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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

29
Out23

"Joguei búzios para Nikolas Ferreira. Veja o que deu..."

Talis Andrade

 

No domingo 2/10 de 2023, que derrotou Bolsonaro no primeiro turno das eleições, Nikolas Ferreira obteve 1.492.047 votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O recorde nacional anterior em um pleito era de Eduardo Bolsonaro (ex-PSL, atual PL), que teve 1.814.443 votos nas eleições de 2018.

Depois do vereador mineiro, o segundo deputado federal mais votado do país é Guilherme Boulos (PSOL), em São Paulo. Com 100% das seções apuradas no Estado, ele recebeu 1.001.472 votos.

Após a confirmação da eleição do parlamentar, o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) afirmou que conta com o apoio de Nikolas para atrair eleitores mais jovens.

 

Nikolas Ferreira e Jair Bolsonaro durante uma motociata em Poços de Caldas, Minas Gerais

CRÉDITO, GETTY IMAGES. Nikolas Ferreira e Jair Bolsonaro durante uma motociata em Poços de Caldas, Minas Gerais

 

Reportagem de Julia Braun, para a BBC News, informa:

Um relatório elaborado pelo NetLab, grupo de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e intitulado 'Evangélicos nas redes' identificou o deputado eleito como um macro-influenciador que atua como um dos porta-vozes do ativismo conservador evangélico no Brasil.

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, seus conteúdos muitas vezes giram em torno daquilo que eles classificam como uma "guerra político-cultural" que tenta opor os evangélicos a políticos e apoiadores da esquerda.

Postagem no Instagram de Nikolas Ferreira

CRÉDITO, NIKOLAS FERREIRA / INSTAGRAM

 

"Esse vídeo é um alerta para abrir os nossos olhos para a guerra silenciosa que estamos vivendo", diz ele em um vídeo de março, em que fala sobre uma "doutrinação" nas escolas e universidades e cita a criação de um exército pelo que define como "o inimigo" dos cristãos. A gravação tem mais de 240 mil visualizações e 55.000 curtidas no Instagram.

A ideia falsa de que há uma ameaça de perseguição religiosa aos cristãos no Brasil também aparece com certa frequência em suas redes sociais.

Em um vídeo de fevereiro, ele cita uma "guerra contra a igreja para poder tirar a influência do cristianismo". "A esquerda brasileira só está dando os seus primeiros passos em caminho do que já está acontecendo na Argentina, no Chile e em outros diversos países", diz.

Reportagem da BBC News Brasil mostrou como aliados próximos do presidente Jair Bolsonaro têm usado esse tipo de desinformação sobre perseguição a cristãos como forma de atrair votos.

Mas segundo especialistas, o discurso em torno da cristofobia não faz sentido em um país como o Brasil, onde 86,8% da população se identifica como cristã, entre católicos e evangélicos, segundo dados do censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Post no Instagram de Nikolas Ferreira

CRÉDITO, NIKOLAS FERREIRA / INSTAGRAM. Em um vídeo de fevereiro, Nikolas cita uma "guerra contra a igreja para poder tirar a influência do cristianismo"

 

Um ranking global elaborado pela organização Portas Abertas anualmente e que alerta para a perseguição a cristãos no mundo também não inclui o Brasil na lista, já que o país é considerado livre de qualquer opressão. Leia mais

 O professor Dejalma Cremonese denuncia que Nikolas pratica intolerância religiosa: 

15
Mai23

A ascensão da narcomilícia neopentecostal no Brasil (vídeos)

Talis Andrade
Duas fotos, uma da bandeira de Israel hasteada em um grande mastro branco entre as casas do Vigário Geral, e outra da comunidade da Cidade Alta onde vê-se um luminoso de estrela de Davi no alto de uma torre de caixa d’água, em referência ao narcopentecostalismo. Fotografias: Extra / G1.
 
 

 

Traficantes, paramilitares e igrejas se unificaram em uma "guerra santa" contra grupos rivais e religiões afro-brasileiras.

ENGLISH

 

ESPAÑOL

 
por Kristina Hinz, Doriam Borges, Aline Coutinho & Thiago Cury Andries
 
Soldiers in front of a football field /Ricardo Funari

Bandeiras de Israel foram içadas nos pontos mais altos da favela Cidade Alta, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Barricadas são levantadas para conter a entrada da polícia e de grupos rivais. Nestas barricadas, o símbolo da Estrela de Davi adverte os transeuntes sobre o território em que estão entrando. Em um bunker utilizado por narcotraficantes, forças policiais encontraram munições para metralhadoras antiaéreas, coletes balísticos e uma cópia de luxo da Torá, o livro sagrado do Judaísmo.

À sombra da pandemia da Covid-19, grupos criminosos assumiram o controle de cinco favelas na periferia do Rio de Janeiro e estabeleceram o autoproclamado Complexo de Israel. Rivais históricos na disputa pelo controle territorial, narcotraficantes e paramilitares uniram forças para avançar seus negócios ilegais. O Complexo de Israel é liderado pelo chefe do tráfico Álvaro Rosa, conhecido sob o apelido de Arão – o irmão bíblico de Moisés – e ex-polícias ligados ao grupo paramilitar Escritório do Crime, um esquadrão da morte notório, considerado responsável por vários crimes, incluindo o assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018. Atualmente, o grupo exerce controle sobre pelo menos 130 mil residentes.

Os moradores da região relatam a perda da liberdade de movimento e religião, bem como a destruição de terreiros de candomblé. Pais e mães de santo foram expulsos do território. Além disso, os moradores foram proibidos de usar trajes brancos – a cor geralmente associada aos praticantes das religiões afro-brasileiras.

O estabelecimento do Complexo de Israel representa um fenômeno inédito, mesmo em um Rio de Janeiro acostumado à toda sorte de atividade criminosa: a unificação de facções de tráfico de droga, grupos paramilitares e igrejas neopentecostais, travando uma "guerra santa" não só contra grupos criminosos rivais, mas também contra as religiões afro-brasileiras.

O tráfico de drogas e as religiões afro-brasileiras

Caracterizadas pelo abandono do Estado e pela pobreza crônica, grupos armados se estabeleceram nas favelas e periferias urbanas do Rio desde a década de 1980, reivindicando a maior parte dos seus rendimentos através do narcotráfico. Controlando acima de 50% das áreas mais violentas da cidade em 2005, o Comando Vermelho representa há muito tempo o grupo com maior poder no narcotráfico do Rio de Janeiro.

A abundante presença evangélica em estabelecimentos penitenciários tem se traduzido na conversão de traficantes

Durante as décadas de 1980 e 1990, os traficantes se identificaram principalmente com as religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, cujos locais de culto eram amplamente disponíveis nos seus territórios ocupados. Muitas vezes, os traficantes expressaram sua fé através da construção de altares e grafites dedicados às divindades afro-brasileiras.

Desde os anos 1980, grandes operações policiais foram realizadas nas favelas ocupadas por grupos de tráfico. Dada a ligação bem estabelecida entre o narcotráfico e as religiosidade afro-brasileiras, muitas dessas operações policiais foram acompanhadas por uma conversão simbólica, substituindo os símbolos religiosos afro-brasileiros e os lugares de adoração com expressões de fé cristã-evangélicas. As igrejas evangélicas têm expandido significativamente sua influência desde o final dos anos 90, formando uma rede religiosa e que promove uma "guerra contra o mal", ancorado principalmente nas periferias. Apenas entre 2000 e 2010, o número de evangélicos aumentou mais de 60% no país.

 

 

 

 

 

28
Fev23

“Não é sobre o Brasil, é sobre o mundo”: musical alemão sobre violência policial no Rio na Berlinale 2023

Talis Andrade
 
 
 
Ash Wednesday 2023 | Eventlas
 

O curta-metragem “Ash Wednesday”, uma produção alemã de alma brasileira, estreou na mostra Perspektive Deutsches Kino da 73ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Os diretores deste autêntico musical sobre violência policial, João Pedro Prado e Bárbara Santos, conversaram com a RFI na capital alemã.

 

 por Daniela Franco /RFI

A trama de “Ash Wednesday” (“Quarta-feira”, título em português) gira em torno da personagem Demétria, uma mulher negra, mãe solteira, que mora em uma favela no Rio de Janeiro. Ela aguarda a filha, Cora, voltar da escola quando se inicia uma operação policial no local.

A partir daí, Demétria é impedida de sair de casa. Bloqueada e desesperada, tenta argumentar com três personagens masculinos – o policial, o pastor e o governador – que se sentem no direito de invadir o espaço pessoal da personagem como bem entendem.

Segundo João, o objetivo era, por meio de um cenário de violência policial em uma comunidade do Rio, contar uma história épica. “Parte do filme é baseado no mito grego de Deméter e Perséfone, que contado na Antiguidade através de Romero, eram hinos. Afinal, existe algo muito forte nessa história de uma mulher que enfrenta os deuses que querem definir o destino dela e da filha, que é aquilo que a gente vê na nossa protagonista que enfrenta homens que se julgam ser deuses”, explicam.

Machismo, racismo, desigualdade social, violência policial – uma realidade comum e banalizada – que ganha uma perspectiva ainda mais impactante por meio do gênero musical. “A gente pensou em uma forma de contar essa história que não fosse realista, afinal, é impossível ser fidedigno à realidade do Rio de Janeiro, que é muito absurda. Tínhamos certeza de que não daria para contar como é de verdade, só através de um documentário. Não queríamos competir com o absurdo da realidade e o musical dá esse distanciamento”, ressalta Bárbara.

Segundo a cineasta, utilizando esse formato, o espectador é convidado a refletir sobre a complexidade da trama apresentada como um musical e não como um documentário. “O nosso maior objetivo era não banalizar essa história, era não normalizá-la. Às vezes, há filmes em que a violência é a grande estrela. Mas a gente não queria que no nosso filme a violência fosse a protagonista”, sublinha.

 

Reconstrução de um universo típico brasileiro

 

Com atores brasileiros, cantado em português, e reconstituindo um cenário típico do Brasil, “Ash Wednesday” foi inteiramente filmado em Potsdam, na Alemanha, um desafio que os dois cineastas se deram. “A gente contou com uma equipe extraordinária que tornou tudo isso possível. Fazer isso acontecer é algo que supera a nossa capacidade como diretores”, diz João. “O filme foi uma grande mistura intercultural e internacional de pessoas que trouxeram visões e experiências completamente diferentes para fazer o projeto se tornar realidade”, completa.

O cineasta não esconde o orgulho ao falar sobre sua equipe de música, que embora não conte com nenhum brasileiro, soube captar com maestria a essência do enredo. As composições vieram de um grupo formado por três alemães, uma croata e um argentino.

“Eles tiveram a tarefa de compor um funk carioca, uma percussão próxima do candomblé e da umbanda, um samba: gêneros musicais tipicamente brasileiros, com os quais eles nunca tinham trabalhado antes, mas eles estavam tão abertos a aprender, a nos ouvir e a pesquisar, que no final virou uma mistura nem só brasileira, nem alemã, mas algo muito único”.

Uma universalidade que tem relação com o tema do filme que, como lembra Bárbara, “não é só sobre o Brasil”. “É importante que a gente esteja consciente de que se trata de um problema do mundo. O avanço da direita, a normalização da violência, o sexismo e o patriarcado são problemas do mundo. Então, a gente não está só falando do Brasil, a gente está falando do mundo através dessa história particular”, enfatiza.

Por isso, segundo os dois diretores, o filme não terá dificuldade de alcançar o público da Berlinale. João lembra que o filme foi escolhido para competir na mostra Perspektive Deutsches Kino, dedicada a produções alemãs no Festival de Berlim, o que demonstra que o trabalho sensibilizou um comitê internacional.

Mas a expectativa de compartilhar o trabalho com o público brasileiro também é grande. “A gente tem visto que além de ter esse alcance intelectual de entender os conflitos que estão sendo mostrados, existe um apelo emocional muito forte. Pessoas do Rio e nossos amigos pretos que assistiram ao filme foram tocados de forma muito inesperada. Há referências que pessoas do Brasil e do Rio vão notar, mas o público alemão não necessariamente, então acreditamos que o filme ainda vai tocar em lugares mais profundos”, conclui João. 

05
Fev23

Necropolítica e racismo

Talis Andrade
 
 

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Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado

 

por Luiz Marques

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Achille Mbembe é um filósofo camaronês que, no início do século XXI, publicou um pequeno ensaio em inglês intitulado Necropolitics. Traduzido para o português, em 2018, soma mais de uma dezena de reimpressões. Virou um grande best-seller do pensamento. Necropolítica discute o atributo fundamental da soberania: “exercer o controle sobre a mortalidade e definir a vida como implantação e manifestação de poder”. A definição corresponde ao que Michael Foucault denomina de biopoder, em Nascimento da biopolítica (Collège de France, 1978-1979).

A preocupação do pensador africano é com “a instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações”. A ascensão da extrema-direita em escala internacional acendeu o alerta. O neofascismo reenergizou a oposição amigo / inimigo, na política, para justificar o Estado de exceção e conferir ao poder instituído a decisão sobre a vida e a morte dos indivíduos. No Ocidente, o racismo étnico foi o instrumento, por excelência, criado para a eliminação da alteridade; mais inclusive do que a perspectiva de classe social.

Na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Neste sentido, os relatos históricos sobre a necropolítica precisam reinserir na agenda crítica a escravidão, “que pode ser considerada uma das primeiras manifestações da experimentação biopolítica”. Se o sistema de plantation serviu para modelar o Estado de exceção moderno, as perdas que abateram os escravos incubaram apátridas, sem direitos sobre o seu corpo ou à existência social (desumanização). Perdas maiores que a simples mais-valia.

Michel Foucault localiza as origens do terror no mecanismo das formações sociais e políticas da Europa, branca e cristã: a subjugação corporal, as regulamentações médicas, o darwinismo social, as políticas de eugenia, as teorias médico-legais sobre hereditariedade, a degeneração e a raça. Mas foram a plantation e a colônia que concentraram o imaginário de horror, que incitou a máquina de moer carne dos campos de extermínio e gulags, dos anos 1930-40. Ambientes em que a ideia do Estado baseado no princípio de organização racional e em ideais universais, como símbolos de uma moralidade, caíram por terra. Em zonas assim conflagradas, a guerra e a desordem postam-se lado a lado, suspendendo as garantias de ordem judicial e constitucional. Em tais circunstâncias, a brutal truculência dos longos hiatos excepcionais operou a serviço da “civilização”.

Para o conquistador, “vida selvagem” equivale à “vida animal”, uma vivência além da imaginação e da compreensão. Do ponto de vista do imperialismo colonial, o alterego é um elemento natural, inumano, a ser subjugado e domesticado. Massacres não geram o sentimento de crime. Conflitos não estão submetidos às normas legais e institucionais. A cidade dos colonizados é má, tem fome, miséria. O locus colonizado é uma favela ajoelhada, disciplinada com ferros.

As beligerâncias pós-modernas são diferentes. Não incluem a conquista e a gerência territorial. Destroem, sem a necessidade de olhar o inimigo nos olhos. A Guerra do Golfo lembrou um jogo de videogame. Bombas inteligentes, sensores eletrônicos, mísseis guiados a laser, veículos aéreos não tripulados, ciberinteligência liquidavam os esboços de reação do inimigo. Em Kosovo, a guerra teve um caráter infraestrutural, destruiu pontes, ferrovias, rodovias, redes de comunicação, armazéns e depósitos de petróleo, centrais termoelétricas, centrais elétricas e instalações de tratamento de água. A estratégia visou o aniquilamento da alternativa de sobrevivência. Ouse e verá.

Os estragos na vida civil foram tremendos. Quando a explosão de uma petroquímica contaminou os arredores de Belgrado, recomendou-se às mulheres o aborto e que não engravidassem por dois anos. Na África, os aparelhos de Estado já não possuem o weberiano “monopólio da violência”. Grupos privados formam e armam exércitos poderosos de extermínio, com os recursos extrativistas de minerais para a compra de armamentos pesados, letais. Crianças viram soldados, mutilados vagam como zumbis, os êxodos levam a zoneamentos prisionais e ao sofrimento.

A ausência de liberdade e a iminência da morte física é o traço comum entre os sobreviventes, nos Estados escravistas e nas ocupações coloniais. A brutalidade pretende fazer da dor infligida um meio de submissão incondicional. Fenômeno que não pertence ao passado, pertence ao presente construído com a lógica colonialista da dominação e subordinação. A “duração” entrelaça o ontem ao hoje com a linha de continuidade da necropolítica, às vezes imperceptível. Como se fosse um raio no céu azul, uma excepcionalidade. A rigor, trata-se do continuum. Em sociedades marcadas pela longa travessia escravista, todas as relações sociais reproduzem a chaga da intolerância e do preconceito que “roubou a alma até dos proprietários de escravos”, conforme diziam ilustres abolicionistas em priscas eras. Empregadas domésticas sabem-no de cor.

Apesar do processo de desumanização metódica e sistemática, escravizados no Brasil por 350 anos erguem-se das ruínas, onde os significantes se mantiveram entre destroços para desenvolver suas capacidades polimorfas, com a música e a dança. Pareciam despojados de Eros para sempre, porém reinventaram novos significados para existir. A “territorialização” da colônia à margem da lei não logrou acabar com a resiliência dos subalternizados. Oprimiu; não venceu.

A memória de detalhes das lutas e revoltas ancestrais impulsiona, não a fantasia do regresso a uma ilusão sem pé nem cabeça na verità effettuale della cosa, e sim a esperança no futuro. A resistência reside no candomblé, na umbanda, nas comidas que formataram uma identidade brasileira, nos quilombolas, no sincretismo para manter vivo o interditado. Cotas étnico-raciais em universidades públicas agilizaram a reparação, que era devida aos vitimizados por séculos, e acionaram políticas públicas em Conferências Nacionais sob os governos progressistas (2003-2016). Nenhum outro programa promoveu tamanha e impressionante mobilidade social. Filhas e filhos de diaristas e frentistas puderam então frequentar o ensino superior, tornar-se doutores.

O biopoder, a necropolítica e o Estado de exceção rondam o mapa-múndi, o que dá a perfeita dimensão da vitória de Lula à presidência da nação. O resultado impactou e bloqueou o crescimento da extrema-direita, internacionalmente. A política voltou ao prumo de cidadania, com os valores da liberdade, igualdade e solidariedade. Nas delegacias de polícia ainda ecoam torturas e violações dos direitos humanos. Ainda se morre asfixiado no porta-malas da SUV de agentes rodoviários, por estar sem capacete, ou na saída de um supermercado espancado por seguranças racializados pelo racismo estrutural, porque se é preto. Mas a indignação no peito sai às ruas. O nível de consciência, cresceu e o ânimo organizativo se fortaleceu. “Vidas negras importam”.

A luta de classes no país está ligada à emancipação da canga do colonialismo (racismo). As relações de trabalho e raça, juntamente com a questão de gênero, tecem uma totalidade que a astúcia política se encarrega de classificar e ordenar, sem apriorismos teóricos. Nem tudo se resolve na teoria; muito se resolve na prática, no movimento, sem manual de instrução. O mérito de Achille Mbembe é pôr o dedo na ferida narcísica da história mundial do supremacismo caucasiano. A necropolítica e o racismo são âncoras que nos prendem aos piores pesadelos. Içar âncoras!

 
 
 
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20
Jan23

Para o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Talis Andrade

 

 

No sábado 21 de janeiro, temos o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Então a hora é boa de cantar o Terreiro do Pai Adão, sobre o qual escrevi no Dicionário Amoroso do Recife.

 

Xangô, Terreiro de Pai Adão *

 

Não estranhem que usemos xangô em lugar do nome candomblé, porque em Pernambuco é assim. O dicionário Houaiss registra que Xangô é 1. orixá iorubá dado como o quarto rei (lendário) de Oyo, na Nigéria, cuja epifania são os raios e os trovões; 2. culto afro-brasileiro que constitui uma alteração do padrão litúrgico nagô, adaptado por diversos grupos étnicos conviventes no Nordeste do Brasil.

Mas curvado aos fatos da língua, pois assim são os bons dicionários, Houaiss define que Xangô também é, da Paraíba até Sergipe, o “local onde se realiza esse culto; Terreiro”. É o nosso caso, neste em especial, da Estrada Velha de Água Fria, 1644 – Recife. Ali reside e resiste há 148 anos o mais antigo xangô de Pernambuco.

Nesse particular de xangô, o mestre é o maestro José Amaro Santos da Silva, que sobre o Terreiro de Pai Adão escreveu no livro Memórias de Água Fria:

“O xangô mais tradicional de Água Fria sempre foi o Terreiro do Pai Adão, na Estrada Velha de Água Fria, próximo a onde tinha o Chapéu de Sol e depois o cinema Império”. Fundado por Iyá Tinukê, tia Inês, uma mulher negra africana que adquiriu aquele espaço terra, que, além do Terreiro onde ainda hoje se fazem os toques de candomblé, fez construir anexa uma capelinha consagrada a Santa Inês. Foi sucedida por Adão. Mais tarde, o antropólogo Renê Ribeiro chegou a dizer e tentar validar que todos os Terreiros surgidos naquelas redondezas não passavam de satélites daquele daquela casa matriz.

Quando menino, nas brincadeiras de rua, alguns outros brincantes que acompanhavam os toques nos terreiros de candomblé, ou de xangô, como sempre foi chamado, estavam sempre a lembrar cânticos que ouviam nos salões, e cantavam brincando: Ogum da guerra, guerria-ê, Ogum da Guerra, guerria-ô. E ainda: Oraiêiê, bebé shoró. Oraiêiê, bebé shoró. Shorô pai, shorô mãe, bebé shorou-ô”.

Na infância, eu me lembro do fascínio do Terreiro de Pai Adão. Nos raros momentos em que o espionávamos — sim, o termo é este, espionar, porque havia nele algo de clandestino, pois era de maldição e de inferno o culto dos negros, como nos doutrinavam os padres e pastores —, lembro primeiro das luzes na noite, das saias largas, axó, voluptuosas das filhas de santo. E tudo envolvido no profundo e sensorial dos toques divinos dos tambores, tão sagrados, tão tentadores, que soavam a beleza como coisa do satanás. Penso que o cinema, com a sua arte onde se misturam imagem, som, cores e personagens, jamais conseguirá reproduzir, que digo, jamais conseguirá uma vizinhança do encanto, encantação daquelas noites furtivas, em que nos metíamos entre os assistentes da manifestação que diziam ser demoníaca. Ali se fuma erva, nos diziam.

É preciso ser menino, é preciso ter passado pela repressão de cultura e de religião da época, é preciso saber que todo o bom da vida era proibido, que o magnífico, por ir além do medíocre, era vetado, porque se tratava sempre de um trato não escrito com as profundezas do mal, ou de um acordo com o seu mais ilustre representante. É preciso esse mais que cinema para compreender os olhos esbugalhados da infância que bebiam uma noite de toque no Terreiro de Pai Adão. E de tal modo é permanente essa marca e feitiço, que na entrevista com Iá Luiza, em 2014, eu lhe perguntei se todos os dias eram de celebração e festa dos santos. Ela me respondeu, para meu maior desapontamento, que as comemorações eram quatro por ano. “Mas não é nem todo fim de semana?”, perguntei. “Naaão”, ela me respondeu. E o menino persistente apenas resmungou, “interessante”, para não cair em um silêncio absurdo.

Na enciclopédia digital se informa que a história do Sítio, o Terreiro de Pai Adão “começa por volta de 1875, com a chegada ao Brasil da africana Inês Joaquina da Costa (Ifá Tinuké) também chamada de Tia Inês, que morreu em 1905. Foi a fundadora do atual Sitio de Pai Adão, no Sítio de Água Fria, no Recife. É a mais antiga casa de culto Nagô de Pernambuco e uma das mais venerandas do Brasil, considerada uma das matrizes da nação de culto afro-brasileiro Nagô…

O sítio ainda preserva em seu espaço físico um baobá com mais de um século de existência e com mais de 10m de diâmetro, raro no Brasil por ser mais comumente encontradas espécimes desse porte nos locais de onde são nativas, na ilha de Madagascar (o maior centro de diversidade, com seis espécies), no continente africano e na Austrália (com uma espécie em cada)”.

Leia também: Brasil passa a ter dia para celebrar tradições africanas e candomblé

Mas nessa informação do baobá a Wikipédia comete um forte engano. Apesar da semelhança, grosso modo de olhar essa árvore somente pela altura e tronco, não é um baobá, é uma gameleira, há mais de 138 anos no Terreiro de Pai Adão. Acreditamos que erros assim possuem uma razão mais funda, muito além e distante de uma falha acadêmica. Como sempre ocorre com as manifestações populares, que ou não têm intelectuais nascidos no seu meio, ou quando os têm, mal falam da sua gente, porque se encontram mortos de vergonha da origem e querem ser aceitos pelo chamado mundo erudito, aqui também, no Terreiro de Pai Adão, falta uma história sistematizada, diria mesmo, até arqueológica, de recuperação do que foi coberto e enterrado. Uma história sem fronteiras com a literatura, que pesquise os registros indiretos do Terreiro até em notícias das páginas policiais, quando os pais de santo eram presos.

Para este dicionário, tive uma conversa, entre receosa e desconfiada com a Ialorixá Luiza. Receio e desconfiança de Iá Luiza, o que era natural, pois ela nunca me havia visto antes, e desci, baixei de repente à sua casa numa noite de segunda-feira de 2014. Pensei em escrever que ela me prestou um depoimento, mas isso ainda é falso, porque apenas anotei aqui e ali algumas frases da Ialorixá, que saíam a custo. E não poucas vezes ela recriminou a profunda ignorância deste estranho sobre as coisas sagradas do terreiro. Por exemplo, a dificuldade de entender a descendência e os seus laços com o mais famoso pai de santo, porque ela é viúva do neto de Pai Adão. Entender a sua vitalidade, pois ela estava com mais de 85 anos, sorrindo diante de algumas perguntas, para dizer o mínimo, bastante óbvias. Ela sorria à beira da gargalhada, de tal modo que difícil era o intruso acreditar na data do seu nascimento, em 24 de outubro de 1928.

Da conversa com ela, anotei a frase “eu sei ler, tenho caligrafia e tenho ortografia”. Bonito. Mas o mais grato foi saber da existência de uma corrente de solidariedade entre todos os moradores do Sítio, uma comunidade de 66 pessoas, com laços que se cruzam em parentes de sangue ou afinidade. Quando Iá Luzia enviuvou, não lhe deixaram faltar nada, ela me falou. Se adoecer, todos correm para o socorro urgente. No Terreiro existe uma defesa mútua e sólida, que não conheço em outros aglomerados ou vizinhanças. A vontade que deixa na gente é de um dia pertencer à comunidade. No momento mesmo da conversa, pude sentir a vigilância que mantinham sobre este estranho, numa guarda que não aparece, mas se espalha onipresente. A idosa Iá, que não é velhinha, estava amparada.

O Babalorixá atual é Manoel do Nascimento Costa, mais conhecido como Manoel Papai. Eu já havia conversado com Papai em outra oportunidade, no tempo em que ele brigava para que fosse reconhecido o Terreiro de Pai Adão como um templo religioso, e assim merecer a isenção do IPTU, como acontece com outras religiões. Naquela ocasião, ele também me espantou de outra maneira. Papai falava com naturalidade sobre as coisas do espírito, sobre a crença no sagrado, no mesmo campo e tempo em que discorria sobre o direito terreno do Sítio. Sereno e culto, sem afobação.

Desta última vez, com Iá Luzia a maior surpresa foi a revelação no fim da nossa conversa. Então eu soube que ela, mãe de santo, nunca se manifestou no terreiro. Isso quer dizer, ela nunca deu mostras de estar possuída por um santo, com o corpo em transe. No entanto, o quanto e como ela me olhava sem piscar, atenta e penetrante. Agora ao terminar o verbete Xangô é que percebo, o santo de Iá Luiza é ler a gente nos olhos. E da leitura concluir que não havia maldade nas perguntas de um ignorante.

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

*Publicado originalmente no Dicionário Amoroso do Recife   

 

26
Ago22

A pregação do ódio religioso é o principal ingrediente da campanha presidencial

Talis Andrade

 

Abusando da intolerância para impor sua fé e ajudar a reeleger o marido, a primeira-dama Michelle demoniza a disputa eleitoral, adota discurso de ódio contra religiões de matriz africana e rebaixa o debate político a uma luta do bem contra o mal

 

 

Nunca houve um casal presidencial no Brasil que quisesse impor sua fé de maneira tão agressiva e afrontosa como Jair e Michelle Bolsonaro. Pisoteando as religiões afrobrasileiras, contrariando uma tradição nacional de ecumenismo e de não interferência do governo em assuntos de crença e inundando de misticismo e irracionalidade o debate político, o presidente e a primeira-dama intensificaram nas últimas semanas uma ofensiva messiânica para tentar virar a eleição. Fazem isso ao arrepio da lei, frequentemente com cultos dentro do Palácio do Planalto, ignorando o preceito constitucional de que o Estado é laico e com o objetivo de conquistar eleitores evangélicos. Realizam um movimento apelativo para atrair mais apoio de pentecostais e neopentecostais, com foco prioritário nas mulheres, o eleitorado que mais rejeita Bolsonaro, o que Michelle tenta remediar com aparições fervorosas. Sempre que pode, ela trata de vincular o principal adversário do marido, Lula, a forças demoníacas e de atacar a umbanda e o candomblé de forma gratuita, preconceituosa e com conotações racistas.

FUNDAMENTALISMO Para reforçar seus laços com os evangélicos, Bolsonaro foi batizado em 2016, no Rio Jordão, pelo pastor Everaldo: encenação política (Crédito:Divulgação)

 

Diante disso, a campanha eleitoral começou como uma verdadeira guerra santa, fruto de puro oportunismo político e com graves manifestações de intolerância, que podem levar à violência. Ainda que os alvos prioritários sejam religiões de matriz africana, cria-se um clima favorável à propagação do ódio que atinge outros credos e ideologias. O presidente manipula questões de fé desde o início do governo e agora promove uma radicalização e uma amplificação desse discurso enviezado por meio de Michelle. Um episódio recente ilustra a estratégia. A primeira-dama divulgou um vídeo em que Lula recebe um banho de pipoca de uma religiosa do candomblé e aproveitou para destilar preconceito. “Lula já entregou a sua alma para vencer essa eleição. Não lutamos contra a carne e o sangue, mas contra os principados e as potestades das trevas. O cristão tem que ter a coragem de falar de política hoje para não ser proibido de falar de Jesus amanhã”, escreveu em sua conta no Twitter. Antes disso, no dia 7 de agosto, ela discursou na Igreja Batista Lagoinha, em Belo Horizonte, e disse que o Planalto era “consagrado a demônios e hoje é consagrado ao senhor Jesus”.

SINCRETISMO Lula toma banho de pipoca de uma religiosa do candomblé: Michelle disse que o oponente entregou sua alma para o “principado das trevas” (Crédito:Divulgação)

 

“André Mendonça, nosso irmão em Cristo e, agora, ministro do Superior Tribunal Federal.
O nosso Deus é justo e fiel, cumpriu o que prometeu”  

Michelle comemora aprovação de Mendonça para ministro do Supremo Tribunal Federal (4 de dezembro de 2021)

 

Na terça-feira, 16, a religião virou um tema central do lançamento das campanhas de Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Ambos trataram do assunto, tentando demonizar um ao outro, entrando numa espiral de insanidade que deve crescer até outubro. Os dois falaram de Deus e dos demônios. Não por acaso, desde o final de março, na pré-campanha, Bolsonaro tratou de priorizar os evangélicos nos seus atos. Até o dia 16 de agosto participou de 36 compromissos com representantes desse grupo, incluindo reuniões com lideranças religiosas no Planalto, cultos e marchas para Jesus. Em Juiz de Fora, onde tomou a facada em 2018, Bolsonaro abriu a corrida eleitoral em um encontro com pastores no aeroclube local, falou no milagre da sua eleição e afirmou que o Brasil marchava para o socialismo. Depois, em discurso para apoiadores, voltou a explorar a religião insinuando que o ex-presidente Lula é um candidato não cristão e que cristão não vota na esquerda. “Vamos falar de política hoje, sim, para que amanhã ninguém nos proíba de acreditar em Deus”, acrescentou. O grande destaque, porém, foi a primeira-dama. Após aparecer em cena no evento principal, ela foi ovacionada. Bolsonaro tentou começar o seu discurso, mas foi obrigado a interrompê-lo. “A pessoa mais importante neste momento não é o presidente ou o candidato. É a senhora Michelle Bolsonaro”, afirmou.

 

“Nós estamos aqui para cumprir uma missão que Deus me chamou, Deus é o senhor e nós declarando que o Brasil é dele, aleluia” 

Michelle Bolsonaro, em discurso durante a Marcha para Jesus em Balneário Camboriú (SC), no dia 2 de julho

 

Lula, no lançamento de sua campanha, na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP), acusou Bolsonaro de tentar manipular os evangélicos e chamou o mandatário de “presidente fajuto” e “genocida”. “Ele é um fariseu e está tentando manipular a boa-fé de homens e mulheres evangélicos que vão à igreja tratar da sua espiritualidade. Eles ficam tentando contar mentira o tempo inteiro”, disse Lula. “Se tem alguém que é possuído pelo demônio é esse Bolsonaro”, completou, cometendo o grave erro de entrar no jogo sujo do adversário e se envolver com uma questão mistificadora. Seja como for, a situação mostra que o petista sentiu o baque. A entrada de Michelle em cena, embora tenha reforçado o discurso de ódio, causou efeitos positivos para Bolsonaro, aumentando sua popularidade junto ao eleitorado evangélico e entre as mulheres.

 

“Nós aprendemos a amar o nosso Brasil. Uma terra santa, uma terra escolhida por Deus. E Deus tem promessas para o Brasil. Ele é um escolhido de Deus” 

Michelle Bolsonaro, no lançamento da chapa Bolsonaro-Braga Netto no dia 24 de julho

Uma pesquisa PoderData realizada entre os dias 14 e 16 de agosto mostra que Bolsonaro tem 52% das intenções de voto nesse eleitorado, enquanto Lula fica com 31%. Outro levantamento da Genial/Quaest divulgado quarta-feira, 17, mostrou que Bolsonaro abriu 24 pontos entre os evangélicos em relação ao adversário, crescendo muito nas últimas duas semanas e indicando que a guerra santa vem dando resultados. Em março, a diferença entre eles era só de um ponto percentual. O presidente tem agora 52% das intenções, ante 28% do petista. A população evangélica não é majoritária, mas é fundamental. Gira em torno de 65 milhões de pessoas, entre 30% e 32% dos brasileiros. Os católicos são maioria: 50%, ou 105 milhões de indivíduos. E, nesse grupo, Lula leva vantagem. Por isso, Bolsonaro já programa visitas ao Santuário de Aparecida (SP) e ao Cristo Redentor, no Rio.

 

Ataques a terreiros

 

Segundo o IBGE, cerca de 2% da população brasileira segue religiões de matriz africana. É uma minoria que sofre perseguição e preconceito religioso. Ataques a terreiros são frequentes e atitudes como a da primeira-dama só contribuem para piorar a situação. Em 2021, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, foram registradas mais de 300 denúncias de ofensas à liberdade de crença contra seguidores da umbanda e do candomblé.

Religiosos bolsonaristas têm espalhado que se a esquerda vencer, fechará igrejas. É uma fake news que tem se disseminado em São Paulo com a contribuição do deputado e pastor Marco Feliciano (PL), que admite fazer essa pregação para alertar fiéis. Bolsonaro tem repetido também que cristãos não votam na esquerda e que o Brasil enfrenta problemas espirituais. Ao mesmo tempo, usa descaradamente a máquina pública para conquistar apoio religioso. Numa medida escancarada para favorecer evangélicos, a Receita Federal decidiu ampliar a isenção de contribuições previdenciárias sobre a remuneração de pastores. Sem contar que houve o aparelhamento do governo e uma constante ameaça nos últimos quatro anos à laicidade do Estado. O caso mais escandaloso foi o do Ministério da Educação, onde o pastor Milton Ribeiro comandava uma estrutura paralela de desvio de verbas. O fervor religioso de Bolsonaro é recente, cresceu com o interesse político. Ele é católico, mas foi batizado em 2016 pelo pastor Everaldo no Rio Jordão, em Israel. Foi um lance de oportunismo para se aproximar dos evangélicos. Everaldo, na época presidente do PSC, acabou preso em 2020 por suspeita de corrupção.

COVARDIA Ataques a seguidores da umbanda e do candomblé cresceram nos últimos tempos: preconceito do casal Bolsonaro contra religiões de matriz africana (Crédito:Valter Campanato/Agência Brasil)

Embate espiritual

 

“Ao associar as religiões africanas com o demônio, a primeira-dama mostra uma grande ignorância, trabalha com a ideia racista de jogar o conjunto da sociedade contra as práticas culturais e espirituais que vêm da África”, diz o babalaô Ivanir dos Santos, professor do programa de pós-graduação em História Comparada da UFRJ. As afirmações de Michelle também foram questionadas pela Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns, que, em nota, afirmou que “a primeira-dama repete antiga prática excludente, beligerante e preconceituosa, com o intuito de demonizar o inimigo, estimulando a violência”. “Essa mesma estratégia foi utilizada no passado para legitimar perseguições religiosas destrutivas e promotoras de mortes”, conclui a nota.

Para o cientista político Vinicius do Valle, um dos diretores do Observatório Evangélico, organização que difunde conhecimento sobre assuntos religiosos, Michelle pôs a relação entre política e religião em um patamar inédito no Brasil. “Quando se cria um ambiente de demonização do outro e o transforma num mal absoluto, a gente rompe com os marcos democráticos”, afirma. “A gente tem a construção de um oponente que precisa ser eliminado porque é do mal.” Para o cientista, não existe dialogo possível ou negociação quando se transforma o oponente na personificação do mal. Para Valle, os episódios recentes envolvendo a primeira-dama representam um salto em relação ao passado, na medida em que o candidato “ungido” se transforma num combatente de infiéis. “O que Michelle fez foi inédito. Não se tratou de um político convidado para um culto mas um político conduzindo um encontro religioso”, afirma. O que se vê é a disputa política sendo transferida para uma luta espiritual, com a ultrapassagem das fronteiras do Estado laico e com o corpo burocrático sendo invadido por questões religiosas. “A gente tem que ver caso a caso. Existem mensagens religiosas aceitáveis na disputa democráticas e outras não, que só transmitem violência política e intolerância”, diz Valle. “Nos últimos anos a gente vê o aumento da hostilização a pessoas que frequentam terreiros, esses espaços sendo invadidos e pais de santo expulsos de lugares. Isso acaba sendo muito estimulado no atual contexto.”

Para a cientista política Helcimara Telles, professora da UFMG e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), a participação mais efetiva de Michelle na campanha é pura estratégia. “A entrada dela como missionária retoma com muita força o discurso messiânico já adotado em 2018 de que Bolsonaro seria o ‘enviado de Deus’”, diz. “Essas pessoas se deixam levar pela ideia de que ele seria o próprio Messias, que tem o poder absoluto e portanto pode atacar o STF e outras instituições, ou ainda Moisés, o ‘escolhido de Deus para guiar o rebanho’”, explica. “Há toda uma construção simbólica baseada da Teologia do Domínio, que fala da luta do ‘bem’ contra o ‘mal’. E o papel da Michelle é se apresentar como ‘mulher virtuosa’ e o tempo todo reafirmar o ‘divino’. Isso explica aquele ritual de ‘purificação’ de ‘demônios’ no Planalto.”

REAÇÃO Lula abriu sua campanha eleitoral tentando contemporizar com os evangélicos e chamando Bolsonaro de “fariseu” e “demônio” (Crédito: ANDRE RIBEIRO)

 

“Essa campanha, mais uma vez, é um milagre de Deus. Nossa nação tão amada por Deus está nas mãos dos nossos inimigos”  

Michelle Bolsonaro, no primeiro comício após a oficialização do candidatura de Bolsonaro, em Juiz de Fora (MG), dia 16

 

O crescimento da intolerância também afeta outras religiões. A violência sofrida pelos públicos dos terreiros é também chamada de racismo religioso porque mais do que a religiosidade, o alvo dos ataques é todo o legado cultural africano e o povo que o carrega. É algo análogo ao que acontece com os judeus e o antissemitismo. A intolerância acaba estimulando perseguições e comportamentos violentos. Nos últimos dois anos foram registrados pela mídia e redes sociais 104 acontecimentos antissemitas no Brasil, segundo base de dados que faz parte do relatório “O antissemitismo durante o governo Bolsonaro”. Assinado por quatro acadêmicos brasileiros com longo monitoramento da intolerância religiosa no País, o documento revela que houve um episódio de intolerância por semana nos últimos dois anos. “Mas a questão é que a maioria dos atos passa batido, e eles acontecem corriqueiramente no ônibus ou no trabalho”, diz Jean Goldenbaum. O preconceito religioso e a intolerância são insidiosos e se espalham como uma doença. A própria primeira-dama deveria saber. Ela já sofreu preconceito, após aprovação do ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça para o STF, no ano passado, quando orou em línguas, uma expressão da fé pentecostal, e foi alvo de comentários pejorativos. O que ela e o marido fazem com os adversários agora é algo parecido. Demonizam os oponentes numa tentativa de impulsionar o ódio social. E favorecem um jogo de mentiras que manipula e religião e conspurca a discussão política.

 

“Nós declaramos que o Brasil é do senhor. Não estamos lutando contra homens e mulheres. Estamos lutando contra espíritos do mal”  Michelle Bolsonaro, em discurso durante ato político-religioso, em Vitória (ES), no dia 23 de julho

A ameaça dos radicais
Ataque a escritor mostra efeitos da cultura do ódio

COVARDIA Salman Rushdie foi atacado por um fanático (Crédito:ULF ANDERSEN)

 

O ataque ao escritor britânico de origem indiana Salmon Rushdie em um evento literário na cidade de Chautaugua, no estado de Nova York, é um exemplo terrível das consequências da intolerância religiosa e do tipo de violência que ela gera. Rushdie foi esfaqueado no pescoço e no abdômen e só sobreviveu porque foi atendido a tempo e passou por uma operação de emergência. Há o risco de o escritor perder a visão de um olho. Ele é jurado de morte desde fevereiro de 1989, quando o aiatolá Khomeini, líder religioso do Irã, decretou sua morte por causa de um pretenso insulto ao profeta Maomé. Rushdie já sofreu vários atentados, viveu escondido durante muito tempo. O responsável pelo ataque ao escritor, um homem de origem libanesa, de 24 anos, chamado Hadi Matar, foi preso e não deu declarações. Seu ato é resultado do fanatismo e da intolerância.

(Colaboraram Gabriel Rötke e Fernando Lavieri)

 

 

22
Ago22

Dia de Combate à Intolerância Religiosa é comemorado; entenda a escolha da data 21 de Janeiro

Talis Andrade

Intolerância Religiosa: termos como “chuta que é macumba” somam quase 55  mil menções desde 2018 nas redes sociais - Mundo NegroCombate à intolerância religiosa é ainda mais urgente no Brasil de hojeGuia de intolerância aponta para disseminação de ataques de cunho religioso  - 15/09/2019 - Cotidiano - Folha

21 de Janeiro é comemorado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído em Lei Nacional no ano de 2007. A data homenageia a baiana Gildásia dos Santos e Santos, Mãe Gilda, Iyalorixá (mãe de santo) vítima de intolerância religiosa.

No ano de 1999 a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) publicou uma reportagem no jornal Folha Universal utilizando uma foto da Mãe Gilda com a manchete "Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes". Após a publicação, a religiosa foi reconhecida pela sua foto, apesar de uma tarja preta ter sido colada sobre seus olhos. A edição teve uma tiragem de 1,3 milhão de exemplares, todos distribuídos gratuitamente em todo o País.

 

Após a publicação, a religiosa foi reconhecida pela sua foto, apesar de uma tarja preta ter sido colada sobre seus olhos

Após a publicação, a religiosa foi reconhecida pela sua foto, apesar de uma tarja preta ter sido colada sobre seus olhos (Foto: Reprodução Folha Universal)
 
 

A partir de então, ela e integrantes do terreiro de Candomblé Ilê Axé Abassá de Ogum, fundado por Mãe Gilda, passaram a sofrer perseguição por pessoas de outras religiões, além de integrantes do próprio Candomblé que acreditaram que a mãe de santo estava pregando contra sua religião. Com a crescente onda de perseguição, Mãe Gilda e seu marido foram agredidos, verbal e fisicamente, dentro das dependências do Terreiro. O local também foi depredado.Busto em homenagem a Mãe Gilda é atacado por criminoso - Lab Dicas  Jornalismo

Ato lembra 'Mãe Gilda' e celebra Dia Nacional de Combate à Intolerância  Religiosa - Notícia - Bahia Notícias

Mãe Gilda já sofria de alguns problemas de saúde e o quadro agravou-se após as agressões. Ela morreu no dia 21 de janeiro de 2000. No dia anterior à sua morte, a religiosa assinou procuração constituindo seus advogados para defender uma ação contra a Iurd, movida pela família, por danos morais e uso indevido da imagem.

A Igreja Universal foi condenada, mas entrou com recursos contra a decisão por mais de uma vez, levando o caso até o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em setembro de 2008, por fim, o STJ confirmou a condenação da Iurd, que ficou obrigada a publicar retratação no jornal Folha Universal e pagar indenização de R$ 145 mil para a família de Mãe Gilda.

Além da data em comemoração ao combate à intolerância, a legislação brasileira também define como crime prática, indução ou incitação ao preconceito de religião, bem como de raça, cor, etnia ou procedência nacional pela Lei nº 9.459 de 1997. A pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa.

No 21 de janeiro, entidades religiosas, instituições da sociedade civil e vítimas de intolerância religiosa promovem reunião no Auditório da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal do Ceará (UFC), homenageando Mãe Gilda de Ogum na data que marca seu falecimento.

Segundo Sebastião Ramos, representante da Associação Brasileira de Apoio às Vítimas de Preconceito Religioso (Abravipre), o evento conta com a presença de pessoas de diversas religiões, em discussões sobre a liberdade de crença, direito garantido pela Constituição. "Formamos uma comissão para darmos continuidade a esse debate em Fortaleza, porque há muitos casos de intolerância religiosa no mundo inteiro, assim como também em Fortaleza", afirma.

Para o professor do Departamento de Geografia da UFC, Christian Dennys Monteiro de Oliveira, o dia 21 de janeiro representa um marco importante na trajetória de reconhecimento governamental de que o problema da intolerância ultrapassa a condição de crimes contra a pessoa humana e contra a cidadania.

"No período dos anos 1990 foi estabelecido uma convenção da Unesco que ditava normas a respeito da importância de se ter um diálogo inter-religioso como forma de reconhecimento de que cada religião, cada credo e cada crença deve ser reconhecida pelo outro como testemunho de convívio e fraternidade Universal", justifica. Para ele, a Lei aprovada em 2007 seguia o mesmo movimento que o Brasil já trilhava com a convenção estabelecida com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O encontro em 21 de janeiro, espaço para o depoimento de entidades e pessoas presentes, "chamando atenção para situações que devem ser sensibilizadas para que se evite esse crescimento da radicalização do fundamentalismo", explicou Christian. Ao encerramento, um cortejo segue até a sede do Maracatu Solar.Mais uma charge polmica envolvendo religio agora no Brasil

21 de Janeiro: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa – MÃE GILDA  VIVE! | SINTEFPB – Sindicato dos Trabalhadores Federais da Educação Básica,  Profissional e Tecnológica da Paraíba

 

17
Ago22

Lula critica uso da religião para fazer política e desmente fake news sobre perseguição a igrejas: 'não quero guerra santa'

Talis Andrade

Dai a César o que é de César... - Jesus Cristo Eterno Mestre

 

 

"Quero tratar evangélico igual católico, igual islâmico, igual judaico, ou seja, eu quero tratar todas as religiões - incluindo as de matriz africana - com respeito", diz Lula

 

(Reuters) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, negou nesta quarta-feira que terá um discurso voltado ao eleitorado evangélico, no qual o presidente Jair Bolsonaro (PL) lidera, e afirmou não querer fazer uma "guerra santa" no país.

Em entrevista à Rádio Super de Minas Gerais, o petista também criticou o uso da religião para fazer política, em meio aos constantes acenos de Bolsonaro ao eleitorado evangélico e à divulgação de notícias falsas, disseminadas inclusive em cultos, que afirmam que, se vencer, Lula fechará igrejas.

"Não sou candidato de uma facção religiosa, eu sou candidato do povo brasileiro. Eu quero tratar evangélico igual católico, igual islâmico, igual judaico, ou seja, eu quero tratar todas as religiões --incluindo as religiões de matriz africana-- com respeito com que todas religiões têm que ser tratadas. Eu não quero fazer uma guerra santa neste país", disse Lula, que é católico.

"A religião é para a gente cuidar da fé, é para a gente cuidar da nossa espiritualidade e não para fazer política. É por isso que não estou preocupado em falar 'o Lula vai ter um discurso para os evangélicos, Lula vai ter um discurso para os católicos, Lula vai ter um discurso para os islâmicos'. Não!"

Na véspera, durante discurso em São Bernardo de Campo que marcou o início oficial da campanha, Lula rebateu as alegações falsas de que fechará igrejas se vencer o pleito de outubro e acusou Bolsonaro de tentar manipular as pessoas.

Bolsonaro, que tenta a reeleição e, como Lula, é católico, tem comparecido cada vez mais a eventos evangélicos em várias partes do país. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que é evangélica, tem tido participação crescente na campanha do marido e, na véspera, em comício em Juiz de Fora (MG), fez discurso com forte tom religioso. Apedrejou: "Lula entregou a sua alma para vencer essa eleição". 

 

Quem disse que política e religião nunca deu certo?

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12
Ago22

Campanha bolsonarista quer usar preconceito religioso contra Janja para atacar Lula

Talis Andrade

 

Com ataque a religiões de matriz africana, o objetivo é descredibilizar a imagem de Lula, por meio de sua esposa, mediante o eleitorado feminino e evangélico

 

247 - Os estrategistas da campanha pela reeleição de Jair Bolsonaro (PL) avaliam associar o preconceito contra religiões de matriz africana à socióloga Rosângela da Silva, a Janja, para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com quem é casada. Um dos focos é influenciar o voto do eleitorado evangélico, mais especificamente o das mulheres.

De acordo com a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a avaliação do núcleo da campanha bolsonarista é de que “todas as evidências da religiosidade do ex-presidente podem ser afetadas com a narrativa de que, apesar de suas reiteradas manifestações públicas ligadas ao universo cristão, a mulher, em casa, se dedica a rituais de ‘macumba’". 

A esposa de Lula é socióloga. Estuda as religiões indígenas, afro-brasileiras, a fantasia das três raças brasileiras. Escreve Orson Camargo:

"Na atualidade não existe nenhuma sociedade ou grupo social que não possua a mistura de etnias diferentes. Há exceções como pouquíssimos grupos indígenas que ainda vivem isolados na América Latina ou em algum outro lugar do planeta.

De modo geral, as sociedades contemporâneas são o resultado de um longo processo de miscigenação de suas populações, cuja intensidade variou ao longo do tempo e do espaço. O conceito 'miscigenação' pode ser definido como o processo resultante da mistura a partir de casamentos ou coabitação de um homem e uma mulher de etnias diferentes.

A miscigenação ocorre na união entre brancos e negros, brancos e amarelos e entre amarelos e negros. O senso comum divide a espécie humana entre brancos, negros e amarelos, que, popularmente, são tidos como 'raças' a partir de um traço peculiar – a cor da pele. Todavia, brancos, negros e amarelos não constituem raças no sentido biológico, mas grupos humanos de significado sociológico.

No Brasil, há o 'Mito das três raças', desenvolvido tanto pelo antropólogo Darcy Ribeiro como pelo senso comum, em que a cultura e a sociedade brasileiras foram constituídas a partir das influências culturais das 'três raças': europeia, africana e indígena.

Contudo, esse mito não é compartilhado por diversos críticos, pois minimiza a dominação violenta provocada pela colonização portuguesa sobre os povos indígenas e africanos, colocando a situação de colonização como um equilíbrio de forças entre os três povos, o que de fato não houve. Estudos antropológicos utilizaram, entre os séculos XVII e XX, o termo 'raça' para designar as várias classificações de grupos humanos; mas desde que surgiram os primeiros métodos genéticos para estudar biologicamente as populações humanas, o termo raça caiu em desuso.

Enfim, 'o mito das três raças' é criticado por ser considerado uma visão simplista e biologizante do processo colonizador brasileiro". 

A socióloga Rosângela da Silva tem na sua biblioteca livros sobre negros e indígenas, incluindo obras de arte do nosso folclore, nas mais diferentes manifestações artísticas, demonstrativas da riqueza cultural do povo em geral, isso sem preconceito religiso, ou racismo. 

Na terça-feira (9), a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, fez um ataque nesta direção ao compartilhar um vídeo em que Lula participa de um encontro com representantes de religiões afro-brasileiras afirmando que o petista "entregou sua alma para vencer essa eleição".  

Como uma pessoa pode acusar outra: de entregar a alma às trevas, ao demônio? Coisa do exorcismo católico da Idade Média, quando se queimava evangélicos e vice-versa. 

Após a publicação racista da primeira-dama contra às mães de santo da Bahia, que receberam Lula, na Assembléia Legislativa da Bahia, com um banho de pipoca, Janja foi às redes sociais e rebateu o preconceito de Michelle Bolsonaro. "Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo. A minha vida e a do meu marido sempre foram e sempre serão pautadas por esses princípios", postou no Twitter.  

Ainda segundo a reportagem, a ideia de usar o preconceito religioso teve como base uma foto das redes sociais em que “Janja aparece de branco ao lado de imagens como a de Xangô, um dos orixás da Umbanda e do Candomblé. Ao postar a imagem no Twitter, ela escreveu: 'Saudades de vestir branco e girar, girar, girar...'". A avaliação do QG da campanha bolsonarista é que “a imagem tem o potencial de desgastar Lula no eleitorado evangélico”. Por erroneamente confundir as religiões afro com feitiço, bruxaria, satanismo. 

O Gabinete do Ódio do Palácio do Planalto esqueceu que o branco faz parte do rico guarda-roupa da primeira-dama:

Twitter suspende conta de Michelle Bolsonaro por espalhar intolerância  religiosa - Jornal OpçãoJair Bolsonaro/ primeira-dama Michelle Bolsonaro/programa Adote um Parque |  Agência BrasilEm busca do eleitorado feminino, Bolsonaro leva Michelle em viagens pelo  paísMichelle Bolsonaro agiu para ajudar amigos em empréstimos da Caixa, diz  revista - PontoPoder - Diário do NordesteMichele faz crítica velada a evento do PL para BolsonaroMichelle Bolsonaro faz tratamento para emagrecer com médico que secou  Marília MendonçaMichelle Bolsonaro diz que ex-ministro da Educação vai provar que é uma  'pessoa honesta' - Folha PE

 

Segundo o Datafolha, Lula possui 48% das intenções de voto do eleitorado evangélico masculino, contra 28% de Jair Bolsonaro. Já entre o eleitorado feminino deste segmento, a situação é de empate técnico, uma vez que Bolsonaro registra 29% e Lula 25%. Outras 34%, porém, ainda não definiram em quem irão votar no pleito de outubro. 

A pesquisa Datafolha foi realizada de forma presencial com 2.556 pessoas em 183 municípios entre os dias 27 e 28 de julho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de  95%. A pesquisa, encomendada pela Folha de S. Paulo, foi registrada  no TSE sob o número BR-01192/2022.

Ataques às religiões afro-brasileiras são uma vertente do fenômeno de racismo, analisa Hédio Silva Junior, coordenador-executivo do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro). O advogado explica que ataques e discursos de ódio contra as religiões de matriz africana fazem parte da perseguição a tudo que diz respeito ao patrimônio cultural decorrente do legado civilizatório africano no Brasil. Ele considera que constitui a faceta religiosa do mesmo racismo.

 

 

Quando você ouve falar na Santa Inquisição, logo você se lembra dos horrores cometidos pela Igreja Católica lá no "Velho Mundo", não é mesmo? Mas você sabia que a Inquisição atravessou o Oceano Atlântico e também dizimou pessoas aqui no Brasil? Bruxas ou não, você vai conhecer como funcionou o julgamento das mulheres por bruxaria em terras tupiniquins.
 

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10
Ago22

Janja defende Lula após ataque de Michelle Bolsonaro: 'Deus é amor e respeito'

Talis Andrade

O namoro e o futuro casamento foram anunciados pelo petista em um palanque montado por militantes assim que deixou a Polícia Federal em Curitiba, em 2019

 

A socióloga Rosângela Silva, a Janja, esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rebateu nesta terça-feira (9) o ataque da primeira-dama Michelle Bolsonaro ao petista.

Michelle compartilhou um vídeo em que Lula recebia a homenagem de um banho de pipoca, na Assembleia Legislativa da Bahia, e escreveu na legenda: “Isso pode, né? Eu falar de Deus não”.

No Twitter, mas sem citar nomes, Janja disse que Deus é “sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e respeito”.

Michelle ofendeu e jogou nas trevas milhões de brasileiros.

O filósofo João de Freitas informa:

O censo demográfico realizado em 2000, pelo IBGE, apontou a seguinte composição religiosa no Brasil:

* 73,8% dos brasileiros (cerca de 125 milhões) declaram-se católicos;
* 15,4% (cerca de 26,2 milhões) declaram-se evangélicos (evangélicos tradicionais, pentecostais e neopentecostais);
*
7,4% (cerca de 12,5 milhões) declaram-se sem religião, podendo ser agnósticos, ateus ou deístas;
* 1,3% (cerca de 2,3 milhões) declaram-se espíritas;
* 0,3% declaram-se seguidores de religiões tradicionais africanas tais como o Candomblé, o Tambor-de-mina, além da Umbanda;
* 1,8% declaram-se seguidores de outras religiões, tais como: as testemunhas de Jeová (1,1 milhão), os budistas (215 mil), os santos dos Últimos Dias ou mórmons (200 mil), os messiânicos (109 mil), os judeus (87 mil), os esotéricos (58 mil), os muçulmanos (27 mil) e os espiritualistas (26 mil).

Exaltemos a Cruz feita de um madeiro de Amor! | Padretojo.Net

“Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo. A minha vida e a do meu marido sempre foram e sempre serão pautadas por esses princípios”, declarou a socióloga Rosângela Silva.

De acordo com o portal Poder 360, a assessoria de Lula afirmou, por meio de nota, que o ex-presidente respeita as religiões e sua liberdade de culto e não hostiliza manifestações religiosas.

As religiões afro-brasileiras sob o arbítrio das autoridades

por Fernando Perez da Cunha Lima /Nexo

Esta dissertação de mestrado, realizada na USP (Universidade de São Paulo), detalha as estratégias de negociação com as autoridades empregadas por religiões afro-brasileiras no século 19, de modo a sobreviver a ataques num período em que suas práticas não contavam com ampla proteção legal — eram apenas permitidas.

Essa permissão era, entretanto, frágil e condicionada pela vontade dos inspetores de quarteirão e da polícia, que, por sua vez, sofriam pressões de setores intolerantes da sociedade. A repressão era justificada por argumentos que perduram até hoje: tentativas de negar o caráter religioso das cerimônias, acusações de feitiçaria e charlatanismo contra pais e mães de santo, e reclamações sobre o ruído dos atabaques.

1 A qual pergunta a pesquisa responde?

A dissertação objetivou, por meio da análise de reportagens, colunas, artigos, anúncios e folhetins, descobrir alguns vestígios dos fenômenos religiosos afro-brasileiros do século 19. As Constituições de 1824 e de 1891 asseguravam a liberdade de culto e crença (a primeira somente do culto doméstico), e os códigos criminais da época não proibiam as práticas religiosas afro-brasileiras. Todavia, os cultos dessas religiões eram os alvos preferenciais das ações repressivas da polícia e das campanhas difamatórias encampadas pelos periódicos, refletindo o pensamento social dominante. Contudo, alguns cultos, por meio de políticas de negociação, conseguiram evitar a repressão policial, e os seus sacerdotes ganharam fama, notoriedade e a proteção — ainda que precária — de membros da elite branca senhorial. Intentou-se compreender, de um lado, como se dava a permissão para a realização dos cultos e quais eram permitidos; de outro, quais não eram e quais acusações eram feitas aos partícipes e sacerdotes.

2 Por que isso é relevante?

A relevância do trabalho está no fato de muitas das justificativas utilizadas à época para perseguir e não permitir o livre desenvolvimento dos cultos afro-brasileiros serem utilizadas até os dias de hoje. Exemplos disso incluem as tentativas de negar o caráter religioso dessas manifestações, as acusações de feitiçaria e charlatanismo contra pais e mães de santo e as reclamações sobre o ruído dos atabaques usadas como fundamento para impedir cerimônias. Ainda, o trabalho proporciona um melhor entendimento das políticas de negociação que permitiram com que as religiões afro-brasileiras resistissem à escravidão e à repressão.

3 Resumo da pesquisa

A pesquisa buscou compreender a relação entre direito e as religiosidades afro-brasileiras no século 19. Para isso, os primeiros capítulos tratam de termos associados a essas práticas, como “batuques”, “zungus”, “casas de dar fortuna”, “candombes” e “candomblés” — buscou-se mapear em quais contextos e de quais formas essas expressões eram usadas para fazer referência a manifestações religiosas.

Por meio da análise de relatos sobre os objetos encontrados nessas localidades — como os manipansos, búzios, ervas, imagens de santos católicos, alguidares e utensílios de uso ritual —, visou-se traçar paralelos e aproximações entre as práticas religiosas afro-brasileiras da época e as atuais. As histórias de sacerdotes de cultos de origem africana foram usadas como meio de se vislumbrar como eram as cerimônias, bem como de entender como se davam as relações de negociação e acordo que permitiam que os cultos sobrevivessem, alçando à notoriedade alguns dos feiticeiros, curandeiros, ou sacerdotes, e lhes possibilitando galgar relativo sucesso econômico. Por fim, discutiu-se acerca da fragilidade dessa dinâmica e das razões que levaram a maior perseguição dos fenômenos religiosos afro-brasileiros no final do século 19.

4 Quais foram as conclusões?

Concluiu-se que, em que pese as práticas religiosas afro-brasileiras não serem expressamente proibidas pela legislação à época, tampouco eram inseridas na categoria de direito, a despeito dos dispositivos constitucionais. Não eram totalmente proibidas e não eram integralmente autorizadas. As formas da religiosidade afro-brasileira no século 19 eram apenas permitidas.

Havia, pois, um complicado equilíbrio de acordos e negociações para que as práticas fossem permitidas. Para que as cerimônias pudessem ser realizadas, contava-se com a anuência dos inspetores de quarteirão, que conferiam espécie de licença informal aos cultos. Isso fazia com que aqueles contrários às práticas religiosas recorressem aos escalões mais elevados da polícia, lançando mão de campanhas midiáticas para pressionar as autoridades. Dessa forma, a permissão podia ser revogada a qualquer tempo, bastando para isso uma simples mudança de conduta do inspetor, do delegado ou de seus superiores. O exercício de liberdades constitucionais ficava então condicionado ao arbítrio desses agentes, sujeitos a todo tipo de pressão popular.

Logrou-se comprovar que alguns feiticeiros, curandeiros e outras formas de denominação de sacerdotes de cultos afro-brasileiros conseguiram manter suas práticas e casas ativas durante largo período de tempo, com pouca ou nenhuma importunação da polícia — obtendo, inclusive, relativo sucesso financeiro e popularidade. A resistência cotidiana às imposições da sociedade escravocrata, manifestada aqui pela manutenção das práticas religiosas, fez com que os cultos de origem africana sobrevivessem à diáspora, se reinventassem no Brasil como cultos afro-brasileiros e se perpetuassem até os dias atuais.

5 Quem deveria conhecer seus resultados?

Todos que se interessem pela relação do direito com a intolerância às religiões afro-brasileiras ou pela história de resistência à escravidão que nos é contada por tantos pais e mães de santo.

Fernando Perez da Cunha Lima é mestre em filosofia e teoria geral do direito pela FD-USP (Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo), bacharel em direito pela mesma instituição.

Referências:

  • CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
  • SAMPAIO, Gabriela dos Reis. A história do feiticeiro Juca Rosa: cultura e relações sociais no Rio de Janeiro imperial. Campinas, 2000. Tese (Doutorado em História) - Departamento de História da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, 2000.
  • SOUZA, Rafael Pereira de. “Batuque na cozinha, sinhá não quer!”. Repressão e resistência cultural dos cultos afro-brasileiros no Rio de Janeiro (1870-1890).2010. 139 f. Dissertação de Mestrado, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2010.
  • POSSIDONIO, Eduardo. Entre ngangas e Manipansos: a religiosidade centro-africana nas freguesias urbanas do Rio de Janeiro de fins do Oitocentos (1870-1900). Dissertação de Mestrado, Universidade Salgado de Oliveira. Rio de Janeiro, 2015.
  • REIS, João José. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

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