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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

15
Jul22

Viúva de Bruno pede retratação de Bolsonaro, Mourão e do presidente da Funai

Talis Andrade
Antropóloga, mulher de Bruno Pereira mantém luta indigenista

 

O indigenista Bruno e o jornalista inglês Dom Phillips foram barbaramente assassinados numa emboscada quando retornavam de excursão pelo Vale do Javari, região com maior população de indígenas isolados do mundo

 

Beatriz Matos durante a audiência (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

 

A antropóloga Beatriz Matos, viúva de Bruno Pereira, pediu ao presidente Jair Bolsonaro (PL), o vice Hamilton Mourão e o presidente da Funai, Marcelo Xavier, que se retratem pelas declarações feitas sobre o trabalho do indigenista assassinado no dia 5 de junho, em Atalaia do Norte, no oeste do Amazonas.

Bruno e o jornalista inglês Dom Phillips foram barbaramente assassinados numa emboscada quando retornavam de excursão pelo Vale do Javari, região com maior população de indígenas isolados do mundo.

“Gostaria que o presidente do Brasil, o vice-presidente do Brasil e o presidente da Funai se retratassem em razão das declarações ridículas que fizeram. O presidente da Funai falou em ilegalidade da presença deles ali. O presidente da República falou coisas que eu me recuso a repetir aqui. Isso não é uma questão menor. É uma questão muito séria”, protestou Beatriz durante audiência na comissão temporária do Senado nesta quinta-feira (14).

Bolsonaro chegou a definir a excursão dos dois como uma “aventura não recomendada”. “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer”, afirmou ao SBT.

Leia mais: Suspeito nega na PF ser mandante dos assassinatos de Bruno e Dom

Mourão disse que se há um mandante do crime contra o jornalista e o indigenista, “é um comerciante da área que estava se sentindo prejudicado pela ação principalmente do Bruno e não do Dom, o Dom entrou de gaiato nessa história. Foi efeito colateral”.

Embora Bruno e Dom estivessem na região de forma legal, o presidente da Funai declarou: “Esta não foi uma missão comunicada à Funai. A Funai não emitiu nenhuma permissão para ingresso. É importante que as pessoas entendam que quando se vai entrar numa área dessas, existe todo um procedimento”.

O indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips (Foto: Reprodução)

 

Falta de condolência

De acordo com ela, a família também não recebeu uma palavra de condolência dessas autoridades. “No funeral do Bruno, tinham representantes do governo municipal, do governado estadual, não tinha do governo federal. Com exceção de vocês senadores e dos deputados, na Comissão da Câmara também, a gente não teve nenhum apoio”, disse a viúva.

“O Bruno era um funcionário público dedicadíssimo, seriíssimo, hiper comprometido com o trabalho dele. Por isso que os funcionários da Funai estão indignados, estão em greve, estão em movimento”, considerou.

Para ela, o presidente da Funai acusa o funcionário no lugar de tomar para si a investigação, a proteção, a indignação, o cuidado com a família. “É indignante a falta de apoio que a gente teve da esfera [federal] deste país. É indignante. A gente viu a manifestação do primeiro-ministro britânico, sabem, enfim”.

Na ocasião, Boris Johnson, então primeiro-ministro do Reino Unido, declarou-se preocupado com o desaparecimento deles e disse que seu governo “estava pronto para dar apoio no que o Brasil precisar”.

 

Funcionários da Funai desprotegidos

 

Beatriz, que já trabalhou na região, protestou ainda pela falta um plano emergencial para a segurança do Vale do Javari.  “Os funcionários da Funai lá estão desprotegidos. O movimento indígena está desprotegido. Os próprios indígenas estão desprotegidos”, reclamou.

“É o lugar de vida dessas pessoas há milênios, há muito tempo. Antes de ter Brasil, os Marúbos estavam lá, construindo a sua vida, sua cultura, tudo que eles são hoje. Antes de ter a fronteira Brasil e Peru ali”, explicou a antropóloga.

Por fim, ela disse esperar que as mortes de Bruno e Dom, que comoveu o mundo, sirva para que se construa uma alternativa e melhore a vida dos que vivem na região. “É um absurdo o que está acontecendo ali neste momento! Então, a falta de ação imediata de um plano emergencial de segurança ali para os povos indígenas do Vale Javari e para os funcionários da Funai”.

20
Jun22

Assassinato do Bruno representa a expansão da fronteira do banditismo capitalista em territórios indígenas

Talis Andrade

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“A perda do Bruno hoje seria exatamente a perda de um grande embaixador de relação com os povos indígenas do Brasil” - Antenor Vaz, Conselho de Proteção dos Povos Indígenas Isolados

“Agora que os espíritos do Bruno estão passeando na floresta e espalhados na gente, nossa força é muito maior” - Beatriz Matos, antropóloga, esposa de Bruno

 

por Jeferson Miola

- - -

Ainda estamos muito longe de conseguir apreender e compreender a dimensão e as consequências do assassinato do indigenista Bruno Pereira, ocorrido de modo bárbaro junto com o jornalista inglês Dom Philips na terra indígena do Vale do Javari.

Para o sertanista Antenor Vaz, do Conselho de Proteção dos Povos Indígenas Isolados, o assassinato do Bruno representa “a perda de um grande embaixador de relação com os povos indígenas do Brasil”.

É como se tivesse sido rompido o último e frágil elo de contato respeitoso entre o Brasil e os povos originários, os primeiros ocupantes do território brasileiro. O que poderá significar, portanto, uma catástrofe étnica e humanitária de proporções horripilantes.

Quanto mais detalhes e informações surgem sobre a vida do Bruno, dedicada amorosamente aos povos originários do Brasil, mais somos assomados por uma estranha nostalgia de não termos conhecido a fundo essa figura grandiosa e essencial para o presente e para o futuro do país.

Durante a gestão do ministro bolsonarista da Justiça Sérgio Moro, em outubro de 2019 Bruno foi demitido da Coordenação de Indígenas Isolados e de Recente Contato da FUNAI. Ele era um empecilho à política etnocida, ecocida e genocida do governo militar que o ex-chefe da gangue da Lava Jato endossava.

Em entrevista à Folha de São Paulo em 22 de abril passado, publicada somente agora a pedido do próprio Bruno, pois na ocasião ele temia, corretamente, o agravamento da perseguição na Funai, Bruno reconheceu que a política “vanguardista” do Estado brasileiro na proteção dos índios isolados sempre “foi muito copiada, [mas] hoje está nas mãos de pessoas com interesses, que a gente sabe que não é proteger os isolados. O interesse é de abrir os territórios”.

Bruno destacou que “[…] Ituna [PA], Jacareúba-Katawixi [AM] e Piripkura [MT] são de interesses fundiários e minerários monstruosos. São terras relativamente grandes e que valem milhões e milhões de reais”.

Ele denunciou que estas áreas “estão no arco do desmatamento e no interesse de gente que manda no país hoje. De gente que manda na Funai. Esses caras do agronegócio retrógrado”.

Na entrevista, Bruno não hesitou em afirmar por quem o presidente da Funai, o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier, é bancado: “Não tem ninguém de graça. O que segura ele são deputados e senadores. O que estiver ao alcance dele, do presidente da Funai, ele vai fazer”, afirmou.

Bruno tinha consciência de que os indígenas “precisam de proteção do território e agentes especializados sabendo lidar quando eles andam fora do território ou precisam de um contato para sobreviver”. E arrematou: “tirar terra do índio é matar o índio. É o que estão tentando fazer. Vira uma eterna fuga [dos índios isolados], uma diáspora em busca de sua terra. É a história do Brasil”.

No governo militar do Bolsonaro, a expansão de atividades econômicas criminosas em territórios indígenas avançou vertiginosamente.

E não se tratam de atividades legais e sustentáveis, mas de estruturas capitalistas erguidas em bases criminosas, como garimpo, desmatamento, agropecuária ilícita e predatória, mineração, narcotráfico etc. Tudo em conexão com interesses de grupos privados nacionais sediados no Rio, em São Paulo e em Brasília; e de grupos privados estrangeiros, sediados principalmente nas metrópoles europeias.

Por baixo, estima-se que mais da metade do ouro exportado pelo Brasil por um punhado de empresas com escritórios em São Paulo é suspeita; tem origem ilegal. Uma enorme quantidade deste ouro pirateado é extraído ilegalmente dos territórios indígenas.

O assassinato do Bruno não pode ser considerado como uma ação isolada de “lobos solitários”, sem mandantes, como apressadamente conclui a PF bolsonarizada.

O assassinato do Bruno e do Dom é o modus operandi de organizações criminosas apoiadas – seja por ação, seja por tolerância, ou por omissão – pelo próprio Estado. Tratam-se de organizações criminosas que eliminaram um obstáculo central à política ecocida, etnocida e genocida do governo militar.

O assassinato do Bruno, em síntese, representa a eliminação de uma importante barreira à expansão do banditismo capitalista em territórios indígenas.

A Amazônia não “é uma terra sem lei”, como a Folha de São Paulo advogou em editorial [16/6]. A Amazônia tem lei, sim, e a lei da Amazônia está estabelecida no “Capítulo VIII – Dos Índios” da Constituição brasileira.

Sem lei é o governo militar criminoso, que promove uma verdadeira guerra de ocupação para a realização do mais brutal processo de saqueio e pilhagem do Brasil, jamais visto em toda a história.

Uma guerra na qual o Exército ocupante do nosso território, no entanto, não é nenhuma força estrangeira, mas as próprias Forças Armadas brasileiras que, partidarizadas por suas cúpulas conspirativas, foram convertidas em milícias fardadas.

Esta guerra, que criou uma oportunidade formidável para os grandes capitais criminosos – nacionais e estrangeiros –, é vetor para um processo radical de espoliação e recolonização do Brasil.

O herói Bruno Pereira, antropólogo e indigenista, foi uma vítima mortal desta guerra.www.brasil247.com - { imgCaption }}

 

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