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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

02
Dez22

Anistia nunca mais

Talis Andrade

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Na América Latina quem deixou impunes os crimes do passado viu eles se repetirem

 

por Vladimir Safatle

- - -

Muitas vozes alertam o Brasil sobre os custos impagáveis de cometer um erro similar àquele feito há 40 anos. No final da ditadura militar, setores da sociedade e do governo impuseram o silêncio duradouro sobre os crimes contra a humanidade perpetrados durante os vinte anos de governo autoritário. Vendia-se a ilusão de que se tratava de astúcia política.

Um país “que tem pressa”, diziam, não poderia desperdiçar tempo acertando contas com o passado, elaborando a memória de seus crimes, procurando responsáveis pelo uso do aparato do Estado para a prática de tortura, assassinato, estupro e sequestro. Impôs-se a narrativa de que o dever de memória seria mero exercício de “revanchismo” – mesmo que o continente latino-americano inteiro acabasse por compreender que quem deixasse impunes os crimes do passado iria vê-los se repetirem.

Para tentar silenciar de vez as demandas de justiça e de verdade, vários setores da sociedade brasileira, desde os militares até a imprensa hegemônica, não temeram utilizar a chamada “teoria dos dois demônios”. Segundo ela, toda a violência estatal teria sido resultado de uma “guerra”, com “excessos” dos dois lados. Ignorava-se, assim, que um dos direitos humanos fundamentais na democracia é o direito de resistência contra a tirania. Já no século XVIII, o filósofo John Locke, fundador do liberalismo, defendia o direito de todo cidadão e de toda cidadã de matar o tirano. Pois toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Note-se: estamos a falar da tradição liberal.

Os liberais latino-americanos, porém, têm essa capacidade de estar sempre abaixo dos seus próprios princípios. Por isso, não é surpresa alguma ouvir o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli declarar, em pleno 2022, pós-Bolsonaro: “Não podemos nos deixar levar pelo que aconteceu na Argentina, uma sociedade que ficou presa no passado, na vingança, no ódio e olhando para trás, para o retrovisor, sem conseguir se superar (…) o Brasil é muito mais forte do que isso”.

Afora o desrespeito a um dos países mais importantes para a diplomacia brasileira, um magistrado que confunde exigência de justiça com clamor de ódio, que vê na punição a torturadores e a perpetradores de golpes de Estado apenas vingança, é a expressão mais bem-acabada de um país, esse sim, que nunca deixou de olhar para o retrovisor. Um país submetido a um governo que, durante quatro anos, fez de torturadores heróis nacionais, fez de seu aparato policial uma máquina de extermínio de pobres.

 

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Alguns deveriam pensar melhor sobre a experiência social de “elaborar o passado” como condição para preservação do presente. Não existe “superação” onde acordos são extorquidos e silenciamentos são impostos. A prova é que, até segunda ordem, a Argentina nunca mais passou por nenhuma espécie de ameaça à ordem institucional. Nós, ao contrário, enfrentamos tais ataques quase todos os dias dos últimos quatro anos.

Nada do que aconteceu conosco nos últimos anos teria ocorrido se houvéssemos instaurado uma efetiva justiça de transição, capaz de impedir que integrantes de governos autoritários se auto-anistiassem. Pois dessa forma acabou-se por permitir discursos e práticas de um país que “ficou preso no passado”. Ocultar cadáveres, por exemplo, não foi algo que os militares fizeram apenas na ditadura. Eles fizeram isso agora, quando gerenciavam o combate à pandemia, escondendo números, negando informações, impondo a indiferença às mortes como afeto social, impedindo o luto coletivo.

É importante que tudo isso seja lembrado neste momento. Porque conhecemos a tendência brasileira ao esquecimento. Este foi um país feito por séculos de crimes sem imagens, de mortes sem lágrimas, de apagamento. Essa é sua tendência natural, seja qual for o governante e seu discurso. As forças seculares do apagamento são como espectros que rondam os vivos. Moldam não apenas o corpo social, mas a vida psíquica dos sujeitos.

Cometer novamente o erro do esquecimento, repetir a covardia política que instaurou a Nova República e selou seu fim, seria a maneira mais segura de fragilizar o novo governo. Não há porque deleitar-se no pensamento mágico de que tudo o que vimos foi um “pesadelo” que passará mais rapidamente quanto menos falarmos dele. O que vimos, com toda sua violência, foi o resultado direto das políticas de esquecimento no Brasil. Foi resultado direto de nossa anistia.

A sociedade civil precisa exigir do governo que se inicia a responsabilização pelos crimes cometidos por Jair Bolsonaro e seus gerentes. Isso só poderá ser feito nos primeiros meses do novo governo, quando há ainda força para tanto. Quando falamos em crimes, falamos tanto da responsabilidade direta pela gestão da pandemia, quanto pelos crimes cometidos no processo eleitoral.

O Tribunal Penal Internacional aceitou analisar a abertura de processo contra Jair Bolsonaro por genocídio indígena na gestão da pandemia. Há farto material levantado pela CPI da Covid, demonstrando os crimes de responsabilidade do governo que redundaram em um país com 3% da população mundial contaminada e 15% das mortes na pandemia. Punir os responsáveis não tem nada a ver com vingança, mas com respeito à população. Essa é a única maneira de fornecer ao Estado nacional balizas para ações futuras relacionadas a crises sanitárias similares, que certamente ocorrerão.

Por outro lado, o Brasil conheceu duas formas de crimes eleitorais. Primeiro, o crime mais explícito, como o uso do aparato policial para impedir eleitores de votar, para dar suporte a manifestações golpistas pós-eleições. A polícia brasileira é hoje um partido político. Segundo, o pior de todos os crimes contra a democracia: a chantagem contínua das Forças Armadas contra a população. Forças que hoje atuam como um estado dentro do Estado, um poder à parte.

Espera-se do governo duas atitudes enérgicas: que coloque na reserva o alto comando das Forças Armadas que chantageou a República; e que responsabilize os policiais que atentaram contra eleitores brasileiros, modificando a estrutura arcaica e militar da força policial. Se isso não for feito, veremos as cenas que nos assombraram se repetirem por tempo indefinido.

Não há nada parecido a uma democracia sem uma renovação total do comando das Forças Armadas e sem o combate à polícia como partido político. A polícia pode agir dessa forma porque sempre atuou como uma força exterior, como uma força militar a submeter a sociedade. Se errarmos mais uma vez e não compreendermos o caráter urgente e decisivo de tais ações, continuaremos a história terrível de um país fundado no esquecimento e que preserva de forma compulsiva os núcleos autoritários de quem comanda a violência do Estado. Mobilizar a sociedade para a memória coletiva e suas exigências de justiça sempre foi e continua sendo a única forma de efetivamente construir um país.

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25
Nov22

II - A psicanálise explica Bolsonaro?

Talis Andrade

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Por BRUNO FIASCHETTI

3.

(Continuação) Em uma aula proferida em 27 de junho de 1968,[xviii] Theodor Adorno apresenta aos alunos de um curso de sociologia sua leitura sobre a intersecção dessa disciplina com a psicanálise. Intersecção essa, como bem sabido, um dos alicerces[xix] não só de sua obra, mas da tradição a que se filia – conhecida como “Teoria Crítica” ou “Escola de Frankfurt”.

O que perpassa todo o conteúdo da aula é uma mensagem contrária as falsas totalizações teóricas, oriundas – segundo Adorno – da divisão do trabalho crítico,[xx] que se pretendem explicar os fenômenos sociais. Nas palavras do professor, essas se apresentam como “a pedra filosofal a partir da qual tudo pode ser explicado”,[xxi] um movimento que, a mim, assemelha-se as elucubrações diagnósticas apresentadas nas seções anteriores.

Avançando um pouco mais nesse argumento, Theodor Adorno destaca que na mediação entre dois saberes – no caso, entre psicanálise e sociologia –, normalmente, categorias assumidas em um deles ficam – em termos de densidade, concretude e expressividade – para trás em relação às categorias do outro. É o que ocorre, segundo ele, nas passagens da obra freudiana em que as determinações sociais são pressupostas e apresentadas sem medições.

Para dar concretude a sua tese Adorno lança mão de três exemplos: (i) as imagens arcaicas a que recorre Freud em textos como Totem e tabu e Moisés e o monoteísmo; (ii) a teoria da universalidade e indiferenciabilidade do Eu que marca a segunda tópica freudiana; e (iii) a concepção de Super-Eu como uma das instâncias psíquicas. Vamos a eles.

Theodor Adorno define as tais imagens arcaicas como “imagens que não podem ser explicadas pelo trabalho psicanalítico com o indivíduo, ou seja, de maneira puramente imanente, no interior das mônadas individuais e fechadas em si mesmas”[xxii] – lembrando que em Moisés e o monoteísmo, Freud caracteriza-as como uma espécie de “inconsciente coletivo” sedimentado em cada indivíduo. Seguindo essa lógica, Theodor Adorno destaca que é justamente na camada mais profunda da individuação – aquela que não pode ser acessada pelo trabalho analítico – que se impõe o social. Guardemos por ora essa passagem e partamos para o segundo exemplo.

O que diz Theodor Adorno quando remete a teoria da universalidade e da indiferenciabilidade do Eu é o fato de as forças pulsionais e a tal herança que formam o psiquismo serem mais ou menos idênticos em todos os indivíduos. Seguindo a trilha da aula, ao tensionar esse ponto da teoria freudiana, Adorno chama atenção para que – apesar do ponto de partida ser o indivíduo, há nessa semelhança algo fundamentalmente coletivo, ou social; que é justamente essa espécie de “partilha do invariável”. Essa, digamos, imutabilidade dos processos de formação do psiquismo é um dos pontos de crítica de Theodor Adorno à Freud – o qual, dada a brevidade deste ensaio, não será aqui revistada.

A noção de Super-Eu, tal como edificada por Freud, é o terceiro exemplo apresentado aos alunos para atestar a presença incontornável da sociedade na psicanálise. Instância psíquica caracterizada como “consciência moral”, nela são enfeixados – nas palavras de Theodor Adorno – “os mecanismos, por meio dos quais, nascidos como seres biológicos individuais, propriamente nos tornamos […] um animal político”.[xxiii]

Percebe-se que, com essas passagens, Theodor Adorno pretende mostrar o fato de os processos psicológicos conterem em seu cerne as determinações da sociedade – ou, como destaca, “o momento social” –, passíveis de serem reveladas por seu intermédio. Em suas palavras, esse tensionamento “comprova que o homem individual de que a psicanálise se ocupa é uma abstração diante daquele nexo social em que os indivíduos individualizados se encontram”.[xxiv]

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o que está em tela não é advogar por uma primazia da sociedade – isso seria substituir uma “pedra filosofal por outra”; ou, porque não, diagnosticar um déficit explicativo da psicanálise, prescrevendo uma certa sociologia como cura. Não se trata, tampouco, de um abandono ou escanteamento da psicanálise como ferramental para apreender os processos sociais. O movimento que se segue – esse é o ponto que julgo pertinente à discussão em tela –, e que se conecta com o início da aula, é o da problematização de explicações totalizantes; ou seja, construídas a partir de uma eleição (não importa se de maneira intencional) de um saber privilegiado.

Avançando por esse flanco, Adorno afirma que a verdade dessa individuação, por vezes, excessiva da psicanálise encontra-se no fato de a sociedade na qual ela se insere ser construída pela forma dominante da troca entre contratantes individuais – algo que reforçaria, segundo a concepção da mediação entre os saberes apresentada no início da aula, uma valorização da categoria indivíduo como uma espécie de contraposição à sociedade. Com esse palavreado, quero reforçar que, seguindo a trilha de Adorno, não se pode ler a psicanálise e suas manifestações desconsiderando suas determinações constitutivas. Para tentar clarificar essa passagem do argumento, recupero a afirmação do professor de que “se deve interpretar a própria categoria de individuação e os específicos fatores formadores da individualidade por sua vez como interiorizações de imposições, necessidades e exigências sociais”.[xxv]

O interessante – e, em minha visão, a possível lição para a discussão aqui proposta – é a concepção de Theodor Adorno de que uma leitura dialética da própria letra freudiana nos revela os limites de uma mobilização essencialmente individual da psicanálise. Vejamos como isso aparece em uma passagem um pouco mais extensa: “O tema dialético repousa no fato de Freud haver descoberto na elaboração de seu próprio material, genuinamente, que quanto mais profundamente se mergulha nos fenômenos de individuação dos seres humanos, quanto mais irrestritamente se apreende o indivíduo em sua dinâmica e seu resguardo, tanto mais perto se chega àquilo que, no indivíduo, já não é mais propriamente indivíduo”.[xxvi]

Ler a letra freudiana dialeticamente,[xxvii] na esteira do que aqui está sendo exposto, é conceber suas mediações entre individual e social não de maneira estanque e rígida, como se fossem muros ou fronteiras; mas como espécies de “zonas de indeterminação” ou litorais.[xxviii] Isso porque, segundo a leitura adorniana da obra de Freud, quanto mais profundamente nos penetramos em uma dessas zonas – indivíduo ou sociedade –, passamos obrigatoriamente para a outra. Daí Theodor Adorno ter dito, em outra ocasião, que “Freud tinha razão onde não tinha razão”[xxix] – em sua tentativa de compreender o indivíduo, o psicanalista vienense acabou por extrapolar as fronteiras dos fenômenos relacionados à psique individual, expandido-as na medida em que se deparou com as manifestações sociais. E não só isso. Freud, seguindo a linha de ideias adorniana, para além de tomar contato com o que há de social naquilo que é aparentemente individual – lembremos dos três exemplos oferecidos aos alunos -, apreendeu a própria sociedade,[xxx] uma vez que essa só pode ser assimilada através dos indivíduos.[xxxi]

 

4.

Com o exposto nessa, ao mesmo tempo, breve e longa, digressão voltemos à problematização dos diagnósticos públicos do futuro ex-presidente.

A partir das lições de Adorno, parece-me que os tais diagnósticos orbitam entre uma “sociologização da psicanálise”, na medida em que se esforçam em explicar as fraturas da sociedade por determinações do psiquismo individual; e uma “psicologização do social”, ao – nesse movimento – ofuscar todo e qualquer “fator sistêmico” constitutivo da sociedade atual em suas análises.

Novamente, não se trata aqui advogar pela superioridade de um movimento sobre o outro – ou ainda pela eleição de um outro saber hierarquicamente superior – como convincente para explicar os fenômenos que nos envolvem. Resta claro que todo o edifício freudiano nos é indispensável para desvendar as tais fraturas. Descartá-la por completo seria, nas palavras de Adorno, “desconsiderar que a forma pela qual o geral se impõe no indivíduo é mediado pela psicologia”.[xxxii] Teríamos então, um desafio ainda maior para explicar a irracionalidade do nosso modo de vida e os porquês, mesmo com isso claro, continuamos contribuindo para sua reprodução.

Do mesmo modo, defender que os demais esforços para apreensão da sociedade sejam deixados de lado e encobertos por uma espécie de psicanálise aplicada a agrupamentos de pessoas – radicalizando, de certa forma, a passagem da abertura de Psicologia das massas e análise do Eu, em que Freud afirma que “a psicologia individual é também, de início, simultaneamente psicologia social” – é descaracterizar as particularidades de nosso tempo, marcado por relações de dominação específicas do capitalismo. É, também, não perceber que os tais diagnósticos do futuro ex-presidente podem dizer muito mais sobre a sociedade em que ele se insere do que propriamente sobre sua “saúde mental”.

Como dito anteriormente, a pretensão deste breve ensaio é – antes de encerrar qualquer debate – lançar questões sobre a, digamos, permeabilidade da psicanálise fora do setting analítico. Esboçar aqui uma conclusão seria, portanto, uma contradição. Compartilhando a suspeita de que, mesmo com a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, o bolsonarismo continuará presente entre nós – o que ainda nos demandará infinitos esforços críticos para compreendê-lo – recorro a mais uma elaboração de Adorno: “quanto mais nos aprofundamos na gênese psicológica do caráter totalitário, tanto menos nos contentamos em explica-lo exclusivamente de forma psicológica, e tanto mais nos damos conta de que seus enrijecimentos psicológicos são um meio de adaptação a uma sociedade enrijecida”.[xxxiii]

*Bruno Fiaschetti é mestrando no departamento de sociologia da USP.

Notas


[i] TSE conclui votação: Jair Bolsonaro teve pouco mais de 55% dos votos. Jornal Nacional, 29 out. 2018 Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/10/29/tse-conclui-votacao-jair-bolsonaro-teve-pouco-mais-de-55-dos-votos.ghtml.

[ii] Bolsonaro teve mais votos no segundo turno das eleições de 2022, quando saiu derrotado, do que quando venceu o pleito de 2018. Mais de 58 milhões de brasileiros o escolheram como candidato. O número exato está disponível no site do TSE: https://resultados.tse.jus.br/oficial/app/index.html#/eleicao/resultados

[iii] Ver, por exemplo, ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém.

[iv] Cem dias sob o domínio dos perversos. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html

[v] Mobilização essa que não compreende apenas uma exaltação do período em que os militares ocuparam o poder, mas também dos traumas decorrentes dos assassinatos e da tortura por ele praticados e de um discurso que deliberadamente procura deslegitimar a memória não-militar do período – i.e., que, de maneira geral, objetiva o reconhecimento das violações de direitos humanos nele praticadas.

[vi] Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-05-28/o-que-podemos-diante-dos-perversos.html

[vii] Nos termos colocados pelos autores a “lei” é a condição de possibilidade apontada por Freud em O mal estar na civilização para a vida em sociedade. Ou seja, o processo através do qual se modulam os imperativos do princípio do prazer aos mandamentos da civilização.

[viii] Os autores, por diversas vezes, fazem referência a episódios característicos da formação social brasileira – tais quais a escravidão, o genocídio indígena e a tortura praticada durante o regime militar – que, segundo eles, são mobilizados pelos sujeitos perversos contemporâneos. À título ilustrativo destacamos o trecho: “Seria esse o resultado em nós da perversão do ato colonizador e espoliador que fundou nosso país e que se desdobrou em tantas e tão terríveis tragédias? Marchamos, assim, desde nossos tempos iniciais, afiançando o assassinato dos povos originais, com a objetificação naturalizada do outro para a nossa exploração e prazer na escravização do povo africano, com a tortura nos porões da ditadura civil-militar… todos atos de violência extrema e desprezo pela lei e pelo outro que continuam a ser aplicados sem escrúpulos ainda hoje sobre a maior parte da população, nas relações perpetradas tanto na sociedade civil, como também pelo Estado, este que deveria zelar pelo bem comum”.

[ix] “E daí?” foi a resposta de Bolsonaro quando indagado por um repórter sobre as mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml

[x] O ressentimento chegou ao poder? Disponível em: https://www.revistaserrote.com.br/2020/01/o-ressentimento-chegou-ao-poder-por-maria-rita-kehl/

[xi] A autora pontua que o conceito de paixão empregado no texto é aquele definido por Espinosa como paixão triste – que são as paixões que diminuem a potência de agir do indivíduo.

[xii] Bolsonaro não é louco. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/ruth-de-aquino/post/bolsonaro-nao-e-louco.html

[xiii] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente, p. 22. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

[xiv] Em análise da fobia de um garoto de 5 anos (O pequeno Hans), Freud define: “uma psicanálise não é uma investigação imparcial, científica, mas uma intervenção terapêutica; em si ela nada quer privar, quer apenas mudar algo”.

[xv] Em uma entrevista realizada com vários psicanalistas sobre as intersecções entre “psicanálise e neoliberalismo”, Paulo Endo refere-se a esses movimentos da seguinte forma: “No momento em que analisamos ou interpretamos algo, ou alguém, que não nos está imediatamente acessível, não está em nossos divãs, estamos recorrendo à escuta do que reverbera em nós, também sujeitos da escuta analítica, também transformados por ela e também sujeitos aturdidos e confrontados com as injunções neoliberais, fascistas, ditatoriais, etc. das quais somos sempre parte de algum modo. Nossa implicação nesse sintoma instaura nossa escuta”. Disponível em: https://lavrapalavra.com/2017/05/19/a-psicanalise-e-o-neoliberalismo-entrevista-com-caterina-koltai-christian-dunker-maria-rita-kehl-nelson-da-silva-jr-paulo-endo-e-rodrigo-camargo/

[xvi] Ver a Conferência XXXI – “A dissecção da personalidade psíquica”, proferida por Freud

[xvii] Dunker define essa “primazia do diagnóstico” como diagnóstica, que em seus escritos, traduz-se numa forma de uso da razão que expande e privilegia o pensamento em estrutura de diagnóstico. Em outros termos, o autor assevera que há uma “racionalidade diagnóstica”, calcada nas determinações do tempo presente, caracterizada pela “expansão dos atos, raciocínios e estratégias de inserção política, clínica e social do diagnóstico, e sua consequente ‘força de lei’, capaz de gerar coações, interdições, tratamentos e que tais”. In: DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. 1 .ed. – São Paulo: Boitempo, 2015, P. 20.

[xviii] A aula em questão, e as demais que compuseram o curso, estão disponíveis em ADORNO, Theodor W. Introdução à Sociologia. Trad. Wolfgang Leo Maar – São Paulo: Editora Unesp, 2008.

[xix] De maneira bastante breve e concisa, pode-se definir a empreitada intelectual da primeira geração desses teóricos – a qual Adorno está incluído – como um esforço de estabelecer novas coordenadas para a tradição marxista a fim de concebê-la, para além de uma prática revolucionária, como uma teoria da sociedade voltada à compreensão das estratégias de reprodução e manutenção do capitalismo. Nas palavras de Wiggerhaus, essa agenda foi posta em movimento através de investigações teóricas e empíricas que se debruçaram sobre as “relações entre a vida econômica da sociedade, o desenvolvimento psíquico dos indivíduos e as modificações do ambiente cultural”. Para uma análise da história das ideias da “Escola de Frankfurt”, ver JAY, Martin. A imaginação dialética: história da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisas Sociais, 1923-1950. Rio de Janeiro, Contraponto, 2008; e WIGGERHAUS, Rolf (2002). A Escola de Frankfurt: história, desenvolvimento teórico, significação política. Trad. Lilyane Deroche-Gurgel e Vera de Azambuja Harvey. Rio de Janeiro, Difel, 2002.

[xx] “O que a ciência separada pela divisão do trabalho projeta no mundo apenas reflete o que nele ocorre”. É o que diz Adorno em um texto de 1955, intitulado “Relações entre psicologia e sociologia”. Adorno

[xxi] op. cit., Introdução à Sociologia, p. 268

[xxii] Idem, p. 267

[xxiii] Idem, p. 271

[xxiv] Idem, p. 266

[xxv] Idem, p. 267

[xxvi] Idem, p. 269

[xxvii] Para uma descrição detalhada dessa “operação” ver FREITAS, Bruno Carvalho Rodrigues de Freitas. Psicanálise e crítica social em Adorno. Dissertaçao de mestrado. Faculde de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

[xxviii] Sobre essas metáforas fronteiriças, ver a discussão de Christian Dunker sobre “as políticas de nomeação do mal-estar” na seção intitulada “Muros, fronteiras e litorais” do já citado Mal-estar, sofrimento e sintoma. (pp. 147-150)

[xxix] ADORNO, Theodor W. A psicanálise revisada, p.62. In: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. Trad. Verlaine Freitas. São Paulo – Editora Unesp, 2015.

[xxx] op. cit., Psicanálise e crítica social em Adorno, p. 33.

[xxxi] Por isso, durante a aula, Adorno afirma que Freud redescobriu a dialética do particular e universal tal como apresentada por Hegel, em que o particular é o universal e o universal é o particular. “Freud efetivamente descobriu que o núcleo interior em que se baseia a psicologia do indivíduo singular é ele próprio um universal: ou seja, certas estruturas muito gerais, embora de tipo arcaico, do nexo social em que se situam os seres individuais”. Introdução à Sociologia, p. 272

[xxxii] Idem, p. 272. Para ilustrar esse ponto, Adorno reafirma o lugar que Freud atribuiu ao Super-Eu. “Antes de mais nada, na forma em que participa do processo de socialização, esse Super-Eu não é algo de exterior, mas uma instância psíquica. Portanto, a universalidade social incorporada pelo Super-Eu, as normas e as obrigações – não roubarás, serás diligentes, não serás infiel – todas essas normas efetivamente sociais são interiorizadas no indivíduo mediante mecanismos psicológicos.

[xxxiii] ADORNO, Theodor W. Sobre política e neurose, p. 198. In: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. Trad. Verlaine Freitas. São Paulo – Editora Unesp, 2015.

25
Nov22

A psicanálise explica Bolsonaro?

Talis Andrade

Imagem: Mariana Montrazi

 

As ferramentas tradicionais de análise política e conjuntural pareceram não dar mais conta do complexo e tumultuado dia a dia político brasileiro

 

 

Por BRUNO FIASCHETTI /A Terra É Redonda

A vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018 deixou parte dos brasileiros atônitos. As razões para tanto são inúmeras e perpassam pontos como a forma de condução de sua campanha, a ausência de propostas concretas para os dilemas nacionais e, sobretudo, os discursos afrontosos aos direitos humanos e de celebração da ditadura militar que assolou o país proferidos a esmo durante as mais de duas décadas de vida pública do então candidato. Mesmo com tais ventos de proa, mais de 57 milhões de brasileiros escolheram o capitão reformado para ocupar o Palácio do Planalto.[i]

Entre a incredulidade de alguns e a celebração de outros, o que se seguiu à confirmação do resultado das urnas foi um misto de apreensão e ansiedade. O motivo: saber se a condução do país de fato seria pautada pelos discursos odiosos colecionados pelo presidente eleito ou se ele recuaria diante dos imperativos da realpolitik.

Faltando pouco mais de um mês para o fim do governo, sabe-se que nem o capitão nem sua tropa de ministros e apoiadores recuaram. Muito pelo contrário, como uma blitzkrieg avançaram diariamente sobre os direitos sociais, atacaram as minorias e travaram combates contra os moinhos de vento das “ideologias”.

Durante esse quadriênio, tais movimentos muitas vezes colocaram a trupe presidencial à frente da crítica, da imprensa e da própria classe política. Muitas das ações e omissões do governo foram incompreendidas por parte desses atores que, diante do nevoeiro causado pelos constantes ataques e posturas agressivas do presidente, pareceram pisar em ovos à procura de uma explicação convincente para o fenômeno Jair Bolsonaro. Essa espécie de falência analítica veio à tona, uma vez mais, após o encerramento do último pleito, quando se repetiram discursos de incredulidade com a expressiva votação do candidato à reeleição.[ii]

As ferramentas tradicionais de análise política e conjuntural pareceram não dar mais conta do complexo e tumultuado dia a dia político brasileiro, o que abriu espaço para que outros saberes fossem (re)mobilizados para interpretá-lo – dentre eles, a psicanálise. O que se pretende neste breve ensaio é tensionar uma das manifestações dessa mobilização envolvendo a psicanálise, a qual atribui centralidade a um “diagnóstico público” ao futuro ex-presidente.

 

1.

Num movimento para lá de conhecido,[iii] em muitos textos publicados na “grande mídia”, procurou-se identificar algum traço da personalidade do presidente ou alguma disfuncionalidade em seu aparelho psíquico que pudesse explicar sua visão de mundo e suas posturas como gestor da nação. Em outros termos, foram propostos diagnósticos com a pretensão de elucidar as condutas de Bolsonaro e enquadrá-las em uma gramática analítica conhecida.

Apelido tais diagnósticos como “públicos” devido ao fato de que ao contrário do que se possa parecer anteriormente à leitura dos referidos textos, o que se mobiliza não é a psicanálise praticada no setting – não se tratam de materiais elaborados a partir de Jair Bolsonaro propriamente no divã. Mas de um conjunto de análises de falas, posturas e condutas do presidente – registros públicos e notórios, portanto – que se utilizam da letra psicanalítica. Mesmo sem o estabelecimento de uma relação simbólica entre os autores (aqueles que analisam) e o presidente, sua personalidade passa identificada como se o estivesse, dando vasão a elaborações cujo objetivo é o de desvendar o enigma que envolve suas ações.

Vejamos alguns exemplos.

Passados cem dias da posse de Bolsonaro, um ensaio publicado no jornal El país afirmou que o Brasil estaria “sob o domínio dos perversos”.[iv] Segundo o texto, os perversos são aqueles que “corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia” – corrupção essa que seria operada pelo presidente através da injeção de “espasmos calculados” no dia-a-dia político do país.

Ainda nos termos do ensaio, a perversão de Bolsonaro poderia ser observada em sua conduta de “antipresidente” – caracterizada pelo boicote das agendas de seu próprio governo e da inserção de falsos debates na arena pública – que usurpa as possibilidades de ação por parte da população. Em um esforço de clarificar os porquês do presidente poder ser identificado como um sujeito perverso, a autora elenca outros comportamentos possíveis de assim caracterizá-lo, tais quais o estímulo à violência e a exaltação constante de conflitos (entre seus apoiadores e aqueles de outras posições no espectro político; ou entre membros de seu governo, considerados “a nova política”, e atores do establishment, por exemplo), a mobilização frequente da memória militar da ditadura brasileira[v] e a “fritura” dos ministros que se apresenta como o prelúdio de seus desligamentos do governo.

Diante desse leque de condutas, a perversão, segundo o ensaio, é descrita como um cálculo realizado pelo presidente cujo objetivo é mascarar suas reais intenções. O texto ilustra: “quando o insensato Jair Bolsonaro atrapalha Paulo Guedes, o projeto neoliberal ganha um verniz de sensatez que jamais teria de outro modo”.

O diagnóstico do presidente como um sujeito perverso é também observado em outro texto, mais recente, publicado pelo mesmo El país. Intitulado O que podemos diante dos perversos?,[vi] este segundo ensaio compartilha da mesma lógica do anterior: identifica uma série de comportamentos que seriam típicos dos perversos e associa sua reprodução às condutas do presidente.

Em linhas gerais, os autores traduzem a perversão como “o desdém ou a recusa da lei”.[vii] Nessa chave, o sujeito perverso é aquele que conhece a lei e, ainda assim, deliberadamente a despreza e a rejeita – aquele que se coloca acima dela ou se manifesta como sendo a lei.

O desprezo pela lei é identificado nas condutas presidenciais por alicerce comum – a negação. Assim sendo, os autores detectam a perversão de Bolsonaro em comportamentos como a identificação com leis particulares – portanto a negação da lei –, o descompromisso com a verdade – a negação da verdade, e assim sucessivamente –, o prazer na exploração e na violência para com o outro, a evocação repetida de um “passado perverso”,[viii] o desejo de perpetuar um poder sobre instituições públicas e privadas e a tentativa consciente e intencional de provocar através do discurso um sentimento de medo e culpa nos interlocutores.

Face a face com essa série de condutas o texto afirma que “não seria tão difícil reconhecer um perverso”. Usando o contexto da pandemia do novo coronavírus os autores ilustram: “diante da pergunta, ele evade. Diante dos fatos, ele nega. Diante de sua própria fala, ele desmente. Ele se acha insuperável, porque a perversão, negando qualquer limite, nega até mesmo a morte. ‘É só uma gripezinha’. Assim, diante da morte, ou de milhares de mortes, ele é indiferente. ‘E daí?’”.[ix]

Em um terceiro ensaio que utiliza a gramática psicanalítica na tentativa de desvendar o que move Bolsonaro, a perversão dá lugar ao ressentimento[x]. Segundo a autora, o ressentimento é uma paixão[xi] que serve de guia às ações do sujeito, as quais passam a ser pautadas por uma tentativa incessante de culpar um terceiro por seus fracassos e por sua infelicidade.

Nos termos do texto, a utilidade desse guia é eximir o ressentido de uma avaliação das escolhas que orientam o seu desejo e protegê-lo das incertezas da vida cotidiana. Tentando simplificar o raciocínio expresso pela autora, tanto essa avaliação quanto os fatores objetivos da realidade são fontes de sofrimento– portanto, a tentativa de culpar um terceiro é, em verdade, um exercício de eleger um bode expiatório para o sofrimento inerente de “estar no mundo”. Para clarificar esse argumento o ensaio recorre ao exemplo da Alemanha nazista: a soma da frustração de uma classe média baixa espremida entre a burguesia e a potência de luta do proletariado e o peso da crise econômica sobre a população alemã durante a grande inflação teria, segundo a autora, culminado na identificação de um grupo social como o culpado pelo sofrimento daquele tempo.

Aplicando raciocínio análogo ao contexto brasileiro, a autora identifica o desprezo às classes marginalizadas levado a cabo pelo atual governo – e endossado por seus apoiadores – como resultado da operação de eleger culpados pelas frustrações e pelos sofrimentos decorrentes da crise econômica que atinge o país desde os idos de 2013.

Ainda sob a mesma linha argumentativa, o ensaio cita a atuação contrária de Bolsonaro ao trabalho da Comissão da Verdade como uma amostra de sua “personalidade ressentida”. Ou seja, é dizer que suas críticas e boicotes à inciativa que objetiva publicizar os crimes cometidos pelo Estado durante o regime militar podem ser lidos como um esforço de culpar aqueles que participam da Comissão – ou, de uma maneira mais ampla, aqueles que desejam conhecer a verdade dos fatos sobre a ditadura brasileira – por seu sofrimento.

O argumento, ainda que constitutivamente simples, acaba por fornecer uma chave de leitura sobre os movimentos de Jair Bolsonaro. Através dela, compreende-se, por exemplo, a coletânea de declarações funestas do presidente que ressoam a violência contra as minorias e o desdém pelos direitos humanos como uma tentativa de virada de mesa contra as acusações que pairam sobre seus filhos e as críticas que se faz à forma com que o governo tratou a pandemia do novo coronavírus, que tirou a vida de quase 700 mil brasileiros. Face a face com seus infortúnios, o presidente elege culpados.

No quarto e último ensaio que integra esta coletânea de exemplos, a gramática psicanalítica é empregada para definir Bolsonaro como psicopata. Para assim caracterizá-lo, o artigo recorre a uma conceituação negativa: “Jair Bolsonaro não é louco”.[xii] Isso porque, nos termos do texto, enquanto os loucos (dentre os quais, psicóticos e neuróticos) “sofrem e enxergam o sofrimento do outro”, os psicopatas não o fazem.

O texto assevera que, para lá de uma disfuncionalidade do aparelho psíquico, a psicopatia é um traço da personalidade de um sujeito – o que pode ser notado na passagem “a psicopatia não é uma doença, é uma maneira de ser”, ou ainda na sua definição como “desvio de caráter”. Segundo o ensaio, um sujeito psicopata é alguém incapaz de sentir culpa ou remorso ao praticar suas ações, marcadas por crueldade e violência.

Ainda nesses termos, a autora pontua que a maneira de ser do psicopata produz uma realidade paralela em que só importam poder, status e diversão. Realidade na qual o outro figura como um objeto cuja serventia é a consecução dos objetivos do psicopata. O texto não elenca quais seriam esses objetivos, mas é possível concebê-los na atual conjuntura brasileira como a manutenção do poder e a proteção a seus familiares, integrantes do governo e acusados de praticar condutas ilícitas.

Para ilustrar a realidade criada por Bolsonaro, em que imperam o “poder, o status e a diversão”, o texto define o desrespeito do presidente ao distanciamento social apontado por cientistas como o modo mais eficaz de evitar o contágio pelo novo coronavírus como um ato de desfrute de sua liberdade de ir e vir sem se importar com as consequências de seu exemplo para a população.

 

2.

Como apontado na introdução a hipótese aqui defendida é a de que a psicanálise é, uma vez mais, alçada à política em um contexto de insuficiência de ferramentas de análise para o contexto brasileiro. Dado o modus operandi do governo – inédito desde a redemocratização -, e a maneira com que cada vez mais as instituições são corroídas, a impressão é de haver necessidade de mobilizar novos saberes, métodos e articulações teóricas para a compreensão do fenômeno Bolsonaro.

Importa novamente frisar que essa mobilização diz respeito a um uso específico da psicanálise, que difere de sua prática tradicional. Como visto na coletânea de exemplos da seção anterior, a psicanálise é empregada para examinar falas e condutas públicas do presidente no exercício do cargo – o que implica a inexistência dos alicerces da análise, tais quais a fala livre do paciente e a relação estabelecida entre ele e o analista.

Ao que indicam os exemplos apresentados anteriormente, a mobilização do saber psicanalítico nesses moldes possui uma função clara: enquadrar o presidente em um sistema de classificação previamente conhecido, implicando a sua inclusão em um sistema normativo. Trocando em miúdos, o papel desempenhado por essa operação é o de atribuir algum tipo de coerência ao discurso e às condutas praticadas por Jair Bolsonaro – através do sistema normativo da psicanálise, as ações e omissões do presidente, supostamente, deixam de ser incompreendidas e passam a ser enxergadas com maior nitidez.

É fundamental notar, também, um outro elemento comum a todos os textos da coletânea apresentada: o diagnóstico. A inclusão de Jair Bolsonaro no sistema normativo a que fazemos referência passa pelo fato de os autores o diagnosticarem como portador de uma patologia ou como dotado de determinada personalidade. Não se pode perder de vista que os diagnósticos são proferidos apenas com base nos atos praticados pelo presidente no exercício de seu cargo, não havendo, portanto, qualquer outra relação, concreta ou simbólica, entre Jair Bolsonaro e os autores. Nos dois primeiros ensaios, inclusive, para além do diagnóstico, os autores indicam caminhos para que os demais sujeitos possam lidar com o presidente, identificando a doença e prescrevendo sua cura.

Um último ponto que marca todos os ensaios da coletânea é que os diagnósticos representam também uma possibilidade de exposição de fraturas do governo. Isso significa inserir no ato de diagnosticar um elemento político: às possíveis intervenções clínicas e sociais decorrentes da identificação de uma patologia ou de um traço da personalidade, soma-se uma potencialidade de intervenção política. Empregando um jargão, a mobilização da psicanálise nos moldes dos ensaios permite também o encontro do “calcanhar de Aquiles” do presidente – o que em um cenário de aparente desmobilização política e de falência da crítica equipara-se ao encontro de uma mina de ouro.

Diante da coletânea de exemplos surgem as perguntas: por que a psicanálise ganha espaço na análise política? E mais especificamente, por que uma mobilização singular da psicanálise que se debruça sobre registros públicos em oposição à descrição da clínica e que privilegia o diagnóstico?

Proponho dois caminhos para esboçar uma reflexão sobre a primeira questão. Primeiro, recorro aos refinados ensinamentos de Garcia-Roza: “a psicanálise se apresenta como uma teoria e uma prática que pretendem falar do homem enquanto ser singular, mesmo que afirme a clivagem inevitável [da subjetividade entre consciente e inconsciente] a que esse indivíduo é submetido”.[xiii]

Nessa chave, a alçada da psicanálise como ferramenta de análise do fenômeno Jair Bolsonaro parte do pressuposto de que existe alguma singularidade do presidente enquanto sujeito capaz de explicar suas condutas e discursos enquanto gestor da nação. Como salientado pelos exemplos da seção anterior, dada sua falta de decoro como ocupante do cargo, acredita-se que tal particularidade se refira a algum traço desviante de sua personalidade ou de alguma disfuncionalidade em seu aparelho psíquico.

Ainda com os ensinamentos de Garcia-Roza no horizonte, o ato de diagnosticar o presidente como “perverso”, “ressentido” ou “psicopata” acaba por dotá-lo de uma singularidade. É fato que, conforme destacado há pouco, o modus operandi do governo Jair Bolsonaro é, também, singular – ao menos, no período pós-redemocratização. Nessa linha de ideias, o que se pode conceber é o uso da psicanálise como sintoma – isto é, como uma tentativa de nomeação dessa singularidade política. Em outros termos, a mobilização desse saber parece partir de um exercício lógico: tendo em vista que a psicanálise que trata o sujeito como ser singular há possibilidade de transpô-la para tratar de um governo como ator político singular.

Um segundo caminho para pensar a respeito desta questão se abre quando levamos à cabo a ideia de que a psicanálise é, em verdade, uma “intervenção terapêutica”.[xiv] Concebendo intervenção como sinônimo de um agir que objetiva mudar o status quo de uma situação concreta, afirma-se que o que se pretende com a mobilização da psicanálise ao cenário político é a tentativa de alteração do atual estado das coisas – marcado, em linhas gerais, pela perda de direitos sociais, avanço da agenda conservadora e desrespeito aos direitos humanos.

Percebe-se, portanto, que o uso da psicanálise para essa função deriva da posição dos autores em relação ao governo – o que nessa chave tem relação com a “posição do analista”, ainda que nem todos os autores se identifiquem como tal. Tensionando um pouco mais esse argumento, o que se infere, usando o jargão lacaniano, é a presença do desejo dos autores para com o governo; desejo esse de desmascarar e denunciar uma verdade que nele está escondida.

Em outros termos, o que não pode se pode perder de vista é o fato de os autores serem afetados, enquanto sujeitos, pelas injunções características deste governo e que, portanto, sofrem, recordam, repetem e elaboram sentimentos a seu respeito.[xv] Daí dizer que a condição de possibilidade da mobilização do saber psicanalítico para esse fim é a participação crítica dos autores – que possuem direta ou indiretamente contato com esse saber – no contexto analisado e seu desejo de mudar seus rumos.

Passo agora à segunda questão, que diz respeito ao estatuto do diagnóstico nessas análises.

O pressuposto de que existe uma relação entre “características psíquicas” e as condutas levadas a cabo por um sujeito é consonante ao saber psicanalítico. O que chama atenção, no entanto, é a forma com que essa relação é operada na coletânea de exemplos apresentadas na seção anterior. Em oposição à ideia do sintoma e da necessidade de que ele seja enunciado – ou, narrado – como condição de possibilidade para que a psicanálise entre em cena,[xvi] percebe-se uma espécie de primazia do diagnóstico. Ou seja, no “tempo zero” identifica-se a singularidade que Bolsonaro possui – ou, poder-se-ia dizer, do que ele sofre –, para a partir disso compreender suas condutas.

Como destacado há pouco essa é uma operação que inclui o presente em um sistema normativo, cujo funcionamento é regido por construções lógicas do tipo: ele é assim, por isso age (e agirá) de determinada forma. Bolsonaro é perverso, por isso seu desprezo pela lei. Jair Bolsonaro é ressentido, por isso culpa (e continuará a culpar) as minorias por suas falhas – e assim sucessivamente. Em resumo, o resultado desse conjunto de operações lógicas é a inclusão de Bolsonaro em um registro, ou em termos mais refinados, em uma linguagem.

O que deve ser destacado neste momento da exposição é que aquilo que apelido de “primazia do diagnóstico” não é algo exclusivo da coletânea de exemplos apresentadas, ou ainda desse emprego para análise da conjuntura política. Como mostra Christian Dunker, esse uso que se faz do diagnóstico – de alguma forma – marca o tempo presente.[xvii] A título exemplificativo, o autor cita os diagnósticos praticados pelos coachings e head hunters, que apontam qualidades para uma melhor vida no trabalho, e os diagnósticos na educação, que identificam disfuncionalidades, como o déficit de atenção, potencialmente prejudiciais ao aprendizado de crianças e jovens.

Nesse sentido, a combinação entre a possibilidade ofertada pela psicanálise de tratar um governo singular a partir de suas singularidades e sua operação de uma maneira que encontra ecos em outros “atos diagnósticos” característicos do tempo presente parece ser um dos caminhos possíveis para explicar a sua alçada à condição de ferramenta de análise política.

Um último ponto a ser destacado nesta seção é que o uso da psicanálise nos moldes descritos acaba por privilegiar a contraposição entre normal e patológico e sua consequente transposição à política. No caso das análises sobre Bolsonaro isso fica ainda mais claro na medida que o patológico do seu governo – i.e., a desconformidade com os preceitos e instituições democráticas – é lido como decorrência de uma patologia de sua subjetividade. Uma leitura negativa da coletânea de exemplos poderia revelar que, caso Bolsonaro fosse um sujeito normal (aqui entendido como o oposto de patológico), as ações por ele praticadas estariam dentro da normalidade daquilo que se espera de um governo democrático.

Cria-se, portanto, através dessa mobilização do diagnóstico, a falsa ilusão de que todas as disfuncionalidades do governo (ou seja, suas patologias) estão relacionadas única e exclusivamente ao sujeito que atualmente ocupa a direção da nação, em um movimento que restringe a abrangência da crítica. Isso porque o investimento nessa construção não leva em consideração as injunções características do governo em uma outra escala – são ausentes as reflexões sobre, por exemplo, seus processos, sua constituição, os interesses e racionalidades que o regem.

Em outros termos, o que defendo é que leituras como aquelas reunidas na coletânea de exemplos da seção anterior não podem dar conta, sozinhas, de clarificar as singularidades e os traços característico do governo Bolsonaro. E, mais do que isso, devem nos servir como substrato crítico para refletirmos as possibilidades da psicanálise enquanto lente analítica dos fenômenos sociais.

Apresento a seguir, de maneira breve, um – entre tantos outros possíveis – tensionamentos sobre a alçada da psicanálise à explicação do social. Com isso, não pretendo oferecer respostas ou encerrar o debate – algo que seria, de alguma forma, lançar mão de um novo diagnóstico. Antes, o objetivo é o de colocar em cena uma reflexão sobre esse movimento. [continua]

19
Nov22

Comitê de Bolsonaro vira sede de encontros de Braga Netto com políticos e militantes que defendem golpe

Talis Andrade

O BLEFE QUE BRAGA NETTO NÃO CONSEGUE DESMENTIR – Moisés Mendes – Jornalista  – Porto Alegre – Rio Grande do Sul

 

por Fernando Miller /Diário do Centro do Mundo

O endereço alugado no Lago Sul de Brasília para ser usado como comitê da campanha de Jair Bolsonaro em sua tentativa frustrada de ser reeleito transfomou-se em uma espécie de central do golpe, de acordo com reportagem de Rodrigo Rangel, do Metrópoles, publicada nesta sexta-feira (18).

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QG do golpe fascista

 

Liderados pelo ex-ministro Braga Netto, que tem dado expediente de forma regular no local, conspiradores reúnem-se lá para discutir estratégias visando questionar o resultado das urnas.

De acordo com a apuração do jornalista, que tem acompanhado a movimentação no endereço, o deputado federal Osmar Terra foi um dos frequentadores do “QG do Golpe” nesta última quinta-feira (17).

Questionado, o parlamentar gaúcho reconheceu que foi tratar da auditoria contratrada pelo PL que visa por em xeque a credibilidade do sistema eleitoral.

Outro veículo do mesmo modelo, de um empresário do Mato Grosso, também chegou ao QG pouco antes do general sair de lá.

“(A reunião) foi para buscar informações, (saber) se tinha alguma novidade sobre o processo do PL”, disse ele, referindo-se à auditoria. “Queria ter a informação mais adequada”, emendou, acrescentando que segue no aguardo de “novidades”.

Além de Terra, outros parlamentares aliados do presidente têm frequentado a casa, como Marcel Van Hattem, do Partido Novo e o Senador Eduardo Girão, do Podemos. Além deles, o senador Guaracy Silveira, do PP, também participou da reunião.

O ex-tesoureiro da campanha de Bolsonaro,  coronel da reserva Marcelo Azevedo, é outro frequentador.

A casa tem um fluxo intenso de pessoas, que inclui manifestantes que participam dos protestos antidemocráticos. Isso acaba por ser uma evidência sobre a cadeia de comando das manifestações que vêm ocupando portas de quartéis e estradas com o objetivo de questionar o sistema eleitoral.

Decorada com uma bandeira do Brasil e dirigida por homem com camiseta com inscrições pedindo intervenção militar, uma camionete Amarok, avaliada em R$ 300 mi e com placa de Luis Eduardo Magalhães, na Bahia, esteve no endereço na tarde desta sexta-feira (18). Indagado pelo jornalista sobre quem o receberia, o ‘patriota’ não respondeu. Braga Netto estava lá.

Outro veículo do mesmo modelo, de um empresário do Mato Grosso, também chegou ao QG pouco antes do general sair de lá.

Um terceiro veículo que também passou por lá foi visto horas depois em uma manifestação no quartel-general do Exército, no Setor Militar Urbano de Brasília.

Ou seja, há vínculo claro entre as manifestações e o que se planeja no antigo comitê de Bolsonaro.

Braga Netto tem comparecido tanto a esse local quanto ao Palácio do Alvorada, onde tem visitado Jair Bolsonaro.

O general tem sido umas das principais vozes de incentivo aos golpistas, sempre deixando acesa a expectativa de que uma surpresa ainda pode ocorrer. A um prefeito do interior do Mato Grosso, ele disse que “algo muito bom” iria acontecer até o fim desta semana.

O prefeito Carlos Capeletti, do município de Tapurah, havia ido para comprar mantimentos para o acampamento. Logo depois, Capeletti fez um vídeo dizendo o que ouviu e publicou nas redes sociais.

 

Eu falei que eu iria embora, que não acreditava em mais nada, e ele (Braga Netto) falou assim: ‘Fica tranquilo que vai acontecer’”, disse o prefeito ao Metropoles.

 

O relato demonstra  que o general tem gerado expectativas golpistas entre os bolsonaristas que estão na rua.

Em outro vídeo ele saúda militantes bolsonaristas na frente do Alvorada. Ao ouvir apelos do grupo, que diz estar firme nos protestos, ele afirma:

 

Não percam a fé. É só o que eu posso falar para vocês agora”. 

 

Braga Netto cumprimenta golpistas em Brasília: "Presidente tá bem. Não percam a fé"

 

Dê uma coletiva, Braga Neto! - Renato Aroeira - Brasil 247

Daniela Duarte
@danieladart
Acabamos de encontrar o Vice no Palácio da Alvorada, ele estava em reunião com o presidente. Braga Neto estava com semblante muito tranquilo e disse que tem esperança. Estamos no caminho certo pessoal!
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Urgente: general Braga Neto descaradamente insuflando os caminhoneiros patriotarios a continuarem com a escalada golpista e ataques a democracia.ImageImage
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10
Nov22

'Me senti na inquisição': 'listas de petistas' se espalham pelo país e causam medo

Talis Andrade

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Bandeiras de Lula e Bolsonaro

CRÉDITO UESLEI MARCELINO/REUTERSImageImageImage

 

por Vinícius Lemos /BBC News

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Pouco após o primeiro turno das eleições, um questionamento chamou a atenção da cabeleireira Monika Ganem. "Uma cliente ligou para perguntar a um profissional do meu salão se eu estava trabalhando pro Lula. Ele respondeu: 'claro que não'", conta a empresária, que há 30 anos é dona de um salão de beleza em Maringá (PR).

Dias depois, ela descobriu que o seu estabelecimento estava em uma "lista de petistas" que eleitores de Jair Bolsonaro (PL) elaboravam para que pessoas deixassem de frequentar.

"Fiquei me sentindo na fogueira da inquisição ou nos porões da ditadura militar", revela a cabeleireira.Image

 

Ela frisa que nunca declarou voto no petista ou em qualquer candidato. "Mesmo que eu tivesse me manifestado publicamente, estaria no meu direito. Eu enxergo esse tipo de perseguição como uma violência irremediável, já que a Constituição nos assegura o direito de pensar e expressar pensamento."

Uma situação parecida foi vivida pelo cirurgião plástico Michel Patrick, de Cuiabá (MT). Ele teve o seu nome citado em uma lista semelhante em Mato Grosso.

"Isso tem, lógico, uma conotação de segregação e exclusão, com a mensagem: não façam negócio com esse tipo de gente. Situações desse tipo abalam as pessoas, fazendo com que se sintam ameaçadas", diz.

O médico também afirma que nunca manifestou voto em Lula. "Não sou petista, isso se torna impossível pois não sou partidário, não tenho político de estimação e não falo sobre política nos meus canais de comunicação."

Os dois casos ilustram uma situação que se tornou recorrente nas últimas semanas em diversas regiões do país: as inúmeras "listas de petistas" que são compartilhadas em grupos bolsonaristas em forma de repúdio, com incentivo para que as pessoas não frequentem esses lugares ou não contratem esses profissionais.

Entre os alvos desses tipos de listas há estabelecimentos ou profissionais de diferentes áreas. Até mesmo servidores públicos foram mencionados.

A BBC News Brasil ouviu algumas histórias de pessoas que foram citadas em algumas dessas listas. Além do receio de enfrentar prejuízo financeiro, elas também temem que se tornem alvos de diferentes tipos de ataques.

Monika optou por não denunciar a situação às autoridades, ao menos por ora. Já Michel registrou um boletim de ocorrência e avalia as medidas judiciais cabíveis.

Especialistas têm apontado que cada caso tem que ser analisado individualmente, mas frisam que pode se enquadrar como difamação, que prevê pena de um a três anos de detenção. Além disso, é possível pedir indenização por danos morais ou materiais e até tentar descobrir a origem da lista por meio da Justiça.

 

'Um discurso de ódio pesado que te atinge'

 

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Além dos profissionais liberais ou donos de estabelecimentos que dizem evitar se manifestar sobre política, essas listas também mencionam aqueles que são publicamente a favor do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

Para a comerciante Letícia (nome fictício), dona de um restaurante vegano em São Paulo, a manifestação de apoio ao PT e contra o atual presidente Jair Bolsonaro sempre fez parte da rotina de seu estabelecimento. "Talvez eu tenha sido ingênua em não imaginar o que isso poderia causar."

Ela diz que já havia ouvido críticas pontuais sobre o seu posicionamento político, mas nunca acreditou que viveria algo semelhante ao que enfrentou dias atrás quando uma página bolsonarista mencionou o restaurante dela em uma lista de estabelecimentos petistas numa rede social.

"Pegaram as nossas fotos, com as bandeiras do Lula e do Haddad (candidato petista ao governo de São Paulo, que foi derrotado) e postaram com a mensagem: essa empresa chama a gente de genocida e de nazistas. Incitaram os ataques", diz Letícia.

A partir de então, o estabelecimento dela começou a receber inúmeras ofensas na rede. "Eu diria que vai dando uma noção do perigo que a gente corre e que geral está correndo. É uma coisa muito descontrolada, um discurso de ódio pesado que te atinge. Eles sabem falar as coisas que vão lá no fundo e assusta", diz a comerciante.

"Eu me senti invadida e acuada. É uma invasão de privacidade, um desrespeito enorme ao pensamento de cada um e à democracia", diz ela.

"Mesmo que seja só um assédio virtual, compartilharam também o nosso endereço e nossos rostos, então deu medo de haver algum assédio físico na hora também. É a proliferação de uma cultura antidemocrática e violenta", acrescenta o sócio dela.

Em meio às ofensas, eles compartilharam a situação no perfil do estabelecimento no Instagram e também passaram a receber diversas mensagens de carinho.

"Quando comecei a ver o apoio das pessoas, me senti um pouco mais tranquila. Mas antes disso mexeu bastante comigo e me deu até tremedeira", conta.

Os dois registraram um boletim de ocorrência sobre o caso. E apesar de tudo o que enfrentaram, não se arrependem de manifestar publicamente apoio a Lula. "Espero que isso caia no esquecimento e que a gente possa trabalhar e ter a nossa vida. Não vou deixar de postar e apoiar a democracia", declara Letícia.

A mesma página que expôs o restaurante de Letícia também mencionou a cafeteria de Fernanda (nome fictício), em Goiânia (GO), na lista de "locais petistas".

"Na nossa porta de entrada tem uma mensagem 'Lula livre', mas ainda assim recebemos mensagens de pessoas falando que não sabiam que a gente era de esquerda", comenta Fernanda, ao explicar que nunca escondeu que era contra a gestão de Jair Bolsonaro.

"Pessoalmente, nunca passamos por nenhum constrangimento ou recebemos algum tipo de ataque, mas pelas redes sociais foi muito pesado nesse ano."

A enxurrada de comentários negativos começou pouco após a página bolsonarista divulgar a cafeteria. "Fiquei muito mal com isso e chorei. Também fizeram xingamentos no meu perfil pessoal e até ofenderam a minha família. Diziam que queriam que a gente morresse ou falisse", diz.

"Eu me senti muito triste e oprimida, a gente se esforça muito para fazer um trabalho legal, estou pagando empréstimo que fiz porque fiquei endividada na pandemia", acrescenta.

Além disso, conta a comerciante, as pessoas foram a uma plataforma de avaliações e deram notas ruins para o estabelecimento.

"Derrubaram a nossa avaliação e fizeram comentários falsos. Isso prejudicou bastante, porque é uma avaliação muito importante", comenta.

"Eu acho 'de boa' ter uma lista dessas e o meu posicionamento nunca foi segredo. O problema é atacar, ir atrás e fazer comentários de ódio sobre um lugar só por causa da visão política."

Ela optou por não registrar boletim de ocorrência. "Sinto que a velocidade dos comentários negativos diminuiu, então acredito que essa onda está passando."

"E ao menos recebi muito acolhimento e apoio depois disso. Não me arrependo do meu posicionamento, não vou deixar de ser quem eu sou por causa dessa violência", declara.

Letícia e Fernanda afirmam que por sempre terem defendido abertamente a eleição de Lula, não acreditam que perderão clientes após serem expostas nas páginas.

 

'Pessoas mais preconceituosas deixaram de frequentar o salão'

Charge em preto e branco tem apenas um quadro. A ilustração mostra um céu muito escuro e duas pessoas de pé sobre um lago congelado. Os homens representam Dante e Virgílio, do livro "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. O desenho mostra o lago congelado de Cócite, o último dos Nove Círculos do Inferno, para onde vão os traidores. Virgílio diz para Dante: "esses são os que foram abandonados pelo Bolsonaro".

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Um dos principais receios desses profissionais mencionados nessas listas é sofrer prejuízo financeiro.

O cirurgião plástico Michel Patrick diz que a situação afastou algumas pessoas que planejavam procurá-lo. "Perdi algumas (pacientes), gente falando que ia fazer comigo no futuro, mas que agora não faria mais", afirma.

Mas ele acredita que também deve ganhar outros clientes, após compartilhar uma nota para lamentar a situação e afirmar que não apoiou nenhum candidato nas eleições.

No salão de Monika, o impacto da lista já começou a ser notado na agenda de atendimentos. "Percebi que as pessoas mais preconceituosas deixaram de frequentar o salão. Algumas eram muito frequentes e assíduas. Isso impacta de modo geral, mas não em números de visitantes do salão", diz.

Apesar disso, ela afirma que também recebeu manifestações de apoio após ser mencionada na lista.

Em seu perfil no Instagram, Monika compartilhou um vídeo sobre o tema e disse que ficou sem dormir por conta da situação.

"Fui acusada injustamente de comunista, injuriada, difamada, boicotada, hostilizada", diz em trecho do vídeo sobre clientes que deixaram de procurá-la após a lista.

"Eu e várias empresas da cidade fomos listadas e houve incitação a um boicote, a uma retaliação", diz Monika em outro trecho do vídeo.

"Isso se torna um temor, hoje tenho medo pela minha integridade física e emocional da minha família. Não acho que seja mero boicote", conta a cabeleireira à BBC News Brasil.

Segundo ela, alguns bolsonaristas da região chegaram a compartilhar mensagens para que os donos de estabelecimentos que votaram em Lula colocassem uma estrela vermelha em seus comércios. "Isso repete o comportamento da Alemanha nazista contra judeus", diz Monika.

"Nada mais é do que a repetição da conduta nazifascista da Segunda Guerra Mundial. Os nazistas faziam isso para perseguir e quebrar os judeus", acrescenta.

Ela e as outras comerciantes citadas nessa lista criaram um grupo para debater o que poderiam fazer em relação ao caso.

"Não por acaso, a maioria dessas empresas (citadas na lista) é comandada por mulheres", diz Monika. Segundo a cabeleireira, elas ainda não sabem se irão tomar alguma medida judicial.

 

Lista com servidores públicos

 

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Não são apenas estabelecimentos ou profissionais liberais que são mencionados nessas listas que circulam pelo país. Há também situações em que servidores públicos foram citados, como é o caso da professora Roberta*, que mora em uma cidade pequena no interior do Paraná.

"Na quinta-feira passada, recebi uma mensagem de WhatsApp de que eu estava na lista de pessoas que votaram no PT contra o atual governo. Nessa lista, diziam para as pessoas buscarem a gente se houvesse qualquer problema no município, porque nós que votamos no PT iríamos resolver Estavam rotulando mesmo, como na Alemanha nazista", conta.

"Me senti como uma criminosa tendo o meu nome na lista. Sou uma cidadã de bem, trabalho e sou muito rigorosa. Cumpro todos os meus deveres e pago as minhas contas", acrescenta ela, que é diretora de uma escola pública no município.

Na lista constavam cerca de 40 nomes, incluindo, além de alguns servidores públicos, donos de bares ou restaurantes na cidade, pedreiros e taxistas.

Por ser uma cidade pequena, ela diz que ficou com medo de sair de casa por alguns dias, por temer que fosse encarada de modo diferente pelas pessoas.

"Gostaria que as pessoas entendessem que essa lista é grave, simplesmente estão colocando rótulo na pessoa porque votou para outro candidato. É muito grave, porque estamos em uma democracia", declara.

Ela diz que já retomou a rotina e não sentiu nenhum tipo de mudança na forma como é tratada no município. "Estamos em período de matrícula e fiquei com medo de alguém não se matricular na escola por causa disso ou que eu recebesse alguns olhares. Mas, graças a Deus, isso não aconteceu", comenta.

A professora registrou um boletim de ocorrência e avalia, junto com uma advogada, a possibilidade de entrar na Justiça contra os responsáveis pela lista.

 

As consequências na Justiça

 

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Em meio à propagação dessas listas pelo país, os responsáveis por elas ou por divulgá-las podem ser punidos pela Justiça.

No caso do cirurgião plástico Michel Patrick, ele aguarda a apuração do caso após registrar boletim de ocorrência.

"Estamos aguardando as investigações para descobrir o ID da rede que divulgou essa lista. E posteriormente será distribuída ação de danos morais e materiais em desfavor dessa pessoa que divulgou notícias falsas", diz a advogada Nadeska Calmon, que acompanha o médico.

Especialista em Direito Digital e coordenador do curso de Direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), o advogado Marcelo Crespo explica que essas listas podem gerar, além do temor de prejuízo financeiro, o medo de violência física ou moral.

"Essas condutas estão inseridas num contexto de violência política em razão da polarização e desses posicionamentos extremos."

Ele frisa que cada caso deve ser analisado individualmente para avaliar a forma como a lista foi divulgada e a repercussão dela. "Mas, em tese, pode configurar difamação, cuja pena normalmente é convertida em prestação de serviços à comunidade. Essa pena pode ser aumentada em até um terço, se for cometida em grupo de WhatsApp ou em redes sociais, porque isso facilita a divulgação da difamação."

"A (caracterização da) difamação quer proteger a honra dessa pessoa, a imagem projetada dessa pessoa na sociedade. No momento de manifestação de ódio político, a divulgação não autorizada de quem votou em um candidato pode afetar a sua honra, inclusive no contexto da sua atividade econômica", acrescenta.

"Não importa se fulano realmente votou no Lula, falar a verdade nesse cenário também pode ser crime contra a honra", declara o especialista. "Além disso, nesses casos também pode haver ação por reparação de danos morais e/ou materiais", completa.

Ele comenta que é possível exigir na Justiça que as redes sociais ou aplicativos de mensagem informem a origem dessas listas.

"A rede social ou o aplicativo de mensagem é o veículo de transmissão da mensagem. Em regra, não responde por nada. Ela só responde se houver determinação judicial para que apague um post e caso essa rede deixe de tomar essa providência."

"Se a publicação acontece nas redes, há um procedimento padrão que a gente chama de investigação com quebra de sigilo telemático, por meio do qual é possível saber quem fez aquela publicação na plataforma. E, eventualmente, é possível descobrir o IP, o e-mail e dados cadastrais da pessoa."

Em nota à BBC News Brasil, o WhatsApp informa que não tem acesso ao conteúdo das mensagens trocadas entre usuários nem realiza moderação de conteúdo "por utilizar criptografia de ponta a ponta como padrão".

No entanto, a plataforma ressalta que "encoraja que as pessoas reportem condutas inapropriadas diretamente nas conversas, por meio da opção 'denunciar' disponível no menu do aplicativo (menu > mais > denunciar) ou simplesmente pressionando uma mensagem por mais tempo e acessando menu > denunciar."

"Os usuários também podem enviar denúncias para o email support@whatsapp.com, detalhando o ocorrido com o máximo de informações possível e até anexando uma captura de tela."

A plataforma de mensagens argumenta na nota que informa em seus termos de serviço e na política de privacidade do aplicativo que "não permite o uso do seu serviço de forma difamatória, ameaçadora, intimidadora ou ofensiva".

"Nos casos de violação destes termos, o WhatsApp toma medidas em relação às contas como desativá-las ou suspendê-las. Para cooperar com investigações criminais, o aplicativo pode também fornecer dados disponíveis em resposta às solicitações de autoridades públicas e em conformidade com a legislação aplicável", frisa o comunicado do WhatsApp à reportagem.

O Instagram, rede em que havia uma página que divulgava e incitava ataques a estabelecimentos "petistas", diz em nota que suas políticas têm o objetivo de evitar possíveis danos offline. Em suas normas, a plataforma afirma que remove linguagem que incite ou facilite a violência.

"Também encorajamos as pessoas a denunciarem esse tipo de comportamento e/ou qualquer conteúdo que acreditem violar as nossas Diretrizes da Comunidade do Instagram. Lembrando que todo conteúdo pode ser denunciado na plataforma. Nossa equipe analisa as denúncias 24 horas por dia, 7 dias por semana, em mais de 50 idiomas, e removeremos tudo que viole as nossas políticas. As denúncias são sempre anônimas", diz nota do Instagram à BBC News Brasil.

O perfil que divulgava estabelecimentos que classificava como petistas foi excluído. O Instagram não confirmou à reportagem se ele foi deletado em razão das diversas denúncias que recebeu ou se o próprio dono do perfil decidiu excluí-lo.

A BBC News Brasil também procurou o Twitter, onde também foi encontrado um perfil que divulga comércios com donos que manifestaram voto em Lula. No entanto, a rede social não respondeu até a conclusão desta reportagem.

Benett
@Benett_
Anedonia - newsletter de tiras do @pluraljorbr para apoiadores do jornal, mas que publico aqui para todo mundo durante essa semana. Minha pequena contribuição para esses dias turbulentos.Image
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27
Out22

O golpe do empréstimo consignado da Caixa

Talis Andrade

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Este golpe vai deixar muita gente desesperada com a dívida que dele resultará, quando pararem de receber o Auxílio Brasil. Leia comentários de Reinaldo Azevedo, Josias de Souza, Fabíola Cidral e Tales Faria

 

por Chico Whitaker /A Terra É Redonda 

Estamos todos quase acostumados, no Brasil, a nos defender de centenas de modalidades de pequenos e grandes golpes – pela internet ou sequestrados para esvaziar nossas contas num terminal bancário. É um processo de invenção continua, por espertinhos e grandes espertalhões organizados, às vezes com técnicas extremamente sofisticadas, de novas modalidades para tirar dinheiro dos incautos, a cada dia que passa. Somos continuamente surpreendidos por pedidos de atenção com novos golpes – quem não recebe avisos da polícia e até de bancos, e não desconfia que também esses avisos são novos golpes? Não é, portanto, de estranhar que de repente tenha tomado forma um tremendo golpe dado pelo próprio governo!

Falando então com as vítimas do espertalhão-mor de nosso país: quem avisa amigo é. Muita gente nos diz que este golpe vai deixar muita gente desesperada com a dívida que dele resultará, quando pararem de receber o Auxílio Brasil. Mas dizem também que o objetivo do Presidente e seus cúmplices neste golpe é vergonhosamente imediato: fazer com que os que se considerem beneficiados tenham a gratidão de reeleger, dia 30 de outubro, o atual Presidente da República. Se tiver resultado, terá sido o mais gigantesco estelionato eleitoral que já vimos por aqui!

Muitos seguramente receberam com alegria a notícia da concessão, pela Caixa Econômica Federal, de “empréstimo consignado” aos beneficiados pelo Auxilio Brasil – aliás também impunemente antecipado. Segundo a Caixa, o aplicativo para recebê-lo teve entre os dias 11 e 20 de outubro 206 milhões de acessos! Ela teve até que suspendê-los no dia 21, “para manutenção do sistema”, totalmente afogado… E também porque naturalmente, em terra de golpes, um chama outro, e começaram a se multiplicar as reclamações pela cobrança de taxas não esperadas e vendas casadas.

Quem entrou nas filas que se formaram certamente ficou feliz com a perspectiva de receber dinheiro (até 2.582 reais!), para saldar dívidas, comprar coisas que esperavam a vez, e até a comida que já estava faltando. Mas parece que nem todos perceberam que não se tratava de um auxilio sem contrapartida, mas de um empréstimo, que poderá ser de até 3.840 reais. Ou seja, algo pesado a reembolsar. Pelo que terão pago para quitá-lo (em 24 parcelas de 15 a 160 reais), também 1.259 de juros. Tudo com um pequeno detalhe: essas parcelas serão descontadas automaticamente do Auxílio Brasil. Mas a distribuição deste auxílio está previsto de agosto a dezembro deste ano. Isto é, depois, sem esse auxílio a partir de janeiro de 2023, a quitação deverá sair, evidentemente, do bolso do “beneficiado” (dados da Folha de São Paulo de 22/10/2022).

Será que estamos todos no Brasil tão carentes da capacidade de indignação – dos que estão assim claramente vitimados por essa “operação eleitoral” ainda em curso aos que se pretendem acima de sofrimentos como o desemprego e a fome, e se ocupam com a necessária defesa da democracia – que já não somos capazes de denunciar esse golpe a todo o país e votar em massa dia 30 de outubro contra a continuidade no poder de uma verdadeira quadrilha?

Sem precisar ir tão fundo como condenar o atual Presidente e seus comparsas pela política de mentira, violência, morte e ódio que instauraram em nossa terra (que neste último domingo foi claramente demonstrada por um de seus asseclas mais furiosos), será que não vemos mais como punir pelo menos pelo voto os crimes do Presidente frente à pandemia, ou a multiplicação de golpes de toda a sua família como ao acumular dinheiro para comprar 150 imóveis? Será que nos deixamos dominar pela banalização do inaceitável, e já não temos força para gritar um estrondoso Basta!

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25
Out22

Bolsonaro contra as crianças

Talis Andrade

Bolsonaro contra as crianças. Por Ilana Katz* | Combate Racismo Ambiental

CRIANÇA EMBAIXO DO VIADUTO: NINGUÉM VIVE BEM EM UM PAÍS QUE NEGLIGENCIA SUA POPULAÇÃO. FOTO: ISABELLA FINHOLDT/SUMAÚMA

 

A análise de fatos, vetos e políticas de governo mostra que o atual presidente determinou quem são as meninas e meninos “matáveis” do Brasil

 

por ILANA KATZ

As notícias sobre violências contra crianças costumam nos interromper. A gente para, pensa nos filhos, engole seco, lembra das crianças que vimos crescer e procura formas de lidar com a crueldade de um ato contra alguém com pouca ou nenhuma chance de se defender do ataque. Diante do horror que a humanidade pode produzir contra aqueles que deveria ser capaz de proteger, nos indignamos e fazemos a já clássica série de perguntas: como assim?, como pode?, com que coragem?. São interrogações que não têm fim e que não sossegam, porque a resposta que encontramos é contraintuitiva: sim, a humanidade é capaz de negligenciar, machucar, violar e matar crianças. A política da morte, no conceito de Achille Mbembe, a chamada necropolítica, não deixa as crianças de fora e escolhe entre aquelas a quem dá o direito à vida e à proteção social, e aquelas que considera “matáveis”. É preciso, porém, ir além da consternação. É preciso encarar por quais caminhos, hoje, o Brasil negligencia, desprotege e vulnerabiliza suas crianças. Análises dos quase 4 anos de Bolsonaro mostram que a lógica que guiou seu governo negligenciou a vida de determinadas crianças. É urgente agir para impedir que parte das infâncias brasileiras sigam na categoria de “matáveis” por mais 4 anos.

As crianças estão inscritas no artigo 227 da Constituição Brasileira como prioridade absoluta. Isso quer dizer que, de acordo com a Carta Magna, “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Em 2022, ao examinarmos as condições de vida das crianças brasileiras, fica evidente que, diante do que está proposto, o fracasso é imenso. E, assim, torna-se monstruoso.

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11 em cada 100 brasileiros de 11 a 19 anos estão fora da escola e quase 50% saíram trabalhar e ajudar a família; entre os que ficaram, 21% já pensaram em desistir

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Crianças entre 4 a 10 anos que estão na escola sem conseguir aprender apresentam risco real de terem a vida escolar interrompida

Atos praticados de forma direta contra as crianças são estarrecedores. Os assassinatos hediondos, a violência sexual, ou coerções abusivas e violadoras, muitas vezes praticadas por representantes das instituições da República, como naquela oportunidade em que uma juíza ousou perguntar para uma menina de 11 anos, estuprada e grávida, se ela não podia aguentar mais um pouquinho para a criança nascer e evitar um aborto, chocam e indignam. A pergunta que não deveria dar descanso, porém, é sobre o que está sendo feito em termos de políticas efetivas contra a violência sexual que, de acordo com o Instituto Liberta, vitimiza 4 meninas por hora no Brasil.

Quando nos damos conta de que 76,5% dos crimes sexuais acontecem na família da vítima, não escapamos de considerar o papel fundamental que as escolas assumem nesse processo. A educação sexual, que ali pode e deve ter lugar, não é o único, mas é, certamente, um meio poderoso de agir contra a exploração sexual de meninas e meninos. Nublar esse debate com o argumento vazio e contracientífico que ficou conhecido como “ideologia de gênero”, dizendo que falar sobre sexo com crianças é o que as vitimiza, não faz nada mais do que perpetuar a violência contra as crianças. Negando informação, nega-se acolhimento e a possibilidade de emancipação dos jovens, que, sem isso, seguirão submetidos aos que os violentam. Os dados são muito claros: apenas 10% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são notificados.

O que vemos é que está em curso um outro nível de violência contra crianças: a que se institui por negligência deliberada e que impede o acesso a direitos básicos, como aconteceu no caso das crianças Yanomami, em áreas invadidas por garimpeiros ilegais, que morreram por excesso de vermes, que morreram “do que um comprimido poderia evitar”. Havia vermes – e não havia medicamentos. Crianças indígenas foram então condenadas a vomitar vermes – e, das 9 crianças que morreram por doenças básicas entre julho e o início de setembro, 2 delas morreram nessa condição.

A denúncia, mostrada na primeira edição de SUMAÚMA, explica muito bem como atos deliberados de negligência, praticados pelo governo que escolheu proteger apenas algumas crianças e vulnerabilizar outras, afeta populações determinadas. Essas negligências, porém, atingem a todas as crianças brasileiras – e não só as que estão marcadas pela desigualdade decidida por marcadores sociais de raça, classe, gênero e deficiência. Atinge mesmo as que poderiam se pensar protegidas pelo privilégio que é acessar direitos no Brasil. Ninguém vive bem em um país que negligencia o cuidado de sua população.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu às mais diversas formas de desmantelamento de políticas de proteção e cuidado que vinham sendo construídas por disputas de ideias, e avançando pela pactuação democrática. As notícias recentes são estarrecedoras e, embora não deem conta de descrever tudo o que perdemos, revelam os efeitos diretos do desinvestimento público sobre a vida das crianças.

No campo da saúde, um levantamento sobre a queda da imunização no Brasil, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra o impacto da desproteção de alguns sobre a vida de todos. Neste ano, 3 em cada 5 crianças brasileiras menores de 5 anos estão desprotegidas contra a poliomielite, a doença que causa a paralisia infantil. Segundo Bernardo Yoneshigue, repórter da Folha de S.Paulo, “os dados preocupam especialistas, que avaliam uma possibilidade real da volta do vírus ao país, porque, para manter o vírus sob controle, 95% do público-alvo deve estar imunizado, e, no ano de 2021, apenas 69,9% da população foi protegida”. O Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações mostra que a última vez que o Brasil alcançou a meta foi em 2015, ano anterior ao impeachment de Dilma Rousseff (PT). Vale lembrar também que, em 2019, o Brasil perdeu o certificado de erradicação do sarampo.

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Em 2019, o Brasil perdeu o certificado de erradicação do Sarampo

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Em 2022, 3 em cada 5 crianças brasileiras menores de 5 anos não estão protegidas contra poliomielite e há risco real de o vírus voltar

Na educação, o relatório da Unicef Educação Brasileira em 2022 — A Voz dos Adolescentes denuncia que 11 em cada 100 brasileiros com idades de 11 a 19 anos estão fora da escola em 2022. Quase metade deles deixaram a escola para trabalhar e ajudar a sustentar suas famílias. O Brasil que colocava cada vez mais gente na sala de aula não existe mais, tornou-se uma imagem do passado. Mais grave ainda é constatar que acessar a escola não quer dizer a mesma coisa que acessar o direito fundamental à educação. Este mesmo relatório mostra que, entre os que permanecem na escola, 21% pensaram em desistir nos últimos 3 meses, e, entre esses, o motivo principal de metade deles é a dificuldade de acompanhar as explicações ou atividades propostas. Para calcular o crescimento da evasão escolar, será ainda necessário somar as crianças de 4 a 10 anos que estão na escola sem conseguir aprender e que, portanto, apresentam risco real de terem a vida escolar interrompida.

Na segurança pública, a lógica segregacionista está explícita. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2021, o assassinato de crianças e adolescentes que vivem na Amazônia Legal foi 34,3% superior à média nacional. E a média nacional é alarmante: 8,7 mortes violentas de crianças e adolescentes a cada 100 mil pessoas de 0 a 19 anos. A desigualdade racial é mais do que evidente: 66,3% das vítimas são negras e 31,3%, brancas. Entre os adolescentes, a proporção de vítimas negras salta para espantosos 83,6%.

A violência contra crianças produzida por negligência deliberada fica muito clara quando constatamos que a verba federal para a compra de merenda escolar não sofre reajuste desde 2017, enquanto nos últimos 5 anos a inflação acumulada (de setembro de 2017 a setembro de 2022) foi de 31,26%. Não é novidade que parte significativa da população de crianças brasileiras tem, na merenda escolar, a garantia de alimentação diária. Em agosto deste ano, porém, o reajuste para 2023 foi novamente vetado pelo governo Bolsonaro.

Como fica explícito na análise das escolhas do governo Bolsonaro, no campo das infâncias não é preciso fazer muita coisa para desproteger: a escolha pode ser, apenas, não fazer. É o que aprendi com Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré: como a negligência de Estado vulnerabiliza determinadas populações. Um governo que protege suas crianças não as deixa morrer de fome. Segundo dados dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), porém, mais de 65 milhões de brasileiros passam fome. Outra pesquisa, esta feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que, entre os anos de 2019 e 2021, o Brasil ultrapassou, pela primeira vez, a média mundial de pessoas sem condição de se alimentar. O jornal Nexo, ao esmiuçar as políticas públicas, mostrou que “o percentual de residências com crianças abaixo de 10 anos com insegurança alimentar grave praticamente dobrou de 2020 para 2022, passando de 9,4% para 18,1 %. Quando nessas casas há 3 ou mais pessoas com até 18 anos, o número sobe para 25,7%”.

Sequer mencionamos lazer, acesso à cultura, promoção de saúde mental e o cenário já é mortífero. Muita gente no campo social e, principalmente, no campo da política partidária, acredita — ou, pelo menos, tenta nos fazer acreditar que acredita — que se dedica à proteção das infâncias. Mas para levar as infâncias a sério e sustentar compromissos de cuidado com cada uma das crianças brasileiras é necessário muito mais do que discursos em tom caridoso de dedicação às criancinhas. É como diz aquele provérbio africano que repetimos à exaustão, no curso da crise sociossanitária resultante da pandemia de covid-19: “É preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança”. A questão é que esse provérbio precisa ser lido, também, pelo seu avesso: é preciso cuidar da aldeia para cuidar de crianças.

A precisão dessa constatação pode ser vista no caso da mãe e do filho encontrados mortos, dentro de casa, em Uberlândia, em 13 de outubro de 2021. Segundo a imprensa, ela era cardíaca e provavelmente passou mal. O filho, tetraplégico, dependia dela e não pôde nem socorrê-la e nem sobreviver sem o cuidado da mãe. Morreram ambos, em dor e solidão, porque não havia uma aldeia, o que significa que não havia uma rede de proteção social para nenhum dos dois. É por fatos brutais como este que, se as violências contra crianças nos fazem parar, é imperativo que realmente paremos com a ladainha e passemos à ação. Não existe a possibilidade de cuidar de uma criança sem lhe oferecer um contexto que promova a vida — a sua, a dos seus, a dos outros.

O que temos como a mais dura e violenta realidade, porém, é que no país em que quase metade das famílias é chefiada por mulheres, a crise agravada pela pandemia produziu a feminização da fome. Os dados da já mencionada pesquisa da Fundação Getúlio Vargas apontam que, ao produzir 4,6 milhões de novos pobres, o contexto da pandemia produziu também um aumento de 14 pontos percentuais entre as mulheres que estão em situação de insegurança alimentar. “Como resultado, a diferença entre gêneros da insegurança alimentar em 2021 é 6 vezes maior no Brasil do que na média global.” Como o próprio relatório da pesquisa aponta, as mulheres estão mais próximas das crianças, e isso gera consequências para o futuro do país: a subnutrição infantil deixa marcas físicas e mentais permanentes.

A negligência comprovadamente deliberada do governo Bolsonaro na gestão da pandemia de covid-19 deixou, até agora, mais de 680 mil mortos no Brasil. Isso significa muitas filhas e filhos, milhares de netas e netos sem suas figuras de referência e proteção, lançadas precocemente na perda e no luto. Segundo a renomada revista de medicina Lancet, entre março de 2020 e abril de 2021, ao menos 130.363 crianças e adolescentes brasileiros, com até 17 anos, ficaram órfãos. Entre março de 2020 e setembro de 2021, os cartórios do Brasil registraram mais de 12 mil crianças de até 6 anos de idade na orfandade. Entre essas, 25,6% ainda não tinham completado 1 ano de idade quando perderam pai e/ou mãe. Esses números nos obrigam a questionar a ideia, que circula entre muitos, de que as crianças seriam a população menos afetada pela covid-19. As crianças órfãs são vítimas da covid porque são vítimas da chamada “pandemia oculta”, que, na verdade, está escancarada na nossa cara.

É ainda mais brutal. Em 7 de junho de 2021, o Brasil conquistou o título macabro de segundo país com mais mortes de crianças por covid-19 no mundo. Bolsonaro, porém, no dia 14 de outubro, em sua campanha à reeleição, disse que “a molecada” não morreu de covid, desmentindo os dados oficiais de seu próprio governo, que apontam 2.500 crianças e adolescentes de zero a 17 anos mortos pelo vírus. O extremista de direita diz que esses dados, dispostos pelo Ministério da Saúde de seu governo, foram fraudados. Como de hábito, não apresenta provas. Aqui na terra redonda, porém, cuidar das famílias enlutadas e proteger as crianças órfãs, necessariamente, demandam política pública e funcionamento efetivo da rede de proteção social. É por essa razão que Maria Thereza Marcílio, presidente da instituição Avante – Educação e Mobilização Social, sintetiza muito bem quando diz que “lugar de criança é no orçamento”.

A pauta racial é incontornável quando se discute a orfandade no Brasil. Pesquisas realizadas pela Rede de Pesquisa Solidária e pelo Instituto Pólis informam que pessoas negras morreram mais de covid-19 do que pessoas brancas. Portanto, a pandemia não foi democrática, como tentaram nos fazer acreditar no início. Ao contrário, a negligência deliberada do governo na gestão da crise reproduziu e ampliou as desigualdades sociais e raciais. Na base do mercado de trabalho, no qual se incluem os serviços domésticos, os números revelam o que já sabemos: “Não apenas as mulheres negras têm maiores chances de mortalidade pela covid-19 em comparação aos homens brancos em praticamente todas as ocupações de menor instrução, como também são maiores as chances em relação às mulheres brancas”.

A violência desses dados indica quais são as crianças que o Estado escolheu não proteger: na sua maioria, são as crianças filhas das mulheres negras. A hipótese de que muitas mulheres morreram como Cleonice Gonçalves, a empregada doméstica que foi uma das primeiras vítimas de covid no Brasil, faz sentido. Ela morreu porque não lhe foi concedida a possibilidade de isolamento social, morreu porque continuou servindo sua patroa, morreu porque não foi informada de que a patroa tinha covid-19. Quantas outras não cuidaram das crianças e da casa para os patrões se dedicarem ao home-office, que, já na expressão importada, revela a que classe social e a que raça serviu? Com as escolas fechadas, as filhas e filhos destas mulheres ficaram ou desamparadas ou protegidas por práticas de cuidado inventadas nos territórios considerados periféricos, que, diante da negligência do governo, buscam criar soluções para sobreviver.

Quem entrar no site da Câmera dos Deputados pode verificar que há um projeto de lei, de autoria do deputado Alexandre Padilha (PT), que desenha uma política de atenção integral às vítimas e familiares de vítimas da pandemia de covid-19, articulando toda a rede de proteção social (saúde, educação e assistência social). Mesmo aprovado pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados em junho de 2022, o projeto tramita lentamente: ainda precisa ser aprovado em mais duas comissões e só depois vai para o Senado. A pergunta indignada insiste: por que esse projeto de lei não está em ação, cuidando de crianças e adolescentes órfãos que o Brasil deveria ser capaz de proteger?

Talvez as razões sejam muito próximas dos motivos que levaram o atual governo a cortar 90% do orçamento da verba destinada ao combate à violência contra mulher, 80% do investimento destinado à construção de creches e pré-escolas (de 2018 até hoje) e 45% da verba destinada ao tratamento do câncer, a segunda doença que mais mata no país. Mata as crianças, mata suas mães, seus pais, suas pessoas de referência.

A criança é um medidor das políticas de cuidado do Estado para promover justiça social. Nesta operação, o Brasil no qual vivemos nos últimos anos está reprovado. Como pesquisadora no campo das infâncias, há quatro anos me apoio na luta de Bruna Silva para situar os efeitos da necropolítica, a política que escolhe as crianças dignas de proteção e as que serão deixadas para morrer. Bruna é a mãe de Marcos Vinícius, o menino que, em 2018, aos 14 anos, levou um tiro e morreu com a roupa da escola, numa operação policial na favela da Maré. A última fala do filho impede a mãe de dormir: “Mãe, eles não viram que eu estava com a roupa da escola?”. Nem as marcas mais óbvias e universais da infância, como o uniforme da escola, foi capaz de protegê-lo.

Segundo o instituto Fogo Cruzado, de 2016 a 2022, ações e operações policiais mataram 47 crianças na Grande Rio e outras 87 foram vitimadas pelas chamadas “balas perdidas”, que parecem sempre achar os mesmos corpos negros. Em 26 de setembro, há poucos dias do primeiro turno das eleições no Brasil, José Henrique da Silva, o Careca, foi uma das 7 pessoas mortas em outra operação policial realizada nas favelas da Maré. Careca, 53 anos, era testemunha da morte de Marcos Vinícius. Com seu assassinato, parte importante da história de Marcos Vinícius desapareceu. Esta morte interrompeu a vida de um brasileiro que deixou muita saudade e também revitimizou Marcos Vinícius e sua família, ao ferir seu direito à memória e à justiça. A articulação destas duas mortes vitimiza o Brasil, ao reproduzir injustiça para as crianças e para os adultos, fragilizando qualquer experiência de cidadania.

Quando recebi a notícia da morte de Careca, era noite de Rosh Hashaná, ano-novo judaico. Nessa oportunidade, nós, judeus, nos desejamos um ano bom e doce. Porém, para brasileiras e brasileiros que sonhamos e lutamos por justiça social, é impossível dormir sem fazer a pergunta: em quais famílias o ano começa bom e doce?

Marcos Vinícius, Careca e a fome que se tornou feminina expõem dimensões diversas do horror a que estamos todas e todos submetidos. Difícil mesmo, sob essa condição, é justificar o discurso que diz defender a família quando parte das crianças foram convertidas pelo atual governo em “matáveis”, desprotegendo assim todas as infâncias. Suas mães, já condenadas à tristeza e à injustiça, voltaram a sentir fome, muita fome.

O primeiro turno mostrou que 51 milhões de brasileiras e brasileiros, ao escolher Bolsonaro nas urnas, elegeram também, conscientes ou não, tudo isso que aqui está descrito. Outros 5,4 milhões, ao votar nulo ou branco, se omitiram diante da vida de crianças. O mesmo se poderia dizer das quase 33 milhões de pessoas que não compareceram às urnas. Neste caso, porém, precisamos lembrar de Ana Mirtes, que não pode votar porque precisou escolher entre pagar o ônibus que a levaria à sua zona eleitoral em São Paulo ou dar comida ao filho de 10 anos. Ana Mirtes escolheu a vida imediata do filho e, assim, teve roubado seu direito de escolher quem ela acredita que cuidará melhor das infâncias nos próximos anos. Ana Mirtes votaria em Lula, mas preferiu adiar a fome do filho para o dia seguinte, retrato eloquente do que aconteceu com a população dos considerados “matáveis” nos últimos anos. O resultado das urnas, em 30 de outubro, no segundo turno das eleições, definirá o destino das crianças brasileiras. Definirá também quem somos nós, os adultos que escolhemos que tipo de governo vai cuidar delas.

*Ilana Katz. Psicanalista, doutora em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, pós-doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da USP; assessora do projeto Primeira Infância na Maré: Acesso a Direitos e Práticas de Cuidado” (Redes da Maré), no Rio de Janeiro; conselheira do Projeto Aldeias, no Médio Xingu, na Amazônia brasileira; integrante do conselho consultivo do Instituto Cáue — Redes de Inclusão; supervisora do Núcleo de Estudos e Trabalhos Terapêuticos (NETT) e integrante da Rede de Pesquisa Saúde Mental Criança e Adolescente

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Entre 2019 e 2021, o país ultrapassou pela primeira vez a média mundial de pessoas sem condição de se alimentar

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O percentual de residências com crianças abaixo de 10 anos em insegurança alimentar grave foi de 9,4% (2020) para 18,1 % (2022)

25
Out22

Nossa única missão até domingo é lutar pelo voto dos indecisos

Talis Andrade

ELIANE BRUM: "APRENDI A ALEGRIA NA RESISTÊNCIA E NA VIDA EM COMUNIDADE" -  YouTube

 

 

Nesta carta, Eliane Brum, idealizadora e cofundadora de SUMAÚMA, mostra por que esta semana é a mais importante de nossas vidas

 

Querida Comunidade Sumaúma,

Esta é a semana mais importante de nossas vidas, como coletivo, como gente que se conjuga no plural. Para muitas e muitos, aqui na floresta, é bem mais do que isso: é a decisão sobre se têm chance de viver ou se as balas que, nestes últimos 4 anos procuraram a sua cabeça e a de seus filhos, os alcançarão a partir de 1 de novembro. É o que acontecerá se Jair Bolsonaro for reeleito. Isso não é exagero nem discurso de eleição. Só acha que é hipérbole quem não consegue enxergar além de seus privilégios. Essa é a realidade na floresta amazônica e também em outros enclaves da natureza, como o Cerrado e o Pantanal. Nós, de SUMAÚMA, afirmamos e comprovamos isso a cada reportagem.

Na semana que passou, houve dias em que eu, pessoalmente, senti um peso tão forte no peito ao ver o sol sanguíneo produzido pelos incêndios criminosos da base de Bolsonaro na Amazônia que achei difícil caminhar. Mas caminhei, caminhamos. Me sinto impotente por me descobrir incapaz de fazer as pessoas compreenderem que é a vida delas que está em risco de morte. Não apenas a vida dos defensores da floresta que estão na linha de frente dessa guerra movida contra a natureza, mas também a minha e a sua. Sem a Amazônia, não será possível viver com alguma qualidade neste planeta. É ela a grande reguladora do clima. A floresta é muito, mas muito mais do que isso, mas, ainda que for por egoísmo, lute por cada voto por Lula porque dele depende o futuro bem próximo da Amazônia e, portanto, a sua vida e a das crianças perto de você.

Nesta quarta newsletter, as jornalistas Carla Jimenez, Verónica Goyzueta e eu fizemos uma entrevista com Marina Silva, na visão de SUMAÚMA a política mais importante da frente ampla de apoio a Lula. Contamos ali por que entendemos que a deputada federal eleita ocupa um lugar muito singular e muito novo na história brasileira – e terá um papel fundamental no destino do Brasil dos próximos anos. Mas, principalmente, Marina nos conta por que perdemos o direito de ser estúpidos. Ela nos instiga a alargar a paisagem de nossa mente e lutar. Leia. E lute.

A jornalista Catarina Barbosa foi até o arquipélago do Marajó, onde está o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, para checar as denúncias que Damares Alves fez em 8 de outubro, em um culto eleitoreiro, sobre as crianças dos 17 municípios. Como é o hábito da ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos de Bolsonaro, Damares atira horrores ao vento, com o objetivo de reeleger seu chefe, sempre contando com a impunidade que o bolsonarismo ampliou no Brasil ao ocupar o poder. Diante disso, SUMAÚMA esteve no Marajó para fazer o que o bom jornalismo faz: buscar a verdade. E a verdade que encontramos é que a senadora eleita pelos Republicanos em 2 de outubro mente. E sua mentira oculta várias verdades sobre a desastrosa atuação do governo Bolsonaro nessa região amazônica.

Ilana Katz é uma das mais importantes pesquisadoras das infâncias, no campo da psicanálise, o que a faz atuar tanto com as crianças das Redes da Maré, no Rio de Janeiro, quanto com as crianças do bairro Santa Benedita, um dos mais pobres da periferia da cidade amazônica de Altamira, no Pará, como conselheira da organização Aldeias. Com essas credenciais de ponte entre mundos e entre infâncias, Ilana se debruçou sobre os fatos, os atos, as políticas e os vetos de Jair Bolsonaro nestes quase quatro anos de governo. Em artigo de opinião, ela nos mostra como Bolsonaro determinou quem são as meninas e os meninos matáveis do Brasil e como essa escolha afeta todas as crianças, inclusive as filhas e filhos da minoria privilegiada do país.

Carolina Santana, assessora jurídica do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), escreveu um texto doído sobre como a violação dos corpos dos indígenas continua a acontecer mesmo após a sua morte. Segundo informações obtidas por Carolina e organizações indígenas, o homem conhecido como “índio do buraco” foi reduzido a duas caixas de ossos e segue insepulto quase dois meses após sua morte. Depois de viver sozinho por 25 anos, porque seu povo inteiro foi exterminado por grileiros e madeireiros, ele se ornamentou para morrer. Sozinho. Mas sequer sua morte foi respeitada.

Não se esqueça de ver o que Guariba tem a nos dizer no traço de Pablito, nosso jornalista em quadrinhos. Guariba, que não pode votar, mas que será profundamente afetado pela eleição do próximo domingo. Possivelmente mais afetado do que nós.

Deveríamos estar debatendo uma democracia que vá além das pessoas humanas, que contemple os direitos da natureza, mas Bolsonaro, os 51 milhões que votaram nele e tudo o que ele representa, nos condenam a apenas lutar para que o Brasil continue sendo pelo menos uma democracia incompleta após 30 de outubro. Uma democracia em que a desvinculação da taxa real de inflação no reajuste do salário mínimo e dos benefícios da previdência não seja tramada a portas fechadas para depois das eleições; uma democracia em que o presidente não seja um extremista de direita que estimule o armamento da população, multiplicando o número de armas circulando no Brasil, com os resultados que acompanhamos dia após dia. Uma democracia incompleta é imensamente melhor do que uma ditadura. E eu falo não só do que estudei e me contaram, mas do que vivi na ditadura empresarial-militar que se estendeu por 21 anos no Brasil.

Todas, todes, todos temos uma única missão até o próximo domingo. Lutar pelo voto dos indecisos, dos que votaram em branco ou anularam o voto, dos que não compareceram às urnas. Não há espaço ético para ficar em cima do muro. Omissão é ação em momentos-limite como o que vivemos. Pegue o que você sabe fazer e se coloque a serviço da democracia. Não conseguiremos convencer um bolsonarista convicto, como nos ensina Elisa Estronioli, jornalista e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que deixou sua casa e sua família na periferia de Altamira e foi para Belém se somar à luta pelo voto dos indecisos. Mas conseguimos, com fatos, provas, argumentos legítimos, mostrar por que precisamos impedir a reeleição de Bolsonaro. É ela quem nos lembra da frase de Carlos Marighella, que enfrentou a ditadura e foi executado por seus agentes: “A única luta que se perde é aquela que se abandona”.

Eliane Brum

Idealizadora e diretora de redação de SUMAÚMA

25
Out22

Manifestantes se reúnem em Paris em defesa da democracia brasileira

Talis Andrade
Centenas de manifestantes se reuniram neste sábado (22) em Paris em defesa da democracia no Brasil.
Centenas de manifestantes se reuniram neste sábado (22) em Paris em defesa da democracia no Brasil. © RFI

 

Apreensivos com os resultados do primeiro turno das eleições no Brasil e de olho na votação do próximo dia 30, manifestantes se reuniram neste sábado (22) na Place de la Nation, a leste de Paris, em defesa da democracia.

 

Por Andréia Gomes Durão /RFI

Ídolo dentro e fora dos gramados, o eterno craque Raí subiu ao palanque compartilhando com o público seu entusiasmo pelo exercício cívico de ir às urnas no segundo turno, convidando os eleitores a votarem “contra as desigualdades sociais, à agressão ao meio ambiente, contra o desrespeito ao direito das minorias e contra o ódio, mas principalmente a votarem a favor do amor”.

Sob gritos de “Fora Neymar”, que declarou publicamente seu apoio a Jair Bolsonaro, Raí afirmou que “o Brasil se encontra em um momento terrível, depois de tudo que se passou nos ‘últimos quatro anos’”, se recusando a pronunciar o nome do atual presidente brasileiro.

 

O ex-jogador Raí convida os eleitores brasileiros a votarem contra o agravamento das injustiças sociais.
O ex-jogador Raí convida os eleitores brasileiros a votarem contra o agravamento das injustiças sociais. © RFI

 

Representantes e líderes de entidades francesas e brasileiras comprometidas com a defesa da democracia se revezavam no palco. A presidente do grupo Amitié France-Brésil no Senado, Laurence Cohen, destacou a importância de mostrar que, “na França, há uma solidariedade em relação ao Brasil, em relação à democracia”.

“Já dei meu apoio a Lula quando ele estava na prisão, assim como me solidarizei a Dilma Rousseff, quando ela foi ameaçada de impeachment e, infelizmente, conseguiram tirá-la do poder. [...] É preciso mostrar que os democratas franceses estão mobilizados pelo mundo inteiro, e não apenas pelo Brasil, onde a democracia está ameaçada por um governo que tem ódio da população negra e dos povos autóctones, que é contra o direito das mulheres”, enfatiza a senadora em declaração à RFI.

 

“Sociedade francesa atenta”

 

Glauber Sezerino, co-presidente da associação Autres Brésils, uma das entidades organizadoras da manifestação, faz coro ao discurso de Laurence Cohen, uma vez que o ato evidencia que “a sociedade francesa está atenta ao que está em jogo hoje no Brasil, que é a continuidade de um projeto mortífero”.

“Vimos um aumento considerável de assassinatos no Brasil, um aumento da pobreza, da fome. E nós conseguimos reunir uma série de organizações francesas, que desenvolvem trabalhos na França, mas com um olhar em relação ao Brasil, para mostrar que o Brasil não aguenta mais quatro anos de governo Bolsonaro. Estamos mostrando que vamos continuar mobilizados, solidários a todos os movimentos no Brasil”, sublinha Sezerino.

 

Glauber Sezerino, co-presidente da asssociação Autres Brésils, uma das entidades organizadoras da manifestação.
Glauber Sezerino, co-presidente da asssociação Autres Brésils, uma das entidades organizadoras da manifestação. © RFI
A antropóloga e ativista Kowawa Apurinã.
A antropóloga e ativista Kowawa Apurinã. © RFI

 

Em seu discurso, a ativista indígena e antropóloga Kowawa Apurinã falou da importância da luta de todos os povos “com esse sentimento de mudar o mundo”. “A democracia é uma utopia que nós estamos sempre correndo atrás dela, e no Brasil ela está se tornando algo quase inalcançável. A resistência se faz em ocupar todos os lugares de luta, não só pelo poder, mas uma luta de vida no Brasil. Nós estamos lidando com o mal, estamos lidando com coisas malignas. O Brasil está na escuridão. Nas eleições, esperamos que o fascismo seja finalmente derrotado. [...] Se Bolsonaro não cair, iremos fazer uma revolução.”

A condição dos povos originários também estava entre as principais motivações para a artista plástica Cláudia Camposs participar da manifestação, uma vez que as populações indígenas tangenciam de diversas formas seu trabalho. “Estou muito emocionada com esse movimento todo a favor da democracia aqui em Paris. E eu sempre fui muito motivada às alianças com os representantes indígenas dentro da minha arte. É inadmissível manter Bolsonaro no poder, porque os direitos [desses povos] não estão sendo respeitados. Ele é um genocida e não dá a essas pessoas o direito de viver em seus territórios ancestrais. Isso já acontecia, é histórico, mas piorou muito. A democracia tem que ser defendida, [...] não podemos privilegiar apenas os interesses do homem branco”.

 

A artista plástica Claudia Camposs vê na ameaça à democracia uma ameaça também aos povos originários.
A artista plástica Claudia Camposs vê na ameaça à democracia uma ameaça também aos povos originários. © RFI

 

Meio ambiente

 

Não somente os povos originários, mas uma pauta tão inerente quanto, o meio ambiente, é o que leva o animador gráfico Meton Joffily a participar desta manifestação com uma obra em punho: uma releitura do mapa do Brasil. “Não é só o Brasil que está em jogo. Meu cartaz vem aqui manifestar esta preocupação com a Amazônia, com o tip point, o ponto de não retorno, que está muito próximo. E ainda há brasileiros achando que Bolsonaro é aceitável, depois de quatro anos as pessoas ainda votam nele. Ou elas são inocentes e estão sendo manipuladas pelas mentiras e fake news ou são meio mal caráter e concordam com essa agenda que é realmente autoritária. Todo mundo sabe que um segundo mandato vai fechar o caixão do Brasil.”

 

O animador gráfico Meton Joffily e seu alerta sobre o desmatamento da Amazônia.
O animador gráfico Meton Joffily e seu alerta sobre o desmatamento da Amazônia. © RFI

 

O também artista plástico Julio Villani expressou sua preocupação em “recuperar tudo que o Brasil perdeu”. “Sobretudo essa destruição da palavra que a extrema direita tem feito no mundo e especialmente no Brasil é a coisa que mais me tira o sono. Porque quando a palavra perde o sentido, a educação perde o sentido, a cultura, tudo é destruído. E é o retrato do Brasil atual. Eu tento ao máximo ser otimista. Eu tento me agarrar a esse otimismo, porque a gente ainda vai ter que lutar muito.”

Para o performer, coreógrafo e escritor Wagner Schwartz, esse encontro de pessoas e ideias representa um exercício democrático. “O mais importante de estar aqui é de encontrar as pessoas que são constituintes, que compõem esse grupo que forma a democracia no Brasil. É importante que a gente se encontre nesse momento porque a democracia realmente está em crise. E quando a gente se vê, a gente se sente menos desamparado”, acredita.

 

Wagner Schwartz e Julio Villani.
Wagner Schwartz e Julio Villani. © RFI
O escritor Julian Boal.
O escritor Julian Boal. © RFI

 

Já o escritor e crítico de teatro Julian Boal destaca que este “é um momento muito complicado, em que está havendo muitas mobilizações”. “A questão é saber como fazer para que essas mobilizações permaneçam depois das eleições. Porque o bolsonarismo não é só um fenômeno eleitoral. É também a presença nos palácios dos governadores, nas câmaras, nas assembleias legislativas. E a gente vê também a presença de Bolsonaro nas igrejas evangélicas, nas milícias, e nos corações e mentes de milhões de brasileiros. Então a questão é como a gente continua se mobilizando depois das eleições para tentar lutar contra isso. Porque o fascismo não é um fenômeno que começa e acaba nas urnas. Infelizmente”, diz Boal à RFI.

 

Democracia e autocrítica

 

Para o artista plástico Ivar Rocha, encontros como esse, em defesa da democracia, são também uma oportunidade de autocrítica. “É importante olhar para este momento como uma crítica para a esquerda, para nós todos, para entender a fragilidade do momento e entender que todos nós temos que dar um passo à frente. Porque meu medo, além do Bolsonaro, é constatar que a nossa geração talvez esteja longe de fato querer lutar pela emancipação do homem, e sim querer humanizar um capital, e isso seria uma tragédia muito maior do que qualquer Bolsonaro. Um momento como esse serve para a gente refletir e entender qual é nosso limite, quais são as nossas fronteiras na luta, na entrega, na organização.”

 

Para o artista plástico Ivar Rocha, o momento político no Brasil exige reflexão e autocrítica.
Para o artista plástico Ivar Rocha, o momento político no Brasil exige reflexão e autocrítica. © RFI
O psicólogo Jean-Pierre Guis.
O psicólogo Jean-Pierre Guis. © RFI

 

O psicólogo e fotógrafo Jean-Pierre Guis destaca que, independentemente no resultado nas urnas no próximo domingo, o Brasil seguirá fortemente dividido, o que torna a defesa da democracia ainda mais relevante para assegurar o diálogo e o equilíbrio entre lados tão opostos, que ele traduz como o contraste entre o paraíso – os avanços durante o governo Lula, a cultura brasileira, o calor humano de seu povo – e o inferno, representado pela gestão de Bolsonaro, pela manipulação dos evangélicos e pela agravamento das desigualdades sociais. “Sem um Brasil democrático, o planeta Terra terá se tornado um erro”, ele sintetiza.

 

20
Out22

Eleições 2022: pastores fazem pressão por voto e ameaçam fiéis com punição divina e medidas disciplinares

Talis Andrade

Preso pela PF, Pastor Everaldo batizou Bolsonaro no Rio Jordão

Pastor Everaldo Pereira batizou Jair Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, em Israel, em uma viagem turística e de gastos inexplicáveis. Everaldo está preso por corrupção (T.A.)

 

O VOTO ENTRE OS EVANGÉLICOS TEM COR

 

por Julia Braun /BBC New

- - -

Em um vídeo com mais de 300 mil visualizações no Instagram, a ministra evangélica Valnice Milhomens instiga os fiéis a não votarem em candidatos à Presidência que apresentam "um programa contrário ao reino de Deus".

Toda vestida de verde, amarelo e azul, ela afirma que cada fiel "vai responder diante de Deus pelo seu voto".

Milhomens tem 320 mil seguidores no Instagram e 137 mil inscritos em seu canal no YouTube. Ela é uma das muitas líderes religiosas evangélicas que têm feito campanha pelo presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL).

A ministra e presidente da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo não menciona Bolsonaro nominalmente em suas postagens e discursos, mas as cores escolhidas para os vídeos e o discurso são os da campanha do atual mandatário. Ela também já participou de celebrações religiosas ao lado do presidente e sua família.

Milhomens ainda tem promovido um movimento de oração e jejum nos dias que antecedem o segundo turno das eleições presidenciais. Em um guia divulgado no site do Conselho Apostólico Brasileira (CAB), os fiéis podem seguir um roteiro de orações, entre as quais há uma com o nome de Jair Bolsonaro.

O programa de 21 dias vai até 29 de outubro e tem sido divulgado nas redes sociais por diversos pastores de diferentes denominações.

 

Valnice Milhomens | Podcast on Spotify 

Valnice Milhomens com a camiseta bolsonarista pronta para apoiar o golpe militar de Bolsonaro se ele perder nas eleições democráticas e livres. (T.A.)

 

Já o pastor André Valadão é muito mais direto em seus pronunciamentos. "Vamos para cima! A vitória do Bolsonaro nesse segundo turno tem que ser grande!", diz em um dos vídeos postados em seu Instagram, onde acumula 5,3 milhões de seguidores.

"Tem que votar certo, se não você não é crente não", afirmou também em um vídeo gravado ao lado do atual presidente, usando o bordão que se popularizou em suas redes sociais.

Valadão é fundador da Lagoinha Orlando Church, na Flórida, nos Estados Unidos, e cantor gospel. Em suas redes, responde com frequência perguntas de fiéis e seguidores sobre religião e política.

 

André Valadão apresenta projeto de construção de mega Igreja da Lagoinha em  Orlando

André Valadão nem reside mais no Brasil. Passa mais tempo nos Estados Unidos numa vida de luxo e grandezas materiais (T.A.)

 

 

E tão comum quanto as postagens que exaltam Bolsonaro, são as que criticam a esquerda e, em especial, o ex-presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em uma postagem do dia 4 de outubro, pouco após o primeiro turno das eleições, uma usuária mandou o seguinte comentário para o perfil do pastor: "Sou cristã e não votei no Bolsonaro #forabolsonaro".

Valadão respondeu: "Você pode até ser cristã, mas é desinformada. Ou talvez escolhe caminhar na ignorância, sem entender que tudo o que a esquerda oferece é tudo que é fora dos valores cristãos".

Em reação a outra pergunta, o religioso escreveu que crente que vota em Lula é "um absurdo".

 

Punição a membros de esquerda

 

O discurso político combativo se repete entre outros pastores que possuem uma ampla gama de seguidores, algumas vezes até com ameaças contra os fiéis que se recusam a seguir a orientação de voto.

Um vídeo em que um pastor da Assembleia de Deus afirma que os evangélicos que declararem voto em Lula serão proibidos de tomar a Santa Ceia circulou nas redes sociais em agosto.

"Eu ouço crentes dizendo: vou votar no Lula. Você não merece tomar a ceia do Senhor se você continuar com esse sistema", diz o pastor Rúben Oliveira Lima, da Assembleia de Deus em Botucatu, interior de São Paulo.

Pastor Rúben Oliveira Lima recebe Cidadania Ituana

 Empresário Rubén Oliveira Lima da supremacia branca vota em Lula. Os pastores negros e mulatos estão com lula. O voto entre os evangélicos tem cor. 

 

Em outro momento do vídeo, ele afirma, se referindo ao ex-presidente Lula: "Se eu souber de um crente membro dessa igreja que votou nesse infeliz, eu vou disciplinar ". Ele não deixa claro o que quer dizer com disciplinar.

Um documento discutido em plenário durante uma assembleia em 4 de outubro da Convenção Fraternal das Assembleias de Deus do Estado de São Paulo (Confradesp), um dos braços mais fortes da Assembleia de Deus, fala de "aplicação de medidas disciplinares" contra membros que adotem filosofias que, segundo eles, entram em choque com os princípios cristãos.

O texto a que a BBC News Brasil teve acesso afirma que a Convenção não aceitará em seus quadros ministros que defendam, pratiquem ou apoiem, por quaisquer meios, ideologias contrárias aos princípios morais e éticos defendidos por ela. O documento cita um posicionamento contrário à "Desconstrução da Família Tradicional, Erotização das Crianças, Ampla Liberação do Aborto" e outros. Vide carta de Lula

 

(Jesus jamais diria do próximo: infeliz, 

Jornalistas fazem ato em defesa da democracia e debate sobre voto evangélico  - CUT - Central Única dos Trabalhadores

“A população evangélica foi decisiva em 2018, na eleição que alçou o fascista Jair Bolsonaro ao poder impulsionada por uma impiedosa máquina de mentiras e desinformação fortemente calcada em temas como costumes e religião, a escolha eleitoral de milhões de brasileiros pode não estar selada como antes”, afirma o Barão de Itararé, em nota (T.A.)

 

"Os Ministros que comprovadamente defenderem pautas de esquerda, dentro da cosmovisão marxista, serão passíveis de representação perante o Conselho de Ética e Disciplina, assegurado o contraditório e a ampla defesa", diz a carta da (ditadorial Confradesp). 

A resolução foi aprovada pouco depois de o presidente Jair Bolsonaro participar de um culto para os fiéis presentes à assembleia, na Assembleia de Deus Ministério do Belém, na zona leste de São Paulo.

Durante esse mesmo culto, diversos líderes religiosos falaram a favor do presidente e a primeira-dama Michelle Bolsonaro cobrou das igrejas evangélicas um posicionamento no segundo turno das eleições de 2022.

"A gente queria vitória, sim, no primeiro turno. Mas a gente entendeu, irmãos, que se a gente tivesse recebido a vitória no primeiro turno, talvez a igreja não estivesse preparada para isso. A gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender", disse ela.

A Confradesp é liderada por José Wellington Bezerra da Costa, um dos pastores mais influentes do Brasil. Seu filho, o também pastor e líder da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) José Wellington Costa Junior, disse em um culto no início de maio que o ex-presidente Lula não deve ser recebido nas igrejas que ele comanda (Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças (…) E amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. Marcos 12:30-31. Não entendo a proibição: "Lula não deve ser recebido". Lula escreveu uma carta aos evangélicos. Lula não faz política em nenhuma igreja. Essa proibição é descabida para ele que é cristão: Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Mateus 22:21-22

"O inferno não tem como entrar em lugar santo. Aqui é lugar santo", disse, em referência ao PT e a Lula. "É bom que nos conscientizemos disso. Você, pastor, vai ser procurado sorrateiramente [por petistas], dizendo que é só uma visita. É um laço do Diabo!".

Henrique VIII com fogueiras à Santa Inquisição criou o anglicanismo na Inglaterra, sendo o monarca britânico o Governador Supremo da Igreja. Sua filha, Maria I, por sua vez reacendeu as fogueiras do catolicismo. O filho de Maria fundou as igrejas prebiterianas. Religião é uma imposição política. Cada vez mais Bolsonaro manda nas igrejas evangélicas. Veja os perigos do mundo hoje. Comenta John L. Allen Jr: As guerras sempre têm consequências imprevisíveis, eviscerando o status quo e moldando violentamente novas realidades. Enquanto a maioria dos especialistas está ponderando as consequências geopolíticas, diplomáticas e militares da invasão da Ucrânia pela Rússia, a guerra de Putin também parece destinada a ter consequências importantes no cenário religioso (T.A.)

 

 

'Não vamos impor nossa vontade a ninguém'

 

Outro líder religioso que declarou seu apoio à candidatura de Bolsonaro foi o apóstolo Estevam Hernandes, pastor da Renascer em Cristo e idealizador da Marcha para Jesus. Ele é hoje um dos principais cabos eleitorais do atual presidente (Bolsonaro. A Marcha para Jesus foi criada por Lula quando presidente. E mais: Lula criou o Dia Nacional do Evangélico. E a Lei de Liberdade Religiosa. Vide tags)

O apóstolo, que é dono do canal de televisão Rede Gospel e apresenta um programa de rádio e televisão na emissora, utiliza frequentemente as cores verde e amarelo durante cultos e nas fotos e vídeos que posta nas redes sociais.

Em sua página no Instagram, que tem 1 milhão de seguidores, o líder religioso utiliza uma foto de perfil em que aparece ao lado de Bolsonaro. Ele também compartilha com frequência cliques ao lado de outros candidatos, entre eles o aspirante a governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Em suas participações na televisão, o apóstolo não cita nominalmente nenhum candidato, mas fala de temas como a "destruição da família" e o "apoia ao aborto". Ele também costuma divulgar eventos com a participação de outras lideranças religiosas em que se discute política e o apoio a Bolsonaro.

À BBC News Brasil, Hernandes afirmou que ele e sua igreja defendem "os valores cristãos, mas não vamos impor nossa vontade a ninguém". "Acredito que ele defende os mesmos valores que nós cristãos, da importância da família, e contra o aborto, por exemplo", disse sobre o atual presidente (que tem filhos de três mulheres e defendeu o aborto para o filho que numera como 04)

 

bozo e filhos.jpg

"Eu acredito que temos o direito de defender os candidatos que representam os valores e demandas da igreja, mas de maneira nenhuma fazemos disso uma imposição. Da mesma forma, tenho o direito de me posicionar em minhas redes sociais sobre o que acredito. Mas não estamos impondo nada a ninguém e nem usando o púlpito para isso", afirmou o fundador e líder da Igreja Renascer em Cristo em respostas enviadas por escrito à reportagem.

Assim como a ministra Valnice Milhomens, o apóstolo tem divulgado o programa de jejum e oração para o período que antecede o segundo turno das eleições. O líder religioso afirma que sua igreja realiza jejuns com frequência desde a sua fundação.

"O objetivo do jejum é ter um período especial de consagração em que buscamos orar e estar ainda mais próximos de Deus. Neste jejum, em especial, estaremos orando também pelo país e pelas próximas eleições, mas, como falei, jejuamos sempre." (Deltan Dallagnol, outro evangélico eleito deputado, fez jejum pela prisão de Lula, para Bolsonaro concorrer as eleições de 2018. A idéia de que o jejum compra Deus, inclusive para fazer coisas do malígno como prender adversários, matar inimigos)

 

'Falso cristão'

 

Bolsonaro não é o único que recebeu apoio de lideranças religiosas. O ex-presidente Lula também tenta reunir votos do eleitorado cristão por meio de pastores e padres. O petista também vem tentando reforçar sua imagem como cristão em suas campanhas e redes sociais, rebatendo algumas das críticas e acusações feitas contra ele.

Mas enquanto o atual presidente recebeu apoio de grandes igrejas e denominações e de pastores midiáticos com uma ampla rede de seguidores, Lula é apoiado principalmente por quadros dissidentes e igrejas menores.

O petista tem ao seu lado, por exemplo, Paulo Marcelo Schallenberger, que se identifica em suas mídias como "o pastor solitário de Lula".

O religioso faz parte da Assembleia de Deus, mas afirma ter sido afastado dos cultos formais na igreja por conta de seus posicionamentos. Hoje se dedica principalmente a palestras em outras igrejas. "Passei a me posicionar primeiro contra o governo Bolsonaro, só depois me aliei publicamente ao Lula. Mas sempre votei nele e na ex-presidente Dilma [Rousseff]", disse à BBC Brasil.

Além de pastor, Schallenberger concorreu a deputado federal neste ano pelo Solidariedade, mas não foi eleito.

Ele afirma guardar as discussões de políticas e suas opiniões pessoais para discussões após o culto ou fora da igreja. "Há um exagero na discussão de política dentro das igrejas, especialmente entre aqueles que cultivam uma certa idolatria em relação ao Bolsonaro."

O pastor também usa as redes sociais com frequência para falar da corrida eleitoral. Em uma postagem compartilhada no Instagram após o primeiro turno das eleições, Bolsonaro é classificado como "falso cristão". O post cita a relação do atual presidente com a Arábia Saudita e o príncipe Mohammad bin Salman.

 

Bolsonaro diz que tem 'certa afinidade' com príncipe da Arábia Saudita |  VEJA

 

Príncipe da Arábia Saudita pede imunidade ao Brasil - 14/07/2022 - Mundo -  Folha

 

"Um cristão não pode se comportar da forma que ele se comporta, seja na forma de falar ou na vida", diz. "Não tem como se dizer cristão e não sentir empatia, se solidarizar ou derramar uma lágrima sequer por quem morreu na pandemia."

 

bozo 80 tiros.jpg

Há cerca de duas semanas, o pastor também publicou em suas redes sociais um vídeo adulterado em que o atual presidente afirma que a primeira-dama cumpriu três anos de prisão por tráfico de drogas. Trata-se de um áudio falso, manipulado a partir de uma declaração dada em 2019. Na realidade, Bolsonaro comentava sobre a avó de sua esposa.

Questionado pela reportagem sobre o post, o líder religioso afirmou que não sabia que se tratava de uma fake news quando postou, mas que foi avisado posteriormente. "Já apaguei do meu Twitter, mas alguém da minha equipe deve ter esquecido de deletar do Instagram. Vou verificar", disse. O vídeo foi apagado posteriormente.

Outra liderança religiosa que declarou seu voto em Lula foi o bispo Romualdo Panceiro, ex-número 2 da Universal e atual líder da Igreja das Nações do Reino de Deus.

A Aliança de Batistas do Brasil, uma organização que prega a "livre interpretação da Bíblia", a "liberdade congregacional" e a "liberdade religiosa" para todas as pessoas, também se posicionou a favor do petista, afirmando ser contra o "governo perverso e mau que está no poder".

  

Lei proíbe propaganda eleitoral em igrejas

 

Segundo a lei eleitoral, é proibido veicular propaganda eleitoral de qualquer natureza em templos religiosos. Esses espaços são definidos como "bens de uso comum", assim como clubes, lojas, ginásios e estádios.

"Falar bem de um determinado candidato não é propaganda eleitoral, mas comparar dois nomes e dizer, por exemplo, que um representa o bem e o outro o mal, pode ser considerado propaganda", explica o advogado eleitoral Alberto Rollo.

A Lei das Eleições, de 1997, estabelece como propaganda eleitoral não apenas declarações, mas também exposição de placas, faixas, cavaletes, pinturas ou pichações. O mesmo vale para ataques a outros candidatos - a chamada campanha negativa.

O descumprimento da lei pode gerar multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil. "A multa é aplicada para quem fez a propaganda ou para o candidato beneficiado", diz Rollo.

O especialista explica ainda que igrejas são consideradas pessoas jurídicas e, pela lei, nenhum candidato pode ser financiado por empresas. Transgressões são consideradas abuso de poder econômico e podem levar ao cancelamento do registro da candidatura ou à perda do cargo.

Veículos ou meios de comunicação social, incluindo os religiosos, também não podem atuar em benefício de candidato ou de partido político.

Segundo Rollo, porém, declarações feitas nas redes sociais pessoais de líderes religiosos não se enquadram na regra. "Os pastores são cidadãos e pessoas físicas, não jurídicas, portanto aquilo que dizem em suas redes sociais pessoais não está sujeito a essa lei. Mas essas declarações não podem acontecer nas redes sociais da própria igreja, por exemplo."

Há também, no Código Eleitoral, um artigo que proíbe o uso de ameaças para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido, sob pena de reclusão de até quatro anos e pagamento de multa.

 

'Não vamos votar no novo papa'

 

Pastores moderados e lideranças religiosas criticam o uso da religião e do palanque de igrejas para fazer campanha e coagir fiéis a darem seus votos para determinados candidatos.

A pastora Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), ressalta que para além de qualquer proibição da lei eleitoral brasileira, fazer uso da posição de autoridade, de celebrações ou de canais de televisão religiosos para esse fim não é ético.

"Não creio que seja correto que lideranças religiosas se utilizem de sua autoridade perante os fiéis para estimular votos em candidatos específicos", diz. "As lideranças religiosas são respeitadas, escutadas e têm uma legitimidade em suas comunidades."

Para Valdinei Ferreira, professor de teologia e pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, há uma linha muito tênue que separa as convicções pessoais de pastores e outros religiosos de seu papel público. "Mas devemos evitar cruzar essa linha e usar a autoridade religiosa para respaldar ou legitimar nossa opção político partidária", afirma.

"Eu me sinto tentado a me pronunciar em alguns momentos, mas resisto a fazer isso na condição de pastor e mais ainda usando o púlpito e o culto."

Ferreira critica ainda o uso de discursos camuflados para apoiar determinadas ideologias políticas a partir de preceitos religiosos. "Há valores tanto da direita quanto da esquerda que são compatíveis com o evangelho. Dizer que cristão não vota em candidatos de uma determinada ideologia é manipulação", afirma.

"No dia 30 de outubro [dia do segundo turno], não vamos votar no presidente de uma igreja ou no novo papa, mas no presidente do Brasil. As mobilizações precisam ser laicas, até porque a pessoa eleita vai governar ao longo de quatro anos um Brasil que é plural em termos de religião", completa Romi Bencke.

Tweet de Bolsonaro com ‘golden shower’ em carnaval repercute no mundo

 

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