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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

15
Abr22

Documentário “O canto livre de Nara Leão”

Talis Andrade

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Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse

 

por Celso Marconi

 

Há dias que estava pensando em assistir à série “O canto livre de Nara Leão” e resolvi fazer isso ontem no meu novo computador. E fiz vendo os cinco episódios em continuação. Não quero analisar o trabalho da equipe da Globo, pois como não acompanho as séries que eles apresentam, apenas sei do bom nível que é considerado inclusive “o padrão global”. O que mais me interessa é o aspecto político. Como estaria sendo apresentada culturalmente essa excepcional artista brasileira Nara Leão?

Quero declarar que tive um prazer muito grande na imagem e na expressão que a série me colocou para ver. Em vários momentos, me senti revivendo minha própria vida. Como vivi na luta cultural como jornalista e com posição ideológica clara desde os anos 50 do século passado, uma figura como Nara Leão me faz reviver o tempo. E cada situação da sua vida faz parte da minha vida. Bossa Nova. Tropicalismo. Chico Buarque. Roberto e Erasmo. Tenho a impressão de que foi a presença da filha Isabel Diegues na coordenação da série que a transformou num documento não só da maior importância cultural, mas também dos mais prazerosos de ser assistido.

É importantíssima a presença física da artista na série. Certamente, as muitas entrevistas apresentadas não foram feitas com o intuito de fazer parte de uma série, mas foram bem aproveitadas e assim o espectador tem então uma continuidade. Há uma unidade na obra toda. E o trabalho de montagem foi então o fundamental. Mas é o olhar de uma pessoa que conhecia a entrevistada, como a filha, que permitiu que isso acontecesse. E também a sensibilidade criativa dessa filha.Ninguém pode com Nara Leão: Uma biografia | Amazon.com.br

A melhor entrevista feita especificamente para a série é certamente da atriz Marieta Severo, que foi amiga da Nara durante os dois anos em que viveram na França. Como a atriz Marieta Severo diz, se aproximavam muito por necessidade emocional. Estavam vivendo lá os dois casais por impedimento político durante a ditadura de 64. E Marieta Severo se mostra alguém de bem conhecer uma amiga. Uma grande atriz de teatro, vivendo convivendo com outros artistas como Nara, Chico e Cacá. Aspectos da personalidade de Nara são revelados, buscando mostrar a mulher integral que Nara Leão foi. Cantora e pessoa consciente.

De certa forma, Nara Leão assumiu na sua vida cultural política uma posição que artistas como um Caetano também fizeram. E Nara talvez por questão de temperamento e por condição socieconômica pôde viver e expressar, e então mudar de posição do ponto de vista artístico sem mudar de ideologia. Nara fez Bossa Nova como musa, mas não se prendeu ao movimento como muleta. Passou para cantar samba. Cantou canções românticas de Chico Buarque. E interpretou músicas da Jovem Guarda com a mesma criatividade. Não quis nunca ser uma funcionária da interpretação musical. Se pode dizer que fez isso porque tinha condições econômicas, mas muitos quanto mais têm riqueza menos se libertam. A posição de Nara foi declaradamente inteligente e honesta.

Pessoalmente, só encontrei uma vez Nara Leão, numa ocasião de um show que aconteceu no Geraldão no Recife, não me lembro bem como. A verdade é que ela estava dando uma coletiva na ocasião, e eu comecei uma conversa grande após. Então ela me disse não poder demorar mais, embora gostasse de participar dessa conversa, pois havia me achado parecido com “um grande amigo meu” (dela). Certamente, nenhum dos que aparecem na série da Globo.

Olinda, 20. 03. 22

Ainda sobre a série de Nara Leão

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A gente sabe que a empresa Globo de comunicação, desde que foi criada, vem servindo para criar em nosso país uma consciência negativa e de submissão. Até mesmo quando estava em vigor a ditadura de 64 e nesse período principalmente. Mas nem sempre um produto deles pode ser desprezado como negativo. Uma série como essa tem a necessária garra de realização para mostrar o outro lado da nossa vida, mesmo dentro desse período. E a vida de uma mulher como Nara Leão é capaz de representar esse lado de importante resistência que vivemos na segunda metade do século XX. E a série consegue ser tecnicamente correta.

Que sequência magnífica temos quando é apresentada a crônica de Carlos Drummond de Andrade em defesa da liberdade de Nara Leão. Naquela época, eu não era muito simpatizante de Drummond, e claro que pela sua posição pessoal de ligação com o pessoal do poder. E nem mesmo sou grande leitor de Drummond, embora hoje o considere como todo mundo um maravilhoso poeta. Mas o que penso que deve ser realçado é o aproveitamento que conseguiram fazer da crônica. Mesmo hoje a emoção é demais presente.

Outro aspecto que deve ser destacado da série é a entrevista com Chico Buarque. Ela foi montada de maneira muito inteligente. Por exemplo, quando Chico fala sobre quando conheceu o apartamento de Nara, e então vem a declaração da própria cantora. Cria-se um elo entre os dois de forma correta e dinâmica. Chico Buarque inclusive mostra a importância que a cantora teve no seu sucesso como compositor. O trabalho criado pelos realizadores da série levou em conta não a sequência em si, mas como ela seria importante para a sua continuidade na história.

Também conseguiram manter uma narrativa dinâmica e muito explícita nas situações com Erasmo e Roberto Carlos. E até a simples declaração de Bethânia dizendo que Nara era namoradeira ganha um sentido dinâmico na série. Talvez tenha faltado mais empenho na última sequência em que aparece Roberto Menescal.

Enfim, claro que a cultura brasileira não está morta e certamente no próximo ano voltará a brilhar.

Olinda, 20. 03. 22

 

01
Abr22

'Golpe de 1964 é vergonhoso e deve ser execrado', declaram partidos de oposição a Bolsonaro

Talis Andrade

bolsonaro por bira ditadura militar democracia .jp

 

"A ditadura militar ainda manchou o solo com sangue de brasileiros e brasileiras que lutaram por democracia"

 

A Bancada da Minoria na Câmara divulgou nesta quinta-feira (31) nota em que repudia a Ordem do Dia, divulgada pelo Ministério da Defesa, que minimiza o Golpe e a Ditadura Militar que se instalaram no Brasil no dia 31 de março de 1964. 

"Reforçamos que não há caminho fora do Estado Democrático de Direito. Não se pode reescrever a história, não houve um “movimento que refletiu os anseios e aspirações da população da época”. O que ocorreu foi um golpe orquestrado pela alta cúpula das Forças Armadas com apoio de setores da elite nacional e subsídio dos Estados Unidos da América, que financiava ditaduras em toda a América Latina", diz a nota, assinada por nove partidos de oposição ao governo. 

 

 

Somos democratas e jamais aceitaremos a defesa e exaltação da ditadura militar que matou e torturou tantos brasileiros e brasileiras

 

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A História é um carro alegre

Cheio de um povo contente

Que atropela indiferente 

Todo aquele que a negue

Milton Nascimento e Chico Buarque – 

Canción Por La Unidad de Latino America

 

 

Repudiamos com veemência a Ordem do Dia publicada nesta quarta (30) pelo ministro da defesa, general Braga Netto, e endossada pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, em alusão aos 58 anos do golpe que deu início à ditadura militar no Brasil.

É inaceitável que ministros de estado eleitos no período pós-ditadura militar e comandantes das Forças Armadas profiram ataques contra o regime democrático no país. Somos democratas e jamais aceitaremos a defesa e exaltação da ditadura militar que matou e torturou tantos brasileiros e brasileiras.

As Forças Armadas servem ao país e não a governos. Devem se postar em defesa da soberania nacional e não se intrometer na vida política/partidária do nosso povo, muito menos tentando fraudar a história.

Mais uma vez, como já é de costume, o governo de Jair Bolsonaro ataca a democracia e nega o triste episódio de nossa história que perdurou de 1964 a 1985. Mais do que afrontar o acesso da população à verdade, a atual presidência da República desrespeita a memória e gera sofrimento às famílias dos mais de 400 mortos e desaparecidos, vítimas de um regime violento que cerceou os direitos humanos e a liberdade civil.

O texto assinado pelo ministro e pelo comando das Forças Armadas reflete mais um momento crítico para o país, que vive uma nova ameaça democrática promovida pelo próprio presidente, sua equipe e apoiadores radicais, com constantes ataques às instituições. Não à toa, a nota que chama o golpe de 1964 de “um marco histórico da evolução política brasileira” foi publicada no mesmo dia em que Bolsonaro voltou a questionar o Poder Judiciário sobre possíveis resultados das eleições e que um deputado federal se nega a cumprir uma determinação judicial, utilizando o espaço da Câmara dos Deputados como refúgio.

Reforçamos que não há caminho fora do Estado Democrático de Direito. Não se pode reescrever a história, não houve um “movimento que refletiu os anseios e aspirações da população da época”. O que ocorreu foi um golpe orquestrado pela alta cúpula das Forças Armadas com apoio de setores da elite nacional e subsídio dos Estados Unidos da América, que financiava ditaduras em toda a América Latina.

O golpe empresarial-militar de 1964 pôs fim ao mandato do presidente João Goulart – que propôs reformas de base que não conseguiram ser implementadas -, além de diversos outros políticos democraticamente eleitos, como o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes e do então deputado Leonel Brizola. Nos anos seguintes, instaurou a censura, exilou patriotas, dissolveu o Congresso e aumentou a desigualdade.

Não obstante, a ditadura militar ainda manchou o solo com sangue de brasileiros e brasileiras que lutaram por democracia, além de instaurar a crueldade da tortura como uma prática corriqueira do Estado contra seus opositores.

O golpe de 1964 é, sem dúvida, um dos episódios mais vergonhosos de nossa história recente e deve ser execrado para que nunca mais ocorra. Por verdade, memória e justiça!

Dep. Alencar Santana Braga, líder da Minoria na Câmara

Dep. Wolney Queiroz, líder da Oposição na Câmara

Dep. Arlindo Chinaglia, líder da Minoria no Congresso

Dep. Reginaldo Lopes, líder do PT na Câmara

Dep. Bira do Pindaré, líder do PSB na Câmara

Dep. André Figueiredo, líder do PDT na Câmara

Dep. Sâmia Bomfim, líder do PSOL na Câmara

Dep. Renildo Calheiros, líder do PCdoB na Câmara

Dep. Joenia Wapichana, líder da Rede na Câmara

 

 

18
Mar22

Livro lançado na França reúne cartas enviadas a Lula na prisão

Talis Andrade

Livre: Mon cher Lula - Lettres à un président en détention, Maud Chirio,  Anamosa, 9791095772897 - Leslibraires.fr

"Mon cher Lula, Lettres à un président en détension". Em tradução livre, o livro “Meu caro Lula, cartas a um presidente em detenção” foi lançado nesta quinta-feira (17) em Paris. Organizado pela historiadora francesa Maud Chirio e publicado pela editora Anamosa, o livro reúne parte das mais de 25.000 cartas que Lula recebeu durante os 580 dias que passou na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba.

O material foi todo digitalizado e analisado por um grupo de autores que reúne, ainda, Benito Schmidt, Ernesto Bohoslavsky, Luciana Heymann, Ana Lagüéns, Angela Moreira e Adrianna Setemy.  

A obra, que deverá ser traduzida para português, apresenta 47 cartas escritas por brasileiros em apoio ao ex-presidente. “O objetivo é dar acesso a um público maior - e não só brasileiro - a uma parte desse material para mostrar como a correspondência de pessoas comuns, anônimas e muitas vezes humildes apresenta um retrato da sociedade brasileira, suas lutas e sua transformação nos últimos 20 anos”, explica Maud Chirio.Jean Wyllys on Twitter: "Chega às livrarias francesas, organizado pela  professora Maud Chirio, “Mon Cher Lula: lettres à un président en détention”  (“Meu querido, @LulaOficial : cartas a um presiente na prisão”).

 

Evento em Paris

 

Parte do conteúdo já havia sido apresentada em Paris, em um evento aberto ao público ocorrido em junho de 2019 e que mobilizou dezenas de artistas franceses e brasileiros, entre eles o cantor Chico Buarque e a filósofa Márcia Tiburi.

“Desde que tomamos conhecimento da riqueza do material, estamos elaborando diversos produtos como o site ‘Linhas de Luta’, depois veio o espetáculo com a leitura de algumas cartas, um podcast na Argentina e agora o livro. E nós queremos continuar divulgando e analisando este material”, explica Benito Schmidt.

De acordo com os autores, o livro mostra “uma voz popular dentro dos acontecimentos históricos e políticos do Brasil”. Empregadas domésticas, professores, estudantes, agricultores, trabalhadores Sem Terra, enfermeiros e metalúrgicos estão entre os remetentes dessas cartas.

“Nós tentamos primar pela diversidade”, explica Benito Schmidt sobre o processo de seleção das cartas. “Elas são de diferentes regiões do Brasil, de vários meios sociais, desde o intelectual até aqueles que nem sabem assinar o nome, há cartas coletivas, de crianças, uma variedade de vozes”, cita o historiador.

 

Gente como a gente

 

Muitas das pessoas que escreveram para o petista contam as próprias histórias de vida, recheadas de episódios de racismo, desigualdade e estigmatização. “Lula não os representa apenas pela postura política, mas porque suas vidas são comuns”, observa Maud Chirio. “Uma coisa central é o desejo dos remetentes de dizer ao Lula que ele os representa e vice-versa”, acrescenta.

Para os autores, as cartas ainda são uma prova da consciência política das classes populares no Brasil. “Essas cartas são cheias de sentimento, mas também de consciência política e de uma compreensão da história do país”, afirma Schmidt. “Nós acompanhamos o período eleitoral de 2018 e o medo que as pessoas estavam do que vinha pela frente”, completa o historiador.  

“Há pessoas que falam que se sentiram reconhecidas como negras, LGBTs, é um projeto de inclusão, não só econômico, mas também de gênero”, analisa.

 

Solidariedade

 

Diferentes de cartas enviadas “aos reis, aos juízes, deputados e presidentes, um chefe da máfia, um prefeito ou um bispo, que são apelos, baseados no desequilíbrio de prestígio e poder entre autor e destinatário, as cartas a Lula desenham outras subjetividades populares”, diz o texto do livro, que segue: “Não orientadas por uma necessidade, uma súplica, mas, ao contrário, pelo desejo de confortar, de ser solidário, de demonstrar amor, raiva e esperança ao preso; são a manifestação de outras formas de olhar para si mesmo e uma forma de narrar a própria existência”, lê-se.

“Ao contarem a própria trajetória, as pessoas contam uma história coletiva que também é a história do Lula; ou seja, a história de como essas pessoas, pais e avós saíram da pobreza e atravessaram o país e conseguiram ter novos horizontes”, analisa Chirio.  

O ex-presidente e agora potencial candidato à presidência em 2022 leu apenas uma parte dessas cartas. “Mas elas são uma mostra física do apoio da população. O Lula sabe que essas cartas contam uma história maior do que ele mesmo, a história do país”, completa a organizadora do livro.

 

Eleições de 2022

 

Lula se tornou elegível novamente porque seu processo voltou à estaca zero, deixando de ser enquadrado pela lei da Ficha Limpa. Os processos foram anulados na 13ª Vara Federal de Curitiba, numa decisão monocrática do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu que a vara não tinha competência para julgar os fatos. De acordo com Fachin, os fatos pelos quais Lula fora julgado “não envolviam diretamente apenas a Petrobras, mas ainda outros órgãos da administração pública".

Lula havia sido condenado nos casos do tríplex e do sítio em Atibaia, condenações depois confirmadas pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, que, inclusive, aumentaram a pena de prisão para 12 aos e 1 mês em regime fechado. A decisão foi ratificada, posteriormente, no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Perguntada se o livro terá impacto na campanha presidencial deste ano, a organizadora explica que “ele foi publicado na França e em francês e que não deve ter impacto nas eleições brasileiras porque os franceses não votam”. Entretanto, “o livro é uma maneira de mostrar o que o Brasil atravessou nos últimos anos e ver como as pessoas viveram isso”, afirma Maud Chirio.

O livro ainda trata de “uma crise democrática brasileira e a criação de um estado providência”. “Grande parte das cartas falam das políticas sociais do governo Lula, como ‘Luz para todos’, ‘Minha Casa minha Vida’ ou ‘Bolsa Família’”, observa Schmidt. ”Esses programas são mencionados como aqueles que mudaram vidas e, mais do que isso, um país”, completa. “Ao contrário das políticas neoliberais, esse ‘estado providência’ intervém no sentido de promover a igualdade social. E isso nós vemos nos relatos pessoais”, acrescenta o historiador.

“Atualmente, o país está destroçado em termos de políticas sociais, há um sentimento de falta de possibilidades. O livro fala de um outro momento, mas traz uma vivacidade para a política e para a campanha e uma reflexão sobre o país, de que há outras escolhas além do projeto neoliberal”, afirma. “Isso ficou muito obscurecido pela campanha contra o Lula e contra a esquerda e as alternativas progressistas”, finaliza.  

“Todos nós somos historiadores, intelectuais, não somos militantes políticos, somos democratas e não temos um papel na campanha”, destaca Maud Chirio. “Mas esse livro e as cartas são importantes para que a memória daquilo que mudou na vida das pessoas, durante a primeira década do PT no poder, e que foi apagada nos últimos anos pela crise democrática e social e pela pandemia; essa memória de que dá para esperar algo de um Estado social, das lutas coletivas e mobilizações, da democracia, enfim, essa memória tem que existir no espaço público porque é a memória do progressismo, e não da esquerda, no âmbito democrático”, conclui.   

 

“Judiciário instrumentalizado”

 

A decisão do ministro do STF Edson Fachin não julgou o mérito dos processos contra o ex-presidente Lula, ou seja, não disse se ele era inocente ou culpado, mas sim que eles deveria ser julgados pelo juízo do Distrito Federal e não pela vara que analisou os casos da Operação Lava Jato. De acordo com o ministro, o julgamento do caso em Curitiba, pelo juiz Sérgio Moro, contrariou o princípio do juiz natural, segundo o qual um caso é remetido à vara do local onde os crimes são investigados. Para Lula se tornar réu outra vez a Justiça teria que aceitar uma nova denúncia do Ministério Público Federal.

“É muito difícil saber se o Judiciário brasileiro vai voltar a ser instrumentalizado. Não é uma questão de Direto e de leis, mas de uma interação entre diversas instâncias do Judiciário e as necessidades políticas dos campos que estavam querendo se manter ou conquistar o poder”, analisa Chirio. “A justiça foi uma ferramenta das lutas políticas desde 2016”, completa.

“Para saber se Lula voltará a ser julgado temos de saber qual o acordo dentro do sistema judiciário para saber se é possível que a democracia e o sufrágio universal sejam respeitados”, diz. Porém, ficou difícil analisar o sistema político brasileiro porque não temos mais os recursos da leitura da lei, assim como aconteceu em outros períodos autoritários, em que julgamentos podem esconder equilíbrios políticos e relações de forças”, analisa.

“O que vai determinar o futuro judiciário do Lula é como ele vai construir alianças nas elites brasileiras para que a volta do campo progressista no poder seja aceita, apesar da campanha contra que foi feita nos últimos anos”.      

15
Fev22

Isentão, não

Talis Andrade

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por Mirian Guaraciaba

Deu um prazer danado ler a entrevista do cantor e compositor Martinho da Vila, em O Globo desse domingo. Aos 84 anos, Martinho não se esconde. Nem na vida, nem na política. Mesma alegria ao ler declarações de Andrea Beltrão e Marieta Severo, divas do teatro brasileiro. Elas e ele são diretos, posição cristalina, pensam de fato num Brasil de esperança.

“Você vai participar da campanha do Lula?”, perguntou o repórter a Martinho. “Se ele quiser, claro. Para os amigos, faço qualquer coisa”.

Tem Chico, Wagner Moura, Caetano, Gil, Pablo Vittar, Marcelo Serrado, Bruno Gagliasso, Popozuda, José de Abreu … Juliette, Gil do Vigor… e outros mais. A magnitude do respeitável apoio desses artistas não está, certamente, na soma de votos que trarão a Lula, mas na volta por cima da democracia, soterrando anos de sufoco na mão de golpistas, família Bolsonaro e radicais extremistas.

A herança do bolsonarismo é ruinosa. Inflação de dois dígitos, o pior flagelo. Acumulada desde dezembro de 2014 a outubro de 2021, bateu 47,5%. Empobrece o trabalhador, e aumenta ferozmente a miséria extrema. Hoje, segundo a FGV, já são cerca de 30 milhões de brasileiros passando fome no Brasil.

O desemprego, em 2022, baterá recorde com Bolsonaro. Serão 13,5 milhões em dezembro, e o pior índice num ano eleitoral – contabilizadas as sete últimas campanhas presidenciais. Saúde? Bem estar? Educação? Segurança? Cultura? O espólio é catastrófico em todas as áreas. O atraso social é incontestável.

Bolsonaro bateu recorde de desmatamento da Amazônia. Garimpos ilegais proliferam na região. Há pouco tempo, O BNDES, banco de fomento para o desenvolvimento do País, emprestou quase R$ 30 milhões a fazendeiros punidos pelo Ibama por estarem desmatando. Apesar do histórico de infrações, receberam dinheiro publico com juros subsidiados. As informações são da Rede Brasil Atual.

O que esperar, num segundo mandato, de um sujeito que nega a ciência? Dizimar a população que não reza pela sua cartilha? Bolsonaro levou o País a ser o segundo em óbitos pelo coronavirus em todo o mundo, e o terceiro com mais casos confirmados, dados recentes. Somos o sexto país mais populoso e só estamos atrás dos Estados Unidos nessa macabra estatística.

É trágico na área cultural. Regina Duarte e Mário Frias, perversos. Perigosos. Que outro candidato teriam os artistas bem intencionados e que preferem não estar em cima do muro? Ciro Gomes, para Fabio Porchat, e outros tantos. Ok. Primeiro passo. Primeiro turno. Ciro é destemperado, para dizer o mínimo, fugiu do combate em 2018, não tem estratégia política, mas não se pode dizer que não se preocupa com o País.

Em numero menor, talvez, e de menor importância, certamente, é o apoio declarado de alguns artistas ao Capitão. Votos garantidos desse grupo? Há os que se dizem arrependidos. Hoje, Bolsonaro patina nos 22% da preferência nas pesquisas eleitorais, mas é cedo para dizer que o panorama está posto.

A mesma luz que ilumina Lula não alcança o Capitão. Mas é bom lembrar que ele tem a caneta e a chave do cofre. Dá sinais claros de que avançará sobre o orçamento para beneficiar grupos de interesse, e fará tudo e mais alguma coisa para tentar se reeleger. Manchete desta segunda, 14, da Folha de SPaulo diz que pressão da base no Congresso pode fazer explodir bomba fiscal de R$ 230 bilhões. Só a PEC dos combustíveis terá impacto fiscal de R$ 100 bilhões.

Com o País pegando fogo, o Capitão sem noção foi a Rússia, ignorando advertência sobre o péssimo momento de visitar um país literalmente em pé de guerra. Alegou interesses econômicos. De fato, relações desequilibradas. Enquanto o Brasil exportou, em 2021, U$ 1,6 bilhões para a Russia, os russos exportaram para o Brasil nada menos que U$ 5,7 bilhões. A conta não favorece Bolsonaro.

A conjuntura é cada vez mais favorável a Lula. Dificilmente, o governador (dizem bem avaliado em SP) Doria vai decolar na disputa pela Presidência. Moro virou piada, terá enorme trabalho para convencer o eleitorado de que a fala pró-nazismo de seu apoiador Kataguiri foi apenas “uma gafe”. Simone Tebet? Pode surpreender, mas não deve superar Lula.

Ainda é cedo para dizer que estão todos fora do páreo. Mas nunca é cedo para se ter esperança de um Brasil feliz de novo. Isenção, não. Bora fazer campanha. Bora declarar voto.

É hora de se posicionar. O bolsonarismo, senhores, veio para ficar. Assim como Trump, nos Estados Unidos, será ameaça constante a nossa democracia.

O risco de reeleição de Bolsonaro – distante, mas possível – tem que ser afastado no exercício pleno da democracia: quando a pandemia permitir, campanha nas ruas. Agora, hora de ir para as redes declarar voto. Seja Lula, Ciro, Simone. Até Doria. Só não dá para enfiar a cabeça na areia. Ou ficar em cima do muro.

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28
Dez21

Austeridade, volver!

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Lembram quando Chico Buarque sugeriu a criação do “Ministério do Vai dar Merda”, para prevenir, na administração pública, atos que, sem apelação possível, fossem ter consequências negativas diante da opinião pública?

Conviria que as Forças Armadas criassem um balcão assim, para evitar o desgaste que lhes traz a manchete da Folha de hoje: “Defesa gasta verba da Covid para comprar filé mignon e picanha, diz TCU“.

 

Certamente não foi numa reunião do Alto Comando do Exército que um dos 16 generais da cúpula falou alegremente: em comprar filé mignon e vinho com o dinheiro da Covid” e os outros 15 concordaram.

Isso acontece simplesmente porque faz alguns anos que espraiou-se a ideia de que a oficialidade brasileira merece privilégios em seus apetites e nem sempre só os alimentares.

Austeridade, quase sempre, foi uma marca da caserna. Mas quando a farda começa a ser vista como um trampolim para o exercício do poder, é inevitável que isso aconteça, porque o poder, sem causas, é apenas o exercício do fruir.

Não fosse assim, não teriam de ler o relatório do Tribunal de Contas dizer que “”não parece razoável alocar os escassos recursos públicos na compra de itens não essenciais, especialmente durante a crise sanitária, econômica e social pela qual o país está passando, decorrente da pandemia”.

A reação natural seria a de verificar quem autorizou isso e “premiá-lo” com, no mínimo, um afastamento do cargo.

Mas quando as instituições militares se entregam ao um corporativismo que deixa de lado as obrigações hierárquicas e disciplinares e desconsidera o impacto social de seus atos, correm o risco de de verem assim, vexadas, por um esparramo de poder que atinge toda a oficialidade que conserva hábitos e posturas diferentes.

Notas dizendo que a tropa militar agiu no enfrentamento da pandemia é até uma ofensa aos militares que se expuseram no enfrentamento ao coronavirus. A eles, ninguém deu camarão, picanha, filé ou vinhos caros.

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Ao som de funk misógino, Bolsonaro transforma preconceito em hino de guerra  - 27/12/2021 - UOL Universa

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07
Dez21

Moro usa chapéu de couro de bandido cangaceiro imaginando ser de vaqueiro nordestino

Talis Andrade

 

 

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Lampião

A cabeça de Lampião – BLOG DO VLAD

Cabeças cortadas, a de Lampião entre dois chapéus de cangaceiro, o dele e o de Maria Bonita, numa exposição macabra em museu de Salvador.

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Vaqueiro do Nordeste - Candido Portinari — Google Arts & Culture

Vaqueiro, por Portinari

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 (Foto: Divulgação)AILUSTRAÇÃO-MIssa-dos-Vaqueiros-2017-4-533x300 - Blog do Roberto Gonçalves

Tradicional Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco

Moro vai ao Nordeste, usa chapéu de cangaceiro e é massacrado nas redesMoro com chapéu de couro

05
Dez21

Com a palavra, o Rei Momo

Talis Andrade

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por Gustavo Krause

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Em 2023, o Rei Momo voltará ao poder Anarcoetílico em grande estilo.

Vai haver ou não carnaval? Esta é uma questão muito relevante para os brasileiros. Na raiz da dúvida, pesam razões culturais, políticas, econômicas e sanitárias. Por que não escutar, sua Majestade, o Rei Momo com longa experiência histórica, mimetizado em diferentes personagens?

Pedi audiência e fui prontamente atendido. Antecipo ao leitor: foi uma experiência maravilhosa. Momo vive num pequenino país – o Carnavália, Nação-Museu dos carnavais. Lá todos são iguais perante a alegria, a felicidade e respiram o ar saudável da fraternidade. O Rei mora numa espécie de Olimpo, abrigo dos deuses gregos. Governa com Três ministros – Arlequim, Pierrô e Colombina – e um Ministério: o Ministério para Assuntos Divinos e Maravilhosos.

Momo não se descuida do que acontece no que ele chama de um “mundo só”. É um cidadão “Glocal”. Monitora tudo de sua sala de situação com a mais avançada tecnologia, mas recebe visitas em audiência no “Salão da Realeza”. Ali tudo representa e transpira a tradição monárquica – Trono, Cetro, Coroa, e a indumentária, segundo alguns pesquisadores, inspirada nos trajes do Duque de Mântua, personagem da ópera Rigoletto.

– Evoé – bradou, simpaticamente, Momo, evocando o grito das bacantes ao saudar Baco e Dionísio (deuses romano e grego do vinho e grandes festas – bacanálias e saturnálias)). Sei que veio me ouvir sobre uma dúvida que paira sobre as tradições carnavalescas. Você vem de um País que me adotou e me confiou o governo Anarcoetílico durante 4 dias. Uma honra para quem vem de longe.

(Breve interrupção para servir filhó ou filhós, o doce do carnaval e que faz parte do cardápio ibérico e pernambucano).

Prosseguiu: – Acusam-me de excessos, a gula, o que é verdade. Como disse, venho de longe e carrego, em todas as formas que me deram, irreverência, sarcasmo e delírio. Tirava sarro com outros deuses. Expulsaram-me do Olimpo. Sou filho de Nix, deusa dos mistérios noturnos. Nasci mulher. Mas as culturas me transformaram em homem. O que importa, Krause, é que subverto regras, inverto papeis sociais, mas estabeleço uma ordem dentro da desordem: diversão, fantasia e o triunfo do sorriso sobre a lágrima.

– Majestade, o que digo às pessoas? – Meu caro, o Brasil está pagando um preço alto pelo negacionismo e gestão temerária do governo. No entanto, o povo brasileiro deu um exemplo admirável ao mundo quando estendeu os braços para receber as vacinas. O carnaval não pode ser objeto de interesses que afetem a saúde pública. Na imagem poética de Chico Buarque, carnaval é uma “ofegante epidemia”. Mas não sufoca. A pandemia sufoca e mata. Paciência: sem carnaval e riscos, até 2023. Um abraço na família do querido Enéas Freire, fundador do Galo da madrugada. Neste dezembro, fará 100 anos de eternidade.

29
Out21

Mourão: mundo joga pedra no Jair

Talis Andrade

 

por Fernando Brito

O vice-presidente Hamilton Mourão, para explicar a ausência de Jair Bolsonaro na COP-26, conferência mundial do clima, porque lá “todo mundo vai jogar pedra nele”.

Apesar de Mourão sugerir que isso é obra “da esquerda” – “a maioria das pessoas que tem realmente uma consciência ambiental maior é de esquerda, então, há crítica política embutida nisso aí” – as pedradas, deveria saber Mourão, não vem só da esquerda e as maiores pedras partiram de governo de centro-direita na Alemanha e na França. Muito menos Joe Biden pode ser chamado de esquerdista, ainda que nossos bolsonaristas pensem assim.

A questão é o prejuízo que a falta de credibilidade – para dizer o mínimo dos mínimos – do governo brasileiro está bloqueando as possibilidades que nosso país tem, pela extensão e natureza de seu território, de aproveitar a crescente preocupação global com o clima para alavancar o desenvolvimento sustentável do Brasil.

O comércio de créditos de carbono promete, finalmente, deslanchar nos próximos anos e pagar, em dinheiro vivo, iniciativas preservacionistas por aqui, incrivelmente mais baratas e significativas que as que países desenvolvidos possam desenvolver. Estima-se que pudessem nos gerar até US$ 40 bilhões em 25 anos. Há oportunidades abundantes em preservação de mananciais, matas ciliares, reservas legais, sem impacto nas atividades econômicas e, até, com impactos positivos sobre a proteção do solo agrícola.

Estamos, porém, andando para trás: aumentamos, em 2020, em 9,5% nossas emissões de gases estufa, a maior elevação desde 2006. ao mesmo tempo que a retração econômica causada pela pandemia fazia as emissões mundiais baixarem 6,7%.

Temos tudo para ser o país em que o mundo não taca pedras, mas aplica recursos para a conservação que, em tempos nos quais a sustentabilidade – além de uma necessidade – também virou valor de mercado.

Mas isso nada adianta se passamos a ser a “Geni ambiental”, o país das queimadas, dos madeireiros e garimpeiros ilegais mas protegidos pelo presidente, da madeira contrabandeada sob a proteção do próprio Ministério do Meio Ambiente e da expansão da eletricidade em usinas térmicas poluentes.

Também nisso, maldito Jair!

 

02
Set21

O Brasil de volta

Talis Andrade

 

 

“Que país é esse?
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.”
Legião Urbana – Que país é esse?

Viver no Brasil de hoje exige mais do que paciência e boa vontade. É preciso muita capacidade de abstração para conviver com uma permanente tensão institucional. Há tempos não sabemos o que é tocar a vida sem o risco de uma ruptura nas relações entre os poderes constituídos, mesmo para quem não acredita objetivamente na hipótese de um golpe. O brasileiro vive de sobressalto constante, sem tempo para simplesmente cuidar da sua vida. Aquela normal em que se trabalha, lê, encontra amigos, fala da vida cotidiana, de futebol. Hoje, a regra é acompanhar, entre perplexo e atônito, os inúmeros esgarçamentos entre os poderes, sempre liderados por este Presidente sem nenhuma visão do que é uma República.

Todos nós sabemos que o mundo virou um pandemônio com a crise sanitária. Mas, ao observarmos em outros países o enfrentamento do maior colapso do nosso tempo, constatamos, com muita clareza, que o vírus é o inimigo. As estratégias são todas para enfrentar a pandemia, impedir a morte das pessoas, cuidar da economia, dos empregos, da carestia. Todos os líderes mundiais, ou quase todos, se uniram na tentativa de achar uma saída humanitária para o desastre. Dentro do caos sanitário, as pessoas foram encontrando ar para respirar e soluções para não sucumbirem à tragédia. É assim que os países agem quando se sentem acuados, atacados. Uma união interna que tenta superar o inimigo comum e inevitável. Foi assim que o mundo se posicionou.

Dessa maneira, em meio ao pandemônio, as pessoas tentam encontrar suas fugas para manter a sanidade. Saídas criativas entre governos, empresas e cidadãos furam o bloqueio da depressão com o inevitável fantasma invisível da morte. Um elo de solidariedade se formou entre um enorme número de governos, das mais diversas tendências e das pessoas mais díspares. É como se uma mão imaginária estivesse substituindo o toque afetuoso, o abraço amigo. A vida, mesmo desarranjada, tentava manter uma dignidade para não sucumbir à dor da depressão, a fria lâmina do medo. Em resposta ao desconhecido que essa maldita doença nos traz, há uma maneira digna de mostrar empatia e até amor, mesmo entre aqueles que não eram próximos. E, nessa hora, a presença de governos sérios e responsáveis fez a gente entender o porquê o homem optou por viver em sociedade. Um abraça o outro.

No Brasil, o governo resolveu apostar no caos absoluto. Nem centro meu espanto no negacionismo que deu origem a uma boa parte das 680 mil mortes, nem na opção criminosa por receitar remédios sem fundamentação científica, tudo pelo lucro fruto de corrupção e falcatruas. O que mais me causa indignação é o culto à morte, o desdém cínico com o sofrimento, a provocação desumana com a dor das pessoas, o deboche com a ciência. A barbárie, enfim. Não guarda traço de normalidade a personalidade do Presidente da República. É um homem obscuro, angustiado, profundamente ignorante e inseguro. E mau. Dizer que alguém é mau parece de um maniqueísmo primário, mas, no caso concreto, o Bolsonaro é mau, é perverso, é cruel. A dor do outro parece provocar prazer nele. Não é por acaso que o líder dele é o torturador Ustra. Um animal que gozava com a dor nos outros que ele mesmo provocava com a tortura. Não existe nenhum código de conduta que possa descrever tamanha barbaridade.

Pois esse homem dirige o país nesse momento de profunda crise de saúde e faz questão de aumentar o fosso do desespero da população com uma política perversa e com uma postura acintosamente golpista e desestabilizadora. Ao invés de o país estar concentrado em sair da crise, cada um de nós tem que cavar trincheiras para resistir aos ataques idiotas e inconcebíveis do Presidente da República. É um cidadão que causa asco e que humilha o Brasil diante da comunidade internacional. E é ele a crise permanente. Ele que estica diariamente a corda tênue da estabilidade entre os poderes e que testa a toda hora o Estado democrático de direito. Tivesse poder já teria dado um golpe, mas, como é o comandante e chefe das Forças Armadas, nunca devemos desprezar. Lembrando o nosso eterno Chico Buarque, em Roda-viva:

“ A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a rodas-viva
E carrega o destino pra lá”

Mas o que mais me angustia é o que está sendo feito com o espírito do brasileiro, com os adolescentes, com os trabalhadores. O País deixou de ser um lugar leve e alegre. Mesmo com nossos fossos abissais de desigualdade, o Brasil sabia rir de si próprio e estava sempre na luta com certo humor e ginga. Agora é um país sem luz, onde as notícias de ciência sobre o vírus foram substituídas por notícias de terror sobre o verme. É baixaria, xingamentos sem nenhum pudor, ameaças a pessoas e instituições. Quebra permanente do equilíbrio entre os poderes. Somos uma nau desgovernada. Não bastasse o desemprego assustador, o fato de termos virado chacota internacional, a quebra da autoestima, temos agora que viver sob o pretenso risco da quebra da estabilidade institucional.

É necessário que um Ministro do Supremo escreva brilhante e didático artigo num jornal de grande circulação explicitando as consequências jurídicas se o Presidente atravessar o Rubicão. No alto da sua ignorância, Bolsonaro deve ter entendido camburão. Da mesma maneira, outros Ministros da Suprema Corte se viram na contingência de se posicionarem como que a reafirmar que o Supremo Tribunal manterá a ordem constitucional. Numa democracia, nenhuma demonstração de força ou de normalidade se fazem necessárias. Naturalmente as relações seguem o curso do respeito às instituições. No Brasil de hoje, o óbvio tem que ser dito e repetido. É lembrar
Arnaldo Antunes, na música Comida:

“ Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
…….
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade”.

Por isso, no dia 7 de setembro, deveríamos ficar em casa. Aproveitar o feriado. Ler um bom livro. Assistir a um filme ou simplesmente ficar à toa com a família. Não sair e sequer acompanhar esse bando de neofascistas siderados. Não vamos dar palco para esses golpistas. Nem permitir que eles façam provocações e infiltrem os capangas para provocar tumulto e depredações. Eles estão se armando para uma disputa que não nos interessa. A esta altura, quem ainda sai à rua na defesa desses corrupios assassinos não terá capacidade de qualquer reflexão. Eles se merecem. Deixem eles sozinhos. Vamos cuidar de trazer o Brasil de volta. Não vamos deixar que eles roubem também
nossa alegria e nossa esperança. Um desprezo profundo por eles e pelos movimentos deles deve ser nossa resposta. Contra a violência e a barbárie, vamos mostrar que o Brasil tem jeito e que o nosso jeito é com esse bando isolado. Vamos deixar que, na hora certa, o Judiciário e a polícia se ocupem deles. Como cantou o mágico Lupicínio Rodrigues, em Vingança:

“ O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ele deve estar bem consciente do que praticou
…..,
Mas, enquanto houver força no meu peito
Eu não quero mais nada
É pra todos os santos
Vingança, vingança
Clamar”.

 
 
 
 
28
Jul21

Delinquência intelectual e política

Talis Andrade

 

Image

Reinaldo Azevedo no Twitter
 
A delinquência intelectual e política da Secom atinge o paroxismo com suposta homenagem aos agricultores. Parabéns, Fabio Faria: está se candidatando a chefe do espírito miliciano qdo Bolsonaro naufragar. Que destino, hein? Sei, tudo parece dar certo por enquanto, né? Tudo errado
- estimula a q se resolvam a bala questões agrárias;
- associa alimento, que é vida, à morte: é um governo tarado pela morte;
- associa a produção a negacionismo, misturando domínios;
- ignora q milhões hj passam fome no Brasil;
- a inflação de alimentos leva hj ao menor consumo de carne em 25 anos.
- não é exaltação da produção, mas o símbolo de um governo essencialmente miliciano. E aí, doutor Augusto Aras? É liberdade de expressão? O próximo corpo q se produzir na guerra promovida por grileiros deve ser despachado para a PGR. Deixem o caixão no saguão

agricultor genildo.jpg

@reinaldoazevedo
Funeral de um Lavrador. Trecho do poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto — q nem era de esquerda, note-se —, com música de Chico Buarque. Elba Ramalho - 08- Funeral de um Lavrador - 2015
 

 

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