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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

05
Out20

Moro veste a carapuça e sugere que Kássio não “combate a corrupção"

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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O que se escreveu ontem aqui, ao afirmar-se que Sérgio Moro é o alvo de Bolsonaro na indicação do desembargador Kássio Nunes Marques para o Supremo Tribunal foi, escandalosamente, confirmado por ninguém menos que Sérgio Moro, ao escrever um tuíte grosseiro e ofensivo ao futuro ministro:

Simples assim, se o PR @jairbolsonaro não indicar alguém ao STF comprometido com o combate à corrupção ou com a execução da condenação criminal em segunda instância, todos já saberão a sua verdadeira natureza (muitos já sabem)".

Todos já sabiam da escolha de Kássio e, portanto, o recado tem infamante endereço certo. Ou teve, porque o valente ex-juiz já apagou a mensagem.

(De passagem, aliás, a sonsice de Moro foi desmontada por um leitor de sua mensagem que lhe perguntou se não sabia da natureza do Presidente quando aceitou ser seu ministro.)

O raciocínio de Moro já nem se esconde mais: não distorcer o texto constitucional para engrossar a sede punitivista é, para ele, o equivalente a ser cúmplice de corrupção, o que, aliás, se aplica a todos que não acompanham suas posições.

Há, porém, um sinal eloquente de boas coisas à frente, porque a agressividade do comportamento de Moro evidencia que sua hora está chegando.

Embora, infelizmente, isso não vá anular tudo de mal que ele causou à Justiça e à sociedade, transformando o ódio em bandeira moral e os tribunais em pelourinhos.

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04
Set20

Nova nota de R$ 200 pode facilitar corrupção e gera polêmica no Brasil, aponta Les Echos

Talis Andrade

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O jornal francês Les Echos desta quinta-feira (3) aborda o polêmico lançamento da nota de R$ 200 no Brasil e a suspeita de que esta facilitaria a corrupção no país. A nova cédula, ilustrada com o lobo guará, foi lançada nessa quarta-feira (2) pelo Banco Central brasileiro e já entrou em circulação

RFI - O correspondente do jornal econômico francês no Brasil, Thierry Ogier, diz que o lançamento foi justificado pelo governo para facilitar o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 a 60 milhões de brasileiros carentes durante a pandemia de coronavírus. Mas a nova cédula pode facilitar também a vida dos corruptos em um país onde os escândalos se sucedem.

Assim como parte da mídia brasileira, o diário francês questiona a necessidade da iniciativa em plena pandemia. Oficialmente, o BC explica que o volume de dinheiro em circulação aumentou quase 30% durante a crise sanitária, e o governo precisaria de dinheiro líquido para atravessar esse período crítico.

O artigo cita uma pesquisa de 2018, que aponta que os brasileiros preferem pagar suas compras em dinheiro vivo. Além disso, a população, que de acordo com o texto adquiriu muita experiência em outros momentos difíceis, perde a confiança nos bancos em tempos de crise e prefere guardar o dinheiro embaixo do colchão. Por sorte, a inflação está em queda, menos de 2%, e os riscos de que o lançamento influencie os preços são menores, afirma o artigo.

 

Lançamento não era prioridade

A maior preocupação, denunciada por ONGs, é com a possibilidade da nota de R$ 200 facilitar as operações de circulação, ocultação e lavagem de dinheiro. "Há muitos casos no Brasil em que o dinheiro da corrupção circula em espécie. Notas de grande valor na mão dos criminosos significa maiores riscos", alerta Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, citado pelo Les Echos.

"Essa nova cédula não é, em absoluto, uma prioridade durante esse grave período da pandemia. A operação vai custar R$ 150 milhões. Esse dinheiro poderia ser mais bem utilizado", completa Livianu, que também é procurador da Justiça em São Paulo.

Três partidos políticos - Rede, Partido Socialista Brasileiro e Podemos -, de diversas tendências, entraram com uma ação, sem sucesso, no STF, pedindo a suspensão do lançamento da nova cédula com o lobo guará, conclui Les Echos.

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12
Ago20

Bolsonaro rifa Guedes e abre espaço para a era Rogério Marinho

Talis Andrade

bolsonaro paulo guedes os moicanos de pinochet dit

 

 

por Luis Nassif

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Vamos tentar estimar o cenário econômico sob Jair Bolsonaro.

O primeiro passo é o diagnóstico sobre o comportamento da indústria regional, de acordo com os dados de junho divulgados na Pesquisa Mensal da Indústria do IBGE, Os resultados são ilusoriamente otimistas.

Em relação ao mês anterior, celebrou-se o crescimento  em 13 estados e queda em apenas 1 – Mato Grosso. Porém, se comparar o nível de junho com janeiro, haverá 13 estados em queda e apenas 1 em alta – Goiás. E se a comparação for com 12 meses atrás, também apenas Goiás mostrou aumento.

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Repare que as menores quedas, desde janeiro. ocorrem em estados com preponderância da indústria extrativa, como Goiás (+3,2%), Mato Grosso (-1%), Pernambuco (-1,3%), Pará (-2,7%) e Minas Gerais (-4,7%).

Nos indicadores nacionais, fica nítida a queda da indústria de transformação e a resistência da indústria extrativa, beneficiada pelo aumento das importações chinesas.

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A indústria extrativa tem pouco impacto na economia como um todo, por dispor de uma rede de fornecedores extremamente restrita. Além disso, gera pouco emprego.

O segundo ponto são os efeitos da renda básica sobre a economia e sobre a popularidade de Bolsonaro. Embora a decisão de R$ 600,00 tenha sido da Câmara, Bolsonaro está colhendo os frutos. À renda básica está sendo atribuído o mérito de ter impedido uma queda maior na economia; e uma queda maior na popularidade de Bolsonaro.

Nas discussões internas do governo, o dogmatismo cego de Paulo Guedes matava qualquer tentativa de mobilização econômica. Prova disso foi a reunião ministerial do dia 22 de abril, com Guedes humilhando os generais de Bolsonaro pela tentativa de lançar o plano Pró Brasil.

Agora, a Câmara quebrou o dogmatismo cego de Guedes e reforçou enormemente os argumentos de Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, ao lado de Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, um sopro de racionalidade no jardim zoológico do Ministério de Bolsonaro.

Ontem, a demissão do Ministro da Privatização, Salim Mattar, e de Paulo Uebel, responsável pelos estudos de reforma administrativa, pediram demissão, sinalizando a debandada da equipe de Paulo Guedes. Antes deles, já havia saído Mansueto de Almeida, que seguiu para o Banco Pactual para administrar a carteira de créditos que o Banco do Brasil transferiu para lá, com inacreditáveis 90% de deságio.

Completa-se, assim, o aggiornamento de Bolsonaro, ao custo de 100 mil mortes pelo Covid-19.

Do desenho inicial, abriu mão do falso discurso moralista de Sérgio Moro, está se afastando cada vez mais dos olavistas, aproximou-se do Centrão, atraindo, agora, Michel Temer, abriu mão do discurso anti-ambientalista, está rifando Paulo Guedes e até se solidarizou com um motoboy negro agredido pela polícia.

Mas, por trás desse novo Bolsonaro, o verdadeiro Bolsonaro continua firme como uma rocha, ampliando a radicalização das polícias, através do WhatsApp, ampliando o armamento da população e esperando reunir condições para tentar o ataque final contra as instituições.

 

 
31
Jul20

Carta de mil padres com críticas a Bolsonaro

Talis Andrade

 

30
Jul20

Perversa desigualdade social escancarada pela pandemia

Talis Andrade

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VI - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Conclusão

O momento político atual pode ser resumido por duas constatações:

1 - a pandemia acelerou a mudança de conjuntura, com Bolsonaro e o seu governo passando prioritariamente a se defender, enquanto as forças antifascistas assumiram a ofensiva; e

2 - apesar disso, Bolsonaro e o seu governo demonstram ainda capacidade de resistência, que pode ser vencida se a ofensiva antifascista não esmorecer, não cair no atual “canto da sereia” de Bolsonaro de que tem a intenção de se conciliar com os outros poderes da República.

A resiliência de Bolsonaro e de seu governo, que está lhe dando uma sobrevida, apesar de todas as barbaridades já cometidas, decorre de múltiplas fontes, sendo as três primeiras, na prática política concreta, inseparáveis: 1- acima de tudo, dos interesses do grande capital contemplados nas reformas e políticas neoliberais encaminhadas pelo Ministro da Economia; 2 - da tática camaleônica da direita neoliberal (que exerce uma oposição seletiva ao governo Bolsonaro); 3 - da preocupação dos dois sujeitos anteriores com o protagonismo das forças políticas antifascistas e antineoliberais (identificadas como o inimigo estratégico principal);  4 - da existência de um movimento neofascista atuante e belicoso, embora em processo de enfraquecimento; 5 - da identificação e apoio da extrema direita militar tradicional, sempre projetando o seu desejo de tutelar a sociedade através da ameaça de uma intervenção; 6 - do comprometimento das principais igrejas evangélicas neopentecostais com ambas as faces do governo Bolsonaro: o neofascismo e o neoliberalismo e 7- da falta de uma forte convicção das forças de esquerda de que, de fato, já passou a hora de parar Bolsonaro e o seu governo – embora haja, retoricamente, esse consenso entre elas.

Portanto, se está diante de uma situação muito complexa, reforçada mais ainda com a recente aproximação de Bolsonaro e a “velha política”, o onipresente e famigerado Centrão – agora em sua versão mais baixa. Por tudo isso, embora Bolsonaro se encontre momentaneamente nas cordas, o jogo ainda está sendo jogado. A superação de sua resiliência, que levará a sua queda e, principalmente, implique uma saída favorável às forças populares, não será resultado apenas das ações da direita neoliberal – comprometida, em última instância, com esse governo.

Embora essas ações (efetivadas, principalmente, através do protagonismo do Judiciário e da mídia corporativa, além de decisões e medidas do parlamento), sejam importantes para fustigar, isolar e impor limites à Bolsonaro e ao seu governo, colocando-os na defensiva, o “xeque mate” político só poderá resultar, em última instância, da capacidade das forças antifascistas e antineoliberais de conseguir ganhar corpo e organização, aglutinando e dirigindo, em um movimento de rua, a ampla maioria da sociedade brasileira – vítima da violência política-econômica-social-racial-cultural do governo neofascista-neoliberal de Jair Bolsonaro.

De qualquer sorte, para além da atual conjuntura, o futuro pós-pandemia, no mundo e também no Brasil, não será simplesmente um retorno à situação anterior. Antes de tudo, o combate ao vírus evidenciou, claramente, a importância de se ter um sistema público de saúde universal, efetivamente aparelhado e funcionando. Também evidenciou, num plano mais geral, e mais do que nas anteriores crises econômicas estrito senso, a importância fundamental do Estado e de suas políticas para reduzir os seus efeitos mais deletérios e garantir a sustentação e o apoio aos mais vulneráveis.

Subjacente às duas evidências, uma terceira se impôs: o mantra neoliberal de que “o Estado não tem dinheiro” (daí o permanente ajuste fiscal e as políticas de austeridade), como se ele fosse semelhante a uma empresa ou família, caiu por terra. Em todos os países, os respectivos Estados criaram (fabricaram) dinheiro e gastaram, utilizando-se de políticas fiscais e monetárias. Até o FMI, através de um dos seus relatórios mais recentes, propõe uma política de déficit fiscal para enfrentar a recessão mundial em andamento.

Todas essas evidências, assim como a perversa desigualdade social escancarada pela forma diferenciada como o vírus atingiu diferentes segmentos da população, estarão, provavelmente, no centro do debate e das disputas políticas futuras – contribuindo para aprofundar a crise de hegemonia do neoliberalismo.

28
Jul20

Xadrez de como a Lava Jato entregou o CADE aos EUA

Talis Andrade

 

Como é possível a um órgão administrativo submeter uma determinação constitucional aos mesmos critérios de avaliação de monopólios privados?

28
Jul20

4- As classes dominantes e o Governo Bolsonaro

Talis Andrade

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IV - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Contudo, de um ponto de vista que vá além dos acontecimentos políticos mais visíveis e aparentes, é fundamental reconhecer os movimentos conjunturais das classes sociais dominantes e suas distintas frações – que viabilizaram a vitória eleitoral de Bolsonaro, identificando as que continuam acompanhando-o irrestritamente e aquelas que passaram a se opor e criticar, mas que ainda apoiam, seletivamente, o seu governo. Essa é uma variável decisiva para o desenlace do processo, mas muito mais difícil de ser compreendida.

A pandemia trouxe à tona duas posições e comportamentos antagônicos, que cortoaram a sociedade de cima a baixo, inclusive no que concerne a distintas frações do capital: de um lado, os favoráveis ao isolamento social, que reconhecem que se pode contemplar tanto o combate à pandemia (objetivo primário) quanto a defesa da economia e, de outro, a defesa prioritária do funcionamento pleno da economia, combinada com o “isolamento vertical” (isolamento apenas dos grupos de risco). Como de praxe, os interesses imediatos das distintas frações do capital (no caso, prejudicados ou favorecidos, de um lado, pela pandemia e o isolamento social e, de outro, pelas medidas do governo ou a ausência delas) definiram os seus respectivos posicionamentos e comportamentos.

No que se refere ao que se poderia reconhecer como sendo o capital comercial e de serviços, que abrange um enorme e heterogêneo espectro de atividades e negócios – historicamente com a predominância de relações de trabalho mais precárias que na manufatura –, o apoio a uma ou a outra posição não pode ser identificado claramente a partir exclusivamente desse recorte – como se o mesmo constituísse um bloco monolítico. Embora haja uma tendência maior desses capitais de se alinharem com a segunda posição – especialmente os segmentos de pequenos e médios empresários, em virtude da maior dificuldade para enfrentar a crise –, existem também parcelas importantes que apoiam a primeira posição e são críticos de Bolsonaro e de seu governo.

O mesmo vale para distintos segmentos do agronegócio e da indústria, nos quais também não se consegue identificar um comportamento homogêneo dos capitais aí presentes; o que decorre da pulverização de interesses diferenciados relacionados ao tipo de atividade desenvolvida (tipo de produto e destino da produção) e ao tamanho e origem (nacional, estrangeiro ou associado) dos capitais.

Talvez apenas no caso do capital financeiro estrito senso se possa identificar o que se poderia chamar de um comportamento mais homogêneo, de natureza pragmática, que apoia e critica pontualmente, conforme o governo Bolsonaro facilite ou dificulte o encaminhamento da agenda neoliberal; e que na pandemia, por razões quase que óbvias (possibilidade de funcionar com trabalho remoto e manterem as relações com os clientes-consumidores através de plataformas digitais), apoiou o isolamento social.

No que concerne ao grande capital em geral (independentemente de sua origem e do setor de atividade no qual atua), uma primeira constatação: a defesa e execução das reformas e políticas econômico-sociais neoliberais, com a destruição dos direitos sociais e trabalhistas conquistados desde os anos 1930 e ampliados na Constituinte de 1988, unificam todas as frações da grande burguesia, sem exceção. Esse consenso soldou os seus mais diversos interesses no apoio, quase unânime, ao golpe judicial-parlamentar-midiático que construiu e executou o impeachment da presidente Dilma Roussef e, na sequência, sustentou o governo Temer e apoiou a eleição de Jair Bolsonaro – o neofascista neoliberal de ocasião. Esse consenso se constitui na principal razão que explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo, apesar de todas as barbaridades e insanidades já cometidas.

Uma segunda constatação, decorrente da anterior: a derrubada de Bolsonaro não é uma questão de princípio, nem inevitável, para qualquer fração da grande burguesia (outra razão explicativa para a sua resiliência e de seu governo); na verdade, o “melhor dos mundos” para qualquer uma delas seria mantê-lo até 2022, desde que ele se aquiete, suspenda a “guerra cultural” e pare com as ameaças mais explícitas às instituições e ao Estado de Direito. Em suma, desde que venha a ser possível enquadrá-lo e domá-lo, desde que ele não dificulte, não atrase e nem atrapalhe o encaminhamento da agenda neoliberal (reformas e políticas). A ameaça crescente de criminalização dele e de sua família, com a consequente possibilidade de abertura de um processo de impeachment, objetivamente se constitui em uma arma para controlá-lo; funcionando como uma espécie de chantagem.

No final de junho Bolsonaro, claramente amedrontado, começou a emitir sinais, e suposta intenção, de compor com os outros poderes da República. Caso isso não se viabilize, o que é provável, tendo em vista a natureza e o comportamento histórico do fascista (com recuos táticos momentâneos para poder recompor suas forças e depois retomar o ataque), o vice-Presidente Mourão pode se constituir no “Plano B” do grande capital. A pior saída para as classes dominantes seria a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, em virtude de fraudes cometidas na eleição de 2018; porque implicaria uma indesejável nova eleição, que anteciparia a disputa programada para 2022.

Isso nos remete a uma terceira constatação, decorrente das duas anteriores e que também explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo: o inimigo maior, estratégico, da grande burguesia é a esquerda antifascista e, principalmente, antineoliberal. O golpe de 2016, apesar de expressar uma disputa entre distintas frações da burguesia, foi, sobretudo, contra a esquerda, no seu sentido mais amplo, e pela retomada da agenda neoliberal. A eleição e o governo de Bolsonaro foram o seu desdobramento necessário. É por isso que os prepostos do grande capital – na mídia, no judiciário e no Congresso – criticam ou apoiam e aprovam, seletivamente, o comportamento de Bolsonaro e as ações de seu governo: duras críticas àquelas relacionadas à “guerra cultural” e ao autoritarismo mais explícito, mas efusivo e entusiástico apoio às medidas econômicas “pró-mercado” – como a recente aprovação pelo Congresso Nacional da possibilidade (para alguns a obrigatoriedade) de privatização da área de saneamento básico do país (água, esgoto etc.).

A constatação anterior também explica porque não há qualquer autocrítica do grande capital, e mesmo da classe média alta, com relação ao golpe efetivado com o impeachment fraudulento da então presidente Dilma Roussef; e muito menos o reconhecimento de que Bolsonaro e o seu governo foram o seu corolário necessário – mesmo quando os seus prepostos se dizem arrependidos de terem votado e acreditado no fascista, com muitos deles fingindo que não sabiam ou não tinham ideia de suas intenções e do que ele seria capaz. Assim, o comportamento padrão é sempre o de imputar ao PT e a seus governos a responsabilidade pelos eventos que desembocaram na eleição de Bolsonaro e no seu governo ou, no máximo, assumir uma explicação qualquer ad hoc; não há qualquer dilema de consciência ou de culpa com relação à crescente tragédia sanitária que vem ocorrendo, que tem tido a contribuição fundamental de Bolsonaro e o seu governo. (Continua)

28
Jul20

A estranha demissão do presidente do BB

Talis Andrade

Rubem Novaes (primeiro plano, à direita) foi empossado nesta segunda (7) por Paulo Guedes no comando do Banco do Brasil em cerimônia no Palácio do Planalto — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Altamiro Borges
Para surpresa dos abutres financeiros, na sexta-feira (24) o Banco do Brasil confirmou que Rubem Novaes, o neoliberal convicto que presidia a instituição, entregou seu pedido de demissão para Jair Bolsonaro. Ainda não foi divulgado o substituto para o cobiçado posto e nem explicado os reais motivos da intempestiva saída. 

O BB apenas divulgou que o privatista pediu para sair por entender que o banco "precisa de renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário". O executivo foi indicado ao cargo por Paulo Guedes, czar da economia, em novembro de 2018, logo após a eleição do “capetão” fascista. 

“Tem que vender essa porra logo”


A sua saída da presidência preocupa o “deus-mercado” – que nutre há muito tempo o desejo de engolir o BB. No mês passado, em reunião da comissão parlamentar que discute ações econômicas pós-pandemia, Rubem Novaes expressou o seu temor diante das dificuldades encontradas para a privatização do Banco do Brasil. 

“Minha dúvida é se, com as amarras que temos do setor público, vamos ter velocidade de transformação que nos permita uma adaptação a esse novo mundo. Eu sinceramente desconfio que não”, lamentou. Para ele, o BB atua “com bolas de chumbo aos pés. As decisões são demoradas, têm que passar por TCU, Secom, CGU”.
 
Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, o abutre Paulo Guedes também já havia chiado. Ele disse que o governo “faz o que quer” com a Caixa e o BNDES, mas “não consegue fazer nada” no BB, mesmo tendo um ‘super-liberal lá’, em referência à Rubem Novaes. “Tem que vender essa porra logo”, disse o pornô-ministro. 

Privilégios, compadrio e corrupção

Diante desses entraves, não se sabe ainda se ele pediu para sair ou foi enxotado. Em entrevista à CNN-Brasil, Rubem Novaes disse que deixou o cargo por “não se adaptar à cultura de privilégios, compadrio e corrupção de Brasília”. Ele não citou um fato específico, mas culpou o ambiente político reinante na capital do país. 

Já a Folha especula que “pessoas próximas ao executivo Rubem Novaes, 74, dizem que ele estava cansado da política em Brasília e quer falar o que pensa sem ter que lidar com os efeitos negativos das suas declarações. De saída do Banco do Brasil, ele deve seguir como assessor especial de Paulo Guedes (Economia)”. 

Conflito com os aliados do Centrão 

O jornal ainda lembra que “nos bastidores, ele travava uma queda de braço com o ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas desde que veio à tona sua declaração chamando a corte de ‘usina de terror’. A fala ocorreu na reunião ministerial de 22 de abril, quando Novaes também defendeu a privatização do BB”. 

“Em seguida, ele defendeu o aporte de verba do banco em site de fake news, após Carlos Bolsonaro criticar a interrupção preventiva feita pela área de marketing do BB. Como resposta, o TCU sustou parte relevante da publicidade do BB na internet e o banco alega que estava tendo prejuízo”. 

Essas brigas desgastaram Rubem Novaes, que também entrou em confronto com os políticos do Centrão, os novos aliados de Bolsonaro. “Apesar disso, sua saída não era esperada na classe política e pegou de surpresa também membros da equipe econômica, que não sabiam explicar o motivo da demissão”, garante a Folha. 

Seguidor de Olavo de Carvalho 

O jornal Estadão, por sua vez, destila veneno ao afirmar que, “sob pressão, Rubem Novaes deixa o cargo”. “A saída está alinhada ao movimento de Bolsonaro de se afastar do núcleo considerado radical. Novaes é ligado ao escritor Olavo de Carvalho, que tem atrapalhado a pauta governista e gerado ruídos com o Legislativo”. 
 
“Além disso, a avaliação na equipe econômica é que o desempenho dele no mercado de crédito teria sido insatisfatório. Novaes se mostrou reticente a atender aos pedidos do presidente de baixar juros em linhas ao consumidor, principalmente no cheque especial, e ampliar a oferta de crédito para atenuar os efeitos da crise”.
 

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24
Jul20

2- A pandemia e a mudança de conjuntura

Talis Andrade

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II - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck

A pandemia explicitou a completa incompetência e irresponsabilidade de Bolsonaro e seu governo para lidarem com a urgência sanitária e a crise econômico-social; em particular a necessidade essencial de garantir os equipamentos hospitalares (leitos, UTIs, respiradores e EPIs), para o tratamento adequado dos doentes contaminados pela Covid-19 e a proteção dos profissionais da saúde (até 22 de junho, o Ministério da Saúde só havia gasto 35% dos recursos destinados ao combate da pandemia), e a obrigação política e moral de apoiar a parte da população (majoritária) mais vulnerável. Mais do que isso, atuaram quase o tempo todo conspirando contra, sabotando e boicotando todas as iniciativas de combate à pandemia; o que levou governadores e prefeitos a assumirem, quase que exclusivamente, a responsabilidade pelo enfrentamento da crise. Apenas em um breve intervalo de tempo o Ministério da Saúde, surpreendentemente de forma independente de Bolsonaro, tentou coordenar as ações de combate à pandemia em articulação com as Secretarias de Saúde dos estados. Com a demissão do ministro, que contrariava o discurso e as ações de Bolsonaro, e a posterior militarização do Ministério da Saúde, a ampliação da tragédia sanitária ganhou força.

Como resultado, a situação atual está se revelando dramática: enquanto o número de contaminados e de mortes batem recordes sucessivos, estados e municípios, sem qualquer apoio ou coordenação do governo federal vêm flexibilizando o isolamento social que já era apenas parcial, em virtude de pressões econômicas de todo tipo; adotando protocolos e regras a serem cumpridos por empresas e cidadãos, mas que não são respeitados e nem têm qualquer capacidade de impedir o avanço do vírus. A contribuição de Bolsonaro e de seu governo para a tragédia que ora se assiste (oficialmente dois milhões de contaminados e mais de 80 mil mortes) não pode ser subestimada. Além de combater e sabotar o isolamento social, com ações e pronunciamentos exemplares do próprio presidente, o governo Bolsonaro e tentou impedir a sua execução, ao não viabilizar, com a amplitude e presteza necessárias, o auxílio financeiro aos que perderam o emprego (ou ocupação, no caso dos autônomos e informais) e aos mais fragilizados sob todos os aspectos (renda, moradia e condições sanitárias). O mesmo aconteceu com a morosa concessão de crédito às micro e pequenas empresas e a falta de apoio a diversas categorias profissionais atingidas duramente pela pandemia, necessitadas de políticas públicas específicas, mas que foram abandonadas à própria sorte (por exemplo, trabalhadores do mundo das artes e do setor de entregas dominado pelos aplicativos). No âmbito das relações internacionais, a falta de compromisso no combate à pandemia e, principalmente, a retórica e as ações belicosas de Bolsonaro e seu governo em relação à China, dificultaram enormemente a aquisição dos equipamentos hospitalares essenciais em falta no país, em especial os imprescindíveis respiradores. Nesse caminho o Brasil foi se tornando um pária internacional.

O comportamento de Bolsonaro se caracterizou o tempo todo pela negação da gravidade da pandemia, contrapondo falsamente o seu combate à necessidade da economia continuar funcionando, como se não houvesse possibilidade de o governo atuar nas duas frentes. Na verdade, essa forma de tratar a pandemia explicitou de vez a necropolítica de Bolsonaro e, no limite, uma concepção eugenista, tipicamente racista-nazista, evidenciada no seu discurso de que, “inevitavelmente, 70% da população deverá ser infectada; e que, portanto, não há o que fazer”. Caso isso se concretizasse de fato, e assumindo-se uma taxa de letalidade de 3%, haveria mais de quatro milhões de óbitos no Brasil!

Considerando-se a lógica e o comportamento político-sanitário de Bolsonaro e de seus seguidores, podem-se conjecturar duas coisas: 1- Inicialmente, tal como Donald Trump nos EUA, eles avaliaram que a recessão econômica derivada da pandemia seria fatal para o governo e a meta de reeleição de Bolsonaro em 2022. Daí a imediata negação da gravidade da pandemia, a oposição ao isolamento social e a busca de um remédio milagroso. 2- Posteriormente, com a inevitabilidade da recessão, os neofascistas e o seu líder vislumbraram na pandemia uma oportunidade para geração e instalação de uma espécie de caos econômico-social, que justificasse uma ruptura institucional com o Estado de Direito, por eles perseguida desde sempre e reiteradamente verbalizada por Bolsonaro desde os seus tempos de deputado federal do “baixo clero”. Para isso, testou seguidamente os limites da ordem institucional, avaliando que poderia emparedá-la com manifestações de rua belicosas e ameaças de intervenção militar.

Além disso, dentro da perspectiva “antissistema” (“contra tudo que aí está”) típica do neofascismo, que se localiza no âmago de sua ideologia e justifica a sua existência, é inviável política e ideologicamente para Bolsonaro e o seu governo assumirem o papel de dirigente do “sistema”, confundirem-se com ele e, no limite, tornarem-se parte dele. E isto ocorreria, inevitavelmente, caso tivessem assumido a liderança e a coordenação, juntamente com os governadores, do combate à pandemia e à crise em geral. Como outros países demonstraram, o êxito no enfrentamento da pandemia implicaria a unificação do país e de todas as suas forças políticas, mesmo que apenas momentaneamente, em torno de um único propósito e uma única direção: conter o vírus e salvar vidas. O DNA antissistema do neofascismo, aliado a sua necropolítica, não permitiram esse movimento.

Como consequência previsível, Bolsonaro caminhou para um crescente isolamento político e, na sequência dos expurgos promovidos nos Ministérios da Saúde e da Justiça, para a fascistização/militarização do seu governo, com discursos e ações orientados nessa direção, evidenciados, entre outros exemplos, pela divulgação do vídeo da reunião ministerial no qual Bolsonaro menciona a sua intenção de interferir na Polícia Federal e revela ter um sistema de informação particular pessoal, paralelo ao sistema oficial do governo.

No entanto, o governo Bolsonaro nasceu de extrema-direita, mas não nasceu fascista; ou seja, os poucos, foi sofrendo um processo de fascistização, acelerado mais recentemente durante o período da pandemia. Para completar esse processo e implantar um regime de natureza fascista, Bolsonaro e os bolsonaristas teriam que dar um golpe e implantar uma ditadura – como foi feito por Mussolini na Itália (1923) e Hitler na Alemanha (1933).

Esse processo de fascistização decorreu da hegemonia do bolsonarismo no interior do governo, implicando, de um lado, a submissão/cooptação da extrema direita militar tradicional (cujo apoio e participação são um dos determinantes da resiliência de Bolsonaro e de seu governo) e, de outro, o expurgo de Sérgio Moro do (representante de outra corrente no interior da extrema-direita neofascista, identificada pela Lava Jato e segmentos do Poder Judiciário e do Ministério Público).

A terceira corrente neofascista presente no governo, representada pelos segmentos mais poderosos das igrejas evangélicas (principalmente suas denominações neopentecostais/neoliberais), plenamente identificadas com a “guerra cultural” e o “empreendedorismo” (teologia da prosperidade), se acomodou naturalmente ao processo de fascistização – tal como ocorreu com a extrema direita ultraneoliberal. A capilaridade dessas igrejas, presentes em todas as regiões e municípios do país, associadas ao forte controle político-ideológico-cultural de seu “rebanho”, contribui, decisivamente, para a resiliência de Bolsonaro entre segmentos mais pobres e menos escolarizados da população.

Assim, mais recentemente, voltando-se quase que exclusivamente para sua base militante neofascista (cada vez mais estreita, com a saída de Sérgio Moro do governo), Bolsonaro passou a confrontar todas as instituições da República e mesmo a ampla maioria da sociedade civil – com ele próprio fazendo ameaças, implícitas e explícitas, quase que cotidianamente, de protagonizar uma ruptura institucional, um autogolpe de Estado com a participação das forças armadas. Desse modo, o movimento neofascista se tornou o centro de apoio do governo; embora passando por um processo de desidratação, em virtude da revelação de suas práticas bandidas e da repressão legal que sua militância começou a sofrer, ainda constitui-se em mais uma razão para a resiliência de Bolsonaro. Em síntese: o isolamento político e a fascistização/militarização do governo, dois lados da mesma moeda, resultaram da difusão e agravamento da pandemia – quando ficou claro para quase toda a população de que não se tratava apenas de uma “gripezinha”.

No entanto, esta tática voluntarista de Bolsonaro, que inicialmente pareceu funcionar, tendo em vista a tibieza dos poderes Legislativo e Judiciário em responder às agressões, assim como a perplexidade da sociedade civil, finalmente revelou-se um blefe e um sério erro de avaliação, voltando-se contra ele. A pandemia e a crise econômico-social daí derivada foram letais para o governo.

20
Jul20

Botar um pastor evangélico como ministro da Educação não nos ajuda a conhecê-lo

Talis Andrade

 

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Temos o direito de incluí-lo na longa lista de escolhas desastradas que Bolsonaro vem fazendo


por Luis Fernando Verissimo
OS LIMITES. Santo Agostinho disse que, entre todas as tentações do homem, a pior era a “doença da curiosidade”. Ela nos levava a especular sobre as razões da existência e os mistérios do universo, ou sobre tudo que estava além da compreensão humana e só a fé explicava. Antes de Agostinho outra autoridade, Deus, já advertira Adão e Eva a não comer o fruto da árvore do saber, para não contrair a doença da curiosidade e perder para sempre o paraíso da ignorância satisfeita. Deus, Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites da fé como os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só traz perplexidade e angústia.

Os limites da religião e da ciência vêm se alternando desde que o primeiro hominídeo, ou o primeiro curioso, tentou explicar uma tempestade. O que era aquilo? Como se explicava? Einstein contou que a existência da força magnética foi o que despertou seu interesse pela física e, como consequência, iniciou a maior aventura intelectual do nosso tempo, com suas descobertas e teorias. E Einstein, como a ciência em geral, só estava repetindo a pergunta do nosso primitivo hominídeo das cavernas: o que era aquilo? Como se explicava? Enquanto isso, até hoje milhões de pessoas só aceitam as explicações do mundo que estão na Bíblia, no Corão e em outros textos sagrados. Dá até para comparar o número crescente de evangélicos nos seus templos, por exemplo, com o número crescente de revelações da ciência sobre a origem e o destino desta bola insignificante rodopiando pelo espaço em que nos meteram. O conhecimento perde para a fé, longe.

Botar um pastor evangélico como ministro da Educação não nos ajuda a conhecê-lo. O homem pode ser competente e tomara que seja, mas até que se saiba mais sobre os limites das suas crenças e convicções – criacionista ou evolucionista, para começar? – temos o direito de incluí-lo na longa lista de escolhas desastradas que Bolsonaro vem fazendo. E se arrependido.

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