas e tanques militares.

 

O Observatório da Intervenção, coordenado pela Silva Ramos, revelou com base no número de trocas de tiros, levantados pelo laboratório Fogo Cruzado, um aumento significativo nos dois meses após a intervenção federal. Além de contabilizar um número maior de pessoas mortas em chacinas, em comparação ao mesmo período do ano passado. Há ainda uma caixa-preta que impede a transparência sobre os valores gastos pelos cofres públicos com a intervenção, além dos objetivos e estratégias empregadas para um possível retorno social na segurança pública.

 

Isso só ratifica a percepção de que um governo equivocado que investe em políticas retrógradas se pauta por uma estratégia de marketing através das Forças Armadas. E submete toda a população do Rio de Janeiro, principalmente a das favelas, ao seu laboratório de experimentos pré-eleitorais. Temer já anunciou a sua intenção de candidatura mesmo com altos índices de rejeição e o próprio interventor, general Walter Braga Netto, afirmou que “o Rio é o laboratório para o Brasil”

 

Marielle era relatora da Comissão Representativa da Câmara Municipal do Rio com o objetivo de fiscalizar a Intervenção Federal. Usar a bárbara execução sumária de que foi vítima para legitimar a Intervenção do Temer é de um oportunismo político vergonhoso e expõe a fragilidade dessa iniciativa que já deu água. Há um processo de militarização da segurança pública que se expressa concretamente na vida das pessoas que vivem nas favelas e periferias do Rio de Janeiro. É preciso reafirmar: militarização, não em nosso nome. Transcrito do jornal El País, Espanha 

 

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