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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

29
Jun21

UM LÍDER FAMINTO

Talis Andrade

Charge Ricardo Barros | Charge de Simon Taylor sobre a insac… | Flickr

 

Ex de FHC, Lula, Dilma e Temer, novo articulador de Bolsonaro na Câmara faz jejum com regularidade - mas não de poder

 

por FELIPPE ANÍBAL

Exatamente às 14h23 da última terça-feira (18), o deputado federal Ricardo Barros (Progressistas-PR) tomou a palavra no plenário da Câmara dos Deputados. Era a primeira vez que ocupava o microfone em uma sessão como líder do governo Jair Bolsonaro (sem partido) na Casa. De máscara preta e óculos apoiados na ponta do nariz, fez um discurso protocolar: agradeceu a confiança do presidente e pediu apoio aos colegas. Às 15h14, Barros voltou ao microfone – já sem máscara nem óculos. E se mostrou ainda mais confortável no perfil que vem exibindo ao longo de seis mandatos: um profissional da política, capaz de permanecer no poder mesmo que o poder mude de mãos. Foi líder de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), vice-líder de Lula (PT) e de Dilma Rousseff (PT), além de ministro da Saúde de Michel Temer (MDB). E não vê problema nisso.

“Qual o sentido disso? [de ser líder de diferentes governos]. O sentido é dar governabilidade ao governo que se elege. O nosso sistema é o presidencialismo de coalizão. O nosso sistema exige maioria ou três quintos [dos votos] para emendas”, disse, em tom didático, em seu primeiro pronunciamento ao assumir o cargo. “A função do líder do governo é formar maioria, agregar, convencer, ceder, para que haja o entendimento e para que o conjunto dos partidos possa, por maioria, aprovar as matérias aqui na Casa”, disse. Deputado federal desde 1995, notável membro do Centrão, grupo de partidos mais conservadores da Câmara, Barros já passou pro PR, PFL, PPB e PP. Sabe a hora de se aproximar de determinado governo, mas também é capaz de desembarcar dele sem pudores. À piauí, definiu-se como “um político de resultados” e “um bom articulador”. 

O anúncio de que fora escolhido como novo líder veio num período delicado, quando Barros faz o que chama de “programa de desintoxicação”  – a cada três meses, passa uma semana sem se alimentar de sólidos, jejuando e tomando exclusivamente água. A restrição terminara no domingo retrasado, quando completaram-se sete dias de jejum. Sete dias sem comer. É um tema sobre o qual o deputado evita falar. “É um programa de desintoxicação que eu faço de forma frequente. Em uma semana, só água”, disse. “É jejum. Jejum está na Bíblia, amigo”, acrescentou Barros, que não se diz essencialmente religioso.

Se faz o jejum nesses períodos definidos, Barros não esconde o apetite pela política e pelo poder. Deputados da base e da oposição fizeram uma leitura parecida sobre a escolha dele para o posto de líder: Bolsonaro abraça definitivamente o Centrão na tentativa de minimizar sua inaptidão política em compor consensos, terceirizando o trabalho para um “profissional”. Em sua primeira sessão na liderança, Barros já elegeu sua primeira missão: a costura política para aprovação da reforma tributária. O Centrão, por sua vez, também já demonstrou sua voracidade: de cada cem funcionários comissionados com filiação partidária no Executivo, 39 são filiados a partidos do bloco (como PP, MDB, DEM, PSD, entre outros).

Nascido em Maringá, interior do Paraná, Barros tem 60 anos. É um homem de estatura mediana, ligeiramente calvo e de expressão sisuda. Raramente ri e, quando o faz, nunca é um sorriso aberto. Até aos domingos costuma cumprir expediente em seu escritório, em Maringá, e quem é próximo dele diz que seu único interesse é a política. “Você nunca vai ver o Ricardo [Barros] falando de futebol, de um lugar que ele foi, de alguma coisa que comprou. É só política”, disse um aliado. Entre colegas e desafetos, a palavra usada com unanimidade para descrevê-lo é “pragmático” ou expressões que caem como sinônimos, de “calculista” a “trator” – perfil que, para quem está do lado oposto, pode ajudar a botar panos quentes na tensão entre Bolsonaro e o Congresso.

“Todo mundo sabe que o Ricardo [Barros] cumpre o que ele combina. Não tem surpresa. Vai chegar na hora da votação e ele não vai descumprir a palavra. Para nós, da oposição, é bom você ter um líder assim, que cumpre, senão vira confusão. O Ricardo tem esse pragmatismo e essa condição”, opinou o deputado Luciano Ducci (PSB-PR). “O que mais chama a atenção é o pragmatismo dele. Qual a visão que parte da sociedade tem de um bom deputado? É o que consegue recursos. Isso ele faz. E faz o que acha que precisa fazer”, disse o deputado federal Gustavo Fruet (PDT-PR). 

Um exemplo do modus operandi de Barros se deu em 2016, quando ele abandonou o governo Dilma. Em abril daquele ano, durante o processo de votação na Câmara da admissibilidade do pedido de impeachment da então presidente, Barros era vice-líder do governo. Apenas na véspera da votação anunciou publicamente que se posicionaria em favor da tramitação do impeachment. Embora ainda estivesse no governo, nos bastidores Barros vinha negociando com o grupo de Temer e já era cotado para o Ministério da Saúde, caso Dilma fosse deposta – o que acabou ocorrendo. “Ele [Barros] fez como um bom batedor de pênalti: esperou até o último momento pra bater na bola. Quando viu que o goleiro ia cair para um lado, virou o pé e chutou no outro canto. Mas se você preferir, pode usar a metáfora de ‘um pé em cada canoa’”, comparou um parlamentar de oposição.

Outra passagem, essa em 2010, lhe rendeu um apelido do qual não gosta nem um pouco: Leitão Vesgo. Na ocasião, o deputado avaliava quem apoiaria nas eleições para o governo do Paraná, se Beto Richa (PSDB) ou Osmar Dias (PDT), então aliado do PT.  Em uma reunião em Brasília, da qual participavam Gleisi Hoffmann (PT) e o deputado federal Fernando Giacobo (PL), Dias se irritou com a indefinição e disse: “Ô, Ricardo! Você fica mamando na teta do governo, enquanto, feito um leitão vesgo, já tá olhando para a teta do Beto Richa”. No Paraná, a alcunha pegou, principalmente entre os desafetos. 

 

Como ministro da Saúde, deu uma série de declarações que repercutiram muito mal. Criticou a quantidade de exames feitos pelo SUS, argumentando que 80% apontavam “resultado normal”, disse que pacientes “imaginam” doenças e que médicos “fingem trabalhar”. Mas os deslizes no discurso não foram os maiores problemas em sua gestão no Ministério.Ministro da Saúde diz que maioria dos pacientes "imaginam" estar doente -  Jota A! - Portal O Dia

No ano passado, o deputado foi alvo de  uma ação  civil pública de improbidade administrativa ajuizada pelo Ministério Público Federal  (MPF) em razão de fatos que ocorreram quando era ministro. Conforme a investigação conduzida em 2017, houve irregularidades na compra de medicamentos para doenças raras. As fornecedoras atrasaram a entrega dos medicamentos, o que resultou na morte de catorze pacientes, segundo o MPF. De acordo com a ação, uma das empresas, a Global, ganhou um dos processos de compra emergencial em 2017 sem cumprir os requisitos exigidos, como dispor de todas as licenças, ser cadastrada pelo fabricante e dispor do medicamento em estoque. Ainda assim, de acordo com o MPF, o Ministério da Saúde levou  a compra adiante e fez um adiantamento à Global. O processo ainda não foi analisado pela Justiça. 

Na ocasião da denúncia, Barros emitiu nota em que afirmou que o MPF  escolheu “o lado errado da luta no SUS” e que “deveria acusar as empresas que mantêm monopólio de representantes para explorar o erário público”. O deputado disse que a legislação foi cumprida rigorosamente nas aquisições e que, no período em que esteve à frente do Ministério, bilhões de reais foram economizados em 22 meses. A piauí não conseguiu contato com a Global. À época, a empresa afirmou que parte dos produtos havia sido entregue e que estava negociando com o Ministério da Saúde a devolução do dinheiro referente ao montante não repassado. 

Também em 2017, em outra ação civil pública do MPF, o então ministro da Saúde foi acusado de tentar beneficiar seu reduto eleitoral. Na época, Barros anunciou uma parceria milionária por meio da qual o Ministério da Saúde transferiria ao Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), empresa pública do governo do Paraná, e à empresa suíça Octapharma a responsabilidade da produção de parte dos hemoderivados que seriam, posteriormente, adquiridos pelo próprio Ministério. A ideia era que o Tecpar passasse a gerir o processamento e a logística do plasma no Centro-Sul e Sudeste do país, além de investir 82 milhões de reais na construção de um centro em Maringá. O anúncio foi feito quando Cida Borghetti, mulher de Barros, era vice-governadora, em uma solenidade com a presença do ministro.

Na época, os hemoderivados eram produzidos exclusivamente na Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), cuja sede fica em Pernambuco. O MPF chegou a pedir que Barros fosse afastado do Ministério – o que foi negado pela Justiça. Responsável pelo caso, a procuradora Silvia Regina Pontes Lopes disse que o então ministro assumiu o compromisso público de levar o “mercado de sangue” ao Paraná, como forma de “esvaziar” as atribuições da Hemobrás e beneficiar seu estado natal. 

Barros acabou deixando o Ministério da Saúde não em razão do processo, mas para disputar as eleições de 2018. No governo Bolsonaro, o Ministério da Saúde mudou seus planos em relação aos hemoderivados, o que fez com que a ação perdesse efeito. A fábrica do Tecpar em Maringá nunca chegou a ser construída. Em julho do ano passado, o Ministério da Saúde suspendeu as parcerias, que se encontram em processo de revisão. Com a suspensão, os recursos anunciados na solenidade conduzida por Barros e Cida não chegaram a ser repassados ao Tecpar, conforme o Instituto. “A técnica manda que se tenha três fábricas, com operações com sangue. Por ativismo político, o MPF quer que tudo fique lá na Hemobrás. Não há razão técnica nem logística para isso. Vamos aguardar a nova direção da Hemobrás, que posicionamento trará, porque é importante que tenhamos mais opções de produção e processamento de plasma”, disse Barros, em áudio enviado à piauí.

No campo político, Barros tem um inimigo em comum com Bolsonaro: o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, também maringaense. Como quase todo o Centrão, o deputado é ferrenho crítico da Lava Jato. Ao longo dos últimos anos, deu uma série de declarações contra a força-tarefa – dizendo coisas como a operação “quebrou o país” – e contra seus principais personagens, como Moro e o procurador Deltan Dallagnol. Nas planilhas da Odebrecht com nomes de doações feitas a políticos – o que não é ilegal – , Barros é citado. Entre os documentos apreendidos na casa de Benedicto Junior, então presidente de Infraestrutura da empreiteira, o deputado aparece como tendo recebido 100 mil reais.  Entre os 3,1 milhões de reais que recebeu em doações em 2014, não há doações da empresa. 

Segundo Barros, a planilha se referia a pedidos de doação eleitoral para a campanha de Carlos Roberto Pupin (PP), a quem o deputado apoiava na disputa à prefeitura de Maringá, nas eleições de 2012. Barros afirmou que “não era candidato e não houve nenhuma doação, nem oficial, nem extraoficial da Odebrecht ao candidato na época” e que “seu nome não apareceu em nenhum inquérito, denúncia ou delação” da Lava Jato.

 

veia política de Barros vem de família, uma oligarquia do Paraná baseada em Maringá – município de 423 mil habitantes, emancipado em 1951. Pai de Ricardo, Silvio Magalhães Barros é reverenciado como um dos “pioneiros” da cidade. Aportou na região ainda na década de 1940, para trabalhar com agrimensor. Ao longo dos anos seguintes, o forasteiro nascido em Minas Gerais foi se tornando influente politicamente, a ponto de se eleger vereador em 1960, pela União Democrática Nacional (UDN). A partir daí, a carreira de Silvio decolou. Com a ditadura militar e o bipartidarismo, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro, pelo qual foi eleito deputado estadual, federal e prefeito de Maringá. Em 1979, morreu vítima de um infarto fulminante.

Com a morte prematura do pai, coube a Ricardo assumir o papel de chefe dos Barros. Após concluir o curso de Engenharia Civil, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), aproximou-se, ao poucos, da política. Em 1988, aos 28 anos, venceu a eleição à prefeitura, pelo PFL. Em 1994, fez-se deputado federal. Seu irmão mais velho, Silvio Magalhães Barros II, entrou na política e foi eleito prefeito de Maringá em 2004. 

Barros também levou para a política sua mulher Cida Borghetti, ex-militante do PDS Jovem –  como foi rebatizada em 1980 a Arena, partido de sustentação ao regime militar. Cida Borghetti foi deputada estadual e federal. Em 2014, foi vice na chapa de Beto Richa (PSDB), que disputava a reeleição e em 2018, quando Richa deixou o governo para concorrer ao Senado, Cida assumiu o Palácio Iguaçu até o fim do mandato. Ela chegou a disputar a eleição seguinte ao governo, mas foi derrotada por Ratinho Junior (PSD). A filha caçula do casal, Maria Victoria, já está no segundo mandato como deputada estadual do Paraná. 

Ao longo das eleições de 2018, a posição de Barros beirou a neutralidade em relação à sucessão presidencial. No primeiro turno, o PP integrou a coligação que apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), mas o deputado concentrou todos seus esforços fazendo campanha pela mulher, Cida Borghetti, que disputava o governo do Paraná. No segundo turno, permaneceu em cima do muro, dizendo que o partido liberaria seus filiados para votar como quisessem.

Em uma manhã no fim de janeiro de 2019, Barros encontrou parlamentares paranaenses em um voo comercial de Curitiba a Brasília. Ao longo da “conversa de avião”, um colega da Câmara observou que Barros se mantinha distante do governo que se iniciava.“Tá quietão por quê, Ricardo?”, perguntou. Barros respondeu com uma espécie de prenúncio: “Eles vão precisar de articulação. Minha hora vai chegar”. No mês seguinte, disputou a eleição para  presidência da Câmara, mas obteve apenas quatro votos. Quem convive com o deputado diz que ele nem se abateu. Sabia que a forma como Bolsonaro vinha se relacionando com o Congresso não se sustentaria por muito tempo. Em setembro do ano passado, Barros subiu o tom em uma reunião da bancada paranaense com o titular da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, como se preparasse o terreno. 

“O presidente não pode demitir o deputado, mas o deputado pode demitir o presidente”, disse. “A palavra final é nossa. Ele é que tem que querer estar de bem conosco. Se ele não quer, está ótimo para nós”, acrescentou. Conforme percebia que a necessidade de articulação do governo com o Congresso aumentava, Barros adequava seu discurso ao bolsonarismo. Já nos primeiros meses deste ano, passou a ser a sondado pelo Planalto. Em abril, em meio à pandemia do novo coronavírus, Barros, a mulher, a filha, o genro e a neta foram diagnosticados com Covid-19. O deputado chegou a ficar internado por dois dias na Santa Casa de Maringá. Em entrevista à CNN após receber alta médica, declarou que tomou cloroquina. Um ano e sete meses depois daquela “conversa de avião”, em que previu que o governo precisaria de sua ajuda, Barros se tornava líder de Bolsonaro. “O Congresso e o Executivo têm que trabalhar juntos para atingirem seus objetivos”, disse Bolsonaro ao final da primeira reunião com o líder. Estava selada a aliança. Em se tratando de Barros, só não se sabe até quando.TRIBUNA DA INTERNET | Sob o signo da Liberdade

 
15
Mar21

Lava Jato tentou prender Lula por roubar Cristo que era dele mesmo

Talis Andrade

Procura-se: crucifixo de Aleijadinho da Presidência | VEJA

Procura-se: crucifixo de Aleijadinho da Presidência, publicou a revista VejaCONFIRA A LISTA DE OBJETOS QUE LULA LEVOU INDEVIDAMENTE DO PALÁCIO DO  PLANALTO – Blog do Chico Pereira

A Lava Jato acreditou na foto falsa de Itamar com o crucifixo, montagem que foi usada por Bolsonaro na campanha eleitoral

PQP! MATÉRIAS FURADAS NA INTERNET

 

Por Rafael Moro Martins, Rafael Neves, Leandro Demori  /The Intercept Brasil

Como a Lava Jato caiu numa mentira de internet e esperava prender em flagrante o ex-presidente Lula por roubar um objeto que era dele mesmo

O procurador da República Deltan Dallagnol estava esfuziante naquele fim de tarde de quarta-feira. Havia alguns dias que ele só pensava em uma figura de um Cristo agonizante. Era 9 de março de 2016 e, poucos dias antes, a operação Lava Jato — que ele comandava no Ministério Público Federal do Paraná — jogara seu lance mais ousado até então: a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Evangélicos como o procurador não costumam ter apreço por imagens e figuras de santos ou profetas. Mas aquele Cristo era diferente: com 1,5 metro de altura, ganhara fama por aparecer pendurado na parede do gabinete presidencial em dezenas de fotos tiradas durante a administração de Lula. Além disso, o procurador acreditava que a peça em madeira de tília havia sido esculpida por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Com a saída do político da Presidência, o crucifixo também deixou Brasília. Para Dallagnol, seus colegas procuradores e vários delegados da Polícia Federal, a conclusão era óbvia: Lula havia roubado o objeto. Aquela seria a melhor chance de prender o ex-presidente em flagrante. O impacto na imprensa, os procuradores já comentavam, seria explosivo.

Apesar de não ser o objeto inicial dos pedidos de busca e apreensão contra Lula, a caça ao crucifixo mobilizou procuradores, policiais federais e o então juiz Sergio Moro durante a 24ª fase da Lava Jato. Pomposamente batizada de Aletheia, uma expressão grega para a “verdade”, a ação mobilizou 200 policiais federais e 30 auditores da Receita Federal para o cumprimento de 33 mandados de busca e apreensão e 11 de condução coercitiva. Um show feito para a televisão: desde muito cedo que equipes andavam de um lado para o outro enquanto helicópteros sobrevoavam os endereços do político em São Paulo. Policiais e procuradores vasculharam o apartamento do ex-presidente, em São Bernardo do Campo, a sede do Instituto Lula, na capital paulista, e o sítio que ele usava em Atibaia. Casas e empresas de familiares do petista também foram alvo.

Na operação, em 4 de março, documentos e recibos que serviriam para acusar e condenar Lula haviam sido encontrados. Um deles fazia referência a um cofre em uma agência do Banco do Brasil no Centro de São Paulo. Além da então mulher do ex-presidente, Marisa Letícia, o cofre também estaria em nome de Fábio Luis, o Lulinha, seu filho mais velho. Policiais federais foram à agência naquele dia 9 e se depararam com 132 itens acondicionados em 23 caixas lacradas. Os bens eram desejados pela Lava Jato havia muito tempo, e a caça ao tesouro terminou quando os policiais federais confirmaram: o cofre guardava o crucifixo.

Foi essa a notícia que fez Dallagnol exultar junto aos colegas no Telegram. Para ele, a conclusão era óbvia: ao meter as mãos no crucifixo que seria patrimônio da União, Lula havia cometido crime de peculato (roubo de patrimônio público cometido por servidor público) e ocultação de bens. Por isso, seria preso em flagrante. Frisson em Curitiba.

“Orlando, parece que acharam o Cristo do alejadinho no cofre do BB… se for isso, será nosso primeiro respiro”, escreveu Dallagnol pelo aplicativo de mensagens ao colega Orlando Martello. Eram 16h56.

Martello respondeu vinte minutos depois, com uma pergunta:

9 de março de 2016 – Chat pessoal
Orlando Martello – 17:15:44 – O q é cofre de BB?
Deltan Dallagnol – 17:16:35 – operação de hoje no cofre do BB em nome do Lulinha e da Marisa, pra cujos nomes foi passado após depósito do Aurélio… lá está a cruz do alejadinho que estava desde Itamar no Planalto… prov de valor inestimável
Dallagnol – 17:16:43 – Peculato com lavagem… coisa pouca kkkk
Dallagnol – 17:16:52 – Isso, pode sorrir
Dallagnol – 17:16:56 – Agora pode sorrir mais
Dallagnol – 17:17:00 – Pode agora começar a pular
Dallagnol – 17:17:11 – Agora segura tudo que aguardamos confirmação de 100% kkkk

A prisão de Lula em flagrante por roubo de um simbólico Jesus Cristo crucificado seria uma das cenas mais fortes da história da Lava Jato. Era tudo o que os procuradores precisavam para destruir o ex-presidente.CURITIBA, PR, 04.03.2016: OPERAÇÃO-LAVA JATO - Igor Romario de Paula, delegado da Policia Federal  - Coletiva de imprensa na Polícia Federal de Curitiba-PR, sobre a 24ª fase da Lava Jato denominada Aletheia, deflagrada na manhã desta sexta-feira (4) pela Polícia Federal, que tem como alvo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Participam da coletiva o Superintendente da Polícia Federal no Paraná Rosalvo Ferreira Franco, delegado da Operação Lava Jato Igor Romário de Paula e O auditor da Receita Federal Roberto Leonel de Oliveira Lima. (Foto: Paulo Lisboa/Folhapress)

Igor Romario de Paula, delegado da Polícia Federal. Foto Paulo Lisboa/Folhapress

‘Nosssa. Se achar isso’

Durante a operação nos imóveis de Lula, os procuradores salivavam com os relatos dos policiais enviados pelo celular. O que mais chamava a atenção dos investigadores, inclusive pelo tamanho, eram as caixas com o acervo de objetos que Lula trouxera de sua estada no Palácio do Planalto. Ao ver as caixas, os agentes ficaram ainda mais convictos de que o ex-presidente surrupiara o patrimônio público e que a OAS bancava a estada dos bens num depósito usando dinheiro desviado da Petrobras.Band Entrevista - Luciano Flores de Lima, delegado da Polícia Federal -  Band Paraná

Luciano Flores 

Responsável por buscar Lula em casa para levá-lo ao aeroporto de Congonhas, o delegado Luciano Flores (depois promovido quando Sergio Moro se tornou ministro da Justiça da extrema direita) mandava mensagens de áudio contando como Lula o recebera e orientava os colegas sobre as buscas que viriam a seguir.

Clique no play para ouvir os áudios:

4 de março de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Luciano Flores – 06:13:10 –

Áudio

Orlando Martello – 06:17:03 – Show. Julio e eu
indo para o local
Martello – 06:17:09 – De encontro
Flores – 06:22:47 –

Áudio

Athayde Ribeiro Costa – Otimo

Deltan Dallagnol – 06:33:47 – 
Igor Romário de Paula – Tudo certo até agora
Flores – 06:36:54 –  Luciano, a carga se trata de duas carretas e foram levadas p o Sindicato em São Bernardo. E agora?
Flores – 06:37:17 – Mensagem recebida do chefe da equipe que está conduzindo o motorista
Flores – 06:37:49 – Fiquem em QAP caso seja necessário solicitar novo mandado
Roberson Pozzobon – 06:37:59 – Podemos pedir extensão do mandado
Pozzobon – 06:38:01 – Isso
Pozzobon – 06:38:18 – Avise-nós se for necessário
Romário de Paula – 06:38:25 – Acho importante já ir adiantando…
Pozzobon – 06:38:48 – Qual foi o motorista que passou a info?
Flores – 06:45:47 – O nome é Luís Antônio Pazzini
Flores – 06:46:35 – Lula acabou de me confirmar que boa parte das coisas estão no Sindicato…
Flores – 06:47:16 – Disse que são bens muito valiosos que deveriam estar num museu da República
Pozzobon – 06:47:52 – Ok. Estamos preparando a peticao para pedir o novo local
Pozzobon – 06:48:03 – Sabem o endereço?
Márcio Anselmo – 06:48:24 – Isso não era peculato?
Anselmo – 06:49:03 – Acho que devo ter matado essa aula na faculdade
Flores – 06:49:11 – É no Sindicato dos Metalúrgicos
Anselmo – 06:49:13 – Nunca aprendi penal
Pozzobon – 06:49:35 – Blz

Os agentes de campo já estavam familiarizados com o desejo dos procuradores pelo Cristo. A primeira menção ao objeto havia aparecido em uma conversa no Telegram um mês antes da abertura do cofre custodiado no Banco do Brasil. Em fevereiro de 2016, uma foto foi compartilhada pelo procurador Januário Paludo, um dos veteranos da Lava Jato. Pela reação do delegado Márcio Anselmo — um sujeito que serviu de inspiração a um dos personagens centrais do filme Polícia Federal — A lei é para todos —, a notícia de que Lula havia roubado a obra já corria solta entre os investigadores.

19 de fevereiro de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Januário Paludo – 19:32:28 – 
Paludo – 19:32:41 – dizem que essa sumiu. Aleijadinho.
Athayde Ribeiro Costa – 19:33:04 – NOSSSA. SE ACHAR ISSO
Márcio Anselmo – 19:33:20 – Eu vi isso hj
Anselmo – 19:33:31 – ???
Luciano Flores – 19:45:08 – a imagem de Cristo ou o Itamar??

Em outro grupo, no dia seguinte, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima também estava interessado na história do crucifixo. Ele pedia a colegas e policiais que iriam conduzir Lula coercitivamente e realizar buscas para que ficassem de olho na peça.

20 de fevereiro de 2016 – Grupo FT MPF Curitiba 3
Carlos Fernando dos Santos Lima – 21:51:52 – 
Santos Lima – 21:52:47 – Quem for no instituto, é bom mesmo ver se este crucifixo realmente está lá.

No dia da operação, já em São Bernardo do Campo, o delegado Igor Romário de Paula mandava fotos do resultado da busca enquanto seu colega Márcio Anselmo pedia prisão em flagrante com base em fotos de caixas de papelão.

4 de março de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Igor Romário de Paula – 10:09:35 – 
Romário de Paula – 10:09:51 – Material depositado dele em São Bernardo
Márcio Anselmo – 10:09:59 – Meu
Anselmo – 10:10:03 – Peculato
Romário de Paula – 10:10:06 – Pegamos tudo
Anselmo – 10:10:07 – Prende em flagrante
Anselmo – 10:10:11 – Quero ver ser macho
Romário de Paula – 10:10:13 – O que acham?
Wiligton Gabriel Pereira – 10:10:27 – Carrega tudo
Anselmo – 10:10:34 – Traz tudo
Anselmo – 10:10:45 – Kkkkkkk
Anselmo – 10:11:09 – Isso é surreal

Empolgados, os agentes se depararam com um problema: não havia mandado judicial para recolher aquilo tudo. Seguiu-se, então, um debate sobre o que fazer. Aqui aparecem novos personagens, entre eles o delegado Maurício Moscardi, que um ano depois iria comandar uma outra operação famosa que se revelou um fiasco: a Carne Fraca. Nela, Moscardi diria a jornalistas que frigoríficos misturavam carne estragada com produtos químicos para mascarar o aspecto do produto e vendê-lo normalmente, o que não foi comprovado.

4 de março de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Márcio Anselmo – 10:50:34 – Vai pedir pra apreender as caixas do sindicato???
Roberson Pozzobon – 10:53:23 – Moro pediu parcimônia nessa apreensão. Acho que vale a pena ver exatamente o que vamos apreender
Anselmo – 10:53:45 – O pessoal lá pediu pra retificar o mandado
Anselmo – 10:53:58 – Não sei o que fazer
Anselmo – 10:54:05 – Vivo ainda continua um impasse
Romário de Paula – 10:54:38 – Vai ser difícil checar isso no local
Anselmo – 10:55:58 – Aguardo decisão de vcs
Deltan Dallagnol – 10:56:20 – concordo, tudo
Anselmo – 10:56:21 – Tem coisa muito valiosa
Pozzobon – 10:56:29 – Igor, pode ligar para o Moro para explicar?
Anselmo – 10:56:33 – Moscardi disse que tem coisa que vale mais de 100 mil
Pozzobon – 10:56:41 – Ou Marcio
Anselmo – 10:56:41 – Moro tá em audiência
Pozzobon – 10:57:24 – Acho que vale a pena pedir para a equipe esperar um pouco para termos o aval do juiz
Dallagnol – 10:57:52 – boa
Renata Rodrigues – 10:58:16 – Márcio tá pedindo extensão do mandado pra possibilitar apreensão
Anselmo – 10:59:01 – Pedi
Anselmo – 10:59:01 – Boa
Pozzobon – 11:00:21 – Ótimo!
Dallagnol – 11:00:33 – Tem que apreender e avaliar itens para devolver ou reter por peculato… Impossível fazer isso rapidamente, hoje mesmo, então não vejo muita solução. Dá pra lacrar , arrolar, fazer fotos e deixar como depositários se houver problema de tranpsorte, porque se tranpsortar e quebrar coisas podem ser coisas caras tbém, mas o ideal seria pegar… se der peculato vai pro museu da Lj

Mas Moro negou a apreensão dos bens — o ex-juiz alegou que seria desproporcional apreender todo o acervo e que, se os investigadores tivessem suspeitas específicas, fizessem pedidos específicos para cada caixa. No dia seguinte, a solução viria pelas mãos do procurador Januário Paludo, amigo pessoal de Sergio Moro e muito respeitado pelos jovens da Lava Jato — é a ele que os vários grupos intitulados Filhos do Januario fazem referência.

5 de março de 2016 – Chat 3Plex RESTRITO
Januário Paludo – 08:57:25 – Atencao,,,
Paludo – 08:57:50 – Falei com moro. Vamos inventariar e documentar tudo no depósito. Acho que dá para apreender o mais relevante e de forma cirúrgica. Segunda vou lá conversar com ele.
Paludo – 08:58:12 – Para operacionalizar.
Paludo – 08:58:34 – Roberson já se organize, please…
Paludo – 08:59:56 – Estou pensando em pedir uma ordem judicial para devolução ao acervo do planalto… Isso evitaria problemas de armazenagem
Paludo – 09:00:58 – Ou para o museu do olho (isso seria mais radical)…

O museu a que Paludo se refere é uma ala do Museu Oscar Niemeyer, mais conhecido como Museu do Olho, em Curitiba, cedida à Lava Jato para exibição de obras de arte usadas para lavar dinheiro apreendidas pela operação. À época, o Paraná era governado por Beto Richa, do PSDB. Anos depois, Richa seria ele mesmo alvo da operação e acabaria preso.

A conversa terminou assim:

5 de março de 2016 – Chat 3Plex RESTRITO
Roberson Pozzobon – 12:49:53 – Booooua! Conversei ontem com Leonel e ele acionou o Nelson do Spei/SP para ajudar. Pedi para o Mauat para que disponibilizasse uma equipe na segunda com DPF, Perito e agentes para viabilizar tb. Segunda de manhã, confirmamos tudo isso. Acho importantíssimo esse inventário. Se o LILS fez o depósito na oculta, e pq é ainda mais ilícito do que o resto que ordinariamente ele já faz.. 

A solução veio na forma de uma nova ordem de busca e apreensão, dessa vez no Banco do Brasil, cumprida quatro dias depois.***ARQUIVO***CURITIBA, PR, 19.09.2019 - Procurador da República e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, em palestra na abertura do 25º Congresso Paranaense de Radiodifusão realizado no Paraná Clube, em Curitiba (PR). (Foto: Rodolfo Buhrer/La Imagem/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1796656

O procurador Deltan Dallagnol, que fazia a ponte da força-tarefa da Lava Jato com o então juiz Sergio Moro. Foto Rodolfo Buhrer/La Imagem/Fotoarena/Folhapress

 

‘Seria top… duas repercussões’

As centenas de caixas de papelão encontradas no sindicato guardavam, como a força-tarefa viria a descobrir, muitos documentos e fotos, além de objetos como obras de arte, maquetes, um gongo e até duas esculturas de urso polar do Canadá. Mas foi só no dia 9 de março, do meio para o fim da tarde, que a Lava Jato finalmente recebeu a notícia que esperava, pelo teclado do celular do delegado Igor Romário de Paula. Às 16h34, ele disparou uma mensagem: “Jesus Cristo encontrado no BB em São Paulo”.

A mensagem causou um pico de ansiedade nos grupos da Lava Jato. A sonhada prisão em flagrante de Lula, afinal, parecia à vista.

9 de março de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Athayde Ribeiro Costa – 16:35:04 – HEHEHEH
Roberson Pozzobon – 16:35:06 – Pein!
Igor Romário de Paula – 16:35:18 – Situação flagrancial….
Romário de Paula – 16:35:20 – Kkkkk
Januário Paludo – 16:35:49 – cade a foto??? kkk
Romário de Paula – 16:37:03 – Vai longe lá o procedimento. Muitos itens de valor… obras de arte
Márcio Anselmo – 16:37:43 – Uhuuuuuuuuu
Paludo – 16:37:45 – tem como pegar o documento que foi pedido a retirada dos itens?
Anselmo – 16:38:05 – [sticker não encontrado]
Paludo – 16:38:35 – ta todo mundo esperando a foto!!!!
Paludo – 16:39:28 – e a confirmação.
Ribeiro Costa – 16:58:41 – Será que a taça JULES RIMET ta la tb?
Luciano Flores – 17:27:28 – 
Julio Noronha – 17:30:43 – Luciano, teria a foto do crucifixo? 
Flores – 17:34:32 – nenhuma foto até o momento, eles fizeram contato apenas por telefone fixo, não tem sinal de internet lá
Noronha – 17:35:31 – Ok! Obrigado! Estamos na expectativa aqui!

Enquanto o papo corria no grupo, Dallagnol, ansioso, comunicava Sergio Moro a respeito da descoberta.

9 de março de 2016 – Chat pessoal
Deltan Dallagnol – 17:00:18 – Caro, já deve ter sido informado de que acharam o Cristo…
Dallagnol – 17:00:34 – Aguardamos confirmação de 100% de que é o mesmo

De pronto, o procurador-chefe da Lava Jato também acionou diretamente o delegado Romário de Paula atrás da confirmação. Preocupado em convencer a população de que a Lava Jato fazia avanços, ele queria planejar a repercussão midiática da impressionante descoberta sobre o crime do “9” :

9 de março de 2016 – Chat pessoal
Deltan Dallagnol – 17:02:19 – Igor, estamos muito na expectativa aqui… por favor nos avisem qdo houver qq confirmação ou notícia nova, inclusive confirmação de 100% de que é o mesmo objeto das fotos do Cristo… Todos torcendo.
Dallagnol – 17:02:54 – Esse será nosso primeiro respiro…
Igor Romário de Paula – 17:17:22 – Com certeza. O local lá é difícil para uso de celular… a noite o Ivan passa mais detalhes
Dallagnol – 17:18:00 – Queria falar com Vc sobre isso
Dallagnol– 17:18:33 – Se sair à noite, repercute menos do que soltar amanhã… contudo, não sei se os funcionários do BB e outros não começarão a soltar hje… importante que o Moro levante o sigilo também…
Dallagnol – 17:18:41 – Peculato com lavagem… coisa pouca…
Romário de Paula – 17:20:32 – Pois é mas ainda estão fazendo a avaliação pericial e vai demorar um pouco para termos certeza absoluta…
Dallagnol – 17:20:55 – Talvez fosse o caso de nota de que foi feita nova fase hoje, sem dizer de resultado, e amanhã juntar aos autos e Moro levantar sigilo
Dallagnol – 17:21:00 – Seria top… duas repercussões
Dallagnol – 17:21:18 – Vcs soltariam nota e amanhã Vcs juntam relatório e Moro abre…
Romário de Paula – 17:22:06 – Mas eles não vão conseguir fazer um relatório antes de amanhã no fim do dia.
Romário de Paula – 17:22:33 – Precisamos ter certeza absoluta antes
Dallagnol – 17:24:07 – Concordo. Não sabia que demorava tanto assim. Mas Vc acha que nem uma nota da nova fase, sem falar o objeto, só dizendo que foi cumprido mandado no BB sobre cofre em nome de familiares do 9?
Dallagnol – 17:24:22 – Se quiser, vejo com o Moro se para ele estaria ok essa nota.
Dallagnol – 17:26:08 – Se soltarmos, escalamos.
Romário de Paula – 17:26:12 – Mas a imprensa vai cair de pau em cima querendo saber o conteúdo da apreensão.

A alegria do procurador não durou uma hora.

9 de março de 2016 – Grupo Amigo Secreto
Januário Paludo – 17:43:40 – Ihttp://revistaepoca.globo.com/Revista/ Epoca/0,,EMI214549-15223,00-A+REAL+HISTORIA+DO+CRISTO+DE+LULA.html
Paludo – 17:43:49 – olha a reportagem.

A Lava Jato, que havia focado todas as atenções no Cristo depois de receber uma fotomontagem que sugeria que a obra de arte estaria no Palácio do Planalto desde os tempos do ex-presidente Itamar Franco, não tinha se dado ao trabalho de procurar a história no Google. Cinco anos antes, a revista Época já desmentira a história do roubo.

Claudio Soares, diretor da documentação histórica da Presidência, reafirmou que o crucifixo “foi presente pessoal de um amigo ao Presidente Lula” e disse que a imagem de Itamar que circula na internet “trata-se de edição grosseira”, publicou a revista ainda em 2011. A própria reportagem aponta que a foto é real, porém foi feita em outro contexto: durante uma visita de Itamar ao Planalto em 2006. O Cristo também não havia sido esculpido por Aleijadinho. A autointitulada maior operação anticorrupção de todos os tempos estava perseguindo uma fake news.

Frustrado, Dallagnol lamentou em uma conversa privada com o procurador Orlando Martello. Ele chegou a proferir um raro palavrão:

9 de março de 2016 – Chat pessoal
Deltan Dallagnol – 17:44:36 – Cara, agora sente. Descobrimos que o crucifixo é dele mesmo. Recebeu de presente. Pqp. Matérias furadas na internet. Mas há 23 caixas com itens de valor, inclusive com número de catálogo (patrimônio?)… vamos ver o que sai desse mato
Orlando Martello – 17:52:12 – Porra!!!!
Dallagnol – 18:51:58 – pqp mesmo

Dallagnol também foi se explicar a Moro, que lhe deu um pito.

9 de março de 2016 – Chat pessoal
Sergio Moro – 17:47:26 – Sim. Sem bola fora.
Moro – 17:47:26 – Melhor depois deste episodio suspender aquela outra coisa pois ja ha teatro
Deltan Dallagnol – 17:49:30 – Concordamos.
Dallagnol – 17:49:54 – Descobrimos matéria dizendo que o Cristo é dele, presente que recebeu
Dallagnol – 17:50:15 – http://revistaepoca.globo.com/Revista/ Epoca/0,,EMI214549-15223,00-A+REAL+HISTORIA+DO+CRISTO+DE+LULA.html
Dallagnol – 17:51:35 – Há 23 caixas, foram abertas 6. Em uma há medalhas comemorativas, inclusive de ouro. Em outra espadas e adegas com pedras preciosas, uma das quais parece ser a indicada no site que informa que teria sumido da presidência (contudo, mesmo site que fala do Cristo). Há vários itens com números que parecem ser de patrimônio. Parece que o laudo fica pronto no fim da tarde de amanhã só.
Moro – 18:10:57 – Bem. Então tratar com muito cuidado pois a historia do crucifixo é aparentemente falsa.
Moro – 18:11:23 – Segundo link que vc mesmo divulgou
Moro – 18:12:04 – Ja avisaram a pf?
Dallagnol – 18:28:26 – Positivo

A inacreditável e grotesca comédia de erros da força-tarefa teria, ainda, mais um capítulo. Foi só na noite daquela quarta-feira, cinco dias após ter pedido a apreensão de bens levados de Brasília por Lula e julgar que havia encontrado ali o motivo para uma prisão em flagrante, que a Lava Jato resolveu espiar o que diz a legislação a respeito de bens de ex-presidentes da República:

9 de março de 2016 – Grupo 3Plex RESTRITO
Paulo Roberto Galvão – 20:35:42 – Lendo a lei 8934 e o decreto 4344, extraí que: – o acervo documental do presidente é privado, de propriedade do presidente, ainda que sujeito a restrições por ser de interesse público (se vender a preferência é para a União e não pode vender para o exterior); – mesmo obras de arte, recebidas no mandato, são do acervo privado do presidente; – o que não é do acervo privado são os presentes recebidos de autoridades estrangeiras em visitas oficias.
Galvão – 20:36:57 – Em princípio, não é proibido que o presidente receba um presente de um particular. No caso do crucifixo, se correta a história da Época, não haveria irregularidade em ele levar o crucifixo se recebeu durante o mandato. Poderia haver alguma irregularidade administrativa por não se submeter à tal comissão especial, mas não seria peculato.
Galvão– 20:38:10 – A Lei de Improbidade proíbe receber presente de quem tenha interesse em algum ato do presidente (caso em que poderiam ser enquadrados benesses das empreiteiras). Mas a depender do que for encontrado lá, pode ou não haver esse interesse em ato do presidente.
Galvão – 20:39:32 – A aceitação de presentes, por outro lado, é violação ao código de conduta da alta administração federal, mas também não é crime.
Galvão – 20:40:05 – Não consegui concluir bem a questão de saber se qualquer obra de arte é considerada acervo documental, mas parece realmente que sim
Julio Noronha – 20:40:09 – Acho Q o código da alta administração federal não se aplica ao presidente
Noronha – 20:40:17 – Só até ministro, salvo engano
Galvão – 20:40:31 – verdade
Galvão – 20:41:18 – então só seria de nosso interesse encontrar nesse depósito bens recebidos de outros chefes de estado, e bens existentes antes da presidência dele. é isso?
Noronha – 20:43:00 – Em principio, sim. Mas, acho q devemos aguardar para ver o Q apreenderam lá. De repente, há algo diferente
Galvão – 20:46:36 – Uma coisa ruim: a própria lei prevê que entidades privadas podem manter o acervo documental privado de ex-presidente. Ideal então talvez seja descaracterizar esse material como acervo documental.
Deltan Dallagnol – 20:47:29 – Então o BB manter não tem problema
Dallagnol – 20:47:42 – Diferente da OAS que manteve como contraprestação
Galvão – 20:48:10 – Demonstrar que a OAS manteve bens pessoais e não o acervo documental.
Galvão – 20:49:32 – A reforma no Planalto durou de março de 2009 a agosto de 2010, período em que o L despachou no centro cultural banco do brasil.
Dallagnol – 20:52:38 – Qual a definição de acervo documental?
Dallagnol – 20:52:48 – Entram todos os presentes?
Dallagnol – 20:53:06 – tudo, menos o que recebeu de chefes de estado em viagens ou visitas oficiais
Athayde Ribeiro Costa – 20:53:54 – Entao tem mt coisa q nao podia levar

Enquanto o procurador Galvão fazia observações tardias sobre o que diz a lei a respeito de presentes a ex-presidentes, a revista Época já exibia em seu site uma reportagem sobre os bens apreendidos do ex-presidente. Santos Lima se penitenciou com Deltan — e acusou a Polícia Federal pela divulgação com tom de vazamento. “Já está na época. Foi a PF. Ilusão ficar cheio de dedos. Poderíamos ter capitalizado melhor”, escreveu Santos Lima.

A estratégia funcionou. Mesmo sendo legais, os presentes de Lula foram vistos pela população como uma espécie de benefício imoral do ex-presidente. Dias depois, um grampo ilegal de uma conversa entre Lula e a então presidente Dilma Rousseff — sugerindo a ideia de ambos de que Lula poderia assumir um ministério e, assim, garantir foro especial — seria divulgado pela GloboNews depois do levantamento de sigilo feito por Sergio Moro.

O caldo acabou impedindo Lula de assumir o Ministério da Casa Civil por uma decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Em 2019, uma reportagem da Vaza Jato em parceria com a Folha de S.Paulo revelou que, além de dar publicidade apenas ao grampo ilegal, Moro ainda escondera da população outros 21 áudios. As conversas gravadas pela Polícia Federal em 2016 enfraquecem a tese usada por Moro para justificar a decisão de publicar o áudio.

Os diálogos, que incluem conversas de Lula com outros atores políticos, entre eles o então vice-presidente Michel Temer, revelam que o ex-presidente relutou em aceitar o convite para ser ministro e só o aceitou após sofrer pressões de aliados. Lula, nos áudios que até hoje não vieram a público, só menciona as investigações em curso uma vez.

Sergio Moro absolveria Lula e Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, da acusação feita pela Lava Jato de que a guarda dos bens presidenciais se tratou de “contraprestação” de contratos da empreiteira com a Petrobras.

Já o acervo no Banco do Brasil, aquele que a Lava Jato acreditou ser a chave para prender Lula em flagrante e proceder uma via sacra de humilhações ao petista, nunca foi usado para embasar denúncias à justiça.

Parte 32

Uma enorme coleção de materiais nunca revelados fornece um olhar sem precedentes sobre as operações da força-tarefa anticorrupção que transformou a política brasileira e conquistou a atenção do mundo.

27
Fev21

Requião reage a Dallagnol e diz que procurador não tem vergonha nem patriorismo

Talis Andrade

Roberto Requião e Deltan Dallagnol

247 - O ex-governador e ex-senador Roberto Requião reagiu a um ataque do procurador da república Deltan Dallagnol, revelada em mensagens acessadas por Walter Delgatti Neto.

"Não me causa surpresa Deltan festejar com jantar minha não reeleição para o senado. Afinal ele mesmo admite que não tem vergonha na cara. Nem vergonha nem patriotismo, nem respeito aos brasileiros. Por isso redigi e aprovei a lei de abuso de poder de agentes públicos”, comentou no Twitter.

Requião foi o autor do texto aprovado no Congresso Nacional que pune com mais rigor os abusos de autoridades.

Nas mensagens acessadas por Delgatti, Deltan Dallagnol aparece comemorando a derrota de políticos com os quais não simpatizava e que, em alguns casos, como coordenador da Lava Jato, já havia atacado.

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Imparcialidade da lava jato levava ao jejum os cruelmente evangélicos 

 

“Requião e Beto fora. Tamo comemorando aqui. Comedido kkkk. Acho q pra fora temos q ser mto cuidadosos. Mas a gente tem que fazer uma janta de comemoração”, disse sobre a derrota de Roberto Requião (MDB) e Beto Richa (PSDB) para o Senado.

Um pouco depois, voltou ao chat para dizer:

“Vamos relacionar as notícias boas. 1. Beto Richa fora 2. Requião fora 3. Delcidio fora 4. Filhos de Cabral e Cunha fora 5. Witzel indo pro 2º no RJ 6. Lindbergh fora 7. Dilma fora 8. Pimentel fora 9. Graziotin fora”.

Nesta sexta-feira (26/02),  Requião já havia comentado: 

“Eu não festejo a desgraça do Sérgio Moro e do Dalagnol, mas me entristeço pelo fato de terem transformado a imagem e a prática do MP e do Judiciário, na merda em que transformaram.”

Deltan Dallagnol também teve divulgada uma mensagem em que ele fala de seus planos políticos.

Ele gostaria de ser candidato a senador pelo Paraná, e lançar colegas procuradores candidatos por outros Estados.

Deltan Dallagnol chegou a interferir na eleição para a mesa do Senado, no início de 2019, atacando Renan Calheiros e apoiando Davi Alcolumbre.

A Lava Jato era, na verdade, um projeto político de poder, como entendem diversos analistas independentes.

 

03
Fev21

"Precisamos fazer algo em relação a Gilmar Mendes", disse Dallagnol a procuradores

Talis Andrade

Iotti / Agencia RBS

 

Por Tiago Angelo /ConJur

Irritado por causa de uma decisão proferida em maio de 2018 por Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, o procurador Deltan Dallagnol, então coordenador da "lava jato" no Paraná, passou a articular uma investida contra o ministro. 

A informação consta de uma troca de mensagens entre procuradores à qual a ConJur teve acesso. O diálogo faz parte do material apreendido pela Polícia Federal no curso da chamada operação "spoofing", que mira hackers responsáveis por invadir celulares de autoridades. 

Na conversa, os integrantes do MPF em Curitiba comentavam um Habeas Corpus concedido por Gilmar ao ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, que é apontado como operador de propina para o PSDB.  

"Precisamos reagir ao GM [Gilmar Mendes]. Vou articular com SP e RJ algo. Caros precisamos fazer algo em relação a GM", disse Dallagnol, se referindo às ramificações da "lava jato" no Rio de Janeiro e em São Paulo. 

ConJur manteve as abreviações e eventuais erros de digitação e ortografia presentes na mensagem do então coordenador da "lava jato".

Paulo Preto estava preso por determinação da 5ª Vara Federal de São Paulo quando foi solto por Gilmar. Na ocasião, no entanto, o ex-diretor da Dersa já estava na mira dos procuradores do Paraná. Em 19 de fevereiro de 2019, menos de um ano depois da conversa, Paulo Preto voltou a ser preso a pedido da "lava jato" de Curitiba. 

 

Investigação contra Gilmar


Em agosto de 2019, o El País, em parceria com o The Intercept Brasil, revelou outro episódio envolvendo investidas contra Gilmar. A reportagem divulgou conversas em que os integrantes do MPF no Paraná planejaram usar a investigação contra Paulo Preto para tentar emparedar o ministro do Supremo. 

Dallagnol sugeriu pedir que autoridades da Suíça procurassem menções específicas ao nome do ministro para saber se havia relação entre ele e Paulo Preto. 

As conversas também revelam que a "lava jato" em Curitiba cogitou pedir o impeachment de Gilmar ao Senado. Desistiram quando a procuradora Laura Tessler disse ter ficado sabendo que o advogado Modesto Carvalhosa protocolaria uma solicitação dessa natureza.

"Nós não podemos dar a entender que investigamos GM. Caso se confirme essa unha e carne, será um escândalo", disse Dallagnol ao grupo. Logo em seguida, ele sugeriu que fossem apuradas ligações de Paulo Preto para telefones do Supremo. "Mas não é novidade que Gilmar veio do psdb e de dentro do governo fhc!!! Cuidado com isso", acrescentou o procurador Paulo Galvão. 

Procuradores da República que oficiam em primeiro grau não podem investigar ministros do Supremo. Roberson Pozzobon tentou ser a voz da razão, mas também sugeriu ignorar a competência do MPF. "Acho que temos que confirmar minimamente isso antes de passar pra alguém investigar mais a fundo, Delta".

 

Articulação com partido


Outra reportagem, dessa vez publicada pelo UOL, também em parceria com o Intercept, revelou que Dallagnol articulou com o partido Rede Sustentabilidade para que uma ação fosse ajuizada contra Gilmar. 

De acordo com as conversas, a "lava jato" queria manter o ministro do STF longe de julgamentos envolvendo a "operação". A iniciativa começou depois que Gilmar determinou a soltura de Beto Richa (PSDB), ex-governador do Paraná. 

"Resumo reunião de hoje: Gilmar provavelmente vai expandir decisões da Integração pra Piloto. Melhor solução alcançada: ADPF da Rede para preservar juiz natural", disse Dallagnol em grupo de procuradores no Telegram no dia 9 de outubro de 2018.

Duas horas depois, ele voltou para contar que o senador Randolfe Rodrigues (Rede) "super topou" propor uma arguição de descumprimento de preceito fundamental. No dia seguinte, 10 de outubro, o procurador Diogo Castor falou que enviou uma sugestão de ADPF para assessor de Randolfe.

Já no dia 11, a Rede protocolou a ADPF que pedia que Gilmar Mendes fosse impedido de "liberar indiscriminadamente" presos na operação. No pedido, os advogados afirmaram que o ministro concedeu "extravagantes liminares" e Habeas Corpus de ofício a pelo menos 26 investigados em crimes de corrupção. 

05
Nov20

Símbolo dos movimentos secundarias de 2016, Ana Júlia agora universitária volta à luta

Talis Andrade

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Ela defende as universidades: 'Quando o governo corta ou limita o Orçamento, ele destrói o sonho de milhões de jovens'

 

por RENÉ RUSCHEL /Carta Capital

- - -

O corpo franzino, os cabelos esvoaçantes, o sorriso largo e a voz pausada disfarçam a força da curitibana Ana Júlia Ribeiro, estudante de Direito (UFPR) e Filosofia (PUCPR). “Minha história foi um acidente”, resume.

Tudo começou em uma quarta-feira, 26 de outubro de 2016. Mais de 800 escolas no estado permaneciam ocupadas por estudantes secundaristas, em protesto contra a Medida Provisória de Michel Temer que previa a reformulação no Ensino Médio. Eis que Ana Júlia atende ao telefone. “Recebi o convite para falar na Assembleia Legislativa sobre a paralisação. Pedi um tempo para consultar os companheiros. Eles acharam que eu devia aceitar. Topei.” No dia seguinte, emocionada e “muito nervosa”, a secundarista subiria à tribuna, não se intimidaria diante do presidente da Casa, calaria o plenário e despontaria como a estrela do renascimento do movimento estudantil.

“Não somos doutrinados nem estamos lá para brincadeira. Sabemos o que queremos e pelo que estamos lutando”, discursou. Dois dias antes, um colega havia morrido em uma das escolas ocupadas. Ana Júlia encarou os parlamentares e disparou: “Vocês estão com as mãos sujas de sangue”. Ao fim, acabaria ovacionada.

Filha de um assistente social, depois advogado, e uma professora primária, Ana Júlia teve uma infância tranquila. Aos 6 anos dava sinais de seus pendores políticos. Em 2006, a escola ensaiava uma peça de teatro e ela fazia parte do elenco. Até saber de uma apresentação especial para o então prefeito da capital, o tucano Beto Richa. “Disse à professora que não iria participar, porque não gostava dele.” A mãe foi chamada pela direção da escola, mas ninguém conseguiu demovê-la da ideia. A carreira de atriz estava encerrada.

Na adolescência, uma de suas paixões foi a leitura. Com o pai fazia apostas: a cada 15 livros lidos, com os respectivos resumos apresentados, tinha direito a um presente. Encarou as obras de Shakespeare. Em casa, os livros ficavam espalhados sobre uma estante e ela escolhia pelo título. Aos 12 anos esbarrou em um exemplar de O Príncipe, de um certo Nicolau Maquiavel. Leu, mas não entendeu. “Por coincidência, neste semestre, na faculdade, estamos estudando esse livro”, conta.

Pouca coisa mudou desde o dia em que Ana Júlia enfrentou os deputados paranaenses, quatro anos atrás. O cenário só piorou, na verdade. Tornou-se impossível, portanto, dar um tempo na militância. Nos protestos em defesa do ensino e da ciência, em maio, a agora universitária estava nos palanques em Curitiba. “A educação é a base segura do desenvolvimento econômico e social de qualquer país. Educar é apropriar conhecimento. Precisamos dotar nossos jovens de formação humana e intelectual, para depois pensar em capacitação. No Brasil, interessa apenas o trabalho para se transformar em mão de obra. Este deve ser o grande embate em favor da educação pública”, resume.

A deterioração social, política e econômica teve o efeito de fortalecer as suas convicções. “Comigo, todo esse processo deu-se às avessas. Quando tudo aconteceu, eu não tinha formação política ou conhecimento teórico. Não sabia o que era militância política. Restou seguir minha intuição e os conselhos de quem me cercava.”

A educação pública, acredita, não pode se manter à base do romantismo, das planilhas teóricas ou das promessas de campanha, mas a partir de ações concretas, capazes de interpretar o mundo real. “Quando o governo corta ou limita o Orçamento, ele destrói o sonho de milhões de jovens. Tirar dinheiro dos restaurantes universitários é fazer os estudantes passarem fome.” Como no caso das ocupações secundaristas de 2016, avalia, o principal desafio é convencer os universitários da importância das políticas públicas e incentivá-los a protestar contra a usurpação de seus direitos.

“Minha história foi um acidente”, resume a estudante, ao relembrar a ocupação das escolas em Curitiba 

Nesse esforço ela não está sozinha. Matteus Henrique de Oliveira, 22 anos, aluno de Direito na Federal do Paraná, é secretário-geral do Diretório Central dos Estudantes. Empenhado na luta por melhorias no ensino público, ele acredita que o maior desafio do movimento estudantil neste momento tem sido manter a força e a coesão. “Como lideranças, não fomos capazes de mobilizar os estudantes em questões como a reforma trabalhista e, mesmo recentemente, na discussão sobre a reforma da Previdência. Eles vieram às ruas porque, de fato, agora o problema os atinge diretamente.”

Deu-se, acredita Oliveira, um salto de qualidade. A partir das demandas pessoais, os estudantes entenderam os efeitos gerais das medidas do governo sobre a vida dos cidadãos, estejam eles ou não em uma faculdade. E vê nos protestos uma oportunidade para o movimento estudantil recuperar o protagonismo do passado. “Não basta sair às ruas e se manifestar. É preciso discutir, debater e propor medidas. Faltou, para nós, uma política de comunicação que mostrasse propósitos e objetivos claros.”

Ana Júlia teve de aprender rápido a lidar com as nuances da vida universitária, mas tudo em sua vida sempre aconteceu de maneira veloz. Sua indicação para falar na Assembleia não foi por acaso. A Medida Provisória nº 746 começava a ser discutida pelos estudantes e professores. Um panfleto com informações sobre as alterações no Ensino Médio caiu em suas mãos. A leitura atenta estimulou-a a discutir a MP com colegas. “No início eram poucos, cinco ou seis apenas. Mas tomamos consciência de que as mudanças iriam afetar as nossas vidas.”

O primeiro passo levou o grupo à sala da diretora da escola. Ana Júlia e os colegas queriam permissão para estender o debate aos demais estudantes. A diretora não se opôs, mas limitou as reuniões a antes e depois do recreio. “A gente lia o folder que tinha recebido, ponto por ponto. Depois, debatíamos cada item. Descobrimos que nós, estudantes, seríamos os mais prejudicados.” As conversas ganharam dimensão com as manifestações marcadas naquele período. Na primeira passeata, cerca de 30 dos 400 estudantes saíram às ruas. Foi só o estopim. Insuflados pelas crescentes manifestações Brasil afora, os alunos de Curitiba decidiram ocupar a escola como forma de protesto. “Foram 15 dias intensos”, recorda. Os professores não se envolveram. Coube aos próprios estudantes planejar a ocupação. Eles mapearam o prédio e dividiram as tarefas.

Para a maioria, acredita Ana Júlia, o grande aprendizado foi perceber que a democracia exige uma boa dose de paciência e de maturidade para conviver com as divergências e as adversidades. “A quase totalidade deles nunca havia participado de uma manifestação pública. Até os diretores e os professores aprenderam a lição. Eles não foram democratas por opção, mas porque viram que era a melhor opção.”

Aos 20 anos, ela já pode se considerar uma experiente militante. Após o discurso na Assembleia Legislativa, choveram convites para viajar pelo Brasil e pelo mundo. “Imagine, eu nunca havia me hospedado em hotel. Para mim, foi um enorme choque. Uma reviravolta sem limites”, recorda. Esteve na Índia, na Costa Rica, no Uruguai, na Itália, e em Gana, na África.

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COM KAILASH SATYARTHI, NOBEL DA PAZ, E A ENTÃO SENADORA FÁTIMA BEZERRA. (FOTO: MARCOS OLIVEIRA/AG. SENADO)

Além da militância estudantil, Ana Júlia coordena no Brasil a campanha “100 Milhões por 100 Milhões”, do Nobel da Paz Kailash Satyarthi

A convite do Prêmio Nobel da Paz em 2014, o indiano Kailash Satyarthi, assumiu, no Brasil, a coordenação da juventude na campanha internacional “100 Milhões por 100 Milhões”. O objetivo do projeto é mobilizar 100 milhões de indivíduos, especialmente jovens, na luta pelos direitos de 100 milhões de crianças que vivem na extrema pobreza, sem acesso a saúde, educação e alimentação, em situação de trabalho infantil e completa insegurança. O projeto aumenta a sua responsabilidade – e a sua projeção.

Ana Júlia e Oliveira são protótipos de uma nova geração de estudantes que não se envergonham de defender um ensino público, gratuito e de qualidade. Filhos de trabalhadores, mães professoras, estudaram em escolas públicas e foram forjados na defesa dos interesses da maioria. O conhecimento da realidade deu-se fora das salas de aula. Brotou dos desafios cotidianos, da defesa dos valores democráticos, da ocupação das ruas. A experiência vale como um diploma.

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Ana Júlia é a aposta da juventude do PT para a Câmara de Curitiba  Leia no jornal Estado de São Paulo aqui

Ana Júlia 13013
@najuliaribeiro
Outra vez Bolsonaro interfere na democracia das universidades e nomeia o MENOS votado da lista tríplice para reitor na Universidade Federal da Paraíba, desrespeitando o voto de toda a comunidade acadêmica! Inaceitável! Chega de intervenções autoritárias nas nossas universidades!
Ana Júlia 13013
@najuliaribeiro
Foi aprovado hoje no Congresso Nacional o projeto de lei enviado pelo governo que RETIRA R$ 1,4 bilhão do orçamento da Educação para repassar para obras. Agora a aprovação está nas mãos dos senadores. Não podemos permitir isso! É mais um ABSURDO do governo contra nossa educação!
03
Out20

Não é para ter Lava Jato no “Posto Ipiranga”

Talis Andrade

por Fernando Brito 

Desta vez não foi o The Intercept.

Fabio Fabrini, na Folha, mostra que a Força Tarefa da Lava Jato, ao apresentar à Justiça a denuncia de que a Power Marketing Assessoria e Planejamento, operada por um assessor do ex-governador Beto Richa, possivelmente intermediava o pagamento de propinas ao tucano paranaense, poupou a empresa GPG. da qual o Ministro Paulo Guedes era sócio, da relação de supostos clientes de consultoria “de fachada”.

Foram R$ 560,8 mil, pagos em 14 de agosto de 2007. “Sete dias depois, Nasser sacou R$ 500 mil da conta da empresa”, conta a Folha.

Embora haja uma rápida citação da GPG, em uma nota de rodapé na denúncia que atinge 18 pessoas, entre eles os responsáveis por outras duas empresas que também ao escritório suspeito, que foram presos, denunciados e viraram réus de ação penal aberta pelo então juiz Sergio Moro.

Não houve sequer interesse em ouvir explicações da empresa, que fechou formalmente, mas deixou, no mesmo endereço – na Praia de Botafogo, no Rio – outras empresas que passaram ao nome do filho de Paulo Guedes, Gustavo.

A denúncia foi apresentada em abril do ano passado, quando Guedes já era conhecido, há meses, como o eventual ministro da Economia de Jair Bolsonaro e o principal denunciado, Carlos Felisberto Nasser, que trabalhava na Casa Civil do governo Richa, morreu em dezembro de 2018.

Nos próximos dias, vocês verão que cabia de tudo nos negócios do Posto Ipiranga, mas não coube a Lava Jato.

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- - -

Nota deste correspondente: Antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, Paulo Guedes viajou várias vezes para Curitiba, e negociou com Sergio Moro os cargos de ministro da Justiça e do STF. Foi assim que o intocável Guedes se transformou em corrupto de estimação da Lava Jato. 

13
Jul20

O último baluarte do falso moralismo

Talis Andrade

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O falso moralismo golpista é um dos principais pilares no processo de produção do maior desastre político do Brasil em tempos não ditatoriais: a eleição de Bolsonaro para a presidência

Por Aldo Fornazieri/ GGM

A prisão do empresário Carlos Augusto de Moraes Afonso, conhecido como Luciano Ayan, ideólogo e financiador do MBL (Movimento Brasil Livre), um dos principais grupos que defendeu o impeachment de Dilma Rousseff, decretou a queda do último baluarte do falso moralismo de que se revestiram todos os principais atores daquele movimento golpista. A rigor, não sobrou ninguém, a começar com Aécio Neves, que detonou o movimento golpista ao questionar a legalidade da reeleição de Dilma no TSE, no início de 2015. Foram tantos que apareciam nas mídias e nas redes sociais vestindo amarelo e, tempos depois, eram vistos no noticiário das denúncias sob acusações de envolvimento com pesados esquemas de corrupção. Sequer o “Santo” se salvou de acusações. A leniência, a tardança e o corpo mole do Judiciário em relação a determinados políticos e a determinados partidos impedem que o escandaloso movimento golpista do falso moralismo fique completamente desnudado. Vejam-se os casos de José Serra, do próprio Aécio, de Beto Richa e de tantos outros que dormitam nas gavetas do Judiciário.

O falso moralismo golpista é um dos principais pilares no processo de produção do maior desastre político do Brasil em tempos não ditatoriais: a eleição de Bolsonaro para a presidência. O resultado é uma democracia açoitada, direitos estraçalhados, a floresta Amazônica derrubada e queimada, o Brasil desmoralizado no mundo e a morte semeada por uma pandemia estimulada criminosamente pelas ações de um governo que não só nada fez para controla-la e salvar vidas, mas que foi um dos principais vetores de sua disseminação.

O falso moralismo, na verdade, é filho do moralismo que é diferente da moralidade. Esta é a exigência e a conformação da conduta às normas morais. A moralidade pública e administrativa e a probidade são exigências constitucionais e legais e os políticos e agentes públicos deveriam pautar suas ações por essas exigências. Tais exigências são consoantes com o sentimento geral da população, que condena a corrupção embora ela possa ser enganada e manipulada a esse respeito, como mostra a história política de todos os tempos.

O juiz quando julga, por isso, deve considerar os princípios que fundamentam a constituição, mas deve emitir sua sentença de acordo com a tecnicidade da própria constituição e das leis limando a sua vontade e a própria vontade popular para que a sentença seja juridicamente justa e constitucional. A moralidade é o valor fundante, a pedra inaugural da constituição, mas a constituição é garantia de direitos fundamentais e Estado de Direito. Por isso, nenhum juiz pode se deixar levar pela ânsia exasperada de fazer justiça ou por clamores insuflados nos seus julgamentos. A sua baliza é a constituição e as leis.

O Brasil, de tempos em tempos, principalmente quando o povo manifesta sua justa indignação com a corrupção e com a falta de atendimento às suas demandas, é tomado por ondas moralistas comandadas por grupos e líderes que vestem a capa de paladinos da moralidade. São os moralistas.

Os moralistas começam por moralizar todas as coisas – dos costumes às ações políticas – e se recusam, deliberadamente, a compreender as situações sobre as quais emitem seus juízos morais. Na verdade esse moralismo que expressam é pura forma destituída de conteúdo e de realidade humana e, por isso é, necessariamente, um falso moralismo.

Negando a realidade e seu conteúdo, os moralistas transformam as suas formas morais em verdades e, por isso, negam as evidências e até pesquisas e se tornam mentirosos contumazes. Esta é a fórmula mais eloquente de Bolsonoro e do bolsonarismo. O moralismo não se torna apenas mentiroso, mas se torna também criminoso. Em nome da sua verdade formal, se dá o direito de violar as leis e a constituição para viabilizar a sua vontade identificada com essa verdade sem realidade. Embora o moralismo não se identifique imediatamente com a hipocrisia (pregar uma coisa e fazer outra) ele não deixa de ser também a expressão de uma astúcia hipócrita: imputa aos outros crimes e sob o manto da disseminação da indignação e do ódio, esconde seus próprios crimes.

Em sua verdade, os falsos moralistas se dão o direito de torturar, matar, suprimir direitos, oprimir mulheres, trabalhadores, ser racistas, homofóbicos, supremacistas, fascistas, nazistas. Geralmente são pessoas destituídas de moral e de bom senso. Defendem a família e a violentam, a violam e a oprimem. Desejam o que condenam e condenam o que desejam. A inveja que carregam na alma é uma doença que não tem cura.

O processo do golpe-impeachment contra Dilma, na verdade, contou com o concurso de hipócritas e de falsos moralistas. Os primeiros vinham principalmente dos partidos tradicionais; os segundos, das falanges da extrema-direita e fascistóides. Sérgio Moro foi o pontífice dos falsos moralistas. Além de julgar Lula pela sua vontade moral, violando leis e a Constituição, o seu destino foi servir um governo criminoso. Como o próprio Gilmar Mendes atesta, a grande imprensa não só apoiou a Lava Jato acriticamente, mas foi cúmplice, partícipe daquele movimento de falso moralismo.

Na medida em que não sobraram virgens imaculadas na política brasileira; na medida em que o governo Bolsonaro revelou todo seu caráter antidemocrático, criminoso, corrupto e incompetente; como se avolumam com o passar dos dias as denúncias de irregularidades da Lava Jato; e, acrescente-se, como o pontífice Sérgio Moro perdeu e vem perdendo credibilidade por ter servido esse governo criminoso e porque sua condição de juiz imparcial está irremediavelmente comprometida, diante de tudo isso, o Brasil está prisioneiro de um impasse do qual ninguém sabe como sair.

Em relação a Bolsonaro se formou uma esquizofrenia generalizada entre os políticos e empresários: poucos querem tirá-lo, mas muitos julgam que não dá para continuar com ele. Enquanto isso, de dezena em dezena, o número de mortos pelo Covid vai rumando para os cem mil – a maior tragédia da nossa história. Com exceção de uma ou outra autoridade, ninguém sabe ao certo como agir diante da própria pandemia. A desorientação, o despreparo, o “e daí” geral, vão naturalizando as próprias mortes e essa tragédia vai se transformando numa trágica normalidade.

A maior parte dos líderes políticos tateia no escuro. Escutá-los nas lives é escutar redundâncias, circularidades, declarações que se voltam mais para o passado do que para o futuro, o lugar por excelência do discurso político. Com exceção de alguns grupos de ativistas, o Brasil parece um país com as energias mortas, ceifadas pela pandemia da passividade, da inatividade, da covardia. Uns se deixaram derrotar pelo falso moralismo. Não o enfrentaram com vigor e coragem. Agora, o falso moralismo, desnudado, incompetente, criminoso, se tornou prisioneiro impotente de si mesmo. O povo, doente, desempregado, faminto, abandonado, parece nem mais acreditar que surja um líder, um Moisés, que o conduza pelo deserto rumo a uma terra prometida. A única coisa sensata a ser dita é que cada um de nós tem o dever de lutar pelos direitos do povo, pois sem essa luta ninguém garante nada.

20
Ago19

Não é para ter Lava Jato no “Posto Ipiranga”

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Desta vez não foi o The Intercept.

Fabio Fabrini, na Folha, mostra que a Força Tarefa da Lava Jato, ao apresentar à Justiça a denuncia de que a Power Marketing Assessoria e Planejamento, operada por um assessor do ex-governador Beto Richa, possivelmente intermediava o pagamento de propinas ao tucano paranaense, poupou a empresa GPG. da qual o Ministro Paulo Guedes era sócio, da relação de supostos clientes de consultoria “de fachada”.

Foram R$ 560,8 mil, pagos em 14 de agosto de 2007. “Sete dias depois, Nasser sacou R$ 500 mil da conta da empresa”, conta a Folha.

Embora haja uma rápida citação da GPG, em uma nota de rodapé na denúncia que atinge 18 pessoas, entre eles os responsáveis por outras duas empresas que também ao escritório suspeito, que foram presos, denunciados e viraram réus de ação penal aberta pelo então juiz Sergio Moro.

Não houve sequer interesse em ouvir explicações da empresa, que fechou formalmente, mas deixou, no mesmo endereço – na Praia de Botafogo, no Rio – outras empresas que passaram ao nome do filho de Paulo Guedes, Gustavo.

A denúncia foi apresentada em abril do ano passado, quando Guedes já era conhecido, há meses, como o eventual ministro da Economia de Jair Bolsonaro e o principal denunciado, Carlos Felisberto Nasser, que trabalhava na Casa Civil do governo Richa, morreu em dezembro de 2018.

Nos próximos dias, vocês verão que cabia de tudo nos negócios do Posto Ipiranga, mas não coube a Lava Jato.

 

 

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13
Set18

Lava Jato mente que prendeu Beto Richa. Será que vai soltá-lo?

Talis Andrade

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por Emanuel Cancella

___

 

Não foi a Lava Jato que prendeu o tucano Beto Richa, conforme reportagem: “Procurador da Lava Jato distorce a realidade: prisão de Richa nada tem a ver com a operação Lava Jato” (1).

 

Polícia divulga gravação de Beto Richa, em áudio com doleiro: ‘Já entrou um tico-tico lá que tava atrasado (2).

 

A imprensa tenta confundir a sociedade, mas o fato é que tucanos não vão presos pela Lava Jato. Seja por força contratual da Mulher de Moro, já que Rosângela Moro  tem contrato com o PSDB e a Shell (3 a 6), seja pelo histórico do Juiz Sergio Moro.

 

Moro chefia a investigação da Lava Jato e chefiou a do Banestado. Discurso do senador Roberto Requião do PMDB/PR, no plenário do Senado Federal: “O maior escândalo de corrupção do Brasil não é o Mensalão, o Petrolão é o do Banestado que surrupiou dos cofres públicos meio trilhão de reais. Um escândalo exclusivamente tucano e nenhum deles foi preso” (7).

 

Por outro lado, na Lava Jato, também chefiada por Moro: O ex-presidente Lula foi denunciado, condenado e preso pela Lava Jato e não pode ser candidato. Tudo isso sem qualquer comprovação, segundo as próprias palavras do procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, ao vivo na Globo: Não tenho provas contra Lula mas tenho convicção de que ele é o comandante máximo da corrupção na Petrobrás (8).

 

Enquanto isso, o ex-presidente tucano, FHC, embora denunciado várias vezes na Lava Jato em corrupção na Petrobrás e, em algumas, envolvendo seu próprio filho, nem sequer é investigado (9). FHC também admitiu em seu livro, ‘Diários da Presidência’ que havia corrupção em seu governo na Petrobrás (10).

 

Os indícios de enriquecimento ilícitos de FHC são gritantes: FHC possui apartamento de luxo em Paris e Nova York e fazenda com aeroporto no Brasil (12,13).

 

A blindagem aos tucanos na Petrobrás é tão escancarada que, em novembro de 2016, eu, Emanuel Cancella, sindicalista, Secretário Geral do Sindipetro-RJ e Coordenador da Federação Nacional dos Petroleiros - FNP, denunciei ao MPF a omissão da Lava Jato em relação à gestão criminosa dos tucanos FHC e Pedro Parente, na Petrobrás. Até hoje sem resposta. Veja a denúncia na íntegra (11).

 

Ou melhor, o MPF ainda me intimou por duas vezes em um ano, acusando-me de possíveis crimes contra a honra do juiz Sergio Moro (14 a 16).

 

Não se iluda com a Lava Jato, ela nunca prenderia um tucano. Os tucanos delatados na Operação Lava Jato sequer são investigados e continuam impunes, como por exemplo: Aécio Neves, recordista em delação na Lava Jato; FHC denunciado, inclusive junto com o filho; os senadores tucanos Anastasia,  Aloysio Nunes e José Serra foram também delatados. Nada acontece com eles ! Por isso o tucano Beto Richa, apesar de denunciado na Lava Jato, jamais seria preso pela Operação. Mas será que a Lava Jato vai soltar Beto Richa?

 

Não seria a primeira vez que Lava Jato, de forma muito suspeita, libera bandido, pois, os principais ladrões da Petrobrás estão “presos” em suas casas, verdadeiros clubes de lazer construídos com dinheiro da roubalheira.

 

Dentre eles, Sérgio Machado, Fernando Baiano, Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa. Esses últimos condenados respectivamente a mais de 30 e 80 anos de cadeia (17).

 

Fonte:

1https://www.cartacapital.com.br/politica/procurador-da-lava-jato-distorce-a-realidade-prisao-de-richa-nada-tem-a-ver-com-a-operacao

2https://www.brasil247.com/pt/247/parana247/368516/Richa-em-%C3%A1udio-com-doleiro-'j%C3%A1-entrou-um-tico-tico-l%C3%A1-que-tava-atrasado'.htm

3https://www.conversaafiada.com.br/brasil/2014/12/06/mulher-de-moro-trabalha-para-o-psdb

4https://www.ocafezinho.com/2017/08/29/moro-entra-em-contradicao-sobre-sociedade-de-sua-esposa-com-delatado-na-lava-jato/

5http://blogdafolha.blogspot.com/2015/09/afinal-dr-moro-quanto-sua-esposa.html

6https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-mulher-do-juiz-do-lava-jato/

7https://www.ocafezinho.com/2015/10/03/requiao-relembra-banestado-roubalheira-tucana-desviou-meio-trilhao/

8https://www.diariodocentrodomundo.com.br/nao-temos-provas-mas-conviccao-o-powerpoint-de-dallagnol-nos-jogou-de-vez-no-paraguai-por-kiko-nogueira/

9https://www.cartacapital.com.br/revista/895/negocios-de-familia

10https://exame.abril.com.br/brasil/fhc-foi-alertado-de-escandalo-da-petrobras-em-1996/

11http://www.fnpetroleiros.org.br/noticias/3901/petroleiro-denuncia-a-operacao-lava-jato-ao-mpf-veja-na-integra-teor-da-denuncia-protocolada-ontem

12http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/fhc-tem-apartamento-em-nova-york-e-em-paris-diz-mirian-dutra/

13http://www.tijolaco.com.br/blog/a-historia-da-incrivel-fazenda-de-20-dolares-de-fhc-e-seu-aeroporto-de-empreiteira/

14http://www.viomundo.com.br/denuncias/moro-intima-petroleiro-por-possiveis-praticas-de-crime-contra-a-honra-de-servidor-publico-federal.html

15http://emanuelcancella.blogspot.com.br/2017/12/mandado-de-citacao-e-intimacao-contra_6.html

16 http://emanuelcancella.blogspot.com/2018/08/ata-de-audiencia-do-dia-070818.html

17http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/politica/2016/07/10/interna_politica,654284/delatores-cumprem-prisao-domiciliar-em-mansoes-e-coberturas.shtml



***

07
Ago18

Beto Richa é condenado pela justiça estadual do Paraná. Pela federal ele passa todas

Talis Andrade

 

A justiça federal, notadamente a republica do Paraná, ou corriola de Curitiba, engaveta todos os processos contra Beto Richa.

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Escreve Renato Rovai: 

 

Beto Richa é delatado por corrupção de R$ 20 milhões. Mas não há de ser nada, ele é tucano


O governador do Paraná, Beto Richa, é o mesmo que colocou policias para espancar professores que lutavam por reajuste salarial. E o dinheiro roubado é da educação.

 

 

Consta de uma delação premiada do dono da Construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, que o então diretor da Secretaria de Educação (Seed), Maurício Fanini, participou de uma reunião na casa do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), 45 dias antes da eleição de 2014, para discutir caixa dois. E que além deles estava o atual presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Ademar Traiano, também do PSDB.

 

Eduardo Souza é investigado por fraudes em licitações na construção de escolas do estado que chegam a R$ 20 milhões.

 

O esquema foi desvendado pela Operação Quadro Negro, do Ministério Público do Paraná (MP-PR). O escândalo deixou em ruínas obras de seis escolas estaduais que atenderiam milhares de alunos em todo o estado.

 

O empresário foi preso na primeira fase da operação e ficou um ano e meio na cadeia.No acordo que vai liberá-lo da prisão, ele afirmou que Fanini sugeriu que seria bom ter alguém do Tribunal de Contas do Paraná “com eles”.

 

E que isso o fez procurar o conselheiro Durval Amaral e sugerir ajuda financeira para a campanha do filho de Durval, Tiago Amaral (PSB), então candidato ao cargo de deputado estadual.

 

Eduardo afirmou que combinou com uma pessoa ligada a Durval um pagamento de R$ 50 mil para o caixa dois da campanha do filho dele.

 

O pagamento, declarou o delator, foi feito a uma assessora no comitê de Tiago Amaral. Tiago Amaral foi eleito em 2014, e o pai dele é o atual presidente do Tribunal de Contas.

 

No acordo, o dono da Construtora Valor se comprometeu a apresentar provas de tudo o que disse e a abrir mãos de bens. Com isso, ganhou o benefício de não ser preso e usar tornozeleira eletrônica por dois anos.

 

Essa história está sendo contada aqui e ali em alguns portais. É uma bomba. Até porque o governador Beto Richa é o mesmo que colocou policias para espancar professores que lutavam por reajuste salarial. E o dinheiro roubado é da educação.

 

Beto Richa Tirano-  por Roque Sponholz .jpg

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Mas o assunto rapidamente sairá da pauta. E o governador, o presidente da Alep e o conselheiro do Tribunal de Contas e seu filho , Tiago Amaral, atualmente deputado, vão continuar por aí incentivando patos a baterem panelas contra a corrupção.

 

Se eles fossem de partidos como o PT, PCdoB ou PSoL o caso renderia horas de JN. Mas como se sabe, com tucanos é de outro jeito. Eles têm passe livre pra corruptar. Sim, corruptar vem de corruptês. É um neologismo de corrupção. Algo meio tucanês. Já que tucano não é corrupto, como se sabe.

 

Beto Richa é condenado em tribunal de 2ª instância no Paraná

 

Relata Esmael Morais:

 

O ex-governador Beto Richa (PSDB), candidato ao Senado, foi condenado nesta terça (7) por um tribunal de segunda instância — o Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR).

 

Por 3 votos a 2, a 4ª Câmara Cível do TJPR manteve a condenação do tucano e da ex-primeira-dama Fernanda Richa para que devolvam aos cofres públicos diárias gastas durante uma viagem em Paris, em 2015.


Militantes do PSTU e PSOL ajuizaram a ação popular em 2015 contra o casal. Eles pediram que o ex-governador e a ex-primeira-dama, atual secretária de Estado da Ação Social, devolvessem R$ 24 mil ao erário.


O casal Richa é acusado de passear em Paris, na França, com dinheiro público durante uma viagem realizada à China em 2015. O TJPR entendeu que não era necessária a “parada técnica” em Paris, alegada pela defesa do ex-governador.

 

 

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