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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

14
Mai22

A HISTÓRIA DE "O MUNDO É UM MOINHO"

Talis Andrade

 

Lindíssima. Delicada de tudo. E, ao mesmo tempo, O Mundo é um Moinho não deixa de ser também um ensinamento sobre as durezas da vida e o cuidado que é preciso sobre decisões a tomar.


 
Cartola compôs a música para a filha Creusa, que ele adotara de uma amiga da família que havia falecido. Ele morava com Deolinda, que era madrinha da criança, então com cinco anos. A menina tomou gosto e acabou fazendo uma carreira discreta como cantora. Cantava com o pai adotivo e chegou a se apresentar com Herivelto Martins.
 Martins.


Creusa e o pai durante a gravação do disco de 1976


Muito antes, aos 16 anos, Creusa começava a demonstrar interesse em usufruir das belezas da vida. Namorar, passear com os amigos, enfim, desfrutar de sua juventude. Zeloso, Cartola teria composto essa canção pensando nela, em tom de conselho. Consta que Creusa casou-se aos 17.

A música é de 1943, mas só foi gravada por Cartola em 1976. O violão de Guinga e a flauta de Altamiro Carrilho na introdução são fantásticos. Creusa participou das gravações e cantou em duas faixas. Detalhe: o poeta só foi gravar as próprias composições nos anos 1970.

E foram apenas quatro discos.


Capa do famoso "disco da janela" com Cartola e Dona Zica - segundo da carreira do poeta

Apesar de famoso na Mangueira através de outros artistas desde os anos 1930, Cartola passou por perrengues incríveis. Ficou no ostracismo durante décadas. Chegou a lavar carros e a trabalhar como vigia noturno. Por sorte, foi reconhecido na rua pelo jornalista Sérgio Porto (o eterno Stanislaw Ponte Preta), que ajudou o mestre a dar um restart na carreira.


 
O MUNDO É UM MOINHO
(Cartola)


Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
 

 
 Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
 
No meio da minha pesquisa sobre a história da canção, me deparei com uma polêmica.

Em artigo publicado pelo jornal Hora do Povo em 2013, o poeta gaúcho Sidnei Schneider "compra briga" sobre uma versão controversa, relacionada à origem da música.

Escreve ele: "'(...)Escutar é complicado e sutil', anotou certa vez o escritor Rubem Alves, ele mesmo relembrando Alberto Caeiro, 'Não é bastante não ser cego/ Para ver as árvores e as flores.' Na tal mensagem, a reprodução da letra de 'O Mundo é um Moinho' vem antecedida por este brinco de erudição e amor ao povo, em destaque e sublinhado: 'Cartola fez esta música quando soube que sua filha era prostituta (...)'"

Mais adiante, Sidnei se vale de depoimento de familiares de Creusa para desclassificar essa informação:

"(...)Irinéa dos Santos, a mais velha dos cinco filhos de Creuza, disse que Cartola compôs 'O mundo é um moinho' ao refletir sobre o que reservaria a vida para Creuza, então uma menina de 16 anos, que passava a se interessar pelos rapazes. Preocupações de qualquer pai amoroso em relação a sua filha, às quais é preciso somar a noção de liberdade artística. Cartola, igual a qualquer compositor, devia interessar-se pelo que a canção podia dizer aos outros, os seus ouvintes, e jamais a reduziu à situação doméstica.(...)'" 

Deixando a polêmica de lado, porque ela é muito menor que a obra.

Cartola deu a música a Beth Carvalho, que foi usada em 1977 no álbum Nos Botequins da Vida. Vendeu mais de 400 mil cópias - estourou de fazer sucesso. 

E, acreditem, o mestre achava que Beth não deveria gravá-la. Um áudio desse encontro dos dois, gravado em fita K7 e disponível na web, revela o motivo. Era a primeira vez que Beth ouvia a canção. Depois, consideraria a Madrinha do Samba a sua melhor intérprete.

Confira no vídeo abaixo.


Noutro registro, Cartola canta a música ao lado do pai, Sebastião de Oliveira. Os dois não se falavam havia mais de 40 anos. Porém, falido, o poeta se viu obrigado a voltar a morar com ele no subúrbio carioca de Bento Ribeiro. Essa pérola foi incluída no documentário Cartola - Música para os Olhos de 2007, dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.
 

 
Outra bela interpretação de "O Mundo é um Moinho" veio na voz de Cazuza (que, como Cartola, também se chamava Agenor*). Cantada por um ídolo daquela geração 1980, a música se consolidava como atemporal e poderosa. 

Como Cartola.


 Cazuza canta "O Mundo é um Moinho"


*Cartola seria batizado como Agenor e, durante anos, ele mesmo acreditava que era este o nome dele. Só depois, numa revisão de documentos, descobriu-se que o nome mesmo era Angenor. O escrivão registrou errado.


Fontes principais: Sidnei Schneider em a Hora do Povo e Dicionário MPB Cravo Albin


Pesquisa: Robson Leite

24
Fev22

Guerra na Ucrânia é consequência de uma violência da qual o Brasil também é vítima

Talis Andrade

nani contra dilma.jpg

dilma linha sucessória.jpg

 

Guerra na Ucrânia tem muito mais ver com nosso país do que sugere imprensa corporativa (e ideológica). Mas essa análise não é feita por jornalistas de cativeiro

 

por Joaquim de Carvalho

- - -

A guerra na Ucrânia não começou nesta quinta-feira, 24 de fevereiro, mas muito antes, e não me refiro especificamente a questões culturais que remontam há séculos, mas a um movimento extremista que ganhou força em 2013, e que teve como palco o pais que faz fronteira com a Rússia, e também o Brasil.

As semelhanças são gritantes. Em 2013, quando o governo democraticamente eleito pelos ucranianos decidiu não assinar acordo de livre comércio e associação política com a União Européia, extremistas foram às ruas para derrubar o então presidente Viktor Yanukovich. 

A pauta era muito parecida com a das jornadas de junho no Brasil, colocada depois que, por ingenuidade ou não, militantes do Movimento Passe Livre abriram as portas para a extrema direita no País. 

Na Ucrânia, as pessoas que pegaram em armas para matar militantes que queriam uma relação independente com os poderosos países ocidentais martelavam na tecla da corrupção. O presidente acabou derrubado por um golpe parlamentar, e nações como EUA e Inglaterra se associaram a fantoches ucranianos.

No Brasil, uma presidente democraticamente eleita também foi derrubada pela violência institucional, num movimento apoiado por organizações cujo financiamento ainda não está esclarecido, como o MBL e o Vem Pra Rua. 

protesto dilma.png

 

Dilma quemga.jpg


nua nudez dilma vaca.jpg

Agentes políticos como Eduardo Cunha e agentes públicos como a turma de Sergio Moro e Deltan Dallagnol deram o verniz legal a um golpe que, assim como as guerras com pólvora, geraram mortes e tragédias em geral -- que o desemprego e a retração econômica geram.

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Não é exagero. Basta andar pela avenida Paulista para ver que as vítimas dessa violência estão por aí, na forma de famílias que deixaram de ter um teto para viver em barracas e lonas improvisadas. São pessoas que foram jogados à miséria e sobreviveram.

avenida paulista moradores de rua.jpeg

 

É uma inegável consequência de uma guerra.Fotos: Ativistas do Femen protestam contra situação política da Ucrânia -  25/02/2014 - UOL Notícias

Movimento Femen na UcrâniaCarla Zambelli processa Sara Winter, ex-colega de protestos feministas, por  ser acusada de aborto

Movimento Femen no Brasil

 

Não é à toa que, entre bandeiras brasileiras usurpadas pelos extremistas brasileiros, apareceram bandeiras de movimento extremista da Ucrânia, como se o país do leste europeu fosse exemplo a ser seguido.Associação entre bolsonaristas e grupo neonazista da Ucrânia incomoda a  Rússia - 31/05/2020 - Mundo - Folha

Comício golpista de 7 de setembro de 2021 de bolsonaro

A diferença é que, lá, a paz ameaçada encontrou obstáculo poderoso, a Rússia. Num primeiro momento, a Crimeia, território que culturalmente sempre foi russo, não quis conviver com nazistas e fascistas empoderados, e, por plebiscito, esmagadora maioria decidiu retornar à nação a que, historicamente, pertence.Svoboda e a Ucrânia - Os Espectros do Passado e as Sereias do Capitalismo -  Filosofia da Terra

Ucrânia: laços indiscretos entre EUA e neo-nazistas - Outras Palavras Nazistas na Ucrânia

O mesmo ocorreu no leste da Ucrânia, região conhecida como Donbass e que tem maioria que fala russo, mas esta foi subjugada pelo exército golpista e por milicianos. Em 2014, um acordo foi assinado, para cessar a barbárie — a Rússia é signatária desse acordo, que previa autonomia crescente dos territórios de Donetsk e Lugansk.

Mas o governo ucraniano — primeiro liderado pelos golpistas, depois por um comediante eleito — não moveu uma palha para implementar o acordo assinado. Recentemente, o governo de Volodymyr Zelensky sinalizou que queria uma base da Otan no país.

É legítimo interpretar que o plano do governo era ganhar musculatura com anabolizante ocidental para não cumprir o que foi tratado -- o acordo que recebeu o nome de Minsk.

Joe Biden, como lembrou o professor Lejeune Mirhan na TV 247, poderia ter evitado o conflito armado, se tivesse declarado que a instalação de base da Otan na Ucrânia estava fora de cogitação. 

Mas não. 

Tanto ele quanto os generais da Otan fizeram fizeram manifestações ambíguas. Rússia reagiu, o que é legítimo, pois a instalação de bases na Ucrânia colocaria Moscou a 300 quilômetros de mísseis da Otan.

Nenhuma pessoa lúcida quer guerra — ela mata pessoas. Mas, no cenário que se estabeleceu com o avanço extremista que começou em 2013, ela seria inevitável, exceto se a política tivesse prevalecido, mas, nesta área, acordos e palavras precisam ser cumpridos.

Biden, que poderia seguir o exemplo de Franklin Roosevelt e combater o fascismo (e sua vertente nazista), preferiu manter a aliança com Kiev. Ele, naturalmente, não é fascista, mas não foi capaz de compreender que o fascismo sempre foi, em qualquer circunstância, inimigo da humanidade. 

O mercado pode ter ganhos imediatos com o fascismo, mas seu desfecho será sempre trágico, se não for contido.

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renuncia morte dilma.jpg

 

Apesar do tempo instável, a manifestação reuniu cerca de 30 mil pessoas, de acordo com a Brigada Militar

Image

Os golpes militares, os golpes da extrema direita, os golpes nazifascistas sempre foram financiados e tramados pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. São promovidos sempre por fardados. Por togados e políticos nazistas como aconteceu recentemente no Paraguai contra Ludo, na Bolívia contra Evo Morales, no Brasil da Lava Jato contra Dilma. 

nudez nu nua .jpg

23
Jul17

O grito de Cazuza

Talis Andrade

brasil-calle.jpg

O GRITO
por Talis Andrade



Cazuza via
além do tempo
além das máscaras
as artimanhas dos vendedores de espaço
no pássaro de aço
dos vendedores de ilusões
nos jardins de Tântalo
Cazuza ouvia o tintilar dos ossos
das caveiras no baile da Ilha Fiscal
Cazuza sentia o cheiro da corrompida carne
de um país ferido nas entranhas
Um triste Brasil que esconde a cara


Cazuza via além dos corpos
dos governantes que bebem e comem
nos palácios em forma de concha
Cazuza via os cortejos fúnebres
dobrando as esquinas iluminadas
pelas velas em intenção das almas


Cazuza via além do tempo
e da carne viva dos jovens
Que toda carne à luz azul
e negra das boates
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
Daí a irreverência o risco
as canções os gestos
de escândalo e morte

 

Na carne dorida carne
Cazuza sofria por antecipação
o idêntico destino da tribo de tietes
A carne tremente dos infantes
a carne tremente e sangrenta das donzelas
exibida nas passarelas
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
plúmbea cor
dos que estão na mira do esqueleto
o esqueleto armado
de arco e flecha

 

---

Vide antologia Poetas Cantam Poetas

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