Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Dez19

“O violador és tu”: a música de protesto das mulheres do Chile que está a arrepiar o mundo (letra e música vídeo)

Talis Andrade

"É femicídio, impunidade para o meu assassino. É o desaparecimento. É violação. E a culpa não era minha, nem de onde estava, nem do que vestia. O violador és tu".Performance do "Um estuprador no seu caminho", marcha  feminista que surgiu no Chile (Foto: CLAUDIO REYES / AFP)

 

Como não bastam cartazes, gritos e palavras, as jovens do Latesis decidiram recorrer à música para fazerem passar a sua mensagem. Espalhadas em grupos por vários pontos estratégicos de Santiago do Chile (junto ao Tribunal de Justiça, no campus da Universidade Mayor ou no centro da cidade), centenas de mulheres protestaram contra o femicídio e exigiam medidas mais duras por parte do Governo. E se o objectivo era serem ouvidas pela população e governantes do Chile, esse foi em muito ultrapassado.

Hoje a música é cantada nos quatros cantos do novo e do velho mundo.

“Un violador en tu camino” (Um estuprador no seu caminho)

El patriarcado es un juez, (O patriacado é um juiz)

que nos juzga por nacer (que nos julga ao nascer)

y nuestro castigo es (e nosso castigo é)

la violencia que no ves. (a violência que não se vê)

El patriarcado es un juez, (O patriarcado é um juiz)

que nos juzga por nacer (que nos julga ao nascer)

y nuestro castigo es (e nosso castigo é)

la violencia que ya ves. (a violência que já se vê)

Es feminicidio (É o feminicídio)

Impunidad para el asesino (Impunidade para o assassino)

Es la desaparición (É o desaparecimento)

Es la violación (É a violação)

Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía (4x) (E a culpa não era minha, nem onde estava, nem como me vestia)

El violador eras tú (2x) (O estuprador é você)

Son los pacos (policías) (São os policiais)

Los jueces (Os juízes)

El estado (O estado)

El presidente (O presidente)

El estado opresor es un macho violador (2x) (O estado opressor é um homem estuprador)

El violador eras tú (2x) (O estuprador é você)

Duerme tranquila niña inocente, (Dorme tranquila, menina inocente)

sin preocuparte del bandolero, (sem se preocupar com o bandido)

que por tus sueños dulce y sonriente (que os seus sonhos, doce e sorridente)

vela tu amante carabinero. (cuida seu querido carabinero (policial) – os quatro últimos versos foram retiradas de um canto da polícia chilena, uma forma de ironizar a letra da canção, segundo declararam as compositoras -)

El violador eres tú (4x) (O estuprador é você)

 

11
Dez19

Marco Feliciano discute com Patrícia Lélis após expulsão do Podemos por assédio sexual

Talis Andrade

feliciano lelis.jpeg

 

Revista Forum - Na madrugada desta quarta-feira (11), depois da expulsão do partido Podemos por acusações de corrupção e assédio sexual, o deputado federal Marco Feliciano (SP) passou a trocar farpas com a jornalista Patrícia Lélis no Twitter. Lélis já denunciou o pastor por estupro quando ela fazia parte da juventude do PSC e, na terça-feira (10), voltou a lembrar dos escândalos do deputado.
 
Patrícia Lélis SURTADA publica vídeos/tuites dizendo q há nova acusação d assédio contra mim. Mentira! Podemos/SP usou acusação falsa q ela fez p/ me expulsar. Lelis é denunciada pelo MP por tentativa de extorsão, e condenada a me pagar 150 mil por danos morais. Fugiu do país!”, escreveu o presidente da Assembleia de Deus, que acusa a jornalista de compartilhar fake news nas redes.
 
Lélis logo rebateu as acusações, explicando que o partido não usou suas acusações para expulsá-lo do partido. “O Podemos não usou da minha acusação, como também não tenho nenhum contato com ninguém do partido. E não fui condenada a pagar nada como também não fugi do Brasil, por ser legalmente casada com um americano, tenho o direito. Para de mentir, demônio”, escreveu.
 
Em outro tuíte, ela complementa que o Podemos enfatiza na acusação que o assédio aconteceu no gabinete de Feliciano, “o que mais uma vez prova que ele mente ao dizer que usaram do meu caso. Eu não trabalho no gabinete, e comigo o episódio aconteceu fora da Câmara de Federal”, continuou.
 

Em seguida, a jornalista publicou nas redes o vídeo de quem ela alega ser “amante” do pastor Marco Feliciano, conhecida como pastora Dani Alexandria. Lélis acusa a mulher de tentar silenciar as vítimas do deputado.

Patrícia Lélis@lelispatricia

Feliciano, eu não tenho medo algum de você, e por aqui vai ter muito fogo no cu, estuprador!
Como ele resolveu me atacar, vou deixar aqui esse vídeo DA PASTORA DANI ALEXANDRIA, conhecida como amante do Feliciano. https://youtu.be/i7p3iWiarB8 

 

 
 

 

 
 
11
Dez19

Patrícia Lélis: “Precisamos falar sobre Marco Feliciano”

Talis Andrade

"Quando eu tinha 22 anos e fazia parte da juventude do PSC, Feliciano me estuprou e agrediu, e fez isso usando o nome de deus", relembrou a jornalista

patricia .png

patriciapsc.jpg

dentes feliciano.jpg

Revita Forum - A jornalista Patrícia Lélis fez uma sequência de tuítes em suas redes sociais nesta terça-feira (10) lembrando alguns dos escândalos do deputado federal Marco Feliciano, expulso do Podemos na segunda-feira. Lélis denunciou que Feliciano a violentou sexualmente enquanto ela fazia parte da juventude do PSC.

“Quando eu tinha 22 anos e fazia parte da juventude do PSC, Feliciano me estuprou e agrediu, e fez isso usando o nome de deus. Mandou o seu assessor me oferecer carro, dinheiro e outras coisas para ficar calada”, afirmou Lélis sobre pastor, que preside a Assembleia de Deus – Ministério Catedral do Avivamento.

A jornalista ainda conta que ela foi obrigada a gravar vídeos desmentindo a história e chegou a ter esperanças de que o caso seria investigado com seriedade pela Polícia Federal, mas logo se decepcionou.

“Quando a PF entrou no caso, eu acreditei que iria ter justiça, mas estava enganada. NUNCA FUI CHAMADA PARA DEPOR, sempre enrolavam as investigações. Não me culpem por não acreditar na justiça brasileira, pois a própria justiça facilita exatamente tudo para estupradores”, disse.

Patrícia Lélis@lelispatricia

Precisamos falar sobre Marco Feliciano!
Quando eu tinha 22 anos e fazia parte da juventude do PSC, Feliciano me estuprou e agrediu, e fez isso usando o nome de deus.

(+)https://m.diarioonline.com.br/noticias/542765/partido-expulsa-feliciano-por-assedio-sexual-e-corrupcao 

https://cdn.diarioonline.com.br/img/Artigo-Destaque/540000/marco-feliciano-aparecida-copy_00542765_0_.jpg

Partido expulsa Feliciano por assédio sexual e corrupção

O Podemos expulsou nesta segunda-feira (9) o pastor evangélico e  deputado Marco Feliciano (SP) do partido. O apoiador de Jair Bolsonaro foi expulso por “incompatibilidade programática e comportame...

m.diarioonline.com.br
Patrícia Lélis@lelispatricia
 

Mandou o seu assessor me oferecer carro, dinheiro e outras coisas para ficar calada. Quando não aceitei, o mesmo assessor Talma Bauer, aposentado do PM me sequestrou. Me obrigaram a fazer vídeos dizendo que tudo não passava de um fake news criada pela esquerda. (+)

Patrícia Lélis@lelispatricia
 

Quando a PF entrou no caso, eu acreditei que iria ter justiça, mas estava enganada. NUNCA FUI CHAMADA PARA DEPOR, sempre enrolavam as investigações. Não me culpem por não acreditar na justiça brasileira, pois a própria justiça facilita exatamente tudo para estupradores.

 

11
Dez19

Marco Feliciano é expulso do Podemos por suspeita de corrupção

Talis Andrade

marco-feliciano-kkk.gif

 

 


Do Estadão

O Podemos expulsou o deputado Marco Feliciano (SP) do partido. A decisão foi tomada nesta segunda-feira, 9, pelo comando da legenda em São Paulo por oito votos unânimes e deve ser comunicada pelo presidente estadual da sigla, Mario Covas Neto, nesta terça-feira, 8. (…)

A denúncia que originou a expulsão de Feliciano cita uma série de acusações ao deputado. Entre elas, estão os gastos de R$ 157 mil referentes a um tratamento odontológico reembolsados pela Câmara, caso revelado pelo Estado.

Além disso, o apoio irrestrito ao presidente Jair Bolsonaro, acusações de assédio sexual no gabinete, recebimento de propina, pagamento a supostos funcionários fantasmas e até comentários sobre o cantor Caetano Veloso.

boca cara.jpg

 

11
Dez19

Feliciano é expulso por assédio e corrupção

Talis Andrade

Felicianomario.jpg

 

Por Altamiro Borges

O jornal Estadão dá destaque nesta segunda-feira (9) em seu site: “O Podemos expulsou o deputado Marco Feliciano do partido. A decisão foi tomada pelo comando da legenda em São Paulo por oito votos unânimes... A denúncia que originou a expulsão cita uma série de acusações ao deputado. Entre elas, estão os gastos de R$ 157 mil referentes a tratamento odontológico reembolsados pela Câmara, apoio irrestrito ao presidente Jair Bolsonaro, acusações de assédio sexual no gabinete, recebimento de propina, pagamento a supostos funcionários fantasmas e até comentários sobre o cantor Caetano Veloso”. 

Ainda segundo o jornalão, “o partido decidiu expulsar Marco Feliciano por ‘incompatibilidade programática e comportamento incondizente com as diretrizes’. A saída forçada ocorre dentro da estratégia do Podemos de se afastar do ‘bolsonarismo’ e se firmar como a sigla da Lava Jato. O partido tem atraído parlamentares da centro-direita descontentes com o governo e, só no Senado, passou de cinco para dez parlamentares nos últimos meses – a segunda maior bancada. Dirigentes do Podemos querem desvincular a imagem do partido à de Feliciano. Alguns deputados e senadores, citam as fontes nos bastidores, condicionam a negociação de migração para a legenda à saída do deputado dos quadros do Podemos”. 

Por seu oportunismo e total falta de caráter, Marco Feliciano colecionou vários inimigos nos últimos tempos – não só entre os parlamentares que desejam se afastar do clã bolsonarista e ingressar no Podemos. Muitos devem estar festejando a sua expulsão. Entre eles, com certeza estará o vice-presidente Hamilton Mourão, o general humilhado pelo “pastor” bolsonarista. Em abril passado, Marco Feliciano chegou a protocolar pedido de impeachment contra o milico-capacho. A iniciativa diabólica foi divulgada pela revista Época: 

“O deputado Marco Feliciano protocola pedido de impeachment de Hamilton Mourão. Feliciano, que é vice-líder do governo no Congresso, acusou o vice de manter ‘conduta indecorosa, desonrosa e indigna’. Trata-se de mais um lance na disputa dos evangélicos olavistas – dos quais Feliciano é o primeiro-tenente – contra os generais do governo Bolsonaro... Feliciano disse que redigiu o impeachment de Mourão pelo celular, em voo da Cidade do Panamá a Brasília. Voltava de viagem aos Estados Unidos, onde se encontrou com... Olavo de Carvalho... ‘O senhor não era ninguém. Mantenha-se na sua insignificância, disparou contra o vice”. 

Na época, os ataques do “pastor” bolsonarista humilharam e silenciaram o vice. Famoso bravateiro, o general sumiu do noticiário. Agora, porém, ele deve estar comemorando, da caserna, a expulsão de Marco Feliciano da legenda oportunista. O “neoqueridinho” do Palácio do Planalto, como revelou a mesma revista Época em longa reportagem em outubro, não está com essa bola toda. A vida dá voltas!

dente feliciano.jpg

 

 

16
Nov19

Assédios e estupros no mundo do cinema

Talis Andrade

liberation. 16nov.jpg

 

 

Duas denúncias públicas de mulheres francesas relançaram nos últimos dias o debate sobre os assédios e estupros no mundo do cinema. Neste fim de semana, o jornal Le Parisien publicou o testemunho de Valentine Monnier, uma ex-atriz, ex-modelo e hoje fotógrafa, que acusa o cineasta Roman Polanski de tê-la estuprado e agredido em 1975. Dias antes, a atriz Adèle Haenel acusou o diretor Christophe Ruggia de tê-la assediado e molestado. Entre 2001 e 2004, quando ela tinha entre 12 e 15 anos, e ele entre 36 e 39. Os acusados negam os fatos.

“Em 1975 fui estuprada por Roman Polanski. Eu não tinha nenhum vínculo com ele, nem pessoal nem profissional, e mal o conhecia. Foi de uma violência extrema, depois de esquiar, em seu chalé de Gstaad (Suíça). Bateu em mim até que eu me rendi. Depois me violentou me fazendo sofrer todas as vicissitudes. Eu acabava de completar 18 anos”, declarou Valentine Monnier ao Le Parisien. Polanski – franco-polonês procurado pela Justiça dos EUA pelo caso envolvendo Samantha Geier em 1977, quando ela tinha 13 anos – estreará nesta semana na França o filme J’Accuse, sobre o caso do capitão judeu Alfred Dreyfus, falsamente acusado de espionagem para a Alemanha no final do século XIX. O ator protagonista, Jean Dujardin, cancelou no domingo uma entrevista para falar do filme no telejornal do canal TF1.

O relato de Monnier – a quinta mulher que diz ter sido estuprada pelo cineasta – é detalhado. Filha uma família burguesa da Alsácia, acabava de concluir o segundo grau e desfrutava de um ano sabático. Uma amiga, que conhecia Polanski, propôs que fossem esquiar na Suíça, onde se alojariam no chalé do diretor. Monnier conta que um colaborador do cineasta – célebre então por ter dirigido O Bebê de Rosemary e Chinatown e pela trágica morte de sua esposa, Sharon Tate, assassinada por fanáticos ligados a Charles Manson – lhe advertiu: “Atenção, você faz Roman lembrar de alguém”. Acrescenta que à noite, depois de esquiar, Polanski a chamou em seu quarto e se jogou sobre ela; depois, aos prantos, lhe pediu perdão.

A abundância de testemunhos também contribuiu para fortalecer a acusação de Haenel – atriz com 23 filmes no currículo e três prêmios Cesar – contra Ruggia – um diretor até hoje pouco conhecido – em uma longa reportagem no jornal Mediapart. Haenel detalha sua experiência intensa e traumática como atriz infantil no filme Les Diables, dirigido por Ruggia. Os testemunhos se referem à proximidade do diretor com a atriz durante as filmagens, mas não ao que aconteceu depois. Haenel conta como, depois das filmagens, Ruggia atuou como Pigmaleão da jovem atriz, que frequentava sua casa aos sábados para assistir filmes.

“Eu sempre me sentava no sofá e ele na minha frente, em uma poltrona; depois vinha ao sofá, grudava em mim, beijava meu pescoço, cheirava meus cabelos, acariciava minha coxa descendo até meu sexo, começava a colocar a mão sob minha camiseta e ia até o peito. Estava excitado, eu o repelia, mas era insuficiente, sempre tinha que mudar de lugar”, diz Haenel. Em uma carta ao Mediapart, Ruggia diz que “nunca” teve com a atriz “gestos físicos nem o comportamento de assédio sexual” do qual ela o acusa. “Mas cometi o erro de agir como Pigmaleão com os mal-entendidos e empecilhos que isso implica”, acrescenta. O Ministério Público de Paris abriu uma investigação preliminar. [Transcrevi trechos de reportagem de Marc Bassets]

 

17
Set19

Música #MulheresContraOCoiso

Talis Andrade

Quem recorda o áudio lindo, nos grupos de WhatsApp, com uma mulher cantando que são elas, as mulheres, que não vão deixar ele vencer?

frida-kahlo-feminicidio.jpgUmas facadinhas de nada (“Unos quantos piquetitos!”), de Frida Kahlo, 1934

 

Ele é o olho roxo

De quem não caiu da escada

Ele é a violência

Escondida na piada

Ele é aquele aperto nojento

Na condução

Ele é a Casa Grande

Rindo da escravidão

Ele é o país na contramão

Da caminhada

Ele é o patrão

Violando a empregada

 

Ele é o nosso salário

Um terço mais baixo

A política do ódio

Covardia, esculacho

\A política do ódio

Covardia, esculacho

A barbárie de farda

Berrando no palanque

A hipocrisia mais truculenta

Ele é a mão suja de sangue

Que se diz

Ungida de água benta

 

Ele é o atraso

Que país nenhum

Merece ter

E nós somos as mulheres

Que não vão deixar ele vencer

 

 

18
Ago19

Após sete meses, Damares não gastou um centavo com a Casa da Mulher Brasileira

Talis Andrade

Apesar de orçamento de mais de 13 milhões de reais, ministra não desembolsou recursos para o programa de atendimento a mulheres vítimas de violência

21
Mar19

Dos cinco projetos aprovados em sessão extraordinária após assassinato de Marielle, apenas um foi implementado

Talis Andrade

 

marielles.jpg

 

Por Mariana Pitasse Rio de Janeiro (RJ)

___
Durante a curta carreira parlamentar, em pouco mais de um ano de mandato, Marielle Franco (PSOL) apresentou 16 projetos de lei na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, sendo oito individuais e oito assinados com outros vereadores. Cinco desses projetos foram aprovados em sessão extraordinária, em agosto do ano passado, cinco meses após seu assassinato. No entanto, mesmo após terem se tornado lei, a maioria dos projetos encontra barreiras em sua implementação e apenas um deles passou a valer na prática: a Lei 6389/2018, que institui o 25 de julho como o “Dia Tereza de Benguela e da Mulher Negra” no Rio de Janeiro.


Os outros quatro projetos encontram-se em diferentes situações. Dois deles estão em queda de braço com o prefeito Marcelo Crivella (PRB), tendo sido vetados com a justificativa de que criariam um aumento das despesas públicas. Em seguida, tiveram o veto derrubado pela Câmara dos Vereadores, o que os tornou leis, mas não foram efetivados enquanto políticas públicas. Um deles tem por objetivo a criação de um “Espaço Infantil Noturno” (ver abaixo) de acolhimento para crianças, no período em que pais estão no trabalho ou na escola, o outro visa dar continuidade ao processo de formação dos adolescentes que cumpriram medidas socioeducativas.

 

“Ou seja, a gente tem importantes leis aprovadas, mas que a prefeitura não implementa”, sintetiza o vereador e colega de partido de Marielle, Tarcísio Motta (PSOL). De acordo com a assessoria de comunicação da Prefeitura do Rio, o governo ainda está analisando as medidas que serão adotadas em relação às leis.


Aprovados e sancionados pelo prefeito do Rio, outros dois projetos ainda não foram efetivados na prática. São eles: a Lei 6394/2018, que cria o “Dossiê Mulher Carioca”, uma espécie de estatística periódica sobre as mulheres atendidas pelas políticas públicas no município, e também a Lei 6415/2018, que trata sobre a elaboração de uma campanha permanente de enfrentamento ao assédio em locais públicos da cidade.


“Ela batizou esse projeto de ‘Assédio não é passageiro’, e essa lei está valendo. A ideia é, por exemplo, que as empresas coloquem cartazes nos transportes públicos, anunciando a questão do assédio como crime. Também dizendo o número que a mulher assediada pode ligar, além de algumas mensagens educativas para os homens. Precisamos pressionar a prefeitura para implementar essas leis. É uma luta permanente”, acrescenta Motta.

 

A sessão extraordinária de agosto do ano passado foi precedida de uma reunião dos vereadores do campo progressista com os outros parlamentares para alinhar o parecer favorável à maioria dos projetos de Marielle. Na ocasião, os parlamentares também aprovaram a lei que passou a nomear o plenário do Palácio Pedro Ernesto com o nome de Marielle Franco. Segundo Tarcísio Motta, um dos articuladores da sessão extraordinária, houve resistência de parlamentares fundamentalistas aos projetos que tratavam de questões de gênero.


Projetos como o 72/2017 que pretende instituir o “Dia da luta contra a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia” e o 82/2017 com o objetivo de criar o “Dia da visibilidade lésbica” tiveram votações adiadas por gerar polêmica entre os parlamentares. Já o projeto que trata sobre tratamento humanizado na rede pública de saúde em casos de aborto legal, não foi sequer discutido e está fora de pauta desde 2017.

 

“Mesmo assim não acredito que foi apenas uma aprovação simbólica. São as ideias dela concretizadas em projetos de lei que podem mudar a vida das pessoas. Mas não basta só aprovar, a prefeitura tem a responsabilidade de implementar esses projetos. Nossa luta agora é essa. Muitos precisam de um decreto da prefeitura regulamentando para que sejam implementados”, destacou Motta.


Projetos assinados por Marielle e outros vereadores, de forma coletiva, estão ainda sendo colocados em pauta para votação por parlamentares do PSOL. Um dos que está mais próximo do início da fila para ser votado, conforme informações disponibilizadas no site da Câmara dos Vereadores do Rio, é o PL 642/2017 que pretende instituir assistência técnica gratuita para habitações de interesse social, elaborado em parceria com o Tarcísio Motta.


Espaço Coruja

criança Anne Derenne.jpg

 

Principais bandeiras de sua atuação, os projetos apresentados ao plenário da Casa legislativa logo na primeira semana de mandato foram os apelidados de “Espaço Coruja”, o PL 17/2017, e “Pra fazer valer o aborto legal”, PL 16/2017.
O primeiro, que se tornou lei, tem como objetivo criar um Espaço Infantil Noturno que prevê o uso de creches e outras estruturas infantis da rede municipal para receber e desenvolver atividades com crianças de seis meses a cinco anos com o objetivo de “atender à demanda de famílias que tenham suas atividades profissionais ou acadêmicas concentradas no horário noturno”, segundo o texto que descreve a iniciativa.


Enquanto a prefeitura não implementa a lei, milhares de mães e pais continuam sem amparo do poder público. É o caso de Nathalia Correa, de 27 anos, moradora de Irajá, na zona Norte do Rio de Janeiro. Para ela, o projeto é urgente. Nathalia é mãe de Arthur, de cinco anos, e estudante de pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ela é mãe solo, ou seja, assume todas as responsabilidades pela criança, sejam financeiras ou por disponibilidade de tempo.


“Eu faço faculdade no horário noturno e não tenho uma solução fixa para meu filho. Tem dias que deixo com a minha mãe, mas nem sempre ela pode. Tem dias que eu deixo de estar na faculdade para estar com ele ou às vezes o levo comigo, mas isso pode ser um problema porque tem professores que não aceitam”, explica.


Na avaliação de Natália, a lei pode beneficiar principalmente as mulheres, que ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos e correm o risco de perderem seus empregos ou terem que largar seus estudos por não terem condições de contratar alguém para cuidar deles.


É o que comprova uma pesquisa do Ministério da Educação feita em 2016. Segundo o levantamento, 18,1% das mulheres, entre 15 e 29 anos, indicaram a gravidez como motivo para largar os estudos. Já entre os homens da mesma faixa etária, somente 1,3% interrompem os estudos pela mesma razão.


Aborto legal

indgnados feminismo pedra.jpg

 

O outro projeto apresentado por Marielle logo que assumiu o mandato foi pensado para garantir o direito de atendimento humanizado e sem violências às mulheres que estão em situação de aborto legal. No Brasil, o aborto é um direito garantido às mulheres em caso de anencefalia, risco de morte e gravidez decorrente de estupro. Apesar disso, muitas mulheres nessas situações esbarram no preconceito, com a falta de informação e até com maus tratos de profissionais da saúde que as atendem. Nesse sentido, a ideia do projeto é garantir o que já está previsto em lei, e assim, evitar mortes e tratamento inadequado para as mulheres que precisam de cuidados da rede pública de saúde.


Em 2014, quase 5% das mortes maternas no Brasil tiveram como causa o aborto, de acordo com levantamento feito pela campanha “Legal e Seguro", promovida pelas organizações Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e IPAS – Saúde, Acesso e Direitos.


Ainda segundo o levantamento, mulheres negras são as maiores vítimas de óbitos. Esse quadro se explica porque elas são levadas a buscar ajuda em situação limite, seja por medo de serem maltratadas ou mesmo por falta de acesso à informação qualificada. O projeto de Marielle trata justamente desses casos e não foi sequer colocado para votação na Câmara dos Vereadores do Rio.


“Não é um projeto que autoriza o aborto. Ele quer simplesmente garantir o que já estava previsto em lei: que a mulher que tem aborto espontâneo ou garantido por lei seja tratada humanamente dentro dos hospitais públicos. Mas a gente tem uma Câmara de Vereadores muito conservadora. Muito afinada com todo esse debate intransigente em relação ao aborto porque são fundamentalistas religiosos. Então trazem para o Estado, que é laico e que deveria legislar para todos, aqueles preceitos que eles acham que tem na Bíblia. Então isso foi um problema completo”, lembra a deputada estadual do Rio de Janeiro Renata Souza (PSOL), que foi chefe de gabinete de Marielle durante seu mandato.


Figura pública

nani presos matadores marielle.jpg

 

Mulher, negra e nascida na favela da Maré, na zona Norte do Rio de Janeiro, Marielle teve a luta pelos direitos humanos como seu objetivo de vida desde cedo. Mas foi na luta institucional que ela se tornou figura pública, reconhecida como liderança em ascensão no Rio de Janeiro e tornando-se a quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016, com mais de 46 mil votos.


Marielle era socióloga, com mestrado em Administração Pública. Antes de se tornar vereadora, já tinha atuação na política institucional, com mais de 10 anos como assessora parlamentar do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), período em que integrou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).


“A candidatura de Marielle foi fruto de força e vontade coletivas. Um dia ela entrou em minha sala e disse para mim que seria candidata. Respondi que ela estava pronta para se candidatar. Falei para ela: ‘voa’. Mari estava no momento certo, amadurecida, preparada. Ela trabalhou comigo desde o meu primeiro dia na Alerj. Fomos nos transformando e amadurecendo juntos no parlamento”, conta Freixo.


Quando assumiu o mandato como parlamentar, Marielle continuou defendendo os direitos das mulheres e da população mais pobre, combatendo o preconceito e a violência na Câmara do Rio. Foi presidente da Comissão da Mulher da Câmara de Vereadores e também relatora de uma comissão composta por quatro parlamentares, que tinha como objetivo monitorar a intervenção militar no Rio de Janeiro.


“Infelizmente, Marielle só se tornou esse símbolo por causa de seu assassinato. Para nós que convivemos com ela, sempre foi uma potência, sempre teve capacidade de representar mulheres, negras e faveladas. Mas seu aparecimento como símbolo ocorre, infelizmente, após sua morte. Aí deixo a minha crítica. Por que o Brasil ou o mundo não conheceram Marielle antes? Acho que no fundo, essa comoção com seu assassinato, passa por um desejo frustrado, uma dor de quem não pode ter conhecido essa mulher incrível quando ela estava viva”, conclui o deputado.

vizinho miliciano.jpg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D