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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

09
Set21

Frente ampla contra ataques golpistas de Bolsonaro pode desbloquear pedidos de impeachment

Talis Andrade

 

Analista diz que mobilização deve envolver instituições mas também a sociedade civil. No meio político, ataques do presidente contra o Supremo Tribunal Federal (STF) reacenderam o debate sobre o impeachment.

 

 

Raquel Miura /RFI 

- - -

Os discursos de Bolsonaro nas manifestações de 7 de setembro geraram reações em diversos setores. Nos corredores de Brasília, a leitura é que o presidente mostrou que está cada vez mais isolado, que não tem capacidade de gerir um país com tantos desafios e reavivou o debate em torno do seu impeachment e até de sua inelegibilidade em 2022.

“O presidente não fez nenhum esforço em se dirigir à nação como um todo. O país passa por vários problemas, como desemprego, fome, pandemia, apagão elétrico, risco de falta de água e nada disso foi abordado por Bolsonaro. Ele falou apenas aos seus apoiadores, num isolamento evidente, mostrando que, na vida real, o país está sem rumo”, afirmou à RFI o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo.

Ministros do STF se reuniram ontem mesmo para analisar como vão se posicionar diante dos ataques a Alexandre de Moraes, chamado de canalha por Bolsonaro. O presidente da corte, Luiz Fux, deve fazer um pronunciamento sobre as ameaças reiteradas pelo presidente antes da sessão desta quarta-feira (8). No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os ministros discutem que ações poderiam inviabilizar a candidatura de Bolsonaro em 2022.

“Eu acredito que haverá uma ampla mobilização de partidos democráticos e instituições, como STF, Congresso, mas não só. Acredito que a reação virá também da sociedade civil, das pessoas, em defesa da democracia. Mais importante hoje do que ver quem serão os candidatos é assegurar a democracia no país. E o momento, por tudo que estamos acompanhando, é grave. Considero que o risco se mostrou mais forte a partir de agora”, disse Moisés.

 

Impeachment

Ainda que não houvesse até agora votos suficientes para cassar o presidente, a forma como Bolsonaro conduziu toda essa retórica golpista até o 7 de setembro trouxe o tema de novo à tona. Partidos que até aqui não tinham se manifestado, como PSDB e PSD, já marcaram reuniões para discutir internamente a questão. É como uma faca no pescoço, a depender dos próximos capítulos, pode se usar a arma.

“Eu não havia me posicionado sobre o impeachment, mas depois do que vimos neste dia, digo que nós, o PSDB, somos favoráveis ao impeachment. E que devemos ser um partido de oposição ao governo Bolsonaro”, disse o governador de São Paulo e presidenciável tucano, João Doria.

A oposição vai aproveitar para engrossar as críticas à atual gestão.

“Bolsonaro foi para o tudo ou nada e saiu de mãos vazias. Mostrou que não tem as mínimas condições de governar o país. Só lhe resta duas opções, o impeachment ou a renúncia. Como ele não faria tal gesto em favor da nação, caberá ao Congresso. E já passou da hora do Legislativo analisar os pedidos”, afirmou o senador petista Jean Paul Prates.

Enquanto vários políticos se manifestavam nas redes sociais contra a postura de Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira, preferiu o silêncio, mas esteve em Brasília, no domingo, para discutir com líderes uma posição da Casa diante das declarações de ataque do presidente da República, especialmente ao STF.

Bolsonaro disse que não irá cumprir nenhuma decisão do ministro Alexandre de Mores, que conduz o inquérito das fake news, e tentou emparedar a Suprema Corte. “Ou o chefe desse poder enquadra o seu (ministro), ou esse poder poderá sofrer o que não queremos”, disse Bolsonaro em cima de um carro de som, ouvindo como resposta da multidão um coro de “Fora, Alexandre”. Entre os que acompanhavam o presidente estavam o vice Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, general Braga Netto.

O Centrão foi afagado com cargos e emendas volumosas, mas, mesmo entre muitos parlamentares, a avaliação é de que há risco de ruptura e que isso não pode ficar no colo eleitoral do grupo.

“A Câmara precisa se posicionar urgentemente em favor da democracia. Acredito que há risco sim. Até entendo que pode haver uma ou outra decisão mais invasiva do STF, mas isso não justifica a postura do presidente”, avaliou à RFI o deputado Fausto Pinato, do Progressistas, mesmo partido de Arthur Lira. Pinato disse que a Câmara, além de posição firme contra o discurso golpista, deve atuar como conciliadora para o equilíbrio entre os poderes. Se isso não ocorrer e se o presidente insistir nessa retórica, Pinato disse que os pedidos de impeachment podem ganhar força.

O MDB discutirá se integrantes da sigla poderão continuar com Bolsonaro, a exemplo do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra.

09
Abr20

Lula: “Os que precisam de liquidez neste momento são pessoas pobres. É quem precisa de liquidez, não o sistema financeiro brasileiro”

Talis Andrade

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Em entrevista à Associated Press, o líder popular brasileiro diz que o presidente cometeu erros em meio à pandemia e está criando um ambiente perigoso para o país. “Bolsonaro, neste momento, é um desastre”, opina.

Em isolamento em casa, apenas alguns meses após sua libertação da prisão, o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que o presidente Jair Bolsonaro precisa mudar sua abordagem desdenhosa do novo coronavírus ou corre o risco de ser forçado a deixar o cargo antes do fim de seu mandato em dezembro de 2022.

O ex-presidente conhecido como Lula disse em entrevista à Associated Press que o desafio de Bolsonaro contrário à exigência do distanciamento social dificulta os esforços de governadores e prefeitos para conter o vírus.

Ele também argumentou que o Brasil pode precisar imprimir dinheiro para proteger os trabalhadores de baixa renda e manter as pessoas em casa, uma proposta que certamente suscitará preocupações em um país com histórico de hiperinflação e uma moeda em queda.

A sociedade brasileira talvez não tenha paciência para esperar até 2022. A mesma sociedade que o elegeu (Bolsonaro) tem o direito de destituir esse presidente quando perceber que ele não está fazendo o que prometeu

Da Silva, que governou entre 2003 e 2010, no momento em que a economia do Brasil estava forte, reconheceu que é improvável que Bolsonaro atenda aos crescentes apelos da oposição para renunciar e que não há votos suficientes no congresso pelo impeachment.

“A sociedade brasileira talvez não tenha paciência para esperar até 2022”, disse Silva em uma vídeo conferência. “A mesma sociedade que o elegeu tem o direito de destituir esse presidente quando perceber que ele não está fazendo o que prometeu. Um presidente que cometeu erros e está criando um desastre. Bolsonaro, neste momento, é um desastre”.

Algumas pessoas em várias regiões do país que votaram massivamente em Bolsonaro nas eleições de 2018 estão desiludidas com ele, batendo panelas nas janelas de suas casas em protestos que se tornaram regulares nas últimas duas semanas. O presidente subestima o surto, o que o coloca em desacordo com quase todos os 27 governadores do país.

Cerca de 800 pessoas morreram da doença COVID-19 no Brasil até agora e existem quase 16.000 casos confirmados, a maioria dos registrados na América Latina. O Brasil espera um pico nos casos de vírus no final de abril ou início de maio.

No mês passado, Lula elogiou o governador de São Paulo, João Doria, ex-aliado do presidente, por impor restrições destinadas a coibir a disseminação do vírus. Bolsonaro, que frequentemente se refere a Silva como um “ex-presidiário”, disse em uma entrevista de rádio que se sente constrangido quando políticos conservadores que se voltaram contra ele durante a crise recebem elogios do líder de esquerda.

Treinei espiritualmente para viver bem. Não é fácil viver em 15 metros quadrados, vendo a família uma vez por semana

“Estou apenas reconhecendo aqueles que fizeram um trabalho mais eficaz”, disse Da Silva, acrescentando que Doria continuará sendo um adversário político.

Lula, que sobreviveu a um câncer, aos 74 anos, está isolado com sua namorada e dois cães na cidade de São Bernardo do Campo, nos arredores de São Paulo, desde que voltou de uma viagem à Europa. Ele disse que não teve nenhum sintoma do vírus, nem foi testado, e tem encontrado muito poucos políticos. A maioria de suas conversas agora é online.

O ex-presidente disse que seus 580 dias de prisão o ajudaram a lidar melhor com as recomendações de saúde para permanecer em casa. Ele é livre enquanto apela contra condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, que, segundo ele, são motivadas politicamente.

“Treinei espiritualmente para viver bem. Não é fácil viver em 15 metros quadrados, vendo a família uma vez por semana”, disse ele. “Agora estou em casa com minha namorada Janja morando comigo. É muito melhor. Eu tenho espaço, pessoas com quem conversar o tempo todo”.

Bolsonaro contestou as recomendações da Organização Mundial da Saúde e de seu próprio Ministério da Saúde sobre distanciamento social e outras medidas para conter o vírus. Ele chamou repetidamente o COVID-19 de “uma gripezinha”.

O ex-presidente da Silva acredita que o Brasil pode precisar imprimir dinheiro para evitar o fechamento de negócios e o caos social. A economia brasileira sofre desde 2015, com cerca de 12 milhões de pessoas desempregadas e três vezes mais pessoas no setor informal e sem trabalho.

Os que precisam de liquidez neste momento são pessoas pobres. Eles precisam comprar sabão, desinfetante para as mãos. É quem precisa de liquidez, não o sistema financeiro brasileiro. Para vencer o coronavírus, precisamos de mais Estado, mais ação das autoridades públicas, de ganhar dinheiro novo e garantir que ele chegue às mãos das pessoas


“Os que precisam de liquidez neste momento são pessoas pobres. Eles precisam comprar sabão, desinfetante para as mãos. É quem precisa de liquidez, não o sistema financeiro brasileiro ”, afirmou. “Para vencer o coronavírus, precisamos de mais Estado, mais ação das autoridades públicas, de ganhar dinheiro novo e garantir que ele chegue às mãos das pessoas”.

A receita de Lula Da Silva contraria a ideologia do governo Bolsonaro, liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, formado pela Universidade de Chicago. Após sua nomeação, ele prometeu reduzir o tamanho e a influência do Estado através de vastas privatizações e restringindo empréstimos bancários estaduais.

Desde o surto, houve algum reconhecimento da necessidade de fornecer alívio financeiro. Entre outras coisas, o banco estatal Caixa Econômica Federal reduziu as taxas de juros dos cheques e das parcelas de cartão de crédito, e o governo permitiu que as pessoas retirassem o equivalente ao salário mínimo de um mês das contas de aposentadoria. Também aprovou pagamentos mensais de US$ 117 para ajudar a manter os trabalhadores de baixa renda. Os benefícios devem começar a ser pagos nesta quinta-feira.

Ainda assim, não basta, disse Lula Da Silva. Ele acrescentou que o apoio à possível impressão de dinheiro não é radical, mas uma medida necessária em uma circunstância desesperada.

Em tempos de guerra, você faz coisas que não são normais porque o que importa é a sobrevivência. O coronavírus é um inimigo invisível cuja forma sabemos, mas ainda não sabemos como derrotá-lo


“Em tempos de guerra, você faz coisas que não são normais porque o que importa é a sobrevivência”, disse ele. “O coronavírus é um inimigo invisível cuja forma sabemos, mas ainda não sabemos como derrotá-lo.”

Políticos esquerdistas brasileiros de diferentes partidos, incluindo do Partido dos Trabalhadores, fundado por Lula da Silva, publicaram uma carta na semana passada pedindo a renúncia de Bolsonaro por sua má gestão durante a pandemia. O ex-presidente não assinou, mas disse que suas opiniões são claras.

“Não há saída com Bolsonaro se ele não mudar seu comportamento”, disse ele. “Seria muito mais fácil pedir desculpas, admitir que estava errado, dizer ao povo brasileiro que sente muito”.

MAURICIO SAVARESE e DAVID BILLER, da Associated Press

03
Abr20

Em manifesto, Manuela, Boulos, Ciro Gomes, Dino, Haddad pedem renúncia de Bolsonaro

Talis Andrade

 "Bolsonaro comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável"

Líderes de diversos partidos de oposição se uniram para lançar um documento denunciando Jair Bolsonaro de ser “um presidente da República irresponsável”, que agrava a crise do coronavírus pois “submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários e aposta no caos social, econômico e político"

“Deveria renunciar” diz o texto, assinado por Fernando Haddad (PT-SP), Ciro Gomes (PDT-CE) e Guilherme Boulos (PSOL-SP) e pela candidata a vice de Haddad, Manuela Davila (PCdoB).

O documento é endossado ainda pelo governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB), pelo ex-governador do Paraná Roberto Requião (MDB-PR), pelo ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro (PT-RS), e pelos presidentes do PT Gleisi Hoffmann, do PSB Carlos Siqueira, do PDT Carlos Lupi, do PCB Edmilson Costa, do PSOL Juliano Medeiros, do PCdoB Luciana Santos.

Governo anuncia medidas tardias e erráticas

O Brasil e o mundo enfrentam uma emergência sem precedentes na história moderna, a pandemia do coronavírus, de gravíssimas consequências para a vida humana, a saúde pública e a atividade econômica. Em nosso país a emergência é agravada por um presidente da República irresponsável. Jair Bolsonaro é o maior obstáculo à tomada de decisões urgentes para reduzir a evolução do contágio, salvar vidas e garantir a renda das famílias, o emprego e as empresas. Atenta contra a saúde pública, desconsiderando determinações técnicas e as experiências de outros países. Antes mesmo da chegada do vírus, os serviços públicos e a economia brasileira já estavam dramaticamente debilitados pela agenda neoliberal que vem sendo imposta ao país. Neste momento é preciso mobilizar, sem limites, todos os recursos públicos necessários para salvar vidas.

Bolsonaro não tem condições de seguir governando o Brasil e de enfrentar essa crise, que compromete a saúde e a economia. Comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável. Precisamos de união e entendimento para enfrentar a pandemia, não de um presidente que contraria as autoridades de Saúde Pública e submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários. Basta! Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país. Ele precisa ser urgentemente contido e responder pelos crimes que está cometendo contra nosso povo.

Ao mesmo tempo, ao contrário de seu governo – que anuncia medidas tardias e erráticas – temos compromisso com o Brasil. Por isso chamamos a unidade das forças políticas populares e democráticas em torno de um Plano de Emergência Nacional para implantar as seguintes ações:

-Manter e qualificar as medidas de redução do contato social enquanto forem necessárias, de acordo com critérios científicos;

-Criação de leitos de UTI provisórios e importação massiva de testes e equipamentos de proteção para profissionais e para a população;

-Implementação urgente da Renda Básica permanente para desempregados e trabalhadores informais, de acordo com o PL aprovado pela Câmara dos Deputados, e com olhar especial aos povos indígenas, quilombolas e aos sem-teto, que estão em maior vulnerabilidade;

-Suspensão da cobrança das tarifas de serviços básicos para os mais pobres enquanto dure a crise,
-Proibição de demissões, com auxílio do Estado no pagamento do salário aos setores mais afetados e socorro em forma de financiamento subsidiado, aos médios, pequenos e micro empresários;

-Regulamentação imediata de tributos sobre grandes fortunas, lucros e dividendos; empréstimo compulsório a ser pago pelos bancos privados e utilização do Tesouro Nacional para arcar com os gastos de saúde e seguro social, além da previsão de revisão seletiva e criteriosa das renunciais fiscais, quando a economia for normalizada.

Frente a um governo que aposta irresponsavelmente no caos social, econômico e político, é obrigação do Congresso Nacional legislar na emergência, para proteger o povo e o país da pandemia. É dever de governadores e prefeitos zelarem pela saúde pública, atuando de forma coordenada, como muitos têm feito de forma louvável. É também obrigação do Ministério Público e do Judiciário deter prontamente as iniciativas criminosas de um Executivo que transgride as garantias constitucionais à vida humana. É dever de todos atuar com responsabilidade e patriotismo.

Ilustração: Parte do painel de Corbiniano Lins, que retratou as revoluções pernambucanas.

Foto Ricardo Labastier

 

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