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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

25
Fev20

“A verdade vos fará livre”

Talis Andrade

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Por José Roberto Torero

 

Ah, Diário, no ano passado a Mangueira já tinha me enchido o saco, mas esse ano foi pior. Até o título do samba-enredo foi pra me provocar: “A verdade vos fará livre” é meu slogan de campanha, pô! Eles deviam me pagar roialte para usar.

E eles nem disfarçaram. Disseram na cara dura: “Não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão". Messias de arma na mão sou eu, pô! Entendi a indireta. Quer dizer, a direta. Já “futuro sem partilha” eu não tenho certeza, mas deve ser o Guedes.

O pior é que não foi só a Mangueira que quis me provocar:

- a Viradouro falou de mulheres (não aguento mais esse mimimi de mulher, tanto que nem trouxe a Michelle aqui pro Guarujá),

- a Estácio de Sá criticou o garimpo (ainda bem que não falou do nióbio, que aí eu ficava com mais raiva ainda).

- a Portela falou de índio (blargh!),

- a Grande Rio contou a história de um cara que era pai de santo e homossexual (pô, tem que proibir esses tipo de personagem, por que não falou do Duque de Caxias?),

- e a União da Ilha foi a pior de todas, porque falou de pobre, de favela, colocou os ricos em privadas gigantes e botou até um ônibus de verdade na passarela (desfile bom é aquele que fala de rei, rainha e riqueza, talkei?).

Olha Diário, essa madrugada foi insuportável. Vi o desfile todo pela televisão, do lado do Hélio Negão. Nós dois ficamos xingando todo mundo. Eu disse que os foliões eram esquerdopassistas e ele disse que ia fundar o movimento “Escola de samba sem partido”.

Então eu tive que ir no banheiro dar uma goldenshowerzada, que eu tinha tomado umas cervejas. Mas aí, na volta, que decepção... Peguei o Hélio Negão dançando na sala e cantando:

“Mangueira, samba que o samba é uma reza,

se alguém por acaso te despreza,

teme a força que ele tem.

Mangueira, vão te inventar mil pecados,

mas eu estou do seu lado

e do lado do samba também.”

Ah, Diário, que tristeza que eu senti quando vi aquilo. A traição vem de todo lado e de todo mundo. Até do Negão...

Chega logo, quarta-feira de cinzas.

@diariodobolso

25
Fev20

Mangueira bate duro no fundamentalismo bolsonarista

Talis Andrade

A Mangueira fez referências quase diretas ao presidente Jair Bolsonaro, ”Não tem futuro sem partilha nem messias de arma na mão“, cantaram os integrantes, em alusão ao presidente

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Falando Verdades - A escola de samba  e atual campeã do carnaval do Rio de Janeiro, Mangueira, resolveu bater duro no fundamentalismo religioso bolsonarista. A escola mostrou um Jesus Negro na avenida, os falsos profetas radicais com “armas na mão”, com o tema a “Verdade Vos Fará Livre”, com forte crítica social e política criticando o “messias com arma na mão” em alusão a Jair Bolsonaro.

A escola de samba Mangueira, levou a crítica ao escopo ideológico do Bolsonarismo neopetencostal radical á avenida, com um Jesus  mostrado com rosto de negro, sangue de índio e corpo de mulher, a escola de samba criticou os profetas da intolerância.  Um jesus negro e outro Jesus mulher.

A Mangueira que é atualmente campeã do carnaval do Rio de Janeiro, voltou com fortes críticas sociais e políticas para a avenida e mostra ao mundo o radicalismo bolsonarista.

O samba cita um Jesus de “rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, e menciona “profetas da intolerância” que não sabem que a “esperança brilha mais que a escuridão”.

“Jesus pode ser de todos os gêneros. E se fossemos ensinados, desde criança que Jesus também poderia ser uma mulher, será que o Brasil estaria no topo do feminicídio? Que todos os olhos possam acolher todas as imagens de Jesus, porque ele está no meio de nós”, disse a rainha da Mangueira, Evelyn Bastos.

A Mangueira fez referências quase diretas ao presidente Jair Bolsonaro, ”Não tem futuro sem partilha nem messias de arma na mão“, cantaram os integrantes, em alusão ao presidente.

A letra do samba enredo e vídeo do desfile da Mangueira:

A Verdade vos Fará Livre

Compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo

Intérprete Marquinho Art’Samba

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra do buraco quente

Meu nome é Jesus da gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir

O desabafo sincopado da cidade

Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

E num domingo verde e rosa

Ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira

Samba que o samba é uma reza

Se alguém por acaso despreza

Teme a força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

 

25
Fev20

Bolsonaro incendiário tema de carro alegórico na Alemanha

Talis Andrade

 

bolsonaro com fósforo carnaval alemanha.jpg

 

Em Colônia, carro alegórico representou o presidente brasileiro, segurando a bandeira do Brasil atada a um palito de fósforo tamanho família e exibindo um largo sorriso, diante de árvores carbonizadas e sambistas seminuas e chamuscadas

 

 Deutsche Welle 

por Marcios Damasceno

"Esse é meu carro preferido", afirmou Holger Kirsch, diretor do desfile, em entrevista ao jornal local Kölner Stadt-Anzeiger. A alegoria, outra crítica às queimadas na Amazônia, produziu fumaça literalmente. "Nós trabalhamos com verdadeiras sacas de café e ainda instalamos um sistema de tubulação para que fumegue bastante", acrescentou.

Essa não foi a primeira vez que Bolsonaro é alvo do humor alemão. Em agosto, ele foi ridicularizado em horário nobre num programa humorístico transmitido pela principal rede de televisão pública da Alemanha, que criticou as políticas ambientais e agrícolas do presidente brasileiro e o chamou de o "boçal de Ipanema", entre outros apelidos.

sátira política sempre foi um dos pratos principais dos desfiles carnavalescos no oeste alemão, em cidades como Colônia, Mainz ou Düsseldorf.

"Nosso mundo está mais político do que nunca – então, nossos carros alegóricos também o são", afirmou Kirsch ao jornal Bild. O tabloide informa que os 26 carros alegóricos do desfile deste ano em Colônia trouxeram, ao todo, representações de 14 políticos.

Além da sátira política usual, um posicionamento forte contra a extrema direita foi particularmente evidente em 2020. Enquanto Colônia representou sua famosa Catedral em lágrimas pelas vítimas do recente atentado terrorista em Hanau, Düsseldorf mostrou o racismo como uma arma mortal.

"Neste momento, não há nada mais sério do que o terrorismo de extrema direita", afirmou o carnavalesco Tilly, de Düsseldorf. Um dos carros alegóricos na cidade representou a cabeça de um homem enraivecido, com uma arma saindo de sua boca, em que se lia "racismo". Na bochecha do boneco, a seguinte frase: "Palavras se tornam ações."

A alegoria também chamava a atenção para os ataques a tiros em Hanau na última quarta-feira, que deixaram nove pessoas de origem estrangeira mortas. Após o massacre, o terrorista voltou para casa, onde matou a mãe, de 72 anos, e cometeu suicídio. Numa carta de confissão e em vídeos, o atirador expõe pensamentos racistas, defendendo ideologias de extrema direita.

"Não há apenas um perpetrador. Não é apenas aquele que atirou. Aqueles que prepararam mentalmente a ação também são responsáveis", afirmou Tilly, referindo-se às pessoas que proferem discursos racistas, xenófobos e de extrema direita.

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"Palavras se tornam ações", diz frase no rosto de boneco, em alegoria que rechaça o terrorismo de extrema direita

25
Fev20

Bolsonaro é retratado como "assassino do clima" no Carnaval alemão

Talis Andrade

 

bolsonaro desfila carnaval alemanha.jpg

 

Famosa pela sátira política, festa na Alemanha é marcada por críticas à extrema direita. Em Düsseldorf, boneco do presidente tem serra elétrica no lugar dos braços e suástica nazista no peito – removida após polêmica

Deutsche Welle

O presidente Jair Bolsonaro foi tema de carros alegóricos durante os tradicionais desfiles carnavalescos na Alemanha nesta segunda-feira (24/02). A Rosenmontag, "segunda-feira das rosas", é o ponto alto do Carnaval de rua do oeste alemão, famoso por suas sátiras políticas.

Em Düsseldorf, um carro alegórico trouxe um boneco do presidente brasileiro na posição de Cristo Redentor, mas com serras elétricas no lugar dos braços abertos. Nelas, lia-se "assassino do clima" e "Bolsonaro". Em volta do boneco, havia tocos de árvores decepadas e ensaguentadas.

Mas um detalhe da representação causou polêmica nesta segunda-feira. Uma bandeira brasileira estampada no peito de Bolsonaro trazia uma suástica nazista em seu centro.

Carnavalescos responsáveis pelo carro alegórico tiveram que remover o símbolo nessa segunda-feira, após recomendação das autoridades.

Policiais avistaram a suástica e consultaram promotores públicos, que concluíram que a representação representaria um crime – na Alemanha, emblemas e símbolos de organizações anticonstitucionais não são permitidos por lei. Assim, os organizadores foram aconselhados a cobrir ou remover a suástica.

Jacques Tilly, responsável pelo carro, confirmou o caso à agência de notícias DPA. "Isso é um absurdo, porque impede que haja liberdade de sátira, mas nós seguimos. Bolsonaro agora tem um buraco no peito", afirmou o carnavalesco.

Mais tarde, o ministério público expressou dúvidas sobre sua própria avaliação. "Uma análise mais aprofundada mostrou que a suástica nesse contexto deveria ser respaldada pela liberdade artística", disse uma porta-voz do órgão.

 

24
Fev20

PM vai à casa de representante de blocos e ameaça usar armas em caso de protestos; corporação fala em visita ‘amistosa’

Talis Andrade

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Foi decretado estado policial no Brasil dos governadores da direita e extrema direita. Um estado de terrorismo miliciano. Um estado sem lei. Dos abusos de autoridade. Quanto mais fraco o governador, mais forte o poder de polícia que invade casas, derrubando portas, e atirando no povo para matar. 

Quantos civis a polícia vai matar neste Carnaval? 

Escreve Guilherme Gurgel in BHaz:

Um representante de dois blocos de Carnaval de Belo Horizonte denuncia ter recebido uma visita intimidadora da Polícia Militar de Minas Gerais. Segundo o músico Heleno Augusto, os policiais foram até a sua casa e avisaram que ele não poderia “insuflar as massas” e deveria passar mensagens positivas sobre a corporação.

O representante dos blocos Raga Mofe e Havayanas Usadas relata que foi avisado que se proferisse palavras de ordem durante a apresentação de algum cortejo, poderia passar por alguma intervenção da PM. “Eles falaram que o efetivo estaria armado e poderia usar as armas para fazer uma dispersão forçada do bloco”, detalha ao BHAZ.

O músico conta que foi convidado para uma reunião com os policiais na última quarta-feira (19). Porém, como Heleno não tinha disponibilidade, a PM agendou uma visita em sua casa para o dia seguinte, na quinta-feira.

Segundo o músico, na manhã de quinta chegaram em sua casa alguns policiais em uma viatura do Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas (Rotam). “Cria na gente uma tensão desnecessária, é uma intimidação que nos deixa sem saber se vai dar problema. Parece uma ação direcionada”, comenta.

Após a conversa, os próprios policiais registraram um boletim de ocorrência e fizeram algumas fotografias do carnavalesco. A PM enviou para ele o registro da conversa, porém Heleno considera que o relato dos policias não corresponde ao teor da conversa que tiveram.

Tensões com a polícia

A denúncia de intimidação e tom ameaçador é mais uma escalada na tensão entre a Polícia Militar de Minas Gerais e o Carnaval de Belo Horizonte. Desde o último domingo, autoridades policiais têm feito exigências que inviabilizam o desfile de dezenas de blocos da cidade (entenda aqui).

A Liga Blocada, que reúne seis clássicos blocos de Belo Horizonte, se pronunciou sobre as intimidações denunciadas por Heleno. Por causa da tensão com a PM, a Liga reforça o temor do que pode acontecer durante os cortejos, mas ressalta a importância do Carnaval para a manutenção da democracia.

“Estamos diante de uma clara ameaça ao Estado Democrático de Direito e tememos o que pode acontecer nos desfiles […] porque não abriremos mão dos nossos direitos assegurados no art. 5º da Constituição Federal, de liberdade de expressão e de reunião em locais abertos ao público, independentemente de autorização”, declarou por meio de nota.

Para Heleno, o sentimento que ficou foi de “liberdade cerceada”. “Cria um clima de tensão no nosso Carnaval, que nunca teve problemas, é só alegria. Cantei 4 anos no Baianas Ozadas, mais de 4 no Havayanas Usadas e no Raga Mofe há quase 10 anos”, lamenta.

 

24
Fev20

O desfile do crescimento medíocre de Bolsonaro

Talis Andrade

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Vermelho 

Editorial 

Jair Bolsonaro entra no segundo ano de governo na condição de estelionatário eleitoral. Já que o carnaval começou, nada mais apropriado do que demonstrar essa verdade no ritmo da passarela. Ele representa ideias econômicas que vieram ao mundo nas décadas de hegemonia do neoliberalismo, e pareciam mortas, que ressurgiram com nova roupagem, agora com outros estribilhos e outras cantilenas.

Ainda candidato, Bolsonaro entrou na marcha de Paulo Guedes prometendo fazer o país voltar a crescer, mas, a julgar pelo zunzunzum da mídia, a evolução tende a chegar à fase da dispersão sem ter passado direito pela fase da concentração.

Com o samba de uma nota só de Guedes — o script de que as “reformas” neoliberais são a salvação da lavoura —, tido por Bolsonaro como o famoso posto de combustível que daria resposta a tudo — o Posto Ipiranga —, a economia do país segue encruada. De acordo com o Banco Central, o crescimento de 0,89 de 2019 segue se repetindo nesse início do ano, com o agravante de que não há nenhum sinal de melhora. Para 2020, o próprio “mercado” já reduziu os prognósticos para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), inferior a 2%.

O puxador do samba não consegue dar ritmo ao que prometeu e o presidente, sua segunda voz, já aparece na passarela como o estelionatário que prometeu o que não está entregando. Bolsonaro, ao repetir muitas vezes que não entende de economia e que confia cem por cento em Guedes, deu uma espécie de cheque em branco para o ministro aplicar o seu programa econômico.

Já circulam informações de que se avoluma o contencioso entre Bolsonaro e seu “mago” da economia. É lógico há ainda muita evolução pela frente, mas os sinais de descontentamento transcendem o Palácio do Planalto. Os apupos começam a aparecer em setores empresariais da plateia que apoiou essa aventura, manifestações traduzidas em editoriais dos jornalões e em rodas de entrevistas com especialistas no assunto em veículos de mídia.

As consequências dessa desarmonia entre promessa e realidade são trágicas para o povo. O desemprego em massa se mantém praticamente imóvel, a desindustrialização não dá sinais de reversão, o dólar não para de galopar e o comércio exterior perde fôlego. A alta da moeda norte-americana encarece as importações, o que eleva muitos preços internos (um exemplo são alguns itens de alimentação).

Em nome do sacrossanto “ajuste fiscal”, o patrimônio público vai para a bacia das almas, com as privatizações criminosas, e o orçamento sofre cortes que arrocham investimentos essenciais — como em infraestrutura e em políticas sociais —, inclusive nos estados e municípios. Tudo o que o governo pode lançar mão para a meta de Paulo Guedes de “economizar” R$ 1 trilhão ele não titubeia.

O exemplo mais recente é o confisco do dinheiro do trabalhador com o congelamento da tabela do Imposto de Renda (IR). Esse é outro caso de estelionato eleitoral. Para cumprir a promessa de campanha de não aumentar a carga tributária dos brasileiros, o governo teria de corrigir a tabela em 7,39% — um valor de R$ 13,5 bilhões, de acordo com estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco).

Além das performances de baixo calão de Bolosonaro, dando espetáculos grotescos de discriminações sociais, ele se revelou um demagogo na encenação de que devolveria a alegria aos brasileiros com o espetáculo da retomada da economia. O cheiro de queimado no “Posto Ipiranga”, tido pelo presidente como infalível, sinaliza a ineficácia do programa ultraliberal e neocolonial. É com esse programa desastroso que Bolsonaro está na passarela.

 

22
Fev20

Carnaval do Fora Bolsonaro tem até Moro na cadeia

Talis Andrade

Vídeo incorporado

247 - Festa mais tradicional do Brasil, o Carnaval já leva em seu primeiro a política para as ruas em manifestações contra o governo Jair Bolsonaro.

No Twitter, a hashtag #CarnavalDoForaBolsonaro alcançou um dos principais TTs - Trending Topics, ou Tópicos de Tendências, em português.Image

Uma das principais imagens é a de Bolsonaro fazendo sinal de arminha, na Sapucaí pela Acadêmicos de Vigário Geral.

Os foliões também protestaram contra o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que aparece encarcerado em alegoria de bloco de rua.

Em Salvador (BA) e pelas ruas do Recife (PE), os foliões entoaram o já tradicional “eih, Bolsonaro, vai tomar no c*”.

Também foram vistas fantasias, como a das “barbies fascistas”, que circularam pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ano passado, Bolsonaro criticou o Carnaval e causou polêmica ao publicar um vídeo obsceno na internet, com o golden shower, que, na tradução literal, significa "chuveiro dourado", que é o ato de urinar no parceiro durante o sexo. O vídeo repercutiu no mundo. Depois, Bolsonaro perguntou o que era golden shower. 

 

 

 
06
Mai19

A forma mentis

Talis Andrade

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Algo me inquieta muito, o silêncio das ruas

por Nino Carta

 
Sabíamos que Jair Bolsonaro é um iletrado primitivo, tosco até o extremo limite da ignorância e do desconhecimento do mundo, mas temos de admitir que, na Presidência da República, consegue se superar. Quanto aos filhos, as três cabeças do Cérbero do nosso Inferno, sabíamos seguirem os passos paternos, com a obsessiva disposição a empunharem armas leves e pesadas e a simpatia declarada por torturadores do passado e as gangues do presente, ditas milícias. Eles também conseguem superar-se. Quem os orienta é autor de um livro intitulado O Mínimo Que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota. Aplicado a ele próprio, mostra uma condescendência terrificante: Olavo de Carvalho, trânsfuga do manicômio, é matto da legare, louco para a camisa de força, como caberia dizer em italiano. Isso também era do conhecimento até do mundo mineral, mas reencontrá-lo hoje como ideólogo do bolsonarismo diz tudo a respeito da situação de absoluta demência em que o País precipita.
 
 
 
A ilustrar melhor a personalidade do “astrólogo”, como o define o vice-presidente Mourão, ele acaba de atacar os militares chamados a sustentar o governo com a cavalaria da sua verborragia de Napoleão de hospício. Trata-se, neste caso, de mais uma prova de sua gravíssima enfermidade mental. Nesta moldura aterradora sem deixar de ser cômica, o que mais me impressiona e me dói é a tranquilidade das ruas, a indiferença, a insensibilidade, a tibieza gerais, sem excluir a inércia de agremiações consideradas vermelhas, ou comunistas, pelos governantes atuais do nosso peculiar país. Até a mídia, ao se afastar de Bolsonaro, encarado com maus olhos pelo deus mercado, não altera o inesgotável apoio ao ódio social e racial.
 
 
 
A pantomima encenada pelo STJ ao meter sua colher prepotente no caldeirão do julgamento de Lula confirma que a prisão do ex-presidente é o único motivo de união entre os envolvidos no golpe que começa pelo impeachment de Dilma Rousseff e deságua na eleição de Bolsonaro, e eleva Sérgio Moro à condição de deus ex machinada operação encomendada por Tio Sam, no momento descabelado debaixo da cartola. A contenda que opõe o bolsonarismo apoiado pela Lava Jato e o Supremo exibe nas pregas do seu desenvolvimento as evidências do totalitarismo em marcha. Se o conge de dona Rosângela é o vilão-mor, a tanto merece ser alçado graças à conivência criminosa do STF, partícipe fatal do golpe de fio a pavio. E está claro o porquê do denominador comum chamado Lula: voltasse ele à Presidência, conforme certamente se daria, seria o entrave decisivo ao propósito de Washington de recolocar o Brasil no centro do seu quintal. Eliminá-lo à força da ribalta eleitoral foi a saída e o capitão levou com o beneplácito dos senhores da casa-grande, dispostos, na emergência, a agarrar em fio desencapado, como diria Plínio Marcos.
 
 
 
O país da casa-grande e da senzala chegou à Idade Média mais profunda e as duas entidades funcionam com crescente pontualidade. Belos versos escreveu Orestes Barbosa: a porta do barraco era sem trinco/ e a Lua furando nosso zinco/ salpicava de estrelas nosso chão/ e tu pisavas os astros distraída. E lá vem a punhalada instigada pelo senhor feudal: sem saber que a ventura desta vida/ é o barraco, a cabrocha e o violão. Quando adolescente me irritava a cantoria: Mangueira, seu cenário é uma beleza. Visto de qual ângulo, caras-pálidas? O que me inquieta na zona miasmática situada entre o fígado e a alma é a forma mentis a nutrir tanta inércia e tanta resignação, como se a desigualdade estivesse escrita nas estrelas.
 
 
 
Penso nos condimentos da receita. A crença na ginga incomparável, na malemolência, na picardia matreira, e também no passa-moleque, no “levar vantagem”, no golpismo miúdo e graúdo, no maldito jeitinho. Acrescentem o sorriso de superioridade do sambista e do futebolista e a convicção de que a glória da pátria amada, idolatrada, salve, salve, está no gramado e no batuque carnavalesco fadado a encantar o mundo. Ao cabo de 519 anos de existência, insuficientes nas nossas plagas para criar uma nação, tamos aí a padecer Bolsonaro na cabeça enquanto o povo, quase sempre abandonado por quem haveria de iluminá-lo, trafega pelo Limbo.
 
 
26
Mar19

"As milícias são intocáveis. Enfim, temos a milícia no poder. Não precisam mais colocar capuz para matar", diz sociólogo

Talis Andrade

A relação das milícias com o Estado é determinante para o que ela se transformou, uma estrutura de poder absoluta, autoritária, expressiva e crescente

patricia-fachin entrevista josé cláudio alves

 

 

prisão dos dois acusados de estarem envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, “é a exceção de uma regra”, diz o sociólogo José Cláudio Alves à IHU On-Line. “A regra é que membros de milícias são intocáveis, seus negócios se ampliam e eles têm dimensões crescentes desse poder e agora expressam isso a partir do assassinato de pessoas que ocupam cargos no âmbito político e que são contrárias aos seus interesses”, menciona.

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, Alves frisa que “a estrutura política e econômica das milícias no Rio de Janeiro hoje começa a ganhar vários outros contornos, que não eram perceptíveis e que agora se manifestam”.

Entre eles, o sociólogo cita a atuação da milícia na construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – Comperj em Itaboraí. “Várias empresas terceirizadas estão atuando na construção da obra e a milícia está controlando quem vai trabalhar nessas empresas. Isso já é um passo à frente em relação à atuação das milícias anteriormente: a milícia detecta onde o capital está se manifestando — nesse caso é um capital público em parceria com empresas privadas — e, ao ficar a par da situação, manipula essa informação e passa a controlar de forma violenta o acesso a esse emprego, cobrando taxas e valores das pessoas que querem trabalhar nessas empresas. Assim esses empregados terão que repassar parte dos seus salários para os milicianos. Essa é uma novidade nesse campo no Rio de Janeiro”, informa.

Outra novidade no Rio de Janeiro é a atuação da milícia marinha, que, segundo Alves, atua a partir de informações de que o Ministério da Pesca e Aquicultura não está fornecendo licenças para pescadores. “Essa milícia aborda os pescadores no mar, quando eles estão pescando, exige a licença que o pescador não tem e passa a exigir valores semanais para permitir que o pescador possa continuar pescando. Então, surgiu na costa do Rio de Janeiro essa milícia marítima que passa a controlar os pescadores”, denuncia.

José Alves (Foto: João Vitor Santos | IHU)

José Cláudio Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo - USP. É professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ.

 
Revista IHU on line
Favela carioca | Foto: Fabritzia Piasensk

 

IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz da investigação do assassinato de Marielle e Anderson Gomes, ao longo do último ano, que culminou com a prisão de dois suspeitos de estarem envolvidos com o crime?

José Cláudio Alves – A minha avaliação em relação às apurações e investigação da polícia no caso Marielle é que elas foram muito lentas. Essa demora acaba acarretando uma série de complicações para saber se, de fato, esses são os responsáveis. A princípio parece que os dois presos foram os responsáveis, mas a pergunta que fazemos é quantas pessoas estavam envolvidas nisso e quem são os mandantes envolvidos nesse crime. Muitas questões ficaram soltas e ao longo do tempo elas não foram investigadas nem apuradas, o que gera consequências, como a morosidade da investigação, a dificuldade de ela prosseguir, de averiguar quantos outros suspeitos poderiam ser identificados no processo mas não serão. Paira a dúvida sobre se de fato não haveria indícios mais contundentes e próximos a grupos políticos que hoje ocupam espaço no âmbito federal, se não haveria ligações mais profundas, mas que com a demora da investigação acabam sendo perdidas e apagadas.

Essa demora toda nos faz refletir, mas a prisão dos suspeitos é algo importante e acaba, de outro lado, amortecendo a busca de explicações, acaba sendo uma espécie de cala boca e subterfúgio, e também acaba sendo um alívio para esse sofrimento todo, mas não vejo o processo como algo conclusivo.

 

As notícias divulgadas na imprensa dizem que as investigações do caso Marielle chegaram até o chamado Escritório do Crime, um poderoso grupo miliciano de Rio das Pedras que atua sob encomenda. O senhor tem informações sobre esse grupo?

Não tenho detalhes sobre como o Escritório do Crime atua. Sei que Rio das Pedras é uma favela histórica, muito grande, de imigração de nordestinos, que está na área da zona Oeste do Rio de Janeiro, onde a milícia tem uma presença extremamente forte. Essa é uma das áreas mais antigas, que está na base da formação das milícias no Rio de Janeiro. Por conta disso, há um controle naquela região das áreas em que é possível construir, ou seja, há um limite e uma faixa específica para a compra de terrenos e construção de casas. Esse processo é controlado pela milícia, que tem informações privilegiadas, as quais são obtidas dentro do Estado, já que são os agentes do Estado que circulam nesse âmbito. Esse é um mercado que se expandiu muito naquela região, porque trata-se de uma área onde há muita procura por moradia, porque ela é vinculada a processos migratórios, principalmente de nordestinos.

Os comerciantes daquela região iniciaram o processo de financiamento das milícias para impedir que o tráfico de drogas acessasse aquela comunidade. Logo, aquela é uma área onde a atuação da milícia é muito consolidada e movimenta muitos recursos. A busca por um dos envolvidos no Escritório do Crime, Adriano de Nóbrega, revelou que a mãe e a esposa dele trabalharam como assessoras de Flávio Bolsonaro enquanto ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. O próprio Flávio também fez várias comendas de homenagens à atuação de milicianos no estado do Rio de Janeiro. Então, há uma vinculação forte dessa milícia com a estrutura do poder político dos Bolsonaros. Tudo indica isso, haja vista a situação da esposa e da mãe do Adriano de Nóbrega, o qual parece ser uma das lideranças do Escritório do Crime.

Desde o início eu sabia que havia o “dedo da milícia” e a prática típica de execução primária de grupos de extermínio, e que isso levaria aos negócios e aos interesses econômicos de políticos que a milícia estabelece a partir daquela região, mas numa rede que é muito maior do que Rio das Pedras. Então, toda essa rede pode ter algum grau de envolvimento no assassinato de Marielle, na sua organização, na sua proteção e no seu financiamento. Demorou um ano para se dar um retorno muito pífio desse caso, que foi a prisão de duas pessoas. Essa é uma estrutura muito mais ampla e com muito mais relações, uma rede muito maior que deveria ser revelada e apresentada nesse quadro.

 

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, disse que os presos pela morte de Marielle e Anderson Gomes serão convidados a fazer delação premiada na nova fase da investigação, que quer chegar aos mandantes do crime. Nos últimos anos há uma série de debates jurídicos e políticos acerca da necessidade ou não da delação premiada na investigação de crimes. Como o senhor avalia esse tipo de medida para este caso específico para se chegar aos mandantes do crime?

Não tenho uma reflexão muito consolidada sobre o estatuto da delação premiada. O que me impressiona é que existe uma dimensão organizada do crime a partir do Estado e, portanto, parece que facilmente seria possível ter acesso ao que esses grupos fazem, como atuam de forma organizada dentro do Estado, mas o que se vê é que os que investigam e buscam a justiça estão numa ratoeira, como se tivessem que se esconder desses grupos. Ou seja, não se tem uma atuação clara, consistente e firme da conduta das investigações, e aí se buscam subterfúgios, como delações premiadas. Me impressiona muito o poder que esses grupos têm e a fragilidade da estrutura do judiciário frente a esse poder, a ponto de ele próprio se ver encurralado, em busca de delações premiadas para algo que é escancarado, que está nas ruas.

lega-se que é preciso ter uma delação premiada para poder avançar na investigação e isso virou uma possibilidade. Se os efeitos disso fossem reais e trouxessem à baila toda essa rede e fizessem uma atuação em rede a ponto de dar um baque significativo nessa estrutura e restringi-la... mas até agora não vi nada disso acontecer. Pelo contrário, cada baque que essa estrutura sofre é pequeno, o que permite a sua rápida recomposição muito facilmente.

 

Qual é o poder político das milícias que atuam no Rio de Janeiro hoje? Quem faz parte dessa estrutura?

O braço político tem se ampliado desde as últimas eleições no campo federal, principalmente, e estadual, com a eleição, se não de milicianos diretamente eleitos, de bancadas de partidos de ultradireita, partidos conservadores e partidos vinculados a uma lógica fundamentalista religiosa, permitindo a eleição de uma bancada fundamentalista, conservadora e voltada para a lógica de que “bandido bom é bandido morto”. Nesse sentido, a bancada da bala se ampliou muito no Rio de Janeiro, projetando figuras simplesmente insignificantes, ignoradas pela população daqueles que atuavam politicamente, que vieram numa onda extremamente conservadora projetadas por esse discurso do aumento da violência, aumento da execução sumária, da prática da eliminação do outro, da lógica do armamento, e tudo isso tem ampliado o poder político desses grupos.

Isso é visível no Rio de Janeiro, e os reflexos já estão sendo vistos pelo aumento do número de operações policiais com chacinas, com mortes de pessoas, o aumento de desaparecidos forçados. E o mais preocupante são as subnotificações: não está ocorrendo registro de homicídios e desaparecidos; eles não estão sendo registrados por conta da lógica do medo associada à lógica da violência crescente da instituição Estado e do aparato policial. Isso tem um efeito de repressão a todo e qualquer registro de atos violentos e perdas de direitos. A tendência é esse cenário piorar e fortalecer ainda mais esses grupos em termos políticos naquela região. Tenho dito que cinco décadas de grupos de extermínio se reverteram em 70 a 75% da votação que Bolsonaro e a extrema direita que se associou a ele obtiveram na última eleição na Baixada. Isso não é uma surpresa; foi algo construído ao longo das últimas cinco décadas, se contarmos tudo que aconteceu desde a ditadura empresarial militar no Brasil. É sob essa égide que vivemos ainda.

 

Atuação das milícias

A estrutura política e econômica das milícias no Rio de Janeiro hoje começa a ganhar vários outros contornos, que não eram perceptíveis e que agora se manifestam. Vou dar alguns exemplos. Um deles é em Itaboraí, uma cidade metropolitana do Rio de Janeiro, onde está sendo construído o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro - Comperj, cujas obras do governo federal estavam paradas e foram retomadas recentemente. Várias empresas terceirizadas estão atuando na construção da obra e a milícia está controlando quem vai trabalhar nessas empresas. Isso já é um passo à frente em relação à atuação das milícias anteriormente: a milícia detecta onde o capital está se manifestando — nesse caso é um capital público em parceria com empresas privadas — e, ao ficar a par da situação, manipula essa informação e passa a controlar de forma violenta o acesso a esse emprego, cobrando taxas e valores das pessoas que querem trabalhar nessas empresas. Assim esses empregados terão que repassar parte dos seus salários para os milicianos. Essa é uma novidade nesse campo no Rio de Janeiro.

Outra novidade é a milícia marítima, que atua a partir de informações de que o Ministério da Pesca e Aquicultura não está fornecendo licenças para pescadores há três anos ou mais. Essa milícia aborda os pescadores no mar, quando eles estão pescando, exige a licença que o pescador não tem e passa a exigir valores semanais para permitir que o pescador possa continuar pescando. Então, surgiu na costa do Rio de Janeiro essa milícia marítima que passa a controlar os pescadores.

Uma terceira forma de ampliação das milícias é o controle de serviços médicos nos hospitais públicos no Rio de Janeiro. Escutei que no Hospital Geral de Bom Sucesso, um hospital federal, a milícia controla quem acessa e quem tem direito aos serviços do hospital e cobra taxas por isso. Então, isso também é uma inovação. A venda de drogas também passou a ser utilizada pela milícia como uma forma de trabalho e atuação. A milícia não só aluga pontos de drogas para facções do tráfico, mas agora faz a própria venda da droga. Então, o leque de atuação das milícias se amplia e todo esse leque de atuação tem seu braço político.

 

Qual é a relação das milícias com o Estado?

relação das milícias com o Estado é determinante para o que ela se transformou nos dias de hoje, uma estrutura de poder absoluta, ampla, autoritária, expressiva e crescente no Rio de Janeiro. Tenho dito que a milícia atua com duas faces que são determinantes: a legal e a ilegal.

A face legal da milícia é a condição de ter acesso a informações privilegiadas do Estado a respeito de terras, propriedades, monopólios de comércios, pagamentos de impostos, sobre operações policiais que blindam a milícia de prisões; tudo isso faz parte da dimensão legal. Também faz parte dessa dimensão o fato de a polícia operar o judiciário na sua ponta com investigações, repressões, ou seja, o processo jurídico inicial envolvido na dimensão do judiciário é controlado pela polícia e seus agentes e isso dá mais poder aos milicianos.

A face ilegal, que é a face criminosa, assassina, torturadora, totalitária, obstrui qualquer tipo de contestação do seu poder que mata e executa quem se contrapõe a ela. A milícia só tem esse poder todo graças à dimensão legal das informações e dos postos que esses agentes ocupam dentro do Estado.

Assim, a face legal e a ilegal se complementam e se projetam uma na outra, criando uma estrutura totalitária, fechada, blindada, intocável. A prisão desses dois acusados é a exceção de uma regra. A regra é que membros de milícias são intocáveis, seus negócios se ampliam e eles têm dimensões crescentes desse poder e agora expressam isso a partir do assassinato de pessoas que ocupam cargos no âmbito político e que são contrárias aos seus interesses.

A meu ver a milícia tem dimensões mais poderosas e mais amplas do que eu poderia ter imaginado há algum tempo. As milícias crescem velozmente por dentro do Estado e se beneficiam dessa dupla face da mesma moeda, a face legal e a ilegal. O ilegal é o Estado. Por mais que o Estado se reconheça como legal e trabalhe com essa concepção para todos nós, o determinante aqui é a dimensão ilegal, que ultrapassa a dimensão do legal, ampliando os poderes do Estado e dando a ele uma face cada vez mais totalitária, absoluta, irresistível, incontornável e capaz de controlar massas e espaços geográficos ao longo do tempo, de uma forma como nós vivemos hoje. Essa face ilegal amplia o poder do Estado, não restringe o seu poder. Não é o anti-Estado, o poder paralelo, mas sim a presença multidimensional de um Estado autoritário, totalitário e ditatorial. Nós nunca saímos da ditadura; saímos da ditadura oficial para a ditadura dos grupos de extermínio e milícias, que é a forma que opera hoje nessas regiões e no Rio de Janeiro. Essa estrutura submete todos nós a esse controle e poder da tortura e da execução sumária.

 

Como o senhor avalia o pacote anticrime encaminhado à Câmara pelo novo governo, que aposta em três vias: combate a crimes de corrupção, combate ao tráfico de drogas e combate a crimes de violência?

pacote do Moro vai na contramão de toda a minha avaliação e de tudo que venho falando ao longo dos anos. O pacote anticrime se insere na lógica totalitária, ditatorial e autoritária da estrutura policial, que é a base de alimentação do crime organizado expresso na milícia. Moro, ao defender os princípios do próprio Bolsonaro, como o excludente de ilicitude, alega que o agente de segurança, numa condição de estresse e sem controle do ambiente e do momento em que está atuando, permite a ele o uso da violência letal, do assassinato e homicídio como forma de solução daquelas questões, eximindo aquele policial de responsabilidade.

Na verdade, isso era tudo que esses grupos apoiadores dessa estrutura política ideológica da extrema direita queriam. Eles não vão mais precisar colocar capuz para matar; vão matar como milicianos. Agora, eles podem matar de cara limpa e vão dizer que estavam no cumprimento do seu dever, sob forte tensão. Trata-se da ampliação e explosão de um processo que já está em crescimento e expansão. É isso que nos assusta, porque irá gerar dimensões mais graves e desrespeitosas dos direitos da população. Esse pacote também aumenta a punitividade, amplia a dimensão de encarceramento, amplia as penas, o que é uma grande ilusão, porque é na dimensão penitenciária que se dá a organização dessas grandes facções.

Encarcerar e prender não vai resolver o problema. Pelo contrário, hoje as facções operam pelo sistema penitenciário. É preciso fazer o contrário: desmontar essas estruturas, esvaziá-las e tratar as drogas não como problema de polícia, mas de saúde e de educação. É preciso desmilitarizar a polícia para que o policial dialogue com a população e construa uma lógica política de proteção, para que o policial não seja o agente que mais mata e que mais morre. Então, é preciso reformular a estrutura e não reforçá-la e ampliá-la. De outro lado, é preciso investir em políticas públicas que possam proteger essa população mais frágil. Não vemos isso. Vemos a perda e a destruição dos direitos dos trabalhadores. Esse pacote do Moro avança no caminho inverso do que deveria ser. Esses grupos vão se fortalecer mais ainda com essas medidas.

 

Como o senhor avalia o fato do caso Marielle ter ocupado outros espaços, chegando até mesmo ao Carnaval?

O fato de Bolsonaro ter postado imagens quase pornográficas, se referindo ao carnaval nessas dimensões, comprovam o efeito que o carnaval trouxe para o país inteiro em termos da crítica, da afronta, da insubordinação e da resistência a essa dimensão da extrema direita no poder. Bolsonaro expressa isso tentando fazer do carnaval o mesmo discurso de mentira, de dissimulação e destruição que ele fez na época da campanha eleitoral do ano passado, como ele fez com a campanha que as mulheres iniciaram do #EleNão. Ali foi feita a mesma estratégia: foram montadas fake news com imagens de mulheres nuas e em situações diferenciadas em relação à tradição moral e familiar que esses grupos defendem, para desqualificar as manifestações. Até que ponto ele vai conseguir resultados, mantendo essa estratégia? A impressão que dá é que ele está se lixando para o que a sociedade faz; ele não quer governar. Ele quer dilapidar, quer destruir, assassinar e investir em dimensões conservadoras, em perdas de direitos, em redução do papel da mulher na sociedade, na diminuição de direitos de gays, lésbicas, travestis, quer aprofundar a dimensão do racismo contra as populações negras e indígenas. Ele é uma bomba de hidrogênio de efeito devastador que elimina as divergências e oposições. Ele é a expressão disso.

Enfim, temos a milícia no poder. Ela chegou a se consolidar numa dimensão municipal, estadual e federal, numa dimensão mais crescente. É esse meu diagnóstico. Essa dimensão do que ocorre no carnaval é a expressão da resistência, a expressão aguerrida de luta popular em espaços em que o povo está para expressar a sua inconformidade com tudo que vem acontecendo.

Espero que esses espaços se ampliem na sociedade como um todo, que a verdade vença, supere esse ódio, mentira, covardia e essas execuções sumárias de um Estado totalitário e de uma sociedade que se sujeita a esse totalitarismo. Espero o retorno à consciência, à solidariedade, à lucidez, à compaixão, aos direitos e à proteção dos mais fracos, e não esse Estado dilapidado. Isso não pode ser feito com ilusões: hoje esse Estado é algoz de toda a população brasileira e a milícia é a expressão mais brutal e violenta desse torturador que está na nossa frente. Esse é o dilema que a sociedade terá que enfrentar.

 

 

17
Mar19

O POVO ACORDOU O sinal vem das ruas

Talis Andrade

O líder da Bancada do PT na Câmara, deputado Paulo Pimenta (RS), afirmou em artigo que o comportamento de Jair Bolsonaro nas redes sociais tem deixado o Brasil perplexo e que as críticas observadas contra o presidente durante o carnaval demonstram que a população começou a reagir aos desmandos, à incompetência e aos retrocessos propostos pelo governo Bolsonaro.

“O sinal vem das ruas. O povo brasileiro percebe de forma crescente o desmonte da Constituição, o ataque a direitos históricos e começa a reagir. Antes que tudo desmorone a mando de um governo irresponsável, antinacional e antipopular, é preciso reagir”.

Brasil reage aos desmandos de Bolsonaro

por Paulo Pimenta

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O Brasil está perplexo com o comportamento do presidente Jair Bolsonaro, que em vez de governar e anunciar medidas para gerar empregos e renda, prefere ficar nas redes sociais atacando as pessoas e até postando vídeo obsceno.

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O quadro piora com novas denúncias sobre o envolvimento da família Bolsonaro com milicianos do Rio de Janeiro, inclusive com os matadores da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.

O carnaval que passou deixou claras a irreverência e a crítica do povo aos esquemas do Queiroz, ao laranjal do PSL e aos desmandos e à incompetência de Bolsonaro. O tom laranja prevaleceu entre as fantasias.

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A Estação Primeira de Mangueira foi a grande campeã do Carnaval 2019 do Rio de Janeiro, conquistando seu 20º título contando a história do Brasil pela ótica dos heróis negros e indígenas. Um dos grandes destaques do desfile foi a homenagem a Marielle.

Ao condomínio de luxo onde Bolsonaro tem casa no Rio (vizinho de um PM acusado de assassinar Marielle), o bloco Eu Avisei foi e, certeiro e premonitório, cantou a marchinha de protesto: “Doutor/ Eu não me engano/ O Bolsonaro é miliciano”.

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Em Olinda (PE), bonecos gigantes do presidente e sua esposa, a primeira dama Michelle Bolsonaro, foram vaiados e alvos de uma chuva de latas jogadas pelos foliões.

O povo mostrou também em todas as regiões do País que quer a libertação de Lula, condenado de forma arbitrária e injusta por um ex-juiz que virou político.

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Nunca se viu um carnaval tão politizado, com os foliões clamando contra Bolsonaro e seu governo que, em dois meses, não conseguiu dar uma única notícia boa para o povo brasileiro.

Logo após o Carnaval, veio o 8 de Março, o Dia Internacional de Luta das Mulheres. Milhares delas foram às ruas se manifestar em defesa de seus direitos, contra o retrocesso civilizatório patrocinado por Bolsonaro. Defenderam a libertação de Lula, punição aos assassinatos de Marielle e condenaram a reforma da Previdência enviada pelo governo ao Congresso Nacional.

O sinal vem das ruas. O povo brasileiro percebe de forma crescente o desmonte da Constituição, o ataque a direitos históricos e começa a reagir. Antes que tudo desmorone a mando de um governo irresponsável, antinacional e antipopular, é preciso reagir.

Umas das principais ameaças é a Reforma da Previdência (PEC 6/2019), cruel contra o povo e covarde com os privilegiados.

As ruas no carnaval e no 8 de março deram um recado: vamos resistir, defender as conquistas históricas e derrubar a reforma da Previdência.

 

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