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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

08
Jul18

Brasileira e negro zulu, casados há 13 anos, comparam o racismo no Brasil e na África do Sul

Talis Andrade

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A carioca Ana Terra Skosana, casada com o sul-africano Tshepo Skosana, membro da etnia zulu, o maior grupo étnico da África do Sul, considera que ainda existem fortes discriminações contra os negros mais de duas décadas depois do fim do Apartheid, o regime de segregação racial. O casal multirracial recebeu a reportagem da RFI em sua casa em Joanesburgo.


por Kinha Costa correspondente da RFI na África do Sul

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Na época do regime de supremacia branca, eles seriam um casal ilegal e sujeitos a multa ou prisão, porque existia a Lei de Imoralidade que proibia qualquer relação afetiva, sexual ou o casamento entre pessoas de diferentes raças. Felizmente, com o fim do regime separatista, essa e outras leis foram extintas e, hoje, a África do Sul tem uma Constituição (1996) considerada uma das mais modernas do mundo.

 

No entanto, os resquícios do antigo regime ainda são muito evidentes, apesar dos novos tempos, do esforço do governo e da sociedade para integrar seu povo e criar a Nação Arco-Íris, tão sonhada por Nelson Mandela. A grande maioria da população de 56 milhões de sul-africanos continua vivendo separada em grupos raciais.

 

As famílias multirraciais ainda causam desconforto, desdém, pena, cochichos e as mais inesperadas e bizarras reações, como a do juiz de paz, branco, que não queria realizar o casamento deles. Muitos africânderes, como são chamados os descendentes dos holandeses que colonizaram a região, ficam indignados porque pensam que Ana é sul-africana e, portanto, descendente de holandeses. Negros de diferentes etnias também estranham o casal, pela razão mesma razão, como se ela estivesse casada com um inimigo.

 

O casal se formou sem pensar em cor de pele, racismo e discriminação. Ela, com 19 anos, brasileira e branca. Ele, com 21 anos, negro, sul-africano, zulu. Para dois jovens apaixonados nada demais. Para a estrutura familiar e a sociedade em geral, um bicho de sete cabeças.

 

Ana e Tshepo se depararam com o racismo desde o início. O casal teve que amadurecer e lidar com o preconceito racial dos seus pais e familiares. E identificar o racismo brasileiro, que não é explícito, mas que está enraizado na sociedade. Não foi fácil enfrentar a rejeição familiar, a dissimulação social, os olhares e os comentários sem sutileza.

 

Expulso de casa pelo pai da noiva

“No Brasil foi duro. Na África do Sul, eu era somente um jovem mimado que vivia em uma bolha. O racismo era algo sabido, mas nunca vivido explicitamente. Me perceber rejeitado pela família da moça por quem estava apaixonado, foi chocante", conta Tshepo.

 

Por ter a pele clara, ele era considerado mulato no Brasil, e a questão profunda e discriminatória ficava escondida, apesar dos seus dreadlocks. A discriminação se manifestava em situações simples. Por exemplo, a família de Ana não entendia por que o jovem negro sul-africano, que mais parecia um garoto das favelas cariocas, escolheria morar em Ipanema, bairro chique da zona sul do Rio de Janeiro. Ser fino, instruído, educado e ter bom gosto não estava no programa.

 

"Um dia, o pai da Ana me expulsou da casa dela. Era carnaval, sem ter para onde ir, fiquei dois dias perambulando pelas ruas do Rio", recorda Tshepo. Leia mais

08
Jul18

“É melhor ser negro na Rússia do que no Brasil”, diz músico que trocou São Paulo por Kazan

Talis Andrade

Por Elcio Ramalho

 
“É melhor ser negro na Rússia do que no Brasil”, diz músico que trocou São Paulo por Kazan
 
Emerson Pinzindin, nome artístico escolhido em homenagem a Pixinguinha. E. Ramalho
 

O sol se põe em meio ao vaivém de moradores e turistas que circulam pela principal rua de Kazan, uma das cidades escolhidas como sede da Copa na Rússia. Tranquilamente, o paulista Emerson Pinto tira da mochila um aparelho de som e a flauta transversal. No chão, discos à venda e uma sacolinha para arrecadar dinheiro oferecido pelo público.

 

Enviado especial a Kazan

Em poucos minutos, um palco improvisado foi montado em frente a um dos restaurantes do famoso calçadão da cidade para um novo concerto ao ar livre. Entra em cena Emerson Pinzindin, nome artístico escolhido em homenagem a Pixinguinha. O repertório é eclético, mas sempre começa com alguns dos clássicos do choro.

 

“O nível musical da Rússia é muito alto. Eu me sinto lisonjeado de ganhar a vida aqui, com um relativo sucesso, não só por ser diferente. Não é só pelo impacto visual. Eles ouvem, se não for bom, tchau, não tem público”, afirma.

 

O espaço foi conquistado em um intervalo de tempo relativamente curto. Há apenas dois anos ele saiu de São Paulo para se instalar na capital da República do Tatarstão, interior da Rússia. Casado com uma russa no Brasil há 11 anos, Emerson decidiu largar a carreira de músico no próprio país para tentar uma nova vida em Kazan, terra natal da esposa.

 

“O Brasil começou a se convulsionar e ficou muito problemático. Eu quero ter filhos e tranquilidade. Aqui é uma cidade cosmopolita, universitária e turística. É um frenesi o tempo todo, no inverno e no verão”, justifica.

 

“Aqui não sou suspeito”

Emerson se surpreendeu com a facilidade com que se adaptou a um cultura e a um povo tão diferentes e percebeu rapidamente que havia desenvolvido uma percepção equivocada do país que o acolheu.

 

“Ser negro na Rússia é melhor do que ser negro no Brasil. O Brasil, infelizmente, é extremamente racista. Eu saí também um pouco por causa disso. Eu já estava ficando neurótico porque te perseguem tanto e você introjeta isso. Aqui eu ando e respiro livremente, não sou suspeito. No Brasil, o negro é eternamente suspeito, ele tem que provar a todo momento que é direito, honesto e íntegro”, revela. “Eu fiquei abismado com a capacidade dos russos de absorverem as pessoas. Eles são miscigenados também. Aqui, as pessoas tem traços orientais, de mongol”, explica, em referência à influência histórica do povo da Mongólia na região. 

 

O paulista Emerson PintoE. Ramalho

 

Depois da temporada de verão, Emerson toca em shows em ambientes fechados, como bares, restaurantes, hotéis e eventos particulares como festas e recepções. Ele toca sozinho ou acompanhado de outros músicos, principalmente cubanos. Assim como nos concertos nas ruas de Kazan, o brasileiro se adaptou às exigências do público local, e costuma terminar suas apresentações cantando “Ai se eu te pego”, de Michel Teló, e La Bamba, em espanhol.

 

“O choro aqui não é conhecido, a música não é tão conhecida. Só conhecem um pouco de bossa-nova, do Tom Jobim, principalmente quem trabalha com música. Eles gostam muito de música latina, cantada em espanhol. Faz sucesso aqui. Tem que tocar de tudo, é como uma rádio, um leque grande”, comenta. “No dia a dia, as pessoas querem de tudo, coisas variadas. Essa é a fórmula que funciona, não só na Rússia, como no Brasil e em todo o mundo”, afirma.

 

 
25
Jun18

Efeito Moro: O Brasil desMOROna

Talis Andrade

BRASIL AMARGA 7 MIL OBRAS PARADAS SÓ NA ESFERA FEDERAL

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Zamba Brazil. Mucho circenses and less panem, by Zensenf

 

247 – O volume de obras paradas no Brasil é tão grande que nem mesmo os pesquisadores conseguem mensurar a dimensão do desastre. Claudio Frischak, presidente da InterB, afirma que as 7 mil obras paradas do governo federal representa um número conservador, pois a própria capacidade de o governo fornecer as informações está comprometida.

 

O gasto com a retomada dessas obras seria, dentro desse quadro conservador, da ordem de R$ 144 bilhões. As paralisações atingem todas as esferas públicas: governos federal, estados e municípios.

 

As paralisações vão desde creches a escolas até a grandes obras com as ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste. Toda essa paralisação de projetos no meio do caminho faz com que o problema seja muito maior do que o mero desperdício de dinheiro público. A interrupção arrasta cadeias produtivas inteiras, incidindo no emprego, na violência e nos dados gerais de retração econômica.

 

“Além dos transtornos para a população, a interrupção de uma obra representa grande prejuízo para o poder público, com o inevitável aumento dos custos numa retomada, afirma o presidente da Comissão de Infraestrutura da Cbic, Carlos Eduardo Lima Jorge. Isso ocorre por causa da deterioração de serviços já feitos e de reajustes do contrato pelo tempo parado.

 

Para o executivo, existe ainda outro efeito perverso na paralisação de obras: muitas delas perderam sentido econômico e social e não se justificam mais. “Ou seja, o dinheiro investido no início do projeto vai para o lixo”, completa o presidente do Cbic, José Carlos Martins. Na avaliação dele, mesmo aquelas que têm racionalidade econômica correm o risco de não serem concluídas. Além da falta de dinheiro, diz o executivo, as obras paradas também sofrem com problemas de desapropriação, licenciamento ambiental e má qualidade dos projetos executivos.”

Leia mais aqui.

24
Jun18

Fica cada vez mais evidente o ódio do Poder Judiciário a Lula

Talis Andrade

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por Afrânio Silva Jardim
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Desalento e desencanto. Cada vez mais fica evidenciado que o nosso Poder Judiciário tem verdadeiro ódio ao ex-presidente Lula.

 

Na verdade, além dos sentimentos assinalados acima, confesso que, por vezes, me bate também um certo desespero. Desespero ao perceber que as injustiças que estão sendo perpetradas contra o ex-presidente Lula têm total beneplácito dos nossos tribunais, que acabam referendando as incorretas decisões dos juízes de primeiro grau.

 

Aos poucos, vamos nos convencendo – ainda tenho alguma esperança – de que as vias judiciais estão fechadas ao ex-presidente Lula, nada obstante os “gritos” da maioria dos componentes de nossa comunidade acadêmica e jurídica.

 

Será que a nossa nação terá de assistir à morte, na prisão, de seu maior líder popular, do maior líder de toda a história do Brasil?

 

Será que teremos de aceitar a vitória da hipocrisia de uma classe conservadora sobre a generosidade deste grande líder, de grande conceito internacional?

 

Será que ainda se justifica acreditar em nosso sistema de justiça criminal, rançoso e corporativista, formado, em grande parte, por pessoas rancorosas, raivosas, sem cultura humanista, vaidosas e punitivistas?

 

Será que não seria o caso de me afastar de todas estas atividades ligadas ao mundo do Direito, por absoluta desilusão e decepção com o que o Poder Judiciário e o Ministério Público estão fazendo de mal aos nossos melhores valores?

 

Será que querem “fechar as portas” das saídas institucionais e democráticas ao nosso povo, criando condições para comoções de ordem social de consequências imprevisíveis?

 

Será, finalmente, que não vale mais a pena acreditar na possibilidade de termos a prevalência da justiça sobre os interesses mesquinhos de uma classe social de privilegiados e de altos funcionários corporativistas, que não aceitam que ascendam ao poder político governantes comprometidos com os anseios populares?

 

 

 

22
Jun18

E se as crianças presas fossem americanas?

Talis Andrade

 

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por Fernando Brito

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Finalmente, da metade da capa para baixo, ganha algum – e ainda muito pouco – destaque na Folha o fato de haver crianças brasileiras presas – e são ao menos 49, em lugar das oito informadas ontem – por seus pais estarem sendo processados por imigração ilegal aos Estados Unidos.

 

A imprensa e a diplomacia brasileira, diante do caso absurdo, não fazem mais que miar lamentos e preferem destacar a “ordem” de Donald Trump para que sejam reunidas aos pais – e sigam presas, portanto. No máximo, uma nota do Itamaraty dizendo que o episódio “é uma prática cruel e em clara dissonância com instrumentos internacionais de proteção aos direitos da criança”.

 

Tão pouca é a reação que candidato do fascismo por estas bandas não se acanha em, nos jornais, estar mendigando uma audiência para prestar vassalagem a Donald Trump.

 

Basta aos amigos e amigas imaginarem, para que se tenha ideia do absurdo que é isso, se uma, apenas uma, criança norte americana estivesse detida num abrigo com grades e telas, posta a dormir num colchonete em uma quadra de esportes ou em barracas de lona, como se viu nas fartas fotografias distribuídas pelas agências de notícias.

 

E separadas dos pais, também presos, por uma distância maior que a entre Porto Alegre a Manaus, em linha reta, como registra a Folha:

 

A reportagem da Folha (…) identificou a localização das 15 instituições que receberam os brasileiros. A maior parte das crianças está na região de Chicago, que concentra 29 delas. Oito estão no estado fronteiriço do Arizona, sete, no Texas, e duas, na Califórnia. Também há menores brasileiros em instituições da Flórida e de Nova York. Os pais, por outro lado, estão em prisões federais próximas à fronteira –ou seja, a até 3.500 km de distância dos abrigos. Na maior parte dos casos, eles não sabiam do paradeiro das crianças até que o consulado brasileiro fizesse contato.

 

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Imagine o desespero de crianças que, algumas, têm apenas cinco anos de idade.

 

 

Faltaria pouco para nos ameaçarem com os marines, não é? No mínimo, nosso embaixador em Washington teria sido chamado a dar explicações e exigir a repatriação de pais e filhos.

 

Mas agora o “problema” parece estar “resolvido”, com as crianças “podendo” ficar presas com os pais!

 

Se alguém precisava de uma “ilustração” prática do que é o “complexo de vira-latas”, aí está: os pais pegos pela “carrocinha” e os filhotes levados com eles para o canil.

 

 

22
Jun18

Mujica teme pelo futuro do Brasil: O perigo de uma penosa confrontação

Talis Andrade

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"Vim trazer um abraço a um velho amigo de luta. Recordem: os homens e mulheres podem ter seu corpo preso. Mas a causa pela que lutamos não pode ser presa, porque caminha pelas pernas dos nossos companheiros. É uma luta que não começou com vocês e nem com a gente. E nem vai terminar com a nossa vida. Vale à pena estar vivo e lutar por igualdade nesta terra", disse Mujica ao deixar a sede da PF

O ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, visitou nesta quinta-feira (21) o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cela onde está preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Mujica, que foi preso político por 14 anos, trouxe sua solidariedade a Lula e afirmou que a América Latina sofre com a situação atual do Brasil.

 

"Vim trazer um abraço a um velho amigo de luta. Recordem: os homens e mulheres podem ter seu corpo preso. Mas a causa pela que lutamos não pode ser presa, porque caminha pelas pernas dos nossos companheiros. É uma luta que não começou com vocês e nem com a gente. E nem vai terminar com a nossa vida. Vale à pena estar vivo e lutar por igualdade nesta terra", disse Mujica ao deixar a sede da PF.

 

O ex-presidente uruguaio relembrou o legado de Lula para a América Latina. "Venho de um pequeno país. E Lula quando foi presidente desse país gigantesco teve uma atitude de muita consideração com os países pequenos da América Latina. O Brasil se comportou, na era Lula, como uma espécie de irmão mais velho. E isso reconheceremos sempre".

 

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Mujica afirmou ainda que encontrou Lula "com ânimo, um pouco mais magro e lendo muitos livros" e preocupado com o futuro do Brasil e da América Latina. "O importante é se ter uma causa para viver e não viver só porque nascemos. Lula são todos os que tem problemas na imensidão da nossa América Latina."

 

Mujica dijo que cuando Lula fue presidente, Brasil se comportó "como una especie de hermano mayor" de Uruguay, y dijo que esa "es una de las razones que reafirman una amistad que venía de antes".

 

Consultado sobre los temas que formaron parte de su conversación con Lula, Mujica evitó dar mayores detalles. "¿De qué podemos conversar? De la preocupación de lo que pasa en América y...", dijo con un ritmo pausado y sin terminar la frase.

 

Por otra parte, anunció que "lo que más" le "preocupa" es "que el pueblo brasilero pueda encausar su futuro, sobrellevar sus contradicciones, no perder su alegría, y no caer en una confrontación penosa".

 

Moverse con astucia

Mujica estacó que los latinoamericanos necesitan astucia para el mundo que va a venir “para tener vínculos porque sino en el mundo que viene no existimos, debido a que no somos ni el 10% de la economía mundial”.

 

03
Jun18

O país dos canalhas – Final – A garganta profunda do abismo

Talis Andrade


O Brasil é um país de ficção devorado lentamente por urubus

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por Sebastião Nunes

 

– Sabe no que estou pensando, agora que estou indo embora? – perguntou Philip Marlowe a Raymond Chandler.

– Não faço a menor ideia – respondeu o escritor.

 

– No filme “Corações e mentes”, de Peter Davis, o documentário mais impressionante que já vi. Uma cena que nunca esqueci é a de um grupo de executivos vietnamitas, de paletó, gravata e pastas de luxo participando de uma reunião com executivos estadunidenses, discutindo não sei mais o quê.

– Não esqueceu por quê? – perguntou Chandler.

– O Vietnã estava atolado em violência e crueldade. A população era dizimada nos campos e nos arrozais por Napalm e, nas cidades, por granadas embutidas em bombas de bicicletas. Aviões disparavam contra qualquer alvo que se movesse: homens, mulheres, crianças, bois, cachorros, lagartos. E os executivos, como se aquilo não fosse com eles, bem vestidos e bem falantes, discutindo negócios com os ianques, numa grotesca demonstração de servilismo. Como se eles estivessem de quatro, abaixando as calças e implorando: “Me enraba”.

– E o que isso tem a ver com o Brasil? – perguntou o escritor.

– Tudo – respondeu amargamente Marlowe. – Absolutamente tudo. Talvez nunca chegue a um Vietnã, o Brasil, quero dizer, porque os brasileiros não têm colhões para enfrentar grandes dificuldades. Se gastam em falatórios, discursos e panfletos, como se todos fossem intelectuais metidos em gabinetes assépticos. Nem a violência chegará a proporções vietnamitas, porque sempre haverá a canalha que apela para soluções menos drásticas, porém igualmente trágicas: golpes secundários dentro do golpe primário, a eterna ameaça de intervenção militar, liquidação sistemática de pobres e negros, eleições indiretas à espreita... Sabe por que estou achando ótimo ir embora?

– Por quê? – indagou Chandler.

– Porque, em tão pouco tempo de Brasil, descobri que é mais ou menos como o México, a Colômbia e o Paraguai: eternos paraísos de elites corruptas. E com a elite se vendendo como a elite vietnamita antes que ser apeada do poder.

 

MARLOWE SE DESPEDE

Depois de ligar para o escritor para que o buscasse, já que era personagem e não tinha autonomia, o detetive particular tivera tempo de pensar e concluir.

 

Pensou nos canalhas que o haviam contratado: Amnércio Neves, Joseph Serrote, Ednardo Cunha e Sérgio Cabreiro. O objetivo, não custa repetir, era assaltar o Banco Central. Os desdobramentos, contudo, foram tantos que a tarefa nem chegou a ser definida com precisão. Amnércio e Serrote, oportunistas como eram, tinham encolhido, encolhido, encolhido – até sumir na sombra. Será que ao menos eram cumprimentados pelos vizinhos? Talvez não. Calhordas desse tipo fedem tanto que afastam as pessoas com um mínimo de decência. Os dois restantes estavam presos e, até onde podia imaginar, continuariam presos, com longas penas a cumprir.

 

Lembrou a quantidade de cocaína e outras drogas que rolava nos gabinetes que frequentou. As bacanais que enchiam as noites de congressistas, ministros e ricaços de todo o país. As fortunas que desapareciam em malas, apartamentos, paraísos fiscais, contas forjadas, empresas fantasmas.

 

E o judiciário sempre com dois pesos e duas medidas, prendendo e condenando sem provas, ou com provas plantadas. Os motivos eram óbvios: ninguém chega a procurador ou ministro de tribunal sem costas largas, sem família rica, sem berço de ouro, sem ancestrais importantes. Ou raríssimos chegam. O importante, então, é manter as 200 famílias reinantes reinando. Grimpadas lá em cima. Dividindo o espólio. Garantindo as heranças. O resto que se foda.

 

MARLOWE VAI EMBORA

Pela janela do avião o detetive viu a floresta lá embaixo. Que coisa maravilhosa! Que riqueza inestimável! E tudo vendido a preço de banana.

“Prefiro mil vezes”, pensou, “enfrentar o baixo mundo de Los Angeles, aqueles mafiosos duros matando e morrendo, do que os canalhas brasileiros, pequenos filhos da puta, sem um pingo de coragem, capazes apenas de rapinar e acumular”.

 

A seu lado Raymond Chandler ressonava.

Marlowe suspirou, recostou-se na poltrona e se deixou embalar pelos ruídos das turbinas e pelos movimentos dos comissários de bordo.

Ah, como era bom deixar de lado toda aquela sujeira, toda aquela podridão, toda aquela canalhice, para a qual não via solução.

 

Cansado, abriu o livro que estava lendo nos últimos dias, o delirante “2666”, do chileno Roberto Bolaño. O trecho que releu era sobre os pobres do México.

“Experimentaram o que era estar num purgatório, uma longa espera inerme, uma espera cuja coluna vertebral era o desamparo, coisa muito latino-americana, aliás, uma sensação familiar, uma coisa que se você pensasse bem experimentava todos os dias, mas sem angústia, sem a sombra da morte sobrevoando o bairro como um bando de urubus e espessando tudo, subvertendo a rotina de tudo, pondo todas as coisas de pernas para o ar.”

 

– O Brasil é isso – disse Marlowe.

– Que foi que disse? – perguntou Chandler acordando.

– Que o Brasil é um país de ficção devorado lentamente por urubus.

 

 

25
Mai18

“O futuro não ia ser assim”: Pobreza extrema volta a crescer no Brasil

Talis Andrade


Mais de um milhão e meio de brasileiros despencam

para nível social mais baixo em 2017, o segundo ano

consecutivo que o número de pobres aumenta

 

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Maria Siilva Nunes, no refeitório de uma escola de Heliópolis TOM C. AVENDAÑO
 
por TOM C. AVENDAÑO
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Em 14 de maio de 2017, Maria Silva Nunes, sexagenária, negra e com uma expressão de cansaço permanente no rosto, passou da classe social mais baixa do Brasil para a pobreza extrema. Era o Dia das Mães e sua família, com a qual levava uma vida precária em Heliópolis, a favela mais populosa de São Paulo, ia se reunir para comemorar. Ali estavam suas três filhas: a doente que ainda mora com ela, a que teve o primeiro de três filhos aos 16 anos e até a que está na prisão, beneficiada pelo indulto do Dia das Mães. O dia começou bem e terminou no extremo oposto. “Fabiana, a do meio, parecia que estava dormindo na cadeira, cansada de tanta criança e tanta festa, mas não estava dormindo, estava morta”, lembra Maria Silva, retorcendo os punhos encostados na mesa do refeitório de uma escola. Não revela a causa da morte: aperta os lábios como se reprimisse um gesto, aguardando a próxima pergunta. “Ela estava morta, o queixo estava no peito. Morta.”

 

Tudo o que aconteceu depois, que arruinou a frágil existência de Maria Silva Nunes aos 63 anos, aconteceu de forma precipitada, uma reação atrás da outra. O marido da falecida e pai de seus três filhos pegou um deles e desapareceu. “Ele é catador, o que vai fazer?” Maria Silva herdou a responsabilidade de cuidar dos outros dois, de 16 e 12 anos, em uma idade em que outras mulheres estão se aposentando. Com Fabiana se foi também o dinheiro que ela lhe dava todo mês. Nem conseguiu manter o Bolsa Família: “Isso é para pais e filhos, não te dão se você é avó”, intui. Em casa também está a outra filha em liberdade, que não tem trabalho e seu filho. Há meses em que entram apenas 60 reais e nada mais: são os meses em que, se a cesta básica acaba, Maria Silva sai em busca de comida no lixo. Mais dia menos dia, supõe, vão cortar a luz. “Devo 583 reais em contas e ainda não sei como vou repor o pacote de arroz que está acabando.” E, depois, teme que sua família ficará sem casa. Naquele Dia das Mães, Maria Silva perdeu uma filha e tudo que a impedia de afundar ainda mais. “Tudo ficou difícil. E continua difícil”, suspira. “Não tenho ninguém. Aqui é só eu e Deus.”

Maria Silva Nunes tropeçou em uma das frestas mais nocivas do Brasil recente: o aumento de 11% na pobreza extrema desde o final de 2016, um buraco negro pelo qual passaram, como ela, um milhão e meio de habitantes. Em um país em que o Governo celebra a recuperação econômica após anos de recessão, havia, no início de 2017, 13,34 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema; no final do mesmo ano, já eram 14,83 milhões, o 7,2% da população, segundo relatório da LCA Consultores divulgado pelo IBGE. Apesar de não serem números astronômicos, esse é o segundo ano consecutivo em que a tendência se mantém após o progresso espetacular do país entre 2001 e 2012, quando se erradicou 75% da pobreza extrema no Brasil, de acordo com cálculos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

 

“A queda da pobreza naqueles anos é explicada pela melhora do mercado de trabalho, que vem se deteriorando nos últimos anos. Há menos formalidade, ou seja, há pessoas trabalhando sem carteira assinada, enquanto os salários, em geral, não estão crescendo”, pondera o economista Fernando Gaiger, que pesquisa a pobreza e a desigualdade para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Isso tem mais a ver com a recessão do que com a reforma trabalhista de Temer, cujos resultados só começaremos a ver no final do ano que vem. Mas é inegável que pioramos. Alguém sem carteira assinada perde o emprego e depois a casa e logo logo está na rua. De uma hora para outra, tudo muda.”

20 anos trabalhados, 0 reais

Priscilla Mourilo, na porta de sua casa em Heliópolis
Priscilla Mourilo, na porta de sua casa em Heliópolis TOM C. AVENDANO
 

Priscila Mourilo, vizinha de Maria Silva em Heliópolis, nunca imaginou que seria vítima dessa questão trabalhista. Quando era pequena, essa jovem na casa dos vinte anos, de costas largas e cabelos castanhos se sentia mais ou menos segura porque seu pai trabalhava em uma copiadora. Podiam viver sem grandes dificuldades com outros vizinhos da classe média baixa em Diadema, na periferia de São Paulo. “Entrava, saía... Era uma mulher livre”, lembra hoje. Se apaixonou, foi morar em Heliópolis, de onde era seu namorado, e lá teve três filhos. O namorado desapareceu depois de algum tempo, mas deixou-a ficar no apartamento de sua mãe. E aí os problemas começaram. À medida que cresciam, as crianças foram mostrando problemas de desenvolvimento: “O mais velho, Maurício [oito anos], tem uma ligeira deficiência. O menor, Murilo, está com sete anos e acho que também tem. Não para quieto, é impulsivo, não se concentra, não fala bem, não sabe abotoar um botão, não se limpa quando vai ao banheiro...”, diz ela no sofá de sua diminuta casa na favela. Está sob uma enorme mancha de umidade de onde pinga água. No seu colo está Mia, a gata que têm para pegar os ratos que se aproximam da casa.

 

Forçada a olhar as crianças a cada segundo que passam acordadas, Priscila descarta procurar trabalho. Seu único recurso seria pedir dinheiro ao seu pai, mas ele perdeu o emprego na copiadora depois de 20 anos e não recebeu nenhuma indenização. Também não tem direito a aposentadoria: não tinha carteira assinada. Priscila engravidou outra vez, do mesmo namorado. Sua mãe, sexagenária, teve que deixar a aposentadoria e começar a fazer faxina para sustentar a família. “Eu gostaria de sustentá-los, mas não tenho como”, repete, com olhar envergonhado. Quando cresceu, sabia que não era rica, mas nunca suspeitou que acabaria sendo extremamente pobre.

 

Em janeiro de 2017, perdeu o Bolsa Família. Nem ela sabe dizer o motivo. “E eu comecei a sentir medo. Medo e fome. Não tinha dinheiro para comprar biscoitos para os meninos, nem fraldas para a menina. Acordava sem saber o que ia comer, se conseguiria arranjar alguma coisa para alimentar meus filhos. Sobrevivo com o dinheiro que minha mãe me manda.” Cerca de 200 reais por mês. O pai das crianças não trabalha? “Ai moço, boa pergunta. Ele cata papelão, não tem dinheiro.” Você sabe como vai passar o próximo mês? “Pelejando. Pelejando como sempre. Mais do que isso não dá para saber. O futuro não ia ser assim.” Transcrito do El País

 

23
Mai18

GENOCíDIO ANUNCIADO Mortalidade infantil impõe queda de braço com ajuste fiscal de Temer

Talis Andrade

Estudo da Fiocruz aponta que limite de gastos que afetam Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família podem ter impacto direto na mortalidade de milhares de menores de até 5 anos até 2030

 

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As meninas Bruna (esq.) e Ludmila, que foram localizadas em uma família

que não recebia o Bolsa Família em 2015. ALEX ALMEIDA

por Talita Benidelli

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O congelamento de gastos planejado pelo Governo de Michel Temer como resposta à crise econômica poderá ter um impacto direto na mortalidade de crianças, aponta um estudo feito por analistas ligados à Fiocruz e divulgado nesta terça-feira pela revista científica norte-americana PLoS Medicine. Os pesquisadores fizeram uma simulação de quantas mortes de menores de cinco anos poderiam ser evitadas até 2030 caso os programas Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família tenham seus orçamentos aumentados de forma proporcional ao acréscimo no número de pobres no país. Seriam 19.732 mortes a menos até 2030 em comparação com o cenário mais provável, o de que os orçamentos aumentem apenas segundo a inflação do ano anterior, como prevê, de forma global para todas as pastas do Governo, a Emenda Constitucional 95(antiga PEC 241). A extrema pobreza no Brasil aumentou 11% entre 2016 e 2017, mas o orçamento do Bolsa Família previsto para este ano é menor do que o do ano passado.

"Quando você congela os gastos, ou seja, os ajusta de acordo com a inflação, você não consegue manter o nível de proteção social que você tinha antes”, diz Davide Rasella, do Instituto de Saúde de Coletiva da Universidade Federal da Bahia e principal autor do estudo. Segundo ele, a matemática não fecha porque há três dinâmicas sociais que não estão sendo ajustadas: primeiro, o crescimento populacional que faz com que se tenha menos dinheiro por pessoa. Depois, o envelhecimento populacional, dinâmica importante tanto para a assistência social como para a saúde. E, ainda, a inflação da tecnologia da saúde, que faz com que os custos da área aumentem a cada ano.

 

O estudo se apoia em duas notas técnicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgadas em 2016, logo após a aprovação da Emenda Constitucional que congela os gastos do Governo. A primeira delas afirmava que em 20 anos de aplicação da PEC a política de assistência social brasileira, que comporta o Bolsa Família, contaria com menos da metade dos recursos necessários para garantir a manutenção da cobertura nos padrões atuais. A segunda nota apontava que, até 2036, o Sistema Único Brasileiro (SUS), responsável pelo Saúde da Família, perderia cerca de 400 bilhões de reais —número similar ao achado por outro estudo, do Conselho Nacional de Saúde.

 

Os pesquisadores também se basearam em outra nota, do Banco Mundial, que recomendou um aumento no orçamento do Bolsa Família em 2017 para 30,41 bilhões de reais para fazer frente aos brasileiros que entraram na faixa da pobreza pela severa crise econômica. "A distribuição do orçamento adicional do Bolsa Família para as famílias recém elegíveis entre os novos pobres pode evitar que a taxa de pobreza extrema no Brasil aumente para além do nível de 2015", afirma este estudo. Em 2017, o Governo gastou 28,9 bilhões para 13,8 milhões de famílias, aponta o site Poder 360. Para 2018, o orçamento previsto para o programa é menor: 28,2 bilhões, para 13,9 milhões de beneficiários. O Governo, entretanto, anunciou um reajuste no valor repassado às famílias no último dia primeiro. (Continua)

 

23
Mai18

EM APENAS 4 MESES, EUA VENDEM QUASE R$ 7 BILHÕES EM ÓLEO DIESEL PARA O BRASIL

Talis Andrade

por Miguel do Rosário

 

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Mesmo com a economia patinando e as hidrelétricas voltando a encher, o Brasil está registrando aumentos impressionantes na importação de óleo diesel. No acumulado dos últimos 4 meses (jan/abr) deste ano, o Brasil já importou um total de US$ 2,39 bilhões em óleo diesel, um aumento de 58% sobre igual período do ano anterior. Na comparação com igual período de 2016, o aumento foi de 235%.

 

Os dados são oficiais do governo federal, e podem ser consultados no seguinte endereço: http://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral

 

O Brasil nunca importou tanto óleo diesel.

 

Com o aumento dos preços do petróleo, a conta vai ficar cada vez mais cara para o Brasil, elevando o custo de produção de todos os produtos nacionais, visto que o principal meio de transporte de mercadorias usado no país ainda é o caminhão movido a diesel.

 

Em reais, o Brasil gastou R$ 8,7 bilhões com a importação de óleo diesel, apenas nos 4 primeiros meses do ano.

 

Os itens mais pesados em nossa balança comercial tem sido derivados de petróleo. De janeiro a abril deste ano, segundo dados oficiais, o Brasil importou US$ 8 bilhões em derivados de petróleo, petróleo bruto, álcool e carvão, o que corresponde a R$ 29 bilhões, mais de 8 bilhões a mais do que o Executivo gastou efetivamente com saúde pública no primeiro trimestre de 2018.

 
 

A conta do petróleo está ficando muito pesada porque as primeiras medidas do governo Temer foram reduzir a produção das refinarias nacionais, além de suspender as obras de todas as refinarias em construção. Esta última decisão, a bem da verdade, veio da Lava Jato, cujos ataques mais virulentos contra a Petrobrás vieram sob a forma de suspensões judiciais e demais ações – incluindo a destruição das empresas responsáveis –  que inviabilizaram as obras nas refinarias.

 

O Brasil está voltando a ser uma velha colônia do século XIX. Nosso pré-sal está sendo vendido cru, sem nenhum tipo de valor agregado, e estamos comprando uma quantidade crescente de derivados do mesmo petróleo.

 

O maior beneficiário disso são os Estados Unidos, que coincidentemente elevaram brutalmente sua participação nas importações brasileiras de óleo diesel, de cerca de 40% antes do impeachment, para cerca de 80% em seguida. Em Jan/Abr 2018, os EUA exportaram US$ 1,84 bilhão em óleo diesel, para o Brasil, ou seja, R$ 6,73 bilhões.

 

Os caminhoneiros, uma das mais importantes categorias profissionais do país, devem ser esclarecidos que eles são vítimas, como todos nós, de um processo imperialista.

 

Alguns militantes estão reagindo com ressentimento contra os caminhoneiros, porque alguns deles se posicionaram contra Dilma Rousseff em 2015. Isso é um erro. Caminhoneiros são trabalhadores, e os partidos aliados à classe trabalhadora devem operar para ajudá-los a se organizarem, e a entenderem melhor a conjuntura.

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Transcrito do blog O Cafezinho

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