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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

04
Jul19

Candidato a presidente da Argentina visita Lula

Talis Andrade

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247 - Candidato a presidente na Argentina, o advogado e professor de Direito Penal Alberto Fernández, que tem como vice em sua chapa a ex-presidente Cristina Kirchner, esteve nesta quinta-feira 4 na sede da Polícia Federal em Curitiba para visitar o ex-presidente Lula. "Para mim é uma alegria ver Lula, uma figura importante para todos nós. Os argentinos têm enorme reconhecimento e carinho por Lula. E sua prisão não é algo que passa despercebida", comentou.

Como jurista, Fernández lamentou que um fato como a prisão de Lula aconteça na América do Sul e destacou que o ex-presidente "tinha que estar em liberdade para defender-se". [A prisão de Lula é uma] "mácula ao estado de Direito e é preocupante que isso aconteça em nosso continente", afirmou. "O Brasil não merece ter uma mancha como a prisão de Lula. O povo brasileiro não merece", completou.

O candidato fez seu discurso e respondeu a perguntas ao lado de Celso Amorim, ex-chanceler dos governos Lula, que celebrou o vídeo divulgado mundialmente pelo Papa Francisco nesta quinta em que critica violações do Judiciário no momento em que vem sendo revelado um conluio de Sérgio Moro com procuradores da Lava Jato. Para o ex-ministro, "é uma grande alegria" que o Papa tenha entrado na luta contra o lawfare.

Fernández comentou que os casos de Brasil, Argentina e Equador são muito similares, envolvendo Lula, Cristina Kirchner e Rafael Corrêa, nos quais as instituições 

Celso Amorim disse ainda que a visita de Alberto Fernández a Lula "é extremamente significativa". "O fato de um candidato à presidência da República vir visitar um presidente que está preso demonstra verdadeira solidariedade", comentou. Lula disse a Fernández, segundo Amorim, que "sua primeira tarefa é ganhar na Argentina". "Com a vitória, poderíamos ter a esperança da volta da democracia na América do Sul", apontou.

 

01
Jul19

“Soldados de toga”, a nova ameaça à América Latina

Talis Andrade

Esqueça tanques e armas. As guerras do século 21 são feitas com tribunais e juízes. O ataque a inimigos políticos pela lawfare mostrou-se efetivo na Argentina, no Brasil e no Equador. Agora, o alvo é López Obrador, no México. Conseguirá resistir?

Por John M. Ackerman | Tradução: Rôney Rodrigues

A guerra não se faz somente com armas, mas também com a lei. Na América Latina, o warfare é feito, cada vez mais, por meio do lawfare, onde se utilizam as cortes e os tribunais para eliminar os adversários políticos.

Faz alguns dias, o jornalista Glenn Greenwald e a equipe do The Intercept Brasil divulgaram o que sempre suspeitávamos: o senhor Sérgio Moro serviu como juiz e acusador no julgamento contra Luiz Inácio Lula da Silva por supostos atos de corrupção.

Como juiz, Moro teria que manter-se autônomo e independente, mas, na verdade, instruía, ensinava e assessora o advogado Deltan Dallagnol, promotor do caso. Atuou em consigna para colocar Lula na prisão e, assim, tirá-lo da disputa presidencial.

E, como prêmio pelo seu exitoso lawfare, Jair Bolsonaro nomeou Moro como seu ministro de Justiça imediatamente depois das eleições presidenciais. Mais claro que isso, impossível!

O coronel estadunidense Charles Dunlap foi quem fez a melhor definição de lawfare: “um método de guerra não convencional em que a lei é usada como um meio para se conseguir um objetivo militar”.

Isso também está acontecendo no Equador. O presidente Rafael Correa está refugiado em Bruxelas porque o governo do atual presidente, Lenín Moreno, o acusou falsamente de orquestrar, durante seu mandato, o sequestro de um jornalista na Colômbia.

O vice-presidente de Correa, Jorge Glas, já está recluso na prisão e o antigo chanceler de Correa, Ricardo Patiño, teve que abandonar o país para evitar a mesma perseguição política e judicial.

Cristiana Kirchner também se encontra sob permanente perseguição judicial na Argentina. O objetivo é tirá-la do caminho para a Casa Rosada, que concorre ao lado de Alberto Fernández nas eleições presidenciais de outubro desse ano.

No México, a oposição autoritária também já prepara seus batalhões para promover o lawfarecontra o governo de Andrés Manuel López Obrador

A primeira tentativa foi a série de processos e impugnações contra a construção do novo aeroporto de Santa Lucía.

Agora resulta que aquelas que mais atacavam López Obrador por cancelar as obras de Texcoco [projeto que era grande aposta do governo do ex-presidente Enrique Peña Nieto, rechaçado por referendo popular] querem também cancelar as de Santa Lucía!

Mas o México não necessitava “modernizar” sua infraestrutura e “abrir-se” ao mundo?

A agenda é clara. Não se busca defender o meio ambiente ou o povo de Santa Lucía, mas, simplesmente, bloquear, por meio da via judicial, qualquer projeto de López Obrador.

Os adversários estão zangados pelo cancelamento de sua rede de corrupção em Texcoco e querem separar-se e derrotar o presidente mexicano a qualquer preço.

Felizmente, López Obrador já tem uma longa experiência nessa modalidade de batalha e já saiu vitorioso em todas, incluindo o caso de Paraje San Juan em 2003 [quando netos de um suposto proprietário de um prédio da capital exigiam do governador indenização pela utilização do imóvel. Comprovou-se, mais tarde, que o “avó” nunca havia existido] e o ultraje de 2005, quando exercia o cargo de chefe de governo do Distrito Federal.

Mas o presidente necessitará do apoio de seu povo para se vencer essas batalhas que se aproximam. Abram os olhos e lembrem que a lei não é sempre neutra, mas muitas vezes utilizada com os fins mais mesquinhos.

28
Jun19

Estadão: "Acabou o arsenal" contra Moro. Greenwald: "Hoje foi o pior dia para eles dizerem isso”

Talis Andrade

 

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"Comido pelas beiradas", por Genildo Ronchi

Pelas beiradas…e o “suspense” de Greenwald

Pode não ter sido espetacular, como certamente ainda irá acontecer em novas revelações, mas os nomes que o The Intercept Brasil forneceu à Veja nos arquivos dos diálogos entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol consistem, até agora, na maior comprovação de que as conversas eram não só verdadeiras como levaram o Ministério Público a realizar as investigações determinadas pelo então juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba.

O técnico de contabilidade  Nilton Aparecido Alves e o empresário  Mário César Neves existem e foram procurados pela Força Tarefa  da Lava Jato, o que prova que a conversa entre Moro e Dallagnol não foi “enxertada” e que produziu os resultados concretos combinados entre os dois.

Não sei os termos do acordo entre o The Intercept e a Veja, mas este primeiro produto foi o atestado material de que as conversas já reveladas são verdadeiras e produziram resultados práticos, concretos. Um checagem que, por óbvia limitação de meios, o site talvez não pudesse fazer.

O principal, porém, ao que parece, ficou guardado para novas reportagens, hoje, na publicação de Glenn Grenhald no Twitter.

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Ironizando o recorte do Estadão que  se reproduz na imagem, ele diz que  se deve “esperar até o final do dia – hoje – e depois me dizer se o que o Estadão publicou aqui hoje é verdade ou não”, referindo-se ao suposto esvaziamento do “arsenal” contra Moro.

“Eu acho que a resposta será bem clara”, diz o jornalista, ” e hoje foi o pior dia para eles dizerem isso”.

 

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22
Jun19

Supremo Tribunal de Justiça do Paraguai rejeita nomeação de juiz

Talis Andrade

Jalil Rachid atuou como promotor-geral do caso, fabricou e falsificou provas contra os acampados de Marina Kue, em Curuguaty. 

No Brasil, o Supremo Tribunal Militar rejeitou Aluísio Alves nomeado ministro pelo  presidente José Sarney.

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por Leonardo Wexell Severo

Em uma decisão histórica nesta terça-feira, quase sete anos após a carnificina de Curuguaty, o Supremo Tribunal de Justiça do Paraguai rejeitou a nomeação do juiz Jalil Rachid, carrasco dos camponeses, para a Promotoria da localidade. Em seu lugar foi indicado Alfonso Mascareño.

Peça-chave na fabricação e falsificação de provas contra os acampados de Marina Kue, em Curuguaty, elemento central na coerção e chantagem de testemunhas, Jalil Rachid agiu como promotor-geral do caso - e posteriormente como vice-ministro da Segurança do governo do presidente Horacio Cartes - para que as lideranças dos sem-terra fossem incriminadas e condenadas a até 35 anos de prisão por “homicídio doloso”, “associação criminosa” e “invasão de imóvel”.

Jalil é filho de Blader Rachid, ex-presidente do Partido Colorado, do ditador Alfredo Stroessner (1954-1989), mesmo cargo que ocupou Blas Riquelme, autointitulado proprietário dos 1.748 hectares ocupados pelos camponeses da área em disputa.

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Foto: Leonardo Wexell Severo
"Que segurança terá o povo com quem encobre a seus assassinos? Fora Rachid", exigem manifestantes


O massacre de Marina Kue, em Curuguaty, ocorrido em 15 de junho de 2012, envolveu 324 policiais que cercaram um acampamento onde se encontravam cerca de 60 trabalhadores rurais - entre homens, idosos, mulheres e crianças – reivindicando uma propriedade que vinha sendo criminosamente usurpada com base na violência. No momento em que as lideranças começaram a dialogar, tiros de franco-atiradores, membros de tropas de elite treinadas pelos Estados Unidos, provocaram artificialmente o “conflito” e a morte de 11 camponeses e seis policiais.

A manipulação grotesca dos acontecimentos pelos grandes conglomerados de comunicação, em favor do latifúndio, provocou a destituição do presidente Fernando Lugo uma semana depois. Assim, passou a valer a tese do Ministério Público de que as tropas haviam sido "emboscadas" por "criminosos" que deveriam pagar o preço. Um detalhe: as garruchas encontradas com os camponeses não dispararam um único tiro.

A farsa tinha um objetivo claro: fazer com que 2,5% dos proprietários, donos de 85% das terras cultiváveis, 94% delas destinadas à exportação, seguissem mandando e desmandando no país que alimenta 60 milhões de pessoas no planeta, enquanto oficialmente quase um terço da sua população de 6,7 milhões passa fome.

“Nestes momentos extremamente difíceis que estamos vivendo, a não confirmação de Jalil Rachid representa um sopro de vento fresco, um suspiro de alívio em meio à tanta injustiça social e econômica”, declarou Ana Bella Vera, ativista da Central Unitária de Trabalhadores Autêntica do Paraguai (CUT-A). Na avaliação da sindicalista, é preciso lutar para que se faça Justiça, “pois houve um dano irreparável a dezenas de famílias de camponeses inocentes, que foram privadas do convívio de parentes que perderam suas vidas ou que passaram longos anos presos pela atuação ilegal de Rachid”.

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18
Mai19

Cannes: Almodóvar faz declaração de amor ao Brasil e lamenta situação atual do país

Talis Andrade

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02
Mai19

Alunos brasileiros da Faculdade de Direito de Lisboa protestam contra xenofobia

Talis Andrade

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Um grupo de brasileiros se organizou e protestou contra a "brincadeira" Foto: Diário de Notícias

por Francine Marques

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Uma brincadeira sem graça acirrou os nervos dos estudantes brasileiros da Faculdade de Direito de Lisboa, que ao chegaram para assistir aula, nesta segunda-feira (29), se depararam com uma caixa, cheia de pedras e com a placa que trazia a seguinte mensagem: “Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado”. “Zuca” seria o diminuitivo da palavra “Brazuca”, que significa brasileiro.

 

A desculpa de que se tratava de uma brincadeira, não colou, e o edifício da Cidade Universitária foi ocupado por um grupo de brasileiros que pede respeito e refuta atos de xenofobia.

 

Autoria do ato é de um grupo satírico conhecido como Tertúlia Libertas, que comumente zomba de cenas da vida acadêmica, assim como de professores e alunos. Alegação do porta-voz do grupo é de que eles se limitaram a fazer uma piada. “Há muitas piadas aqui sobre uma situação de privilégio de que os alunos brasileiros de mestrado auferem e nós quisemos gozar com quem discrimina os brasileiros, não com os brasileiros. Mas fomos mal entendidos e a coisa tomou proporções que não esperávamos.”

 

Entretanto, Elizabeth Lima, que é presidente do Núcleo de estudos Luso-Brasileiros afirma que após as mudanças das regras de acesso aos mestrados houve aumento da discriminação. “De há dois anos para cá que se sente um aumento da discriminação, não só de alunos, como também de professores”. Lima admite que as novas regras beneficiam os brasileiros que chegam de fora com o curso já concluído.

 

Já no fim da manhã, a direção da faculdade solicitou que a caixa com pedras fosse retirada. Outro ato foi o comunicado de que se orgulha do espaço de liberdade, que “convive com a autocrítica, o humos e a sátira”, porém que “não tolera quaisquer ações ofensivas relativamente a alunos da faculdade”.

 

A subdiretora da faculdade, Paula Vaz Freire, admite que a tensão aumentou no ano passado, quando as regras para a entrada no mestrado e o momento de candidatura mudaram, isso porquê ao abrir os cursos nos meses de março e abril, “verificaram um problema: os alunos portugueses ainda que ainda não tinham concluído a licenciatura, não podiam seguir para mestrado”.

 

Outro grande problema é que, ao contar apenas com a média, foi verificado que os alunos brasileiros chegavam com médias mais altas e por isso entravam nos cursos com maior facilidade. “As notas nunca são muito elevadas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa”. Freire afirmou que a faculdade vai resolver esse assunto ainda neste ano.

 

É preciso destacar que atualmente, 60% dos alunos de metrado em Direito e Ciências Jurídicas são brasileiros. Dos 5488 alunos da Faculdade de Direito de Lisboa, 1227 são brasileiros – ou seja, 22%. Os portugueses representam 66% dos estudantes da instituição, com 3620 inscritos.(Com informações Diário de Notícias)

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Ministro da Educação “democratiza” sua estupidez

Por Fernando Brito

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O cidadão colocado à frente do Ministério da Educação, Abraham Weintraub, ao anunciar que vai estender a todas as universidades federais o corte de 30% de seus recursos que anunciou ontem para as três – UNB, UFF e UFBA – que, segundo ele, “faziam balbúrdia” deveria estar dando, para os que ainda se iludem, uma lição sobre a entronização do arbítrio como forma de governar.

É claro que Weintraub tomou a atitude por uma ideia tacanha de autoproteção, pois lhe seria difícil, frente a ações judiciais, justificar o corte seletivo à base de declarações despropositadas como aquela. A solução “genial” foi, claro, universalizar o corte como forma de torná-lo “democrático”, certo?

Se tal ou qual universidade é um centro de excelência, se tem pesquisas avançadas, se desempenha um papel importante no desenvolvimento científico e tecnológico, “não vem ao caso”.

É apenas, como já se disse ontem aqui, uma desculpa para o desmonte da educação superior e para a abertura de mercado para o ensino privado. Como?

Simples: sem quase um terço dos recursos, a solução natural de sobrevivência é “enxugar cursos” e reduzir o número de vagas. Totalmente ineficiente – afinal, as instalações e o corpo docente já estão lá e serão utilizados abaixo de suas capacidades mas, com menos gente, reduz-se custos de manutenção, que é onde resta a cortar: luz, água, limpeza, materiais, etc…

Mas há pior.

O primeiro é foi o anúncio que se mutilaria o ensino de Ciências Humanas, supostamente em favor de cursos que “gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”, como tuitou o presidente. Deixo de lado considerações filosóficas sobre esta suposta contradição entre os ramos do conhecimento – que um insuspeito de qualquer esquerdismo, Delfim Netto, desmonta hoje na Folha, no artigo Direitismo cultural – e trato o assunto de maneira, perdoem-me por isso, unicamente contábil.

Os cursos mencionados pelo presidente têm um custo muitíssimo maior que os de Humanas, em geral. Deixemos que o próprio “mercadismo” explique: quantas vezes mais cara é a mensalidade de um curso de Medicina ante um de, digamos, História. Dez, doze? Como se trata de um problema objetivo, significa que se fechariam, para abrir uma vaga dos cursos “eleitos” por Bolsonaro, sete, oito, dez outras nos que ele maldiz.

Mercado aberto para os interesses privados, está claríssimo.

por Gervasio Umpiérrez ensino privatização.jpg

 

Nem falo na perda de conhecimento, até porque nenhum dos conhecimentos cientificos “duros” se faz sem a necessária base de história, de filosofia e de outros ramos do saber, para que possa gerar qualquer coisa que não seja a simples repetição. Porque situar e especular são duas das essências do conhecer.

Há ainda pior: invocar o ensino básico, como fez num vídeo, para dizer que é muito mais cara uma vaga universitária do que uma em creche, o Sr. Weintraub mostra que sua capacidade cognitva parece mais adequada à segunda que à primeira. Falta-lhe, para ficarmos no campo das “Exatas”, a capacidade de compreender que não se compara coisas de qualidades diferentes.

O argumento puramente aritmético levaria, segundo o próprio transtornado raciocínio – hoje estou generoo para chamá-lo assim – de que, se uma vagas universitária média extinta permitiria abrir 30 vagas em creches, como ele diz, uma vaga nos cursos que o sr. Bolsonaro e ele dizem que “compensam” daria para abir 150 ou 200 vagas em creches.

O ensino pré-escolar é, óbvio, uma necessidade de sociedades urbanizadas, onde a “infância em casa” – muito embora eles sejam adeptos do “homeschooling” – tornou-se uma impossibilidade, seja pela necessidade de trabalhar, seja pela perda dos espaços e relações de convivência disponíveis.

Mas nada tem a ver com as necessidades de uma Nação em formar – como formaram todas as que se desenvolveram – camadas sucessivamente de profissionais e de estudiosos nu mundo onde, cada vez mais, aprender a repetir o consagrado é insuficiente para o profresso social e econômico.

O sr. Weintraub, como disse aqui ontem, é pior do que seu antecessor, Ricardo Vélez. Este era um tosco indisfarçado. O Sr. Weintraub teoriza sobre sua própria estupidez.

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24
Abr19

Brasil: amamos e não deixamos

Talis Andrade
Já há redes de voluntários em Portugal a defender o que está em perigo no Brasil. Mas é essencial que poderes e instituições em Portugal também se envolvam. Bolsas, fundos, parcerias, acolhimentos, todo o tipo de apoios
Brasil: amamos e não deixamos

 

1. País-irmão? Quantas vezes em Portugal esta expressão foi gasta a falar do Brasil? E o carnaval, o Jorge Amado, o Caetano, o Chico? Quantos coliseus na vida de tantos portugueses? Quantas cidades maravilhosas? Quantas amazónias? Tudo isso faz parte do que está em perigo no Brasil. Começando pela vida, literalmente.


País-irmão não existe, faz-se todos os dias. Muitos voluntários em Portugal estão já a organizar-se em grupos de trabalho, porque amam o Brasil, e não o vão deixar à mercê de um fascismo indigente. Mas é essencial que vários tipos de poder em Portugal também se envolvam, governo, parlamento, câmaras, fundações, universidades, instituições culturais, media, empresas. Todo o apoio será pouco; para quem está no Brasil, e para quem vai sair.

 

 

2. Cada um pode ajudar no que melhor conhece. Vou focar-me aqui em três áreas, cultura, educação e media. Diariamente, chegam sinais de ataques em todas elas.


Começando pela cultura, já há listas de artistas a abater, por não apoiarem o poder eleito. Não só a ideia é acabar com o Ministério da Cultura, como interferir nos SESC, uma rede de centros que formam públicos e dão trabalho a artistas por todo o Brasil. Os anos de Gilberto Gil/Juca Ferreira à frente do ministério são um legado incrível, que chegou a milhões nunca antes envolvidos. A este apoio público à arte, o novo poder chama “mamatas” e repete que vai acabar com elas. Acresce que o Brasil está numa crise económica bárbara, haverá ainda menos dinheiro para ir ao cinema, ao teatro, comprar livros. Livrarias como a Saraiva ou a Cultura estão a fechar. As editoras, em recuo. Portanto, mais do que nunca os criadores brasileiros precisarão de apoio internacional. De encomendas, convites, bolsas, residências, parcerias, concursos, fundos, toda a espécie de incentivos financeiros ou logísticos que lhes permitam continuar a trabalhar, a criar, no Brasil e fora. E a resistir a pressões, à censura que já se declara.

 

 

3. Censura e cortes na educação, também. O novo poder já anunciou intenção de interferir no conteúdo do próximo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Vai tirar financiamento público às universidades. Desconfia da pesquisa na área das humanidades. Defende que “o Brasil é um país conservador”, que não deve ter “ideologia de género” nem “comunistas” no ensino. Um país onde há apelos para os alunos vigiarem os professores, quem não apoia o poder é inimigo, e Deus está acima de tudo. Até o slogan da ditadura foi recuperado: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Tudo parece empurrar para duas hipóteses, estar com o poder ou ir embora. Os estudantes e professores brasileiros precisarão, pois, de apoio internacional extra para estudo, graduação, pós-graduação, trabalho.

Há um mês, entre o primeiro e o segundo turno da eleição brasileira, estive num congresso nos EUA com 200 académicos que estudam literaturas de língua portuguesa, muitos deles autores brasileiros. E já se debatia uma rede de ajuda académica. Antes mesmo de ficar confirmada a eleição de Bolsonaro a ideia já era: temos de nos preparar para todos aqueles que vão vir, criar oportunidades, ajudas.
 

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4. Finalmente, os media. Jornalistas estão a ser despedidos em catadupa no Brasil. Órgãos de comunicação vão adaptar-se ao novo poder, já estão a mudar. Dentro da grande imprensa tradicional brasileira há alguns bons jornalistas que continuam a lutar contra a corrente. Outros meios, muito diferentes entre si (“El Pais Brasil”, Agência Pública, Mídia Ninja), também quebram a hegemonia. Mas o clima de sufoco vai adensar-se, somado ao estado da economia. E as redacções em Portugal debatem-se com os seus próprios problemas, óptimos jornalistas estão sub-empregados ou desempregados, não será fácil dar emprego a uma leva de jornalistas brasileiros. É preciso construir outras soluções. Se as redacções estão à beira de um esgotamento, continua a faltar um jornal mais à esquerda em Portugal. Há regiões que não estão preenchidas, espaços por fazer, sites por criar. O online pode reforçar a democracia, com gente preparada para os assuntos, de facto, não tem de ser o abismo. E aqui entram também fundações, instituições culturais, cursos de comunicação, mecenato, para formação e apoios. A Gulbenkian, que criou recentemente uma bolsa para trabalhos de jornalismo de investigação, teria meios para isso, um apoio específico a projectos que incluíssem também brasileiros, ou o Brasil.

 

 

5. Mas na cultura, na educação ou nos media, o ponto decisivo é que todo o tipo de poderes em Portugal encarem esta emergência como também sua, por tudo o que o Brasil representa para Portugal, e por um compromisso básico com a liberdade.


Entre as redes de voluntários que se articularam para apoiar brasileiros há uma consciência clara de que tudo isto se liga à ascensão internacional de uma extrema-direita, e que será preciso uma frente ampla para lidar com ela. Era bom que em Portugal quem tem poder, político ou outro, e se considera democrata, lesse os acontecimentos no Brasil como parte de um risco muito mais alargado, e em curso.

 

 

6. A terminar, dois pontos em relação à comunidade brasileira em Portugal que votou por larga maioria no novo poder.


Primeiro, não pode haver qualquer retaliação seja em relação a quem for. Todas as sugestões de deportação, ou de “vai para a tua terra” se transformam em xenofobia, mesmo quando o que as move inicialmente é uma indignação anti-xenófoba.


Segundo, pelas mesmas razões, não deve ser tolerada a esta comunidade qualquer manifestação homofóbica, misógina ou discriminatória. Tudo isso é crime, tem de ser punido, e é bom que os brasileiros residentes em Portugal o saibam, já que muitos parecem detestar socialistas, comunistas e esse outro papão que é a “ideologia de género”. Na verdade, alguns parecem nem saber que a democracia onde se instalaram tem um governo viabilizado por socialistas e comunistas, e legalizou o casamento gay há anos.

24
Mar19

7 de Abril Leilão de Fotografias: Quarenta Anos de Brasil e de Lula, uma História Contada por Olhares

Talis Andrade
Dezenas de fotógrafos se unem para organizar leilão de imagens do ex-presidente, captadas desde o final dos anos 1970. Evento será no dia 3 de abril, com participação presencial e online
 
por Vitor Nuzzi - RBA
 
CELSO JUNIOR
Praia da Lagoa Doce, Luis Correia/PI, 22.02.2006

Uma imagem da liberdade, que contrasta com o momento atual: Lula em uma praia do Piauí, em 2006, último ano de seu primeiro mandato presidencial

 

Era noite de sábado, 19 de abril de 1975, no centro de convenções da prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Diante de 5 mil pessoas – incluindo o governador, Paulo Egidio Martins –, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Paulo Vidal, transmite o cargo ao sucessor, ainda no período da ditadura. A posse coincidia com o período do feriado de Tiradentes, patrono dos metalúrgicos. Pouco conhecido, o novo presidente integrava a diretoria desde 1972. Tinha 29 anos – completaria 30 em outubro – e era um torneiro-mecânico da Villares. Viúvo, havia casado novamente em 1974, com Marisa Letícia, também viúva. Nessa época, usava apenas bigode, ainda sem a barba que se tornaria característica.

Luiz Inácio da Silva, o Lula, encabeçava a chapa única das eleições daquele ano, vitoriosa com 97,5% dos válidos, ou pouco mais de 14 mil votos. Receberia 52,7 milhões em 2002 e 58,3 milhões em 2006, eleito e reeleito presidente da República. Esses 40 anos de história serão resumidos em 50 imagens, que irão a leilão no próximo dia 3, a partir das 19h, em um bar da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, que pode ter participação online, além de presencial. (Confira, ao final do texto, vídeo com todas as fotografias.). Dezenas de fotógrafos, de diferentes vivências e com olhares sensíveis, cederam as 50 imagens, em preto e branco.

 

MÔNICA ZARATTINIfoto assinada por lula
Todas as 50 fotos que irão a leilão (como esta, no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, em 1979), foram autografadas por Lula e pelo autor

 

Todas as fotografias foram autografadas pelo ex-presidente em sua cela na Superintendência da Polícia Federal no Paraná – Lula está preso em Curitiba desde 7 de abril do ano passado. As fotos foram levadas para lá em três lotes. A maior parte foi assinada nos dias de Natal e ano-novo. O último chegou à capital paranaense na semana da morte de um de seus irmãos, Genival Inácio da Silva, o Vavá, cujos velório e enterro Lula não conseguiu presenciar. 

Os profissionais da imagem também assinam suas obras. As fotos cobrem um período amplo: começa na redemocratização brasileira, com os célebres flagrantes de assembleias no estádio de Vila Euclides, hoje com o nome 1º de Maio, em São Bernardo. Contam um pouco da história dos movimentos sociais, mostram encontros com personagens como Dom Paulo Evaristo Arns, Barack Obama, Fidel Castro, Leonel Brizola e José (Pepe) Mujica, as eleições presidenciais e os governos protagonizados por Lula.

Mostram, inclusive, momentos de intimidade, como a de um Lula despenteado, camisa meio aberta e descalço, ao lado de Marisa, em 1983. Ou engraçados: em um festival da juventude na Bahia, em 2017, perto dos 72 anos, ele mostrou jovialidade – e agilidade – e não teve dúvida em entrar na roda e dançar ao ritmo de Sarrada no Ar (Passinho do Romano), de Mc Crash, um clique inesquecível de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula.

E, claro, estão ali as imagens de 7 de abril de 2018, o sábado em que Lula se entregou à Polícia Federal, após extensas e tensas negociações. Correu mundo a foto em que o ex-presidente é carregado pela multidão, no curto trajeto do caminhão de som até a entrada do Sindicato dos Metalúrgicos.

Para a história

O gaúcho Paulo Pinto, que veio para São Paulo no final dos anos 1980, conta que viveu naquele dia um de seus momentos de maior emoção, pessoal e profissional. "Gravei em vários HDs. É uma imagem que não pode ser perdida." Um instante que não chegou a dois minutos e meio, segundo sua cronometragem, mas que será falado "daqui a 50, 100 anos".

Hoje com 39 anos de profissão, Paulo lembra que tinha ido à sede do sindicato no dia anterior, véspera de um ato ecumênico que seria celebrado na rua, diante da entidade, já sob a expectativa de "rendição" à PF. "Desci para o primeiro andar, tinha uma janela que me dava a dimensão exata de onde seria a missa. A minha ideia era ficar no mesmo nível", recorda o fotógrafo, que no sábado chegou às 7h e, na hora do ato, posicionou-se no lugar escolhido previamente. Trocou a lente 70/200 por um grande angular e se preparou. 

"Eu tinha a consciência de que aquela imagem era uma coisa histórica. Foi muito emocionante, o pessoal aplaudindo e chorando, gritando 'não se entrega'", lembra Paulo. "Fui dosando, foi clique a clique, pensando na história."

 

ROBERTO PARIZOTTIMônica Zarattini foto lula
Mônica Zarattini fotografou Lula na eleição de 1989, quando o petista perdeu no segundo turno. Em 2003, captou o presidente eleito subindo a rampa
RICARDO STUCKERTLula participa da “Sarrada”
Em 2017, o ex-presidente, cotado para vencer novamente, não pensou em duas vezes e participou da dança da "sarrada" em encontro de jovens do PT

 

 

Uma das organizadores do leilão, Mônica Zarattini conta que a preocupação era garantir "imagens históricas, icônicas ou inusitadas". Ela participa com duas, com intervalo de 12 anos: na primeira eleição para presidente após a ditadura, em 1989, Lula beija a cédula – ainda não havia urna eletrônica, e a contagem era no papel. Ali, ele perdeu no segundo turno, para Fernando Collor. A outra mostra o petista sorridente, subindo a rampa do Palácio do Planalto, no dia de sua posse como presidente da República, em 2003.

Mônica começou a fotografar em 1981, ainda estudante, e acompanhou muitos dos passos de Lula como dirigente sindical. Teve foto de um ato sobre a anistia publicada no jornal Tribuna Metalúrgica. Em 1988, entrou na Agência Estado, pela qual cobriu a eleição do ano seguinte. Paulistana, tem formação em História, e leva essa perspectiva para o trabalho profissional. 

"No momento que a gente está fotografando, tem muita preocupação técnica, de um bom enquadramento, a leitura da luz, se está tudo correto... Agora, quando se trata de Lula, você tem uma carga de emoção muito grande, pelo carisma que esse homem tem", conta. "Obviamente, como historiadora, sei do papel que eu estava cumprindo naquele dia, em 1989 e 2003. Era o papel de estar registrando um momento histórico. Além de ter uma estética boa, sempre pensei nisso, esse momento histórico tinha que ser captado."

Pela democracia

Ela lembra que em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff, organizou-se um grupo, Fotógrafos contra o Golpe, que se mobilizou contra a posse de Michel Temer, com direitos a manifestações como o Varal da Resistência, com fotografias penduradas na Avenida Paulista. No ano passado, surgiram os Fotógrafos pela Democracia. "Nosso intuito é dar visibilidade à campanha pela libertação de Lula, preso sem provas", afirma o grupo. 

O lance inicial para cada foto é de R$ 1.313, referência ao número do PT. Todo o dinheiro arrecado será doado ao Instituto Lula, "por desejo do próprio ex-presidente". Detalhes sobre o evento pode ser encontrados na internet (www.leilaolulalivre.wordpress.com), inclusive para interessados em participar virtualmente (http://v2.leiloespb.vlance.com.br/leilao/index/leilao_id/11).

Roberto Parizotti tinha quase 20 anos quando Luiz Inácio tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos pela primeira vez. O próprio Lula acostumou-se a chamá-lo pelo apelido de Sapão. Militante desde a adolescência, como conta, distribuía jornais na periferia, vendia sanduíche natural e "era rato de teatro, cinema e biblioteca". Jovem, morava perto do Teatro Municipal de Santo André. "Isso me propiciou ver ciclos de cinema", conta Parizotti/Sapão, citando vários autores e diretores.

 

MÔNICA ZARATTINIRoberto Parizotti foto lula
Roberto Parizotti, conhecido como Sapão, inclusive por Lula, fez esta imagem do presidente em 1989, durante uma festa em São Bernardo

 

A imagem, o olhar, sempre despertou interesse, e ele foi fazer um curso no Museu Lasar Segall, em São Paulo. Posteriormente, se tornaria auxiliar de fotografia. Suas primeiras imagens saíram em publicações do Sindicato dos Químicos do ABC, em meados dos anos 1980. Reconhecido em todo o meio sindical – e fora dele –, Sapão hoje trabalha para a CUT. Faz questões de lembrar de alguns de seus mestres na área jornalística, como Roberto Baraldi e Júlio de Grammont. 

Na foto cedida para o leilão, Lula segura com as duas mãos uma bandeira do PT. A imagem foi tirada em uma festa na sede da Associação dos Metalúrgicos Aposentados (AMA), em São Bernardo, ao lado do sindicato da categoria, durante a campanha eleitoral de 1989. Mas Parizotti gosta, particularmente, de uma fotografia tirada anos depois, com Lula e a bandeira brasileira. "Já estava com essa foto na cabeça fazia tempo, e colei nele. Já sabia que era 'a' foto. Lula mandava fazer de 100 (para distribuir)." Outro momento marcante da vida profissional foi durante a greve dos chamados "golas vermelhas" da Ford de São Bernardo, em 1990. Só ali foram 1.200 fotogramas. 

Antes da prisão

Dez anos antes, em abril de 1980, Hélio Campos Mello estava no Sindicato dos Metalúrgicos, trabalhando pela IstoÉ, "então uma revista combativa", como lembra, que em 1978 já havia colocado Lula na capa, com foto dele e entrevista para os jornalistas Bernardo Lerer e Mino Carta. Naquele 1980, já com o último general-presidente, João Figueiredo, no poder, os metalúrgicos estão em greve e o governo decreta intervenção no sindicato. "Fotógrafos e repórteres praticamente acampávamos por lá", recorda.

Na foto tirada em 1980, aparece um Lula de boina, cobrindo-se para deitar em um sofá, sob as vistas dos jornalistas. Ele e outros sindicalistas seriam presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. O movimento operário chamou a atenção do mundo – e a imagem de Hélio, tirada dias antes da prisão, reserva uma curiosidade. "A greve repercutiu internacionalmente e trouxe para o Brasil jornalistas de vários países, entre eles o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, contratado pela revista francesa Actuel, uma mensal dirigida pelo pessoal que teve participação destacada nos movimentos de maio de 68 na França." Salgado, que ainda não havia se tornado ícone, tinha 34 anos. Ele aparece sobre a mesa, em pé, mexendo em seu equipamento. 

Outro momento de Lula em 1989 foi acompanhado por Douglas Mansur: o futuro candidato e o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, encontraram-se na Igreja São Domingos, no bairro de Perdizes. "Eles conversavam muito. Dom Paulo tinha um respeito muito grande pelo Lula", lembra Douglas, que conhecia muito bem o universo da religião. "Como fui diácono, seminarista, mesmo antes de ser repórter-fotográfico eu acompanhava Dom Paulo, ia nas pastorais, na Casa de Detenção..."

Ele entrou definitivamente para a fotografia em 1987, ao sair da Igreja, mas sempre gostou de tirar imagens. Tinha registro profissional e era sindicalizado desde 1984. Especializou-se em acompanhar movimentos sociais – onde há uma atividade, certamente Douglas estará lá. Ele fez, inclusive, uma mestrado cujo tema era a importância da fotografia na documentação desses movimentos, tendo como objeto de pesquisa os trabalhadores sem-terra do Brasil e do Paraguai. Nascido em Timburi, no interior, e com título de cidadão paulistano, vê a imagem como "um instrumento pedagógico". 

"Grudando" em Lula

Pelo jornal O Estado de S. Paulo, Luludi havia acompanhado Lula em uma das Caravanas da Cidadania, realizada em 1994. Fotografou o candidato em cima de um ônibus, no interior do Ceará. A outra imagem que faz parte do leilão é de janeiro de 2002, quando ela já trabalhava para a revista Época e o diretor de redação, Paulo Moreira Leite, imaginou uma pauta para aquele ano eleitoral.

Segundo Luludi, era para "grudar" nos candidatos. Ele (PML) queria fotos de intimidade", conta a fotógrafa, que "grudou" no petista. E fez uma imagem de Lula preparando um coelho, no sítio Los Fubangos, em São Bernardo, às margens da represa Billings. O único que realmente pertence à família, como observa a profissional. O avental usado pelo presidente, que acabou virando presente, adquirido na Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, foi levado pela própria Luludi, para quem Lula, que conhecia desde 1989, sempre foi tranquilo em relação a fotografias. Ele só se aborrecia, conta, "se o fotógrafo quisesse dirigir ele".  

No caso de Eliária Andrade, 31 anos de profissão, a sorte ajudou um pouco. Em 21 de março de 2011, Lula recebeu uma premiação no Clube Sírio Libanês, e participava de um jantar. A cerimônia oficial terminou depois das 23h. "Como já estava tarde para o fechamento, e o local reservado para imprensa era a galeria superior e sem iluminação, todos resolveram sair para transmitir (as fotos)", lembra a fotógrafa, que trabalhava para O Globo. Como o jornal fechava mais cedo e o notebook já estava aberto, ela decidiu permanecer ali mesmo.

"Quando eu estava acabando de transmitir as fotos, entram algumas pessoas dançando e em volta do Lula, e na sequência colocam o turbante nele", conta Eliária. "Era quase meia-noite e eu já havia recebido uma mensagem que o jornal estava fechado. Como achei a foto interessante, liguei para o jornal, que já estava rodando. Eles cancelaram a foto anterior e colocaram esta na capa", acrescenta a fotógrafa, que com essa imagem inusitada acabou fazendo com que sua publicação "furasse" as concorrentes.

Em 7 de abril de 2018, o acaso acabou propiciando a Paulo Pinto, então no Imagens Públicas, outra fotografia histórica, embora ele lamente o desfecho daquele dia. Começando no jornal gaúcho A Plateia, com cinco anos de Diário Popular e 17 de Estadão, coberturas de Copa do Mundo e Olimpíadas e inúmeros acontecimentos políticos no Brasil, ele já sabia que tinha feito uma imagem histórica. "Essa foto só vai ser superada quando ele sair (da prisão).  Espero estar junto."

Confira o vídeo com as fotos do Leilão Lula Livre

 

 

13
Mar19

Fechamento de fábrica da Ford tem indenização milionária na França

Talis Andrade
 
 
 
Fechamento de fábrica da Ford tem indenização milionária na França
 
 
Ford confirma fechamento de unidade de produção em Blanquefort na França.                 
 MEHDI FEDOUACH / AFP

 

Enquanto os trabalhadores da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo lutam por um acordo de fechamento da unidade que preserve os seus empregos, na França, essa batalha parece perdida, embora com contrapartidas milionárias para os funcionários e o Estado francês. Os projetos de reestruturação mundial da Ford incluem o encerramento das atividades de uma usina em Blanquefort, perto de Bordeaux, na França.

A montadora americana apresentou um plano de demissão voluntária que oferece cursos profissionalizantes para os 850 funcionários e uma indenização média de € 190 mil para cada empregado, além de um ressarcimento no valor de € 20 milhões ao Estado francês.

O dinheiro deve ser investido na unidade, que atualmente produz caixas de câmbios, de modo a reindustrializar o local para poder receber uma nova empresa. Já faz 10 anos que a fabricante não esconde o projeto de fechar a unidade de Blanquefort. Na época, a tentativa de revenda da usina fracassou, numa negociação que impactou na disponibilidade da Ford de negociar uma transição.

“Agora, a Ford diz: chega! Essa unidade não faz mais parte dos planos industriais e não quero cedê-la a um comprador, no qual eu não tenho confiança, para não ser acusada de nada no futuro. Então prefiro fechar a usina pura e simplesmente”, comenta o economista francês Elie Cohen, diretor de pesquisas do prestigiado CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas).

 

Incentivos não deram resultados

No total, desde 2011, o governo da França desembolsou mais de € 10 milhões em incentivos para a Ford não fechar as portas, sem sucesso. Desta vez, o braço de ferro entre a montadora e o Estado durou dois meses, entre o anúncio do fechamento e a conclusão da negociação, em um acordo comemorado pelo Ministério da Economia, no início de março.

“O problema ocorre quando uma empresa viola deliberadamente os compromissos que assumiu e não respeita os termos do contrato que liberou os subsídios. Só que a Ford cumpriu todos acordos que firmou, em contrapartida à ajuda pública que recebeu”, afirma Cohen. “Você pode ter certeza de que, se ela tivesse rompido uma única clausula, o Estado francês teria exigido o reembolso.”

Já o delegado sindical Philippe Poutou, que representa os funcionários da Ford Aquitaine, não está satisfeito com o acordo. Ele avalia que o governo ainda pode pressionar mais pela manutenção dos postos de trabalho, ao incluir a revenda da fábrica na negociação. Uma proposta feita pelo grupo belga Punch, em fevereiro, foi recusada pela Ford.

“Ouvimos muita gente dizer que o plano social é bom. A Ford argumenta isso e o governo tem tendência a concordar, mas é uma aberração porque, dependendo da idade que temos, se formos para a rua, ficaremos numa situação terrível”, protesta Poutou. “Para a gente, o que importa é manter o emprego e o papel do Estado é fazer de tudo para encontrar uma solução.”

 

Governo brasileiro “lava as mãos” para saída da Ford

No Brasil, a reivindicação dos sindicatos é semelhante: 2,8 mil empregos diretos estão ameaçados. A Ford confirmou que três grupos estão interessados na aquisição dos ativos em São Bernardo. Já o governo, interlocutor-chave nas negociações, por enquanto adotou a política de “lavar as mãos” no caso, observa o economista David Kupfer, professor da UFRJ.

“Se o diagnóstico dominante no governo é mais liberal, com menos intervenção do Estado e menos financiamento público do investimento e da produção industrial, e menos incentivos e renúncias fiscais etc, não quer dizer que a indústria possa ou deva ser abandonada à própria sorte, afinal ela não é irrelevante”, analisa o professor. “Era de se esperar uma postura mais ativa do governo na tentativa de negociar uma decisão menos onerosa à sociedade e à economia brasileira.”

 

A Ford anunciou no dia 19 de fevereiro que encerrará as atividades na fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.Miguel SCHINCARIOL / AFP

 

Outro fator ainda mais importante a impactar no caso brasileiro é o enfraquecimento dos sindicatos nos últimos anos, ressalta Kupfer. “Eu acho que a grande diferença, nesse plano mais direto, entre o que ocorre na França e no Brasil é a capacidade de negociação dos sindicatos. Eles ficaram dependentes de um financiamento compulsório, que foi retirado por lei, e agora eles estão, de fato, em uma posição de muita fragilidade, ainda mais num quadro de desemprego e recessão”, observa o economista brasileiro.

O professor da UFRJ cita ainda a ausência de uma nova política industrial para o setor automotivo, desde que a crise colocou um freio nas vendas de carros, e a própria reestruturação do setor em nível mundial. A transição para veículos elétricos e autônomos mal começou no país e é o que tem levado as multinacionais a rever toda a sua estratégia de crescimento nas próximas décadas. 


 
12
Mar19

Primavera Literária de 2019 lança discussões sobre o Brasil e o futuro da literatura

Talis Andrade
Primavera Literária de 2019 lança discussões sobre o Brasil e o futuro da literatura
 
Leonardo Tonus é escritor e professor de literatura brasileira na Sorbonne Université (Paris)Arquivo Pessoal
 

“Qual Brasil? Qual Literatura?”: este foi o lema escolhido para a 6ª edição do Printemps Littéraire, (Primavera Literária, em português), lançada oficialmente nesta segunda-feira (11) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris.

A escolha por essas indagações refletem a preocupação de Leonardo Tonus, professor de Literatura brasileira na Universidade Sorbonne e fundador do evento, sobre os rumos da literatura e da liberdade de expressão em um país que adotou uma nova orientação política.

“Diante da situação que o Brasil atravessa atualmente, não só sob o ponto de vista político, mas também social e econômico, me pareceu necessário fazer uma reflexão sobre os caminhos a se trilhar na cultura e especificamente na literatura”, justifica.

Tonus vê um impasse no atual cenário brasileiro em relação à criação, produção e divulgação. A transformação do Ministério da Cultura em Secretaria, os questionamentos em torno da Lei Rouanet e a diminuição dos subsídios para instituições como a  Petrobras Cultural são citados por Tonus como exemplos de transformações que precisam ser debatidos profundamente durante o evento, que tem início em março e se estende até junho. “O campo literário se encontra em um impasse, e acho que ele terá que se reinventar nos próximos anos”, opina.   

A Primavera Literária surgiu em 2014 dentro da Universidade Sorbonne, em Paris, no âmbito do curso de literatura brasileira. Desde o início, lembra Tonus, o objetivo foi levar o evento e os autores que dele participam a outras instituições onde o português é lecionado.

Inicialmente expandida para os países limítrofes da França, a Primavera Literária aos poucos ganhou novas fronteiras e atravessou o Oceano Atlântico devido ao interesse manifestado principalmente pelo circuito acadêmico, seja para valorizar os departamentos ligados à língua portuguesa ou criar nova dinâmica para o ensino da literatura. Nesta edição, dois novos países acolhem o evento: Suíça e Canadá.

Estrangeiros e fake news na programação

Outra novidade de 2019 é a abertura para escritores estrangeiros que têm uma proximidade e algum tipo de vínculo com o idioma português. No ano passado,  o evento recebeu escritores portugueses por meio de uma parceira com o Instituto Camões, mas, desta vez, a expansão foi ainda mais ampla, atraindo para dentro da Primavera Literária autores que têm alguma ligação cultural e de escrita com o Brasil.

Nessa perspectiva, integram a programação nomes como a escritora italiana de origem somaliana Igiaba Scego, que publicou um romance sobre Caetano Veloso, e a franco-italiana Mia Lecomte, que faz um trabalho de literatura migrante, com autores brasileiros que escrevem em italiano.

“É interessante fazer esses diálogos transversais e o olhar externo tem muito a contribuir sobre a percepção do Brasil contemporâneo”, explica.

Durante os quatro meses de encontros em espaços universitários e até estabelecimentos de ensino secundário, mais de 50 escritores vão apresentar suas obras, participar de ateliês de escritura, trocas de experiências e emitir opiniões sobre temas diversos em palestras que trarão temas variados, da produção até o impacto das fake news na arte literária, com a presença de escritores e jornalistas.

“O impacto é generalizado. A produção de fake news está vinculada à capacidade da reflexão do sujeito e também ao cerceamento da liberdade de expressão. Se não há liberdade de expressão no jornalismo, será que vamos passar por esse mesmo processo na criação literária? Será que livros serão censurados ou proibidos pela instituição governamental ou pela sociedade civil? É uma questão a ser debatida”, defende Tonus.

 

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