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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Dez19

Guedes põe as baionetas pra fora: novo AI-5 e mentira sobre Eduardo e Lula

Talis Andrade

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por Reinaldo Azevedo

O ministro da Economia, Paulo Guedes — e ninguém que o conheça está surpreso com isto — evidenciou que não tem pela democracia mais apreço do que a família Bolsonaro. Em entrevista em Washington, acompanhada por agências de notícias, flertou gostosamente com um novo AI-5 e ainda incorreu numa mentira miserável.

Referindo-se a Lula, disse o ministro:                                                                                           "Chamar o povo para rua é de uma irresponsabilidade. Chamar o povo para rua para dizer que tem o poder, para tomar. Tomar como? Aí o filho do presidente fala em AI5, aí todo mundo assusta, fala o que que é? (…) Aí bate mais no outro. É isso o jogo? É isso o que a gente quer? Eu acho uma insanidade chamar o povo para rua para fazer bagunça. Acho uma insanidade."

Então vamos botar ordem na bagunça feita pelo ministro.

Eduardo Bolsonaro especulou sobre a edição de um novo AI-5 numa entrevista concedida a um canal de Youtube no dia 29 de outubro, que foi ao ar apenas no dia 31.

Lula deixou a cadeia apenas no dia 8 de novembro — oito dias depois de a entrevista ir ao ar e 10 dias depois de ser concedida. Logo, não havia como Eduardo estar reagindo ao petista se este fez seu primeiro discurso depois da boçalidade dita pelo deputado.

Ademais, desde que dentro das regras legais, qualquer um pode chamar o povo para ir às ruas. Nestes 10 meses de governo, os bolsonaristas já fizeram isso quatro vezes. Ou o ministro é do tipo que só admite protesto a favor?

Guedes se esforça para exibir certo lustro, mas não esconde uma concepção de poder que não guarda intimidade nenhuma com a democracia. Povo na rua, se ele não gosta da pauta, é bagunça. O ministro Abraham Weintraub prefere a palavra "balbúrdia".

E Guedes insistiu na mentira factual:                                                                                               "Assim que ele [Lula] chamou para a confusão, veio logo o outro lado e disse é, 'sai para a rua', vamos botar um excludente de ilicitude, vamos botar o AI-5, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Que coisa boa, né? Que clima bom!"

Fica, assim, claro que, para o ministro, a condição para que não se ameace com o AI-5 é não haver protesto. Mais: nas palavras de Guedes, excludente de ilicitude é mesmo uma forma de conter oponentes políticos.

Seja pela mentira factual — Eduardo Bolsonaro falou sobre AI-5 antes de Lula discursar —, seja pelo flerte explícito com a ditadura, porque é disso que se trata ao falar de AI-5, a fala do ministro da Economia é um escândalo.

Ele abusa do fato de setores influentes da sociedade, e com razão, apostarem suas fichas na estabilidade da economia e verem com bons olhos um princípio, ainda que modesto, de retomada do crescimento.

O discípulo do Chile de Augusto Pinochet, no entanto, parece que não sabe mesmo conviver com a democracia. Não sei se Lula e o PT ainda vão fazer um chamamento para sair por quebrando tudo. Duvido. Porque, por óbvio, não têm o grau de estupidez que seus adversários gostariam que tivessem. O fato é que isso, até agora, não aconteceu.

Leio na Folha:                                                                                                                                               "O ministro admitiu que o ritmo das reformas desacelerou no Congresso após a aprovação das mudanças na Previdência e disse que, quando as pessoas começam a ir para as ruas "sem motivo aparente", é preciso "entender o que está acontecendo" e avaliar se é possível prosseguir com a agenda liberal.                                                                                                 "Qualquer país democrático, quando vê o povo saindo para a rua, se pergunta se vale a pena fazer tantas reformas ao mesmo tempo."

Acompanho política desde os 14 anos. Estou com 58. Nunca vi governo nenhum, em nenhum lugar do mundo, admitir que o povo tem motivos para ir às ruas. Para quem está no poder, será sempre "sem motivo aparente".

Quando ainda candidato à Presidência, já tendo Paulo Guedes como seu braço direito em economia, Jair Bolsonaro deu apoio incondicional à greve dos caminhoneiros. Não lhe ocorreu chamá-la, então, de terrorismo. Guedes, por óbvio, também ficou de bico calado. Aquele movimento custou perto de um ponto percentual ao PIB brasileiro.

Indagado se Bolsonaro havia desacelerado as reformas por medo de Lula, Guedes respondeu: "Aparentemente digo que não (Bolsonaro não está com medo do Lula). Ele só pediu o excludente de ilicitude. Não está com medo nenhum, coloca um excludente de ilicitude. Vam'bora."

Epa! Excludente de ilicitude é sinônimo de atirar para matar. Em nome das reformas?

Perguntaram a Guedes se ele acha o AI-5 concebível em alguma circunstância. O ministro foi irônico e agressivo, como de hábito:                                                                                                        "É inconcebível, a democracia brasileira jamais admitiria, mesmo que a esquerda pegue as armas, invada tudo, quebre e derrube à força o Palácio do Planalto, jamais apoiaria o AI-5, isso é inconcebível. Não aceitaria jamais isso. Está satisfeita?"

Vale dizer: ele acha, sim, concebível. E aí decidiu passar uma mensagem ao Brasil:                     "É irresponsável chamar alguém para rua agora para fazer quebradeira. Para dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém para quebrar nada na rua. Este é o recado para quem está ao vivo no Brasil inteiro".

Quem falou em quebradeira, ministro? Quanto a tomar o poder, eis o objetivo de qualquer partido. Lula, em algum momento, falou em tomar o poder pelas armas? E aí veio o flerte explícito de Guedes com a ditadura:                                                                                                "Sejam responsáveis, pratiquem a democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente? Levando o povo para rua para quebrar tudo. Isso é estúpido, é burro, não está à altura da nossa tradição democrática."

É isso. Ou se pratica a democracia segundo a entende Paulo Guedes — e, claro!, Bolsonaro — ou, então, vem o AI-5. É uma fala duplamente asquerosa: ameaça os contemporâneos com uma nova ditadura e justifica o regime dos porões, que censurou, torturou e matou.

Guedes está disposto a modernizar o Brasil a qualquer custo, não é mesmo?

As referências explícitas de Paulo Guedes a excludente de ilicitude e ao AI-5 evidenciam que estamos lidando com um governo que considera, sim, sob certas circunstâncias, a imposição de medidas de exceção, também chamadas de "golpe de estado".

Para tanto, basta culpar os esquerdistas de sempre. Como faz Guedes, o modernizador.  

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Correção: a entrevista de Eduardo ao canal de Youtube foi concedida e veiculada em outubro, e não setembro como anteriormente informado.

22
Out19

O papelão do Estadão

Talis Andrade

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por Fernando Brito

Estadão se sai hoje com uma reportagem sobre as “pressões” que o STF estaria sofrendo para não corrigir a sua decisão e reconhecer a constitucionalidade da presunção de inocência até o trânsito em julgado de sentenças condenatórias.

Diante da falta de repercussão até de manifestações patéticas, como o twitter do General Eduardo Villas Boas, apela para uma “ameaça de bloqueio das estradas pelos caminhoneiros”, sustentada apenas pelas declarações de um militante e extrema-direita, proprietário de uma loja de conveniências m Vila Prudente e uma microempresa de intermediação de negócios no Ipiranga (SP), Ramiro Cruz Jr.

Ramiro tem vários vídeos pró-intervenção militar numa página de Facebook intitulada “Despertar da Consciência Patriótica e, candidato a deputado federal pelo PSL, sob o nome de Ramiro dos Caminhoneiros, teve portentosos 1.810 votos em todo o Estado de São Paulo.

Pois este cidadão é a única fonte identificada que fala em paralisação das rodovias. O outro é um certo “Marcão”, que teria postado um “fica esperto, Tóffoli” em redes sociais e ainda um outro “caminhoneiro” sem nome ou origem, mas com a ideia de” subir a rampa” do STF com um caminhão.

Um jornal como o Estadão dar destaque, com chamada de primeira página, a isso tem nome: uma desmoralização.

Quaisquer 10 minutos no Twitter e se acha coisa muito pior em matéria e ameaças da trupe bolsonarista: impeachment, sugestão de agressões, invadir do STF…

Publicar uma bobajada dessas, sim, é uma pressão espúria sobre os ministros da Corte, inventando um movimento de bloqueio nas estradas que não existe e que é só delírio de metade de meia-dúzia de lunáticos.

Se o Estadão quer que se perpetue a agressão à Constituição, que faça um editorial dizendo que não vale o escrito.

Mas terrorismo, não, Estadão…

 

26
Jun19

O CAPITÃO CONTINUA MOVIMENTANDO O SHOW DE BESTEIRAS

Talis Andrade

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por HELIO FERNANDES

 

O general e ex-ministro Santos Cruz, acertou em cheio. Em pleno

coração. Mas Bolsonaro insiste em exibir e verbalizar seu medíocre

tatibitate, nas redes e TVs. Deplorável. Lamentável. Insuportável.

 

E sem o mínimo de auto critica: "A oposição critica porque sou bom de

papo". Não para de falar, basta entrar nas redes ou ligar a televisão

lá está ele, geralmente se desmentindo. Vou selecionar as besteiras

dos últimos dias, naturalmente entre aspas.

 

1- "Não queria mais 4 anos de mandato. Mas se o povo quiser,

atenderei. E todos votarão em mim". Isso no auge da impopularidade.

 

No apogeu da incompetência. No máximo do fracasso.

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2- "O Congresso quer me transformar em rainha da Inglaterra". Ora,

O Congresso é um dos Poderes, relacionamento indispensável,

Legislativo-Executivo. Ele mesmo coordenou um Pacto

Republicano, "assinaremos em 10 de junho".

 

Garanti, não assinariam, "é rigorosamente inconstitucional". Junho está

indo embora, não assinaram nem explicaram para a coletividade.

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3- "Os partidos querem indicar ministros, isso é impossível". Logo

depois conclui, culpando a si mesmo:" A forma da escolha está errada,

vou mudar tudo". A culpa é dele mesmo, insiste nos erros e equívocos.

 

4- Apenas um disparate, voluntariamente praticado por ele, agora no

STF. (Outra besteira. Sem vaga, insistiu que nomearia Moro.

Inesperadamente vai pra TV, retumba, "o STF precisa de um ministro

evangélico".

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5- Ainda sem vaga, nos bastidores, trabalha um nome, sem credenciais.

O bispo (?) Malafaia.

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 O CAPITÃO CONTINUA SEU ROTEIRO DE INCOMPETÊNCIA 

 

Assusta pela imprudência e pelo desconhecimento do que é prioridade para o desenvolvimento e progresso. Anuncia: "Vamos conceder econstruir 16 mil quilômetros de rodovias". Num país que tem grãos como poder maior na exportação, concentramos todo transporte no degradável e ultrapassado caminhão.

 

Quando Henry Ford lançou o primeiro automóvel, em 1890, os EUA começarama construir ferrovias. Entraram em litígio e invadiram as poderosas fazendas, para abrir caminho para as progressistas ferrovias. Ha 50 anos têm a maior rede ferroviária do mundo, e não desprezam ou abandonam o setor. 

 

Nós não abrimos ferrovias nem cuidamos da segurança das estradas. O maior índice de assaltos atinge precisamente os caminhões. 

 

O "presidente" torturador, Garrastazu Medice, gastou uma fabula de dinheiro para abrir a inacreditável Transamazônica. Que se disse na época, "ligava o nada a coisa alguma". Hoje, totalmente abandonada.

 

PS - 16 mil quilômetros de ferrovias, seria um passo enorme para o progresso.

 

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13
Mai19

Por que o decreto de armas de Bolsonaro pode acabar sendo derrubado

Talis Andrade

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O presidente Jair Bolsonaro assinou hoje um decreto que flexibiliza as regras para registro, posse, porte e comercialização de armas e munições para colecionadores, atiradores esportivos e caçadores.

De acordo com o porta-voz do governo, Otávio Rêgo Barros, a medida trata da "desburocratização do mercado de armas e munições".

Em janeiro, Bolsonaro assinou um outro decreto que tratava da posse de armas, que é a autorização para manter uma arma de fogo em casa ou no local de trabalho.

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Decreto presidencial facilita que advogados, caminhoneiros e políticos portem armas de fogo carregadas

 

por Leticia Mori

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30
Abr19

O CAPITÃO AGE POR IMPULSO, ESTÁ ACOSTUMADO A SER CONTRADITÓRIO

Talis Andrade

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por Helio Fernandes

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Ou então ser desmentido por auxiliares, como já aconteceu as mais diversas vezes. São tantas e o capitão está tão desacreditado, que vou citar e comentar apenas as duas ultimas polemicas sobre preços, (Petrobras e Banco do Brasil), com enorme repercussão. E naturalmente anulando os próprios atos, não tinha capacidade legal para praticá-los.
 
Primeiro foi a Petrobras, invadiu a área da maior empresa brasileira, fixou preços sem consultar ninguém. Voltou atrás, Lorenzoni, apesar do cargo que ocupa não soube de nada, disse textualmente para os caminhoneiros: "Demos uma trava na Petrobras". (Como eles são obstinados pela linguagem das redes sociais, era FAKE).

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No fim de semana, sem informação ou convicção mas com muita arrogância e desequilíbrio e sem respeito por ninguém, mandou que "o presidente do BB cancelasse um anuncio publicado". Ordem cumprida sem a a menor analise, só a subserviência natural de quem pretende se manter no cargo,pelo menos por 4 anos.
 
Considerando que era um vitorioso, o capitão resolveu e transformou numa ordem e diretriz para o governo (desgoverno. Textual: "Toda a publicidade, mesmo mercadológica e abrangendo as  mais diversas estatais, precisa ser autorizada pelo Planalto". Designou órgãos e responsáveis, mandou publicar.
 
Menos de 48 horas depois, começou o protesto, a repercussão negativa, enorme. A ordem da "autoridade" responsável atingiu o Planalto em plena comemoração:" As estatais têm independência e exclusividade para destinar e distribuir sua publicidade".
 
PS- O capitão não reclamou, imediatamente mandou anular tudo.
 
PS2- Está acostumado. Perdão, acostumadíssimo.
21
Jun18

A QUADRATURA DO CÍRCULO EM QUE SE METEU O MINISTRO FUX

Talis Andrade

 

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por JOSÉ CARLOS DE ASSIS 

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O grande Sepúlveda Pertence, ao tempo em que exercia o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, disse-me certa vez, entre o sério e o cômico, que os ministros do STF padecem de "ignorância específica", sobretudo quando se trata de questões econômicas.

 

Temos um caso paradigmático de ignorância específica do Supremo, de responsabilidade do ministro Luís Fux: a ação de inconstitucionalidade, a ser julgada por ele, impetrada pelo patronato urbano e rural contra o tabelamento dos fretes concedido pelo Governo aos caminhoneiros.

 

Para acertar um acordo, Fux reuniu:

 

(i) Advocacia-Geral da União;
(ii) Ministério dos Transportes;
(iii) Agência Nacional de Transportes Terrestres;
(iv) Associação do Transporte Rodoviário de Carga do Brasil;
(v) Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil;
(vi) Confederação Nacional da Indústria;
(vii) Confederação Nacional dos Transportadores Autonômos;
(viii) Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica;
(ix) Secretaria de Promoção da Produtividade e Advocacia da Concorrência.

 

Detalhe, todas essas instituições foram reunidas por Fux para resolver um problema criado pela Petrobrás, ou seja, a vinculação dos preços dos combustíveis ao mercado internacional de petróleo, algo de notável estupidez. Não há a mais remota possibilidade de conciliação de interesses desses agentes econômicos, empresários e caminhoneiros, sem uma decisão simples e direta da Petrobrás, ou seja, reduzir o preço do diesel.

 

Ela o fará? Certamente não, porque ela se considera autônoma na estrutura de governo brasileiro e tem um vínculo ideológico de caráter religioso, e obviamente também financeiro, com o mercado internacional e as grandes petroleiras estrangeiras. Resultado de tudo isso: uma possível greve de caminhoneiros a partir do dia 28, quando Fux tomar a sua decisão supostamente salomônica, e inútil, essencialmente fruto de sua ignorância especifica.

 

 

02
Jun18

Greve: desmonte da Petrobras levou país ao caos

Talis Andrade

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Caminhoneiros tendem a ser conservadores, mas reivindicação é justa. Sob o golpe, política de preços da estatal atende aos desejos dos investidores, não às necessidades do país.

O artigo é de Paulo Kliass, doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal, publicado por Outras Palavras, 24-05-2018.

 

Eis o artigo.

A história das movimentações políticas e reivindicatórias de determinadas categorias sociais carrega consigo uma tendência a apresentar elementos de natureza conservadora e retrógrada. Travestidos de manifestações de protesto contra políticas setoriais, tais movimentos muitas vezes acabam por enganar a opinião pública e provocar crises políticas mais amplas. Em geral, as greves de caminhoneiros tendem a ser um exemplo bem característico desse quadro de confusão.

 

Talvez a mais dramática de todas tenha sido a atuação dessa categoria no Chile, às vésperas do golpe que derrubou o governo de Salvador Allende.

 

Pesquisas de historiadores acabaram por confirmar a profunda articulação existente à época entre as lideranças do famoso “paro patronal” em outubro de 1972 e as forças organizadas pela CIA e os representantes da oposição burguesa e empresarial ao governo da Unidade Popular. Ao mesclar interesses de empresas de carga e proprietários autônomos de caminhões, aquela greve aprofundou um quadro de desabastecimento generalizado pelo país e contribuiu para ampliar a crise políticaque chegou ao assassinato do presidente eleito e a tomada do poder pelos militares.

 

Na nossa vizinha Argentina a categoria também é muito bem organizada e obtém sucessivas conquistas em função de sua capacidade de pressão sobre os governos. As mobilizações ocorrem com periodicidade quase anual e não costumam perdoar os ocupantes da Casa Rosada, seja Cristina Kirchner ou seja Macri, para falar apenas dos mais recentes.

 

Chile, Argentina, Brasil: caminhoneiros em ação

Ao longo dessa semana, o Brasil assiste a mais um capítulo de manifestações organizadas por entidades vinculadas ao setor de transporte de cargas por rodovias. A base objetiva para a ampla adesão ao movimento reside, obviamente, nas elevadas taxas de impopularidade do governo Temer e suas desastrosas opções de política econômica. No caso concreto, estamos falando da estratégia adotada para o setor da energia, em especial a conduta escolhida para a Petrobras.

 

Ao nomear o tucano Pedro Parente para o cargo de presidente do maior conglomerado empresarial brasileiro, Temer fez muito mais do que simplesmente agradecer de forma generosa pelos apoios emprestados pelo PSDB à sua empreitada para assumir o Palácio do Planalto, inclusive com o incentivo decisivo para o sucesso do “golpeachment”. A intenção maior era dar início ao processo de privatização dessa estatal gigante e que atua em área estratégica para a economia e a sociedade brasileiras. Assim, o novo dirigente começou a implementar, logo de início, um caminho de “desinvestimento” na empresa. Na verdade, um termo pomposo e enganador para o procedimento objetivo de venda de ativos do grupo estatal para o setor privado. Em português claro, o substantivo mais adequado para esse crime contra a economia nacional é privatização.

 

Além disso, foi conferida a Parente uma impressionante autonomia para gerir a mudança fatal no processo de exploração das reservas valiosíssimas do Pré-Sal. Atendendo a pleitos das grandes empresas petroleiras estrangeiras, o governo retirou a exclusividade da Petrobras para a tarefa de organizar a retirada do óleo e gásdaquelas camadas profundas. Uma loucura! Afinal, trata-se de uma reserva potencial imensa e não há justificativa que apoie tal iniciativa que prejudica a inserção internacional do Brasil, compromete nossa segurança nacional e reduz de forma sensível o uso adequado dos recursos de tal exploração econômica em um Fundo Soberano para as futuras gerações.

 

Outra linha adotada pelo tucano refere-se ao reforço da narrativa demagógica de evitar o assim chamado “uso político” da Petrobras. Amparado no desgaste de imagem provocado pelos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, o governo resolveu dar um verdadeiro cavalo de pau na política de preços praticados pela empresa. Isso significa a adoção de uma paridade automática com as variações do preço do petróleo no mercado internacional. Na prática, a Petrobras passou a aumentar os preços internos praticados nas refinarias apenas em função das mudanças externas.

 

Parente e o desmonte da Petrobras

A retórica utilizada para justificar essa mudança se apoiava no chamado “realismo tarifário” e na condenação da política anterior de contenção de aumentos nos preços dos derivados de petróleo para evitar contaminação inflacionária. No entanto, o fato concreto é que a Petrobras é uma empresa pública atuando em setor estratégico. Assim, nada mais compreensível que os governos democraticamente eleitos adotem políticas para ela. Por exemplo, não é razoável supor que a Petrobras siga de maneira cega ou ingênua as regras das empresas privadas do setor nem mesmo os seus critérios de lucro e retorno financeiro.

 

No entanto, o quadro havia mudado bastante desde quando FHC resolveu internacionalizar a empresa e quase conseguiu transformar seu nome em “Petrobrax”. Afinal, a prioridade absoluta de seu governo era atrair o interesse dos meios dofinancismo internacional para investir em papéis da nossa petroleira na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Ao assumir esse compromisso, a partir daquele momento o governo brasileiro estava se sujeitando às regras desse tipo de mercado, onde o interesse único é a rentabilidade especulativa sobre o título e não a contribuição da empresa para o desenvolvimento econômico e social de nosso país.

O presidente da Petrobras, Philippe Reischtul, em

 

Ao mudar a política de preços mais recentemente, Parente terminou por criar uma armadilha de médio prazo para o próprio governo Temer. Afinal, estava claro que os baixos preços do barril do petróleo seriam recuperados em algum momento futuro. Pois a fatura chegou. Em uma primeira fase, foram os sistemáticos reajustes no preço do gás de cozinha, que estão provocando um piora dramática nas condições de vida da maioria da população de baixa renda. Com o desemprego monumental e a redução dos salários, pesquisas indicam que teve início a substituição dessa fonte de preparação de alimentos por lenha nas cozinhas da população mais desprotegida.

 

Gás de cozinha, gasolina, diesel: aumentos sem parar

Os aumentos frequentes nos preços de gasolina e diesel também passaram a pesar nas contas da classe média, além do impacto generalizado nos índices de inflação em razão do uso generalizado dessa fonte de energia pelo Brasil afora. E a população começou a perceber que a tal política de preços só operava para aumentos. Nas inúmeras ocasiões em que o preço do petróleo havia sido reduzido, os efeitos de queda jamais eram sentidos nos postos de gasolina.

 

Apesar de todas as evidências em contrário, o governo seguiu fazendo ouvidos moucos a tais reclamos generalizados de insatisfação com tal estratégia. A situação mudou a partir da semana passada. Com o forte simbolismo de cinco reajustes seguidos nos preços em uma única semana, o movimento dos caminhoneiros ganhou expressão nacional. E foi só a partir de tal pressão que Temer resolveu se mexer. Afinal, estão programadas eleições para o mês de outubro e os candidatos alinhados com o governo não querem saber de ainda mais novidades negativas para carregar como fardo pesado e incômodo em suas campanhas.

 

Assim, é bem provável que aquela bravata toda da “seriedade e competência” da área técnica em não ceder a pressões políticas seja abandonada. As trapalhadas todas de Trump na cena global têm contribuído para uma elevação dos preços do petróleono mercado internacional. Se o governo Temer mantiver essa obstinação burra de manter a equiparação automática, é bem capaz de tenhamos uma explosão ainda mais acentuada aqui dentro.

 

Reajuste automático de preços: política burra

Não faz sentido que o Brasil adote essa política que só se justifica para países que dependem totalmente do petróleo importado. No nosso caso, pelo contrário, somos autossuficientes graças à nossa grande produção interna. Ao longo de 2017, por exemplo, nosso saldo na balança comercial do óleo foi positivo em US$ 3,7 bilhões. Isso significa que exportamos mais do que importamos. O único raciocínio que pode explicar esse tiro no pé da duplinha Temer & Parente refere-se à preocupação com o investidor externo. Sim porque o detentor de ações pode considerar esquisito que a Petrobras deixe de ganhar ainda mais dinheiro com a alta nos preços do barril de petróleo praticada pelo cartel da OPEP. Afinal, isso representa menor valorização do papel nas bolsas e menor participação nos dividendos. Mas e daí?

 

Ora, estamos tratando de uma empresa pública e que deve atender prioritariamente aos interesses da maioria da população brasileira. O fundamental é que os resultados positivos de sua atividade econômica sejam utilizados para aumentar sua capacidade de produção interna, com mais investimentos. A remuneração dos lucros do acionista minoritário nas bolsas estrangeiras não pode ser o fator a determinar, por exemplo, a política de preços.

 

No entanto, por mais uma dessas ironias da História, Temer talvez seja obrigado a ceder ao movimento dos caminhoneiros. Depois de ignorar os pleitos generalizados por mudanças na política de desmonte na empresa, ele pode recuar frente ao poderoso lobby dos empresários da área de transportes. Felizmente no momento atual, os caminhoneiros terminam por verbalizar o sentimento generalizado de descontentamento popular com esse governo, que se desmancha um pouco mais a cada novo dia que passa.

30
Mai18

CAMINHONEIROS E SEUS PATRÕES FORNECEM COMBUSTÍVEL AO GOLPISMO. TEMER É O PRINCIPAL ARTÍFICE DO CAOS

Talis Andrade

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Foto Marlene Bergamo/ Folhapress

 por Mário Magalhães 

30
Mai18

Temer sem noção de nada e sem medo do ridículo

Talis Andrade


Quando um governo ilegítimo e fraco - e nada pode ser mais fraco e inerte que o governo de um presidente meramente decorativo - decide adotar medidas de força, deixam de existir limites para o avanço da crise

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Por Eric Nepomuceno

Em quatro dias de tensão máxima, entre terça e sexta-feira (de 22 a 25/5), Michel Temer conseguiu algo insólito: deixou de ser um presidente ilegítimo para assumir definitivamente o rol de presidente decorativo. Ou, como disse alguém, um ex-presidente em exercício.

 

Até os seus capangas no Congresso o atropelaram de forma impressionante. Supostos aliados o criticaram sem cerimônia ou respeito. Num primeiro momento, assumiram o mando numa espécie de parlamentarismo de última hora, e tentaram diminuir para sempre sua figura, adotando medidas de uma torpeza ímpar para solucionar a crise surgida a partir da greve dos caminhoneiros.

 

Outra façanha de Temer, que fez que seu isolamento alcançar níveis olímpicos, foi aplicar com talento único sua absurda capacidade de ridículo. Na última quinta-feira (24/5), enquanto a situação chegava à beira do abismo, o presidente estava no interior do Rio de Janeiro, numa cerimônia de expressão nula, para prestigiar a entrega de automóveis aos conselhos tutelares de menores. Sem pestanejar, afirmou a uma plateia atônita que aquele era “o acontecimento mais relevante” da jornada.

 

Naquela altura, em Brasília, ocorriam coisas que, para sua limitadíssima visão da realidade, eram menos importantes. Por exemplo, uma reunião de vários de seus ministros com os principais dirigentes dos sindicatos patronais de transportes, que atuavam pelas costas dos motoristas autônomos e que representam somente um terço do total de caminhoneiros existentes no país. Tentaram (e conseguiram) fechar um acordo, que, no fim das contas, não foi suficiente para acabar com a paralisação das estradas.

 

Enquanto isso, o aeroporto da capital brasileira informava que só permitiria o pouso de aeronaves com combustível suficiente para partir sem precisar se abastecer no local. Em todo o país se registravam imagens de um caos que se tornava cada vez maior. No Rio, a circulação de ônibus caiu pela metade. Em Recife, capital de Pernambuco, formaram-se filas enormes nos postos, que se estendiam por até dez quadras. Há bloqueios nas estradas de 25 estados, num total de mais de 550 cortes realizados por caminhoneiros autônomos. Nas gôndolas e prateleiras dos supermercados faltam verduras, legumes, carne e leite, e quando há, os preços chegam a ser até cinco vezes mais caros que na semana passada.

 

Contudo, para Michel Temer nada disso é mais importante que a solenidade de entrega de uns 600 automóveis, que na verdade eram a metade do que o seu desgoverno havia prometido aos transportadores.

 

 

A decisão de convocar as Forças de Segurança – leia-se, basicamente, o Exército – para desmobilizar os caminhoneiros parados em todo o país tampouco foi decisão sua: partiu do general Sergio Etchegoyen, um duro entre os mais duros, que comanda o Gabinete de Segurança Institucional, órgão que Dilma Rousseff havia extinto e que Temer ressuscitou.

 

Outro general, Joaquim Luna – o primeiro militar a se sentar na cadeira de ministro da Defesa desde que a carteira foi criada por Fernando Henrique Cardoso, há 20 anos –, assegurou que as Forças de Segurança atuariam “com energia”.

 

Sempre caminhando no rumo de expandir a crise ao máximo, Temer assinou, na tarde de sexta (25/5), um texto que foi entregue aos uniformados: o Decreto de Garantia da Lei e da Ordem, que tem duas funções: a primeira é liberar o Exército para impedir “atos que atentem contra a ordem pública”. Que tipo de ato? Ninguém sabe, exceto os casos óbvios de atirar pedras a soldados. A segunda é assegurar, com um dispositivo legal, que tudo o que se fizer para cumprir a missão até o dia 4 de junho (quando expira a validez do decreto). Por “tudo o que se fizer” entende-se: tudo o que a tropa fizer contra a população.

 

Quando um governo ilegítimo e fraco – e nada pode ser mais fraco e inerte que o governo de um presidente meramente decorativo – decide adotar medidas de força, deixam de existir limites para o avanço da crise.

 

A capacidade extraordinária de Michel Temer e seus bucaneiros de impulsar, e em velocidade recorde, o desmonte das políticas dos últimos 30 anos – inclusive anteriores ao governo de Lula da Silva, embora consolidadas ampla e infinitamente por ele – foi o que provocou o caos que estamos vivendo.

 

Entregar um patrimônio nacional como os campos dos Pré-Sal, outrora nas mãos da estatal Petrobras, diretamente às empresas estrangeiras, teve consequências alucinantes.

 

Ao longo dos oito anos de Lula da Silva, o preço dos combustíveis teve oito aumentos. Nos dois anos de Temer, já são 229. Isso mesmo: 229.

 

Por que Lula, e logo Dilma, trabalharam para conter esse preço? Para não pressionar a inflação, e para incentivar o crescimento da atividade econômica. Para que Temer e quadrilha permitiram uma série absurda de aumentos dos preços? Para atender aos interesses dos seus patrões nacionais e globais.

 

Ainda na noite de sexta-feira (25/5), o pegajoso ministro da Segurança Pública – um ex-militante de esquerda, que, como costuma ocorrer com esse tipo de sujeito, não só se debandou para a direita como inclusive para aquela mais agressiva e reacionária – dizia solenemente que quase metade dos cortes de estrada já haviam desaparecido.

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Entretanto, não desapareceu o risco de que os generais se encantem com a possibilidade de seguir com a série de intervenções.

 

Tampouco desapareceu a imagem concreta de um país desgovernado, e que acelera velozmente na direção do abismo.

 

28
Mai18

Sobre a paralisação dos caminhoneiros e seus mitos

Talis Andrade

 

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por LARISSA JACHETARIBERTI

 

5) (...) Com a mobilização que se potencializou em 21 de maio, uma série de pautas foram levadas para as “estradas”. Dentre os mobilizados nesse primeiro momento estavam autônomos e motoristas contratados. As informações que nos chegam é a de que eles estão deixando passar as cargas perecíveis e os medicamentos e os itens considerados de primeira necessidade.

6) A paralisação continuou e ganhou adesão das transportadoras que prometeram não onerar os funcionários nem realizar cortes salariais ou demissões por causa da greve. Afinal de contas, a redução do preço do Diesel também é do interesse da classe patronal.

7) A greve conta com grande apoio nacional, porque a alta do preço dos combustíveis afeta não só a prestação de serviços, mas a vida de grande parte dos brasileiros.

8) Os sindicatos estão batendo cabeça. De um lado, muitas federações e entidades soltaram nota dizendo que não apoiam a greve e que ela tem características de lockout justamente porque a pauta tem sido capitaneada pelos setores empresariais em nome dos seus interesses. Do outro lado, existem sindicatos de autônomos, como a própria CNTA, o Sindicam de Santos que puxou a paralisação na região do porto, e agora a Abcam, que recentemente se mobilizou na negociação, apoiando o movimento. Segundo nota, o presidente da Abcam esteve em Brasília hoje e depois de uma reunião frustrada disse que a greve dos caminhoneiros continua. A reunião tinha como objetivo negociar a redução da tributação em cima dos combustíveis.

Esse é o cenário geral da mobilização. Ela é composta por uma série de segmentos que conformam o TRC. E, obviamente, suscita algumas questões:

1) Existe uma clara apropriação da pauta dos caminhoneiros por parte da classe empresarial que exerce maior influência nas negociações. Isso significa que, por mais que a greve seja legítima, pode acabar resultando num “tiro pela culatra” a depender dos rumos tomados na resolução entre as partes e as lideranças.

2) Não existe uma pauta unificada, o movimento não é hegemônico, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista ideológico. Existe um grupo de caminhoneiros bolsonaristas, outros que são partidários de uma intervenção militar, outros pedem Diretas Já e Lula Livre. Ou seja, é um movimento canalizado principalmente, pela insatisfação em relação ao preço do Diesel.

3) Em função da grande complexidade e fragilidade das lideranças sindicais de autônomos, o movimento carece de uma representatividade que possa assegurar as demandas da classe trabalhadora, bem como que possa evitar o crescimento dos discursos conservadores e das práticas autoritárias. Enquanto isso, os sindicatos patronais acabam por exercer maior influência, determinando os caminhos da negociação e o teor das reivindicações.

4) Isso se faz notar, por exemplo, no tipo de reivindicação expressada por grande parte dos caminhoneiros que é a redução da tributação em cima do preço do combustível. Ora, todos nós sabemos que o cerne do problema é a nova política de preços adotada pelo governo Temer e pela Petrobras, que atualmente é presidida por Pedro Parente.

5) Novo parênteses sobre o tema: desde o ano passado, a Petrobras adotou uma nova política de preços, determinando o preço do petróleo em relação à oscilação internacional do dólar. Na época, esse tipo de política foi aplaudida pelo mercado internacional, que viu grande vantagem na venda do combustível refinado para o Brasil. Aqui dentro, segundo relatório da Associação de Engenheiros da Petrobras, a nova política de preços revela o entreguismo da atual presidência da empresa e governo Temer, que busca sucatear as refinarias nacionais dando prioridade para a importação do combustível. Tudo isso foi justificado na época com o argumento que era necessário ajustar as contas da Petrobras e passar confiança aos investidores internacionais.

6) É verdade, portanto, que o movimento em si tem uma percepção um pouco equivocada da principal razão do aumento dos combustíveis, mas isso não significa que toda classe dos caminhoneiros não faça essa relação clara entre o problema da política de preços da Petrobras e o aumento dos combustíveis.

7) De fato, portanto, o grande problema nesse momento é saber quem serão as pessoas a sentar nas mesas de negociação. De um lado, existe uma legítima expressão da classe trabalhadora em defesa das suas condições de trabalho e dos seus meios de produção. O aumento do Diesel é um duro golpe entre os caminhoneiros autônomos e a reivindicação da sua redução, seja pela eliminação dos tributos, seja pelo questionamento da política de preços da Petrobras, é legítima e deve ser comemorada.

8) A questão fundamental agora é saber o que o governo vai barganhar na negociação. Retomo, então, a questão da reoneração da folha de pagamento. O governo já disse que haverá uma reoneração da folha e esse é um dos meios de captação de recursos caso haja fim do Pis/Cofins incidindo sobre os combustíveis. Na prática, porem, a reoneração pode ter um impacto sobre os empregos dos próprios caminhoneiros, resultando em demissões.

9) Se houver o fim da tributação no Diesel, conforme inclusão do relator, Orlando Silva (PCdoB/SP), na Medida Provisória, de parágrafo que exclui a tributação, a classe trabalhadora e toda sociedade serão impactadas. Afinal de contas, com redução de receita, haverá, consequentemente, um corte no repasse da verba para a seguridade social, previdência, saúde, etc.

Considerando tudo o que foi dito, expresso meu incomodo com análises e percepções simplistas da esquerda, ou de pessoas que se dizem da esquerda, sobre o movimento. Locaute virou doce na boca dos analistas de facebook. Porque não atende à nossa noção de “movimento” ideal, os caminhoneiros que legitimamente se mobilizaram em nome da redução do preço do diesel estão sendo taxados de vendidos e cooptados, como uma massa amorfa preparada para ser manipulada.

Os “puristas” não entendem a complexidade da categoria, e tampouco atentam para a dificuldade que é promover a mobilização ampla desses trabalhadores, tendo em vista não só a precarização extrema à qual estão sujeitos, mas também à realidade itinerante de seu trabalho. Soma-se a isso o duro golpe que atualmente foi proferido contra as entidades sindicais menores de autônomos, com o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Sinto dizer aos colegas acadêmicos, portanto, que nem sempre nossos modelos de análise social se aplicam a realidade. Não se trata de uma disputa entre o bem e o mau; nem de um movimento totalmente cooptável e ilegítimo; uma massa manipulável e “bobinha”. Por outro lado, também não é um movimento cujos protagonistas tem uma consciência enquanto classe, enquanto categoria. Não é unificado, as pautas são heterogêneas e também voláteis. Por tudo isso, parte desses trabalhadores expressam reações conservadores e, alguns grupos, visões extremistas sobre a política e suas estratégias de luta.

Nada disso, ao meu ver, torna ilegítima a mobilização. Pelo contrário, é um convite para que busquemos entender mais das categorias sociais e para que aceitemos que as mobilizações sociais nem sempre atendem ao nosso critério idealizado de pauta, objetivo e organização.

 

 

 

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