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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

11
Set22

O show de horrores do 7 de Setembro

Talis Andrade

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porJeferson Miola

As celebrações do 7 de setembro foram transformadas numa esdrúxula maratona militar de propaganda eleitoral. O evento, repleto de crimes eleitorais e bancado com dinheiro público, foi transmitido ao vivo pela televisão horas a fio.

Assistimos comícios eleitorais preparados pelas Forças Armadas para seu candidato Jair Bolsonaro. Na data cívica sequestrada pelos militares, não houve menção ao bicentenário da independência; somente discursos toscos e radicalizados dirigidos às hordas fanáticas.

As cúpulas das Forças Armadas se exibiram abertamente como facção partidária de extrema-direita. Oficiais da ativa subiram no palanque eleitoral trajando uniforme de gala militar. Com esta demonstração de força e poder bolsonarista, o partido militar patrocinou o enterro da já baixa credibilidade que as Forças Armadas ainda possuíam.

A ausência de autoridades do judiciário e do Congresso ilustra o isolamento institucional de Bolsonaro e do governo militar. Nem mesmo o presidente da Câmara Arthur Lira e o PGR Augusto Aras compareceram; logo eles, dois fiéis colaboracionistas do fascismo.

O 7 de setembro foi concebido como marco estratégico do “Capitólio de Brasília”. Era para ser um dia apoteótico da escalada fascista-militar, mas ficou aquém do anunciado.

A bandeira central do Bolsonaro e dos chefes militares para avacalhar a eleição – o ataque às urnas eletrônicas e a contestação do resultado da votação – sintomaticamente não foi mencionada em nenhum discurso; simplesmente sumiu, como se tivesse deixado de existir.

Este fato significativo – a ausência da bandeira central do bolsonarismo nos comícios de 7 de setembro – pode representar uma inflexão tática dos militares no contexto do desgaste e da desmoralização de que padecem.

Para explorar esta hipótese, é preciso voltar alguns dias no tempo e relembrar o encontro do presidente do TSE, ministro Alexandre Moraes, com o general-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, em 31 de agosto passado.

Após aquela reunião, divulgou-se um consenso sobre suposto plano-piloto para a execução de teste de integridade das urnas. Este entendimento, segundo divulgação oficial, seria suficiente para os militares aceitarem o resultado da votação.

Neste sentido, portanto, a concessão do ministro Moraes ofereceria uma saída honrosa para o reposicionamento tático das cúpulas militares. Com este “trunfo”, poderiam alardear aos apoiadores que “arrancaram” do TSE as garantias para a realização de “eleições limpas”.

É evidente, contudo, que em se tratando dos militares e suas táticas diversionistas, o suposto entendimento para testar a integridade das urnas pode ser mais uma armadilha.

Isso porque o modelo de teste sugerido por eles é uma verdadeira gambiarra que sabidamente pode dar errada – por esta razão os militares o conceberam. E neste caso, diante de qualquer falha do teste, Bolsonaro e os militares então fabricariam a almejada retórica de fraude para tumultuar a eleição.

Apesar deste risco, no entanto, a hipótese de ajuste de posicionamento dos militares tem eco na realidade. A conjuntura piorou muito para o governo depois do encontro do Bolsonaro com diplomatas estrangeiros [18/7]. O evento ampliou a percepção do grave risco que ele representa e aumentou consideravelmente o isolamento interno e internacional.

As cúpulas militares sabem que somente conseguiriam impedir a vitória do Lula promovendo rupturas e pisoteando as regras do jogo. O problema, porém, é que estão isolados e desmoralizados, enfrentam uma enorme crise de legitimidade e não têm amparo político, social e institucional – interno e estrangeiro – para concretizar a escalada golpista.

Além disso, a popularidade das Forças Armadas está caindo persistentemente. Na última pesquisa, atingiu um dos mais baixos patamares na série histórica, ao redor de 30%. Não por acaso, percentual equivalente à intenção de votos do Bolsonaro.

O show de horrores do governo militar no 7 de setembro teve como efeito colateral o aumento do cansaço com o padrão arcaico, selvagem e truculento do bolsonarismo. Com a maratona militar-eleitoral, Bolsonaro não angariou simpatias e apoios junto ao eleitorado indeciso ou em disputa, no máximo conseguiu se comunicar com seus apoiadores.

Ao lado disso, o sentimento de medo e insegurança com Bolsonaro e a ânsia por tranquilidade e paz podem impulsionar o voto útil no Lula e, assim, elegê-lo já no primeiro turno.

A candidatura do Ciro, que trai a história do PDT e do Brizola para funcionar como uma variante do bolsonarismo, deverá ter sua votação achatada com a migração dos seus eleitores para Lula.

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23
Nov21

Crime contra o Enem

Talis Andrade

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por Cristina Serra

- - -

Milhões de jovens brasileiros começam as provas do Enem neste fim de semana em busca de uma vaga no ensino superior, sonho que o governo Bolsonaro tem se esmerado em tornar cada vez mais difícil de alcançar.

São muitos os problemas neste ano: pedido de exoneração de 37 servidores do Inep (responsável pelo exame), denúncias de assédio moral e de censura ideológica, e a quase confissão de um crime, quando Bolsonaro disse que a prova começa a ter “a cara do governo”.

Tudo isso fomenta desconfianças e cria um ambiente de incertezas para os estudantes, sobretudo aqueles já tão sacrificados pelo aprofundamento de desigualdades em dois anos de pandemia e aulas remotas.

O que acontece com o Enem não é um acidente isolado. Faz parte de um projeto de demolição de esperanças, claramente expresso pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro: “Universidade, na verdade, deveria ser para poucos”. Entre esses poucos, não está o filho do porteiro, completaria Paulo Guedes.Image

Políticas articuladas e complementares, como o Enem, Prouni, Sisu, Fies e as cotas (sociais e raciais) permitem uma seleção mais justa para as vagas e dão aos alunos condições para que possam concluir sua graduação. Isso transformou as universidades, deixou-as mais parecidas com a cara do Brasil. Não é outro o motivo pelo qual o bolsonarismo trata de dilapidar esse conjunto de iniciativas e, junto com ele, as aspirações de tantos rapazes e moças que têm na formação superior uma chance de ascensão social. 

O crime contra a educação extrapola o Enem. Reportagem de Thais Carrança, na BBC Brasil, mostra uma realidade dilacerante em escolas do ensino básico de bairros pobres. Segundo os professores, cada vez mais crianças estão desmaiando de fome na sala de aula. Por tudo isso, ou apesar de tudo isso, deixo um pedido aos jovens que farão o Enem: não desistam dos seus sonhos, não desistam de vocês, não desistam de nós. Este tempo ruim vai passar. Boas provas e boa sorte!

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13
Nov21

Fim do orçamento secreto? Ninguém é preso?

Talis Andrade

 

Por Bepe Damasco

É impressionante como o establishment, leia-se mídia comercial e instituições, é leniente com os crimes cometidos por Bolsonaro e os que o servem.

Os incontáveis crimes comuns e de responsabilidade de Bolsonaro só repousam sob o traseiro do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, uma espécie de réplica de Eduardo Cunha, porque não há reação à altura do sistema de justiça, do Congresso Nacional e da imprensa.

Vejamos o caso do orçamento paralelo. Em qualquer democracia do mundo que mereça ser chamada como tal, um escândalo desta monta teria derrubado governos e levado gente graúda para a cadeia.

Mas em Pindorama chega a ser assustadora a forma como o assunto é noticiado por jornais e emissoras de rádio e TV. A naturalização e a normalização usadas na abordagem levam o incauto a crer que se trata de uma mera artimanha de congressistas fisiológicos.

“Ai, ai, ai, para com esta história de orçamento secreto, hein.”

O freio imposto pelo STF ao orçamento secreto de Bolsonaro, Lira e Centrão, embora positivo, lembra aquela bronca sem consequência dada pelos pais nos filhos.

Aliás, os próceres do Centrão, sem quaisquer constrangimentos, já dizem que têm um Plano B para driblar a decisão do Supremo e seguir adiante com a falcatrua.

Quer dizer, então, que são distribuídos nada menos do que R$ 22 bilhões em “emendas do relator” – nome pomposo para compra de apoio parlamentar – aos deputados da base bolsonarista só em 2021, completamente fora do controle e fiscalização públicos, e ninguém é processado e preso?

Não dá para não fazer a pergunta clássica: e se fosse com o PT?

E pensar que os canalhas cassaram Dilma Rousseff porque ela antecipou o pagamento de alguns benefícios sociais.

05
Out20

Moro veste a carapuça e sugere que Kássio não “combate a corrupção"

Talis Andrade

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por Fernando Brito

- - -

O que se escreveu ontem aqui, ao afirmar-se que Sérgio Moro é o alvo de Bolsonaro na indicação do desembargador Kássio Nunes Marques para o Supremo Tribunal foi, escandalosamente, confirmado por ninguém menos que Sérgio Moro, ao escrever um tuíte grosseiro e ofensivo ao futuro ministro:

Simples assim, se o PR @jairbolsonaro não indicar alguém ao STF comprometido com o combate à corrupção ou com a execução da condenação criminal em segunda instância, todos já saberão a sua verdadeira natureza (muitos já sabem)".

Todos já sabiam da escolha de Kássio e, portanto, o recado tem infamante endereço certo. Ou teve, porque o valente ex-juiz já apagou a mensagem.

(De passagem, aliás, a sonsice de Moro foi desmontada por um leitor de sua mensagem que lhe perguntou se não sabia da natureza do Presidente quando aceitou ser seu ministro.)

O raciocínio de Moro já nem se esconde mais: não distorcer o texto constitucional para engrossar a sede punitivista é, para ele, o equivalente a ser cúmplice de corrupção, o que, aliás, se aplica a todos que não acompanham suas posições.

Há, porém, um sinal eloquente de boas coisas à frente, porque a agressividade do comportamento de Moro evidencia que sua hora está chegando.

Embora, infelizmente, isso não vá anular tudo de mal que ele causou à Justiça e à sociedade, transformando o ódio em bandeira moral e os tribunais em pelourinhos.

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04
Set20

Nova nota de R$ 200 pode facilitar corrupção e gera polêmica no Brasil, aponta Les Echos

Talis Andrade

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O jornal francês Les Echos desta quinta-feira (3) aborda o polêmico lançamento da nota de R$ 200 no Brasil e a suspeita de que esta facilitaria a corrupção no país. A nova cédula, ilustrada com o lobo guará, foi lançada nessa quarta-feira (2) pelo Banco Central brasileiro e já entrou em circulação

RFI - O correspondente do jornal econômico francês no Brasil, Thierry Ogier, diz que o lançamento foi justificado pelo governo para facilitar o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 a 60 milhões de brasileiros carentes durante a pandemia de coronavírus. Mas a nova cédula pode facilitar também a vida dos corruptos em um país onde os escândalos se sucedem.

Assim como parte da mídia brasileira, o diário francês questiona a necessidade da iniciativa em plena pandemia. Oficialmente, o BC explica que o volume de dinheiro em circulação aumentou quase 30% durante a crise sanitária, e o governo precisaria de dinheiro líquido para atravessar esse período crítico.

O artigo cita uma pesquisa de 2018, que aponta que os brasileiros preferem pagar suas compras em dinheiro vivo. Além disso, a população, que de acordo com o texto adquiriu muita experiência em outros momentos difíceis, perde a confiança nos bancos em tempos de crise e prefere guardar o dinheiro embaixo do colchão. Por sorte, a inflação está em queda, menos de 2%, e os riscos de que o lançamento influencie os preços são menores, afirma o artigo.

 

Lançamento não era prioridade

A maior preocupação, denunciada por ONGs, é com a possibilidade da nota de R$ 200 facilitar as operações de circulação, ocultação e lavagem de dinheiro. "Há muitos casos no Brasil em que o dinheiro da corrupção circula em espécie. Notas de grande valor na mão dos criminosos significa maiores riscos", alerta Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, citado pelo Les Echos.

"Essa nova cédula não é, em absoluto, uma prioridade durante esse grave período da pandemia. A operação vai custar R$ 150 milhões. Esse dinheiro poderia ser mais bem utilizado", completa Livianu, que também é procurador da Justiça em São Paulo.

Três partidos políticos - Rede, Partido Socialista Brasileiro e Podemos -, de diversas tendências, entraram com uma ação, sem sucesso, no STF, pedindo a suspensão do lançamento da nova cédula com o lobo guará, conclui Les Echos.

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12
Ago20

Bolsonaro rifa Guedes e abre espaço para a era Rogério Marinho

Talis Andrade

bolsonaro paulo guedes os moicanos de pinochet dit

 

 

por Luis Nassif

-- -- --

Vamos tentar estimar o cenário econômico sob Jair Bolsonaro.

O primeiro passo é o diagnóstico sobre o comportamento da indústria regional, de acordo com os dados de junho divulgados na Pesquisa Mensal da Indústria do IBGE, Os resultados são ilusoriamente otimistas.

Em relação ao mês anterior, celebrou-se o crescimento  em 13 estados e queda em apenas 1 – Mato Grosso. Porém, se comparar o nível de junho com janeiro, haverá 13 estados em queda e apenas 1 em alta – Goiás. E se a comparação for com 12 meses atrás, também apenas Goiás mostrou aumento.

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Repare que as menores quedas, desde janeiro. ocorrem em estados com preponderância da indústria extrativa, como Goiás (+3,2%), Mato Grosso (-1%), Pernambuco (-1,3%), Pará (-2,7%) e Minas Gerais (-4,7%).

Nos indicadores nacionais, fica nítida a queda da indústria de transformação e a resistência da indústria extrativa, beneficiada pelo aumento das importações chinesas.

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A indústria extrativa tem pouco impacto na economia como um todo, por dispor de uma rede de fornecedores extremamente restrita. Além disso, gera pouco emprego.

O segundo ponto são os efeitos da renda básica sobre a economia e sobre a popularidade de Bolsonaro. Embora a decisão de R$ 600,00 tenha sido da Câmara, Bolsonaro está colhendo os frutos. À renda básica está sendo atribuído o mérito de ter impedido uma queda maior na economia; e uma queda maior na popularidade de Bolsonaro.

Nas discussões internas do governo, o dogmatismo cego de Paulo Guedes matava qualquer tentativa de mobilização econômica. Prova disso foi a reunião ministerial do dia 22 de abril, com Guedes humilhando os generais de Bolsonaro pela tentativa de lançar o plano Pró Brasil.

Agora, a Câmara quebrou o dogmatismo cego de Guedes e reforçou enormemente os argumentos de Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, ao lado de Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, um sopro de racionalidade no jardim zoológico do Ministério de Bolsonaro.

Ontem, a demissão do Ministro da Privatização, Salim Mattar, e de Paulo Uebel, responsável pelos estudos de reforma administrativa, pediram demissão, sinalizando a debandada da equipe de Paulo Guedes. Antes deles, já havia saído Mansueto de Almeida, que seguiu para o Banco Pactual para administrar a carteira de créditos que o Banco do Brasil transferiu para lá, com inacreditáveis 90% de deságio.

Completa-se, assim, o aggiornamento de Bolsonaro, ao custo de 100 mil mortes pelo Covid-19.

Do desenho inicial, abriu mão do falso discurso moralista de Sérgio Moro, está se afastando cada vez mais dos olavistas, aproximou-se do Centrão, atraindo, agora, Michel Temer, abriu mão do discurso anti-ambientalista, está rifando Paulo Guedes e até se solidarizou com um motoboy negro agredido pela polícia.

Mas, por trás desse novo Bolsonaro, o verdadeiro Bolsonaro continua firme como uma rocha, ampliando a radicalização das polícias, através do WhatsApp, ampliando o armamento da população e esperando reunir condições para tentar o ataque final contra as instituições.

 

 
31
Jul20

Carta de mil padres com críticas a Bolsonaro

Talis Andrade

 

30
Jul20

Perversa desigualdade social escancarada pela pandemia

Talis Andrade

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VI - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

- - -

 

Conclusão

O momento político atual pode ser resumido por duas constatações:

1 - a pandemia acelerou a mudança de conjuntura, com Bolsonaro e o seu governo passando prioritariamente a se defender, enquanto as forças antifascistas assumiram a ofensiva; e

2 - apesar disso, Bolsonaro e o seu governo demonstram ainda capacidade de resistência, que pode ser vencida se a ofensiva antifascista não esmorecer, não cair no atual “canto da sereia” de Bolsonaro de que tem a intenção de se conciliar com os outros poderes da República.

A resiliência de Bolsonaro e de seu governo, que está lhe dando uma sobrevida, apesar de todas as barbaridades já cometidas, decorre de múltiplas fontes, sendo as três primeiras, na prática política concreta, inseparáveis: 1- acima de tudo, dos interesses do grande capital contemplados nas reformas e políticas neoliberais encaminhadas pelo Ministro da Economia; 2 - da tática camaleônica da direita neoliberal (que exerce uma oposição seletiva ao governo Bolsonaro); 3 - da preocupação dos dois sujeitos anteriores com o protagonismo das forças políticas antifascistas e antineoliberais (identificadas como o inimigo estratégico principal);  4 - da existência de um movimento neofascista atuante e belicoso, embora em processo de enfraquecimento; 5 - da identificação e apoio da extrema direita militar tradicional, sempre projetando o seu desejo de tutelar a sociedade através da ameaça de uma intervenção; 6 - do comprometimento das principais igrejas evangélicas neopentecostais com ambas as faces do governo Bolsonaro: o neofascismo e o neoliberalismo e 7- da falta de uma forte convicção das forças de esquerda de que, de fato, já passou a hora de parar Bolsonaro e o seu governo – embora haja, retoricamente, esse consenso entre elas.

Portanto, se está diante de uma situação muito complexa, reforçada mais ainda com a recente aproximação de Bolsonaro e a “velha política”, o onipresente e famigerado Centrão – agora em sua versão mais baixa. Por tudo isso, embora Bolsonaro se encontre momentaneamente nas cordas, o jogo ainda está sendo jogado. A superação de sua resiliência, que levará a sua queda e, principalmente, implique uma saída favorável às forças populares, não será resultado apenas das ações da direita neoliberal – comprometida, em última instância, com esse governo.

Embora essas ações (efetivadas, principalmente, através do protagonismo do Judiciário e da mídia corporativa, além de decisões e medidas do parlamento), sejam importantes para fustigar, isolar e impor limites à Bolsonaro e ao seu governo, colocando-os na defensiva, o “xeque mate” político só poderá resultar, em última instância, da capacidade das forças antifascistas e antineoliberais de conseguir ganhar corpo e organização, aglutinando e dirigindo, em um movimento de rua, a ampla maioria da sociedade brasileira – vítima da violência política-econômica-social-racial-cultural do governo neofascista-neoliberal de Jair Bolsonaro.

De qualquer sorte, para além da atual conjuntura, o futuro pós-pandemia, no mundo e também no Brasil, não será simplesmente um retorno à situação anterior. Antes de tudo, o combate ao vírus evidenciou, claramente, a importância de se ter um sistema público de saúde universal, efetivamente aparelhado e funcionando. Também evidenciou, num plano mais geral, e mais do que nas anteriores crises econômicas estrito senso, a importância fundamental do Estado e de suas políticas para reduzir os seus efeitos mais deletérios e garantir a sustentação e o apoio aos mais vulneráveis.

Subjacente às duas evidências, uma terceira se impôs: o mantra neoliberal de que “o Estado não tem dinheiro” (daí o permanente ajuste fiscal e as políticas de austeridade), como se ele fosse semelhante a uma empresa ou família, caiu por terra. Em todos os países, os respectivos Estados criaram (fabricaram) dinheiro e gastaram, utilizando-se de políticas fiscais e monetárias. Até o FMI, através de um dos seus relatórios mais recentes, propõe uma política de déficit fiscal para enfrentar a recessão mundial em andamento.

Todas essas evidências, assim como a perversa desigualdade social escancarada pela forma diferenciada como o vírus atingiu diferentes segmentos da população, estarão, provavelmente, no centro do debate e das disputas políticas futuras – contribuindo para aprofundar a crise de hegemonia do neoliberalismo.

28
Jul20

Xadrez de como a Lava Jato entregou o CADE aos EUA

Talis Andrade

 

Como é possível a um órgão administrativo submeter uma determinação constitucional aos mesmos critérios de avaliação de monopólios privados?

28
Jul20

4- As classes dominantes e o Governo Bolsonaro

Talis Andrade

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IV - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

- - -

Contudo, de um ponto de vista que vá além dos acontecimentos políticos mais visíveis e aparentes, é fundamental reconhecer os movimentos conjunturais das classes sociais dominantes e suas distintas frações – que viabilizaram a vitória eleitoral de Bolsonaro, identificando as que continuam acompanhando-o irrestritamente e aquelas que passaram a se opor e criticar, mas que ainda apoiam, seletivamente, o seu governo. Essa é uma variável decisiva para o desenlace do processo, mas muito mais difícil de ser compreendida.

A pandemia trouxe à tona duas posições e comportamentos antagônicos, que cortoaram a sociedade de cima a baixo, inclusive no que concerne a distintas frações do capital: de um lado, os favoráveis ao isolamento social, que reconhecem que se pode contemplar tanto o combate à pandemia (objetivo primário) quanto a defesa da economia e, de outro, a defesa prioritária do funcionamento pleno da economia, combinada com o “isolamento vertical” (isolamento apenas dos grupos de risco). Como de praxe, os interesses imediatos das distintas frações do capital (no caso, prejudicados ou favorecidos, de um lado, pela pandemia e o isolamento social e, de outro, pelas medidas do governo ou a ausência delas) definiram os seus respectivos posicionamentos e comportamentos.

No que se refere ao que se poderia reconhecer como sendo o capital comercial e de serviços, que abrange um enorme e heterogêneo espectro de atividades e negócios – historicamente com a predominância de relações de trabalho mais precárias que na manufatura –, o apoio a uma ou a outra posição não pode ser identificado claramente a partir exclusivamente desse recorte – como se o mesmo constituísse um bloco monolítico. Embora haja uma tendência maior desses capitais de se alinharem com a segunda posição – especialmente os segmentos de pequenos e médios empresários, em virtude da maior dificuldade para enfrentar a crise –, existem também parcelas importantes que apoiam a primeira posição e são críticos de Bolsonaro e de seu governo.

O mesmo vale para distintos segmentos do agronegócio e da indústria, nos quais também não se consegue identificar um comportamento homogêneo dos capitais aí presentes; o que decorre da pulverização de interesses diferenciados relacionados ao tipo de atividade desenvolvida (tipo de produto e destino da produção) e ao tamanho e origem (nacional, estrangeiro ou associado) dos capitais.

Talvez apenas no caso do capital financeiro estrito senso se possa identificar o que se poderia chamar de um comportamento mais homogêneo, de natureza pragmática, que apoia e critica pontualmente, conforme o governo Bolsonaro facilite ou dificulte o encaminhamento da agenda neoliberal; e que na pandemia, por razões quase que óbvias (possibilidade de funcionar com trabalho remoto e manterem as relações com os clientes-consumidores através de plataformas digitais), apoiou o isolamento social.

No que concerne ao grande capital em geral (independentemente de sua origem e do setor de atividade no qual atua), uma primeira constatação: a defesa e execução das reformas e políticas econômico-sociais neoliberais, com a destruição dos direitos sociais e trabalhistas conquistados desde os anos 1930 e ampliados na Constituinte de 1988, unificam todas as frações da grande burguesia, sem exceção. Esse consenso soldou os seus mais diversos interesses no apoio, quase unânime, ao golpe judicial-parlamentar-midiático que construiu e executou o impeachment da presidente Dilma Roussef e, na sequência, sustentou o governo Temer e apoiou a eleição de Jair Bolsonaro – o neofascista neoliberal de ocasião. Esse consenso se constitui na principal razão que explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo, apesar de todas as barbaridades e insanidades já cometidas.

Uma segunda constatação, decorrente da anterior: a derrubada de Bolsonaro não é uma questão de princípio, nem inevitável, para qualquer fração da grande burguesia (outra razão explicativa para a sua resiliência e de seu governo); na verdade, o “melhor dos mundos” para qualquer uma delas seria mantê-lo até 2022, desde que ele se aquiete, suspenda a “guerra cultural” e pare com as ameaças mais explícitas às instituições e ao Estado de Direito. Em suma, desde que venha a ser possível enquadrá-lo e domá-lo, desde que ele não dificulte, não atrase e nem atrapalhe o encaminhamento da agenda neoliberal (reformas e políticas). A ameaça crescente de criminalização dele e de sua família, com a consequente possibilidade de abertura de um processo de impeachment, objetivamente se constitui em uma arma para controlá-lo; funcionando como uma espécie de chantagem.

No final de junho Bolsonaro, claramente amedrontado, começou a emitir sinais, e suposta intenção, de compor com os outros poderes da República. Caso isso não se viabilize, o que é provável, tendo em vista a natureza e o comportamento histórico do fascista (com recuos táticos momentâneos para poder recompor suas forças e depois retomar o ataque), o vice-Presidente Mourão pode se constituir no “Plano B” do grande capital. A pior saída para as classes dominantes seria a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, em virtude de fraudes cometidas na eleição de 2018; porque implicaria uma indesejável nova eleição, que anteciparia a disputa programada para 2022.

Isso nos remete a uma terceira constatação, decorrente das duas anteriores e que também explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo: o inimigo maior, estratégico, da grande burguesia é a esquerda antifascista e, principalmente, antineoliberal. O golpe de 2016, apesar de expressar uma disputa entre distintas frações da burguesia, foi, sobretudo, contra a esquerda, no seu sentido mais amplo, e pela retomada da agenda neoliberal. A eleição e o governo de Bolsonaro foram o seu desdobramento necessário. É por isso que os prepostos do grande capital – na mídia, no judiciário e no Congresso – criticam ou apoiam e aprovam, seletivamente, o comportamento de Bolsonaro e as ações de seu governo: duras críticas àquelas relacionadas à “guerra cultural” e ao autoritarismo mais explícito, mas efusivo e entusiástico apoio às medidas econômicas “pró-mercado” – como a recente aprovação pelo Congresso Nacional da possibilidade (para alguns a obrigatoriedade) de privatização da área de saneamento básico do país (água, esgoto etc.).

A constatação anterior também explica porque não há qualquer autocrítica do grande capital, e mesmo da classe média alta, com relação ao golpe efetivado com o impeachment fraudulento da então presidente Dilma Roussef; e muito menos o reconhecimento de que Bolsonaro e o seu governo foram o seu corolário necessário – mesmo quando os seus prepostos se dizem arrependidos de terem votado e acreditado no fascista, com muitos deles fingindo que não sabiam ou não tinham ideia de suas intenções e do que ele seria capaz. Assim, o comportamento padrão é sempre o de imputar ao PT e a seus governos a responsabilidade pelos eventos que desembocaram na eleição de Bolsonaro e no seu governo ou, no máximo, assumir uma explicação qualquer ad hoc; não há qualquer dilema de consciência ou de culpa com relação à crescente tragédia sanitária que vem ocorrendo, que tem tido a contribuição fundamental de Bolsonaro e o seu governo. (Continua)

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