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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Ago20

Campo de concentração na Amazônia aprisionou centenas de famílias japonesas durante 2ª Guerra

Talis Andrade

campo amazonia.jpg

Casarão que fazia parte do campo de concentração de Tomé-Açu

 

por Sarita Reed e Vinícius Fontana/ BBC News

Quando o Brasil decidiu de que lado estava na 2ª Guerra Mundial e rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, em 1942, uma parcela da população brasileira repentinamente passou a ser perseguida: imigrantes alemães, japoneses e italianos, e seus descendentes.

Em pouco tempo, grande parte deles foi enclausurada em 11 campos de concentração espalhados pelo país, cujo objetivo era, entre outros, evitar que os imigrantes agissem como agentes infiltrados para seus países de origem.

Um desses campos, o de Tomé-Açu, único localizado na região amazônica, se diferenciou dos demais por aprisionar sobretudo imigrantes japoneses. Lá eles viviam sob regras rígidas, com racionamento de energia e toque de recolher, além de censura de correspondências e proibição de se agrupar.

Até o ano de 1942, a colônia japonesa que existia à beira do rio Acará, a 200 km de Belém, hoje município de Tomé-Açu, vivia basicamente do cultivo de hortaliças e arroz

Os primeiros imigrantes chegaram em 1929, por meio da Companhia Nipônica de Plantação (Nantaku), que dispunha de terras na região. Outro importante impulso para consolidação da comunidade foi a fundação, em 1935, da Cooperativa Agrícola do Acará.

Porém, o desenvolvimento da comunidade foi interrompido com a entrada do Brasil na guerra.
"O Brasil, muito pressionado pelas relações externas, fez ações de contenção dos 'inimigos de guerra', que eram os estrangeiros do Eixo - os alemães, italianos e japoneses", explica Priscila Perazzo, professora e pesquisadora da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e autora de Prisioneiros da guerra: os "súditos do Eixo" nos campos de concentração brasileiros.

"Então, o governo decide montar campos onde pudesse internar pessoas desses países".

Rodeada pela floresta amazônica e acessível somente por via fluvial, a comunidade japonesa que se formou em torno da Nantaku e da Cooperativa era uma candidata ideal para sediar um desses campos.

Em 17 de abril de 1942, os japoneses perderam o direito aos seus bens, por meio de uma declaração de caducidade, e a vila às margens do rio Acará foi isolada. Nascia o Campo de Concentração de Tomé-Açu. Leia mais 

16
Mai20

Bolsonaro, para o povo trabalhar de sol a sol, oferece o salário da fome, do medo e da morte

Talis Andrade

Jair Bolsonaro, presidente dos banqueiros, aliado de Trump, não anuncia nenhum benefício para o camponês, para o operário, apesar de pregar que o "trabalho liberta (Arbeit macht frei],  salva, um slogan nazista eternizado em uma porteira de campo de concentração de trabalhadores escravos, em um campo de extermínio de 'raças inferiores' (judeus, ciganos, negros) e indivídios socialmente nocivos (aleijados, portadores de doenças contagiosas, homossexuais, comunistas, socialistas, anarquistas, sindicalistas, Testemunhas de Jeová).

Jair Bolsonaro voltou a atacar, na manhã deste sábado (16), as medidas de isolamento social adotadas por governadores, para conter o avanço do Covid-19, que já causou 14.962 mortes. Segundo Bolsonaro, “o desemprego, a fome e a miséria será o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total”. 

Em 14 de maio escreveu o presidente: "CAOS: povo quer trabalhar e passa fome". 

Bolsonaro, que defendeu a reforma trabalhista do governo de Temer, Bolsonaro que propõe uma reforma previdenciária que cassa todos os direitos conquistados pelos trabalhadores, desde quando foi criada a Justiça do Trabalho, apenas oferece o salário da fome, do medo e da morte. 

Bolsonaro não promete aumentar o salário mínimo do mínimo, não oferece o salário desemprego, nem um auxílio emergencial digno para os que perderam o emprego com a quarentena. 

Antes do coronavírus, o desemprego chegou a 12,9 milhões de pessoas. Dados da ONU apontam que mais de 5 milhões de brasileiros passam fome. Em novembro de 2019, o Brasil atingiu nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria, 13,537 milhões, contingente maior do que toda a população da Bolívia. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

 

02
Mar19

A morte do inocente neto de Lula soltou os monstros do ódio

Talis Andrade

neto lula.jpg

Arthur

Cai sobre nossa consciência de adultos a infâmia de transformar em piadas baratas, em ironia e sarcasmo a dor de um avô pela perda de seu neto

por Juan Arias

El País, Espanha

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Sabíamos que no Brasil majoritariamente solidário, sensível à dor alheia e que ama seus pequenos, existiam monstros de ódio. Confesso, no entanto, que ignorava que fossem tantos e com tanta carga de sadismo. Estão sendo revelados pelos comentários sórdidos e até blasfemos, já que invocam a Deus como motivo da morte de Arthur, de sete anos, neto inocente de Lula, condenado e preso por corrupção.

Uma criança ainda não teve tempo de conhecer a que abismos de cegueira tanto a política como a ideologia podem conduzir. E cai sobre nossa consciência de adultos a infâmia de transformar em piadas baratas, em ironia e sarcasmo nas redes sociais a dor de um avô pela perda de seu neto. Lula, mesmo condenado e na cadeia, não perdeu nem sua dignidade de pessoa nem seu pedaço de história positiva que deixa escrita neste país.

 

Aqueles que se alegram pela perda do neto de Lula, que seria o castigo de Deus por ter apoiado como presidente governos como o da Venezuela que hoje mata de fome suas crianças, como li aqui mesmo neste jornal, estão revelando a que ponto de cegueira e insensibilidade humana pode chegar o soberbo Homo sapiens.

 

Essa ausência de empatia e decência chegou a infectar até políticos com responsabilidade, como o filho do presidente Bolsonaro, o deputado federal Eduardo, que tudo o que soube escrever na Internet sobre a triste morte do neto de Lula é que este deveria estar "em uma prisão comum, como um prisioneiro comum", sem uma única palavra de piedade ou pelo menos de respeito por seu inimigo político. Como resposta, Fernando Lula Negrão escreveu que as palavras do filho do presidente "eram emblemáticas do caráter, da criação, dos complexos, da falta de misericórdia, dos ódios, das angústias e da falta de amor que é típica dos psicopatas, dos serial killers e dos covardes...” Um duro julgamento que, tenho certeza, tem o aplauso dos milhões de brasileiros que não perderam a capacidade de mostrar solidariedade com a dor dos outros.

 

E também Alexandre Braga, certamente outro dos milhões de brasileiros sãos, não envenenado pela ideologia, lhe respondeu com sensatez: "Perdeu a chance (Eduardo) de ficar calado. Lula já está acabado e preso. Respeite a dor do avô, basta desse ódio malvado e vamos pensar no Brasil".

 

Tentando lembrar tempos sombrios da História em que o ser humano chegou a se degradar a ponto de não só não respeitar a inocência da infância, como também fazer dela carne da infâmia, só me vieram à memória aqueles campos de concentração nazistas onde as crianças eram queimadas vivas porque "não serviam para trabalhar". Foi em um desses campos que um de seus dirigentes dedicava para a rega das flores de seu jardim a pouca água que havia, deixando as crianças morrerem de sede.

 

Para aqueles que como eu dedicaram tantos artigos a louvar o positivo da alma brasileira que tanto me ensinou e confortou nos momentos em que não é difícil perder a confiança no ser humano, ler os comentários sem alma, sem empatia, de ódio ou sarcasmo e até mesmo regozijando-se pela morte de um inocente, tão somente por ódio a Lula, seria preferível não ter vivido este dia.

 

Estou entre os jornalistas que criticaram na época o fato de Lula, que chegou com a esperança de renovar a política, ter acabado se contaminando pelos afagos dos poderosos e pela política fácil da corrupção. Hoje, porém, diante desses caminhões de lixo que as redes estão vomitando contra ele e até contra o neto inocente que perdeu, eu me atrevo a lhe pedir perdão em nome dos milhões de brasileiros que ainda não se venderam ao ódio fácil e ainda sabem manter sua dignidade perante o mistério da morte de um inocente.

 

Houve quem escrevesse que depois dos campos de concentração do nazismo não seria possível continuar acreditando em Deus. E depois desses ódios e insultos imundos despejados contra Lula por causa de sua dor por ter perdido o neto, é possível continuar acreditando no Brasil? O Brasil dos esgotos, que hoje manchou gratuitamente a alma de uma criança inocente, passará, como o nazismo passou. O outro Brasil, o anônimo, aquele que hoje ficou horrorizado vendo os monstros soltos desfilando nas redes sociais, o majoritário, acabará — ou será somente a minha esperança? — dominando os monstros que hoje nos assustam para assim abrir caminho aos anjos da paz.

 

30
Nov18

Dos navios negreiros aos “navios prisões”

Talis Andrade

RioCristointervencao.jpg

 

Por Mariana Pitasse, no jornal Brasil de Fato:

Em um porão escuro e úmido, centenas de homens e mulheres se espremem para caber em um espaço limitado demais para todos. Eles estão muito próximos e aprisionados em correntes de ferro. O mau cheiro, a sujeira, as marcas na pele, os trapos que cobrem seus corpos denunciam que eles não têm condições mínimas de higiene e sobrevivência. A fome e a sede são constantes, as doenças se espalham com facilidade. Muitos deles morrem e adoecem gravemente em pouco tempo, antes de chegar ao final da travessia.

 

A descrição acima poderia estar circunscrita em um passado distante e, muitas vezes, esquecido nas narrativas que tratam sobre os transportes de negros escravizados, do continente africano ao Brasil, nos navios negreiros até o século XIX. No entanto, está mais atualizada do que nunca. Pouco antes do segundo turno das eleições, o governador eleito pelo Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC) declarou que um de seus planos para área da segurança pública no estado é fazer “navios presídios” em alto-mar para abrigar o contingente de presos que não cabem em terra. Também disse que, se necessário, “cavaria mais covas para enterrar criminosos”.

As declarações, que carregam o peso e as marcas da escravidão no país, foram recebidas com entusiasmo e aplausos por militares, durante um encontro na Associação de Oficiais Militares do Estado do Rio de Janeiro (AME-Rio).

Não é gratuito que a proposta de “navios presídios” lembre os navios negreiros. Vale ressaltar que o número de pessoas encarceradas no Brasil chegou a 726.712 em junho de 2016 - o terceiro maior do mundo. Mais da metade dessa população é formada jovens de 18 a 29 anos e 64% são negros, segundo dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) produzido pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça. Ainda segundo levantamento, o sistema prisional brasileiro tem 368.049 vagas, o que faz com que 89% da população prisional esteja em unidades superlotadas. São 78% dos estabelecimentos penais com mais presos que o número de vagas.

Também é preciso lembrar que as condições impostas à população carcerária têm mais pontos em comum com o período da escravidão. A tortura ainda é parte integrante do sistema carcerário brasileiro, segundo aponta o relatório “Tortura em Tempos de Encarceramento em Massa”, da Pastoral Carcerária. Fora a agressão física, o mero ato de privar uma pessoa de sua liberdade e colocá-la em uma cela superlotada, sem ventilação, higiene e outras condições minimamente aceitáveis já constitui uma forma de tortura.

Por décadas, existiu no Brasil um padrão de encarceramento de negros escravizados, que eram detidos depois de terem cometido crimes previstos pelo Código Penal da época, como fuga ou desobediência aos seus senhores. Nesses espaços, os senhores podiam delegar à máquina do Estado a prática da tortura. Havia duas motivações para isso, segundo aponta a pesquisadora Flora Thompson-Deveaux. Primeiro, era tecnicamente ilegal os senhores açoitarem seus escravos, ainda que o fizessem. Segundo, era mais fácil manter as mãos limpas e poupar os ouvidos dos vizinhos da Casa Grande dos gritos de desespero de quem recebia as chibatadas.


Um desses locais, que institucionalizou a prática da tortura no país, se localizou no Rio de Janeiro, mais precisamente, próximo onde hoje se encontra o Aeroporto Santos Dumont, na região central da cidade. Ele foi batizado de Calabouço, nome que é lembrado com facilidade pelos cariocas como parte da letra da música “Do Leme ao Pontal”, de Tim Maia. Também quando se retoma a história do assassinato do estudante Edson Luís, morto por oficiais do regime Militar no restaurante universitário denominado também de Calabouço - não por acaso, pois se localizou muitos anos mais tarde no mesmo galpão. Mas, ainda que seja um nome que permeia o imaginário dos cariocas, nenhuma das referências aponta para a memória de um local construído para institucionalizar a prática da tortura de negros escravizados.

Além do Calabouço, outras inúmeras experiências trataram, ao longo do tempo, a população negra como alvos de prisão, da tortura e da morte. Podemos citar alguns casos exemplares como a repressão aos marinheiros que realizaram a Revolta da Chibata, em 1910. De acordo com o historiador Clóvis Moura, os marinheiros foram embarcados nos porões de navios rumo à Amazônia. No caminho foram torturados, fuzilados e jogados ao mar, ao lado de muitos outros presos por infringir as leis vigentes na época.

Como podemos notar, a história de repressão à população pobre e negra não ficou no passado. Depois de eleito, o mesmo Wilson Witzel não limita seu discurso aos “navios prisões”, agora ele fala abertamente que polícia vai ser autorizada a fazer “o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro".

A mira a que Witzel se refere está claramente apontada para as favelas, as periferias, o povo negro e pobre do estado do Rio. Os homens jovens e negros são as maiores vítimas de homicídios no país e no estado do Rio não é diferente. Segundo dados disponibilizados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), a cada 10 mortos pela polícia no estado do Rio de Janeiro, nove são negros ou pardos. Witzel nos recorda que o encarceramento, a morte e a tortura da população negra são um padrão institucional que acompanha a história do Brasil.

Esse é o primeiro novembro pós eleições, que trouxe ao Rio de Janeiro e ao Brasil governantes que tem o claro objetivo de segregar e exterminar ainda mais população negra do nosso país. Esse novembro nos mostra que temos, como sempre, nos unir para ser resistência. Como já disse Ângela Davis em frase batida, mas necessária de ser repetida: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

 

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