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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

12
Mai22

Uma Câmara que não tem medo de ser chamada de racista

Talis Andrade

 

Entre os colegas de Renato Freitas houve quem cometesse plágio, comemorasse a morte de crianças e colocasse a vida de outros em risco. Mas quem a Casa optou punir?

 

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Mai22

Maioria dos deputados da Frente Parlamentar Evangélica apoia pautas antiambientais

Talis Andrade

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Levantamento da Agência Pública mostra que a maior parte dos parlamentares foi favorável aos ‘PLs da Morte’, apontados como ameaças ao meio ambiente e aos povos tradicionais

 

 

 

por Bárbara Poerner /Agência Pública

 

  • Liderança evangélica no Congresso confirma alinhamento e troca de favores entre as bancadas do boi e da Bíblia

 

  • Atuação da frente destoa da opinião de 85% dos evangélicos brasileiros, que consideram pecado não proteger o meio ambiente, segundo pesquisa

 

Entre falas e textos fervorosos contra a legalização do aborto no perfil do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), um vídeo publicado na última quarta-feira (6) pode até passar despercebido. Ele mostra o encontro do atual líder da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) com presidentes de cooperativas indígenas para falar sobre o Projeto de Lei (PL) 191/2020, apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). Na postagem, os presentes encerram a conversa com uma oração, ao mesmo tempo em que mais de sete mil indígenas, de diferentes etnias, protestavam no Acampamento Terra Livre (ATL) contra o PL, que abre as porteiras para exploração de mineração e geração de energia em territórios indígenas. Sóstenes foi favorável ao caráter de urgência para apreciação do projeto, ainda em tramitação.

A Agência Pública analisou os votos dos deputados da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em pautas antiambientais que tiveram discussão recente no Congresso Nacional, nesta legislatura. A maioria dos deputados da FPE votou a favor da aprovação dos chamados ‘PLs da Morte’, um combo de cinco projetos que têm sido apontados como ameaças ao meio ambiente e a povos tradicionais. Além do PL 191, essa lista de projetos inclui o PL 3729/2004, que trata sobre licenciamento ambiental; o PL 6299/2002, conhecido como o Pacote do Veneno; o PL 2633/2020, conhecido como o PL da Grilagem; e o PL 490/2007, que altera o Estatuto do Índio e defende a tese do Marco Temporal, que limita o reconhecimento de territórios tradicionais.

Dentre os 196 deputados signatários da FPE, segundo a Câmara dos Deputados, 131 (66%) foram favoráveis ao caráter de urgência do PL 191/2020. Outro PL, o 3729/2004, aprovado no dia  13 de maio de 2021 na Câmara e em tramitação no Senado, flexibiliza as regras para o licenciamento ambiental no Brasil. Novamente a maioria dos deputados signatários da FPE – 131 (66%) dos 196 – foram favoráveis ao projeto.

Aprovado recentemente na Câmara, o PL 6299/2002, conhecido como Pacote do Veneno, flexibiliza a liberação de agrotóxicos no país, entre outras alterações. Aguardando apreciação no Senado, o projeto contou com apoio de 135 (68,8%) deputados federais signatários da Frente Parlamentar Evangélica. Também está no Senado o PL 2633/2020, projeto que possibilita a regularização fundiária de terras da União por autodeclaração. A aprovação na Câmara, no dia 3 de agosto de 2021, contou com apoio de 136 (69%) deputados signatários da FPE.

O quinto projeto do pacote chamado de “PLs da Morte” foi aprovado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e aguarda votação na Câmara. O PL 490/2007 pretende alterar o Estatuto do Índio, e com isso validar a tese do Marco Temporal. Dentre os 40 votos totais favoráveis ao projeto na CCJ no dia 23 de junho do último ano, 17 foram de deputados signatários da FPE. Nos 21 votos totais contrários, apenas um foi de um deputado signatário da FPE.

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A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) é composta por 196 deputados (14 estão fora do exercício) e sete senadores signatários, conforme o site da Câmara dos Deputados. Embora chamada de evangélica, ela inclui parlamentares que professam a fé católica, espírita ou ainda quem não assume nenhuma religião. O grupo reúne 19 partidos. O Partido Liberal (PL), partido atual do presidente Jair Bolsonaro, tem a maior representatividade, com 42 parlamentares. O Republicanos, vinculado a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e que tem como presidente o bispo e deputado Marcos Pereira, e o Partido Social Democrático (PSD), vêm em sequência, com 29 e 28 signatários, respectivamente. Tanto o PL, quanto o Republicanos e o PSD orientaram voto afirmativo para os cinco PLs antiambientais citados na reportagem.

A Frente Parlamentar Evangélica não é, necessariamente, um sinônimo da bancada evangélica. “Enquanto a FPE é uma entidade formal, balizada pelo regime estatutário do Congresso Nacional, a bancada reúne deputados e senadores que têm uma articulação mais sólida em torno de pautas em comum”, explica Lívia Reis, coordenadora de Religião e Política do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Atualmente, a bancada evangélica congrega 121 parlamentares (110 deputados e 11 senadores), segundo o gabinete do presidente da FPE, deputado Sóstenes Cavalcante, que também é uma das lideranças.

A reportagem também analisou os votos dos 110 deputados da bancada evangélica em quatro ‘PLs da morte’ que tiveram votação na Câmara dos Deputados. No PL 191, 82 (74,5%) votaram sim e 11 (10%) votaram não. No PL 3729/2004, 82 (74,5%) votaram a favor, e 7 (6,3%) contra. 79 (72%) apoiaram o PL 6199, e 12 (11%) foram contra. No PL 2633, 87 (79%) foram favoráveis e 05 (4,6%) contrários.

Discursos ambientais

Sóstenes Cavalcante assumiu o posto de líder da Frente Parlamentar Evangélica no último dia 16 de fevereiro, sucedendo Cezinha Madureira (PSD-SP). O deputado se posiciona como um “um político conservador, mais à direita” e “liberal na economia e conservador nos costumes“. Em entrevista recente, ele afirmou que a meta do seu mandato é “focar na eleição para ampliar a bancada com o máximo de colegas”. O líder apoiou a eleição de Bolsonaro à presidência em 2018, mas já esboçava proximidade com o chefe de estado há alguns anos. O deputado é apadrinhado por Silas Malafaia, pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo.

À Pública, Sóstenes disse que não existe uma orientação específica para os membros da FPE em votações que versam temas ambientais. Os votos de apoio a pautas antiambientais, segundo ele, sinalizam uma sinergia entre grande parte da bancada evangélica com o atual governo. “Não tiramos uma decisão da FPE desse assunto, mas pela Frente ter no mínimo 80% de deputados de partidos da base aliada ao governo, temos uma tendência de votar a [favor da] redução dessas demarcações conforme os projetos que tramitam na casa. Não é decisão da bancada ou FPE, mas das bancadas partidárias, e quando é [de interesse] do governo, passa a ser daqueles que compõem [sua] base”, afirma o deputado.

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Jair Bolsonaro (à direita), Sóstenes Cavalcante (ao fundo), Silas Malafaia (à esquerda) e Magno Malta (ao centro) na Marcha Para Jesus, em 2015

 

O deputado também afirma que as lideranças evangélicas no Congresso são “liberais na economia e progressistas em projetos econômicos”. “Se tivermos que alinhar algum segmento não será com segmentos indígenas que queiram impedir o progresso e prosperidade do seu povo”, diz. Ele também comenta que já realizou reuniões com lideranças indígenas, e que, na sua percepção, “nem sempre a questão da exploração de territórios tradicionais é um ponto pacifico dentro da comunidade indigena”. Também diz que não vê “nenhum dano ambiental, de maneira nenhuma, [com as propostas dos PLs].”

Proteger o meio ambiente é algo que, segundo Sóstenes, faz parte da sua religiosidade, mas ele discorda do que chama “pauta do meio ambiente com viés de esquerda e ideológico”. “Leremos com a responsabilidade que se requer, mas não leremos na mesma cartilha da pauta de esquerda nem de ONGs sustentadas por países estrangeiros, que lamentavelmente é o que aconteceu com a pauta de meio ambiente no Brasil”, completa o deputado.

Dentre os projetos de lei propostos por ele na atual legislatura e analisados pela Pública, apenas um versa sobre temática ambiental. Trata-se do PL 2014/2021, que propõe a garantia de porte de armas aos fiscais ambientais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Sóstenes é o terceiro presidente da atual legislatura da FPE. Silas Câmara (Republicanos-AM) presidiu a Frente até o final de 2020. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ele votou a favor, quando compareceu às votações, de todos os projetos de lei apreciados na Câmara analisados nesta reportagem pela Pública.

Silas Câmara foi eleito pelo estado do Amazonas em 2018 e já se manifestou sobre alguns episódios envolvendo seu estado. Em novembro de 2021, imagens de balsas de garimpeiros na extensão do Rio Madeira, que corta o Amazonas e Rondônia, chamaram a atenção da imprensa, sociedade civil e ativistas. O episódio mobilizou uma ação do Ibama e da Polícia Federal, que queimou e dispersou a maioria das embarcações. Na época, Câmara se posicionou a favor do garimpo ilegal na região e pela legalização da prática. Em discurso no plenário, o deputado disse que “o extrativista mineral familiar não é bandido”. “São homens e mulheres responsáveis, que conhecem a região, que zelam pelo meio ambiente, que amam o próximo e que precisam sobreviver desta atividade”, afirmou, clamando até ao presidente: “eu peço ao Presidente Jair Messias Bolsonaro, que tem compromisso com o meio ambiente e tem compromisso também com as pessoas, com as vidas, com as famílias, que pare esta ação e tome uma atitude coerente, racional e responsável para que essas famílias possam ser abordadas pelo Governo Federal”.

A narrativa favorável ao garimpo apareceu novamente em sua votação no PL 2633. Câmara afirmou em discurso que “esse projeto de lei atende a necessidade de muitos, como disse ainda há pouco o companheiro que me antecedeu, proprietários legítimos das terras que supostamente pela esquerda estão sendo tituladas como terras públicas. Na verdade, esse projeto dá um norte ao monitoramento para que, por exemplo, a preservação ambiental seja realmente eficiente, através do mapeamento de quem se torna de fato proprietário”.

Durante sua presidência na FPE, Câmara foi autor do PL 4447/2019, apensado ao PL 1610/1996, que “permite exploração sustentável em terras indígenas”; do PL 2348/2019, que altera lei de distribuição de terras no país e permite a regularização daquelas que estão em uso indevido; e do PL 5829/2019, que versa sobre energia solar e estabelece o marco da geração distribuída no país. Ainda, em 2019, presidiu a Comissão de Minas e Energia na Câmara dos Deputados.

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Sóstenes (no centro da mesa) em reunião com lideranças indígenas

 

Alinhamento entre as bancadas do boi e da Bíblia

A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) é uma das maiores do Congresso Nacional, e seu desdobramento, a bancada ruralista, é apontada por organizações socioambientais como o núcleo estruturante de várias pautas que ferem direitos de povos originários e de proteção à natureza. O pesquisador em sociologia da religião e ecologia na USP, Renan Willian dos Santos vê pontos múltiplos de articulação entre as bancadas ruralista e evangélica, “não só morais, mas econômicos, já que a união de ambas se dá prioritariamente pela troca de favores”. “Eles [FPE] são uma espécie de centrão, fisiologismo puro, e podem fazer acordos para votar em outros assuntos que não os interessem”, argumenta.

O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante, confirma o alinhamento e a troca de favores entre as frentes evangélica e do agronegócio. “Normalmente a gente trabalha com a frente do agronegócio. Temos uma tendência a se alinhar com essa frente, nos nossos temas que são prioritários [para nós], mais ligados a costumes, a gente também conta com a ajuda da frente do agronegócio. Nesses assuntos a nossa tendência será também alinharmos, dentro da responsabilidade necessária, com a [FPA]”.

Entre os 196 deputados signatários da FPE, 99 fazem parte também da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Zequinha Marinho (PL-PA) é um deles. O senador integra a mesa diretora da atual legislatura da FPE, e é também vice-presidente da frente do agronegócio. Zequinha foi apontado como um dos agentes favorecedores do garimpo ilegal no Pará, estado onde foi eleito. Segundo a Repórter Brasil, o senador “pressiona os diretores da Agência Nacional de Mineração (ANM) para que as lavras garimpeiras sejam autorizadas com mais rapidez”.

Outro ponto de convergência entre as bancadas pode estar relacionado à uma prática histórica de igrejas evangélicas no Brasil: as missões evangelizadoras em terras indígenas, que promovem pregações e ações para pessoas não convertidas à fé cristã. O pesquisador Renan diz que existe uma “vantagem colateral [da aliança entre as frentes parlamentares], que é o financiamento da construção de templos nas bordas das reservas indígenas, com obras de missionários. Por isso, os evangélicos vão votar a favor de maior demarcação em TI ou para flexibilização? Para flexibilizar”, elucida ele.

Sóstenes Cavalcante nega a relação entre a votação dos parlamentares da FPE em pautas antiambientais e as práticas missionárias em territórios indígenas. Ele reforça que os votos refletem alinhamentos com a base do governo, e critica a decisão, em setembro de 2021, do ministro do STF Luís Roberto Barroso, que proibiu a entrada de missões religiosas em terras de povos originários isolados. “Por princípio constitucional, existe liberdade religiosa, em todos os territórios, inclusive os indígenas, mas o STF insiste em ferir o próprio texto constitucional”, diz o deputado.

O deputado Silas Câmara também já defendeu as missões da Assembléia de Deus, afirmando que a prática é importante para reduzir as desigualdades sociais. “Todos sabem que os missionários, principalmente os cristãos evangélicos e católicos, prestam um grande serviço aos indígenas do Brasil, aliás serviço esses que o Estado brasileiro não presta”, disse Câmara ao site Direto ao Ponto.

Bruna Galvão, diretora executiva da Casa Galileia, organização que busca fortalecer o campo da democracia e da justiça socioambiental com foco em públicos cristãos, acredita que a “convergência de interesses [entre as bancadas ruralista e evangélica] não são trabalhadas de maneira óbvia”. Ela afirma que a tentativa de barrar a tese do Marco Temporal, que compromete demarcações de territórios tradicionais, incomoda líderes evangélicos “não só porque afeta os projetos missionários ideológicos, mas também interesses econômicos” em terras indígenas.

Além disso, o pesquisador Renan acrescenta que o agronegócio tende, hoje, a se aproximar especificamente dos evangélicos por desentendimentos históricos com parte da igreja católica. “Existe o CIMI [Conselho Indigenista Missionário] e a teologia da libertação, então uma parcela do catolicismo já foi uma pedra no sapato do agro”, explica. “Do ponto de vista desse setor, os evangélicos têm uma vantagem, por ser uma religião mais solvente”, completa, ao se referir a um tipo de discurso religioso de algumas igrejas evangélicas que induzem o rompimento de laços dos recém convertidos com seu território, origem e crenças anteriores.

Maioria dos evangélicos é contra degradação ambiental, diz pesquisa

Os posicionamentos e votos antiambientais de lideranças evangélicas no Congresso Nacional não condizem com o que pensam a maioria dos evangélicos brasileiros. A constatação é da pesquisa realizada, em 2020, pelo Evangélicos Pelo Clima (coalizão co-fundada por Bruna, Flávio Conrado e Camila Mantovani), em parceria com a Purpose. Por meio de entrevistas com duas mil pessoas que professam a fé evangélica, a coalizão descobriu que 67% dos fiéis dizem que o candidato defender pautas de preservação ambiental influencia na hora do voto; 85% acham que é pecado o ser humano atacar o meio ambiente; e 82% acham que um crime contra a natureza é um pecado contra Deus.

Na análise da diretora de campanhas da organização Casa Galileia, Camila Mantovani, a bancada evangélica não espelha a população evangélica brasileira. “Enquanto a primeira é majoritariamente composta de homens brancos e de alto poder aquisitivo, a segunda integra uma maioria de mulheres, pessoas negras e pobres”. Ela também acredita que o posicionamento da frente em pautas ambientais muitas vezes passa despercebido, e que isso não acontece por acaso. “Tem uma certa sabedoria na maneira que utilizam da não polarização [da pauta ambiental]. Enquanto você tem um alarde sobre gênero, justiça reprodutiva etc., você está blindado, porque as pessoas estão preocupadas em olhar para isso. Então, se você acha que ninguém está fiscalizando seus votos na pauta ambiental, você pode passar a boiada o quanto quiser. Tem uma certa sagacidade para isso não ser usado”, completa.

A simpatia com a preservação ambiental dos evangélicos, constatada na pesquisa do Evangélicos Pelo Clima, acompanha a média geral dos brasileiros. Contudo, conforme a análise, não há tanto engajamento. Dados do documento apontam que 60% dos entrevistados não têm acessos ou não recebem informações sobre a preservação do meio ambiente em suas igrejas, mas 77% acham importante que elas apoiem atividades de preservação ambiental.

Para o pesquisador da USP Renan, a temática não é central para as lideranças evangélicas, mas isso não significa um antiambientalismo ou negacionismo das igrejas em relação ao apocalipse climático. Ele lembra falas de pastores conservadores como Silas Malafaia, que já afirmou que “o maior responsável pelo desequilíbrio ambiental é o ser humano.” Ainda, Flávio Conrado citou Abner Ferreira, líder da Assembléia de Deus de Madureira e próximo do deputado Cezinha de Madureira. O bispo participou, em outubro, do encontro Fé e Ciência: rumo à COP26, no Vaticano, quando reforçou a importância de cuidar do meio ambiente citando a Bíblia: “Foi Deus quem responsabilizou os homens sobre esta tarefa. Gênesis 2:15 está escrito: ‘Tomou pois o Senhor Deus o homem e o pôs no Jardim do Éden, para o lavrar e o guardar’. Trabalhar e proteger, proteger e trabalhar. O cristão não deve violar os mandamentos de Deus quanto à preservação das espécies por causa do progresso”.

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12
Abr22

Pacheco, e a CPI do Mec?

Talis Andrade

por Cristina Serra

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São abundantes as denúncias feitas pela imprensa sobre o assalto de predadores da educação ao cofre do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). É como praga em plantação. Deixa terra arrasada, mas enche o bolso de pastores trambiqueiros, da escumalha do centrão e de empresários de fachada.

Na esbórnia com o dinheiro público, propina é cobrada em ouro e empurram-se jogos de robótica para escolas que não têm água nem internet, onde as aulas são suspensas por causa do calor e a descarga nos banheiros não funciona. O destino dos robôs será ferrugem e poeira.

Apesar da fartura de indícios criminosos, senadores da oposição têm tido enorme dificuldade para criar a CPI do MEC. Enfrentam a pressão do governo e da bancada evangélica, fortemente mobilizada para proteger os cupinchas do presidente, Gilmar dos Santos e Arilton Moura, e o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, todos pastores.

Outra frente de embaraço à CPI tem origem na letargia do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que repete seu comportamento quando da CPI da Covid. Na época, Pacheco resistiu o quanto pôde, mesmo quando o Brasil chegava, então, a 4.000 mortos por dia. Era como se vinte aviões caíssem todos os dias em solo brasileiro sem nenhum sobrevivente! E Pacheco falava em buscar um “pacto” com o governo.

Agora, diz-se preocupado com o “viés eleitoral” de uma CPI para investigar falcatruas no MEC. Com modos melífluos de causídico de província, Pacheco até consegue dar algum verniz de civilidade à sua atuação no comando do Senado. Não tem os maus bofes de jagunço e a truculência de um Arthur Lira (PP-AL), por exemplo. Nem por isso deixa de ser linha auxiliar de Bolsonaro.

A CPI da Covid só foi criada por determinação do STF. Caso a oposição consiga o número de assinaturas necessárias agora, o enredo se repetirá? Legislativo que não cumpre seu papel se rebaixa, age como cúmplice e colabora com a ruína da democracia.

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04
Abr22

Acossado por escândalos, Bolsonaro ignora casos de corrupção e diz que seu governo 'sobrevive pela fé'

Talis Andrade

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Em novo aceno ao eleitorado religioso, Jair Bolsonaro voltou a ignorar o escândalo de corrupção envolvendo pastores no MEC

 

247 - Jair Bolsonaro, que está em viagem pelo Rio de Janeiro nesta segunda-feira (4), fez um novo aceno ao eleitorado religioso, que o ajudou a se eleger em 2018, ao afirmar que seu governo só resiste a 'tantas adversidades graças à fé'.

“Somos um governo que acredita em Deus, que defende a família e que deve lealdade ao seu povo. Com toda a certeza foi a fé que nos salvou no passado, nos elegeu e nos mantém vivos no governo até o dia hoje. Se não fosse Ele, o nosso Deus, como resistiríamos a tantas adversidades com grande parte da imprensa contra nós? É a fé”, disse Bolsonaro durante um evento no Cristo Redentor, de acordo com a coluna Radar, da Revista Veja. 

Bolsonaro não explicou quais seriam os problemas enfrentados. Ele vem sendo cobrado pelo baixo desempenho da economia, além de estar em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto e de enfrentar um escândalo de corrupção no Ministério da Educação (MEC). 

O caso, que envolve a liberação de verbas do MEC por meio da intermediação de recursos por pastores, levou à queda do então ministro da pasta Milton Ribeiro.

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28
Mar22

Gente podre no poder

Talis Andrade

 

 

 

 

 

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Reinaldo Azevedo
Bolsonaro diz q embrulha o estômago, às vezes, cumprir a Constituição. Faz sentido. Urubu vomita qdo se sente ameaçado. O fedor da carne podre e fermentada é insuportável. Entendeu, presidente? Vomitar é da natureza do urubu. Ficar enjoado c/ a democracia é da sua natureza. Nojo!
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Bolsonaro diz q eleição “é luta do bem contra o mal”. Tem razão. Só está errado numa coisa: ñ é um confronto entre forças do outro mundo, mas deste. Milícias, pastores vendilhões, desmatadores, fascistoides, golpistas, misóginos, homofóbicos, negacionistas… Tudo deste mundo.
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Lenio Luiz Streck
Qdo Dallagnol fez o Power Point, os jornalões deram CAPA. Inteira. DD condenado, deram 5 linhas. Qdo era contra o PT, JN tinha a tubulação saindo $$. Lembram? Agora com os pastores do MEC, nada. Não deveria ter uma Bíblia da qual saem $$? Oh, grande imprensa!
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@LenioStreck
Nunca o Brasil foi tão BBB: Boi, Bala e Bíblia. Fácil passar a boiada de pastores! Ligeiro como bala! Vendilhões do templo, da Bíblia, aqui é literal. No Brasil, “comissão” e tráfico de influência não é crime: é projeto! Oremos!
Renato Terra
Essa frase foi tirada da coluna que publiquei hoje na
@folha que fala sobre o Messias que guiou a alma de um pastor para operar o milagre da multiplicação de verbaswww.brasil247.com - { imgCaption }}
O pastor tirou atenção do orçamento secreto, que tirou atenção da prevaricação no caso Covaxin, que tirou atenção da viagem de Carlos à Rússia, que tirou atenção do talento imobiliário de Flávio, que tirou atenção das rachadinhas. Mas não há corrupção no governo Bolsonaro!ImageImage
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Natália Bonavides
Mais um prefeito relata como funcionava o esquema criminoso de roubo de verbas do MEC. Se fosse amigo do ministro de Bolsonaro, poderia ter 50% de desconto na propina para liberação do dinheiro. E assim, como um bom mafioso, o pagamento era pra ser feito no mesmo dia!Image
Bolsonaro quer rebater com censura o que o povo manifesta espontaneamente! O consentimento do TSE a lógica repressiva do Governo é um alerta p o grau de importância da disputa de 2022 nos rumos do país. Uma decisão absurda q não pode ficar sem contraponto.Image
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CORONEL SIQUEIRA 
O OURO VAI PARA O MINISTRO RAUL ARAÚJO, DO TSE, QUE RESOLVEU PROIBIR A LIVRE EXPRESSÃO DE ARTISTAS EM UM FESTIVAL PRIVADO!!! ESTÁ PROIBIDO CRITICAR O PRESIDENTE!!! PARABÉNS, MINISTRO!!! OBRIGADO POR ESSA AMOSTRA GRÁTIS DE COMO A JUSTIÇA SERÁ IMPARCIAL NAS ELEIÇÕES DE 2022!!!
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O deputado federal Paulo Pimenta (PT) criticou o ex-coordenador da Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba, Deltan Dallagnol. “É muito ridículo, um bandidinho de 5ª categoria”, disse o deputado.“Esse DD é muito ridículo. Vi um vídeo dele com cara de choro, mentindo descaradamente e fico pensando: como pode essa mídia sabuja e um monte de micos adestrados ter dado o tratamento que deu para esse meliante. Bandidinho de 5ª categoria”.

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26
Mar22

Roubalheira em nome de deus

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

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A roubalheira no ministério da Educação [MEC] é bastante original: pastores evangélicos cobram propina em barras de 1kg de ouro para intermediar verbas públicas que, antes de chegarem ao destino final, decerto ainda ficam sujeitas à rapinagem por outros atravessadores – leigos ou religiosos.

Tudo endossado pelo ministro Milton Ribeiro e a mando do Aberração do Planalto, que sempre repete o bordão “deus acima de todos”.

A descoberta da roubalheira indica o quão ilimitado é o propósito de degradação e destruição da educação pública brasileira. E revela, também, as entranhas do poder miliciano e fascista-militar ancorado no charlatanismo/fundamentalismo religioso.

Há uma impressionante depravação do Estado de Direito e de princípios republicanos elementares.

O desmonte deliberado das políticas públicas de educação – vide as graves e nunca apuradas denúncias envolvendo o ENEM e o INEP, para ficar somente nesses dois escândalos – evidencia que o MEC é um nicho de corrupção e, ao mesmo tempo, um instrumento ideológico para a destruição do sistema de educação laica, plural e pública.

Não fosse a máquina do colaboracionismo fascista operada por Arthur Lira e Augusto Aras, o pastor-ministro já teria sido defenestrado do cargo e a CPI da “gangue de deus acima de todos” já teria sido instalada no Congresso.

Mas isso, naturalmente, está longe de acontecer, devido ao citado colaboracionismo e, também, ao extraordinário poder dos pastores evangélicos no Congresso.

Na Câmara, são 104 parlamentares [20,3%] – nem todos/as, porém, coniventes com as práticas denunciadas. Seriam 105 ao todo, mas a diferença se deve à saída de Flordelis, a pastora e ex-deputada do PSD que cumpre pena de prisão por assassinato do ex-marido, também ele pastor. No Senado, são 15 senadores/as – 18,5% da Casa.

O líder da bancada evangélica, deputado Sóstenes Cavalcante, do mesmo PL/RJ de Bolsonaro, revelou uma certa ética pastoral que explica o princípio da roubalheira em nome de deus.

Em entrevista [23/3], o líder evangélico blindou Bolsonaro, mesmo sabendo que o ministro Milton Ribeiro tenha declarado explicitamente que atendia instruções do presidente.

Perguntado se a bancada evangélica pediria a demissão do ministro, Sóstenes respondeu: “Primeiro, não fomos nós que indicamos. Logo, não somos nós que pedimos pra tirar. Não temos autonomia pra isso. Se fôssemos nós que tivéssemos indicado, talvez a sua pergunta fosse pertinente”.

Ou seja, como o corrupto “pertence a uma paróquia” diferente da sua, o líder evangélico não se importa com a corrupção dentro do MEC transacionada com barras de ouro.

Repetindo que “não fomos nós que indicamos”, Sóstenes ainda justificou que “não somos nós que vamos tomar nenhuma decisão que é interna corporis [sic] do Executivo. Não tem nada a ver com a frente parlamentar evangélica [sic]” [vídeo, a partir do minuto 9].

Depois desta declaração, Sóstenes deveria renunciar imediatamente ao mandato parlamentar. Como deputado, ele descumpre a missão constitucional básica de fiscalizar, apurar e investigar atos do poder Executivo e se torna cúmplice da “corrupção pastoral” no MEC.

Este é o “Brasil acima de tudo”. Conivência, omissão, cumplicidade, roubalheira, distribuição de armas, misoginia, feminicídio, racismo, fascismo, transfobia, fundamentalismo – tudo praticado em nome de deus.

 

 

 

 

 

 

 

25
Mar22

Pastor Gilmar Santos em uma semana realiza dois milagres de multiplicação dos pães no valor de meio milhão

Talis Andrade

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O pastor Gilmar Santos, suspeito de cobrar propina para facilitar a liberação de recursos do MEC (Ministério da Educação), investiu R$ 450 mil em duas empresas, abertas há duas semanas. As informações são do jornal O Globo.

Em 8 de março, Gilmar abriu uma faculdade em Goiânia, com aporte inicial de R$ 100 mil, e registrou uma editora na cidade de Aparecida de Goiânia, com capital de R$ 350 mil. A reportagem de O Globo visitou os endereços das empresas, que constam nos documentos protocolados na Junta Comercial de Goiás.Image

O padrinho é Jair

 

por Fernando Brito

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Nem por desempenho funcional, nem peso político.

O que está mantendo a insustentável defesa do pastor Milton Ribeiro no “bolsolão do MEC” é outra coisa: o fato de que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, os dois personagens metidos em intermediação de verbas não são gente do ministro, mas de Jair Bolsonaro, a quem pagam em apoio político de suas redes de pastores.

Eram gente que, nos ministério – e não só no da Educação – ajeitava, com algum proveito próprio, as relações com deputados e prefeitos do interior, sobretudo no Nordeste, o relacionamento com o governo.

É bom lembrar que, até a sua recente aliança com o Centrão, Jair Bolsonaro não tinha estruturas partidárias que fizessem este papel e seu núcleo de sustentação, muitas vezes, eram os templos, não os diretórios.

O vídeo divulgado pelo site Metrópoles, historiando as ligações e a proximidade da dupla com Bolsonaro, deixa bem claro que ambos tinham razões para impressionar com as credenciais de afilhados do Presidente, inclusive produzindo agendas com ele.

A “saída” encontrada por Ribeiro, a de dizer que mandara à Controladoria Geral da União as denúncias de irregularidade da atuação dos pastores está sendo impiedosamente desmontada com a comprovação que, mesmo depois disso, ambos tiveram vários encontros e as verbas que supostamente intermediavam continuaram sendo largamente liberadas.

É bem possível que a atitude dos líderes da chamada “bancada evangélica, de início favorável a atirar ao mar o ministro tenha mudado por um comando palaciano. Blindar Ribeiro é essencial para que o escândalo não se alastre mais.Image

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Mar22

Quem é o homem que conecta a extrema-direita alemã com evangélicos brasileiros

Talis Andrade

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Parlamentar da AfD Waldemar Herdt fala sobre aliança entre ultraconservadores dos dois países

 

 

 

por Andrea Becker, Niklas Franzen /Agência Pública

26 de março de 2021. Um homem baixo e roliço caminha pela praça margeada por palmeiras e colunas douradas, no jardim do Templo de Salomão, em São Paulo. Ele é acompanhado por seis pessoas vestidas elegantemente, entre elas o deputado federal Aroldo Martins (Republicanos-PR) e o bispo da Igreja Universal Eduardo Bravo. Um vídeo mostra o homem passeando por uma réplica do Tabernáculo, admirando artefatos religiosos e falando ao microfone diante de um candelabro de sete braços. Segundo ele, nesse lugar é possível ver que “a palavra de Deus está viva”. Ele fala de uma “frieza do evangelho” na Alemanha e diz que o Brasil é um exemplo para que a Europa reavive sua fé.

O homem no vídeo é Waldemar Herdt, 58 anos, membro do Parlamento Federal Alemão representando a AfD (sigla em alemão para “Alternativa para a Alemanha”), o maior partido de extrema direita do país. No fim de março, ele viajou ao Brasil, onde se encontrou com políticos e pastores, visitou empresas e igrejas. O que faz um deputado alemão viajar ao Brasil em meio à pandemia de coronavírus? A resposta para essa pergunta remete a um homem importante para o networking da direita cristã; a grupos de seguidores da Bíblia que fazem alianças no mundo inteiro e tentam redefinir os direitos humanos; e a um partido alemão que vem buscando intensamente o intercâmbio com forças da extrema direita no Brasil.

“O Brasil foi especial”

 

Neuenkirchen-Vörden, no noroeste da Alemanha. Uma estrada serpenteia através do bucólico povoado. O gramado em frente às casas está bem aparado, bandeiras da Alemanha tremulam ao vento, e dá para ver algumas vacas no pasto. Um pouco afastado dali, encontra-se um terreno gigantesco protegido por árvores e um muro. Um caminho de cascalhos conduz até a casa onde Waldemar Herdt vive com sua família. É final de julho. Depois de ter cancelado duas entrevistas em Berlim em cima da hora, o político de extrema direita da AfD se dispôs a realizar um encontro em sua casa. 

A AfD foi fundada em 2013. Em 2017, ingressou no Parlamento alemão com 12,6% dos votos. No momento de sua criação, era sobretudo um partido nacionalista, ultraliberal, contra a União Europeia. No entanto, com a chegada de centenas de milhares de refugiados na Alemanha, as forças de direita radical se afirmaram dentro do partido. Hoje a AfD é um partido com conexões em movimentos de extrema direita e grupos neonazistas. Seus políticos costumam chamar a atenção por causa de comentários racistas e antissemíticos. Björn Höcke, integrante da AfD, por exemplo, chamou o Memorial do Holocausto (que lembra a morte de 6 milhões de judeus pelo nazismo) em Berlim de “memorial da vergonha”.

Na entrada da enorme casa de Waldemar Herdt, uma placa saúda os visitantes: “Deus abençoe esta casa/ e todos que nela entram e dela saem”. O repórter já almoçou? A esposa de Herdt havia preparado algo. “Não mesmo? Tem certeza?” Herdt conduz então o repórter até uma sala espaçosa com chão de ladrilho. O filho adulto do político está ocupado atrás de cinco monitores de televisão, atendendo ligações para a transportadora da família. Uma grande vidraça dá vista para o imenso jardim. Trampolim, balanço, uma tenda para eventos. Um cachorro faz algazarra na coleira.

Antes de a entrevista começar, Herdt ainda precisa responder a algumas mensagens e ligações. Elas têm a ver com Armênia, Grécia, Uzbequistão. Não tem como não notar: tudo passa por Waldemar Herdt. “O Brasil foi especial”, diz Herdt entusiasmado, com sotaque russo. Ele é originário do Cazaquistão. O maior país da América Latina vem assumindo um papel cada vez mais importante para a direita cristã europeia. 

 

“Internacional conservadora”

 

O plano de viajar ao Brasil surgiu em 2019, durante o National Prayer Breakfast na Casa Branca, em Washington. Uma vez por ano, políticos e grupos religiosos do mundo todo reúnem-se na capital dos Estados Unidos por iniciativa de uma organização cristã conservadora. O encontro é considerado um importante evento para fazer lobby de grupos de interesse cristãos nos EUA. Alguns desses grupos são católicos, muitos são evangélicos, e não são poucos os fundamentalistas. Até mesmo Donald Trump, então presidente dos EUA, falou por lá. “Não foi um discurso presidencial”, diz Herdt: “Foi uma pregação”. No ano de 2019, 4.500 pessoas participaram do evento, sobretudo políticos, mas também pastores e empresários. Dez parlamentares viajaram da Alemanha. Herdt também teve conversas com parlamentares brasileiros nesse evento. Com quem exatamente, ele não revela. Mas uma coisa ele quer falar: “Durante o Prayer Breakfast, percebi que não apenas eu, mas toda a AfD não possui relações com a América Latina”. Isso iria mudar em breve. 

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Membro da AfD, maior partido da extrema direita alemã, Waldemar Herdt visitou o Templo de Salomão em São Paulo

 

Em julho deste ano, a famosa política da AfD Beatrix von Storch também viajou ao Brasil e se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro. Depois da visita, que foi amplamente divulgada pela imprensa brasileira, a deputada federal falou em uma entrevista para a BBC que pretende criar uma “internacional conservadora”, uma alusão a Internacional Comunista. Em um texto no jornal da direita alemã Junge Freiheit, ela reclama que a esquerda opera hoje em nível mundial. “As suas redes chegam desde as Nações Unidas e União Europeia até aos tribunais internacionais, desde os gigantes da internet até aos meios de comunicação social nacionais. Antifa, ‘Fridays for Future’ e ‘Black Lives Matter’ atuam como organizações em nível mundial. A menos que os conservadores também trabalhem em rede em nível mundial, estarão sempre em desvantagem e ficarão para trás. O governo de Bolsonaro compreendeu isto e está, portanto, aberto à cooperação internacional com os conservadores de outros países”, declarou. 

No Brasil, ela se encontrou ainda com outros políticos influentes, entre eles o filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Donald Trump, anunciou Eduardo Bolsonaro como líder do “The Movement” na América Latina, uma rede internacional de direita que se encontra em planejamento. Ao contrário da visita de Waldemar Herdt, o encontro com Beatrix von Storch, que é neta do ministro de finanças de Hitler, gerou uma grande indignação, sobretudo por grupos judeus e organizações de direitos humanos.

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Beatrix von Storch, líder de extrema direita, se reuniu com Bolsonaro no Palácio do Planalto

 

Von Storch, assim como Herdt, integra a ala cristã-conservadora da AfD. Nessa corrente, uniram-se representantes de diferentes confissões cristãs: igrejas evangélicas livres, anglicanos, opositores do papa Francisco e católicos tradicionalistas. Seu posicionamento costuma estar em grande afinidade com as posições oficiais das igrejas católica e evangélica. O lema dessa direita religiosa é a defesa daquilo que consideram ser o “Ocidente cristão”: a luta contra o aborto e direitos LGBTQI, a promoção da família tradicional como norma universal e a resistência a uma suposta “islamização”.

A visita de Beatrix, no entanto, teve poucos resultados concretos até agora – ao contrário da viagem do Waldemar Herdt. Ele continua sendo o político mais importante da nova aliança entre a AfD e o Brasil.

 

Algo podre

 

Uma pauta que une evangélicos e a nova direita ultraconservadora no mundo é, ao lado da criminalização do aborto, a luta contra a comunidade LGBTI. É também por esse motivo que buscam intensamente contatos no exterior. “Eles querem transformar sua agenda em um tema global”, diz Christina Vital, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense – UFF e colaboradora do Instituto de Estudos da Religião – Iser. “Para isso, estão se unindo a inúmeras forças, atuando em redes internacionais.” Segundo Vital, evangélicos brasileiros têm conexões diretas com a Casa Branca. Contatos na Europa, no entanto, são poucos até agora, e nenhum significativo na Alemanha. Será que Waldemar Herdt quer mudar isso?

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Herdt sobre Feliciano: “Se procurar, todo mundo tem algo podre”

 

O político da AfD conta que ficou impressionado por haver uma coalizão entre deputados religiosos no Parlamento brasileiro e muitos deles serem pastores. “No Brasil, é possível expressar a fé, sem que se sinta pressão contrária da sociedade.” Herdt se encontrou com inúmeros políticos evangélicos e pastores no Brasil. Um encontro com o também evangélico Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, estava igualmente previsto, mas não pôde ocorrer devido a uma viagem de férias. Em compensação, Herdt se encontrou com Marcelo Crivella (Republicanos), bispo licenciado da Universal e ex-prefeito do Rio de Janeiro. Também com a deputada Bia Kicis (PSL-DF), apoiadora radical de Bolsonaro. 

Mas um interlocutor em especial chama atenção: Marco Feliciano (PSC-SP). Deputado, vice-líder do governo e pastor. Trata-se provavelmente de um dos mais importantes elos entre as igrejas evangélicas e a política e de alguém altamente controverso. Inúmeras vezes, fez manifestações consideradas racistas e homofóbicas. Sobre isso, Herdt diz apenas: “Se procurar, todo mundo tem algo podre [em tradução livre]”. Além do mais, ele alega não ter feito nenhuma pesquisa detalhada antes desse encontro.

 

AfD em busca de conexões com o Brasil

 

Waldemar Herdt não é o único político da AfD atrás de conexões com o Brasil. No dia 28 de outubro de 2018, dia em que Bolsonaro foi eleito presidente, Petr Bystron, líder da AfD no Comitê de Relações Exteriores do Parlamento Alemão, o descreveu como um “verdadeiro conservador” e comemorou: “A revolução conservadora agora chegou à América do Sul”.

Outros políticos também celebraram a vitória do homem que, durante a campanha, ameaçou fuzilar seus oponentes políticos e pendurou em seu escritório fotos de torturadores. Christian Blex, por exemplo. Conhecido por ser especialmente radical, o deputado da AfD no Parlamento do estado da Renânia do Norte-Vestefália tem relações familiares no Brasil e está no país com frequência. “Por motivos meramente pessoais”, ele enfatiza. Já que seu foco está na política interna da Alemanha, ele diz não querer se envolver em questões internacionais. No entanto, ficou contente com a vitória de Bolsonaro, com quem simpatiza por negar a “besteira climática” e não compactuar com o “pânico com o corona”. Para Blex, é lógico que suas posições não agradam ao “mainstream da esquerda”. Ele teria proposto a criação de um Grupo Parlamentar Brasil-Alemanha no Parlamento estadual, mas a tentativa não deu certo. “Quem sabe no próximo período de legislatura”, diz.

Outro político da AfD com ligações com o Brasil é Torben Braga, 30 anos, deputado no Parlamento do estado da Turíngia. Ele foi assessor de imprensa da Associação Alemã de Fraternidades Estudantis, uma instituição notoriamente racista. É considerado um afilhado político de Björn Höcke, figura mais radical da sigla. Braga nasceu e cresceu no Brasil, frequentou a escola no Rio de Janeiro. Suas chances de ingressar no Parlamento Federal Alemão nas eleições de setembro são boas. Nas redes sociais, Braga também comemorou a vitória de Bolsonaro, mas, quando entrevistado, se comporta de maneira mais contida. Quanto à disseminação de ódio contra minorias? Afinal, Bolsonaro afirmou que prefere um filho morto a um filho gay, fez ofensas racistas à população negra, disse a uma deputada que ela não merecia sequer ser estuprada. Braga alega que não conhece essas citações e por isso não pode se manifestar sobre elas.

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Ligado à políticos radicais da AfD e ex-assessor de organização racista, Torben Braga é um entusiasta de Jair Bolsonaro

 

Além disso, a AfD apresentou ao Executivo diversos Kleine Anfragen, questionamentos oficiais sobre a ajuda externa ao Brasil. Com isso, os deputados dos parlamentos podem fazer perguntas que devem ser respondidas e publicadas pelo governo em tempo útil. “Trata-se de um mero pretexto para atribuir um ar democrático ao governo de Bolsonaro”, diz Yasmin Fahimi, política da SPD que preside o Grupo Parlamentar Brasil-Alemanha no Parlamento alemão. “Muitas questões problemáticas não são trazidas à tona.”

Analistas entrevistados pela reportagem acreditam que, com a saída de Donald Trump, o país pode vir a assumir um papel de liderança para a direita cristã. E há motivos para afirmar que o político da AfD Waldemar Herdt exerce um papel central para o networking dessa aliança conservadora-cristã internacional. 

 

“Valores da Bíblia que guiam meu caminho”

 

Herdt migrou para a Alemanha em 1993. Cresceu no Cazaquistão, formou-se engenheiro agrícola, foi diretor de uma cooperativa de produção. Desde 2004, é dono de uma construtora no estado alemão da Baixa Saxônia. Antes de ingressar na AfD, ele se engajou no pequeno Partido dos Cristãos Seguidores da Bíblia. Até o início deste ano, Herdt era o porta-voz da Associação Regional Norte dos “Cristãos na AfD”. “São os valores da Bíblia que guiam meu caminho”, escreve ele em sua homepage.

Herdt é um homem que fala bastante sobre “humanismo”, reforça o tempo todo que a família é o mais importante, se diz pacifista. Não é daquele tipo clássico da AfD que propaga o ódio às minorias. Mesmo assim, ele fala em “histeria do clima” e diz que “o sentimento de culpa coletivo alemão” em relação ao nazismo estaria tirando a dignidade dos alemães. Volta e meia, ele alerta sobre um “novo modelo de sociedade” e para uma suposta “ideologia de gênero”. “Na Alemanha, a legislação vem mudando por pressão de descrentes – a ponto de que, em breve, iremos parar em Sodoma e Gomorra”, afirma. “Uma rede de direita conservadora não faria mal, como contrapeso.” explica. Essa virou sua missão mais importante. 

A igreja que Herdt frequenta é uma construção de dois andares com vidros em tom azulado, localizada em uma rua bastante movimentada, não longe da estação central de trem de Osnabrück (cidade de 160.000 habitantes no estado da Baixa Saxônia). Na entrada, um letreiro: “Igreja Evangélica Livre Fonte da Vida” (Lebensquelle em alemão). Acima, uma cruz. Tirando isso, o prédio não chama atenção. Herd se engaja ativamente nos compromissos da igreja evangélica. A “Fonte da Vida” faz parte das comunidades pentecostais que, via de regra, não fazem uma leitura bíblica de forma crítica. Estima-se que essa vertente confessional em específico tenha 60 mil adeptos na Alemanha.

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Igreja evangélica alemã “Fonte da Vida” recebe críticas por supostamente fazer terapia de conversão para homossexuais

 

A “Fonte da Vida” tem um canal próprio no YouTube, e nos cultos as bandas tocam música pop cristã. Os músicos se parecem com jovens adultos quaisquer: barba de três dias, brincos, camisetas. Suas apresentações são emotivas, melodramáticas até: “Você venceu a morte por mim. Obrigado, Jesus”. Na frente do palco, pessoas dançam, batem palmas, estendem as mãos para o alto. “Obrigado, Jesus. Obrigado, Jesus.” A “Fonte da Vida”, no entanto, recebe críticas por realizar “terapias de conversão” para a “cura da homossexualidade” e tratamentos duvidosos contra dependência química.

De vez em quando, outros pregadores são convidados a Osnabrück – essas visitas estão documentadas no YouTube. Alexey Ledyaev, da Letônia, é um deles. Ledyaev comanda a “New Generation Church” em Riga e é conhecido por pregações homofóbicas agressivas. Waldemar Herdt diz que ele é seu “amigo”. Dentro desse contexto, também fez uma aparição na campanha eleitoral, em um evento que o pregador organizou em nome dos “Watchmen on the Wall”. Os Watchmen são um projeto conjunto de Ledyaev e do pregador estadunidense fundamentalista de extrema direita Scott Lively. Em uma pregação durante a fundação dos Watchmen, Ledyaev afirmou que os LGBTI tentaram erigir uma “ditadura da homossexualidade” e que os Watchmen devem proteger a sociedade da “cultura da morte”, além de apoiar políticos que compartilham dos seus valores. Lively é coautor do livro Suástica rosa, que responsabiliza homossexuais pelo Holocausto. Em um evento dos Watchmen em Riga em novembro de 2018, Waldemar Herdt apareceu junto de Lively, sendo apresentado como um aclamado convidado especial. Apesar disso, quando questionado, Herdt admite que pode até conhecer o pregador, mas só consegue se recordar dele vagamente.

 

A aliança

 

No verão de 2019 Waldemar Herdt viajou a Moscou e apresentou uma ideia: a criação de uma “comissão de direitos humanos alternativa”. Ele a explica desta forma: “Cheguei à conclusão de que todas as organizações de direitos humanos têm um toque de ideologia de gênero esquerdista. O lado conservador não tem nenhuma representação. Precisamos de uma comissão interparlamentar baseada em valores cristãos, conservadores e patrióticos”.

Alguns meses depois, em dezembro de 2019, a bancada da AfD no Parlamento Federal decide de fato fundar a “Comissão Interparlamentar de Direitos Humanos” (IPMK, na sigla em alemão) – presidida por Waldemar Herdt. Em um comunicado à imprensa, a AfD escreve que a comissão vai se ocupar da “ideologia esquerdista ambientalista oculta na definição clássica de direitos humanos”. Até agora, segundo Herdt, a comissão conta com parlamentares e especialistas de 30 países, entre eles Estados Unidos, Portugal, Sérvia, Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Mongólia e, recentemente, o Brasil. Resoluções estariam sendo elaboradas para virar projetos de lei. A despeito da pandemia, a IPMK já realizou diversos eventos. Entre eles, uma conferência on-line sobre o tema “extremismo”, onde se reuniram parlamentares e ativistas russos, pregadores estadunidenses e Sam Brownback, que havia sido nomeado por Trump como embaixador especial para a liberdade religiosa.

No mundo todo, o tema dos direitos humanos e a ocupação de cargos políticos em posições relevantes nessa área têm se tornado uma espécie de porta de entrada para a direita cristã. Inclusive no Brasil, onde Marco Feliciano, interlocutor de Herdt, foi escolhido em 2013 presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Ele não chegou a esse posto por já ter trabalhado na área, mas por querer acabar com os temas LGBTQI”, diz a antropóloga Christina Vital. Também a ministra Damares Alves, evangélica, vem tentando estabelecer uma nova definição de direitos humanos. E o que pensa Herdt? Para ele, direitos humanos significam sobretudo três coisas: “direito à vida, direito ao trabalho e direito à crença religiosa”, diz. Entretanto, essa é apenas uma parcela do que consta na constituição da Alemanha e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em junho, o Instituto Alemão para Direitos Humanos já soava o alarme em um estudo detalhado sobre a AfD. Esse estudo concluiu que, do ponto de vista da teoria dos direitos humanos, a AfD defende posições que não encontram base na Constituição.

Este ano Waldemar Herdt não vai concorrer de novo ao Parlamento Federal Alemão. Até chegou a se candidatar durante a primeira prévia do partido, porém não foi escolhido. Apesar disso, o grêmio da IPMK vai continuar, como ele mesmo enfatiza na entrevista. E Herdt pretende seguir atuando como porta-voz da IPMK. Além disso, está prevista uma conferência no Parlamento alemão no ano que vem. Os principais convidados são os interlocutores de Herdt no Brasil: Bia Kicis, Kennedy Nunes, Aroldo Martins, Luiz Philippe de Orleans e Bragança. É o começo de uma nova aliança.

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24
Mar22

Cliente quer vender sua filha como escrava (Êxodos 21:7). Ele pode?

Talis Andrade

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Por Lenio Luiz Streck /ConJur

O Brasil é um país absolutamente bizarro. Um país em que não sabe se o número de picaretas supera o de não picaretas. Explicarei.

Tramita — em regime de urgência (bingo!!!) — projeto de um deputado evangélico que pretende proibir os termos 'Bíblia' e/ou 'Bíblia Sagrada' em qualquer publicação impressa ou eletrônica de modo a dar sentido diferente dos textos consagrados há milênios nos livros, capítulos e versículos utilizados pelas diversas religiões cristãs já existentes.

Explico. O deputado quer censurar o uso da palavra Bíblia e dos sentidos da própria Bíblia. Quem usurpar a "palavra" pode pegar de 1 a 5 anos. Uma palavra é propriedade de alguém? De uma religião? De uma igreja? Dessas que não pagam impostos à Cesar? Que interpretam a Bíblia (ups, serei processado) ao seu bel prazer?

Quer dizer: o missionário RR Soares pode usar a Bíblia em "o nome de o Senhor" (sic) todos os dias para curar dor nas juntas, tumores, afastar maus espíritos e curar dezenas de milhares de pessoas de — pasmem — Covid-19 (ele que esteve entubado e não foi curado da Covid; péssimo garoto propaganda; calvo vendendo elixir para crescer cabelos!). Tem pastor que tira gente do Serasa. Outro diz que, se levar o processo para ele benzer, é causa ganha. E tem padre vendendo vitamina e creme facial.

Claro. A Bíblia é monopólio das igrejas... As outras pessoas não podem usar o termo Bíblia fora do sentido que eles, os adeptos das religiões — dão.

Ah, vão se afumentar. O parlamento deveria devolver o dinheiro que gasta com esse tipo de discussão. É improbidade.

O parlamento poderia fazer uma lei proibindo vigarices como a de um pastor que vendeu sementes para curar Covid. Isso tudo pode, certo? Não é estelionato... Pode vender água do Jordão buscada na bica da Igreja e vender por aqui. Tudo pode "Em o Nome de o Senhor...". Em nome da "palavra".

O projeto é preocupante. Mais pelo seu aspecto simbólico, porque aponta terrivelmente para uma estupidização do Brasil. A Folha de S.Paulo já fez dois editoriais alertando. Um deles é sobre a reunião de Bolsonaro na semana passada com as igrejas, em que disse que o governo dele vai (irá) para onde as igrejas determinarem. Somando isso ao projeto do deputado sobre a Bíblia, temos a tempestade perfeita.Image

A secularização (separação entre Igreja e Estado) é uma conquista secular (sem trocadilho). E vêm agora esses "novos teocharlatães" e querem controlar os sentidos das palavras. Ultrapassaram o Rubicão.

O projeto prevê penas de 1 a 5 anos. E quem criticar o modo como as igrejas tratam desses temas pode ser processado por discriminação religiosa. Será que terá pena de apedrejamento? Adúlteros serão chicoteados?

Na justificativa, o deputado-autor diz que o projeto visa, entre outras, punir quem pretender tirar as referências bíblicas que condenam a homossexualidade. Sim, está na justificativa do projeto.

"Jenial". Vou reproduzir, em homenagem aos defensores do projeto, um episódio da série West Wing. Nele, uma senhora — que bem poderia ser representada pelos defensores do projeto — esgrime a Bíblia "ao pé da letra" para exigir do Presidente dos EUA que proíba a homossexualidade. Ela vai até a Casa Branca. Vejam o diálogo:

Presidente: — Eu gosto da maneira que a senhora chama homossexualidade de aberração.

Senhora com a Bíblia na mão: — Eu não chamo homossexualidade de uma aberração, Sr. Presidente, a Bíblia é que chama.

Presidente: — Sim, ela chama! Está em Levíticos!

Senhora: — Levíticos 18:22.

Presidente — Capítulo e versículo. Eu queria lhe fazer algumas perguntas, já que está aqui. Eu quero vender minha filha mais nova como escrava, como é permitido em Êxodos 21:7. Ela está no segundo ano da Georgetown, fala italiano fluente, e sempre limpou a mesa quando era a sua vez. Qual seria o preço adequado a ela?

E o presidente arremata (ou a-ré-mata?): — Enquanto você pensa nessa, posso perguntar outra? O meu chefe de assessoria Leo McGary, insiste em trabalhar aos sábados. Êxodos 35:2 diz claramente que ele deve ser morto [também em Números, 15]. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo ou posso chamar a polícia?

Captaram? Senhores parlamentares, captaram a ideia?

 

A hermenêutica e a Bíblia ao pé da letra: charlatanismo epistemológico

 

Os adeptos de determinadas religiões usam a literalidade de conveniência. E, ao mesmo tempo, querem impedir outras leituras da Bíblia. A volta do Index e o "crime de hermenêutica bíblica".

Vou contar outra história, senhores parlamentares que apoiam o projeto. Há uma experiência feita com crianças em Israel. Omitiram os nomes e contaram a história de Josué e a carnificina que Jeová mandou fazer (está em Números). Ao ouvirem o relato, as crianças choravam e diziam: quem mandou fazer essa crueldade? Que horror. Pois é. Textos e contextos. Textos e simbolismos. Pé da letra? Ora, letra não pé, cara pálida.

Senhores deputados e senadores, não quero sacanear, mas terça, dia 8, foi o Dia Internacional da Mulher. Mas em Números 31,1-18, lê-se um conselho ou ordem de Jeová aos guerreiros:

"todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós".

Quero crer que os senhores e senhoras parlamentares concordam comigo que a literalidade da Bíblia é uma estupidez interpretativa. Digo das cinco leis da estupidez, de Carlo Cippola. E do Discurso da Estupidez, de Mauro Mendes Dias.

Ou alguém acha que passar crianças a fio de espada ou estuprar mulheres é algo que deve ser interpretado ao pé da letra?

Há interpretações para todos os custos (veja-se como RR cobra o dízimo — vamos discutir, a sério, Malaquias 10,3?) e para todos os gostos e costumes. Vamos discutir os tributos isentos? Dai a Cesar...

Bom, de minha parte, reconheço que Hermes (o semideus, pai mitológico da hermenêutica) era um delinquente. Já contei isso várias vezes. Ele nasce e já clepta. Peca. Por isso, hermenêutica é algo complexo. Ela esconde. Se apropria. Diz tudo? Diz quanto?

Por isso, no princípio era o verbo (João, 1,1).

Era o verbo e não o sujeito-que-quer-se-adonar-do-sentido-do-verbo, se me entendem!

23
Mar22

Voto acima de tudo

Talis Andrade

milton ribeiro dizimando a educação por duke.j

 

por Fernando Brito

- - -

Milton Ribeiro vai para o sacrifício, mais dia, menos dia.

Não chega a ser um “cordeiro de Deus”, inocente, que vai ser imolado para purgar o oceano de negócios que se tornou a relação de Jair Bolsonaro com os evangélicos – sejam os que se organizam para o saque nas bancadas governistas do Centrão, seja no submundo da picaretagem de varejo, que exploram, a peso de ouro (literalmente, 1 kg), a traficâncias de prestígio e poder nos ministérios – agora o da Educação e, vimos antes na CPI da Covid, os da Saúde.

Mas resolveu criar uma “apoio evangélico próprio”, usando os pastores com acesso direto ao Planalto e deu-se mal, embora, de boca, ainda esteja recebendo apoio da família presidencial. Que, por sinal, estava satisfeita com ele e franqueava a Ribeiro as portas da intimidade domésticas.

Não será o suficiente, mas não pelo escândalo nacional que se produziu, mas porque a a estrutura chantagista do Centrão – em boa parte formada pela bancada evangélica – não pode ser melindrada justo quando é preciso que os púlpitos estão para ser convertidos em palanques.

Esta é a razão central pela qual a “bancada evangélica” quer se dissociar do episódio e, e possível, mandar Mílton Ribeiro, como ao bode expiatório, para o deserto do esquecimento.

Muitos podem não crer, mas o escândalo que importa é o que se causa entre os fiéis evangélicos que não querem – e não tem razão – para serem castigado pelas maracutaias daqueles e de outros pastores.

É gente, em geral, trabalhadora e humilde, sendo acossada pelo cavaleiro do Apocalipse de nome inflação que, como no livro, faz dizer: “Só um quilo de trigo ou três quilos de cevada por um denário, mas não há azeite de oliva nem vinho”.

O apoio a Bolsonaro por manipulações de pastores, que já enfrenta problemas entre o povão, já minguou e tende a minguar mais, com a crise econômica.

Bolsonaro não pode se dar ao luxo de “bancar” Ribeiro, por mais que D. Michelle lamente.

Entre o pastor do MEC e a chance de salvação, a escolha é certa.

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