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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

01
Nov20

Ex-porta-voz critica Bolsonaro: 'Poder corrompe'

Talis Andrade

Alea iacta est", Júlio César atravessa o Rubicão

por Josias de Souza

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Demitido em 7 de outubro da função de porta-voz da Presidência da República, o general Otávio do Rêgo Barros quebrou o silêncio. Sem mencionar o nome do presidente, comparou-o num artigo de jornal a Júlio César. Bateu com vigor: "Infelizmente, o poder inebria, corrompe e destrói!"

O artigo foi publicado no Correio Braziliense nesta terça-feira (27). Nele, Rêgo Barros anotou que "a estabilidade política do império está sob risco." Insinuou que Legislativo e Judiciário devem manter Bolsonaro sob vigilância.

"As demais instituições dessa República —parte da tríade do poder— precisarão, então, blindar-se contra os atos indecorosos, desalinhados dos interesses da sociedade, que advirão como decisões do 'imperador imortal'. Deverão ser firmes, não recuar diante de pressões."

O título do artigo é uma expressão em latim: "Memento mori". Mal traduzindo, seria algo como "lembra-te que vais morrer." Júlio César tinha um escravo sempre do lado para dizer no seu ouvido: "Lembra-te que és mortal." Era para prevenir contra a megalomania. Nos momentos de aclamação, servia para recordar a César que ele também estava sujeito à condição humana.

"Infelizmente, nos deparamos hoje com posturas que ofendem àqueles costumes romanos", lamentou o general. "Os líderes atuais, após alcançarem suas vitórias nos coliseus eleitorais, são tragados pelos comentários babosos dos que o cercam ou pelas demonstrações alucinadas de seguidores de ocasião."

Num instante em que Bolsonaro renega a Lava Jato e confraterniza com o centrão, Rêgo Barros cutucou: "É doloroso perceber que os projetos apresentados nas campanhas eleitorais, com vistas a convencer-nos a depositar nosso voto nas urnas eletrônicas, são meras peças publicitárias, talhadas para aquele momento. Valem tanto quanto uma nota de sete reais."

Desprezado por Bolsonaro, o ex-porta-voz fez uma analogia entre o papel que exercia no Planalto e as atribuições de um cochichador de Júlio César. Insinuou que, além de se distanciar dos compromissos de 2018, o presidente faz ouvidos moucos para o "memento mori".

"Tão logo o mandato se inicia, aqueles planos são paulatinamente esquecidos diante das dificuldades políticas por implementá-los ou mesmo por outros mesquinhos interesses. Os assessores leais —escravos modernos— que sussurram os conselhos de humildade e bom senso aos eleitos chegam a ficar roucos."

Depreende-se do texto do general, que o capitão dá de ombros para todos os que ousam recordar que ele também é mortal. Alguns assessores, escreveu Rêgo Barros, "deixam de ser respeitados". Outros são "abandonador ao longo do caminho, feridos pelas intrigas palacianas."

O general prosseguiu: "O restante, por sobrevivência, assume uma confortável mudez. São esses seguidores subservientes que não praticam, por interesses pessoais, a discordância leal."

Rêgo Barros definiu "discordância leal" como um conceito importado das "forças armadas profissionais". Trata-se de uma "ação verbal bem pensada e bem-intencionada, às vezes contrária aos pensamentos em voga, para ajudar um líder a cumprir sua missão com sucesso."

Quem lê o artigo fica com a impressão de que Rêgo Barros manda recados para os amigos generais que comandam escrivaninhas no Planalto e na Esplanada. Nos últimos dias, dois desses generais foram humilhados publicamente.

O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, foi desautorizado por Bolsonaro depois de comunicar a intenção de adquirir 46 milhões de doses da "vacina chinesa do João Doria", como o presidente batizou o imunizante CoronaVac. "Um manda e o outro obedece", resignou-se Pazuello.

O ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, foi chamado de "Maria Fofoca" nas redes sociais pelo colega Ricardo Salles, do Meio Ambiente. E ficou tudo por isso mesmo.

Sempre evitando citar o nome do ex-chefe, Rêgo Barros pareceu incomodado com a percepção de que alguma coisa subiu à cabeça de Bolsonaro, transformando-o numa liderança que imagina desempenhar uma missão especial, de inspiração celestial.

"A autoridade muito rapidamente incorpora a crença de ter sido alçada ao olimpo por decisão divina, razão pela qual não precisa e não quer escutar as vaias", escreveu Rêgo Barros. "Não aceita ser contraditada. Basta-se a si mesmo. Sua audição seletiva acolhe apenas as palmas. A soberba lhe cai como veste."

Além de recomendar atenção aos outros Poderes, o general exalta o papel de um setor que Bolsonaro abomina: "A imprensa, sempre ela, deverá fortalecer-se na ética para o cumprimento de seu papel de informar, esclarecendo à população os pontos de fragilidade e os de potencialidade nos atos do César."

Em última instância, declarou o ex-porta-voz, "a população, como árbitro supremo da atividade política, será obrigada a demarcar um rio Rubicão cuja ilegal transposição por um governante piromaníaco será rigorosamente punida pela sociedade."

Abra-se aqui um parêntese. A menção ao Rubicão não é gratuita. Rêgo Barros não disse em seu artigo, mas o lance mais revelador do caráter de Júlio César foi uma traição. General vitorioso, César conquistara as Gálias. Dividia o poder com Pompeu, que ficara na retaguarda.

Uma lei impedia que um general, vitorioso ou não, entrasse em Roma com seu exército, a não ser em casos específicos determinados pelo Senado, o chamado "triunfo". Mal comparando, o "triunfo", era a versão romana de uma escola de samba. Tinha data e hora para acontecer. 

Para evitar golpes de Estado, nenhum exército poderia transpor o Rubicão. César cruzou o riacho, que servia como limite moral. Pronunciou a célebre frase: "Alea jacta est" (A sorte está lançada). Perseguiu Pompeu até derrotá-lo. Sozinho no poder, iniciou a era do cesarismo —que os famintos de poder cedo ou tarde copiam. Fecha parêntese.

Nas palavras do general Rêgo Barros, cabe à sociedade demarcar um Rubicão imaginário que Bolsonaro não poderia transpor, sob pena de ser punido "rigorosamente". Ao final, caberia à sociedade assumir "o papel de escravo romano", escreveu o ex-porta-voz. "Ela deverá sussurrar aos ouvidos dos políticos que lhes mereceram seu voto: "Lembra-te dada próxima eleição!".

É como se o ex-porta-voz, após conviver com Bolsonaro, tivesse a convicção de que o capitão não vai ao Rubicão beber água. 

quando você vai atravessar o rubicão?

15
Jun20

Bolsonaro ataca liberdade de expressão e pede inquérito da Polícia Federal sobre charge de Aroeira

Talis Andrade

bolsonaro V.T. Vitor Teixeira .jpg

 

Bolsonaro e ministros usam e abusam e dependem da propaganda de símbolos e slogans nazistas e fascistas e integralistas, porque são copiadores de ideologias e partidos da extrema direita. 

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247 - O ministro da Justiça, André Mendonça, anunciou nesta tarde o mais duro ataque do governo de Jair Bolsonaro à liberdade de expressão. O motivo é uma charge de Renato Aroeira, um dos mais consagrados cartunistas brasileiros, em que uma cruz vermelha de um hospital é transformada em suástica, símbolo do nazismo. Trata-se de uma crítica amparada pela liberdade de expressão, que é cláusula pétrea da Constituição brasileira.

“O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26”, disse André Mendonça, em seu twitter. Confira abaixo:

André Mendonça
@AmendoncaMJSP

Solicitei à @policiafederal e à @MPF_PGR abertura de inquérito para investigar publicação reproduzida no Twitter Blog do Noblat, com alusão da suástica nazista ao presidente Jair Bolsonaro. (...)

André Mendonça
@AmendoncaMJSP
 

O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26.

Curiosamente, o governo Bolsonaro já foi criticado pela própria comunidade judaica por utilizar métodos de comunicação e slogans nazistas. Antes disso, Bolsonaro teve que demitir o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, que fez uma imitação de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Em mensagem privada, o decano do Supremo Tribunal Federal comparou o Brasil de Bolsonaro à Alemanha hitlerista.

Ao 247, o cartunista Renato Aroeira, que faz parte do grupo Jornalistas pela Democracia, declarou que "a SeCom deveria se chamar SeCen - Secretaria de Censura".

[É "cruelmente evangélico" querer trocar as cabeças de Sara Winter & seus 300 soldados do "Gabinete do Ódio" pelos jornalistas Ricardo Nobrat e Renato Aroeira que pregam a Liberdade, a Fraternidade, a Igualdade, a Democracia, a Brasilidade, a Imprensa Livre] 

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14
Jun20

Bolsonaro: A Constituição sou eu

Talis Andrade

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IV - Os militares voltaram dispostos a ficar

por Jeferson Miola

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O confronto permanente com o Congresso e com o STF; o caos, a violência contra opositores e a exasperação do clima político e social são ingredientes da receita estratégia dos militares e do governo Bolsonaro.

No ambiente de instabilidade e confusão, eles evocam as Forças Armadas para restaurar a ordem, como fica explícito na nota ameaçadora [12/6] assinada pelo Bolsonaro na companhia do vice Mourão e do ministro da Defesa no embate mais recente com o STF.

Julgando-se acima da Constituição civil e do poder civil, o capitão que em 19/4 disse que A Constituição sou eu! agora declara, em parceria com 2 dos seus generais hierarquicamente mais relevantes do poder formal no governo, que “As FFAA do Brasil não cumprem ordens absurdas, como p. ex. a tomada de Poder”.

A menção deles à “tomada de poder” como exemplo de “ordem absurda” que é descumprida pelas FFAA é um truque cretino. Com este truque diversionista, mandam mensagem cifrada para intimidar o STF com a ameaça de desobediência e, inclusive, com reação armada caso a chapa Bolsonaro/Mourão seja cassada pelo TSE [o que, aliás, deveria ter acontecido em 2018].

Os militares deixam isso claro ao afirmar que as FFAA “Também não aceitam tentativas de tomada de Poder por outro Poder da República, ao arrepio das Leis, ou por conta de julgamentos políticos”.

Eles empulham com a tese de que tanto a cassação da chapa pelo TSE, como o impeachmentdo Bolsonaro pelo Congresso ou a condenação dele pelo STF com fundamento nos incontáveis crimes comuns e de responsabilidade cometidos, fosse “julgamento político” para a “tomada de Poder por outro Poder da República, ao arrepio das Leis …”.

Eles dizem, com todas as letras, que se consideram acima da Lei e da Constituição civil, e que não hesitarão em comandar ação das Forças Armadas para impor suas vontades mesmo à força. (Continua)

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