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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

14
Jun21

Poema holandês do início do século 20 sobre elite brasileira vira samba na Europa

Talis Andrade

A sambista carioca Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, também assina a tradução da letra de "Despreocupados" para o português.

A sambista carioca Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, também assina a tradução da letra de "Despreocupados" para o português. © Mario Rocha

A música “Despreocupados” é interpretada pela brasileira Maíra Freitas e pela belga Eléonor. A letra é baseada no poema “Passageiros de Barcos Brasileiros” (“Braziliaanse Kust Passagiers”), do holandês Slauerhoff, escrita no início do século 20 e que retrata o comportamento da elite brasileira em um navio.

A música em ritmo de samba “Geen Van Allen Zorgen” foi lançada inicialmente no ano passado, em holandês, na Bélgica e na Holanda pela cantora Eléonor e pelo produtor e músico Gerry De Mol. Como o poema foi escrito e falava do Brasil, surgiu a ideia de fazer a versão brasileira. Jolan Huygens, empresário e filho da cantora belga Eléonor, assistiu a um show de Maíra Freitas durante uma temporada no Rio de Janeiro em 2018 e propôs o nome da carioca para essa parceria.

“O ritmo é um samba e pensamos que seria legal fazer alguma coisa junto com artistas brasileiros. Fiquei muito impressionado quando ouvi a Maíra pela primeira vez. Ela estava grávida, tinha uma energia incrível, cantou e tocou piano. Uma cantora maravilhosa. Achei que ela seria uma boa parceira e ela topou fazer a tradução do poema e cantar”, lembra o jovem belga, em um português afiado.

A versão brasileira, criada este ano para celebrar o Dia Internacional da Diversidade e do Diálogo Cultural (21 de maio), está disponível nas plataformas digitais desde o final de maio. O autor do poema original, Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936), é um dos poetas holandeses mais importantes do início do século 20. Ele era médico a bordo de navios, admirador de Camões, e fez várias poesias sobre o Brasil, que ele conheceu. Apesar de ter sido escrito há quase um século, “Passageiros de Barcos Brasileiros” é muito atual.

Mesma elite há 500 anos

“O poema fala muito da aristocracia, da burguesia brasileira. É muito atual porque não evoluímos muito nesse sentido de branquitude. A elite hoje não é muito diferente, no século 19, 20. É a mesma há 500 anos, infelizmente”, avalia Maíra Freitas.

Ao fazer a tradução, a carioca fez algumas adaptações para tornar a letra de “Despreocupados” mais contemporânea e canta “esses senhores são ministros/ sempre os mesmos/ velhos golpistas/ tem gente de alta patente/ não tem quem se preocupe com nossa história”.

“Teve uma certa liberdade, claro. É poesia. Eles estão falando de senhores, de ministros — tinha essa palavra no original, e eu coloquei essa coisa dos golpistas que estão aqui até hoje. (...) Fazendo o que querem, ganhando seus dinheiros, arrancando nossas riquezas. Totalmente ‘despreocupados’ (risos) com nossa história, com quem trabalha, com os brasileiros que têm essa história incrível, miscigenada, que não é uma miscigenação boa, mas forçada”, explica. Ela garante que foi um desafio falar “dessa história complexa” justamente para que as pessoas parem e pensem sobre “esse caminho histórico”.

Filha de Martinho da Vila

Pianista de formação clássica, Maíra Freitas tem o samba no sangue. A filha de Martinho da Vila, já cantou e tocou com grandes nomes da música brasileira e agora participa dessa parceira com a belga Eléonor. A gravação foi feita à distância por causa da pandemia.  “Despreocupados” é um samba “fusion” que agrada à jovem cantora.

“Não vou dizer que um samba genuíno brasileiro. O samba é isso, um pouquinho de cada um. Ficou super gostoso de ouvir, de cantar, a melodia, o swing e colocar os instrumentos daqui. Colocaram o nosso tempero. É também o olhar belga, holandês do Brasil, da paisagem sonora brasileira. Tem um pouco da Bélgica/Holanda no ritmo, na melodia. Tem um pouco de brasileiro na melodia, na letra. Essa é a mágica, a beleza da canção”, acredita a sambista.

A percussão de “Despreocupados” é assinada pelos brasileiros Pedro Amparo e Pablo Carvalho. O single já integra algumas listas nas plataformas musicais e a receptividade, tanto na Bélgica quanto no Brasil, está sendo boa. Maíra Freitas e Jolan Huyhens não veem a hora da pandemia ser controlada no Brasil e as fronteiras da Europa reabrirem para viajantes brasileiros, para poder reunir no palco as cantoras carioca e belga interpretando a música.

 

25
Jul20

O infrator, a máscara e a república

Talis Andrade

desembargador ignorante.jpg

O ignorante desembargador Almeida Prado

 

O infrator: “Sabe com que você está falando?”... A lei suprema que organiza as coisas na sua cabeça monárquica

A ignorância tem muitas vestes e peculiar empáfia. Um sujeito, infrator, peita o guarda ligando para seu comandante, dando curso ao clássico “Sabe com que você está falando?”… A lei suprema que organiza as coisas na sua cabeça monárquica.

por Douglas Martins / Jornalistas Livres

O servidor não se intimida, segue sua tarefa, e o infrator aguarda impaciente a hora da vingança. Rapidamente a imprensa apura tratar-se de flagrante de falsa identidade. Havendo título, o caso será de abuso.

Se dizendo desembargador o infrator amarga ressentido a falta de insígnias para humilhar. Autuação concluída, arranca a contrafé, pica e atira os pedaços ao chão, emporcalhando a si, a praia e a cidade que sonha ser apenas sua.

Sem máscara, mentido e sujando, esse é o protagonista de nossa tragédia social. Tem ódio à república e pavor à igualdade. Deseja uma sociedade de castas, organizada entre insultantes e insultados. Lei, só para os subalternos.

O protagonista da cena revela a patologia social de uma ordem construída sem compaixão e solidariedade, sem futuro, nostálgica do passado violento que ainda vive e pulsa forte diante da ameaça republicana.

Infrator é o outro. Pandemia não existe. Dever de limpar a sujeira sem repreender sua origem é a lei suprema. É um constrangimento assistir ao vídeo. Mas a cena apenas documenta o resultado final de uma construção social e a urgência de revertê-la

 

 

22
Jul20

"Carteirada é sintoma de uma cultura que tem aversão ao igualitarismo"

Talis Andrade

benett (1) desembargador sem dor dos mais pobres .

Um dos 360 desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo

desembargadores de são paulo.jpg

 

Em entrevista à DW Brasil, antropólogo Roberto DaMatta aponta que casos de humilhação de fiscais escancaram a persistência de um comportamento aristocrático da sociedade brasileira que remonta à época colonial

 

por João Soares

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Aos 84 anos, o antropólogo Roberto DaMatta nunca foi tão procurado para entrevistas como agora. Sucessivos episódios de "carteiradas” durante a pandemia trouxeram luz a um livro seu escrito há mais de 40 anos, Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. A obra traz um ensaio sobre os sentidos profundos da expressão "você sabe com quem está falando?”.

Foi exatamente a pergunta feita pelo desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, em Santos (SP), ao ser multado por um guarda municipal. O guarda ainda foi chamado de "analfabeto” pelo magistrado, que estava sem máscara, cuja utilização é obrigatória na cidade por um decreto municipal instituído em abril deste ano. A multa é de R$ 100. 

No início de julho, um fiscal que também chamava a atenção para as regras de distanciamento social foi humilhado por um casal no Rio de Janeiro. Na ocasião, uma mulher disse ao fiscal: "Cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você".

"É o sintoma de uma sociedade que tem um padrão de comportamento aristocrático bastante forte”, afirma DaMatta. Em entrevista à DW Brasil, o antropólogo relaciona os fenômenos recentes com as raízes da formação social brasileira.

 

DW Brasil: Os recentes episódios de "carteiradas” lhe surpreenderam de alguma forma?

Roberto DaMattaSobretudo no caso do desembargador, surpreendeu a intensidade da arrogância. Eu me pergunto se isso aconteceria num país como a Alemanha ou outro país democrático. O guarda, que é uma autoridade pública, não está dizendo que ele é ladrão ou o acusando de nada, apenas que use uma máscara na pandemia. O cara apresenta a carteira de desembargador e só falta agredir o guarda, com gestos agressivos.

Felizmente, o guarda teve autocontrole para não fazer nada. Quando ele recebe a multa, rasga, joga no chão e vai embora, antes de telefonar para um amigo que é uma pessoa importante no governo de São Paulo. Nos dois casos, você destitui a pessoa de um papel universal, de cidadão, usado no espaço público, por outro papel. "Quem é você?”. Ele é um engenheiro formado, você não é ninguém. Esse papel de engenheiro formado não tem nada a ver com usar máscara. É o sintoma de uma sociedade que tem um padrão de comportamento aristocrático bastante forte.

Em todas as sociedades humanas, eu preciso saber com quem estou falando, conhecer as pessoas. Mas esse abuso, a tentativa de englobar a autoridade universalista de um guarda civil com um papel social mais sofisticado, que requer mais estudo, é típico de uma sociedade em que todo mundo sabia com quem estava falando. Há um determinado momento em que a sociedade cresceu, e o anonimato aumentou. As cidades modernas se expandiram, e o papel de membro de uma grande cidade começa a se complicar, porque você não conhece as pessoas. Por isso se adotaram as regras da vida burguesa, da cordialidade, de deixar que os mais velhos passem na frente. (Continua)

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