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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Jul21

Desmonte descarado da educação pública e da ciência

Talis Andrade

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Ana Júlia no TwitterImage

Primeiro a Biblioteca Nacional foi destruída. Depois, Pantanal e a Amazônia em chamas. Há alguns dias, arquivos do CNPq destruídos, prejudicando a Ciência brasileira. Ontem, perdemos parte da nossa história com o incêndio da Cinemateca. Tudo isso devido ao descaso do governo!
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Desde segunda, 26, o sistema Lattes, que armazena informações de pesquisadores e trabalhos desenvolvidos, está fora do ar. Sim, o servidor do CNPq queimou! De acordo com o Conselho, não havia backup da plataforma lattes. Um absurdo!
Ou seja, milhares de pesquisas e trabalhos científicos podem ter sido perdidos para sempre porque o governo Bolsonaro, sempre tirando verba da educação e da Ciência, não investiu num backup.
Sem falarmos que o orçamento deste ano do órgão é o menor dos últimos 20 anos! Isso tudo é consequência da política de negação do governo Bolsonaro, é o desmonte descarado da educação pública e da Ciência.
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INACREDITÁVEL! O fragmento de arroz, usado na alimentação de animais, está sendo vendido no supermercado para o trabalhador! Mas, a mídia, ao invés de criticar os verdadeiros culpados por isso - o governo Bolsonaro - aplaude a miséria do povo e fingem que isso SEMPRE aconteceu.Image
Momento em que o foi detido covardemente. POLÍCIA RACISTA!!!

@Renatoafjr eleito democraticamente detido de forma truculenta e absurda. É inaceitável que qualquer cidadão passe por esse tipo de tratamento.

@Renatoafjr estava apenas protestando contra o Bolsonaro, contra esse governo genocida! Ainda vivemos em uma democracia e não vamos parar hoje, nem nunca a nossa busca por um país sem desigualdades e sem preconceito.Image

 

16
Fev20

Tem uma biblioteca lá no Palácio do Planalto

Talis Andrade

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Por José Roberto Torero

Diário, tem uma biblioteca lá no Palácio do Planalto que guarda um monte de livros e coisas dos presidentes do Brasil. Aí os CDFs vão lá e ficam estudando. Parece que tem mais de 30 mil livros.

Mas para quê eu vou querer uma biblioteca daquele tamanho? Eu não leio e meus discursos são curtinhos.

Então eu peguei metade da biblioteca e transformei num escritório para a Michelle e os assistentes dela. Vai ter até banheiro privativo.

Eu já tinha gasto mais de 320 mil reais reformando um outro lugar, mas é melhor ela ficar perto de mim, que eu não quero usar chapéu de boi.

Tem gente reclamando, porque a biblioteca não vai mais ficar à disposição das pessoas. Mas, pô, o meu governo é a favor da privatização.

Então não tem nada mais certo que transformar a biblioteca pública em privada, kkk!

 

15
Fev20

"É absurdo seguido de absurdo", diz Elika Takimoto sobre desmonte da bibliotec

Talis Andrade

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247 - A determinação de Jair Bolsonaro de desmontar a tradicional biblioteca da Presidência da República, que abriga um acervo de 42 mil itens e 3 mil discursos de presidentes, está provocando reação de diversos setores.

A professora e escritora Elika Takimoto criticou a medida de Bolsonaro para abrigar a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e a equipe do programa Pátria Voluntária.

"A biblioteca do Palácio do Planalto foi DESMONTADA para abrigar Michelle Bolsonaro. Para onde vão os 42 mil itens e 3 mil discursos de presidentes que ali estavam? O local tinha a função de preservar a memória dos presidentes do Brasil. É absurdo seguido de absurdo nessa bagaça", escreveu a professora.

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15
Fev20

Bolsonaro inimigo dos professores, dos jornalistas e dos livros

Talis Andrade

Bolsonaro ataca jornalistas.

Jair Bolsonaro voltou a atacar os jornalistas que fazem plantão na saída do Palácio da Alvorada. O ataque deste sábado veio na esteira da revelação do desmonte de metade da biblioteca presidencial para que seja instalado um gabinete com banheiro privativo para que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e a equipe do programa  Pátria Voluntária possam despachar em uma sala sob a vigilância dele.

“Minha esposa faz um trabalho para pessoas deficientes de graça. Arranjei um lugar pra ela trabalhar lá na Presidência, porque é melhor, fica mais perto dos ministros pra despachar. E a verdade é que (inaudível). Estão descendo a lenha que a biblioteca vai diminuir em vez de elogiar a primeira-dama. Quem age dessa maneira merece outra banana”, disse Bolsonaro ao mesmo tempo em que fazia gestos obscenos à imprensa. No último dia 8, Bolsonaro já hava dado uma "banana" para os jornalistas.

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A biblioteca da Presidência da República abriga um acervo de 42 mil itens e 3 mil discursos de presidentes. O custo com a “reforma” não foi divulgado e os espaços de estudo, convivência e leitura do local serão praticamente extintos. Há sete meses, os cofres públicos foram abertos para a realização de obras no valor de R$ 330 mil no Ministério da Cidadania com o objetivo de adaptar várias salas para receber Michele e sua equipe. Bolsonaro presenteou a esposa com o Petit Trianon, imitando Temer que gastou milhões com a reforma do Palácio da Alvorada, que viveu austeros tempos quando o franciscano Marco Maciel era vice-presidente. 

Segundo reportagem do blog da jornalista Bela Megale, Michele pouco aparecia para trabalhar.  No final de 2019, o programa Pátria Voluntária foi incorporado pela Casa Civil, que funciona nas dependências do Palácio do Planalto.

Quem nomeia Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub para comandar o Ministério da Educação odeia professores e estudantes.

O piso salarial dos profissionais da rede pública da educação básica em início de carreira foi reajustado em 12,84% para 2020, passando de R$ 2.557,74 para R$ 2.886,24. 

O reajuste foi anunciado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, em transmissão ao vivo pela internet. Que miséria de ordenado. É o salário do medo e da fome.

O governador do Maranhão Flávio Dino, do PCdoB, anunciou neste começo de fevereiro, que o novo piso salarial para professores que trabalham 40 horas semanais nas escolas do Estado é de R$ 6.358,96. 

Segunda banana

Primeira banana

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22
Ago19

Lei do abuso: Moro indica livro que não leu. E quer chumbar a lei!

Talis Andrade

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por Lenio Luiz Streck

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Leio bela matéria de Gabriela Coelho na ConJur: “Ministério da Justiça emite parecer contrário ao projeto de Lei de Abuso”.

Sobre o PL, falei na semana passada. Sobre a justificativa do ministro da Justiça para os vetos, não preciso falar de todos. Basta um deles em especial. Simboliza a “sofisticação” destes tempos difíceis. Falo dos motivos que justifica(ria)m o veto ao artigo 9º da Lei.

Antes do pedido de veto, vejamos o que diz o próprio artigo. Trata-se do dispositivo que prevê a vedação à decretação de “medida de privação da liberdade em manifesta desconformidade com as hipóteses legais”. Simples assim: diz que é proibido descumprir a lei sobre decretação de prisão. E veja-se: Manifesta desconformidade! Manifesta des-com-for-mi-da-de! Não tem nada de crime de interpretação ou “crime de hermenêutica”. Isso sem considerar que quem denuncia uma violação desse artigo é o Ministério Público. E quem julgará será o Poder Judiciário. Repito o que  falei sobre isso. Élio Gaspari e eu.

Bom, antes mesmo do motivo, já salta aos olhos a estranheza de alguém pedir que se faça veto a um artigo de lei que, em uma democracia séria, seria (na melhor das hipóteses) desnecessário. Porque é tautológico. É um dispositivo legal que repete o que há de mais elementar no princípio constitucional da legalidade. Basicamente, está dizendo que não se pode prender ninguém ilegalmente. Não simples ilegalidade. Manifesta ilegalidade. E mesmo assim, Moro quer vetar.

E o pedido de veto parte de um ministro que, enquanto juiz, seria o primeiro a desrespeitar a lei que sugere vetar. 

Se já não fosse assustador por si só, vejamos a justificativa de que falei ao início desta coluna. Fosse uma prova de teoria do direito, Moro chumbaria. Vejamos:

O ministro quer o veto, porque o dispositivo (art. 9º.) eliminaria "a discricionariedade do magistrado na exegese normativa", ou seja, “a margem de decisão do juiz na interpretação da norma".

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O parecer segue dizendo que “a evolução do direito, dos costumes e, portanto, a mudança do chamado standard jurídico cria, ainda, uma zona cinzenta pela qual o magistrado deve caminhar para viabilizar a compatibilidade entre a norma e a sociedade. Em última instância, o dispositivo depõe contra a própria dinâmica e evolução do direito pela via jurisprudencial".

Isso dá tese doutoral, com o título “Algaravias teóricas sobre interpretação da lei”. Sub- temas: Pam-discricionariedade do magistrado. Margem na interpretação da norma. Zona cinzenta pela qual caminha o magistrado. Compatibilidade entre a norma e a sociedade. Evolução do direito pela via jurisprudencial. O texto do ministério é bem curtinho. Mas o suficiente para aquilatarmos a “sofisticação” da fundamentação. Seria por isso que o Presidente da República deveria vetar a lei? Com esses argumentos? Mas, se a lei veio exatamente para proibir esse tipo de coisa, por qual razão os motivos da proibição poderiam servir para chumbar a própria lei?

Se o artigo 9º. é uma tautologia, uma obviedade – e já falei e repeti que estamos em tempos de reafirmação de obviedades –, a sugestão de veto do Ministro da Justiça é uma ode ao que há de pior e de mais filosoficamente ultrapassado nas mais ingênuas vertentes de positivismo jurídico. Na verdade, da vulgata do conceito de positivismo.

Que não se perca de vista o que diz o artigo de lei. Trocando em miúdos, diz que não se pode prender ninguém ilegalmente. Repito: para infringir a lei, o juiz deve decretar a prisão sob manifesta ilegalidade. Ora, uma prisão ilegal já é um problema. O que dizer se a prisão é MANIFESTAMENTE ILEGAL, isto é PRISÃO DECRETADA EM MANIFESTA DESCONFORMIDADE com a lei? É isso que o ministro pede que Bolsonaro vete? (“A pergunta é retórica”, diz a plaquinha levantada pelo estagiário.)

Mais do que isso, o veto é solicitado com tudo que há de mais antidemocrático – anti-hermenêutico – no Direito. Uma concepção baseada em um modelo de regras, em um sistema hermético, formalista, que exige a discricionariedade do intérprete quando for incompleto.

Se isso por si só já não fosse problemático, é ainda pior: na medida em que o artigo questionado diz tão somente que não se pode prender sem que configurada hipótese legal para tal (lembremos: manifesta ilegalidade), sequer haveria que se falar em discricionariedade. Ou seja, nem para o positivismo mais radical seria um caso de poder discricionário: Moro quer trazer a discricionariedade positivista para um easy case, um caso em que a hipótese legal é clara e evidente. Pobre conceito de discricionariedade; pobre conceito de easy case.

Para além disso tudo, já é de há muito que se sabe – desde Dworkin, lá na década de 1960 – que, em uma democracia, o Direito tem princípios de moralidade política institucionalizada que conduzem o raciocínio judicial. Norma e sociedade já estão “compatibilizadas” por aquilo que é ajustado institucionalmente pelo Direito. É o fit de que fala Dworkin.

A “evolução do direito via jurisprudencial” (sic), em uma democracia, é a interpretação autêntica do Direito à luz da própria tradição, em respeito ao elevado grau de autonomia que o fenômeno exige. Moralizá-lo e corrigi-lo em nome de supostas maiorias eventuais é ser contrário ao próprio Direito. Mas, pior: no caso, aqui, foram as maiorias que falaram...e aprovaram a lei.

Respeitar a sociedade é respeitar o Direito, não dizer ouvir uma suposta voz das ruas que não se sabe bem o que é. Em uma democracia, não há espaço para “margem cinzenta” (sic) sobre a qual se movimenta o magistrado para escolher uma resposta possível. Prisão preventiva não depende de escolhas, Ministro. Prisão depende de previsão legal e de prova. Decidir não é escolher na “zona cinzenta”.

Bastava Moro ter lido Dworkin. Tudo isso está n’O Império do Direito. Um livro considerado fundamental por... Sérgio Moro. Está aqui.

Pois é. Moro contra Moro. Tivesse o Ministro Moro lido o livro recomendado pelo Professor Moro, não defenderia esse tipo de tese (discricionariedade, zona cinzenta, evolução, etc). Pior, não defenderia uma discricionariedade ainda mais discricionária. Tivesse lido Law's Empire que recomendou, não cometeria esse erro. Tivesse o Ministro Moro seguido o conselho do Professor Moro.

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Basicamente, Moro recorre a uma espécie de “pam-discricionariedade cinzenta” para pedir que se vete uma lei que diz que só se pode prender de acordo com...o que diz a lei. É isso. Na justificativa, Moro quer tanta discricionariedade que até mesmo a manifesta ilegalidade se subsume na...discricionariedade! Fantástico, não?

É porque chegamos a esse ponto que precisamos de leis tautológicas. Esse é o busílis.

Paradoxalmente, penso que Moro pode ficar tranquilo. Bolsonaro nem precisa vetar nada. Se não se cumpre a lei que diz x, por que seria seguida a lei que diz “é preciso seguir o que diz a lei que diz x”? Melhor deixar assim, pois não? Afinal, o que a dogmática jurídica vem fazendo é, mesmo, próteses para fantasmas.

A “discricionariedade do magistrado”, a “margem na interpretação da norma”, a “zona cinzenta pela qual caminha o magistrado”, a “compatibilidade entre a norma e a sociedade” (isso é bem “novo” – remonta ao dualismo metodológico de Jelineck e quejandos), a “evolução do direito pela via jurisprudencial” – ou seja, a vulgata que Moro faz da obra de Hart; tudo isso já basta para que, quando a lei diga x, e quando a nova lei diz que deve ser obedecida a lei que diz x, o intérprete-juiz diga... y.

Tristes tempos. Tempos em que o Ministério da Justiça pede o veto a uma placa que diz “obedeçam às placas”.

Não, não, esqueçam o que eu disse. Com o que já tem sido feito no trânsito, melhor não dar ideia.

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01
Dez18

Guadalajara. A feira do livro que o portunhol serviu de língua franca

Talis Andrade

JÁ PENSOU O BRASIL MANDAR 10 ESCRITORES PARA UMA FEIRA DE LIVRO? PORTUGAL TÁ MANDANDO 40. NO BRASIL É MAIS FÁCIL UM PRESIDENTE ANALFA FECHAR O MINISTÉRIO DA CULTURA E ENTREGAR A CHAVE AO TRUMP.

O BRASIL TÁ FECHANDO EDITORAS, LIVRARIAS E BIBLIOTECAS. COMEÇOU O FRIO GOVERNO DO FORNO E DAS TREVAS. E DAS ESCOLAS SEM PARTIDO. ISTO É, DE UM ÚNICO LIVRO, ESCRITO PELA BANCADA EVANGÉLICA, SOLETRADO PELA BANCADA DO BOI E GUARDADO PELO BANCADA DA BALA

 

Convidado de honra na FIL de Guadalajara, Portugal está a marcar presença com uma embaixada de 40 escritores, mas para lá dos esforços de promoção do país como marca, a cultura parece cada vez mais uma forma de facilitar negócios

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por Diogo Vaz Pinto

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Quarenta soa a batalhão. Parece mais até do que se tivessem abalado daqui uns cem. A fanfarra não soaria mais alto, nem faria tremer mais o chão da língua. São 40 os escritores que integram a embaixada que Portugal levou para o México, com a comissária da participação portuguesa na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), Manuela Júdice, a assumir que buscou “trabalhar a diversidade”. Tendo recebido instruções para dar especial enfoque ao policial e à crónica, a incluir tanto prosadores quanto poetas, mantendo também o equilíbrio entre idade e géneros, a primeira e mais gritante falha na “antologia” de presenças que elaborou é o ter deixado de fora a juventude. Note-se que, entre os convocados de Júdice, os mais jovens estão nos quarenta anos ou a meses disso (Filipa Leal, Inês Fonseca Santos e Vasco Gato). Talvez isto decorra de uma aversão ao risco que, em si mesma, tão bem caracteriza o próprio meio literário, e que passa até pela incompreensão do sentido da palavra ‘juventude’, de como esta encarna uma atitude herética, em rebelião contra a palavra ‘experiência’. Para Benjamin, de resto, “só dela [da juventude] pode irradiar um espírito novo, ou seja, o espírito”. Mas adiante.

 

A tenda de campanha montada em Guadalajara – a terceira maior cidade do México –, conta com 1200 metros quadrados, mas o que a valoriza é sobretudo a sua posição estratégica no terreno, por se situar à entrada da Expo Guadalajara. Se em 2013, quando foi o país convidado da Feira do Livro de Bogotá (Colômbia), Portugal contou com um pavilhão de 3000 metros quadrados, a maior vantagem de se ser o convidado de honra em Guadalajara é o facto de ser este o maior certame aberto e dirigido ao grande público (só ficando em segundo lugar face à feira de Frankfurt, que se dirige apenas aos profissionais do sector) e de o pavilhão português ser de passagem obrigatória para os cerca de 100 mil visitantes que diariamente percorrem o salão de 34 mil metros quadrados. Ali, além do intenso programa do festival literário, a feira conta com a presença de mais de 20 mil profissionais do livro, duas mil editoras e mais de 40 mil títulos.

 

Num decisivo contraste com a forma como a comissária avocou os poderes de definição sobre a constelação literária que quis levar a Guadalajara, cinco gabinetes de arquitetura foram convidados a apresentar propostas para o pavilhão português, tendo-se imposto a do atelier Santa Rita & Associados uma vez que, segundo Manuela Júdice, foi a que melhor solução apresentou para que “as pessoas entrassem e nos viessem visitar sem perturbar a circulação da entrada na feira”. A comissária adiantou ao jornal “Público” que “não é preciso dar a volta ao pavilhão” já que este “tem amplitude suficiente para ser local de passagem”. E refere que, “uma vez lá dentro, temos de ser suficientemente atrativos para convencer os visitantes a ficarem. O pavilhão é permeável, mas tentámos criar espaços com conteúdos que funcionem como íman.” Quanto à representação dos órgãos de imprensa, esta resultou de convites endereçados, em alguns casos a organismos, noutros feitos diretamente a certos jornalistas. Aparte isso, o comissariado não promoveu qualquer outra ação em que os jornalistas tenham sido informados sobre esta iniciativa pública que chegou a ter um orçamento previsto de 2,5 milhões de euros. No final, gastaram-se 1,8 milhões, dos quais apenas 340 mil euros correspondem a contribuições de privados.

 

Quando o plano de ataque foi anunciado, estava já em execução. Em fundo, nem os grilos se ouviam. Não houve qualquer margem dada à dissensão, e, à chegada a Guadalajara, a recém-empossada Ministra da Cultura, Graça Fonseca, gabou a riqueza que as novas gerações trazem à nossa cultura, afirmando que “a imagem que conseguimos passar com este programa é que Portugal é uma potência cultural e deve ser olhado assim”. Mas se todos os responsáveis enfatizaram a enorme oportunidade que este destaque representa para o nosso país, uma vez mais se comprovou a condição anémica no âmbito da cultura, e que, por oportunismos vários, continua a ser cúmplice desta lógica de facto consumado, e a opacidade com que são tomadas decisões de fundo sem qualquer discussão, abafando toda a discórdia. Por esta razão, se a comissária veio congratular-se pela centena de novas traduções de autores portugueses a apresentar ou lançar ao longo da feira, é triste constatar que o país se apresenta numa frente unida, com os escritores arregimentados para uma campanha que, no seu desmedido ensejo promocional, dá deles a imagem de generais sem nenhuma estratégia quanto à conquista dos céus, por se ocuparem desde tempos imemoriais na diplomática disputa dos bons lugares terrenos nos quais se vão revezando. É curioso, aliás, notar como, já bem entrados no século XXI, e aparte as pontuais e pequenas quezílias de egos, não se desenham hoje oposições dramáticas entre aqueles que sempre são chamados a representar o país quando se olha ao espelho ou quando se vai mostrar lá fora.

 

Neste ponto, e retirando benefício desta aproximação à cultura mexicana, talvez nos possamos valer das palavras de Octavio Paz, o único Nobel da Literatura daquele país, e que no ensaio “Poesia, Sociedade, Estado” nos lembra que “não seria difícil mostrar que onde o poder invade todas as atividades humanas, a arte tem tendência a elanguescer ou transforma-se numa atividade servil e maquinal”. A censura pode exercer-se de diversos modos, e esta democracia que à cabeça de tudo coloca os valores económicos, tornou-se perita em vencer pela fadiga a ação crítica, assim nos surge esta visão filistina da cultura como facilitadora das relações económicas entre os dois países, ao ponto de Júdice afirmar que “o livro é a porta de entrada para o vinho, o azeite e muitos outros setores” no México.

 

O poeta e ensaísta mexicano que, depois da tardia descoberta da obra de Fernando Pessoa, veio a assumir que, entre os seus encontros imaginários, este foi um dos mais profundos, teve um papel decisivo na divulgação de Fernando Pessoa no universo da língua espanhola, dedicando-lhe dois ensaios e traduzindo mais de 50 poemas. E Paz não foi menos preclaro na hora de estudar a forma como “o poder imobiliza, fixa num só gesto – grandioso, terrível ou teatral e, no final, simplesmente monótono – a verdade da vida (...) Assim, o Estado pode impor uma visão do mundo, impedir que brotem outras e exterminar aquelas que lhe fazem sombra, mas carece de fecundidade para criar uma. E o mesmo se verifica a respeito da arte: o Estado não a cria, e dificilmente pode impulsioná-la sem a corromper e, mais frequentemente, apenas trata de se servir dela, deformando-a, sufocando-a ou convertendo-a em máscara”.

 

 

24
Out18

Negros, indígenas e gays já sentem nas ruas o medo de um governo Bolsonaro. Temor nas universidades

Talis Andrade

 

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O medo de agressões não é exclusivo de populações vulneráveis e tem repercutido mesmo entre quem sempre se sentiu protegido e confortável. É o caso do professor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Luciano Volcan Agostini. Homem, branco, internacionalmente premiado e com estabilidade garantida por concurso público, ele se arrepiou ao receber um email anônimo com ameaças à sua carreira docente: “Estou envolvido diretamente na campanha de Jair Bolsonaro e lhe informo que o mesmo está ciente do ativismo político-comunista que a UFPEL está fazendo, assim como outras. Saiba que a teta vai secar e o governo não irá mais financiar pesquisas inúteis”, dizia a missiva.

 

Agostini, que é pesquisador, foi pró-reitor da universidade e participou da equipe que definiu o Padrão Brasileiro de TV Digital, se surpreendeu. “Não faço campanha partidária dentro da UFPEL e, muito menos, dentro da sala de aula. Minha militância política tem acontecido mais nas redes sociais e, mesmo assim, não tenho perfil público”. Ele admite que se sente intimidado, especialmente pelo anonimato da mensagem, que utilizou um email falso. “Isso quer dizer que pode ser qualquer pessoa ao meu redor que está me ameaçando”, observa ele, que já denunciou o caso à Polícia Federal. “O clima é de profunda preocupação e medo na academia. O cerceamento do livre pensamento está brotando e tomando uma forma cada vez mais assustadora”, conclui.

 

Também profissional de uma instituição de ensino pública, a bibliotecária P.P. não é militante partidária e diz que seus “ideais são principalmente pautados pela minha espiritualidade”. Mesmo assim, mudou o comportamento recentemente por temer represálias políticas até em atitudes corriqueiras profissionais.

 

Ela decidiu tirar um livro do teórico Karl Marx do expositor onde a biblioteca mostra os itens recém adquiridos para os frequentadores. “Foi para proteger a instituição, não me senti confortável, pensei que poderia vir alguém do MBL tentando achar alguma coisa… fiquei em dúvida pois (colocar os lançamentos no expositor) é uma coisa tão sem intenção, tão rotineira, mas pensei que até convencer, dar explicação e provar que não somos doutrinadores… não sei. Tirei e guardei na estante, junto com outros livros”, relata.

 

Ela também tem controlado as postagens que a biblioteca faz para divulgar sua coleção. Temáticas que ganharam relevância nos últimos anos e que demandam literatura para pesquisa, como os movimentos LGBT, feminista e negro estão sendo diluídos propositalmente para evitar “falsas interpretações, para não inventarem o que não é”, assegura.

 

O nível de ansiedade chegou ao ponto máximo depois que livros com a temática de direitos humanos foram rasgados na biblioteca da Universidade de Brasília (UnB). Foi a deixa para P.P. avisar a colegas que se o clima piorasse, ela estava disposta a levar parte do acervo que toma conta para sua casa, como medida de proteção. “Antes a gente falava em censura num tom de brincadeira, agora a gente não ri mais”. Transcrevi trecho final. Toda a reportagem aqui no jornal El País, Espanha, e nos links 

 

 

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