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03
Jun23

Marco temporal: os indígenas contra o fim do mundo imposto pelos bandeirantes de terno

Talis Andrade

HELICÓPTEROS DA PM SEGUIAM OS MANIFESTANTES EM VOOS RASANTES, DERRUBANDO GALHOS DE ÁRVORES E COLOCANDO EM RISCO INDÍGENAS E PROFISSIONAIS DA IMPRENSA. FOTOS: FERNANDO MARTINHO/SUMAÚMA

 

DIÁRIO DE GUERRA

Movendo-se pela vida

 

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Em São Paulo, o principal protesto indígena foi organizado pelo povo Guarani, da aldeia Tekoa Pyau, na Rodovia dos Bandeirantes, uma das principais vias de acesso à capital da maior cidade do Brasil. Os Guarani se reuniram às 18h de segunda-feira para iniciar seus rituais de rexistência. Por volta de 5h30 de terça-feira, numa madrugada gélida, com os corpos pintados, bloquearam a rodovia com pneus e atearam fogo.

Por volta de 7h começou uma negociação com a Polícia Militar de São Paulo, estado hoje governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Os indígenas concordaram em liberar uma pista para passagem de ambulâncias e casos emergenciais. Mas, às 8h30, com a chegada da Tropa de Choque da PM, o diálogo foi interrompido, sob forte tensão. Quatro indígenas restaram feridos, um por balas de borracha e três deles por bombas de gás de “efeito moral”.

Ao mesmo tempo, um helicóptero da PM perseguia num voo rasante os manifestantes que corriam de volta às aldeias, assustando crianças indígenas que estavam na escola pela manhã. Galhos caíam das árvores e colocavam em risco os manifestantes e jornalistas que acompanhavam o protesto. A PM alegou, em nota, que “após três horas de negociação, a Tropa de Choque precisou agir com técnicas de dispersão de multidões”. Na conta da polícia, “ninguém foi preso e não houve relato de feridos”.

“Não é legítimo nos subjugar, mais uma vez”, defendeu o indígena Karai Djekupe.  A ideia original dos manifestantes era caminhar até a Marginal Tietê, uma das principais vias expressas de São Paulo. Os sonhos, segundo Djekupe, aconselharam seu povo a rezar para o espírito adoecido do rio Tietê, que era mãe verdadeira e se tornou um símbolo da poluição.

Em Brasília, indígenas Kaingang, Terena, Guajajara, Pankararu, Tikuna, Kayapo, Xikrin, Potiguara, Tuxá, Tukano, Pankará, Kariri-xokó, Satere-mawe e Pataxó-hã-hã-hãe caminharam da Biblioteca Nacional/Museu da República até o gramado da Alameda dos Estados, em frente ao Congresso. Eram poucos, mas estavam lá.

Enquanto os indígenas tentavam ser escutados pelo país, os parlamentares defensores do marco temporal insistiam em se apresentar como os verdadeiros protetores dos povos originários, com rajadas de estupidez: os indígenas “não vivem de comer minhoca”, “têm mais terra que o tamanho de Portugal”, “são escravizados pela esquerda”. Segurança jurídica e “respeito à propriedade” eram as duas expressões mais ouvidas nos discursos dos parlamentares que querem ter o poder de demarcar – ou não demarcar nunca mais – as terras indígenas.

A deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG) pintou as mãos com a pasta vermelha de urucum, para simbolizar que o voto pelo marco temporal era o voto não dos que tinham sangue indígena nas veias, como muitos deputados alegavam, mas daqueles que tinham sangue indígena nas mãos. Também afirmou que na Câmara se “negociava a mãe”, referindo-se à mãe Terra.

Ao passar por cima dos povos indígenas, os deputados passaram mais uma vez a boiada sobre a Amazônia e todos os enclaves de natureza que ainda resistem. Os homens de terno não tratoravam apenas o futuro, mas também a inteligência. A precariedade dos discursos, o negacionismo disfarçado de informação, a ignorância esgoelada com orgulho era também apocalíptica. Onipotentes, a maioria dos deputados parece sequer perceber que cava o abismo com seus sapatos de gabinete.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), no auge de seu poder, definiu com o cinismo habitual: “A maioria sempre vence a minoria”. A deputada Érica Kokay (PT-DF) resumiu a votação: “O absurdo, definitivamente, está perdendo a modéstia no Brasil”.


Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Mark Murray
Edição de fotografia: Marcelo Aguilar, Mariana Greif e Pablo Albarenga
 

ARA POTY ACUSOU O GOVERNO DE SÃO PAULO DE INIMIGO DOS INDÍGENAS QUE, SEGUNDO ELA, FAZIAM UM PROTESTO PACÍFICO CONTRA O MARCO TEMPORAL. FOTO: FERNANDO MARTINHO/SUMAÚMA

CRIANÇAS DO POVO GUARANI TAMBÉM SE UNIRAM AOS PROTESTOS, NA RODOVIA DOS BANDEIRANTES, CONTRA O MARCO TEMPORAL. FOTO: FERNANDO MARTINHO/SUMAÚMA

A INTERRUPÇÃO DOS PROCESSOS DE DEMARCAÇÃO É UM DOS IMPACTOS MAIS IMPORTANTES DA TESE DO MARCO TEMPORAL PARA OS INDÍGENAS. FOTO: MATHEUS ALVES/SUMAÚMA

O MARCO TEMPORAL REPRESENTA UM RETROCESSO NA DEFESA DOS DIREITOS AOS TERRITÓRIOS DOS POVOS ORIGINÁRIOS. FOTO: MATHEUS ALVES/SUMAÚMA

JOVENS ACOMPANHAM, AO VIVO EM BRASÍLIA, PELO CELULAR, OS VOTOS DOS DEPUTADOS NO PL DO MARCO TEMPORAL. FOTO: MATHEUS ALVES/SUMAÚMA

A DEPUTADA CÉLIA XAKRIABÁ (AO CENTRO): O VERMELHO DO PROTESTO SIMBOLIZA O SANGUE INDÍGENA NAS MÃOS DOS QUE VOTAM NO MARCO TEMPORAL. FOTO: PABLO VALADARES/CÂMARA DOS DEPUTADOS

LIDERANÇAS INDÍGENAS, IMPEDIDAS DE SE APROXIMAR DO CONGRESSO, FIZERAM UMA VIGÍLIA EM FRENTE AO PRÉDIO, AGUARDANDO O RESULTADO DA VOTAÇÃO. FOTO: MATHEUS ALVES/SUMAÚMA

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