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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

29
Abr21

CPF cancelado

Talis Andrade

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Quando um circuito de crises começa empilhar mortos, extinguir a compaixão e plantar sementes de ódio com naturalidade é porque chegamos ao limite

 

Por TARSO GENRO

“Durante viagem a Manaus, Jair Bolsonaro debochou dos mortos pela Covid-19 no Brasil. Ao lado do apresentador Sikêra Jr., ele posou para uma foto em que segurava uma placa com a imagem de um CPF e a palavra, numa tarja em vermelho, “cancelado”. A expressão “CPF cancelado” é conhecida em grupos de extermínio para mencionar assassinatos”. A matéria é do Site 247, ontem, dia 24 de abril 2021, 75 anos depois de Auschwitz. As instituições do Brasil estão apenas amortecidas ou já faleceram e somos apenas espectros de humanidade que vagam em outras paragens, onde os corpos não fazem sombras e as consciências sumiram nos potes do mercado?

Primo Levi que fixou na História as pilhas de cadáveres que Hitler, com o apoio de uma parte da população alemã – com a indiferença de muitos e o silêncio complacente dos que não se opuseram à “demonstração despudorada de como o mal prevalece facilmente” – disse que, em plena Europa do Século XX, “foi sonhado um sonho demente, o de edificar um império milenar sobre milhões de cadáveres e de escravos” (…) agregando – sobre a reação da Europa – que os “pouquíssimos (que) se recusaram foram decepados; todos os outros consentiram, parte deles com desgosto, parte com indiferença, parte com entusiasmo.”

Primo Levi sobreviveu a Auschwitz e escreveu “É isto um homem?”, pergunta cuja radicalidade filosófica põe em questão não só os resultados políticos do iluminismo democrático, mas igualmente as parcas possibilidades de conceituar de forma correta – em termos de filosofia moral – o próprio sentido do termo “civilização”. Quando nós, no Brasil, olhamos o Presidente da República e perguntamos “Isto é um homem?” ou “Como isto foi possível”, estamos indagando ao mesmo tempo sobre o nosso passado e o nosso destino comum.

Sobre o passado temos as nossas misérias assentadas na escravidão colonial, bem como nos Tenentes alçados contra a oligarquia; nos vemos nas resistências legais e “ilegais” à ditadura militar, bem como na aceitação majoritária do Golpe contra Dilma e – no nosso passado recente- vemos o espírito de vira-lata da nossa política externa (repousada sobre as melenas falsificadas de Trump) mas também a dignidade do Itamarati, em vários momentos da nossa História, mais recentemente com o Chanceler Celso Amorim, na política externa altiva e ativa na cena pública global.

Certamente historiadores ilustres no futuro, saberão olhar em profundidade o deserto político e moral que nos impingiram com a criação do bolsonarismo. Seu certificado de validade é cimentado pelo compromisso do liberal-rentismo como fascismo redivivo, destinado à destruição do Estado Social, mesmo que ele custe 500 mil mortos – ou mais – no fim deste perverso capítulo da nossa História.

Depois ainda teremos os mortos pela fome, as famílias dissolvidas pelo luto, a loucura engendrada na luta irracional pela sobrevivência. É um Homem, este que propaga um caminho necrófilo? Seremos considerados como Homens, no futuro, se nos omitirmos ou silenciarmos? Difícil responder, mas quando um circuito de crises começa empilhar mortos, extinguir a compaixão e plantar sementes de ódio com naturalidade é porque chegamos ao limite

Rolando Freisler (1893-1945) jurista alemão da época da República de Weimar e nominado como o mais importante Juiz da época de Hitler, condenou à morte centenas de resistentes judeus e não-judeus e simbolizou o que foi a parte mais depravada da Magistratura Alemã, no chamado “Tribunal Popular” (Wolksgerichtshof), jurisdição mais relevante do Estado para “crimes políticos”, na época de Hitler. Seu costume, além de condenar à morte os seres humanos que não se renderam frente à desumanidade necrófila, era teatralizar seus processos de modo a humilhar de forma brutal os réus, a defesa e a família dos futuros condenados.

Alguma similaridade com as condenações prévias aos processos, pelos quais o Juiz Moro obtinha sua cumplicidade com a Rede Globo? Sim, algumas similaridades evidentes que passam, não só pelas relações de proximidade do Juiz Moro com o candidato já notoriamente fascista, mas também pelas humilhações e condenações prévias, feitas pela maioria da imprensa tradicional, assacadas contra os “condenados necessários”, aqueles que deveriam ser eliminados para que o Fascista vencesse e o Juiz se tornasse seu Ministro.

Nos últimos 30 dias um grupo de advogados (entre os quais eu me incluo) e juristas redigiram e propuseram, em nome do PCdoB e do PSOL, uma “ação direta de inconstitucionalidade por omissão” contra a Presidência da República. Nesta ação, apoiados em fatos públicos e notórios – livres de qualquer dúvida, portanto – mostramos que o Presidente não está cumprindo a Constituição, pelas políticas omissivas (e homicidas) que vem desenvolvendo e por estar praticando ações explícitas de sabotagem à saúde pública e a outros direitos fundamentais.

Sustentamos na ação, portanto, que o Presidente está em confronto com a ciência e a razão. Em breve, caberá ao STF dizer – pela metáfora universal que o só o Direito pode produzir – se somos um povo composto de indivíduos dotados de sentimento humanos em toda a sua plenitude ou se somos (e por reflexo eles, Julgadores, também o são) um rebanho passivo conduzido pelo Juiz Freisler ao pelourinho da vergonha. Este é um lugar amplo que jamais deixa de acolher os que renunciam a sua condição humana, para pensarem como um rebanho escravizado pelo mito: imunes ao amor e à solidariedade.

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16
Fev21

150 juristas lançam manifesto contra ameaça golpista do general Villas Bôas

Talis Andrade

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Por Mônica Bergamo

Um grupo de 150 juristas, defensores públicos e advogados brasileiros, além de outras personalidades, assinou um texto com críticas às falas de militares que antecedem o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no STF (Supremo Tribunal Federal).

A principal manifestação foi feita pelo chefe do Exército, Eduardo Villas Bôas. Na terça-feira (3), ele postou uma mensagem no Twitter afirmando que a corporação “compartilha o anseio dos cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia”.

A nota dos juristas diz que “as recentes manifestações que evocam atos de força configuram clara intimidação sobre um Poder de Estado, o Supremo Tribunal Federal. Algo que não acontecia desde o fim da ditadura militar. É urgente que os Poderes da República repudiem esse tipo de pressão. As falas veiculadas nas últimas horas por oficiais das Forças Armadas dificultam um julgamento isento e colocam em xeque a democracia. Não são pessoas que estão em jogo. É a República. É a democracia”.

Assinam a nota, entre outras personalidades, Lênio Streck, Celso Antonio Bandeira de Mello, Pedro Serrano, Tecio Lins e Silva, Flávio Dino (que é governador do Maranhão), Jose Eduardo Cardozo, Celso Amorim, Tarso Genro, Fernando Haddad, Cezar Britto, Carol Proner, Leonardo Yarochewski, Roberto Figueiredo Caldas, Mauro Menezes, Marco Aurélio de Carvalho, Alberto Toron, Antonio Carlos de Almeida Castro, a deputada Manuela D`Avila e o antropólogo Luiz Eduardo Soares.

28
Out20

Folha detona Ernesto Araújo e seu orgulho em ser pária internacional

Talis Andrade

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247 – O chanceler Ernesto Araújo, que é considerado o pior diplomata do mundo, foi alvo de um duro editorial da Folha de S. Paulo, jornal que apoiou o golpe de 2016, que abriu espaço para a ascensão da extrema direita e para o fim da política externa soberana que vinha sendo conduzida pelos governos progressistas no Brasil. "O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, habita uma realidade paralela. Enquanto no mundo as conexões internacionais constituem um sistema de trocas e interdependência, no qual instituições multilaterais atuam para dirimir conflitos, o chanceler brasileiro dedica-se a enfrentar moinhos de vento e tigres de papel", diz o texto.

"Em discurso durante cerimônia de formatura de uma turma do Instituto Rio Branco, o ministro, em esforço retórico para defender o governo Jair Bolsonaro e a si mesmo, cometeu a proeza de declarar que, se a atual política externa 'faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária'", aponta ainda o editorialista.

"Afora a destruição do soft power que o Brasil acumulou em décadas, com base em sua diplomacia equilibrada, em sua pujança cultural e em seus esforços ambientais, Araújo sabota o que deveria ser o objetivo primeiro de sua pasta —servir de facilitadora para a conquista de mercados e a inserção do país nos fluxos de comércio global", conclui o texto.

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Saiba mais sobre o vexame do Itamaraty na entrevista de Celso Amorim:

22
Jul20

Presidência do Bolsonaro, parida nos quartéis, é bancada pelas Forças Armadas

Talis Andrade

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Por Jeferson Miola

O plano da Presidência do Bolsonaro nasceu muito antes de 2018. Concebido como projeto secreto da cúpula militar, foi parido nos quartéis e conduzido com inteligência estratégica. Os obstáculos ao plano foram todos removidos do caminho – como, por exemplo, a candidatura do Lula e o altíssimo risco que seria a participação do Bolsonaro nos debates eleitorais.

A gratidão do Bolsonaro ao comandante do Exército deixou implícito o engajamento dos comandos militares na mecânica conspirativa para elegê-lo: “General Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, declarou ele, talvez aludindo aos twitters do general para ameaçar e tutelar o STF.

A candidatura presidencial do Bolsonaro para a eleição de 2018 foi lançada publicamente 4 anos antes, já em 29 de novembro de 2014, no pátio da Academia Militar de Agulhas Negras [AMAN], precedendo a formatura da turma de cadetes daquele ano. Isso significa, portanto, que este projeto já estava sendo gestado e preparado na caserna muito antes de 2014.

O evento político-eleitoral ocorreu dentro de uma instalação militar. Considerando-se os princípios da hierarquia e disciplina militar que regem a caserna, é difícil acreditar que aquele ato político-partidário não tenha sido previamente consentido/conhecido pelo comando da AMAN e, também, pelo comando do Exército.

Bolsonaro, na ocasião, estava acompanhado dos filhos Eduardo e Carlos, e foi recepcionado pelo  grupo de aspirantes-a-oficial que,  como uma claque treinada, bradava  “Líder!, Líder!, Líder! …” – vídeo aqui. O então ministro da Defesa Celso Amorim, provavelmente alienado acerca daquele evento partidário que precedeu a cerimônia de formatura, participara da solenidade oficial que se seguiu.

Mesmo com o fim da ditadura, os militares não deixaram de politizar, doutrinar e ideologizar as tropas a partir da perspectiva reacionária, autoritária e anticomunista da guerra fria; assim como cultivaram no horizonte a ambição da retomada do poder.

As [1] jornadas de 2013, com movimentos financiados por fundações dos EUA, bem como [2] a sabotagem de Cunha/Aécio/FHC/Temer, e [3] o ativismo político da Lava Jato dirigido pelos EUA, foram fatores fundamentais para a desestabilização política e a instalação do caos no país.

Os militares farejaram ali uma oportunidade para viabilizarem o projeto secreto de retorno ao poder – desta vez, porém, para permanecerem por um longo período de tempo.

Com o emprego de conhecimentos e dispositivos da guerra cibernética e de manipulação da política – transformada em teatro de operações de batalhas diversionistas e guerras psicológicas –, eles conseguiram catalisar todas frações da oligarquia, a Globo e a mídia em torno do candidato da extrema-direita, apresentado como o único capaz de derrotar Haddad e o PT.

A vitória do Bolsonaro, mesmo que maculada pelas trapaças acobertadas pelo TSE e pela corrupção do sistema de justiça, foi estratégica para as FFAA. A falsa “fachada democrática” serve a eles como argumento de legitimidade de um governo militar “eleito”; “democrático” [sic].

É difícil não se reconhecer, hoje, a natureza militar do governo/regime. Ao recorde de ministros militares no Planalto, somam-se mais de 6 mil militares lotados na máquina estatal, além de outro contingente significativo de policiais militares que ilegalmente colonizaram a política e se aboletam em gabinetes parlamentares e do Executivo.

A colonização das instituições civis de Estado por militares é de tal gravidade que o general bolsonarista Ajax Porto Pinheiro continua lotado no gabinete da presidência do STF, onde exerce tutela direta sobre Dias Toffoli.

A marcha rumo ao regime dos quartéis tem na data de 19 de abril de 2020 um significado análogo ao evento de lançamento da candidatura do Bolsonaro na AMAN, em novembro de 2014. Em 19 de abril passado, Bolsonaro se juntou à manifestação inconstitucional que pedia o AI-5, o fechamento do Congresso e do STF e intervenção militar.

Aquele ato inconstitucional que “coincidiu” com a celebração do dia do Exército Brasileiro foi realizado em área de jurisdição do Quartel-General do Exército, o “forte-apache”. É difícil acreditar, por isso, que a iniciativa não tenha tido a anuência prévia – ou a complacência – do comando do Exército. Ou alguém se ilude que a área de segurança máxima da defesa nacional seria ocupada sem o conhecimento, ou sem o consentimento prévio do comandante Edson Leal Pujol?

No dia seguinte, Bolsonaro mandou às favas o texto constitucional vigente e declarou: “A Constituição sou eu!”. E, algumas semanas depois, dizendo que “as Forças Armadas também estão ao nosso lado”, Bolsonaro ameaçou: “Acabou a paciência, não tem mais conversa. Daqui pra frente faremos cumprir a Constituição [dele] a qualquer preço”.

O sobrevôo de outra manifestação inconstitucional [31/5] com o ministro da Defesa é prova do engajamento das FFAA na escalada militar. O uso de helicóptero do Exército, de cores camufladas, ao invés de equipamento aéreo da estrutura civil da presidência da República, tem mais que valor simbólico; é uma clara mensagem militarista.

A senha para se entender que se trata de um governo/regime militar que não se subordina ao poder civil e à Constituição civil foi dada no manifesto dos colegas de turma do general Augusto Heleno contra o STF e replicada, com nuances de linguagem, pelo próprio Bolsonaro e outros generais do Planalto e da reserva: “as FFAA não cumprem ordens absurdas”. Ou seja, os militares não cumprem ordens civis!

A Presidência do Bolsonaro, que foi parida nos quartéis, é sustentada pelas Força Armadas. Bolsonaro foi o motor eleitoral dos militares; ele é instrumento deles e continuará sendo até o momento que os militares entenderem que ele deve ser descartado, se deixar de ser operacional e funcional para a continuidade do regime.

Para 2022, se Bolsonaro estiver irremediavelmente avariado, Sérgio Moro poderá ser o motor eleitoral para a perenização do regime militar com o aprofundamento do Estado policial, mesmo que no contexto de uma eleição fraudada e manipulada, como se pode prever que deverá ser.

Os militares não pretendem recuar do status conquistado; eles pretendem continuar no poder por um longo tempo e a qualquer custo.

 

07
Jul20

A Lava Jato, para os serviços de espionagem estrangeira, não tinha regras na entrega de informações sigilosas

Talis Andrade

 

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 O procurador Deltan Dallagnol está sendo denunciado pelos vários crimes que cometeu como chefe da autodenominada força-tarefa da Lava Jato, por abuso de poder, e colaboracionismo com os Estados Unidos, inclusive porque trabalhou em parceria com o FBI, polícia dos Estados Unidos, contra os interesses de empresas brasileiras.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, concedida ao jornalista Felipe Bachtold, Dallagnol afirmou que não irá compartilhar com o procurador-geral da República, Augusto Aras, dados da Lava Jato. “Quando as informações são sigilosas, há regras para o acesso”, disse Dallagnol, que pediu para falar ao jornal, e estabeleceu as regras. A entrevista se deu por email.

"O acesso pela PGR só é legítimo nos termos das leis e decisões judiciais. Foi nesses termos que compartilhamos informações e provas dezenas de vezes nos últimos anos com a PGR e vários órgãos, mas nunca houve um pedido de acesso indiscriminado como agora", afirmou ainda Deltan, que comparou Aras a um banqueiro – o que seria também um gesto de clara insubordinação.

Para qualquer agente estrangeiro, seus parceiros, Dallagnol entregou segredos de empresas estatais, como a Petrobras. 

O embaixador Celso Amorim disse à TV 247 que a última revelação da Vaza Jato confirma as fortes suspeitas de que o Brasil sofreu uma intervenção dos Estados Unidos por meio da Lava Jato, tendo como agentes principais o procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sergio Moro.

"Isso comprova. Eu não posso dizer igual o Dallagnol, 'não tenho provas mas tenho convicção', embora eu ache que em política você possa ter, você não pode ter isso na Justiça, mas agora está comprovado, não tem a menor dúvida. Eu acho o cúmulo que ele diga que não pode compartilhar os dados com o Aras e pode compartilhar com o FBI, com uma potência estrangeira que vai investigar a Petrobras na mesma época em que a Petrobras está sendo invadida pela NSA. Gente, isso é uma coisa de espantar", disse Amorim.

03
Jun20

Bolsonaro, o “projeto secreto da cúpula militar”

Talis Andrade

laerte bolsonaro mito senhor das armas e arminhas.

 

 

por Jeferson Miola

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Líder!, Líder!, Líder! …”.

Com esta exaltação ao estilo “Führer!, Führer!, Führer! …” da Alemanha dos anos 1930, os aspirantes-a-oficial da Academia Militar das Agulhas Negras recepcionaram o então deputado Jair Bolsonaro, recém reeleito para o 7º mandato na Câmara Federal.

Acompanhado dos filhos Eduardo e Carlos, Bolsonaro comparecia pela enésima vez a uma solenidade de formatura dos aspirantes da AMAN. Na ocasião, ele retribuiu a recepção efusiva dos cadetes com um discurso que é o marco do lançamento formal da candidatura dele à presidência, que só ocorreria 4 anos depois, em 2018:

“Parabéns pra vocês. Nós temos que mudar este Brasil, tá ok? Alguns vão morrer pelo caminho, tá; mas eu estou disposto em 2018, seja o que deus quiser, tentar jogar pra direita este país!

[aplausos e gritos de “líder!, líder!”]

O nosso compromisso é dar a vida pela Pátria, tá ok?, e vai ser assim até morrer. Nós amamos o brasil, temos valores e vamos preservá-los. Agora, o risco que eu vou correr, posso ficar sem nada, mas eu terei a satisfação do dever cumprido, tá ok? Esse é o nosso juramento esse e o nosso lema: Brasil acima de tudo! Esse Brasil é maravilhoso, tem tudo aqui, tá faltando é político! Há 24 anos que eu apanho igual a um desgraçado em Brasília, mas apanho de bandidos. E apanhar de bandidos é motivo de orgulho e glória, tá ok? Vamos continuar assim. Boa sorte para todos. Um abraço a todos”.

[aplausos e mais gritos de “líder!, líder!”].

Este comício político-partidário, realizado numa unidade de alta significação das Forças Armadas, aconteceu no longínquo 29 de novembro de 2014

 

Parêntesis: [Cinco anos e cinco meses depois, em 19 de abril de 2020, e já como presidente da República, Bolsonaro promoveu outro comício político-partidário, desta vez na frente do maior totem das FFAA, o QG do Exército, para defender o fechamento do STF e do Congresso e a intervenção militar com ele mesmo, Bolsonaro, no poder.]

Instantes depois dos cadetes da AMAN confraternizarem com seu Führer naquele fim de primavera de 2014, o então ministro da Defesa Celso Amorim, acompanhado dos comandantes das três armas das Forças Armadas, conduziu a cerimônia de formatura. O quê dizer disso: negação, ou alienação da realidade pelos integrantes do governo Dilma?

A genealogia do “plano Bolsonaro” como dispositivo para a construção do poder militar tem raízes antigas. Hoje já é possível comprovar que a candidatura presidencial de Bolsonaro em 2018 foi metodicamente construída e preparada nos anos precedentes.

O discurso do Bolsonaro em novembro de 2014 na AMAN foi a rampa de lançamento deste projeto que estava sendo amadurecido bem antes. Ele foi o personagem que coube sob medida no figurino para contracenar, na eleição, o plano militar meticulosamente planejado. Os tuítes do general Villas Bôas, nesta perspectiva, nem de longe são peças improvisadas. Daí o segredo sepulcral firmado entre ele e Bolsonaro.

Em reportagem de 7 de outubro de 2018, a partir de informações e relatos de um alto oficial das Forças Armadas [FFAA] brasileiras, o jornalista argentino Marcelo Falak escreveu que Bolsonaro era o projeto secreto da cúpula militar; “o homem que a cúpula das FFAA elegeram, há 4 anos, para que ele se fosse convertido no presidente do Brasil”.

Segundo a influente fonte militar, Bolsonaro seria “convertido no aríete de uma doutrina para uma ‘nova democracia’ em que os militares terão voz e atuação política, superando o papel subalterno a que são confinados pelo poder civil” […], sendo que o “programa do futuro governo cívico-militar será conservador no político e absolutamente liberal no econômico, e buscará erradicar de uma vez para sempre a ‘extrema-esquerda’”.

Neste conceito de nova democracia, os militares se reconhecem “numa nova etapa”, e exigem “serem tratados como cidadãos plenos, não de segunda”. Na visão dos militares, nesta nova democracia “não deve haver nenhuma restrição à participação deles em cargos públicos” – o que se traduz hoje, concretamente, em mais de 3 mil cargos do Estado aparelhados por eles.

Estes militares mostram-se imodestos, cultivam uma imagem muito elogiosa de si mesmos. E, por isso, ambicionam exercer postos de comando do país – para aumentarem seus proventos – mesmo que incompetentes para certas funções técnicas. Gabam-se que “somos pessoas muito qualificadas, somos competentes, sabemos idiomas, temos pós-graduações. Entendem, por isso, que “tem que terminar com isso de não podermos ser ministros”.

Ainda de acordo com o alto oficial entrevistado, “o modo como Bolsonaro defendeu as FFAA fez com que crescesse nossa ponderação sobre ele, sobretudo porque o Comando estava ocupado por nós, que tínhamos sido contemporâneos dele na Academia” [AMAN].

A fonte militar de Falak menciona que Bolsonaro “se abriu para o diálogo, e dia-a-dia fomos vendo que ele mostrava valores importantes, como disciplina, respeito e muita humildade. Aceitava nossas sugestões e mudou muitas das suas posturas anteriores. Por exemplo, passou do nacionalismo econômico que antes defendia, ao liberalismo. Isso que se vê na campanha eleitoral foi produto do diálogo que o Exército abriu com ele, não tenha dúvidas”.

Segundo informou a fonte de Falak, em virtude da abordagem do comando das FFAA, Bolsonaro “mudou muito no pessoal, se casou com sua terceira mulher, teve uma filha e, algo que ninguém sabe, inclusive fez dois anos de psicanálise”.

O militar também confirma que “O nacionalismo econômico já não é nosso programa, esse deixamos para o Partido dos Trabalhadores. Agora é o liberalismo. Isso é o que dissemos a Bolsonaro. Queremos um país o mais livre possível, o que nos coloca radicalmente contra o que diz o PT”.

Por isso, reporta Falak, “o manejo da economia ficará para um civil: o ex-banqueiro ultra-liberal Paulo Guedes, cuja proposta é privatizar a totalidade das participações do Estado em empresas, incluída a Petrobras, e vender todos os bens que ainda estão em poder estatal”.

Refletindo uma visão embolorada da guerra fria, o oficial brasileiro diz ao jornalista argentino que “Pretendemos fechar o círculo que começou no Brasil com a intentona comunista de 1935, algo que ainda não acabou. Não vamos permitir estas propostas que enganam e se disfarçam de socialismo”.

Acerca da geopolítica regional, o alto oficial entrevistado por Falak em outubro de 2018 não escondeu que “ficamos muito felizes que se foi Cristina Kirchner e chegou Maurício Macri”, que ocorreu na eleição de 2015.

Como prova de reconhecimento da autoridade do capitão Bolsonaro, o alto oficial do Exército disse: “não vamos tutelar Bolsonaro. Seremos subordinados a nosso comandante Supremo. Ele é um homem com personalidade”.

Ilude-se, por isso, quem imagina que as Forças Armadas não estejam escalando a ditadura junto com Bolsonaro e tramando a intervenção militar com ele no poder. Bolsonaro é o “projeto secreto da cúpula militar”.

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25
Mai20

Decisão de Trump contra brasileiros mostra fracasso da política de submissão de Bolsonaro

Talis Andrade

 

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247 - O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim avalia que o anúncio da proibição da entrada de estrangeiros nos Estados Unidos que estiveram no Brasil é "a demonstração cabal do total fracasso de uma política externa de absoluta submissão à Washington". "Nenhuma recompensa. Nenhum toma lá, da dá. É só toma lá e não dá cá", disse o ex-chanceler. Seu relato foi publicado na coluna Radar

O governo do presidente Donald Trump proibiu estrangeiros de viajar para os Estados Unidos se eles estiveram no Brasil nas últimas duas semanas. Por meio de um decreto, a Casa Branca informou que "a ação vai ajudar a garantir que estrangeiros que estiveram no Brasil não se tornem uma fonte adicional de infecções em nosso país".

Atualmente, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de confirmações da Covid-19 (365 mil casos), atrás apenas dos EUA (1,6 milhão). São 22,7 mil mortes provocadas pela doença entre os brasileiros (sexto lugar no ranking global de óbitos por coronavírus). Entre os americanos o número de falecimento chega a 99,3 mil, o maior do mundo, segundo a plataforma Worldometers.

07
Mai20

Peça 4 – mídia e coerência

Talis Andrade

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IV - Xadrez de Moro e a mídia no país dos arrivistas

por Luis Nassif
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Não se atribua a incoerência ao público. Mesmo o homem comum cobra coerência das pessoas. É essa cobrança que inibe o arrivismo, que causa vergonha e, assim, dificulta as mudanças de posição e garante um mínimo de comportamento ético dos entes públicos.

Mas, para cobrar coerência, há a necessidade da informação isenta. E esse produto não é oferecido pela mídia.

Analisem-se políticos que se tornaram referência na redemocratização, especialmente José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Aloysio Nunes.

Ser contra o PT faz parte do jogo político. Já abdicar de princípios é uma questão de caráter, é a marca do arrivista.

Quando os ventos mudaram, a social democracia de José Serra cedeu lugar ao candidato raivoso, que acusava a adversária de “matar criancinhas” e que aparecia na campanha eleitoral entrando na casa humilde, abrindo um exemplar da Bíblia e rezando com a família.

Como chanceler, tornou-se o Ministro que tentou comprar votos de países, para interferir na escolha da presidência do Mercosul, alimentando a guerra fria contra a Venezuela. Só parou quando a Lava Jato chegou nas contas da família, provocando problemas de coluna.

O mesmo fez Aloysio Nunes, assumindo o Ministério das Relações Exteriores e atropelando regras históricas de não-intervenção em problemas internos de outros países. Antes disso, participou da vergonhosa pantomima de ir com o ínclito Aécio Neves à Venezuela, para cobrar democracia.

Agora, Aloysio é convidado a assinar um manifesto de ex-chanceleres ao lado de pessoas sérias, como Celso Lafer, Rubens Recupero, Celso Amorim

No entanto, ambos – Serra e Aloysio – alimentaram a guerra fria que, depois, veio resultar em Ernesto, o idiota. Mas qual a diferença? Apenas o fato de Ernesto ser idiota.

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08
Fev20

Lula: "papa Francisco piensa como nosotros"

Talis Andrade

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Por Dario Pignotti

Francisco "es todo lo que nosotros queremos de un Papa, es un Papa que piensa como nosotros", dijo Luiz Inácio Lula da Silva en la entrevista que me brindó en el Directorio Nacional del PT. "Si analizamos el comportamiento del Papa, si observamos casi todas sus comunicaciones con los cristianos de todo el mundo vemos que es un Papa comprometido con el pueblo pobre, él combate el hambre, él combate el desempleo, él combate la violencia, él combate los crímenes contra las mujeres y los negros". La conversación con Lula en San Pablo ocurrió pocos días antes de la reunión en entre el Pontífice y el presidente argentino Alberto Fernández, el viernes pasado.

En ese encuentro romano el pontífice manifestó a Fernández estar dispuesto a recibir a Lula. Será un "placer", dijo.

De esa manera fue dado el último paso hacia el encuentro de la semana próxima entre jefe espiritual de cerca de 1.200 millones de católicos y el más importante líder latinoamericano de la actualidad.

Los abogados defensores del expresidente solicitaron al juez federal brasiliense Vallisney de Oliveira, postergar la audiencia marcada para el próximo martes en la causa "Zelotes", informaron los diarios Folha, O Globo y Estado.

En principio la audiencia está marcada para el jueves 13 , casi siete años después del encuentro entre el cardenal argentino y la presidenta Dilma Rousseff, de marzo de 2013. Cuentan que Dilma le manifestó su conento por la elección de el primer pontífice latinoamericano y Bergoglio le habría respondido "argentino y peronista". Aquella conversación fue un punto de inflexión: marcó el inicio de una aproximación entre ambos. Tres años depués Bregoglio envió una carta de solidaridad a la mandataria antes de ser depuesta por el golpe que colocó a Michel Temer en el Planalto. Y en 2017, en gesto de reprobación a Temer, suspendió un viaje a San Pablo para los 300 años de la Virgen de Aparecida.

DIPLOMACIA VATICANA

Francisco, que es hincha de San Lorenzo, y Fernandez, ´profesor de Derecho y simpatizante de Argentinos Juniors, hablaron en "porteño" durante 44 minutos en la biblioteca de la Santa Sede el viernes último. Electo en octubre, al derrotar a Mauricio Macri – el preferido de Jair Bolsonaro- , Fernández transmitió la sugerencia de Lula para visitar el Vaticano.

El diálogo también tocó el fenómeno de la "lawfare", y la preocupación de ambos con los golpes de estado blandos.

La posible cumbre Francisco-Lula, será el corolario de una serie de gestos generados desde Roma en los últimos años.

En agosto de 2018 el Papa recibió de manos del ex canciller Celso Amorim, el libro La Verdad Vencerá, sobre la persecución judicial que llevó al expresdiente a la Superintendencia de la Policía Federal. Junto al diplomático brasileño estaban Alberto Fernández y el excandidato presidencial chileno Carlos Ominami.

Cuatro meses más tarde, en diciembre de 2018, concedió una audiencia a Chico Buarque y la abogada Carol Proner quien le hizo llegar un estudio sobre la judicialización de la política en Brasil, Argentina y Ecuador.

En mayo de 2019, el Papa le envió una carta a Lula en la que le aseguró que "el bien vencerá al mal, la verdad vencerá a la mentira y la salvación vencerá a la condenación".

Hubo otros movimientos de bastidores y expresiones de simpatía emanados del Vaticano hacia Lula, contemporáneos con señales de disgusto ante la deriva autoritaria comandada por Bolsonaro. En el Sínodo de la Amazonia mostó a las claras las discrepancias con el actual ocupante del Planalto.

Que Francisco haya escogido la visita de Fernández para anunciar su expectativa de conversar con el ex tornero mecánico consolida un nuevo eje entre Roma y Buenos Aires de resistencia a la restauración conservadora, contaminada de tentaciones dictatoriales, que ha ganado cuerpo en América Latina.

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04
Jul19

Candidato a presidente da Argentina visita Lula

Talis Andrade

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247 - Candidato a presidente na Argentina, o advogado e professor de Direito Penal Alberto Fernández, que tem como vice em sua chapa a ex-presidente Cristina Kirchner, esteve nesta quinta-feira 4 na sede da Polícia Federal em Curitiba para visitar o ex-presidente Lula. "Para mim é uma alegria ver Lula, uma figura importante para todos nós. Os argentinos têm enorme reconhecimento e carinho por Lula. E sua prisão não é algo que passa despercebida", comentou.

Como jurista, Fernández lamentou que um fato como a prisão de Lula aconteça na América do Sul e destacou que o ex-presidente "tinha que estar em liberdade para defender-se". [A prisão de Lula é uma] "mácula ao estado de Direito e é preocupante que isso aconteça em nosso continente", afirmou. "O Brasil não merece ter uma mancha como a prisão de Lula. O povo brasileiro não merece", completou.

O candidato fez seu discurso e respondeu a perguntas ao lado de Celso Amorim, ex-chanceler dos governos Lula, que celebrou o vídeo divulgado mundialmente pelo Papa Francisco nesta quinta em que critica violações do Judiciário no momento em que vem sendo revelado um conluio de Sérgio Moro com procuradores da Lava Jato. Para o ex-ministro, "é uma grande alegria" que o Papa tenha entrado na luta contra o lawfare.

Fernández comentou que os casos de Brasil, Argentina e Equador são muito similares, envolvendo Lula, Cristina Kirchner e Rafael Corrêa, nos quais as instituições 

Celso Amorim disse ainda que a visita de Alberto Fernández a Lula "é extremamente significativa". "O fato de um candidato à presidência da República vir visitar um presidente que está preso demonstra verdadeira solidariedade", comentou. Lula disse a Fernández, segundo Amorim, que "sua primeira tarefa é ganhar na Argentina". "Com a vitória, poderíamos ter a esperança da volta da democracia na América do Sul", apontou.

 

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