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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

02
Set21

O Brasil de volta

Talis Andrade

 

 

“Que país é esse?
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.”
Legião Urbana – Que país é esse?

Viver no Brasil de hoje exige mais do que paciência e boa vontade. É preciso muita capacidade de abstração para conviver com uma permanente tensão institucional. Há tempos não sabemos o que é tocar a vida sem o risco de uma ruptura nas relações entre os poderes constituídos, mesmo para quem não acredita objetivamente na hipótese de um golpe. O brasileiro vive de sobressalto constante, sem tempo para simplesmente cuidar da sua vida. Aquela normal em que se trabalha, lê, encontra amigos, fala da vida cotidiana, de futebol. Hoje, a regra é acompanhar, entre perplexo e atônito, os inúmeros esgarçamentos entre os poderes, sempre liderados por este Presidente sem nenhuma visão do que é uma República.

Todos nós sabemos que o mundo virou um pandemônio com a crise sanitária. Mas, ao observarmos em outros países o enfrentamento do maior colapso do nosso tempo, constatamos, com muita clareza, que o vírus é o inimigo. As estratégias são todas para enfrentar a pandemia, impedir a morte das pessoas, cuidar da economia, dos empregos, da carestia. Todos os líderes mundiais, ou quase todos, se uniram na tentativa de achar uma saída humanitária para o desastre. Dentro do caos sanitário, as pessoas foram encontrando ar para respirar e soluções para não sucumbirem à tragédia. É assim que os países agem quando se sentem acuados, atacados. Uma união interna que tenta superar o inimigo comum e inevitável. Foi assim que o mundo se posicionou.

Dessa maneira, em meio ao pandemônio, as pessoas tentam encontrar suas fugas para manter a sanidade. Saídas criativas entre governos, empresas e cidadãos furam o bloqueio da depressão com o inevitável fantasma invisível da morte. Um elo de solidariedade se formou entre um enorme número de governos, das mais diversas tendências e das pessoas mais díspares. É como se uma mão imaginária estivesse substituindo o toque afetuoso, o abraço amigo. A vida, mesmo desarranjada, tentava manter uma dignidade para não sucumbir à dor da depressão, a fria lâmina do medo. Em resposta ao desconhecido que essa maldita doença nos traz, há uma maneira digna de mostrar empatia e até amor, mesmo entre aqueles que não eram próximos. E, nessa hora, a presença de governos sérios e responsáveis fez a gente entender o porquê o homem optou por viver em sociedade. Um abraça o outro.

No Brasil, o governo resolveu apostar no caos absoluto. Nem centro meu espanto no negacionismo que deu origem a uma boa parte das 680 mil mortes, nem na opção criminosa por receitar remédios sem fundamentação científica, tudo pelo lucro fruto de corrupção e falcatruas. O que mais me causa indignação é o culto à morte, o desdém cínico com o sofrimento, a provocação desumana com a dor das pessoas, o deboche com a ciência. A barbárie, enfim. Não guarda traço de normalidade a personalidade do Presidente da República. É um homem obscuro, angustiado, profundamente ignorante e inseguro. E mau. Dizer que alguém é mau parece de um maniqueísmo primário, mas, no caso concreto, o Bolsonaro é mau, é perverso, é cruel. A dor do outro parece provocar prazer nele. Não é por acaso que o líder dele é o torturador Ustra. Um animal que gozava com a dor nos outros que ele mesmo provocava com a tortura. Não existe nenhum código de conduta que possa descrever tamanha barbaridade.

Pois esse homem dirige o país nesse momento de profunda crise de saúde e faz questão de aumentar o fosso do desespero da população com uma política perversa e com uma postura acintosamente golpista e desestabilizadora. Ao invés de o país estar concentrado em sair da crise, cada um de nós tem que cavar trincheiras para resistir aos ataques idiotas e inconcebíveis do Presidente da República. É um cidadão que causa asco e que humilha o Brasil diante da comunidade internacional. E é ele a crise permanente. Ele que estica diariamente a corda tênue da estabilidade entre os poderes e que testa a toda hora o Estado democrático de direito. Tivesse poder já teria dado um golpe, mas, como é o comandante e chefe das Forças Armadas, nunca devemos desprezar. Lembrando o nosso eterno Chico Buarque, em Roda-viva:

“ A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a rodas-viva
E carrega o destino pra lá”

Mas o que mais me angustia é o que está sendo feito com o espírito do brasileiro, com os adolescentes, com os trabalhadores. O País deixou de ser um lugar leve e alegre. Mesmo com nossos fossos abissais de desigualdade, o Brasil sabia rir de si próprio e estava sempre na luta com certo humor e ginga. Agora é um país sem luz, onde as notícias de ciência sobre o vírus foram substituídas por notícias de terror sobre o verme. É baixaria, xingamentos sem nenhum pudor, ameaças a pessoas e instituições. Quebra permanente do equilíbrio entre os poderes. Somos uma nau desgovernada. Não bastasse o desemprego assustador, o fato de termos virado chacota internacional, a quebra da autoestima, temos agora que viver sob o pretenso risco da quebra da estabilidade institucional.

É necessário que um Ministro do Supremo escreva brilhante e didático artigo num jornal de grande circulação explicitando as consequências jurídicas se o Presidente atravessar o Rubicão. No alto da sua ignorância, Bolsonaro deve ter entendido camburão. Da mesma maneira, outros Ministros da Suprema Corte se viram na contingência de se posicionarem como que a reafirmar que o Supremo Tribunal manterá a ordem constitucional. Numa democracia, nenhuma demonstração de força ou de normalidade se fazem necessárias. Naturalmente as relações seguem o curso do respeito às instituições. No Brasil de hoje, o óbvio tem que ser dito e repetido. É lembrar
Arnaldo Antunes, na música Comida:

“ Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
…….
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade”.

Por isso, no dia 7 de setembro, deveríamos ficar em casa. Aproveitar o feriado. Ler um bom livro. Assistir a um filme ou simplesmente ficar à toa com a família. Não sair e sequer acompanhar esse bando de neofascistas siderados. Não vamos dar palco para esses golpistas. Nem permitir que eles façam provocações e infiltrem os capangas para provocar tumulto e depredações. Eles estão se armando para uma disputa que não nos interessa. A esta altura, quem ainda sai à rua na defesa desses corrupios assassinos não terá capacidade de qualquer reflexão. Eles se merecem. Deixem eles sozinhos. Vamos cuidar de trazer o Brasil de volta. Não vamos deixar que eles roubem também
nossa alegria e nossa esperança. Um desprezo profundo por eles e pelos movimentos deles deve ser nossa resposta. Contra a violência e a barbárie, vamos mostrar que o Brasil tem jeito e que o nosso jeito é com esse bando isolado. Vamos deixar que, na hora certa, o Judiciário e a polícia se ocupem deles. Como cantou o mágico Lupicínio Rodrigues, em Vingança:

“ O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ele deve estar bem consciente do que praticou
…..,
Mas, enquanto houver força no meu peito
Eu não quero mais nada
É pra todos os santos
Vingança, vingança
Clamar”.

 
 
 
 
18
Nov20

Humilhação de Mariana Ferrer em tribunal brasileiro é destaque na imprensa francesa

Talis Andrade

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Le Monde repercute o caso de Mariana Ferrer com o título “A humilhação de uma vítima de estupro por um advogado provoca indignação no Brasil”. © Reprodução / Le Monde

 

por RFI
 

O jornal Le Monde publicou em sua edição desta terça-feira (17) uma reportagem sobre o caso da influenciadora digital brasileira Mariana Ferrer. O correspondente no Brasil do diário francês relata o tratamento dado à jovem durante o processo contra o homem acusado de tê-la estuprado e a polêmica suscitada pelas denúncias feitas pelo site Intercept Brasil.

Com o título “A humilhação de uma vítima de estupro por um advogado provoca indignação no Brasil”, o texto conta em detalhes o caso de Mariana Ferrer. O jornalista Bruno Meyerfeld relata aos leitores franceses que a história veio à tona após a divulgação de vídeos com momentos do processo em que a jovem é “menosprezada, agredida e humilhada em plena audiência pelo advogado do homem que ela acusa de tê-la estuprado”. As imagens, diz o jornalista, são insuportáveis e deixam apenas duas opções: “encher os olhos de lágrimas ou ter ânsia de vômito”.

Le Monde conta que o vídeo em questão, que teve trechos publicados pelo Intercept Brasil, mostra o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho exibindo fotos da influenciadora de 23 anos, que acusa o empresário André Aranha de tê-la estuprado em uma boate de Santa Catarina durante uma festa ocorrida em 2018. Após pressionar Mariana ao ponto de levá-la aos prantos, o advogado diz que a jovem está “dando showzinho” e pede para a jovem parar com seu "choro dissimulado, falso e essa lábia de crocodilo".

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A jovem implora para ser respeitada e lembra que está na audiência na condição de vítima. O juiz Rudson Marcos se contenta em interromper o advogado apenas para dizer que Mariana pode parar temporariamente a audiência para “se recompor”, descreve Le Monde. As imagens “provocaram uma onda de choque e de indignação no Brasil”, continua o correspondente, lembrando que o acusado saiu inocentado desse processo “controverso”.

A reportagem conta que manifestações de apoio à Mariana foram realizadas em diversos lugares do país e que as reações negativas ao processo vieram de todas as camadas da sociedade, do juiz Gilmar Mendes ao apresentador de televisão Ratinho, passando pela cantora Anitta.

“Estupro culposo”

Le Monde também explica o uso pelo Intercept Brasil da expressão “estupro culposo”. O jornal francês lembra que o termo não consta nas alegações do Ministério Público, nem na sentença do juiz. Mas aponta que, para o Intercept, essa foi uma maneira de chamar a atenção para a violência contra as mulheres e “deu voz a quem sequer sabia como falar”.  

O episódio tem o mérito de abordar o tratamento dado aos casos de estupro pela justiça brasileira, resume Le Monde. Em entrevista ao vespertino francês, Maíra Zapater, professora de Direito Penal na Unifesp, explica que “esse tipo de método misógino, que visa desqualificar a vítima com elementos que não têm relação com o caso, infelizmente é algo corriqueiro no Brasil”.

180 estupros por dia no Brasil

Le Monde conta que um grupo de deputados já prepara um projeto de lei para punir esse tipo de “violência institucional”. O jornal ressalta que existe urgência para que algo seja feito, já que “no Brasil, 66 mil mulheres são estupradas a cada ano, o que representa 180 por dia”.

No entanto, pondera o correspondente, “é difícil imaginar uma melhoria de legislação sob a presidência de Jair Bolsonaro”. Pois, na opinião de Maira Zapater, “com essa onda conservadora, esse tipo de comportamento agressivo e machista durante um processo virou algo normal”. O correspondente do Le Monde conclui lembrando que o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho defendeu, no passado, o “guru da extrema direita, Olavo de Carvalho, e a militante supremacista Sara Winter, ambos muito próximos do clã Bolsonaro”.

 

29
Out20

Vira-latismo brasileiro: de complexo a orgulho

Talis Andrade

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Luís Costa Pinto /Jornalistas pela Democracia


No remoto janeiro de 2019, tão distante quando visto do amontoado de ruínas em que se converteu o País, já se fazia aqui a advertência: a ocupação do Itamaraty pelas tropas do obscurantismo lideradas pelo trevoso Ernesto Araújo, sob o comando ignorante de Jair Bolsonaro, converteria o Brasil numa Nação irrelevante no cenário internacional. “Seremos uma espécie de Filipinas do Leste”, escrevi. “Território e população grandes, povo peculiar, governo autoritário e absoluta irrelevância para o resto do mundo”. Não tardou para que os fatos acontecessem e logo a profecia se concretizasse. 

Inebriados com as próprias mediocridades, bêbados com suas respectivas ignorâncias, Bolsonaro e Araújo passaram a perseguir então a dobrada de meta: transformar o Brasil em Nação pária no planeta. Conseguiram, chegamos lá. O mundo nos olha de esgar, entre o asco e a pena. Se constatam que o interlocutor, brasileiro, é crítico à horda repugnante que está no poder, confessam pena de nosso destino trágico. Caso percebam que há identidade entre o brasileiro que interage com eles e o governo de plantão em Brasília, não escondem o asco.

A Guerra da Vacina, cujas trincheiras internas estão sendo preparadas dentro das instituições, da sociedade civil e na Esplanada dos Ministérios será apenas o evento que dará visibilidade a esse processo desairoso para um povo que já teve autoestima elevada e orgulho de pertencer a uma “Nação do Futuro”. Ficamos pelo meio do caminho, qual cachorro atropelado em rodovia cujo corpo jaz à margem da estrada até apodrecer e ser comido aos poucos pelos vermes ocasionais ou por hienas aproveitadoras.

Em 1950, quando perdemos a Copa do Mundo para o Uruguai em pleno Maracanã, Nélson Rodrigues criou a expressão “complexo de vira-latas” para definir e tentar explicar o trauma nacional advindo com a derrota inesperada por 2 a 1. Seríamos campeões com um mísero empate! Puxados pelo crescimento econômico do pós-guerra, e na esteira da inauguração da Companhia Siderúrgica Nacional, da Fábrica Nacional de Motores e da Petrobrás, começávamos a acreditar que podíamos crescer. Vivíamos sob um regime democrático e o Brasil se preparava para a segunda eleição presidencial depois da queda da ditadura varguista. Vencer o primeiro Mundial conferiria aos brasileiros uma espécie de passaporte para o seleto grupo das Nações autoconfiantes. Mas… perdemos num frango de Barbosa em chute despretensioso de Gighia e sendo obrigados a admirar a liderança caudilhesca do capitão uruguaio, Obdúlio Varela. Estávamos fadados a ser vira-latas. Em 1958, ante os concertos da Seleção Brasileira e diante da realeza de Pelé, Nelson Rodrigues decretava o fim do complexo de vira-latas – movimento reafirmado em 1962, no Chile, e sobretudo com as exibições da Orquestra nos campos do México em 1970.

Agora, sadicamente satisfeitos por nos chamarem de párias da Humanidade (à guisa de razões fundamentadas que nos permitam ter certeza de que eles sabem quais as acepções da palavra ‘pária’), Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo confessam silenciosamente uma espécie de “Orgulho em Ser Vira-Latas”. Sim, minhas senhoras e meus senhores: é isso mesmo. O presidente da República e seu sabujo ministro das Relações Exteriores orgulham-se de representar uma Nação que é o ícone do vira-latismo internacional. O Brasil é visto, lá fora, como um cão sarnento, descarnado, que revira a lata de lixo dos Estados Unidos e se contenta com os ossos de galinha descartados por Donald Trump. É essa a desgraça metafórica de um País outrora tão ávido em dar certo e em surgir para o mundo como uma civilização viável ao Sul do Equador. 

Antes complexo de brasileiros que se criam injustiçados gringos desinteressados em nos dar e mão e nos compreender, o vira-latismo se transformou em orgulho para os admiradores e seguidores de Jair Bolsonaro, esse personagem vil metido no meio de nossa História e determinado a transformar em tragédia nosso destino.

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12
Set20

As cobaias do coronavírus

Talis Andrade

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por Urariano Mota

- - -

Neste 11 de setembro, sei que deveria falar do 11 de setembro de 1973, quando houve o golpe militar contra Salvador Allende. Deveria rever a imagem do presidente Allende resistindo de capacete em último recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Com a foto de Allende, falaria de um socialista democrata que pela força das urnas julgou ter o poder, e foi derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes. Também poderia falar das imagens que correram o mundo nesse golpe, as fogueiras de livros destruídos por soldados do exército nas ruas do Chile.

Mas neste 11 de setembro de 2020 minha atenção vai para novos bárbaros. Começo pelo alerta contra as trevas, que o cientista Miguel Nicolelis esclareceu numa entrevista à BBC Brasil: 

“O negacionismo se propagou rapidamente nos Estados Unidos nos últimos anos, e como sempre nós importamos tudo aquilo que não presta para o Brasil. E agora está assustador porque tem um movimento contra uma vacina que nem existe ainda. Curiosamente, a gente ouviu nos últimos dias o inominável presidente alegar que vacinar é uma coisa espontânea, decisão pessoal se vacinar ou não, isso quando estamos no meio de uma pandemia que daqui a pouco vai matar um milhão de pessoas no mundo.

É assustador, e não se trata só do presidente falando isso, hoje tem até secretário de Saúde, não do governo federal, tem médico falando um absurdo desses”.

cloroquina 7 set desfile militar.jpg

 

E, de fato, no mais recente 7 de setembro, tão à vontade a manada se acha em seus atos e pregação, que afirmaram esta máxima: “ só a cloroquina salva”. (Depois da Bíblia como obra máxima da medicina, é claro). O desenvolvimento da antieducação do caos fascista no Brasil passou do limite do imaginável. É tamanho que pode até não merecer crédito. Falam até em “o lado obscuro das vacinas”, e plantam fake news do gênero “as vacinas, antes de serem injetadas nos pacientes, não são testadas”. Não informo o link no Face da sua escabrosidade para não lhes atrair mais propaganda. Mas acreditem, nada do que passo a contar a seguir é invenção ou fantasia doente de ficcionista. Preparem-se. Segurem o vômito da repulsa ao desconhecimento, porque chegam a divulgar isto com ar de seriedade: 

“Vemos que há um pico em muitos países nos casos de Corona, e isso ocorre porque mais pessoas estão fazendo teste” ( !!!!!!!!) Percebam o primor da lógica. Os antivacinas querem dizer que se há febre é porque um termômetro acusa o grau de calor num paciente. E se há câncer, a culpa é do médico que o diagnosticou. E se alguém chama de racista o espancamento e prisão de pessoas negras, a culpa é dos negros que acham de comprar em ambientes que não deviam. E se são mortos é porque entram na zona de tiro. Mais ainda: se  a humanidade do Brasil ousa chamar o presidente de nazista, a culpa é de quem chama assim um indivíduo de  atos e princípios democráticos. 

“Vacinas causam reações!”, gritam. 

Percebem o grau de fanatismo medieval? Depois que tornaram a Terra uma esfera retangular, ou uma ex-fera plana, agora avançam em hordas com a mais despudorada e agressiva ignorância que já houve na história. Escrevo ignorância, mas tenho que corrigir. A ignorância é uma fase do conhecimento. O ignorante não sabe ainda a sabedoria que há no mundo, desconhece a herança deixada pelos sábios e bravos. Mas não, estes novos bárbaros recuam o conhecimento sabido e universal para o reino do desconhecimento, antes que Deus fizesse a luz. Isso quer dizer, num grito: rasguem, queimem todos os livros e avanços científicos de todos os tempos! Nós não os queremos mais. Derrubem-se as leis científicas e todas as teorias e práticas desses depravados comunistas nas artes, na cultura e na ciência. Queremos caminhar sob a proteção de Deus dos séculos anteriores a Cristo. Ali, sim, teremos de volta o mundo plano, retilíneo, retinho e certinho na fase prévia aos Dez Mandamentos de Moisés.  

O fato é que o “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”, da boca do presidente, se harmonizou como um estímulo nos grupos de antivacina. E um gado imenso, seguidor do líder no Planalto, espalha a desinformação. 

É o que mostra uma recente análise da União Pró-Vacina, grupo formado por instituições ligadas à USP Ribeirão Preto que atua no combate à desinformação sobre vacinas.

O que parecia ser mais uma fala estúpida do presidente recebeu o reforço, no dia seguinte, de peças da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência. Nos principais grupos antivacina do Facebook no Brasil, a repercussão foi instantânea. A análise da União Pró-Vacina mostrou que entre o dia 31 de agosto e as 23h59 do dia 2 de setembro 14 publicações já reverberavam a declaração e as peças de comunicação, totalizando 773 interações, sendo 426 reações, 264 comentários e 83 compartilhamentos.

Por fim, pelo adiantado da hora, ou melhor, pelo atraso da hora, peço desculpas no mesmo passo em que explico o cacófato do título destas linhas. Em “As Cobaias” acima o som é de Asco + Baias. Asco, de repugnância. Baia, de gado. 

 

26
Mai20

Brasil um país de reféns, e o sequestrador está matando

Talis Andrade

 

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II - O Nojo

EL PAÍS
 
- - -
Comecei a sentir náusea diante de qualquer alusão a Bolsonaro. Não o enjoo de quando como um alimento que me faz mal. Mas o enjoo do asco. Sou possuída pelo nojo. Há mulheres que têm essa reação diante do estuprador, quando por alguma razão são obrigadas a vê-lo novamente. Outras pessoas manifestam reação semelhante no convívio com o sequestrador. Outras na presença do torturador. Bolsonaro é tudo isso. Ele tem nos violentado, sequestrado nossa sanidade, nos ameaçado com sua irresponsabilidade deliberada e também nos torturado todos os dias, usando para isso a máquina do Estado.
 

Somos um país de reféns, e o sequestrador está matando. Ele mata quando boicota as ações de combate à covid-19. Ele mata quando dissemina mentiras sobre remédios sem comprovação científica de eficácia. Ele mata quando contradiz a ciência. Ele mata quando diz que a covid-19 é um “resfriadinho”. Ele mata quando afirma que “o vírus não é tudo isso”. Ele mata quando forja a falsa oposição entre se proteger da doença e “salvar” a economia. E ele pode estar matando literalmente quando vai às ruas estimular outras pessoas a ir para as ruas, quando espirra e aperta mãos com seus dedos lambuzados de ranho, quando manipula celulares alheios, quando faz selfies com seus seguidores, quando pega crianças no colo. Ele mata e tenta dar um golpe quando faz tudo isso em manifestações golpistas contra a democracia, contra o Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro mata quando, diante de milhares de brasileiros mortos por covid-19, ele zomba, tripudia e debocha: “E daí?”. Como diz Emicida, “eleja um assassino e espere um genocídio”.

Está acontecendo agora. Neste momento. É grande a possibilidade de que, no futuro, Bolsonaro seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional e seja condenado por crimes contra a humanidade, como aconteceu com outros perversos antes dele. Pelo menos duas denúncias já alcançaram a corte. Mas, quando isso acontecer, será muito tarde. Poderemos estar todos mortos.

O que vamos fazer agora, já? Ou vamos deixar “o homem mau” nos matar a todos? O que, afinal, vamos dizer às crianças que esperam ser protegidas por nós?

Tenho nojo de Bolsonaro. Cada palavra que contorce sua face ao sair da boca é uma palavra violenta. O homem cospe cadáveres. Seus três filhos mais velhos são suas cópias, numeradas, como ele mesmo diz (zeroum, zerodois, zerotrês...), comprovadamente estúpidos como o pai e também perversos, pelo menos um deles claramente rondando a psicopatia. Precisei escrever um livro para compreender como foi possível eleger o pior humano para a presidência do Brasil. E não paro de seguir tentando compreender. Mas, para além de compreender, é preciso impedir. Nossa emergência é barrar Bolsonaro, porque a cada segundo a pilha de cadáveres aumenta. Não são números “os inumeráveis”, são pessoas que alguém amou. (Continua)

 
 
04
Abr20

Ruim com o Mourão, pior...

Talis Andrade

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por Marconi Moura de Lima

- - - 

Acho que não vi (nos estudos de História do Brasil) uma época tão imunda quanto essa. Perdão, por favor, leitor/leitora, perdão pelo uso da expressão: mas está tudo uma desgraça só neste Brasil. “Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come”. 

A Rede Globo lutou muito para apear a presidente Dilma Rousseff da Presidência da República. Juntamente com Band, SBT, Record, Folha de S. Paula, Estadão, Veja e toda a grande mídia; juntamente com os magnatas da dinheirama no Brasil, como os donos da AMBEV, do Bradesco, do Itaú, da Havan, da Riachuelo e tantos mais. Juntamente com as castas mais altas do Poder Judiciário e do Comando Militar, apoiados pelos corruptos seculares do Congresso Nacional, tiraram uma pessoa que não cometeu crime de responsabilidade[1].

Ocorre que a aposta dessa gente egoísta e ambiciosa foi muito alta: chocaram o “ovo da serpente” e retiraram das catacumbas o fascismo histórico, reprimido dentro de algumas almas malditas. O gigante acordou. E este gigante não era o povo legítimo, aquele desdenhado das políticas públicas e oportunidades do País, todavia, o autêntico povo dotado de direitos e construtor efetivo das riquezas do País: os trabalhadores e trabalhadoras. Os hipócritas referidos mais acima, como vemos nos filmes de ficção científica, encubaram um asco, um ser pequenino e insignificante dentro de uma emulsão e tiraram da encubação um Presidente da República. Como um vilão destes que nascem de um cidadão comum feito experiência em laboratório, nasceu o Jair Messias Bolsonaro que está aí, e que jamais seria eleito Presidente do Brasil não fosse o “desespero” da grande mídia, do grande empresariado e das grandes castas em urgentemente encontrar seu bode expiatório para fazer a troca de comando do País e devolver o Brasil à condição colonial que sempre lhes deu muito lucro e muito poder.

Não bastasse a incompetência do homem que nos governa, seu preconceito e crueldade explícitos em palavras de seu palanquinho patético na frente do Palácio da Alvorada e implícitos em tantos atos no Diário Oficial da União, o cara deseja a nossa morte, objetiva e diretamente. E isto talvez tenha sido a grande surpresa para alguns, pois já não sabe mais este “Messias” fingir que é um serviçal oficial da morte.

Gostaria de não me ater neste texto a todos os descasos e desgoverno de Bolsonaro frente a pior pandemia (a COVID-19) destes últimos 100 anos. É que, mesmo que existam tantos brasileiros ainda surdos e cegos cognitivamente, cada ato ou palavra de Bolsonaro frente à pandemia somente piora a situação, tanto de SAÚDE PÚBLICA, quanto da ECONOMIA, ainda mais da SEGURANÇA ALIMENTAR das pessoas. Na pior crise da História da humanidade nos tempos da modernidade tardia, não deveríamos ser comandados por este insano. Como dizem, para além do CORONAVÍRUS, temos o BOLSONAVÍRUS, duas doenças graves para o povo brasileiro na mesma sincronia. Nenhum grande país sofre assim, duplamente.

Daí, vão me perguntar: mas onde entra Hamilton Mourão nessa história? Pois é! Existe um temor (muito correto) dos segmentos progressistas e das pessoas mais lúcidas que pautam as agendas e contra-agendas deste País de que o Mourão é pior que Bolsonaro. Outros, porém, apenas se assustam diante da incógnita que representa esse homem – até poucos dias, um oficial do Exército, sem qualquer expressão mais demorada que a ordem do dia de seu quartel.

Eu também, confesso, guardava alguma cisma significativa frente ao Mourão. Hoje não. Não tanto, quer dizer.  

Ocorre que vamos morrer, se não tirarem urgentemente o Bolsonaro daquele playground que ele criou para si, mas que é o lugar das coisas, o lugar da História de um povo, de sua qualidade de vida, ou ao menos de sua vida. Por estranho que pareça, não imagino Mourão provendo o sentimento de morte da população, um desdenho com as pessoas[2]. 

As variáveis. Bolsonaro somente restou às elites enquanto tentava aprovar as medidas de austeridade, sobretudo, as reformas aos Patrões do Mercado. Ué, Mourão no máximo continuará o que Bolsonaro já está fazendo: acabando com nossos direitos. E é luta. E a luta continua – sendo qualquer um deles. 

Mourão colocará em seus ministérios, pasme, MILITARES. Hãmm! Bolsonaro praticamente loteou todos os órgãos estratégicos com os milicos. Portanto, se é de Ditadura Militar que temos asco, afirmo: ela já está acontecendo. Pior: de forma velada. Somos governados pelos militares – que servem ao Grande Capital e nos matam “na unha”.

Com o Bolsonaro no poder temos uma terceira desvantagem – não menos grave – a considerar: Sérgio Moro. Se esse déspota continuar na Presidência, logo Moro será seu sucessor. Aí, se estava ruim, ficará ainda pior. Moro é o híbrido do que há de pior nesse País. Uma espécie de filhote de cruz-credo: um pedaço dele é da casta judiciária excludente; outro pedaço pertence à mentalidade do Mercado; seus atos são autoritários como os militares saudosos das trevas; e sua hipocrisia se veste dos fundamentalistas, religiosos e não-religiosos. Portanto, é o suprassumo do pior tipo de político, a governar uma nação. Mourão não quererá Moro como sucessor porque Moro é maior que Mourão e “maior” que o Exército. Mas Mourão tem pulso para segurar Moro; Bolsonaro, não!

Ora, se a agenda neoliberal está posta e seguindo de vento em poupa com Bolsonaro; se já estamos numa Ditadura Militar, por que então não deixarmos os caras (aqueles lá de cima) trocarem os personagens e nos prepararmos para fazer a disputa de conteúdo[3] com outro militar, mais inteligente, é verdade, todavia, bem menos popular?

Se é ruim com Mourão, pior será com ele, e bem pior para a população, com Bolsonaro a destruir tudo pela frente como um bêbado dirigindo uma carreta bitrem cheia de produtos químicos altamente inflamáveis. Sugiro, doravante, darmos alguma munição à troca de comando e continuar o enfrentamento noutra trincheira. 

Eu sei que é difícil de cravar esse discurso: contudo, nada pode ser pior que Bolsonaro mais seis meses dentro da Presidência da República.

.........

[1] É bom citar que a História já está cuidando da memória de Dilma, ainda bem, com ela em vida, para apreciar a justiça natural-circunstancial (haja vista a justiça sistêmica ser tão lenta e enviesada). 

[2] Evidentemente que Mourão perseguirá seus adversários (cuidemo-nos), entretanto, o povo comum, não. Terá ao menos o direito de viver.

Quanto a nós, os progressistas e humanistas: a luta – continuada!

 

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